quinta-feira, 31 de julho de 2008

Doha termina como começou

A imprensa oposicionista, provinciana e americanófila como só ela, odeia a gestão agressiva de Celso Amorim no Itamaraty. O malogro da recente Rodada Doha forneceu combustível para mais um episódio de vilanização do ministro. Mas é outra bobagem do noticiário politizado.
Doha é pouco mais que um palco para coreografias negocistas sem pretensões reais. Uma farsa montada para promover a imagem do liberalismo globalizado e ao mesmo tempo mantê-lo sob o controle dos interesses geopolíticos hegemônicos. A rodada já nasceu fracassada e ninguém ali acreditava realmente em algum avanço efetivo.
O multilateralismo incentivador desse tipo de acordo é inviabilizado pelo protecionismo generalizado, especialmente o dos subsídios agrícolas da União Européia e dos EUA, mas também de China e Índia. Todos, repito, são protecionistas. As potências econômicas e os grandes produtores especializados, protegidos por contratos bilaterais vantajosos, jamais cedem centímetros na OMC, mas sabem fazer suas poses e seus discursos emocionados quando conveniente.
Em termos de consequências práticas, Doha é tímida ao nível da insignificância. As negociações versavam sobre miudezas simbólicas, no máximo perceptíveis a longo prazo. É ridículo perder jornadas exaustivas para discutir um teto tarifário convencional (“bound rate”) que não modifica as tarifas efetivamente aplicadas pelos países. Os acordos eventualmente assinados ainda teriam de passar pelos crivos dos Legislativos e Executivos locais, algo impossível, por exemplo, nos EUA e na Índia em plena campanha presidencial.
Nossa diplomacia agiu corretamente desde o início. Percebeu logo a farsa de Doha e a hipocrisia daqueles que a defendem para os jornalistas, mas a destroem na reclusão das negociações. Apostou no multilateralismo e nas soluções negociadas e deixou aos outros o papel de vilão numa tragédia inevitável.

3 comentários:

Anônimo disse...

Guilherme, sempre leio seu blog porque acho sua opinião sempre muita sensata e suas analises me inspiram confiança, coisa de instinto mesmo. Queria fazer uma pergunta para vc que não tem nada a ver com o tema de Doha. Quase uma questão filosófica que vem me atormentando algum tempo. Me considero de esquerda e sempre admirei muito Che Guevara, sua luta, sua dedicação, seus ideais. Acredito no regime cubano, enfim. Mas de um tempo pra cá me interessei pela vida de Ghandi e passei a estudar sua filosofia e seus ideais, o pacifismo, o que acabou me levando a estudar também Martin Luther King. Para resumir o que quero dizer, a esquerda tem um certo preconceito contra esse pacifismo, é só vc dizer que é adepto da não-violencia e ja te chamam de pelego. Como se a única via fosse a luta armada. Não sou totalmente contra a violencia, se pensarmos por exemplo nos aliados contra o nazismo, não consigo enxergar outro meio que não seja a própria violencia para combater a violencia nazista. Mas no mundo de hoje acho cada vez menos cabivel uma luta armada, sem querer julgar Che que na sua época e nas suas circunstancias, talvez fosse o melhor a ser feito. E o regime cubano está ai até hoje, prova que deu certo. Ghandi também obteve exito na sua luta sem pegar em armas, venceu o poder material de forma espiritual. Mas o que vc diria para um jovem no mundo atual, que sofre da falta de utopia, de filosofia de vida, num mundo onde o virtual sobressai diante do real? Não estou dizendo para vc me dar a solução, mas gostaria de saber a sua opinião sobre essa questão de luta armada, pacifismo, filosofia de vida, utopia? Enfim, em que tipo de luta um jovem pode acreditar hoje? As vezes sinto que a minha época é a mais vazia de todas.

Abraço

Felipe

Guilherme Scalzilli disse...

Ótima questão, Felipe. Minha geração também se sentia vivendo numa espécie de lapso histórico, mas depois aprendeu que a eventual falta de perspectivas tinha motivações pessoais e transitórias (esse é um dos temas do meu recente “Crisálida”).
A dicotomia pacifismo versus luta armada está presa aos tempos em que fazia sentido. Che, Luther King, Ghandi e outros líderes de outrora são indissociáveis dos respectivos contextos. Atualmente, salvo em exceções cada vez menos relevantes, o dilema transferiu-se para os domínios do Estado de Direito. Não é mais possível sonhar com uma insurreição popular que derrube governos.
A democracia participativa, apesar de todos os seus defeitos (ou justamente por causa deles), consagrou-se como o ambiente revolucionário possível. Não importa a ideologia político-partidária professada, quem se nega a aceitar essa realidade é hipócrita ou ignorante. Ainda assim, a desobediência civil, o protesto e outras formas de mobilização e manifestação continuam úteis e necessários.
Acredito que vivemos um período histórico muito importante. A experiência de governos de esquerda na América Latina, que antes parecia impossível, derruba tabus e provoca novas concepções programáticas. A ascensão da internet como espaço de livre manifestação do pensamento tende a transformar completamente a produção e a circulação do conhecimento. Eis alguns sinais alvissareiros a comemorar.
Sua participação será sempre bem-vinda. Um abraço do
Guilherme.

Guilhermé disse...

Que a rodada de Dha não teria o acrodo multilateral com fim, isso era mais do que previsto. A grande vitória brasileira foi elevar o país ao papel de protagonista nas relações internacionais. Aliás, a condução do país a este patamar é resultado do trabalho que o Ministério das Relações Exteriores vem desempenhando desde a posse do Presidente Lula. A partir deste posicionamento de destaque o país tem condições de entrar em negociações bilaterais com real poder de êxito, e não de forma subserviente como governos passados. Mas a imprensa nacional mais uma vez segue na contra-mão da opinião internacional que vem sempre enaltecendo a postura brasileira nesse tipo de negociação.

Qto a questão que o anônimo levantou, se interessar:

http://resistenciacarioca.blogspot.com/2008/08/felizes-coincidencias.html