sábado, 28 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O Projeto Juízo Final e os “eventos profundos”: JFK, Watergate, Irã-Contras e 11 de Setembro

“Gostaria de discutir quatro eventos importantes e ainda pouco compreendidos: o assassinato de John F. Kennedy, o Watergate, o Irangate e o 11 de Setembro. Vou analisar esses ‘eventos profundos’ como parte de um processo político ainda mais profundo que os une, um processo que ajudou a construir um poder repressivo nos Estados Unidos, em detrimento da democracia.
Nos últimos anos, tenho abordado uma força maligna por trás desses eventos - uma força que, por falta de termo melhor, tenho desajeitadamente chamado de ‘Estado profundo’, operando dentro e fora da máquina estatal. Agora, pela primeira vez, quero identificar parte dessa força maligna, uma parte que tem operado há pelo menos cinco décadas à margem da máquina estatal. Essa parte da força maligna tem um nome que não foi inventado por mim: Projeto Juízo Final, nome dado pelo Pentágono ao plano de emergência para ‘assegurar o funcionamento da Casa Branca e do Pentágono durante e depois de uma guerra nuclear ou outra grande crise.’
O objetivo deste trabalho é simples, mas importante: demonstrar que o Projeto Juízo Final da década de 1980, e o plano de emergência prévio que levou a ele, desempenharam papel fundamental nos ‘eventos profundos’ que vou analisar. (...)
Tentarei mostrar que nesse aspecto o 11 de Setembro foi apenas o ápice de uma seqüência de ‘eventos profundos’ que remetem ao assassinato de Kennedy, senão a antes, e que a marca do Projeto Juízo Final pode ser detectada por trás de todos eles.
Mais especificamente, o que tentarei demonstrar sobre esses ‘eventos profundos’ é que:
1) o comportamento inadequado da CIA e de agência similares contribuiu tanto para o assassinato de Kennedy quanto para o 11 de Setembro;
2) dentre as conseqüências de cada ‘evento profundo’ inclui-se um aumento do poder repressivo das mesmas agências, às custas da Democracia;
3) há sintomáticas coincidências entre os personagens que perpetraram cada um desses ‘eventos profundos’;
4) observa-se em cada evento a presença de elementos do tráfico internacional de drogas;
5) nos bastidores de cada evento (e tendo um papel cada vez mais importante) aparece o Projeto Juízo Final – ou a estrutura alternativa do plano de emergência, com suas próprias redes de comunicação, operando uma rede obscura no exterior dos canais governamentais regulares.”
O autor desse artigo, o canadense Peter Dale Scott, é ex-diplomata e professor de inglês na Universidade da Califórnia (Berkeley). Tem diversos livros sobre política interna estadunidense.
Tomei a liberdade de colocar “eventos profundos” entre aspas porque se trata de um conceito do autor (“deep events”), que o define assim: “eventos obscuros ou mal apresentados pela grande mídia, cujas origens são misteriosas mas freqüentemente conectadas aos serviços de inteligência, atribuídas a forasteiros marginais mas ligadas a forças poderosas e secretas que possuem o intento de alterar o curso da História”. De minha parte, transcreveria a expressão como “eventos obscuros”, mas mantive a tradução literal.
A página da Rede Voltaire disponibiliza duas versões do texto: uma em inglês e outra em francês.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
No lombo

Amanhã os paulistanos entrarão na maravilhosa era da tunga ambientalista. Milhões de consumidores surpresos serão obrigados a pagar R$ 0,20 para acondicionar cada conjunto de três ou quatro volumes, se não quiserem expô-los à chuva ou carregá-los em caixas infectas. A genial armadilha de lucratividade imediata renderá fortunas aos supermercados nos primeiros meses, e aos fabricantes de sacos de lixo para todo o sempre.
Àqueles que tiveram a sensatez de provisionar estoques de embalagem, fica um aviso de futurólogo: muitos estabelecimentos mobilizarão suas guardas privadas para reprimir ou dificultar a entrada de sacolas plásticas, sob alegação de combater furtos e a propaganda dos concorrentes. Estejam preparados também para a oportuna escassez de caixas e mesmo de opções recicláveis mais baratas.
Mas não acreditem no aparente bom-senso dos acomodados. O sonho dos mercenários é convencermo-nos de que não vale a pena brigar “por tão pouco”.
Àqueles que tiveram a sensatez de provisionar estoques de embalagem, fica um aviso de futurólogo: muitos estabelecimentos mobilizarão suas guardas privadas para reprimir ou dificultar a entrada de sacolas plásticas, sob alegação de combater furtos e a propaganda dos concorrentes. Estejam preparados também para a oportuna escassez de caixas e mesmo de opções recicláveis mais baratas.
Mas não acreditem no aparente bom-senso dos acomodados. O sonho dos mercenários é convencermo-nos de que não vale a pena brigar “por tão pouco”.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Mata ou corre

Perspectivas alvinegras para 2012
Entusiasmados pelo acesso, os pontepretanos aplaudiram com justiça a administração Sérgio Carnielli. Continuo achando, porém, que ela erroneamente menospreza a força de um título para resgatar a imagem do clube e a auto-estima do torcedor. É temerário vislumbrar esses objetivos apenas na construção do novo estádio ou numa sofrida e secundária participação na mafiosa “elite” do futebol brasileiro.
Essas prioridades são incompatíveis porque demandam estratégias opostas. Para vencer um torneio decidido em “mata-mata” (Campeonato Paulista ou Copa do Brasil), o clube precisa de alguns atletas excelentes e caros, investimento maciço no curto prazo, contratos que prevejam transferências antes do segundo semestre. Já os pontos corridos requerem muitos jogadores medianos e mais baratos, planejamento duradouro, contratos longos.
É ilusório achar que a Ponte Preta, com o tratamento subalterno que recebe, conseguiria manter o elenco milionário e vitorioso por um ano inteiro, principalmente depois do tão cobiçado título. A opção sacrificaria as pretensões do time na disputa nacional, e talvez até o devolvesse à segunda divisão, mas bem sabemos que o rateio desigual de verbas faz do Campeonato Brasileiro uma farsa previsível manipulada pela Rede Globo. E desse arranjo a Ponte jamais fará parte, ao menos enquanto for incapaz de conquistar sequer um troféu estadual.
Estamos trocando o duvidoso pelo certo, é verdade, mas a um custo institucional que deveria ser medido com mais responsabilidade e participação da comunidade alvinegra. A regularidade sem brilhos que garante o clube na série A também o reduz a uma eterna posição coadjuvante em todos os torneios. Falta arrojo para quebrar essa redoma de confortável mediocridade, brindando a torcida com um motivo legítimo de orgulho.
sábado, 21 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Bunker

Um adendo ao comentário sobre “A privataria tucana”.
Nos capítulos finais do livro, Amaury Ribeiro Jr conta como foi envolvido numa disputa interna pelo comando da candidatura presidencial de Dilma Rousseff. Rui Falcão, atual presidente do PT, é acusado de vazar informações para a imprensa com o intuito de prejudicar seus adversários, Fernando Pimentel em particular. O autor teria sido atacado por um suposto envolvimento com eles.
O trecho sobre o episódio soa um tanto exagerado. Quem já vivenciou o cotidiano de um desses bunkers de coordenação eleitoral sabe que as intrigas e sabotagens relatadas são comuns e até previsíveis. O clima é sempre de competição, desconfiança, inveja. Ninguém ali (ao menos acima de certo nível de responsabilidade) tem a mínima ilusão de estar entre inocentes desapegados. Acho difícil acreditar que Ribeiro Jr, profissional de vasta quilometragem no meio, cairia em logros de arapongas ou permitiria que arquivos fossem roubados de seu computador. Mesmo que o relato seja verdadeiro, porém, incluí-lo suscita dúvidas que pouco têm a ver com o tema central da obra.
Pode-se argumentar que, na passagem citada, Ribeiro Jr reafirmou sua imparcialidade, esclareceu as acusações de que foi vítima e até vingou-se dos golpes sujos que sofreu. Mas ele também jogou uma estranha semente de rejeição no único partido com força política para pressionar o Legislativo e o Judiciário rumo às investigações que a obra reivindica. Do ponto de vista estratégico, é um equívoco rudimentar, pois atrai a repulsa generalizada para a reportagem. Talvez o autor já estivesse prevendo a má-vontade dos petistas com a CPI, fornecendo uma pista para explicá-la. Mas não seria mais prudente conceder uma chance ao livro, em vez de aniquilá-la no primeiro momento?
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Remoto

A gritaria em torno do Big Brother ajuda a elevar sua audiência e lhe confere uma visibilidade nova em fóruns de discussão que normalmente o ignorariam. A Globo conseguiu salvar o programa do desinteresse geral e criou uma boa oportunidade para veicular suas pomposas declarações de princípios.
Apesar das costumeiras bravatas dos patrulheiros da moral progressista, acho que não houve exagero na reação da militância feminina. E fico bastante satisfeito em perceber que ela teve direta responsabilidade nas duas ou três horas de reuniões indignadas que esfumaçaram os gabinetes globais nestes dias. Mas gostaria de ver mais comentaristas questionando a veracidade da cena de estupro e sua conveniência para (quase) todos os envolvidos.
O caso é grave sim, ainda que tenha sido forjado. Ao mesmo tempo, contudo, parece-me que alguns exageram seu alcance ou, no mínimo, imputam-lhe uma simbologia que esbarra na paranóia transcendental. Defender a proibição do BBB, especialmente com base no discutível mantra “valores éticos da pessoa e da família”, é uma resposta equivocada ao problema. Seria mais produtivo, por exemplo, debater a previsível omissão da suposta vítima (que tende a anular as implicações legais do qüiproquó), à luz do que ocorre cotidianamente em todas as delegacias do país.
Apesar das costumeiras bravatas dos patrulheiros da moral progressista, acho que não houve exagero na reação da militância feminina. E fico bastante satisfeito em perceber que ela teve direta responsabilidade nas duas ou três horas de reuniões indignadas que esfumaçaram os gabinetes globais nestes dias. Mas gostaria de ver mais comentaristas questionando a veracidade da cena de estupro e sua conveniência para (quase) todos os envolvidos.
O caso é grave sim, ainda que tenha sido forjado. Ao mesmo tempo, contudo, parece-me que alguns exageram seu alcance ou, no mínimo, imputam-lhe uma simbologia que esbarra na paranóia transcendental. Defender a proibição do BBB, especialmente com base no discutível mantra “valores éticos da pessoa e da família”, é uma resposta equivocada ao problema. Seria mais produtivo, por exemplo, debater a previsível omissão da suposta vítima (que tende a anular as implicações legais do qüiproquó), à luz do que ocorre cotidianamente em todas as delegacias do país.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
“A privataria tucana”

A leitura é envolvente, menos confusa do que sugere o novelo de tramóias financeiras, empresas e personagens. Lamento apenas que o autor às vezes escorregue por um estilo informal demais, recorrendo a gírias e exclamações que o afastam da sisuda reportagem que o tema exigia. Repetições ociosas e alguns erros vocabulares poderiam também ser corrigidos em edições futuras.
A documentação apresentada é sólida. Há lacunas, mas elas são daquele tipo que nunca seria preenchido por uma investigação realizada sem o aporte de instituições policiais e judiciárias (talvez nem assim). A maioria das ilações, porém, corresponde a um primário bom-senso e resultam críveis, para não dizer óbvias.
É ridículo minimizá-las com a alegação de serem “requentadas” ou inconclusas. As coincidências entre a dilapidação do patrimônio estatal brasileiro e os valores exorbitantes movimentados por empresas de gente ligada ao processo deveriam suscitar avassaladoras mobilizações da imprensa, do Ministério Público e do Congresso Nacional. Apenas as atividades conhecidas e registradas da filha, do genro, do primo e de amigos próximos de José Serra bastam para enterrar sua carreira política e sujeitá-lo a uma devassa implacável.
Tudo isso aconteceria se o caso envolvesse uma liderança petista. Coisa muito pior ocorreu, até com inocentes, nos afamados escândalos dos governos Lula e Dilma. Amaury Ribeiro Jr realizou o mínimo que se espera de um jornalista responsável: ele apenas compilou informações que, embora sempre estivessem disponíveis, foram solenemente ignoradas pela grande imprensa. Agora basta que as autoridades sigam os elos e busquem respostas às muitas indagações levantadas.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
“Pronto para recomeçar”

Novo esforço do comediante Will Ferrell para ser considerado um ator dramático. Não chega a decepcionar, talvez porque evite os extremos da visceralidade hiper-realista de certo cinema autoral contemporâneo.
A premissa vem de um conto de Raymond Carver (1938-88), “Por que não dançam?”, da coletânea “Do que estamos falando quando falamos de amor”. Mas o roteiro preserva apenas o tema central de quase toda a obra de Carver, o alcoolismo e suas conseqüências, que afligiram o escritor desde a juventude até a morte prematura de câncer. A rápida cena descrita no conto não acontece e o gosto é um pouco de traição ao original.
O universo de Carver, amargurado e pessimista, impermeável a concessões melodramáticas, foi transformado para receber uma história de amizade e esperança. As doses cavalares de uísque e cigarro viraram latinhas de cerveja e churrascos no jardim. Onde o passado é irrelevante, as relações são vazias e a decadência inevitável, surgem boas memórias, solidariedade, recomeços.
As mudanças geraram um entretenimento agradável, que apazigua os fantasmas dessa cultura fanática pelas ilusões de salubridade. Mas não fazem justiça a um dos maiores autores da literatura estadunidense contemporânea (com quem, aliás, Farrell é bastante parecido). “Short cuts” (1993), de Robert Altman, foi mais fiel a ele, atingindo resultado superior.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
A cidade em questão

A especulação imobiliária nas regiões “revitalizáveis” canaliza boa parte do repúdio às desapropriações e às ações repressivas da polícia. A chamada gentrificação é mesmo um escândalo a ser combatido. Mas devemos considerar também os milhares de proprietários que moram, trabalham ou geram empregos naquelas áreas e que também se beneficiariam de eventuais melhorias nas redondezas. Há ainda mais gente que poderá encontrar oportunidades nos futuros empreendimentos que substituiriam os prédios abandonados e os terrenos ociosos. Um imenso potencial turístico, histórico, residencial, comercial e cultural poderia aflorar com essas transformações.
Ao mesmo tempo, contudo, o tema extrapola o âmbito social que tem monopolizado as discussões. Todos os anos, a ganância empresarial amontoa verdadeiras populações em bairros destituídos de infra-estrutura e serviços, que um dia abrigaram comunidades carentes e pequenas propriedades rurais. Esses minúsculos e supervalorizados apartamentos com paredes de gesso que se espremem pelos arrabaldes do caos urbano nascem da mesma engrenagem que produz favelas, desabrigados, shoppings centers, condomínios fechados e milícias privadas à custa da ineficácia do Poder Público.
Por isso o futuro das pauperizadas regiões centrais deve ser englobado por um debate urbanístico de vastas proporções. A preservação dos direitos dos ocupantes e o tratamento humanitário a dependentes de drogas e moradores de rua são importantes, mas constituem problemas de naturezas diversas. Misturá-los é abrir caminho para mistificações e demagogias desnecessárias.
Ao mesmo tempo, contudo, o tema extrapola o âmbito social que tem monopolizado as discussões. Todos os anos, a ganância empresarial amontoa verdadeiras populações em bairros destituídos de infra-estrutura e serviços, que um dia abrigaram comunidades carentes e pequenas propriedades rurais. Esses minúsculos e supervalorizados apartamentos com paredes de gesso que se espremem pelos arrabaldes do caos urbano nascem da mesma engrenagem que produz favelas, desabrigados, shoppings centers, condomínios fechados e milícias privadas à custa da ineficácia do Poder Público.
Por isso o futuro das pauperizadas regiões centrais deve ser englobado por um debate urbanístico de vastas proporções. A preservação dos direitos dos ocupantes e o tratamento humanitário a dependentes de drogas e moradores de rua são importantes, mas constituem problemas de naturezas diversas. Misturá-los é abrir caminho para mistificações e demagogias desnecessárias.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
A esquerda entorpecida

A expulsão dos moradores de rua das áreas centrais de São Paulo e a proposta de internação compulsória de usuários e dependentes de crack são gestos desesperados de um espírito repressivo que tenta espalhar seus tentáculos para não sucumbir junto com o fracasso das políticas proibicionistas antidrogas. Criminalização do tabagismo, leis secas, toques de recolher e outras medidas similares também personificam espasmos dessa reação, que age pelas brechas possíveis para fortalecer o controle estatal da individualidade, tentando compensar ou impedir o inevitável relaxamento das legislações repressivas.
Deve-se ter algum cuidado ao refletir sobre a legalidade dessas patadas autoritárias. Claro que o encarceramento de miseráveis e doentes é inconstitucional, mas, à luz de uma interpretação doutrinária dos direitos básicos de cidadania, o consumo privado de qualquer substância deveria receber idêntico resguardo. Ao mesmo tempo, entretanto, um legalista radical não veria problema em recolher pessoas que usam drogas nas vias públicas, que ameacem ou constranjam os passantes, que demonstrem sofrer de graves distúrbios físicos.
A esquerda precisa compreender que a abordagem policial tem respaldo na legislação e amplo apoio popular. Na ocupação das favelas cariocas o embasamento era semelhante, e lá tampouco serviu apelar para o discutível argumento da especulação imobiliária. Se quiserem mesmo transformar as coisas, os progressistas devem abrir caminhos institucionais para a reformulação do paradigma legal que envolve a produção, a posse e o uso das drogas. As bases dos governos Lula/Dilma têm perdido a chance de assumir a vanguarda desse debate, permitindo que a direita preserve suas políticas obsoletas e imponha remendos canhestros quando alguém ameaça questioná-las.
Deve-se ter algum cuidado ao refletir sobre a legalidade dessas patadas autoritárias. Claro que o encarceramento de miseráveis e doentes é inconstitucional, mas, à luz de uma interpretação doutrinária dos direitos básicos de cidadania, o consumo privado de qualquer substância deveria receber idêntico resguardo. Ao mesmo tempo, entretanto, um legalista radical não veria problema em recolher pessoas que usam drogas nas vias públicas, que ameacem ou constranjam os passantes, que demonstrem sofrer de graves distúrbios físicos.
A esquerda precisa compreender que a abordagem policial tem respaldo na legislação e amplo apoio popular. Na ocupação das favelas cariocas o embasamento era semelhante, e lá tampouco serviu apelar para o discutível argumento da especulação imobiliária. Se quiserem mesmo transformar as coisas, os progressistas devem abrir caminhos institucionais para a reformulação do paradigma legal que envolve a produção, a posse e o uso das drogas. As bases dos governos Lula/Dilma têm perdido a chance de assumir a vanguarda desse debate, permitindo que a direita preserve suas políticas obsoletas e imponha remendos canhestros quando alguém ameaça questioná-las.
sábado, 7 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Uma segunda Guerra Fria?

A diplomacia internacional observa com cautela a mais recente troca de vitupérios entre EUA e Irã. O que diferencia as circunstâncias atuais é o calendário eleitoral estadunidense, que poderia exigir uma demonstração de pulso da administração Barack Obama para neutralizar a eterna propaganda republicana a favor do intervencionismo.
Obama já demonstrou que continua refém de interesses ligados à indústria da guerra, essa macabra fonte de riquezas que abarcam desde a tecnologia extremamente avançada até o escoamento de combustível para imensas regiões populacionais estratégicas. E o lobby israelense, que tem uma força descomunal em Washington, acompanha a gradativa animosidade do gabinete belicista de Benjamin Netanyahu.
Mas por enquanto não parece haver motivos para o catastrofismo de alguns. O discurso agressivo da imprensa dos EUA e de Israel não encontra eco nas pesquisas de opinião realizadas junto aos respectivos eleitorados. O abandono do Iraque pelas forças estadunidenses também serviu para esfriar o ímpeto guerreiro de Netanyahu, que perdeu assim uma importante base para eventuais ataques ou invasões ao Irã. As turbulências na Síria (fadada a um ataque iminente), na Líbia e no Egito e as convulsões latentes em quase todo o mundo árabe levaram as potências européias a uma postura de apreensiva expectativa que está longe da ação militar ostensiva.
Ademais, Obama e seus aliados jamais entrariam numa guerra de resultado incerto contra um inimigo da força humana, material e política do Irã. Eles sabem que China e Rússia fariam oposição ferrenha a agressões contra um território de tamanho valor geopolítico. Uma constelação de republiquetas e tribos militarizadas abriria inúmeros focos de conflitos regionais que se espalhariam além dos limites da África e da Ásia. Na combalida Europa, com seu crescente antiamericanismo e suas largas populações imigrantes, a própria reação popular tomaria rumos imprevisíveis.
Como nos turbulentos anos posteriores à II Guerra Mundial, o cenário remete a um conflito de proporções planetárias que ninguém está preparado para enfrentar. Nem a suposta “ameaça” de um arsenal nuclear iraniano soa grave o suficiente para fazer de Obama, Netanyahu, Nicolas Sarkozy e Vladimir Putin os primeiros genocidas do novo milênio.
Obama já demonstrou que continua refém de interesses ligados à indústria da guerra, essa macabra fonte de riquezas que abarcam desde a tecnologia extremamente avançada até o escoamento de combustível para imensas regiões populacionais estratégicas. E o lobby israelense, que tem uma força descomunal em Washington, acompanha a gradativa animosidade do gabinete belicista de Benjamin Netanyahu.
Mas por enquanto não parece haver motivos para o catastrofismo de alguns. O discurso agressivo da imprensa dos EUA e de Israel não encontra eco nas pesquisas de opinião realizadas junto aos respectivos eleitorados. O abandono do Iraque pelas forças estadunidenses também serviu para esfriar o ímpeto guerreiro de Netanyahu, que perdeu assim uma importante base para eventuais ataques ou invasões ao Irã. As turbulências na Síria (fadada a um ataque iminente), na Líbia e no Egito e as convulsões latentes em quase todo o mundo árabe levaram as potências européias a uma postura de apreensiva expectativa que está longe da ação militar ostensiva.
Ademais, Obama e seus aliados jamais entrariam numa guerra de resultado incerto contra um inimigo da força humana, material e política do Irã. Eles sabem que China e Rússia fariam oposição ferrenha a agressões contra um território de tamanho valor geopolítico. Uma constelação de republiquetas e tribos militarizadas abriria inúmeros focos de conflitos regionais que se espalhariam além dos limites da África e da Ásia. Na combalida Europa, com seu crescente antiamericanismo e suas largas populações imigrantes, a própria reação popular tomaria rumos imprevisíveis.
Como nos turbulentos anos posteriores à II Guerra Mundial, o cenário remete a um conflito de proporções planetárias que ninguém está preparado para enfrentar. Nem a suposta “ameaça” de um arsenal nuclear iraniano soa grave o suficiente para fazer de Obama, Netanyahu, Nicolas Sarkozy e Vladimir Putin os primeiros genocidas do novo milênio.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Arapucas

Caiu a obrigação de sinalizar a existência de radares, fixos ou móveis, em qualquer sistema de tráfego. A justificativa formal soa bastante civilizada, mas não esconde o ímpeto arrecadador da medida. Basicamente porque deixa aos motoristas a tarefa de intuir se a via em que circula é “de trânsito rápido”, “arterial”, “coletora”, “local” ou “rural”, já que o Código de Trânsito Brasileiro prevê diferentes limites de velocidade para cada uma dessas categorias.
Ademais, existe um parágrafo no artigo 61 do mesmo Código que permite ao “órgão ou entidade de trânsito ou rodoviário com circunscrição sobre a via (...) regulamentar, por meio de sinalização, velocidades superiores ou inferiores àquelas estabelecidas no parágrafo anterior.” Quer dizer: é assim, mas pode ser assado, e o bocó só vai descobrir na conta que chegar pelo correio. Todo motorista que transitar numa estrada ou avenida em trecho intermediário entre os avisos de limite será tungado impiedosamente. Ou alguém tem dúvida sobre a futura localização dos radares móveis secretos?
Ótima estratégia para incrementar a arrecadação dos governos estaduais e municipais. Quando os veículos tiverem seus chips obrigatórios de fábrica e os pedágios urbanos e “proporcionais” forem disseminados, a tecnologia dos espiões eletrônicos poderá ser aproveitada para um gigantesco golpe tributário que atropelará as competências legislativas instituídas com essa finalidade.
Existem dezenas de outras medidas que realmente garantiriam a segurança dos motoristas e pedestres. Mas elas não dão lucro.
Ademais, existe um parágrafo no artigo 61 do mesmo Código que permite ao “órgão ou entidade de trânsito ou rodoviário com circunscrição sobre a via (...) regulamentar, por meio de sinalização, velocidades superiores ou inferiores àquelas estabelecidas no parágrafo anterior.” Quer dizer: é assim, mas pode ser assado, e o bocó só vai descobrir na conta que chegar pelo correio. Todo motorista que transitar numa estrada ou avenida em trecho intermediário entre os avisos de limite será tungado impiedosamente. Ou alguém tem dúvida sobre a futura localização dos radares móveis secretos?
Ótima estratégia para incrementar a arrecadação dos governos estaduais e municipais. Quando os veículos tiverem seus chips obrigatórios de fábrica e os pedágios urbanos e “proporcionais” forem disseminados, a tecnologia dos espiões eletrônicos poderá ser aproveitada para um gigantesco golpe tributário que atropelará as competências legislativas instituídas com essa finalidade.
Existem dezenas de outras medidas que realmente garantiriam a segurança dos motoristas e pedestres. Mas elas não dão lucro.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
“O fim da guerra”

“Maconha serve de remédio desde sempre. O primeiro tratado de ervas medicinais que se conhece, o Pen Tsao, concebido há 4.700 anos na China, já incluía referência destacada à canábis, e há registros de usos médicos em praticamente todas as civilizações antigas. Extrato de canábis era remédio na Índia desde a Antigüidade e, quando os ingleses chegaram lá, logo descobriram suas virtudes medicinais. Por isso o Império Britânico exportava extrato de canábis, que era vendido em farmácias do mundo todo, e provavelmente foi o anestésico mais usado contra dor de cabeça até o século XIX, quando a aspirina foi inventada.
A planta também era importantíssima na economia mundial, já que a fibra de seu caule, o cânhamo, era a principal matéria-prima de tecidos e papéis. Tecidos de cânhamo foram empregados nas telas de pintores da Renascença, nas velas dos barcos das Grandes Navegações e no papel da Declaração de Direitos que fundou os Estados Unidos da América.
Além disso, há relatos de uso ritual da canábis em várias partes do mundo. Um dos relatos mais célebres é o do historiador grego Heródoto, que, no século V antes de Cristo, descreveu o hábito dos citas, antigo povo do Oriente Médio e da Ásia Central, de, quando um rei morria, se fechar numa tenda de tecido, aquecer rochas até elas ficarem incandescentes e jogar maconha nas brasas, para produzir uma sauna psicoativa. No seu livro História, Heródoto compara o efeito da maconha nos homens enlutados ao do vinho entre os gregos: ‘Quanto mais sementes atiram ao fogo, mais se embriagam, até o momento em que se levantam e se põem todos a cantar de prazer’. O relato de Heródoto ganhou credibilidade em 1929, quando uma escavação arqueológica na Ásia Central encontrou restos de maconha torrada junto à estrutura de uma tenda, numa tumba cita antiga”.
Trecho de “O fim da guerra”, Denis Russo Burgierman (pp. 67/68)
A planta também era importantíssima na economia mundial, já que a fibra de seu caule, o cânhamo, era a principal matéria-prima de tecidos e papéis. Tecidos de cânhamo foram empregados nas telas de pintores da Renascença, nas velas dos barcos das Grandes Navegações e no papel da Declaração de Direitos que fundou os Estados Unidos da América.
Além disso, há relatos de uso ritual da canábis em várias partes do mundo. Um dos relatos mais célebres é o do historiador grego Heródoto, que, no século V antes de Cristo, descreveu o hábito dos citas, antigo povo do Oriente Médio e da Ásia Central, de, quando um rei morria, se fechar numa tenda de tecido, aquecer rochas até elas ficarem incandescentes e jogar maconha nas brasas, para produzir uma sauna psicoativa. No seu livro História, Heródoto compara o efeito da maconha nos homens enlutados ao do vinho entre os gregos: ‘Quanto mais sementes atiram ao fogo, mais se embriagam, até o momento em que se levantam e se põem todos a cantar de prazer’. O relato de Heródoto ganhou credibilidade em 1929, quando uma escavação arqueológica na Ásia Central encontrou restos de maconha torrada junto à estrutura de uma tenda, numa tumba cita antiga”.
Trecho de “O fim da guerra”, Denis Russo Burgierman (pp. 67/68)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Provisão

Você acredita que o dano ambiental das sacolas plásticas foi exagerado para vetar sua distribuição gratuita e assim aumentar as vendas desses insumos? Economiza água, eletricidade e combustível, separa o lixo criteriosamente, escolhe produtos orgânicos, resiste ao consumismo desenfreado e afinal gostaria que seus esforços cotidianos pela preservação dos recursos naturais fossem devidamente reconhecidos? Cansou de ser lesado/a por superstições ecológicas que servem apenas para inocentar os verdadeiros poluidores e enriquecer os oportunistas que bancam lobbies nos parlamentos?
Então, meu caro consumidor, minha querida cidadã, se os legisladores ainda não obrigaram a venda de embalagens plásticas onde você mora, trate de provisioná-las antes que seja tarde. Em São Paulo, por exemplo, o arbítrio começa a valer em janeiro.
Mande às favas a consciência pesada: os políticos não estão de fato preocupados com o planeta – se estivessem, obrigariam a distribuição gratuita das ótimas sacolas retornáveis ou de embalagens reforçadas de papel, tratariam de investir na separação e na reciclagem do lixo e, principalmente, fechariam as indústrias que despejam toneladas de espuma fétida nos rios de todas as metrópoles. Não, políticos e supermercadistas só querem o suado larjã do contribuinte. E as pequenas contravenções que alimentarão seu estoque (se é que de fato podem ser consideradas irregulares) ajudarão a salvar o planeta como você tanto fez até agora e continuará fazendo.
Transforme a visita aos supermercados, quitandas e empórios numa batalha pela própria integridade pessoal. Preocupe-se apenas em ludibriar os vigilantes do estabelecimento. Para o lixo doméstico, prefira aqueles sacos transparentes destinados a frutas e legumes: possuem diversos tamanhos, adequados à lixeira de casa, e são mais fáceis de furtar. Pegue quantos puder, enchendo os bolsos, espalhando volumes. Um limão, um saco. Uma pêra, outro saco. Arranca, arranca, arranca, guarda tudo, arranca outro e só então mete nele uma batata. Nos caixas, insira cada pequeno objeto em sacolas separadas. Quando ninguém estiver olhando, surrupie um chumaço e enfie junto às compras.
Depois cuide do tesouro, sabendo que cedo ou tarde ele será item de contrabandista. Esteja atento a novas oportunidades. “Quer uma sacolinha?” Sim, sempre. Várias. Mesmo que pequeníssimas, pois haverá lixinhos no carro, no escritório, para o Lulu incontinente. E, bolas, todos precisamos carregar coisas em suportes com alças.
Talvez seja um paliativo para gastos inevitáveis, mas não deixa de representar alguma economia (cada saquinho pode custar R$ 0,50 no varejo), especialmente para quem possui famílias numerosas. E sempre restará o alento de contrariar, mesmo que por poucos meses, esses energúmenos que se apropriam das boas causas.
Então, meu caro consumidor, minha querida cidadã, se os legisladores ainda não obrigaram a venda de embalagens plásticas onde você mora, trate de provisioná-las antes que seja tarde. Em São Paulo, por exemplo, o arbítrio começa a valer em janeiro.
Mande às favas a consciência pesada: os políticos não estão de fato preocupados com o planeta – se estivessem, obrigariam a distribuição gratuita das ótimas sacolas retornáveis ou de embalagens reforçadas de papel, tratariam de investir na separação e na reciclagem do lixo e, principalmente, fechariam as indústrias que despejam toneladas de espuma fétida nos rios de todas as metrópoles. Não, políticos e supermercadistas só querem o suado larjã do contribuinte. E as pequenas contravenções que alimentarão seu estoque (se é que de fato podem ser consideradas irregulares) ajudarão a salvar o planeta como você tanto fez até agora e continuará fazendo.
Transforme a visita aos supermercados, quitandas e empórios numa batalha pela própria integridade pessoal. Preocupe-se apenas em ludibriar os vigilantes do estabelecimento. Para o lixo doméstico, prefira aqueles sacos transparentes destinados a frutas e legumes: possuem diversos tamanhos, adequados à lixeira de casa, e são mais fáceis de furtar. Pegue quantos puder, enchendo os bolsos, espalhando volumes. Um limão, um saco. Uma pêra, outro saco. Arranca, arranca, arranca, guarda tudo, arranca outro e só então mete nele uma batata. Nos caixas, insira cada pequeno objeto em sacolas separadas. Quando ninguém estiver olhando, surrupie um chumaço e enfie junto às compras.
Depois cuide do tesouro, sabendo que cedo ou tarde ele será item de contrabandista. Esteja atento a novas oportunidades. “Quer uma sacolinha?” Sim, sempre. Várias. Mesmo que pequeníssimas, pois haverá lixinhos no carro, no escritório, para o Lulu incontinente. E, bolas, todos precisamos carregar coisas em suportes com alças.
Talvez seja um paliativo para gastos inevitáveis, mas não deixa de representar alguma economia (cada saquinho pode custar R$ 0,50 no varejo), especialmente para quem possui famílias numerosas. E sempre restará o alento de contrariar, mesmo que por poucos meses, esses energúmenos que se apropriam das boas causas.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Ao deus-dará

Campinas (SP) chega a 2012 sem um administrador eleito para esse fim. Demétrio Vilagra (PT), empossado após o afastamento de Hélio de Oliveira Santos (PDT), acaba de ser derrubado pela Câmara. A Justiça Eleitoral determinou que os próprios vereadores escolham o novo alcaide-tampão, para mais um ano de pândega ilegítima.
A eventual culpa de Vilagra perdeu relevância há meses. Os famosos R$ 20 mil que teria recebido como propina em um negócio obscuro não soam plausíveis para quem conhece o tamanho dos valores e interesses traficados numa cidade com cerca de 1,5 milhão de habitantes. E aquela história dele ser dado como “foragido” numa viagem de férias (e preso feito gângster na chegada ao aeroporto) foi difícil de engolir.
Não quero defender ninguém, blá, blá, blá. Mas as coisas ficaram convenientes demais para certa facção que sempre esteve unida em torno do governismo e agora reparte o butim desse mal disfarçado golpe de gabinete. Enquanto eles brincam de parlamentarismo, a cidade está abandonada, putrefazendo-se, à mercê de uma legislatura medíocre, contando os minutos para a próxima campanha eleitoral, cujo resultado até as crateras das ruas já conhecem.
O que transforma a província num caso relevante é que ela serve de palco para um vasto leque de arranjos que une desde as lideranças petistas nos Congresso Nacional até articuladores do governo demotucano de São Paulo, passando pelas diversas siglas agregadas às respectivas gestões. Há relatos mais ou menos velados acerca de um acordo multipartidário para garantir que Jonas Donizete (PSB) se candidate a prefeito sem adversários competitivos. O sacrifício de Vilagra garante o sucesso do esquema. Pura coincidência, como afirmarão os dirigentes do maroto PT paulista.
sábado, 24 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
“Tudo pelo poder”

O grande problema desses dramas sobre bastidores da política profissional (quase um gênero hollywoodiano) é que sempre lhes falta uma ponta de verossimilhança: tudo soa claro, sistemático e agradável demais para a tortuosa realidade. “Entreatos” (João Moreira Salles) e documentários de temática similar retiram sua força justamente da incontornável complexidade humana que escapa às limitações narrativas ficcionais. Por isso os melhores registros do universo político são os que arriscam a farsa e a alegoria.
Ressalvas à parte, o filme de George Clooney proporciona uma alternativa satisfatória às bobagens natalinas que dominam o circuito. Diretor preciso e seguro, Clooney extrai boas atuações do elenco poderoso (encabeçado por Ryan Gosling, pré-candidatíssimo ao Oscar por uma das várias produções que lançou este ano) e exibe as referências corretas para o estilo, especialmente a do saudoso mestre Sidney Lumet.
O enredo, apesar das simplificações, parece refletir acerca do governo Barack Obama, figura sugerida pelo personagem do candidato democrata cujos ideais progressistas sucumbem ao pragmatismo eleitoral. O pessimismo da abordagem anuncia-se no título original (“meados de março”), que remete à data romana em que Júlio César foi assassinado, depois da famosa traição. É a Hollywood liberal tentando entender e exorcizar suas próprias decepções. Temos algo a ver com isso também.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Manjuba

O Santos escapou de uma goleada ainda maior porque o Barcelona fez o que tinha de fazer e respeitosamente administrou o resto do jogo. Os campeões sequer pareciam cansados quando tudo terminou. Ao contrário de muitos, não achei monótono. Fiquei até um pouco emocionado em ver um time ganhar tão bonito sem sujar o uniforme, nitidamente se empenhando metade do que poderia.
Foi humilhante, sim, mas nem tanto pelo resultado previsível. Foi humilhante porque escancarou a pobreza do futebol brasileiro, dos seus cartolas megalômanos, da crônica bairrista, dos atletas supervalorizados, dos técnicos arrogantes, dessa gente medíocre que recebe salários inadmissíveis para ludibriar incautos. Que maravilhosa distância entre o mundinho manipulado de Ricardo Teixeira e o de seus assemelhados estrangeiros!
Como há tempos anunciávamos, bastaram marcadores competentes e uma arbitragem que não engole teatros para Neymar sucumbir aos seus óbvios limites. Compará-lo a Messi afronta o espírito universal do ludopédio, mas é ótimo para forjar delírios que depois evaporam como um sopro de tédio. Muricy Ramalho, com sua empáfia de gênio incompreendido, incentiva ilusões semelhantes (e as engoliu com a mesma areia indigesta). No fundo, eles se merecem.
Foi humilhante, sim, mas nem tanto pelo resultado previsível. Foi humilhante porque escancarou a pobreza do futebol brasileiro, dos seus cartolas megalômanos, da crônica bairrista, dos atletas supervalorizados, dos técnicos arrogantes, dessa gente medíocre que recebe salários inadmissíveis para ludibriar incautos. Que maravilhosa distância entre o mundinho manipulado de Ricardo Teixeira e o de seus assemelhados estrangeiros!
Como há tempos anunciávamos, bastaram marcadores competentes e uma arbitragem que não engole teatros para Neymar sucumbir aos seus óbvios limites. Compará-lo a Messi afronta o espírito universal do ludopédio, mas é ótimo para forjar delírios que depois evaporam como um sopro de tédio. Muricy Ramalho, com sua empáfia de gênio incompreendido, incentiva ilusões semelhantes (e as engoliu com a mesma areia indigesta). No fundo, eles se merecem.
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