segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Motocaos

O fenômeno da proliferação do transporte urbano em duas rodas precisa ser discutido urgentemente no âmbito mais democrático possível. Isso ainda não ocorreu porque não foi possível dimensionar a catástrofe do trânsito nos grandes centros brasileiros com isenção política, abrangência estatística e recorte histórico suficiente. E às autoridades satisfaz incentivar soluções paliativas para sua própria incompetência gerencial, jogando os problemas maiores para um futuro aterrador, que apenas parece distante.
O prejuízo coletivo causado pelo crescimento da frota de motocicletas possui várias faces. Elas poluem, química e sonoramente, mais do que automóveis. Seus acidentes são extremamente lesivos. Motociclistas profissionais estão sujeitos a uma série de malefícios físicos, muitos dos quais não se manifestam imediatamente (doenças pulmonares e ortopédicas, por exemplo).
Apesar da mitologia publicitária, a agilidade e a praticidade das motos não contribuem para a melhoria do trânsito. O desrespeito de seus condutores às normas é generalizado, colocando em risco vidas e patrimônios, alimentando a insegurança dos demais motoristas e favorecendo toda espécie de atividade ilegal.
Que saída encontrarão os governos das próximas décadas, quando se descobrir o imenso passivo médico originado por milhões de motociclistas precocemente incapazes de trabalhar? As novas e crescentes populações de profissionais que utilizam as duas rodas serão impedidas de circular? Terão seus veículos apreendidos? Quem pagará pelas indenizações resultantes, ou pela reciclagem de toneladas de entulho mecânico sem valor de troca ou uso? Como organizar as vias públicas em metrópoles desprovidas de transporte público e tomadas por enxames de pequenos veículos individuais que fazem suas próprias leis e são virtualmente incontroláveis?
A regulamentação dos mototaxis parece um mau começo para abordar a questão, mas o vácuo jurídico é muito pior. Talvez seja uma boa oportunidade para instituir o debate, antes que assimilemos com naturalidade mais uma tragédia para nosso cotidiano desvalido.

5 comentários:

Miguel disse...

Soluções paliativas = incompentência gerencial. Nem é preciso dizer mais nada. Só lamentar toda essa tragédia urbana, cada vez maior e pior. E quanto às "autoridades", claro, elas não tem nada a ver com isso. Afinal, o Deus de Kaká (aarghh!) é brasileiro, não é mesmo?!

Cibele disse...

Guilherme, quando você pede uma pizza em casa, comodamente, ela vem de moto. Quando você compra um remédio, como ele chega? Pelas mãos de um motociclista. Quando você recebe qualquer coisa em casa, é quase sempre transportada de moto. Olha só o que eu deduzi: seria preciso que a sociedade toda deixasse de comprar por telefone e internet! Porque não podemos, ainda, mandar um sanduíche pelo computador... Infelizmente, a verdade é que os motoqueiros, em grande parte, trabalham para empresas que os pressionam para cumprir horários, metas, etc. É assim. E elas exploram nossas necessidades (reais ou nem tanto). É claro que você tem muita razão em se preocupar, eu só atravesso uma rua depois de verificar se não vem moto. Mas os carros são igualmente odiosos. Todo transporte individual motorizado deveria ser utilizado com moderação, em casos de maior urgência. Eu, de minha parte, só ando de transporte coletivo, a pé e, se tivesse coragem, andaria de bicicleta. Precisamos ACABAR com o comodismo e a lei do menor esforço que regem esta sociedade, só assim TUDO melhoraria! Mas não, é sempre a minoria que toma uma atitude...
Penso assim, sei lá, não há discussão que dê jeito, a não ser que lideranças muito fortes fizessem com que amplos setores da sociedade conseguissem mudar seus hábitos. Parece simplista, mas não é, nossa atitude individual, porém consciente de ser parte de um todo, é muito importante.
Grande abraço e muita força!

Guilherme Scalzilli disse...

Cibele, concordo plenamente que a saída é uma revolução no transporte coletivo, inclusive com proteção para ciclistas e pedestres. Mas, como vemos, as administrações fazem exatamente o contrário: alargam marginais, proíbem ônibus, ignoram os bairros carentes. Quanto às motos, penso apenas que essa discussão precisa ser encarada antes de virar um problema irrecuperável.
Grande abraço e continue participando!
Guilherme

Anônimo disse...

O grande problema foi a escolha rodoviária em vez da ferroviária, vários países grandes como o BR possuem trens de carga e passageiros para todo o território e dentro das cidades como USA, Rússia, Austr, Canadá. Não possuimos montadoras nacionais, os custos de transporte, poluição, acidentes, asfalto(dura muito pouco c/caminhões, são astronômicos.Alguns países acabaram com as montadoras pois poluiam muito, preferem importar carros, outros colocam alto imposto para venda de motos(acidentes), no Brasil o interesse é outro, venda de carro, gasolina, privatização das estradas,caos urbano(político),indústria da segurança, indústria da saúde(milhares de vidas mutiladas) etc.
Carlos Landia

Quênia disse...

Concordo que a sociedade precisa discutir urgentemente esse problema, que tem sido causa de acidentes, violêcias, deficiências físicas e mortes.
Acredito como principal solução a melhoria do transporte público, isso pensado de forma regional, pois devem ser respeitadas as particularidades geograficas.
Quanto as motos, com urgência deveria ser separada uma faixa nas principais vias urbanas para os motociclistas com limites claros de velocidade. É inconcebível que as motos transitem entre os carros como ocorre atualmente.
Não custa lembrar que novas eleições estão chegando, e devemos ver as propostas dos candidatos em todos os setores da administração pública.