quinta-feira, 28 de abril de 2016

“Crise no Brasil”
















Trechos traduzidos do artigo “Crisis in Brazil”, escrito pelo historiador Perry Anderson para o London Review of Books (versão original em inglês aqui)
  
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O país está em uma severa recessão, com o PIB caindo 3,7 % no ano passado e provavelmente a mesma coisa este ano. Por outro lado, o desemprego ainda não atingiu os níveis da França, e muito menos os da Espanha. A inflação é menor do que nos últimos anos ​​de [Fernando Henrique] Cardoso, e as reservas cambiais são superiores. A dívida pública é a metade da Itália, embora, dadas as taxas de juros brasileiras, o custo dos serviços seja muito maior. O déficit fiscal é inferior à média da União Europeia. Todos estes números podem piorar. Ainda assim, até agora, a profundidade do buraco econômico não corresponde ao volume de clamor ideológico a respeito: a oposição partidária de fixação neoliberal tem todo o interesse em exagerar as dificuldades do país. Mas isso dificilmente reduz a escala da crise em que o PT está agora se debatendo, que não é apenas econômica, mas política.

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Delação premiada e encarceramento por tempo indefinido combinam incentivos e intimidações: instrumentos questionáveis na busca da verdade e de justiça, mas legalizados no Brasil. Mas não o vazamento à imprensa de informações, ou de meras suspeitas, a partir de investigações ainda supostamente secretas: isso é claramente ilegal. Na Itália, o vazamento foi regularmente usado pelo grupo de Milão, e seria usado ainda mais amplamente pelo grupo de Curitiba. Desde o início, os vazamentos pareciam seletivos: persistentemente visando o PT, e persistentemente (...) aparecendo na mais violenta aríete de agressão midiática sobre o partido, a revista semanal Veja, que depois de semanas de revelações, nas últimas horas antes da abertura das urnas na eleição presidencial de 2014, publicou uma reportagem de capa com os rostos de Dilma e Lula surgindo de uma meia-luz sinistra, sob a exclamação "Eles sabiam!”, alertando os eleitores para os gênios do crime do petrolão.

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Nesta dramática escalada da crise política, o personagem central tem sido o Judiciário. A noção de que a operação de Moro estava agindo com imparcialidade em Curitiba, inicialmente defensável, ficou arruinada com o teatro gratuito e midiático do seu ataque de madrugada à casa de Lula, seguido de uma mensagem pública saudando as manifestações que exigiam o impeachment de Dilma: “o Brasil está nas ruas”, ele anunciou. “Estou emocionado”. Em seguida, com a publicação de escutas de um telefonema entre Lula e Dilma, horas depois que a escuta deveria ter sido interrompida, ele quebrou a lei duas vezes: violando o sigilo que cobre tais interceptações, mesmo quando permitidas, para não falar da confidencialidade que supostamente protege as comunicações do chefe de estado. Essas ilegalidades foram tão evidentes que provocaram uma repreensão morna de um juiz do Supremo Tribunal Federal. Mas ela não resultou em sanção. Apesar de “inadequado”, seu superior levemente observou, a sua ação tinha alcançado o “efeito desejado”.

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No Brasil, a politização da mais alta magistratura é uma longa tradição. A figura ubuesca de Gilmar Mendes é, talvez, um caso extremo, embora revelador. Como presidente, [Fernando Henrique] Cardoso protegeu seu amigo de processos legais, dando-lhe status ministerial – Mendes agora censura Dilma por fazer isso com Lula – antes de levá-lo para o Supremo Tribunal. Lá, para evitar atenção indesejada, Cardoso se esgueirava para dentro do prédio pela garagem subterrânea, para conversar com ele. Partidário escancarado demais do PSDB (...) até mesmo para Eliane Cantanhêde, uma jornalista alinhada com a direita, Mendes podia ser visto almoçando alegremente com os líderes proeminentes do partido após absolvê-los de crimes, e não hesitou em empregar fundos públicos para inscrever seus subordinados na escola privada de direito que possuía, lucrativamente, enquanto atuava como juiz no mais alto tribunal da nação. Suas diatribes contra o PT são legendárias.

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Lá [no Brasil], os meios de comunicação têm sido monoliticamente partidários na sua hostilidade ao PT e acríticos diante da estratégia de vazamentos e pressões de Curitiba, da qual têm agido como porta-vozes. Brasil possui alguns dos melhores colunistas do mundo, que analisam a crise atual em um nível literário e intelectual muito acima da aridez do Guardian ou do New York Times. Mas essas vozes são em número bem menor do que a floresta de conformistas que ecoam as perspectivas de proprietários de veículos e editores.


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segunda-feira, 25 de abril de 2016

O conspirador bonzinho
























Subproduto do marketing da crise irremediável, a lacuna de um pacificador nacional moldou a narrativa midiática em torno de Michel Temer. Sábio, moderado, arguto negociador, sua imagem foi sendo lapidada para atender às exigências da conspiração desde que o impeachment virou uma espécie de campanha eleitoral indireta.

O primeiro gesto da candidatura foi a carta a Dilma Rousseff, que visou fazer do peemedebista a vítima inocente de um governo que ele sugou o quanto pôde. Incapaz de se apresentar como alternativa, a oposição buscava o testa de ferro (ironia máxima) no seio do próprio governismo. Mas era necessário descolar um do outro.

O segundo ato surgiu no discurso vitorioso antecipando a posse como presidente. Na sua “carta de intenções”, Temer reforçava aquele personagem aglutinador e ponderado que traria de volta a governabilidade. Um personagem acima de tudo poderoso, capaz de cumprir os compromissos firmados na Câmara.

Ambas as peças retóricas compartilharam o estilo cínico e ardiloso de divulgá-las, em vazamentos oportunistas, feitos através da mídia corporativa. Elas também evidenciam que a participação de Temer no golpe foi antiga, calculada e direta, desautorizando as versões de que teria apenas atendido ao chamado da oposição.

Agora surge a exposição machista de sua esposa, contrapondo a personalidade forte de Dilma e aproximando Temer do eleitorado conservador. Dizem que a reportagem de Veja parece dos anos 1950, mas é erro de cronologia: ela pertence mesmo a 1964.

Essa nova etapa do movimento propagandístico destina-se a melhorar a baixíssima aprovação popular de Temer e a reverter a sensação de que a Lava Jato virará uma enorme pizza judicial. No embalo, atrair o PSDB reticente e envolver os senadores no clima de fato consumado.

As tais “pontes para o futuro” do programa peemedebista apenas dissimulam a verdadeira disputa em jogo. Golpes, por definição, dispensam plataformas. O futuro imediato do projeto Temer Presidente exige dissipar a sombra de inconfiabilidade que paira sobre ele desde a repugnante traição política que viabilizou o processo do impeachment.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A cara do impeachment
















O lamentável espetáculo da votação na Câmara evidencia o tipo de legitimidade que os deputados trazem ao impeachment. Então o aval daqueles personagens inclassificáveis serve para afastar a sombra do golpe? Que alívio.

É bobagem argumentar que o governismo também negociou com eles. Vinte a menos, trinta a mais, independente do resultado, a estrutura de apoio à deposição continuaria forjada pela sordidez fisiológica sob comando de Eduardo Cunha e Michel Temer.

Mesmo que se pudesse equivaler as barganhas dos dois lados, a Dilma Rousseff ainda restaria algum respaldo popular. Cunha e Temer não chegam a uma fração desse apoio. Nem o próprio Legislativo, aliás.

Domingo, 17 de abril, marcou a exibição mundial da natureza “democrática” do impeachment. Essa vergonha seus defensores não conseguirão limpar com a mesma facilidade que tiveram para viabilizá-la.

Pois, ao contrário de outras coisas, a verdade histórica não se deixa comprar.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Sobre o desejo do golpe


















No texto “Golpes e Desejos”, Diego Viana afirma que o governismo alimenta um apreço inconfessável pela ideia de golpe, que salvaria sua identidade esquerdista em meio ao fracasso administrativo federal. A hipótese é interessante, mas o autor chega a esse diagnóstico evitando alguns temas que poderiam desautorizá-lo.

O “déficit democrático” que sufoca os pobres e as minorias recebe endosso dos mesmos campos institucionais empenhados no impeachment. Se Viana usasse o fato como ponto de partida, perceberia que a causa governista não fica assim tão distante das demandas populares, apesar de tudo.

Outra evidência ignorada pelo artigo é a obsessão do oposicionismo jurídico-midiático em destruir as chances reeleitorais de Lula. A projeção desejosa afirmada pelo contraponto com a direita não estaria então ligada a um esquerdismo ilusório, mas à memória de uma experiência administrativa bem-sucedida. Gesto que pode ser bastante sóbrio e pragmático, portanto, e não simples delírio coletivo.

Viana parece excessivamente preocupado em basear a crítica ao impeachment numa desqualificação prévia do governo federal e do petismo. Adota, invertido, o vício criticado por ele nos governistas: quem se opõe a Dilma e a seus algozes só pode ser de esquerda. E assim está autorizado a denunciar o golpe.

Talvez por causa desse esforço de identificação, o autor idealiza os “levantes” de 2013, como se uma entidade imaginária autenticamente progressista jogasse o governo ao pólo oposto. A idealização simplifica um fenômeno complexo e multifacetado, que abarcou inclusive facções saudosas do lulismo, além de grupos indignados que engrossariam os protestos pelo impeachment.

Não pretendo inocentar Dilma ou o PT das respectivas incompetências. Tampouco menosprezo os benefícios que as imagens de ambos e de Lula recebem dos métodos rudimentares da oposição. Tendo em vista o nível dos ataques que sofrem, contudo, seria tolice desprezarem a força da memória discursiva do golpe militar de 1964. No mínimo porque ela foi mobilizada pelo antipetismo em primeiro lugar.

De qualquer forma, transformar a vítima em cúmplice potencial da violência é uma premissa perigosa, cujas implicações dispensam comentários. No caso específico, não resta dúvida de que o governismo preferia cruzar os próximos anos em relativa estabilidade, chegando a 2018 sob o signo do retorno saneador de Lula.

Finalmente, é cômodo limitar a abordagem fantasmagórica ao imaginário petista. Ela teria algo bem mais relevante a dizer sobre os setores oposicionistas da militância de esquerda, ora incapazes de fornecer respostas viáveis aos desafios da política real, ora hesitantes em abraçar plataformas incontestáveis por receio de soar adesistas.

No curso dessas oscilações, transparece o desejo de que o golpe aconteça de fato, com imensos prejuízos à democracia, apenas para alguns oportunistas saborearem a derrota do PT. De preferência culpando o partido também pelo retrocesso que seus adversários engendram.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Onde eles estavam quando tudo isso começou?

 














Os grampos ilegais de Sérgio Moro e seus arapongas provocaram uma onda de moderação e zelo na mídia corporativa. Editoriais e artigos correram defender que as investigações da Lava Jato fossem pautadas pela prudência e pelo respeito à legalidade.

Na maioria dos casos, os autores desses textos não passam no teste da coerência: eles apoiaram alegremente a escalada arbitrária de Moro e da Polícia Federal. Foi sua longeva cumplicidade que alimentou o monstro da espionagem criminosa.

Isso fica evidente nas próprias reações aos abusos. Em vez de tratá-los como os crimes que são, os comentaristas usam eufemismos suaves do tipo “deslizes”, “polêmicos”, “trapalhadas”. E, pior, sugerem que não afetam a natureza republicana da Lava Jato.

Os neolegalistas deixaram as coisas chegarem a um ponto irremediável para fingir que o desaprovam. Diante do fato consumado, tratam de limpar suas reputações das manchas que denunciarão os artífices do futuro sombrio que se anuncia.

O último capítulo dessa reforma póstuma de imagem é lamentar que o golpe do impeachment favoreça conspiradores sujos e malvados. Oh, Eduardo Cunha será o vice-presidente! Oh, Temer negocia a própria impunidade! Oh, a Lava Jato vai acabar!

Claro, todos conheciam esses riscos há meses. Chegaram mesmo a dizer que eram criações do governismo aloprado. Agora aparecem repentinamente chocados com as trágicas consequências de uma farsa da qual eles mesmos foram ativos apologistas.

sábado, 9 de abril de 2016

“Last Tango in Paris”


Composição e interpretação de Gato Barbieri (1932-2016). Tema do filme “O último tango em Paris” (Bernardo Bertolucci, 1972).

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A politicagem é o álibi da subconsciência oposicionista
















Publicado no Brasil 247

Os defensores do impeachment passaram meses tentando enquadrar Dilma Rousseff em purismos jurídicos e administrativos. Mesmo forçando a retórica legalista, porém, seus argumentos continuaram parecendo ridículos diante do que ocorre em todas as esferas de gestão pública do país. E não estamos falando de simples “pedaladas”.

As listas possíveis são abundantes. O prefeito de Campinas (SP), por exemplo, tinha um assessor ligado à organização criminosa PCC. Geraldo Alckmin abrigou em seus governos os famosos cartéis metroviários e a máfia das merendas escolares. E o infame Eduardo Cunha, grudado na presidência da Câmara, coleciona suspeitas graves.
           
Enfim, qualquer esforço comparativo desmoraliza o pretexto ético do impeachment. Por isso os oposicionistas tentam justificar a impugnação do mandato de Dilma apenas com o fato da Constituição prever o recurso. Não se trata de golpe, asseguram, já que obedece às normas vigentes e transcorre sob os auspícios do Supremo Tribunal Federal.

Mentira. Pelas normas constitucionais, o afastamento de Dilma só seria legítimo estando provado que ela cometeu crime de responsabilidade. O endosso do STF à deposição se resume a essa exigência. E tudo que os acusadores conseguem com suas interpretações elásticas da lei é realçar a insensatez de aplicá-las seletivamente.
                                                                                
Os sabujos então buscam digerir o obstáculo usando a natureza “política” do escrutínio. Já não importa a falta de provas, de equilíbrio e de coerência: os congressistas ganharam o dom mágico de validar o golpe simplesmente aprovando-o.

O fisiologismo parlamentar dá fachada representativa ao ardil conspiratório, suprindo o vácuo de premissas legais com uma liturgia pseudodemocrática movida a chantagens. A ideia de “justiça” que restou à oposição é um ritual de traições oportunistas encenado por suspeitos de crimes, com o propósito de blindar as respectivas impunidades.

Os adeptos do impeachment transferem às consciências alheias o peso de uma vergonha que eles não conseguiram purgar na reedição das verborragias salvacionistas de 1964. A falta de escrúpulos do Legislativo, sempre tão criticada pelos apologistas do Judiciário, virou o último refúgio do golpismo constrangido.

Só que existe um problema em associar as negociatas dos parlamentares à “normalidade democrática”. Seus defensores têm agora a obrigação moral de aceitar os resultados, mesmo que favoráveis a Dilma. Caso contrário, precisariam negar a própria bandeira republicana que hoje abraçam como álibi para desígnios inconfessáveis.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Golpe F. C.

                                           














Analistas da mídia oposicionista fazem esforço comovente para transformar a deserção do PMDB numa garantia da inevitabilidade do impeachment. Pois estão mentindo. É impossível tecer quaisquer prognósticos sobre o número de parlamentares que de fato votarão pelo afastamento de Dilma Rousseff.

O projeto pode mesmo sair vitorioso, mas não será fácil, nem rápido. Construir um bloco fiel com trezentos e quarenta parlamentares é tarefa para lideranças habilíssimas. Além de superar as incertezas do ano eleitoral, os conspiradores precisam vencer a campanha contra o golpe e a desmoralização de Michel Temer e Eduardo Cunha.

Experientes e bem informados, os colunistas sabem disso tudo. Fingem-se estúpidos para alimentar a expectativa do público, reverberando-a em pressão sobre os candidatos nas disputas municipais. Também querem garantir que a decepção pública anule uma eventual vitória simbólica do governo.

Em vez de agirem com honestidade e profissionalismo, os palpiteiros preferem passar à história como torcedores fanáticos disputando quem berra mais alto.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A PF descontrolada














É tipicamente autoritária a campanha para que a Polícia Federal preserve “autonomia” com a mudança no Ministério da Justiça. Seus apologistas querem que ela continue funcionando segundo as próprias regras, indiferente às demandas da sociedade e às determinações legais.

Ora, o mínimo que se pode exigir da PF é respeito pela hierarquia funcional que a Constituição determina, além de lisura e transparência no exercício de suas atribuições. E já faz algum tempo que a sociedade brasileira não recebe esse mínimo. Desde o início da Lava Jato.

Parte da corporação virou uma espécie de poder paralelo, a serviço de conspiradores e sabe-se lá de que outros interesses. A própria resposta dos policiais às censuras do ministro Eugênio Aragão possui um tom de ameaça que em qualquer democracia do planeta já teria levado a demissões sumárias.

Aragão tem o desafio de lidar administrativamente com um problema que os malfeitores transformaram em político para garantir sua impunidade. Mas o freio momentâneo colocado pelo STF às sandices de Sérgio Moro abriu uma chance para que o ministro siga o mesmo caminho quanto à PF.

Ele pode exigir pelo menos quatro medidas imediatas dos comandados:

1. Esclarecimentos sobre os grampos nos telefonemas entre Dilma Rousseff e Lula;

2. Identificação e punição dos responsáveis pelos vazamentos de informações sigilosas dos inquéritos da Lava Jato;

3. Identificação e punição dos responsáveis pelas escutas clandestinas instaladas nas celas curitibanas da Lava Jato;

4. Punição de agentes e delegados que publicam manifestações político-partidárias nas redes sociais da internet.

Essas providências seguem estritamente as normas jurídicas e estatutárias. E são mesmo obrigatórias, perante a gravidade das suspeitas envolvendo a PF. O fato de parecerem radicais apenas ilustra o nível de permissividade que beneficiou a corporação até agora.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Lula ministro

 

A princípio lamentei a ideia, que me parecia demasiado negativa para a imagem de Lula e temerária do ponto de vista jurídico. Desconfiava também que a oposição queira arrastá-lo para o núcleo governista, abatendo todos juntos numa única investida, com o reforço valioso do Congresso Nacional.

Importante salientar que essa questão jamais envolveu problemas de cunho moral. Lula não é réu, nem sequer indiciado, e tem tanto direito de ser ministro quanto qualquer cidadão do país. Mais até do que muitos parlamentares, governadores, prefeitos e secretários que exercem os cargos mesmo sendo alvos de processos.

Ainda que houvesse aí um dilema ético, o Judiciário tratou de resolvê-lo. A perseguição a Lula virou uma farsa kafkiana, tomada pelo ressentimento, onde as provas e o bom senso ocupam lugar secundário. A tal ponto que o discurso “legalista” só vê o foro privilegiado e ignora os escandalosos desvios legais dos grampos de Sérgio Moro e da Polícia Federal.

Mas o grande aval à ida de Lula para a Casa Civil foi dado pelo próprio desespero em barrá-la. O ex-presidente afinal configura uma ameaça ao golpe liderado por Eduardo Cunha. E, talvez ainda mais importante, pode ganhar aquele papel pacificador que tanto seduziu os oportunistas conspiradores.

Os desvarios do golpismo fizeram do ministério de Lula a trincheira final para a tentativa de destruí-lo. Anularam, portanto, os últimos resquícios técnicos do seu justiciamento, dando-lhe um caráter essencialmente político. Permaneço em dúvida sobre os resultados, mas admito ser a única maneira de tornar a disputa menos desigual.

sexta-feira, 18 de março de 2016

O golpe em curso



Vivemos a culminância do projeto golpista. Os adversários de Lula partiram para o ataque definitivo, com um desespero que ultrapassou o limite da insânia arbitrária.

Sérgio Moro e a Polícia Federal atropelaram as últimas fronteiras da legalidade. A mídia corporativa usa os mesmos subterfúgios de seu apoio ao golpe de 1964 para legitimar a escandalosa ilicitude do grampo e do vazamento. O Congresso prepara a farsa do impeachment sob comando de Eduardo Cunha. Milícias organizadas atacam governistas, com auxílio da Polícia Militar.

Agora só existem duas maneiras de sustar o golpe.

A primeira são as manifestações públicas do antigolpismo. Principalmente nesta sexta-feira (18/3), mas também nos atos setorizados e nos comícios das semanas vindouras. Não se trata de mostrar força resistente, mas de construir gestos simbólicos que rompam a narrativa da unanimidade em torno do assalto ao poder federal.

A segunda, mais decisiva, é constranger a cúpula do Judiciário a se posicionar acerca da arapongagem de Moro e da posse de Lula no ministério. Mesmo com o antipetismo vigente, resta uma chance de as cortes escolherem o caminho legalista, pelo menos para se afastarem do tenebroso legado histórico que a opção inversa acarretaria.

Ambas as iniciativas são complementares. Apenas a rejeição pública ao golpe levará o campo jurídico a incorporar um espírito republicano à altura da gravidade da situação. Ao mesmo tempo, só os tribunais ainda possuem o aval público necessário para conter o ânimo antidemocrático de instituições tão poderosas.

Não será fácil, mas é crucial agir antes que se torne impossível.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Contra a narrativa triunfante do golpe

 

Um evento divulgado em todos os veículos de comunicação, financiado por grandes empresários e favorecido pelas autoridades públicas, precisa reunir quantas pessoas para ser considerado bem-sucedido? Três por cento dos paulistanos é proporção relevante? Um por cento dos cariocas e belo-horizontinos? Fração semelhante do eleitorado nacional?

Cada setor responderá a essas perguntas segundo seus interesses. Mas acho importante contextualizarmos o fenômeno, questionando a imanência positiva e vitoriosa que se tenta construir em torno dele.

Apesar da força de algumas imagens, as manifestações da direita foram até modestas em termos globais. As pretensões grandiosas e o imenso aporte de recursos (talvez inédito em atos públicos no Brasil) deveriam atrair multidões maiores e mais heterogêneas, especialmente nos centros urbanos fora do Sudeste.

Dizer que estes protestos suplantaram os anteriores não explica nada, pois o esforço para insuflá-los foi igualmente redobrado. A coincidência de causa e efeito apenas comprova que o movimento golpista depende de estímulos generosos e que nem eles conseguem romper certas barreiras sociais e regionais.

A narrativa do “sucesso” das manifestações não sobrevive a uma ponderação de custo-benefício. Basta calcular em cotas publicitárias o espaço e o tempo dedicados pela mídia à promoção direta ou indireta das passeatas. E os gastos na infraestrutura utilizada. E o empenho de promotores e juízes para suprir a campanha de conteúdo incitativo. Tudo isso atingiu quais resultados práticos?

Nem o governo cairá tão cedo, nem os corruptos serão condenados, nem a caça a Lula deixará de ser arbitrária e tendenciosa. O máximo que as manifestações conseguiram foi alimentar a sanha fisiológica do PMDB e adiar o pacto pela governabilidade. Ou seria essa a verdadeira intenção dos organizadores?

Claro que não podemos subestimar os novos desfiles do Orgulho Reacionário. Mas eles não representam todas as forças populares mobilizadas e tampouco antecipam o encerramento da disputa em curso. As próximas manifestações da esquerda romperão a narrativa eufórica do golpe e recolocarão as coisas na devida perspectiva.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Vamos falar de corrupção?


















Incapaz de enfrentar comparações entre os governos petistas e seus antecessores, a direita procura deturpá-las com o estigma da corrupção.

Numa apropriação muito sugestiva do slogan lulista, nasce a ladainha do “nunca antes houve tanta safadeza no país”. Afinal, as ilegalidades hoje repudiadas pela sociedade não apenas foram criadas pelo PT, mas atingiram níveis inéditos sob seu comando.

Para desqualificar tamanha bobagem, podemos até excluir os famigerados José Sarney e Fernando Collor do retrospecto. Mesmo restrito aos oito anos de FHC, o precedente escandaloso ultrapassa todos os padrões atuais.

Foi sob administração tucana, por exemplo, que Nestor Cerveró, Delcídio Amaral (então filiado ao PSDB) e outros réus da Lava Jato iniciaram suas articulações diretivas na Petrobras. Uma única transação suspeita, de 2002, teria rendido R$ 100 milhões em propinas. Esse aporte parece modesto, porém, diante da dinheirama que lubrificou as verdadeiras ladroagens da época.

O viciado contrato do Sistema de Vigilância da Amazônia custou US$ 1,4 bilhão ao erário. O socorro a bancos falimentares, que envolveu aliados de ACM e subornos a deputados da base (citados na “pasta rosa”), levou mais de R$ 13 bilhões (o dobro do caso Petrobrás atual). As fraudes na Sudam e na Sudene atingiram R$ 17 bilhões. A quadrilha dos precatórios do Departamento de Estradas de Rodagem desviou cerca de R$ 130 milhões.

Mas nenhum desses absurdos bilionários se equipara ao dano financeiro causado pelas privatizações do período: Companhia Vale do Rio Doce, Embratel, Companhia Siderúrgica Nacional, Sistema Telebrás, Embraer, etc. As jogadas para viabilizar os esquemas (injeção prévia de recursos, financiamentos com verbas públicas e moedas “podres”, valores deixados em caixa, dívidas perdoadas) chegaram a R$ 88 bilhões.

Quase todos os casos foram ignorados pelo então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, com uma regularidade e um despudor que lhe renderam a carinhosa alcunha de “engavetador-geral”. Basta saber que mais de 450 inquéritos foram engavetados ou arquivados pela PGR até 2001, inclusive contra 11 ministros e o próprio FHC. Hoje parece absurdo, não é mesmo?

Eis a diferença entre os escândalos de FHC e de Lula-Dilma: até 2003, o Judiciário nunca ousou averiguar, menos ainda punir, as falcatruas envolvendo o PSDB. E continuou seletivo depois, no seu surto de moralismo antipetista.
           
Portanto, os desvios não eram menores no passado; eles apenas gozavam da tolerância das cortes e do silêncio da mídia corporativa. E são essas as fontes atuais da narrativa ultracorrupta dos governos petistas.

terça-feira, 8 de março de 2016

A caça a Lula virou campanha publicitária

















Publicado no Brasil 247

Causou ampla estranheza a maneira precipitada e ilegal com que o ataque a Lula foi executado. Por que encenar aquele ridículo teatro de guerra, escancarando as irregularidades da ação? Por que não prenderam o petista de uma vez, já que as suspeitas contra ele supostamente justificavam a própria iniciativa de acossá-lo?

Existiu um fator oportunista na origem do abuso. A Polícia Federal quis reagir à troca do ministro da Justiça. Os procuradores temiam o julgamento do STF sobre seus limites. A Rede Globo precisava de um factóide para reverter a desmoralização inédita, sintomaticamente agravada pela torcida corintiana. E todos estão unidos na propaganda das manifestações golpistas, que andaram meio desmoralizadas.

O fato é que Sérgio Moro, cedendo às urgências dos aliados, evidenciou a fragilidade dos elementos acusatórios contra Lula. Naquelas circunstâncias, o mais leve indício de culpa lhe teria rendido um mandado de prisão, no mínimo para salvar a imagem da pantomima policialesca. Um réu potencial jamais ganharia visibilidade gratuita na mídia e a chance de se apresentar como vítima de perseguição.

A repercussão negativa do episódio marca uma nova etapa do conluio institucional que se esconde sob o rótulo de “operação Lava Jato”. Agora, se Lula não for condenado, alcançará uma vitória de efeitos eleitorais inevitáveis. A caça ao petista se transforma então num fenômeno essencialmente midiático, onde a falta de provas ocupará lugar secundário, mera demonstração de habilidade para o ardil criminoso.

Trata-se de minar a imagem do ex-presidente, convencendo a opinião pública, e as cortes em particular, de que puni-lo é um dever cívico e republicano. Uma questão de crença, portanto, e não de rigor técnico. Chamar os advogados de Lula de “a sua defesa”, como se ele respondesse a algum processo, constitui exemplo trivial da artimanha no meio jornalístico, de resto escancarada pelo tom emotivo dos noticiários.

É fácil perceber a força dessa narrativa. Em diversas esferas de discussão equilibrada já aparecem lamentos sobre a índole corrupta de Lula, sem quaisquer dados factuais que a comprovem. Pedalinhos e palestras podem não colar, mas a aura delituosa permanece: “não sei por que Lula deve ser preso, mas ele certamente sabe”.

Concentra-se aí o novo foco estratégico dos golpistas. Já indiferentes às paixões das ruas, eles precisam garantir apoio ao ritual sacrificatório de Lula, que virou uma questão de honra para os acusadores. O deslize afoito de Moro ecoou mal nos setores moderados do campo jurídico, sem afinidades com a esquerda mas sensíveis a infrações e hipocrisias. Esse é o público-alvo do massacre publicitário que se inicia.