sexta-feira, 17 de julho de 2009

Miguel Torga (1907-95)

Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

2 comentários:

Blog do Morani disse...

18/07/09

O canto não é de terror; o canto é de beleza mais pura que um poeta pode oferecer aos seus leitores. Assim é o canto de Miguel Torga.

Grato, Scalzilli, por essa taça do mais fino champagne poético.

Dias insólitos disse...

Cante como és, cante o canto em cada canto e que o cante se espalhe e se conjugue sendo belo o canto em todos os cantos...