segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Pandemia negacionista



Negacionismo significa refutar o irrefutável. Não se restringe a violências e desastres naturais, tampouco aos círculos fascistas. Atinge as melhores famílias. E é exatamente a disseminação da patologia, nas mais diversas molduras discursivas, que singulariza a catástrofe brasileira.

Estatísticas, documentos auditados e textos legais provam que a Lava Jato cometeu delitos que elegeram Jair Bolsonaro. Não há margem racional para questionar a suspeição de Sérgio Moro nos processos contra Lula. Pois boa parte dos humanistas que chamam o presidente de genocida vê míseros “deslizes” na conspiração orquestrada por Moro. Aceita suas escusas.

Enquanto investiga a existência de ONGs incendiárias e bois bombeiros, a patrulha da objetividade adota convicções para a culpa de Lula. Os inimigos de “fake news”, implacáveis verificadores de currículos, palpites e estatísticas, jamais checaram a sentença de Moro. Não ousam falar em verdades e mentiras quando elas afetam eleições presidenciais.

Então disseminam-se as narrativas, em polarizações ociosas sobre a obviedade do óbvio. Num flanco, charlatões tornam “controverso” o aquecimento global. Noutro, chamam de “rigorosa” a decisão espúria do TRF-4 e de “positiva” a herança da Lava Jato. Na falsa equivalência entre opiniões sensatas e grotescas, o meio-termo gera um relativismo absoluto de hospício.

A cloroquina dos mitômanos solidários é o estado democrático de Direito. Menosprezando a “gripezinha” ditatorial, afirmam que as instituições resistem, pois são probas e saudáveis. O STF avalizou abusos explícitos que puseram um fascista na Presidência, mas salva o país do ataque imaginário que ele só ameaça. A vacina venenosa vai curar o paciente moribundo.

Os pessimistas da bolha naturalizam o retrocesso, como faz o bolsonarismo com a doença. Lula não passa de uma entre milhares de vítimas habituais do Judiciário. Ninguém está acima (dos abusos) da Lei. Se os direitos morrem diariamente, de causas numerosas e triviais, não há motivo para comoções quando eles sucumbem no privilégio de uma cela confortável e segura.

Indo na mesma linha generalizante, as teorias apocalípticas sobre a barbárie contemporânea diluem os atos de indivíduos notórios numa coletividade zumbi sem rostos nem culpas. Foram as engrenagens ardilosas do inimigo oculto que elegeram Bolsonaro, não simplesmente a armação judicial que desmoralizou, prendeu e censurou seu maior adversário.

Os negacionismos em voga não se espelham nos prejuízos que acarretam, e sim na covardia. Desde cedo esteve claro que a Cruzada Anticorrupção carregava um germe fascista. Moro passou anos sendo tratado como herói. Hoje, diante dos escândalos incontornáveis, seus fãs imitam Bolsonaro diante do morticínio: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”

Esse conformismo retórico é falacioso. Basta aplicar a Moro os mesmos critérios usados nas críticas a bolsonaristas. Enunciar as verdades sobre a prisão de Lula que independem de sua defesa, sem volteios eufemísticos ou elogios compensadores. Ligar os pontos até as eleições e classificar os seus resultados no mais científico rigor possível. Nomear as coisas como são.

Destruições e genocídios pertencem ao mesmo universo factual do golpe que fez o governo Bolsonaro ilegítimo e a Lava Jato um instrumento do avanço fascista. Em todos os casos, omitir a realidade é estratégia neutralizadora, uma performance de cegueira generalizada que normalize moralmente a inação. Nessa harmonia de farisaísmos o país ignora sua tragédia. 

domingo, 20 de setembro de 2020

Lucidez


O pensamento estrelado.
Os olhos brilhando a pino.
Cara limpa de ver no âmago
os mosaicos dos ladrilhos.

Nas artérias cataratas
polindo leito impoluto.
No hálito o aroma nulo
da mais alva gargalhada.

A voz de polpa salubre,
agridoce, rara e amena,
ao sabor dos devaneios.

Corpo devindo certeza.
Crença tecendo o milagre
de restar em harmonia.


Poema de “Estuário” (Editora Patuá, 2018)


quinta-feira, 16 de julho de 2020

O que pretendem esses manifestos?




A ideia de resguardar a democracia brasileira contra Jair Bolsonaro possui viés negacionista. Para haver normalidade institucional sob ameaça, ela precisa ter sobrevivido aos arbítrios da Lava Jato. Ou o estado de Direito permite conspirações de agentes públicos para eleger um fascista, ou não vivemos nesse regime desde pelo menos 2016.

Faz diferença tratar a deposição de Bolsonaro como rito expiatório do golpismo arrependido ou como símbolo corretivo das manobras inconstitucionais que o puseram no cargo. Está em jogo a naturalização do fascismo. O endosso tácito a um sistema, dito “democrático”, no qual procuradores, magistrados, congressistas e militares atuam abertamente a favor do genocida.

O recalque do golpe deve muito ao fetiche sadomasoquista que a imprensa cultiva com os blefes presidenciais. Perigos hipotéticos, jamais realizados, eternizam a vitimização mútua que legitima os parceiros desse intercâmbio agressivo. Sua performance verborrágica esconde a harmonia recente dos arquitetos do fascismo com os veículos de comunicação.

Diante do que sabemos acerca da eleição de Bolsonaro, divulgar quimeras doutrinárias beira a covardia. Qualquer bolsonarista escolarizado repete chavões cívicos e apelos humanitários. É fácil repudiar a figura asquerosa do presidente. Esses mínimos denominadores comuns traçam um campo moral, não político. Buscam a conversão de fiéis em vez de medidas práticas.

A urgente deposição de Bolsonaro ultrapassa a esfera do merecido castigo pessoal. Ninguém confrontou a ditadura pedindo a domesticação do tirano ou a troca de um fardado por outro. A plataforma sufragista implicava o fim do regime, não a sua continuidade com civis biônicos. A admissão do golpe era requisito fundamental da bandeira democrática.

Se realmente quisessem promovê-la, os manifestos abordariam as ilegalidades que levaram o fascismo ao poder. Antes que a podridão da Lava Jato virasse trunfo certo para Bolsonaro, denunciariam a simbiose original de ambos e a resultante natureza ilegítima do governo. Jamais criariam uma agenda que se confundisse com a de Sérgio Moro.

Essa afinidade perpassa a ideologia conservadora do “frenteamplismo”. Seu ideal resistente limita-se a garantir que o Regime de Exceção sobreviva a Bolsonaro. A demagogia altruísta substitui o discurso justiceiro com o mesmo rancor antipolítico. A doença, eterna metáfora da corrupção, aproxima as mitologias de neutralidade dos respectivos combatentes.

O mote “é hora de esquecermos nossas diferenças” revela o espírito da patrulha conciliadora: pedagogia autoritária, amnésia edificante, abandono de princípios. Mínimo valor pragmático, nenhuma reciprocidade. A obsessão gregária dos confinados posta a serviço do antipetismo. Autoanistia preventiva, outorgada em nome do sofrimento alheio. Perdão sem justiça.

Apesar das responsabilidades de tribunais, governadores e prefeitos na tragédia sanitária, faz sentido usá-la para uma união em torno do impeachment presidencial. Mas o mínimo que se espera de quem repudia Bolsonaro por suas ameaças à constitucionalidade é mencionar os delitos antidemocráticos, bastante documentados, que nos legaram a tarefa de afastá-lo.

Caindo na armadilha adesista, a esquerda se compromete com essas pautas deliberadamente vulneráveis. Um toque de moderação nas atitudes de Bolsonaro e a democracia estará salva. Ou basta apanhá-lo numa das tramas policialescas do STF e da Lava Jato. Primeiro tiramos o capitão, redimindo seus asseclas. Depois comemoramos a liberdade de escrever manifestos.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O idílio do salvacionismo judicial



A celeuma provocada pela saída de Sérgio Moro do governo Bolsonaro criou expectativas falsas sobre o papel do Judiciário, em particular do STF, na eventual deposição do presidente. Não que reste dúvida acerca da índole criminosa do suspeito. Acontece que os tribunais não podem fazer o que se espera deles, nem estão dispostos a fazer o que deveriam.

Na seara do crime comum, pouco importam as obscenidades de Bolsonaro. Do desejo nefasto à prática delituosa há enorme distância. Para não cometer adivinhação, o STF depende de inquéritos alheios sobre os atos originais (homicídios, calúnias, “rachadinhas”, etc.), onde fiquem provadas as culpas de mandantes e cúmplices, inclusive, talvez, na Polícia Federal.

Já se os ilícitos residem nas ameaças de Bolsonaro aos princípios constitucionais, seriam crimes de responsabilidade, matéria de alçada legislativa. Os magistrados limitam-se a autorizar ritos e pedir providências. A corrupção fisiológica do Congresso não justifica o STF atuar como fiscal do Executivo. Essa tarefa, no rigor doutrinário, não lhe cabe.

Percebendo que trâmites e prerrogativas podem favorecer Bolsonaro, a demanda por atitudes saneadoras dos tribunais adota convicções. Esse novo “malufismo punitivista” aplaude medidas que, embora discutíveis, tenham nobres finalidades. Mas só a parte discutível se realiza. Os objetivos que a legitimam permanecem distantes, pedindo sempre novos abusos.

Levada às últimas coerências, a criminalização de bravatas deveria impedir Bolsonaro de nomear quem quer que fosse. Ridicularizando uma doença mortal em plena pandemia, ele não está apto a escolher ministros da Saúde. O mesmo vale para a Educação, depois de seus ataques à pesquisa acadêmica. Os pretextos intervencionistas renderiam páginas.

O raciocínio parece quimérico, mas já foi aceito no próprio STF. Em 2016, ludibriado pelos conspiradores da Lava Jato, o tribunal vetou a nomeação de Lula para ministro. Com base em gravações ilegais, alavancou um golpe parlamentar escandalosamente corrupto e permitiu uma tramoia clandestina que tirou da disputa eleitoral o maior antagonista de Bolsonaro.

Diante daquela postura expedita do STF de outrora, sobressai a péssima relação de custo e benefício de suas medidas polêmicas e ineficazes que hoje estariam impondo “freios” ao fascismo. Não faz diferença um amigo do amigo dirigir a PF. Ninguém obrigará Bolsonaro a entregar o aparelho telefônico. Duvido que a tal reunião gere ao menos um processo viável.

O STF afrontou a Constituição para depor Dilma Rousseff e manter Lula preso, mas se limita a causar aborrecimentos burocráticos a um governo fascista numa crise humanitária. Finge cercar Bolsonaro usando como referência alguém que cometeu ilícitos para elegê-lo. Em vez de combater o despotismo, provoca-o. Denuncia a ameaça de um golpe que ocorreu há anos.

Para além de performances inócuas de poder e bravatas redundantes, o messianismo judicial não passa de uma guerra vingativa entre facções de Moro e Bolsonaro que dominam gabinetes e delegacias. Tolerados em nome da ilusão que gerou a catástrofe, os pequenos deslizes do STF garantem a impunidade do bolsonarismo arrependido e naturalizam seus métodos.

Fosse imparcial em seu viés moralista e punitivo, o STF trataria Bolsonaro como tratou Dilma e Lula. Estivesse arrependido daquele erro, puniria Sérgio Moro por induzi-lo. O meio-termo é a conciliação que perpetuará o fascismo através da lavanderia midiática de reputações. Não existe lado aceitável na disputa entre o genocida e o Regime de Exceção que o pariu.

terça-feira, 31 de março de 2020

Vírus oportunistas



As autoridades federais esperaram semanas para constatar a proliferação do coronavírus, algo que aconteceria justamente se elas esperassem. Alertadas por exemplos alheios, podendo impedir a sua repetição, preferiram a saída mais traumática e letal. Nesse ínterim, o presidente da República fazia piada com os riscos e incentivava o contágio.

Não houve incompetência, mas cálculo político-administrativo: disseminar imediatamente a doença para que o país volte logo à “normalidade” financeira, ainda que isso cause milhares de mortes evitáveis. O pânico também desmobiliza os indivíduos, sufoca pautas escandalosas e reivindicatórias, gera medidas repressivas e esconde o fracasso das reformas neoliberais.

O figurino patético embeleza o ogro fascista. Jair Bolsonaro interpreta o anti-herói renascido, lutando contra um inimigo sem bandeira, que não lhe causa embaraços morais e que, afinal, acabará derrotado. O rebelde antipolítico deixará estados e municípios à míngua, culpando-os pela recessão e usando sua eficácia para reiterar o discurso da gripezinha inofensiva.

As cúpulas empresariais, judiciárias e religiosas do bolsonarismo compartilham os objetivos do presidente, mas não a sua demência. Esferas bem informadas e pragmáticas, antevêem as consequências da aventura e se preparam para atender à sede vingativa da turba. Enquanto Bolso Nero segue conselhos incendiários, seus mentores o encharcam de combustível.

A participação da mídia corporativa nessa fritura é sintomática. Os veículos demonizam o presidente, mas poupam seus aliados e ministros. Ensinam cuidados inacessíveis à maioria dos cidadãos e responsabilizam os pobres pelo contágio, como se eles saíssem de casa por livre e empreendedora vontade. E os porta-vozes do Estado mínimo reclamam ajuda estatal.

Eis a dinâmica dos negacionismos em voga. Também a doença bolsonarista recebeu apoio de incautos e teve seus sintomas normalizados, até que não houvesse remédio. Os arrependidos acordaram tarde, para encontrar as vias democráticas interditadas, restando apenas a grande amnésia conciliadora sob os auspícios da direita. As panelas batucam de alívio.

Congresso e Judiciário parecem “resistir” ao lunático, mas de fato o aproveitam para legitimar suas próprias relevâncias, num sistema de pesos e contrapesos que opõe o tenebroso ao abjeto, a ditadura ao Regime de Exceção. Com paliativos tardios, remendos indecentes e lições civilizatórias hipócritas, naturalizam o pesadelo humano, econômico e social que se avizinha.

Bolsonaro segue no cargo porque engendra a catástrofe. Ela garante a receita dos comparsas, a bravura dos adversários e a reunificação do fascismo em sua nova cruzada salvacionista. Quando Sérgio Moro desfilar de blindado, zelando pelo toque de recolher, aqueles que ajudaram a piorar o contágio defenderão o confinamento absoluto, inclusive na campanha eleitoral, claro, para não piorar o contágio. Mas Luciano Huck poderá distribuir donativos.

Antes que o país fique polarizado entre doentes que sobreviveram e “privilegiados” que se resguardaram, com seus óbvios efeitos ideológicos, é necessário resistir à despolitização dos debates. Evitar que o “fique em casa” vire uma performance anódina do conforto civilizado, espécie de inversão desagregadora, apocalíptica e narcisista do “vem pra rua”.

Basta de humanismos apartidários e solidariedades passivas. A falsa isenção dos patrulheiros morais nunca passou de uma covarde tolerância com o fascismo. A fase do desprendimento republicano acabou na consumação do golpe judicial que pôs um genocida na Presidência, lançando o curso histórico que hoje leva à matança de vulneráveis. A culpa não é apenas de Bolsonaro. É de todos que um dia o consideraram aceitável. Todos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Pós-democracia



A cada ataque mais veemente do arbítrio, surgem novos textos opinativos reafirmando a saúde da democracia brasileira. As instituições funcionam, as liberdades sobrevivem, há eleições. Os vaticínios catastróficos da esquerda falharam. O governo de Jair Bolsonaro pode ser medíocre, mas segue os padrões do estado de Direito.

Essas afirmações dependem de significados muito convenientes de “ditadura” e “fascismo”, baseados no Brasil de 1964 ou em referências estrangeiras de um século atrás. Também reduzem a ideia de democracia a um conjunto de ritos e estruturas burocráticas que pouco significam sozinhos. Os despotismos atuais, tão criticados, usam as mesmas desculpas.

As eleições passadas transcorreram nos escombros de um golpe parlamentar. Seu fracasso vergonhoso estigmatizou ainda mais a classe política, fortalecendo a agenda revolucionária do bolsonarismo. Nesse ambiente, o apoio midiático à Lava Jato virou uma campanha maciça a favor da ideologia anticorrupção, com óbvios efeitos persuasivos sobre o eleitorado.

A disputa vencida por Bolsonaro foi tudo, menos democrática. Sua campanha beneficiou-se de um episódio policial suspeito, espalhou ameaças, agrediu oponentes e cometeu crimes eleitorais em escala inédita. Empresas e órgãos públicos engajaram funcionários na militância bolsonarista. Comícios de estudantes foram impedidos, a propaganda petista censurada.

Mas nada supera a conspiração judicial que tirou da disputa o favorito das pesquisas, julgando seu caso em tempo recorde, condenando-o por “crime indeterminado”. Promotores federais armaram conchavos clandestinos com veículos de comunicação e grupos de militantes para incentivar o voto em Bolsonaro. Enquanto perseguiam seus opositores.

A tentativa de criminalização do jornalista que revelou esses escândalos mostra o nível de cidadania vigente. Outro “caso isolado”, de tantos que já parecem habituais: manifestações pacíficas oprimidas, vídeos e textos proibidos, apologias oficiais ao nazismo, execuções e atentados impunes, a inviabilização do trabalho de artistas e acadêmicos.

São as instituições em pleno funcionamento. Os Poderes divergem no máximo entre círculos hipócritas e raivosos, uns dissimulando a perenização da inconstitucionalidade, outros vazios de quaisquer escrúpulos. Legislativo, Judiciário e Executivo se equilibram numa luta por hegemonia, ávidos para imporem suas respectivas agendas antipopulares e despóticas.

Esse “normal” é o fato consumado, que os negacionistas tratam como a ameaça perpétua de si mesmo. Os sintomas bastam para conhecermos tanto a doença quanto o antídoto democrático que deveria preveni-la. Um Bolsonaro não chega ao Planalto sem que algo tenha se perdido no trajeto, algo cuja ausência nenhuma fantasia resistente conseguirá suprir.

Revela-se aí o custo da aventura irresponsável que unificou a direita brasileira pela destruição sistemática do lulismo. Não importa a lisura do objetivo. Os métodos foram (ou precisaram ser) ilícitos, e assim passaram a definir a natureza do resultado. O Regime de Exceção é indissociável da tirania de milicianos que ele ajudou a materializar.

A ausência de rupturas drásticas significa apenas que elas se tornaram desnecessárias. Uma imprensa que naturaliza a tramoia eleitoral da Lava Jato não irrita os censores. Um STF que ignora a suspeição de Sérgio Moro dispensa baionetas. As polícias garantem o silêncio das ruas, enquanto o império da pós-mentira performa sua liberdade de hospício.

O fascismo jamais destruirá as fontes institucionais de sua obscena legitimação.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A conciliação perpetuará o fascismo



A direita gosta de ver Lula prometendo uma candidatura que se destrói com meia-dúzia de canetadas amigas. O incômodo surge quando ele ameaça expandir essa perspectiva, abraçando uma agenda democrática que inclua sua elegibilidade em tópicos de interesse geral. Então os ideólogos da pacificação vêm negar-lhe o direito de falar em nome da boa causa.

Romper esse bloqueio tornou-se uma obrigação moral e estratégica do lulismo. Se Lula causa embaraço, é porque suas manifestações iluminam a natureza judicial do fascismo e o endosso hipócrita que este recebe dos apoiadores da Lava Jato. A pecha da radicalização estigmatiza o diagnóstico mais óbvio da conjuntura brasileira e impõe uma via suicida à luta oposicionista.

Seria indecente pedir que Lula participasse do teatro de normalidade envolvendo sua ausência na disputa contra Jair Bolsonaro. E isso vale para todo cidadão que se diga preocupado com a escalada arbitrária. Não resta dúvida razoável de que a Lava Jato conspirou para eleger o fascista, além de manter preso, ilegalmente, seu maior adversário.

Bolsonaro é uma distração para o verdadeiro problema. Enquanto o bode faz pinotes na sala, os cômodos da casa vão sendo tomados pelo bolsonarismo judicial, que dá alicerce ideológico e repressivo ao governo dos patetas úteis. Sem denunciar a Lava Jato de maneira inflexível, a plataforma antifascista flerta com o desastre. Derrubará o capitão para eleger Sérgio Moro.

Não há perigo de conflito social no país, e sim um avanço de práticas delituosas e golpistas, muito bem documentadas, que a covardia pacificadora julga prudente eufemizar. Mais do que premissa ética, enfrentá-las é uma exigência constitucional. Agendas libertárias polarizam radicalmente com o fascismo, e com seus adeptos, em qualquer contexto. Por natureza.

O atual mote conciliador vem da Anistia, imposta pela ditadura militar como proteção para seus criminosos. Os setores que aderiram àquela impunidade amnésica tentam reproduzi-la, exatos 40 anos depois, no desastre de outra loucura autoritária que eles apoiaram. Desta vez, contudo, as vítimas só podem participar se fizerem autocrítica e pedirem desculpas.

A animosidade entre petistas e antipetistas, que serve de pretexto à ação de pacificadores, constitui um falso dilema para o campo democrático. Além de favorecer o polo reacionário, trivializando seus valores abjetos, essa partidarização faz leitura mesquinha do desafio. Basta usar a legalidade como referência positiva que o meio-termo deixa de parecer tão razoável.

Quisesse de fato derrotar Bolsonaro, o centrismo anteciparia a postura pragmática que exige do PT. Admitindo que o partido será essencial a qualquer projeto oposicionista, veria na rejeição hidrófoba a Lula um grande obstáculo para o êxito da aliança. E faria do petista um símbolo dos podres da Lava Jato, convertendo-a em vulnerabilidade ética do governo.

Tamanho desperdício tático é também sintoma de naturalização do fascismo. A ideia de atrair o eleitorado conservador afagando suas taras vingativas só pode fazer sentido para quem distingue Bolsonaro e o “legado” da Lava Jato, ou a corrupção dos justiceiros e a que dizem combater. Não surpreende que Lula, hábil negociador, seja visto ali como incendiário.

Nenhuma vitória democrática será viável se depender de concessões do bolsonarismo judicial. E não me refiro apenas aos recuos inaceitáveis que isso exige, mas também à esfera prática: o grupo capaz de arrancar do páreo alguém como Lula, com 40% das intenções de voto, daquela maneira, parece indisposto a reconhecer limites. Ou mesmo a permitir disputas imprevisíveis.

Para vencer democraticamente o fascismo é preciso reconstruir a própria democracia. O apoio popular a Sérgio Moro, verdadeira base estatística da força reacionária, aponta para um nível de manipulação que destrói fantasias sufragistas. A inação do STF, do STJ e do TSE diante das reportagens do Intercept antecipa o nível das campanhas eleitorais futuras.

O republicanismo inflexível pode agregar moderados políticos, inclusive porque a moderação é necessária ao reconhecimento dos direitos de um adversário. Mas esse consenso envolve clareza sobre o objetivo comum e, acima de tudo, a natureza inconciliável das demandas. Em suma, o comprometimento por uma ética radical alicerçada na firmeza de seus propósitos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Catedral


O dorso da ruína absorta
parece assomar do abismo.
Dançam lumes coloridos,
sonhos de glórias e mitos,
no cenho polido a suor.

Vozes amenas e miúdas
brincam no frio do crepúsculo
que vela as almas amuadas.
A bruma suave me afaga
a lava dos olhos túmidos.

Pios, latidos, coros múrmuros,
rumores das copas nuas,
soltos pelo anil sem nuvens,
fundem ternura e matéria
no agora da praça velha.

Vultos avançam às ruas,
passam fugazes, dispersam
vazios. Respira, suspenso,
baile teso de procuras,
um susto afoito que esquece.

Basta que a relva solene
colha os amores cansados
com sua leveza de pólen:
sou a pedra desses arcos,
dourando à dor do poente.


Poema de Estuário (Editora Patuá, 2018).

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O regime da pós-mentira



Publicado no Observatório da Imprensa


Quando o ministro Ernesto Araújo afirmou que o Partido Nacional-Socialista alemão era de esquerda, proferiu uma bobagem flagrante, que chocou o planeta. Mas o chanceler poderá sempre alegar que não mentiu, apenas expôs um juízo pessoal que, “por acaso”, contraria a verdade. Sorte da opinião, azar dos fatos. E da História.

Embora particularmente ofensiva, a deturpação de Araújo não deveria surpreender os analistas da mídia corporativa. A maioria dos que se dizem perplexos com as impropriedades da cúpula do governo federal vem usando fórmulas silogísticas muito parecidas para o golpe parlamentar, a Lava Jato e a prisão política de Lula.

Se a Constituição autoriza o impeachment, o de 2016 obedeceu à normalidade democrática. Se os tribunais aceitaram a condenação de Lula, sua culpa está provada. Se a Lava Jato prendeu corruptos, foi benéfica para o país. Se a informação tem fonte ilegal, não é fidedigna.

A legitimidade de acreditar em bobagens não as torna verossímeis. Não resta dúvida possível de que o impeachment foi um golpe fisiológico e oportunista alavancado por uma artimanha ilegal da Lava Jato. Ninguém com mínimo discernimento jurídico seria capaz de negar que a prisão de Lula nasceu de conluios delituosos de Sérgio Moro e procuradores.

As conversas divulgadas pelo Intercept provam tudo isso. De novo, porém, a ignorância seletiva dá lógica aos descalabros. Pouco importam as evidências, o bom-senso, a legislação. Basta alguém dizer que “acha” a deposição justa, os indícios convincentes, os justiceiros bem intencionados. A credulidade se expressa como evento indiscutível.

O conceito de pós-verdade talvez sirva para definir as narrativas, mas já não é a maleável ideia de verdade que está em jogo, e sim a de mentira, bem menos controversa. A incapacidade de constatar o óbvio não tem nada a ver com a falsificação, que envolve a própria natureza espontânea e sincera do erro. Mentir é um ato consciente e doloso.

Pois aquelas manifestações de ignorância são performáticas. O ministro sabe que a associação entre nazismo e socialismo é absurda, tanto quanto os apologistas “qualificados” da Lava Jato sabem que ela serve a uma estratégia nefasta de poder. Longe de expressarem convicções sinceras, seus desvarios visam ludibriar incautos e normalizar a defesa do indefensável.

A estratégia tem sucesso, nas cúpulas do Judiciário, para manter a obscena condenação de Lula. O vale-tudo fantasioso dá aos nobres magistrados o álibi que lhes faltaria em sociedades menos corruptas e hipócritas. Eles podem forjar crenças estapafúrdias porque, para impedir a eleição do petista, até os valores que as tornam mentirosas viraram tópico interpretativo.

Enquanto a pós-verdade acena com a anulação das “grandes certezas” por inúmeras narrativas individuais, a pós-mentira traz a utopia da inexistência do ardil falsificador, o pressuposto da validade absoluta de qualquer asserção sobre o mundo. “Polêmica”, segundo o rótulo neutralizador da moda, ela se afirma “imparcial” na proporção de seu repúdio pela sociedade.

A pós-mentira esconde o método que organiza a loucura em pós-verdades convenientes. É o salvo-conduto moral do mentiroso, o cinismo que transforma o delírio em performance e o logro em ética opinativa. A suposta natureza irrefutável do enunciado inverídico, fantasiado de juízo pessoal, dissimula o objetivo que define moralmente o ato de manifestá-lo.

Existem bases narrativas (éticas) nas farsas judiciais da Lava Jato e no delírio messiânico do bolsonarismo. Mas precisamos ir além do conteúdo. O Regime de Exceção é soberano porque dita as fábulas que o legitimam. Aí reside a armadilha do debate ocioso em torno de falsas maluquices, que sempre estarão certas pelos critérios da falsa maluquice hegemônica. Não há terreno mais confortável para o fascismo do que o narrativo.

Combater a pós-mentira exige a distinção entre o apedeuta e o cínico, a ignorância e a fraude. O foco reside, por isso, mais na enunciação do que no enunciado, mais no indivíduo que no discurso. A questão é desmascarar a estultice teatral de pessoas que, sagazes e informadas, proferem juízos infundados para assuntos que elas não têm como ignorar.

O critério profissional ajuda muito nessa leitura de aptidões. A competência pressuposta por diplomas, currículos e cargos obriga seus detentores a certos níveis básicos de conhecimento e interpretação dos fatos. Quando o equívoco involuntário deixa de ser plausível, a própria lógica da meritocracia induz a percepção da desonestidade. O que vale para diplomatas, vale para jornalistas, acadêmicos, advogados e magistrados.

Denunciando na suposta “polêmica” a naturalização da mentira e, nesta, uma atitude imoral dos seus divulgadores, romperíamos a tendência fútil e paralisante de justificar toda aberração conceitual a partir de licenças ideológicas. Não foram valores pessoais que fraudaram a democracia brasileira, e sim a ocultação e a distorção sistemáticas da verdade.

Enquanto ainda podemos reconhecer os efeitos do arbítrio, somos capazes de identificar a índole corrupta daqueles que tentam reduzi-lo a uma simples questão de nomenclatura.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

A verdade sobre a verdade



A primeira reação da cúpula da Lava Jato diante das reportagens do Intercept residiu em obstruir a confirmação de sua autenticidade. Embora insinuassem sofrer calúnias, as supostas vítimas evitaram meios simples e eficazes de combatê-las: disseram ter apagado os arquivos originais e pouparam o veículo de acusações que o ônus da prova submeteria à perícia.

O inquérito dos hackers dificulta ainda mais o acesso à verdade. Enfiou-a num labirinto de papéis que demandam meses de verificações fajutas e inúteis, sem base comparativa possível ou desejada. As evidências ficarão ocultas, supostamente para não consumar o crime, e a versão oficial tratará de solucioná-lo usando outros materiais.

Tudo isso para esconder a nulidade da condenação que impediu a vitória eleitoral de Lula. Nenhuma revelação do Intercept possui semelhantes alcance e gravidade, tampouco o mesmo potencial de suscitar efeitos práticos imediatos. Segredo de Polichinelo da cobertura noticiosa, o tema alcança perplexa unanimidade nos círculos especializados.

O maior desafio aos objetivos da Lava Jato é o sucesso da estratégia de parcerias do Intercept. A veracidade das informações vazadas, inicialmente sujeita a controvérsia, passou a ser admitida de maneira oficiosa por todas as instâncias midiáticas e judiciais. O benefício da dúvida terminou sucumbindo à constatação de sua própria inverossimilhança.

Esse embaraço aflige as altas cortes e setores da mídia corporativa que, aderindo inicialmente à suspeita de falsificação, comprometeram-se a repudiar as conversas caso a soubessem reais. O mote da prova ilícita espana vernizes punitivistas, mas não alivia o desgaste de fingir ignorância acerca de algo repercutido em escala planetária. Provas, afinal, provam.

O STF ganhou um problema e tanto. Sabe que não poderá abraçar o outrora confortável malufismo jurídico, pois os preceitos doutrinários e republicanos que tornam as conversas abjetas são fortes e evidentes demais. Por outro lado, tratá-las como duvidosas agora reduziria o arco de atitudes do tribunal caso ele precise reagir a futuras revelações constrangedoras.

Acontece que não há saída para impedir a liberdade de Lula senão normalizando-se a ética profissional de Sérgio Moro e colegas procuradores. À luz do que ficou impossível não saber, parolagens sobre autenticidade são mera apologia ao delito. Qualquer posicionamento demanda juízos acerca dos valores constitucionais e democráticos afetados pelo escândalo.

Mantendo Lula preso, o STF abrilhantará a narrativa histórica do período com a explicação definitiva para o triunfo impune do arbítrio. Restarão identificados os cúmplices de Moro, as mentes e o poder que sempre faltaram à sua mediocridade intelectual e hierárquica. E mesmo a origem da institucionalização do fascismo no país ganhará um nexo bastante elucidativo.

Sejam quais forem os desdobramentos do episódio, e embora eles não pareçam alvissareiros, trata-se de uma derrota inédita do Regime de Exceção. Desta vez, os fatos escaparam a seu controle. A verdade sobre o golpe eleitoral da Lava Jato vazou, continuará vazando e ficará mais repugnante a cada tentativa de contê-la.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Os vazamentos provam



Os diálogos da Lava Jato divulgados até agora pelo Intercept são suficientes para anular a condenação de Lula. Provam, portanto, sua inocência. Essa prerrogativa inata da cidadania é restituída com o cancelamento de um ato judicial que venha a suspendê-la. A nulidade extingue o todos os componentes do processo.

Poucas vozes críticas repercutem de maneira clara esse aspecto óbvio e chocante. Mesmo o noticiário que denuncia o vexame ignora as suas implicações e o restringe à maleável seara ética. A moda entre os comentaristas é o negacionismo blasé, “decepcionado” com Sérgio Moro mas não com seu discurso, tratando a legislação como uma narrativa suspeita qualquer.

O motivo do silêncio reside na lógica inescapável dos fatos: se a prisão tirou Lula de uma disputa sucessória em que ele era favorito e se os vícios que anulam a condenação incluem o explícito viés político de seus artífices, a Lava Jato influiu deliberadamente no resultado das eleições presidenciais. E de maneira inconstitucional.

Muita gente participou da farsa. Da imprensa às cortes, passando pela militância digital e pelo campo jurídico, a percepção dos arbítrios contra Lula foi generalizada. Quem se omitiu o fez por adesão aos desdobramentos político-eleitorais da Lava Jato, fossem restritas à derrota do lulismo, fossem abarcando também a vitória de Jair Bolsonaro.

O apoio desses grupos ao Intercept é oportunista, contrariado e reticente. Visa domesticar os vazamentos com leituras higiênicas e descontextualizadas, que só admitem a inocência dos justiceiros. Moro agiu por soberba e afoiteza, não para favorecer o candidato que o tornaria ministro. Uma fraude eleitoral gigantesca não diminui o “legado” da Lava Jato.

O esforço apaziguador equivale à tentativa de criminalizar o Intercept, ao ridículo terrorismo com a ameaça de “anular tudo” (como se o caso Lula tivesse equivalentes) e à bobagem de que TRF-4, STJ e STF podem ser cúmplices dos delitos e ao mesmo tempo legitimá-los. Tudo isso faz parte de uma estratégia para ocultar aquilo que importa realmente. O que foi provado.

Não me iludo com as decorrências práticas das revelações, especialmente se vierem a atingir o STF, que, acuado, buscará o amparo dos fascistas. E será fácil juntar meia dúzia de juízes e desembargadores antipetistas para devolver Lula à cadeia, na improvável hipótese de soltura. Sobram mentiras para legitimar as arbitrariedades impunes do Regime de Exceção.

Isso não reduz a enorme importância histórica, pedagógica e simbólica das divulgações. Mas o cenário se aproxima de um paradoxo: quanto maior o escândalo, menos destaque receberá a nulidade jurídica da prisão de Lula e menor ainda será a consciência pública do golpe eleitoral da Lava Jato. A perplexidade se transformará aos poucos numa performance vazia.

O triunfalismo catártico do campo progressista corre o risco de despolitizar as revelações. Primeiro, tornando-as espetáculos da suposta putrefação institucional que embala o fascismo. Depois, permitindo que os bastidores dos vazamentos ofusquem seu conteúdo. Finalmente, supondo que punições individuais e autocríticas solenes encerram o assunto.

As reportagens do Intercept são provas cumulativas dos mesmos fatos originais. Resta apenas sedimentar esse nexo probatório nos debates vindouros, de maneira explícita e incondicional. Só assim as coisas passarão a fazer algum sentido, tanto naquilo que as informações ensinam sobre o passado recente do país, quanto no próprio gesto de divulgá-las.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A Lava Jato produziu o governo Bolsonaro



Os antigos defensores da Lava Jato, que festejaram quando a prisão de Lula impediu sua vitória eleitoral, reagem com perplexidade às estultices do governo Jair Bolsonaro. Ignorando a óbvia relação causal dos fenômenos, fingem que o jabuti subiu na árvore sozinho, como se a tragédia anunciada fosse um mero acidente de percurso na Cruzada Anticorrupção.

É fácil notar que a Lava jato enriquece delatores, advogados e multinacionais estrangeiras. Já considerá-la benéfica para o povo que a financia depende do repertório de valores de cada um. Se derrotar o lulismo compensa quaisquer sacrifícios, colapsos e prejuízos, maravilha, deu certo. Se nada justifica eleger milicianos e dementes obscurantistas, a conta não fecha.

O meio-termo, usado por muitos para fugir do dilema, disfarça a escolha pela primeira opção. Um dos apelos do imaginário fascista reside justamente em prender (e matar) bandidos. Não é outra a origem do discurso de que a corrupção supera negativamente a desigualdade social, a incompetência administrativa e o racismo institucionalizado. Ou o próprio fascismo.

E precificar os lados da balança não ajuda a equilibrá-la. Quantas fortunas recuperadas pagam a destruição da universidade pública, da cultura, dos direitos individuais? Quantos larápios aposentados ou irrelevantes compensam a inelegibilidade de um candidato favorito a presidente da República, o único capaz de impedir a escalada reacionária?

A agenda saneadora jamais precisaria da Lava Jato e do resultado eleitoral que ela gestou. As condenações de burocratas e políticos metidos em esquemas antigos e notórios seriam resolvidas há décadas, sem rótulos espalhafatosos, desde que policiais, procuradores e juízes cumprissem suas prerrogativas básicas. Todos esses casos dispensariam os arbítrios aplicados a Lula em nome da impunidade alheia. Só a excepcionalidade atingiria o petista.

Nisso a Lava Jato, porque ideológica, foi eficaz: partidarizou a constitucionalidade, tornando o antipetismo um alento moral para a naturalização do arbítrio. Nada mais explica o silêncio das cortes superiores diante dos métodos aplicados a Lula, cheios de vícios primários, que teriam derretido qualquer processo “comum”. O fato de não criar precedentes, mas exceções pontuais irrepetíveis, mostra o caráter deliberado e sistemático dessa covardia.

Basta resumir a trajetória de Sérgio Moro para sabermos que não houve mera coincidência entre as suas atividades e a ascensão fascista. O juiz vazou grampos ilegais para derrubar um governo, condenou por “crime indeterminado” o candidato do mesmo partido, manteve-o incomunicável na disputa eleitoral, ajudou a campanha do seu maior adversário e se tornou ministro da chapa vencedora. A de Bolsonaro, que lhe prometeu uma vaga no STF.

Esse pragmatismo oportunista só faz sentido como estratégia de poder. Não há justificativa técnica para encenações midiáticas e vazamentos de dados sigilosos. E é ilustrativo o gosto contraditório pela publicidade numa operação que resguarda seus próprios segredos tão bem, inclusive negando às defesas o acesso a documentos dos inquéritos.

A evidência final de que a Lava Jato pariu o monstro está na afinidade ética de ambos. O recurso de Moro ao espetáculo obscurantista e a manobras clandestinas sempre que algo ameaça seus interesses é típico do governo que o abriga. As pressões de militares sobre o STF na campanha e a desobediência às ordens de soltura de Lula têm a mesma essência.

Refém da desgraça bolsonariana, incapaz de sobreviver a uma CPI bem feita, a Lava Jato virou parte do sistema viciado que prometia destruir. É impossível separar cruzados judiciais e administrativos, pois o elo populista que os une também lhes confere sua única fantasia de legitimidade. Eles dependem do mesmo contingente raivoso e vingativo.

A normalização do país exige, portanto, que todos os articuladores do golpe que tirou Lula da disputa presidencial respondam juntos pelo desastre resultante. Permitir que os indignados tardios reciclem a agenda salvacionista, quiçá em torno do próprio Moro, seria um aval para novas aventuras tenebrosas da “gente de bem” que o idolatra. Os arrependidos de hoje sabiam, desde o início, aquilo que a Lava Jato preparava.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Liberdade de exceção



Existem diversas leituras razoáveis para a crise que envolveu o STF, o Ministério Público e veículos da direita midiática. Nenhuma delas inclui a defesa ou o cerceamento da liberdade de expressão. Essa narrativa é sedutora, mas não condiz com as atitudes dos seus porta-vozes e tampouco motiva os interesses que a puseram no centro dos debates.

Se as prerrogativas constitucionais de fato importassem, seus atuais defensores teriam reagido com a mesma veemência quando a Folha de São Paulo censurou judicialmente uma página virtual que a ironizava. Ou quando certo diretor da Globo processou um blogueiro que o mencionou de maneira indireta, em contexto ficcional. Ou ainda quando a delegada federal conseguiu silenciar os questionamentos incômodos que lhe fazia um jornalista.

Os exemplos são mais numerosos e absurdos do que nosso espírito libertário seria capaz de suportar. Nos rincões interioranos, os conflitos se resolvem com ajuda policial, para não citar o fuzilamento sumário, dispensando requintes processuais. Nos grandes centros, os casos mais civilizados arruínam indivíduos econômica e profissionalmente, por litigâncias intermináveis, caríssimas, abusivas. E quase sempre vencidas pelos cerceadores.

O desrespeito à livre manifestação está em todo lugar. Na proibição a Lula de conceder entrevistas e participar da propaganda eleitoral do PT. Nos vetos a reuniões de estudantes universitários. No patrulhamento a professores e funcionários públicos. Nas exposições de arte suspensas e nos artistas presos e humilhados. Na repressão violenta a manifestantes pacíficos e até a faixas políticas em estádios de futebol.

Judiciário, Ministério Público, imprensa corporativa, governo federal, ninguém dá a mínima para a liberdade de expressão. A dos outros, entenda-se bem. Para os “nossos”, vale tudo. Especialmente se a vítima da ofensa é a deputada petista, a vereadora do PSOL assassinada, o deputado gay que sofre ameaças, o ex-presidente retratado como bandido no filme de quinta categoria. Mas ninguém se atreveria a ofender a honra de Sério Moro, “talquei”?

Exatamente porque seletiva, a defesa de direitos é um discurso calcado no pressuposto de que uma parcela da sociedade não pode ter a mesma garantia. Ou melhor, um gesto simbólico que afirma a insignificância dos prejudicados e a superioridade dos seus antagonistas. O sigilo que impede a plena defesa de Lula torna-se desnecessário para os veículos divulgarem dados sigilosos que supostamente o incriminam. O absurdo faz parte da mensagem.

O uso retórico das liberdades é tudo, menos inocente. Dos grampos ilegais das conversas de Dilma e Lula, nas vésperas do golpe, ao apelido inócuo de um ministro da corte que julgará o recurso do ex-presidente, passando pelo depoimento inválido de Antônio Palocci, em plena campanha presidencial, há sempre um nexo oportunista nas boas intenções da mídia.

Por isso, quando se escudam na defesa da livre expressão, sabemos apenas o que os ataques ao STF não pretendem. A defendida liberdade para constranger o tribunal é a apologia pura desse constrangimento. Fosse um email insinuando a amizade de Moro com advogados de réus, teríamos uma campanha pela limitação responsável do que pode vazar.

Ninguém está acima da lei, exceto quem repete essa mentira.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Lula é a referência



Para recuperar a competitividade eleitoral, a esquerda precisa adotar novas táticas discursivas. Embora legítima e imprescindível, a pauta humanitária atesta a identidade política de Jair Bolsonaro e a coerência de sua plataforma hedionda, permitindo que ele controle os debates públicos através da verborragia esquizofrê­nica. Falta abalar o triunfo simbólico do projeto fascista e desestabilizar o conforto retórico de seus adeptos.

A busca pela vulnerabilidade narrativa do bolsonarismo poderia começar na sua obsessão por Lula. O ex-presidente incorpora o Outro rejeitado que positiviza o retrocesso, o antagonista que Bolsonaro maneja para traçar uma singularidade ideológica. Um Lula às avessas, o poste da Lava Jato afirma-se negando o modelo, mas preservando-o para usos oportunos.

Ora, sendo Lula uma referência privilegiada para a direita, por que não explorar o seu imenso potencial de comparação? Bolsonaro fugiu desse problema na campanha, mas venceu prometendo soluções milagrosas para o colapso gerado pela incompetência petista. O mínimo que se pode exigir do mito é superar administrativamente o grande enganador petralha.

Os índices dos governos Lula deveriam tornar-se base cotidiana para o acompanhamento da gestão Bolsonaro, em fóruns digitais, manifestações no Congresso, entrevistas de lideranças partidárias, blogs, páginas exclusivas na internet e até painéis publicitários. Criando uma enorme sombra de eficácia alheia em torno dos salvadores ultraliberais, um círculo virtuoso de “expectativas saudosas” que ressuscite as pautas relevantes de fato para a sociedade.

Sempre que os porta-vozes do bolsonarismo atacarem os paralelos, o jogo de réplicas e novas respostas ajudaria a sedimentá-los como tópico de discussão. O incômodo faria os governistas desqualificarem Lula, admitindo a premissa comparativa e seu potencial embaraçoso. A virulência ideológica do fascismo fortaleceria o apelo persuasivo das estatísticas. Quanto maior o ataque ao ex-presidente, mais enfática a cobrança para que ele seja superado. E maior a percepção do abismo que o distingue dos inimigos.

Cada pretexto para desviar o assunto (Dilma, crise, malufismo, etc.) oferece meios de retomá-lo. Acima de tudo, porém, a relevância de Lula afirma-se num motivo simples e indiscutível: só ele poderia vencer as eleições no lugar de Bolsonaro. As implicações desse fato, unindo os avanços de outrora à condenação arbitrária do ex-presidente, vão além de minúcias judiciais e folclores punitivistas, atingindo inclusive as pessoas decepcionadas com o PT.

Embora desagrade certos esforços para transformar a esquerda numa facção moderada (“construtiva”) do antipetismo, a proposta não alimenta delírios hegemônicos ou sebastianistas. Basta-lhe semear provocações incômodas nos consensos vigentes, usando critérios técnicos e positivos que não reproduzam os falsos encantos da doutrina reacionária.

Atingindo o cerne da autolegitimação fascista, o resgate da memória do lulismo talvez seja uma alternativa pragmática de luta nessa interfase eleitoral. Especialmente porque preencheria a perigosa lacuna de referências gerada pelo previsível fracasso de Bolsonaro, invertendo o jogo de vitimização que seus adeptos preparam para justificá-lo.

As manifestações coletivas de repúdio a Lula mostram que o furor das vaias e dos insultos visa acima de tudo calar o dissenso, impor a amnésia e a injustiça como fatos consumados. Esse ódio reflete medo, mostrando quão frágil é a virulência fascista, ansiosa por esconder seu maior fantasma numa solitária em Curitiba.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Idealização de Boechat precisa ser questionada



Publicado no Observatório da Imprensa

O volumoso necrológio do jornalista Ricardo Boechat foi digno de sua importância para a história da profissão no país. A trajetória pelos maiores veículos noticiosos e o vasto rol de premiações explicam as homenagens unânimes dos colegas. Verdadeira celebridade, recebeu merecida comoção popular diante da tragédia estúpida que o atingiu.

Mas seria indigno da memória do grande jornalista dedicar-lhe uma condescendência que ele próprio evitava na labuta cotidiana. Boechat decerto adivinhava os efeitos colaterais da postura independente e personalíssima que o definia, e esses desdobramentos fazem parte da complexidade e da riqueza do trabalho que o consagrou. Podemos respeitar o falecido sem transformá-lo num objeto de hagiografia populista.

Não me refiro ao indivíduo, ao pai de família, ao companheiro de tantas pessoas cujo luto exige a mais solene consideração. Trata-se aqui de uma reflexão exclusivamente ética, no sentido clássico da palavra, restrito à figura pública de Boechat e a seu papel nos debates sobre a prática jornalística. Aproveitando o esforço para torná-lo um modelo, uso-o como exemplo da necessária cautela ao abordar personagens de sua envergadura.

Meu primeiro questionamento envolve a tendência de minimizar certas colocações infelizes do jornalista sob as desculpas do humor, do improviso e das (baixas) expectativas do público. Basta lembrar um caso emblemático: a sugestão de que Dilma Rousseff quis visitar Lula na cadeia para um “encontro íntimo”, como se não houvesse outra razão possível, ou, pior, como se a ironia sexista fizesse contraponto razoável ao suposto cinismo do pedido.

O segundo problema, de natureza parecida, é a transformação de comportamentos profissionais reprováveis em deslizes menores de personalidade. Não podemos simplesmente ignorar os indícios de assédio moral no ataque virulento e insultuoso de Boechat a uma colega de trabalho, flagrado pela câmera do estúdio. Ou esse nível de agressão faz parte das normas de conduta da categoria? Seria apenas uma “bronca” na rotina das redações?

A terceira ressalva, de mais amplo escopo, se refere à natureza do jornalismo praticado por Boechat na sua militância apaixonada a favor da operação Lava Jato. Considerá-la um marco revolucionário da história brasileira constitui, evidentemente, prerrogativa básica do opinionismo. Algo bem diverso é privar a audiência de informações cruciais para o entendimento do que estava em jogo no último processo eleitoral.

Boechat participou ativamente na vilanização da classe política e na glamorização do campo judicial que culminaram no avanço reacionário. Contribuiu para a falaciosa assepsia ideológica da agenda punitivista e dos cruzados que a usaram para práticas ilegais. Omitiu ou suavizou as arbitrariedades cometidas contra Lula, ridicularizando seus defensores. Em suma, ajudou a naturalizar o Regime de Exceção que patrocinou a vitória de Jair Bolsonaro.

Sempre houve diversos caminhos possíveis, que não se desviariam necessariamente pelo proselitismo partidário. Enquanto Boechat reivindicava isenção jornalística nos aplausos a meganhas e magistrados nebulosos, eram jornalistas como ele que denunciavam as manobras da Polícia Federal em Curitiba, o papel do Judiciário no golpe, as injustiças contra Lula, os desvios de Sérgio Moro e a atuação política do Ministério Público.

Tudo isso agregando fatos documentados, testemunhos, depoimentos de especialistas, citações jurídicas. Material noticioso, portanto, de relevância inquestionável, que Boechat conhecia e não julgou oportuno explorar. O menosprezo por essas evidências e a adesão à narrativa legalista da excepcionalidade constituem atitudes legítimas, sinceras e coerentes, mas também tecnicamente reprováveis e marcadas por leituras equivocadas de conjuntura.

Esse posicionamento desinformou a audiência porque a induziu a acreditar que os métodos corruptos não desqualificavam os resultados da Lava Jato, que a destruição da candidatura Lula independia do escancarado partidarismo dos condenadores e que a pauta repressiva era preferível à defesa de direitos individuais. Embora repudiasse o fascismo, Boechat reverberou seus discursos e endossou a principal estratégia que levaria à sua vitória.

Apesar da gravidade dos erros, porém, não seria justo ou produtivo fazer do jornalista um bode expiatório do complexo fenômeno eleitoral. Questiono sua idealização póstuma pois a considero parte de esforços para limpar a imagem dos veículos informativos que toleraram ou favoreceram a ascensão fascista. Noutras palavras, um instrumento cínico e oportunista de autoelogio corporativo, tentando edulcorar a vergonha histórica da grande imprensa pela postura irresponsável diante dos escândalos que anunciavam o triunfo do obscurantismo.

Seria interessante usar um pouco do senso crítico e do ceticismo de Boechat contra seus próprios aduladores. Pela proximidade biográfica, iniciaríamos com um balanço do viés tendencioso do grupo Bandeirantes, outrora engajado na propaganda do golpe parlamentar e depois na promoção da candidatura Bolsonaro. Em seguida analisaríamos o padrão ideológico do grotesco noticiário policial, dos rudimentares programas locais de rádio e das demagogias moralistas do comentarismo esportivo.

Mas sabemos que esse debate não prospera: o imaginário messiânico sustenta o espírito cruzado e impede que a aventura punitivista se revele uma simples estratégia de poder. Boechat, que acreditou na fantasia, recebe o prêmio de ser incorporado a ela. E não surpreende que os campos jornalístico e judicial compartilhem agendas e referências éticas, tendo em vista o valor que ambos conferem aos respectivos mitos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Quem são esses culpados?



A tragédia de Brumadinho vem provocando ataques raivosos contra um inimigo de muitos nomes: “o Brasil”, “este país”, “aqui”, “nós” (os “brasileiros”), etc. Trata-se de vício antigo e complexo, mas que, no triste episódio da mineradora, soa particularmente inaceitável.

Primeiro porque, a rigor, o raciocínio é falso. Mais da metade das ações da Vale pertence a investidores estrangeiros, com importante participação da multinacional japonesa Mitsui & Co. Foi uma consultora alemã, a TÜV Süd, que certificou a segurança da barragem rompida. As atividades da mineradora são financiadas por governos de todo o planeta.

A deturpação sugere exclusividades falaciosas. Uma das donas da Samarco, responsável pelo desastre de Mariana, é a anglo-australiana BHP Billiton. Em 2016, a Arcelor Mittal, de Luxemburgo, foi multada por emissões de poluentes em Vitória. A norueguesa Hydro Alunorte sofreu denúncia na ONU pela poluição dos rios e igarapés de Barcarena (PA). Brasileiros não participaram dos vazamentos de combustível da Exxon, em 1989, e da British Petroleum, em 2010, nem dos rompimentos de barragens da italiana Prealpi Mineraria, em 1985, e da sul-coreana SK Engineering & Construction, ano passado.

A mesma falácia deturpa a origem da “nossa” corrupção. A Alstom, cuja diretoria subornou membros do governo tucano de São Paulo, é francesa. Os desvios do cartel chegam a 300 milhões de reais, fora superfaturamentos. São estrangeiros os laboratórios farmacêuticos cujas patentes causam prejuízos de 100 milhões de dólares por ano ao sistema público de Saúde.

Poderíamos alongar a lista com evidências do poder persuasivo de corporações internacionais sobre autoridades brasileiras nas áreas do entretenimento, da telefonia, da TV a cabo, dos eletrônicos, etc. Quase todos os lobbies envolvem atividades ilegais ou eticamente discutíveis, muitas delas proibidas nos países em que essas companhias mantêm seus escritórios centrais.

As fortunas destinadas a corromper brasileiros precisam sair de caixas controlados pelos altos círculos administrativos das multinacionais. Também as práticas temerárias e negligentes das filiais, quando incluem grandes riscos, dependem da conivência ou ao menos da omissão de suas diretorias estrangeiras, além das prestadoras de serviços de consultoria e certificações.

Por fim, cabe realçar a incoerência esperta da mania generalizante. Quem dissemina culpas por Brumadinho não ousa disseminar também o fascismo que elegeu Bolsonaro. As pechas de patriota e ufanista, que servem para desqualificar os críticos da simplificação tola do desastre, alimentam o orgulho dos simplificadores no front ideológico. Crimes de estatais são do governo, mas os da iniciativa privada caem na conta do “povo”.

O maior efeito negativo da autodepreciação coletiva reside em contribuir para a impunidade dos responsáveis diretos e indiretos pela tragédia: funcionários e executivos, deputados estaduais e federais, membros de órgãos fiscalizadores, magistrados de vários níveis. Todos têm nomes e sobrenomes, obrigações funcionais, atitudes registradas em atas e memorandos.

O desabamento foi causado por essas pessoas, não por entidades difusas como “a Vale”, “a Natureza”, “o Brasil”, “o capitalismo”. Se procuram uma especificidade brasileira, os analistas podem começar em seu próprio receio de contrariar poderosos de qualquer procedência. Nada mais tipicamente verde-amarelo do que pulverizar indignações para que elas não atrapalhem os negócios da “gente de bem”.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A exceção



Chega a ser hilariante a pantomima de suas excelências para evitar que Lula saia da prisão. As incursões pela comédia escatológica, pelo surrealismo de hospício tipo Ken Russell ou Luis Buñuel. O surto amoral que põe magistrados, militares, jornalistas e palpiteiros, nus, urrando no banquete, pintando-se de comida. Um mergulho no delírio da ausência de regras, cerimônias, prerrogativas, decoros.

Não restava uma vírgula jurídica nos ataques à decisão monocrática de Marco Aurélio Mello, provocada e obstruída por gestos igualmente monocráticos, num universo dominado pela monocracia. Não houve qualquer base legal para impedir Lula de comparecer ao velório do irmão, além de uma razoável suspeita de ilicitude na protelação da resposta.

Mas o texto absurdo faz parte da graça. Em vez de grunhir, os atores blasfemam contra o estado de Direito, aplaudem suas próprias irregularidades, chafurdam no ridículo. Estão seriamente engajados no desafio de interpretar crápulas orgulhosos, embora o ímpeto realista às vezes descambe para a caricatura. Eles se entendem, é o que importa.

E estão tranquilos, porque decerto o STJ confirmará a sentença, tirando Lula do alcance da decisão do STF sobre a segunda instância. Cuja sessão está marcada para dois meses depois, permitindo à corte posar de garantista sem favorecer o ex-presidente. Resumindo, seus recursos foram apressados para tirá-lo das eleições, arrastaram-se até que elas terminassem e de súbito passarão por uma coincidência de agendas que impedirá apenas a sua soltura.

Tudo no caso Lula é excepcional. Isso não “ocorre todo dia”, como afirma a esquerda que cai na arapuca punitivista e naturaliza a regra do fascismo cotidiano. Duvido que outro processo penal tenha suscitado tamanho espetáculo de tautologias. Quantas pessoas recebem habeas corpus do TRF e do STF que são ignorados por juízes de primeira instância? E quantas, ainda por cima, têm negado o direito ao velório de um familiar?

Nessas ocasiões tenebrosas os covardes lamentam que a “narrativa” lulista seja corroborada pelos fatos. Como se houvesse outra constatação possível, ou estivéssemos diante de uma polêmica doutrinária. O problema, para esses órfãos da racionalidade, não está nos arbítrios dos algozes, mas no embaraço de concordar com a vítima. Se continuarem tratando Lula como prisioneiro político, vai parecer que ele é de fato um prisioneiro político. Sério?

Mas engana-se quem vê no dilema um constrangimento para os cruzados. Eles querem mesmo deixar bem claro o viés ideológico de suas atitudes. Faz parte da punição. Como nos combates mais bárbaros, o sacrifício público do inimigo serve de exemplo para os derrotados e de ritual expiatório para os vencedores. E tanto melhor que a perplexidade tome escopo internacional, pois isso valoriza a mensagem e a firmeza santa dos cavaleiros.

Aí se revela a função performática da balbúrdia: o gesto de insubmissão à constitucionalidade é uma prova de poder. Nos vazamentos ilegais de Sérgio Moro, na afronta simbólica do TRF-4, na desobediência impune dos juízes de piso e no veto a uma prerrogativa humanitária de Lula sobressai a mesma verve ostentatória. A exceção confirma a força de quem a aplica.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

“Meme e aforização”



Meu artigo “Meme e aforização: uma abordagem discursiva da iconotextualidade digital” foi publicado na última edição dos Cadernos de Estudos Linguísticos (IEL – Unicamp). O texto pode ser acessado aqui.


Resumo

Este artigo busca reunir subsídios para uma análise dos mecanismos de aforização presentes nos memes digitais. Questionando a terminologia utilizada para definir um repertório tão vasto e complexo, proponho considerar o meme a partir de recorte baseado no conceito de iconotexto, herdado dos campos publicitário e jornalístico. Os critérios de abordagem seguem a linha francesa de Análise do Discurso, com ênfase no trabalho de Dominique Maingueneau. Os exemplos possuem natureza política e foram selecionados segundo a contribuição que podem oferecer ao estudo das modalidades primária e secundária de aforização.

Palavras-chave

Meme. Aforização. Análise do discurso.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

À espera dos cruzados




A Cruzada Anticorrupção finalmente se apoderou do Santo Graal político-administrativo que perseguia com fanática voracidade. Jair Bolsonaro, ungido pela seita, venceu alegando esse pertencimento. É o “poste” da Lava Jato, figura medíocre e vulnerável, submetida a interesses mais poderosos que receberão prerrogativas monárquicas para garantir sua sobrevivência.

Dizer que a Lava Jato contribuiu desacreditando a classe política é insuficiente. A virulência antipetista ganhou viés muito pragmático na condução dos assuntos pré-eleitorais, com precisão cirúrgica inexistente nos outros partidos, inclusive o pitoresco PSL de Bolsonaro. A lista de governadores e legisladores eleitos mostra que a moralidade atingiu apenas quem poderia, local e nacionalmente, atrapalhar os candidatos alinhados à causa santa.

Durante os últimos anos, procuradores e magistrados foram agentes diretos da normalização do fascismo brasileiro. No flanco repressivo, exorbitando um punitivismo inconstitucional e tendencioso contra jornalistas, militantes e líderes partidários. Na seara da impunidade, reproduzindo o hábito seletivo que garantiu a sobrevivência da Lava Jato, desde a proteção a seus membros até a blindagem daqueles que a apoiaram.

O vazamento ilegal de gravações já ilegais de Dilma Rousseff, de Lula e de familiares e advogados do ex-presidente passou incólume pelas rigorosas autoridades. O único adversário que poderia vencer Bolsonaro foi preso na véspera da disputa, por “crime indeterminado”, sem provas materiais de culpa. O STF manobrou para negar o direito de Lula ao habeas corpus e permitiu os atropelamentos de funções que barraram as ordens isoladas de soltura.

Esse padrão dominou a disputa presidencial. O TSE engoliu covardemente a pressão dos militares, as ameaças diretas de Bolsonaro, a violência escancarada de seus adeptos e sua fábrica de mentiras digitais. As cortes impediram Lula de falar à imprensa, divulgaram o depoimento inválido de Antônio Palocci, empastelaram uma revista, reprimiram debates universitários e censuraram propagandas que associavam o capitão à tortura que ele defende.

A naturalização dos hábitos nefastos das autoridades pavimenta o caminho do obscurantismo. A tolerância ante a brutalidade física de policiais, milicianos e energúmenos civis legitimará o arbítrio criminoso na solução cotidiana de conflitos. A adesão irregular de servidores públicos a absurdos como o Escola Sem Partido normalizará e disseminará o patrulhamento saneador em todos os níveis profissionais. Sérgio Moro virou ministro da Justiça, afinal de contas.

Ao mesmo tempo, a ideologia truculenta dos vitoriosos incentivará a destruição judicial dos oponentes. Podemos esperar um tenebroso varejo de garrotes, principalmente em litigâncias contra a liberdade de expressão, sob a desculpa de punir apologias ao crime, calúnias e difamações, atentados à moral, fake news, etc. A criminalização do uso do adjetivo “fascista”, por exemplo, só espera uma primeira iniciativa bem sucedida.

A vitória de Bolsonaro seguirá marcada pelo gesto agressivo que a impulsionou. Um ato sem nexo, misterioso, que a mídia transformou em espetáculo antes que o ceticismo pudesse enfraquecê-lo. Eis o núcleo imaginário do novo projeto de poder: o choque performático, a mistificação, o jogo redundante de ameaças intangíveis, o desvio pela irracionalidade.

“Não existe direito absoluto” e “ninguém está acima da lei”, os lemas do absolutismo togado, possuem utilidade metodológica. O triunfo político do Regime Judicial de Exceção baseia-se nesse discurso negativista, que nivela os cidadãos pela recusa generalizada à cidadania. Quanto mais autoritário for o governo, menos ele parecerá incompetente e corrupto. Direitos cerceados provarão a força do sistema e embalarão seu delírio revolucionário.

Mas, para as pessoas de bem, as instituições continuarão funcionando normalmente. Glória a Deus pela democracia brasileira.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A marinização de Ciro Gomes



Há semanas preparo uma análise sobre a atuação de Ciro Gomes na campanha presidencial. Outros autores se anteciparam à minha obsessão corretiva, publicando textos com viés muito semelhante. As redundâncias são inevitáveis. Tanto melhor, se fortalecerem o argumento de que o pedetista não representa uma alternativa de esquerda para as eventuais futuras eleições.

Apesar da indulgência de seus militantes, a postura de Ciro no segundo turno foi indefensável. Numa disputa “normal” já soaria imatura e incoerente, no mínimo porque ele defendeu a inocência de Lula. Entre os apoiadores tardios de Fernando Haddad, poucos se atreveram a tanto, o que não deixa de ilustrar o alcance de suas leituras sobre a ascensão fascista.

Mas contra Jair Bolsonaro não há calo pisado ou ego ferido que justifique passar a batalha decisiva fazendo turismo na Europa e chegar na véspera do pleito bancando o isentão rancoroso. Ciro literalmente fugiu da luta, satisfeito em afirmar que seu (não) voto fora declarado por frases alusivas salpicadas em dois vídeos amadores perdidos nas redes sociais.

É inútil especular o peso dessa traição no resultado, as chances improváveis de Ciro ganhar a disputa sozinho, a conveniência da estratégia petista ou a moralidade do jogo de alianças que o próprio pedetista legitimou quando acreditava poder vencê-lo. Pouco importam seus motivos pessoais e os segredos de bastidores que ele menciona, mas estranhamente oculta.

O problema reside na imagem que Ciro fez de si mesmo dando de ombros ao destino do país para vingar-se da cúpula de um partido. Não é possível aceitar que um político veterano, com ares de estadista ponderado, tome decisão dessa gravidade por ressentimento. E há algo de ofensivo na trivialidade bonachona de suas atuais manifestações sobre o tema.

Ciro parece mesmo repetir os equívocos de Marina Silva. Basta observar a facilidade com que ele incorporou os cacoetes do marinismo, particularmente a mania de vitimização e o uso do PT como pretexto coringa para amenizar suas incoerências. Também a agressividade desse discurso negativo, de incômoda semelhança com a apologia punitivista da Lava Jato.

O erro de Marina foi imaginar que, embora suas ideias não sejam “de esquerda”, talvez sequer progressistas, criticando Bolsonaro ela se garantia automaticamente no centro. Na verdade, porém, o repúdio ao PT a afastou desse objetivo. Rejeitando Haddad, um moderado clássico, a candidata reduziu-se a uma versão amena do polo vencedor. Igual a seus ex-aliados tucanos.

Ciro inoculou-se dessa esquizofrenia. Alojado num antipetismo vazio e autocomplacente, julgou pragmático abandonar o PT na certeza da derrota. Mas não percebe que a adesão tática ao eixo ideológico do Regime de Exceção inviabiliza seus planos centristas futuros. Afinal, quem faz “oposição construtiva” ao fascismo é a direita. Ou vamos agora evitar o rótulo de fascista para Bolsonaro porque Ciro precisa do figurino apaziguador?

Sem cargo de destaque, marcado pela demonstração de inconfiabilidade (algo fatal no meio político) e longe da maior bancada legislativa, o pedetista flerta com o isolamento. Quando se omitir diante dos arbítrios ou fizer discursos inábeis sobre as reformas antipopulares, ganhará imediata resistência dos movimentos sociais. E passará a atacá-los, como de praxe.

A esquerda ganharia muito se tirasse o bode eleitoral da sala, observando o cenário limpo das agendas pessoais e da intemperança autodestrutiva de Ciro. Talvez assim percebesse a falta que fazem espíritos agregadores nas articulações do campo progressista. Especialmente em circunstâncias adversas, que determinam o caráter e a legitimidade das verdadeiras lideranças.