quarta-feira, 16 de abril de 2008

Eleições diretas para as reitorias

Salta aos olhos a diferença de tratamento conferida pela imprensa às manifestações promovidas em universidades públicas federais e estaduais.
Nas ocupações das reitorias da USP e da Unicamp (estaduais), realizadas no ano passado, os estudantes foram retratados como vândalos imundos e cínicos. Proliferavam imagens de escritórios bagunçados, barbudos seminus fumando cigarros suspeitos, fazendo churrasco, bebendo. Mesmo a ação truculenta da polícia foi ignorada, assim como as perseguições contra os organizadores dos protestos, violando acordos explícitos que antecederam as desocupações.
Agora, quando os protestos visam a UnB e a Unifesp (federais), os alunos se transformaram na infantaria do bom-mocismo. Aparecem bem trajados, sentados em círculos, a debater com seriedade sua lista de ponderadas exigências. Não há menção a qualquer dano provocado pelas ocupações. Vemos apenas seus rostos serenos, votando em assembléias ordeiras, exibindo cartazes. Mesmo sua teimosia em perpetuar os protestos, após terem suas exigências atendidas, soa como coerência revolucionária.
Claro, de um lado estava José Serra e, de outro, encontra-se Lula. A infra-estrutura podre, a insensibilidade das direções, o peleguismo dos quadros funcionais, as mordomias inexplicáveis e, principalmente, a falta de participação dos estudantes nas decisões administrativas são características comuns a qualquer universidade pública do país, quiçá do planeta. Mas a autópsia das entranhas carcomidas das federais é muito mais interessante do que fazer o mesmo com apadrinhados do PSDB paulista.
Já em 1991, quando ingressei na Unicamp, distribuí pelas salas de aula um manifesto sobre a necessidade de haver eleições diretas e paritárias para reitor. Acusava o DCE de estar preocupado apenas com hedonismo e exigências vazias. E apontava que os males da universidade começariam a ser sanados a partir do momento em que o corpo discente pudesse influir nas decisões tomadas pelos burocratas. Ninguém deu a menor bola, evidentemente, muito por causa da pura e simples impossibilidade prática de se instituir aquelas mudanças.
O problema persiste. O PSDB chega ao quarto mandato seguido em São Paulo sem permitir procedimentos eleitorais sérios durante a sucessão dos reitores. Quem manda é o governador, que controla a polícia e o orçamento, empossa secretários, diretores e reitores, e estende seu domínio através dos milhares de cupinchas de gabinete, especializados em ouvir reivindicações, balançar as cabeças, tecer comentários assertivos e esquecer tudo.
A grande imprensa paulista escancara com gosto o cartão corporativo dos reitores federais (cujos gastos são públicos por natureza), mas morre de medo de investigar esses gigantes administrativos que são a USP, a Unicamp e a Unesp, onde proliferam sistemas de apadrinhamento na distribuição de benefícios, bolsas, viagens, cessões de espaço comercial, vantagens em concursos e editais.
As organizações estudantis dessas universidades paulistas demonstrariam habilidade estratégica se aproveitassem o momento e lançassem protestos semelhantes, coordenando as reivindicações com seus colegas das federais. Seria uma mobilização conjunta, a nível nacional, pela instituição do voto direto e paritário para as reitorias. A plataforma é imbatível, se discutida seriamente. A jogada impediria que os alunos das federais fossem usados como inocentes úteis pela mídia partidarizada. E esta, pêga de surpresa, seria constrangida a promover o debate.
Pois é. Onde estão os DCEs, quando mais se precisa deles?

5 comentários:

Vinícius Morais Simões disse...

Antes de tudo gostaria de me apresentar. Meu nome é Vinícius Morais Simões, sou estudante de Ciências Econômicas na Universidade Estadual de Londrina e militante do Movimento Estudantil na mesma Universidade.

Gostaria antes de tudo de dizer que fiquei surpreendido com a sua análise sobre a cobertura da mídia a respeito da Ocupação da UNB. Primeiro por que para o movimento estudantil a Ocupação da UNB representa algo muito semelhante às ocupações das Estaduais Paulistas no começo do ano passado. Na verdade, a julgar pela situação em que já se encontra eu acredito que já representa e irá representar muito mais. Segundo por que nunca deixei de me impressionar com a forma diferente que tem sido feita a cobertura jornalística de uma e de outra, apesar de nunca ter parado para pensar seriamente sobre isso.

Entretanto gostaria de fazer uma crítica.

Apesar da clareza da análise e da ousadia da proposta e sim, fico satisfeito em saber que você já propunha à sua época a discussão, na minha opinião o seu artigo deixa de discutir as razões por detrás do mais interessante, que seria a importância da defesa da representatividade nos conselhos, assim como do voto universal nas eleições para reitor. Verdade seja dita não são nem eleições, e sim são consultas, que isso fique claro. Tenho interesse pelo tema, apreciei o seu artigo, entretanto gostaria de entender por quais vias poderíamos defender tal proposta.

Confesso não ter esclarecimento a esse respeito de como isso poderia ser defendido na universidade pública, diante do seu aspecto tecnocrático. Sou a favor de uma transformação radical da universidade pública, no sentido de buscar condições para que ela possa corresponder da melhor forma possível ao seu papel social, e eu digo a respeito de um papel de transformação mesmo, por que acredito que não devemos nos apoiar em qualquer papel dado.

Daniel Lucas disse...

Olá..meu nome é Daniel Lucas.

Ontem enviei uma email solicitando a colaboração a respeito de uma entrevista.

Estou fazendo uma matéria ref. à China e gostaria de estabelecer um contato.

Liguei na Revista Caros Amigos, mas infelizmente não fui atendido.

Muito obrigado!

daniouljornal@yahoo.com.br

Mateus disse...

Guilherme,

você tem razão ao dizer sobre a diferença do tratamento da mídia em relação às ocupações. Até Arnaldo Jabor falou bem da ocupação da UNB ( http://cbn.globoradio.globo.com/cbn/wma /asx.asp?audio=2008/colunas/jabor_080408.wma ). Mas o fato, em minha opinião, não é simplesmente pq é o PSDB em SP e porque é o PT no gov. Federal. A ocupação nas estaduais ano passado eram contra a pauta da burguesia (e do gov. Serra), pois era contra o corte de verbas e a restrição à autonomia Universitária. Já na ocupação da UNB, o destaque da mídia se dá em torno da corrupção, da "ética com o dinheiro pública", que também é pauta da burguesia e pequena burguesia, pois é a única coisa que seus reprentantes mais fiéis (PSDB/DEM e a imprensa) podem oferecer ao país. eis o pano-de-fundo real da diferença de cobertura da mídia.

Anônimo disse...

Aha, so too it seemed to me.

Laylah Raeder disse...

É só pra provar que essa história não é de hoje, né?
Guilherme, obrigada pela cobertura de notícias que você já fazia bem antes de chegar na situação atual.
Sem dúvida são importantes. Se você tiver qualquer tipo de notícia ou documento relacionado ao magnífico e não se importar em fornecer, ficaria agradecida em receber. Estamos procurando por aí.

Laylah Raeder
aluna de arquitetura e urbanismo do IAU
laylah.raeder@usp.br