segunda-feira, 1 de março de 2010

O esterco ideológico


Publicado no Observatório da Imprensa

Mentes autoritárias poderiam enxergar indícios conspiratórios na edição de 18 de fevereiro do caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo. Afinal, em plena discussão do Projeto de Lei 29, que sofre ataques das operadoras de TVs por assinatura, o caderno publicou três páginas inteiras contendo elogios a elas. O pretexto da iniciativa foi uma crítica do assessor especial de Lula, Marco Aurélio Garcia, que qualificou o conteúdo televisivo importado dos EUA como “esterco cultural”.

Entre os muitos depoimentos coletados pela jornalista Ana Paula Sousa, não há sequer uma ponderação favorável ao ponto de vista do assessor. Apenas um trecho de coluna resume de forma superficial o complexo PL, associado a um suposto dirigismo xenófobo. O resultado é uma matéria inexplicavelmente extensa e laudatória, que beneficia abertamente os adversários da regulamentação. Estes, aliás, anunciantes regulares do jornal.

O idiossincrático Marco Aurélio Garcia é ótimo bode expiatório de causas subitamente libertárias. Qualquer contraponto rasteiro a seu “esterco ideológico” ganha ares de cosmopolitismo esclarecido. O assessor não tinha o direito de fazer “top-top”, em caráter privado, quando a imprensa tentava exercer sua “liberdade” de culpar o governo federal por um acidente aéreo. E quem é esse petista barbudo e preconceituoso para expor suas opiniões? Só um burocrata muito despótico ousa profanar tesouros culturais, que nos ensinam tanto sobre nós mesmos. Ele merecia ser jogado às galés.

Os argumentos utilizados para defender a TV paga são constrangedores. Fala-se em livre-arbítrio numa relação irregular de consumo (venda casada), que impede o assinante de escolher os canais, forçando-o a pagar por pacotes indesejáveis. E pagar muito caro, recebendo imensidões publicitárias que suplantam a da própria TV aberta. Elogia-se a diversidade num universo monoglota, dominado por uma subcultura estadunidense de folhetim, com exibições defasadas e reprisadas exaustivamente. E, absurdo maior, comemora-se a pífia inserção de produções nacionais, relegadas a nichos irrelevantes, enquanto nossos filmes são boicotados no mercado exibidor, controlado pelos mesmos cartéis corporativos da TV por assinatura.

Parece esperto reduzir o debate aos fãs de “Lost” e aos poucos profissionais que desfrutam de espaço “independente” no ramo. Afinal, trata-se mesmo de uma elite com interesses coincidentes. Mas logo parecerá novamente moderno e progressista exigir que o governo financie a sobrevivência da indústria televisiva. Democraticamente, é claro, e com dinheiro público.

5 comentários:

Anônimo disse...

O circo dos horrores se transformou na banalização das tragédias sociais.

Estercos culturais são drogas que evitam protestos em que as pessoas enxerguem o mundo com os olhos da transformação social.

Todos os espertos querem dominar as mentes impondo a sedução dos seus produtos e consolidando formas de perpetuarem-se usufruindo do poder financeiro.

Controlar o povo é poder.
Estamos bombardeados por ilusões estéticas que anestesiam pobrezas de todos os tipos.

Esterco cultural sim !!!!

E esse adubo cria plantas das mais ordinárias em prol do lucro e do controle .

Precisamos vencê-los !!!!

Flavio disse...

Belo Texto Giba!!! Concordo 100% e acho muito triste que amigos de mesa de bar enalteçam este lixo que dado já seria caro, quanto mais pagando o que alguns pagam. Não tenho TV paga mas esta cada vez mais difícil ver TV aberta, pq os barões são donos das duas e a "di gratis" esta cada vez mais voltada para uma categoria de nivel cultural muito baixo (haja vista estarmos na 10!!!! edição do BBB). A TV Cultura, oásis neste mar de lixo e mal gosto, tbém vem sofrendo interveções do governo estadual ,tornando seu conteúdo, ainda bom em relação às outras,pior do que a pouco tempo atrás.
O pior é que muitos chama isto de liberdade.

Gde abraço

Miguel disse...

Bem, pelo menos os 20 comentários publicados na matéria do Observatório da Imprensa são muito mais favoráveis ao Marco Aurélio Garcia. Não que ele seja imune a dizer besteiras, mas nessa questão ele está corretíssimo. Eu não tenho e nem quero TV paga. Para mim, a internet, os dvds e os livros bastam! E ainda leio com certa frequência (e muito senso crítico) a FSP. Abraços cosmopolitas.

Luis Hipolito disse...

Tudo bem Guilherme?

Obrigado pelo comentário esclarecedor e sempre estarei aguardando outros para poder manter-me bem informado sobre o que acontece neste País. Podemos esperar muitas baixarias por parte da oposição, principalmente com o crescimento da Dilma. Gostei da sua postagem sobre o Serra. Li hoje na Carta Maior que o PSDB se encontra numa situação muito difícil, pois o Serra já pensa em empurrar a candidatura para o Aécio, que já desistiu e certamente vai resistir caso ocorra essa hipótese. Acredito que a reeleição de Serra como governador são favas contadas, mas a sua candidatura à Presidência representa um alto risco para ele, inclusive porque na última pesquisa Datafolha foi o candidato com maior índice de rejeição. Vamos aguardar os acontecimentos. Um abraço e sucesso!!!

Anônimo disse...

Ótimo texto!! Concordo com o que dizes e acrescento abaixo.

Escrevi este comentário no blog do marcos dantas (mas ele não autorizou o comentário, então vai aqui):

Querido Marcos Dantas,
Este discurso tem um quê de ditadura. Por quê, em um mundo onde Japão,França,EUA,etc têm conteúdo sendo distribuído por telecomunicação aqui ficaria para trás? É certo que o Brasil é um país onde muitos vão brigar pelo Monpólio da Globo mas isso está fadado a morrer. O próprio povo vai buscar o conteúdo na internet justamente por falta de opção na cultura nacional. Fomentar a indústria nacional também é um caráter interessante para o país, contudo não podemos obrigar as operadoras de telecomunicações ou de tv a cabo ou satélite a COTAS na transmissão. Vc acha que o canal senado deve ser obrigatório ? Legal, vá perguntar pra quem tem TV paga se eles assistem ... É apenas um retrocesso, as operadoras de comunicações que funcionam no brasil devem se alinhar ao resto do mundo. Aprovar a PL-29 sem políticas de cotas, sem obrigações de levar canais SENADO,CAMARA,ETC. Se o governo quer transmitir isso ele próprio deve transmitir! Outro ponto é que o fomento à produção nacional deve ser feito em paralelo e não misturar as coisas. Olhem para os países mais desenvolvidos onde já acontece isso, pergunte se os franceses deixaram de ver TV nacional pelo fato de eles terem mais canais estrangeiros. E por fim, qual o problema em uma concessionaria de estrada oferecer um serviço de transporte mais barato, rápido e legal ? Eu pegaria este bonde sem problema nenhum. Não misture as coisa, uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Indústria de cinema nacional é uma coisa. Cotas no projeto de lei já é oooutra história (mais parecido com autoritarismo).