segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Pesquisa para quem precisa

Há quem desacredite a pesquisa Datafolha divulgada ontem como farsa produzida em conluio com os artífices da candidatura José Serra. Sei não. Parece que a estão supervalorizando. Não vejo por que suspeitar desse, entre todos os outros levantamentos pré-eleitorais, dotados de maior poder de persuasão e, digamos, “senso de oportunidade”.
A julgar apenas pelo que foi dito, o Datafolha em questão anuncia menos do mesmo, é inodoro e passageiro, quase nulo onde professa atingir. Claro está que a intenção era medir o desgaste de Lula com a desmoralização do PMDB (não houve) e conferir algum embasamento ao delírio Marina Silva (tampouco). As indefinições envolvendo Ciro Gomes e o candidato tucano deixam tudo com ar de especulação de botequim.
Concordando com os desconfiados, nesse universo não existem inocentes. O aparente desleixo da formulação e da apresentação da pesquisa esconde aquilo que seus organizadores julgaram incômodo abordar. Sumiu a intenção espontânea de voto. E mais: sumiu também a projeção do segundo turno. Essa lacuna chama a atenção para um detalhe que passou “despercebido” pelas análises.
Desde o último levantamento (26 a 28/5), Serra perde para a soma dos outros candidatos citados na estimulada, e a diferença vem aumentando. Nenhum dos pretendentes tem afinidade programática ou pessoal com o tucano, pelo contrário. Isso significa, em primeiro lugar, que a possibilidade do governador vencer no primeiro turno vai ficando mais e mais improvável. E também indica que uma migração de votos no segundo turno seria pouco benéfica para Serra.
Pesquisas insossas são úteis apenas para que os comentaristas desenvolvam seus raciocínios tortuosos em cima de subjetividades e desejos inconfessos. Vão pulular os relatos de que o “sinal vermelho acendeu na cúpula” não-sei-de-quem e baboseiras afins. As estatísticas realmente úteis e elucidativas continuarão escondidas nos gabinetes, cujo silêncio ecoa mais do que mil gritos precoces de vitória.

3 comentários:

Tiago Ferreira da Silva disse...

Guilherme,

Também não quero acreditar em nenhuma teoria conspiratória, mas não boto muita confiança nessa pesquisa do Datafolha não.

Além de ser muito cedo para definir algo, pesquisas supérfluas a mais de um ano antes da decisão do voto popular podem soar tendenciosas, o que não causa surpresa vindo da "Folha".

Pode ter certeza que soar tendencioso é tudo que um conglomerado quer. Não há estímulo para surpresas nas urnas; há uma forte elaboração editorial para satisfazer os desejos dos donos dos grandes jornais.

Não é a toa que Serra raramente leva petardos nesses grandes jornais - ele é o arquétipo perfeito para um utópico levante da direita reacionária.

FELIPE DRUMOND disse...

Guilherme,
Delírio Marina Silva? Que qualquer um tenha todas as objeções às alianças estaduais do PV, vá lá. Mas, delírio?
Cumpre lembrar que o Lula só se elegeu (finalmente, depois de várias tentativas) graças ao cenário político da época e graças às alianças que fez. E fez alianças com gente e com partido que antes parecia odiar.
A verdade é que este é um mal necessário no nosso sistema eleitoral.
Agora, cá pra nós, a Marina é uma mulher de muito valor! Inclusive valor que o PT sempre cultivou com fervor. Nessa seara, diga-se de passagem, muito mais valorosa que a Dilma.
Onde estão as manchas em sua biografia? Onde estão as mentiras e as manobras típicas de quem se acostumou e não quer deixar o poder?
Acho que poderia ser uma alternativa muito interessante para aqueles, inclusive, que votaram no Lula esperando uma mudança que, de modo geral, não houve.
Abraços,
Felipe

Guilherme Scalzilli disse...

Felipe,
comento o "delírio" em postagem de hoje. Mas é só para finalizar temporariamente a questão: acho muito cedo para criarmos uma grande celeuma em torno disso. Muito de tudo ainda vai acontecer até as eleições.
Abraços do
Guilherme