quarta-feira, 26 de abril de 2017

A ética vitoriosa de Donald Trump



Publicado na página do Le Monde Diplomatique Brasil

A perplexidade generalizada com o resultado das eleições presidenciais nos EUA deixou escapar um ponto simples e fundamental: o sucesso de Donald Trump não ocorreu apesar de sua figura polêmica, mas exatamente por causa dela. Em outras palavras, o machismo, a xenofobia e a intolerância do candidato fizeram parte de uma bem-sucedida estratégia publicitária.

Isso significa que o republicano soube reproduzir a imagem de liderança que as pesquisas qualitativas demonstraram ser mais atraente para seu público-alvo. O risco de incorporar tal personagem nunca seria assumido, numa campanha bilionária, com centenas de profissionais envolvidos, se houvesse qualquer perspectiva de fracasso.

É ocioso especular sobre o artificialismo da figura. O sucesso empresarial de Trump já insinua uma sagacidade que, por natureza, tem pouco de espontânea. O fato é que, apesar das notórias idiossincrasias pessoais, nas eleições ele poderia ter optado pela temperança, adotando perfil ameno e hipócrita, como tantos candidatos similares. E perderia a disputa, pois ficaria associado à figura do político tradicional, que seus seguidores rejeitam.

A persuasão exercida por Trump não se deu tanto no universo argumentativo (o logos da retórica clássica) quanto na afinidade com a imagem-de-si (o éthos) que ele construiu através das suas propostas, calcadas em predisposições do eleitorado republicano. Daí o esforço quase caricato para negar os valores identificados com o campo democrata, em especial aqueles que compõem o repertório do “politicamente correto”, assimilado por seus opositores como elitista, hipócrita, burocrático, injusto.

Longe de ser a causa, portanto, Trump é sintoma de um fenômeno que os progressistas ignoraram por tempo demasiado, talvez porque receassem admiti-lo. E, de fato, ainda resistem a aceitar que a adesão à ética “antiética” de Trump ilustra o esgotamento de uma cultura política de pretensões universais e civilizatórias, tida como inerente a nações desenvolvidas e democracias consolidadas. Pelo menos a setores populacionais com certo grau de instrução, liberdades, acesso à internet, etc.

Esses aspectos são menosprezados também no Brasil. As análises hegemônicas nos debates locais parecem calcadas na ilusão de que o populismo não passa de um ardil para enganar os eleitores e manipular suas vontades e expectativas. É mais fácil demonizar ou ridicularizar certas figuras do que reconhecer que espelham tendências preexistentes, assumindo papéis que as satisfaçam no interior de pautas circunstanciais.

Para entender a ascensão de Trump, contextos e proporções à parte, basta acompanhar as redes digitais brasileiras. Nelas há exemplos cotidianos do crescimento de um espírito reacionário que amalgama diversos repertórios comuns, principalmente os contrários a pautas progressistas e em geral nascidos no antipetismo que se disseminou a partir do imenso esforço midiático a favor do impeachment.

Trata-se de um mesmo impulso represado, unindo as bolhas de ignorância da internet, à espera de alguém que o incorpore. É ingênuo acreditar que essa expectativa ainda não produziu resultados. Eles apareceram, apesar de esparsos e localizados, nas vitórias de candidatos municipais que apostaram no mesmo tipo de ética antipolítica adotado por Trump e que tiveram, como ele, um público predisposto a aceitá-la.

O sucesso das iniciativas regionalizadas configura o primeiro passo para o fenômeno atingir dimensões nacionais. Sua trama subjetiva aos poucos vai enredando contingentes urbanos cada vez maiores, norteados por crenças e princípios homogêneos que as plataformas locais naturalizam e fortalecem. E, de modo muito característico, a própria frustração das esperanças renovadoras alimenta esse arcabouço ideológico, pois o ceticismo perante os fiadores do discurso eleitoral ortodoxo recicla as potências desejosas de alternativas, ampliando-as para domínios de percepção do sistêmico e do global.

O perigo do ultraconservadorismo não reside na aparição de representantes modestos ou identificados com nichos radicais. Reside no fortalecimento desse imaginário até ele ganhar relevância estatística, atraindo a máquina partidária, o aporte financeiro e as lideranças prestigiadas que tornam qualquer projeto competitivo. Quando a causa passar a instrumento de pragmatismo eleitoral, sua fantasia ética estará pronta para quem se dispuser a vesti-la. E não será um diletante qualquer.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Lava Jato está no forno



O pior efeito colateral das delações dos executivos da Odebrecht é a credulidade que inspiram no público. Ávidas pelo teor escandaloso das narrativas, as pessoas deixam de contextualizá-las, isto é, de tomar a sua própria divulgação como parte de um fenômeno mais amplo e relevante do que o teor dos relatos.

Por que só agora vêm à tona os conhecidíssimos elos criminosos de certas figuras? Por que nada surgiu quando essa cáfila agenciava um golpe parlamentar em nome da moralidade? E por que os depoimentos apareceram de uma vez, sem o conta-gotas personalizado que outrora serviu para destruir reputações?

Essas perguntas têm respostas óbvias, e todas convergem para o suspeito oportunismo do episódio. Um viés estratégico, portanto, que o histórico abusivo e clandestino da Lava Jato faz necessário denunciar, senão mesmo combater.

Arrastando o mundo político brasileiro à lama, a turma da Odebrecht deu um presente aos berlusconis: forneceu-lhes o álibi do escopo pluripartidário que faltava para o bote final em Lula. Sua prisão já pode resgatar a fantasia original da Lava Jato, baseada na premissa de que os petistas seriam um ponto de partida para se atingir o resto.

Continua havendo apenas o ponto de partida. A generalização punitiva não ocorrerá, principalmente porque o instituto da delação é frágil. Sem provas cabais que a sustentem, o choque de versões resulta nulo, ou quase isso. O método pelo qual elas foram obtidas agrava o problema e fundamentará recursos bastante sólidos nas cortes superiores.

Mas nem precisaremos chegar a tanto. No caminho autodestrutivo dos processos há falhas de investigação, deslizes de conduta, vistas por tempo indeterminado, prescrições, todo um rol de obstáculos que impedirá o início da maioria dos julgamentos. Algo similar aconteceu no “mensalão mineiro”, apesar das promessas e expectativas.

Repete-se a dinâmica das famosas listas de Rodrigo Janot. Passada a histeria seletiva da mídia, os indiciamentos cairão nas catacumbas do Judiciário, fonte máxima das impunidades, para serem esquecidos até nova ordem. E as denúncias contra Lula irão à mesa de Sérgio Moro, afoito e rigoroso como ninguém.

Os inquéritos pedidos por Edson Fachin têm uma utilidade apaziguadora. Oferecem material para todas as filiações partidárias, cujas narrativas convergem no endosso tácito à Lava Jato. É a maior propaganda legitimadora que a operação teve desde que seus justiceiros maníacos viraram militantes involuntários da esquerda. Sem qualquer mudança real no quadro condenatório preestabelecido.

Parece incongruente dizer que Lava Jato vira pizza justo quando assimila dezenas de novos indiciados, afundando o PSDB no escárnio popular. Mas seria ainda mais ingênuo acreditar que a operação iria ao forno sem passar por essa fase catártica, especialmente depois que a Odebrecht entrou no jogo.

Ao mesmo tempo, se quisessem apanhar tucanos e asseclas (e se o STF permitisse), os berlusconis já o teriam feito. Usando os instrumentos coercitivos aplicados a petistas, armando grampos ilegais, apertando informantes graúdos, confiscando equipamentos, perseguindo aliados. Ignorando a mera necessidade de provas.

Décadas de máfias, privatarias, cartéis, e tudo que os justiceiros possuem para comprovar as boas intenções da Lava Jato é um punhado de historietas sabidamente inverificáveis, talvez em parte fantasiosas, levando a contas anônimas e reuniões secretas? Dando aos acusados os mesmos argumentos garantistas defendidos pela esquerda?

Ora. Esse é o melhor desfecho possível para a operação: um rápido constrangimento de figuras sem perspectiva eleitoral, o teatro da indignação farisaica, as chamas preguiçosas da lenha judiciária, a prisão de Lula, o terreno aberto a candidaturas salvacionistas em 2018. Basta cortar e servir. Bom apetite.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O que as ruas nos dizem



É justificada a ironia dos críticos da Lava Jato diante do fracasso das passeatas promovidas pelo fã-clube de Sérgio Moro. Mas convém não desvirtuar o vínculo das recentes manifestações com as hordas golpistas que desfilaram no ano passado.

A baixa adesão atual está longe de significar que o apoio aos justiceiros arrefeceu. Ela mostra, pelo contrário, que os protestos de outrora é que não serviam como demonstrações de respaldo à causa anticorrupção. Em outras palavras, às mobilizações faltava o ímpeto civilizatório e moralizante que seus apologistas usaram para justificá-las.

As comparações são eloquentes: bastou o evento perder o viés ideológico e as plateias sumiram. Saciada a compulsão de tirar o PT do poder e abandonada a ideia saneadora do impeachment, a turma da camiseta amarela voltou a seus lazeres dominicais. Talvez não esteja mais indignada. Ou talvez a retórica judicial seja incapaz de seduzi-la.

Isso diz muito sobre o caráter decorativo que as festejadas “ruas” tiveram no golpe. Fossem elas de fato relevantes, o STF e o Congresso Nacional estariam agora se mexendo para conter as reformas ilegítimas de Michel Temer e até acertando a sua deposição. Com auxílio da mídia corporativa, que há pouco se dizia reverente à vontade popular.

Nunca houve o fator “povo” nas aritméticas do golpe e da Lava Jato. Os parlamentares teriam aprovado o impeachment mesmo sem esse pretexto conveniente, como hoje o ignoram para lesar os trabalhadores. E não é porque Lula desfruta de imensa aprovação que o Judiciário deixará de persegui-lo sob o delírio de corresponder ao interesse público.

A desimportância efetiva das ruas não mudou. Tampouco a sua manipulação por setores que pretendem representar uma entidade fantasmagórica inapreensível fora do exercício do voto. Foi esse instrumento, aliás, que o golpe veio anular, em nome das grandes massas que elegeram o governo deposto.

A novidade reside no que as ruas evidenciam para além de apropriações oportunistas, tanto no vigor das passeatas de esquerda quanto no esvaziamento das de direita. E essa questão continua tendo menos importância no aspecto representativo do que num retrato ideológico da Cruzada Anticorrupção e das arbitrariedades cometidas em seu nome.

Mas não podemos subestimar a perspicácia da brava massa de manobra golpista. Sua indiferença pelo destino da base de apoio a Michel Temer equivale a um diagnóstico muito preciso dos ânimos da cúpula judiciária em relação aos mesmos personagens. Entre os motivos para o abandono da pauta moralista vigora uma incredulidade que ninguém se esforçará para contradizer.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Os limites de Moro



O melhor exemplo da tolerância que Sérgio Moro desfruta na cúpula do Judiciário, na imprensa corporativa e nos círculos favoráveis ao impeachment foi dado pelos debates sobre a condução coercitiva de Eduardo Guimarães. Embora os comentários repudiando o arbítrio de Moro tenham sido quase unânimes, a maioria usou adjetivos virulentos e radicalizados contra o blogueiro, reservando eufemismos suaves para o juiz, sempre com loas à importância da Lava Jato.

Culpar a vítima constitui vício antigo, de triste e reincidente memória. Mas o que chama a atenção é a condescendência geral com a atuação de Moro, como se o juiz estivesse a salvo da rigidez absoluta que ele próprio impõe a seus desafetos. Ou, ainda pior, como se o episódio ficasse restrito à simplória questão do sigilo de fonte, convenientemente transformada em foco hegemônico das críticas.

As regras para a condução coercitiva foram violadas, tanto na suas justificativas quanto nos seus procedimentos. Também o código da magistratura, no que se refere à suspeição do juiz, que o blogueiro denuncia em representação junto ao Conselho Nacional de Justiça. E há muito a questionar sobre a apreensão de bens e arquivos de informações no domicílio de uma testemunha que não foi sequer convocada a depor.

O recuo de Moro é manobra conhecida. Os grampos ilegais e os vazamentos igualmente ilegais de conversas entre Lula e Dilma já haviam rendido estrago irremediável quando o juiz se desculpou pelo “deslize”. Da mesma forma, à parte a simbologia intimidadora do gesto, nenhum lenitivo reverterá o ganho estratégico que o futuro silêncio de Guimarães (e de suas possíveis fontes) fornece a Moro no cerco definitivo ao ex-presidente.

A estratégia bate-e-assopra garante a sobrevivência do magistrado. Ele força a barra, consegue o que deseja, mede a repercussão e veste o figurino ético apropriado, afagando o cinismo da plateia. A cada onda de lamentos pelos arbítrios jorram manifestações de desagravo que mantêm o juiz no lado positivo das polêmicas e reforçam o seu status justiceiro. E estamos prontos para o próximo abuso em nome do interesse nacional.

Isso comprova a semelhança entre o malufismo jurídico da claque de Moro e a cegueira do “rouba mas faz” populista. O apreço à Lava Jato é ideológico, feito qualquer adesão incondicional a programas ou líderes partidários. Não opera no âmbito racional, numa leitura clara e sensata dos fatos e das disposições legais. Por isso ficou invencível no campo jurídico, dominado por um antipetismo de palanque.

Moro desconhece limites desde o início da operação que o notabilizou. Paradoxalmente, contudo, esse privilégio é sua maior fragilidade. As prerrogativas desmesuradas o tornam refém e parceiro de interesses cada vez mais ameaçados por circunstâncias que fogem ao controle da Lava Jato. Talvez chegue um momento em que os frutos dos superpoderes do juiz não valham o custo institucional de preservar os seus fiadores.

segunda-feira, 20 de março de 2017

O “isentão” e a neutralidade ideológica




Publicado no Observatório da Imprensa

Em meio à polarização que inflama os fóruns digitais, ganhou notoriedade uma linha argumentativa supostamente avessa a todos os flancos que porventura participem dos debates. A tendência, calcada no repúdio indiscriminado à esfera política, atrai descontentes que não querem se comprometer com programas e legendas. A eles ficou associada a alcunha “isentão”, que já entrou para o léxico informal da mídia brasileira.

Cabe esclarecer que não estamos no âmbito da relutância, da ambiguidade, da incerteza, do desinteresse e de outras reações compreensíveis diante de algum tema espinhoso. O diferencial do “isentão” reside tanto na postura incisiva, polêmica e amiúde raivosa nos debates políticos quanto na superfície retórica de objeção aos mesmos comportamentos. É uma espécie de hooligan da (falsa) neutralidade.

Claro que esse discurso é tão ideológico quanto outro qualquer. Podemos vislumbrar repertórios de valores bem marcados no seu punitivismo inflexível, no ódio à militância, no individualismo anticoletivista e meritório, enfim, numa rede simbólica ligada a práticas sociais tipicamente conservadoras, talvez mesmo reacionárias. Além disso, há ali o sintoma clássico da ideologização, o esforço para tornar um posicionamento natural, desapegado, incontroverso.

Assim como todo silêncio alude a um não-dito com certo grau de especificidade, o recurso à aparência de isenção está contaminado pelo viés que procura esconder. Ela funciona a favor de algo que precisa ser negado para garantir sua própria legitimidade junto aos interlocutores. No caso, em meio a disputas inflamadas de narrativas com vínculos eleitorais, tenta-se apagar as marcas de interesses político-partidários cujo desmascaramento quebraria o feitiço niilista da antipatia giratória.

Tais ligações sobressaem na predominância de eixos argumentativos que partem de um antagonismo radical a certas identidades políticas, mas que se tornam cuidadosamente generalizantes, perdendo a contundência e a especificidade, quando se aproximam de outras. O repúdio localizado e o desalento global formam uma estrutura discursiva coesa, fundada na sua própria incoerência, isto é, no vetor indutivo que dela resulta.

Como bom produto ideológico, o “isentismo” demanda adesão completa. Todas as suas manifestações se assemelham na intransigência com que defendem as respectivas linhas de raciocínio e desqualificam o espírito crítico, particularmente do cidadão politizado, estigmatizando as controvérsias que ele provoca. É fácil entender a força que adquire o antipetismo, por exemplo, nesse simulacro de intercâmbio.

O apego ao chamado “discurso único” remete à imprensa corporativa, de onde partem os enunciados que os falsos apartidários reverberam sobre si mesmos. Também o jornalismo tendencioso precisa do ramerrão da objetividade para legitimar suas preferências. O afã de escondê-las, de resto bastante suspeito, revela a tolerância que a dissimulação adquire junto ao público-alvo desses veículos.

Sintomaticamente, outro forte elo intertextual dos “neutros” vem do campo Judiciário, espécie de modelo ético daquele grupo. Na mitologia objetivista, onde os magistrados são idôneos por natureza, a repetição de quimeras igualitárias parece dirimir a prática tendenciosa que as contradiz. Delas nasce o mote favorito do cinismo antitudo, a defesa de punições judiciais isonômicas que jamais acontecem e nas quais ninguém acredita realmente.

O “isentão” personifica a falência de um programa conservador que em outras épocas teve status de plataforma eleitoral. Sem nortes programáticos, frustrados por lideranças indefensáveis, seus adeptos constroem uma nova identidade ocultando os resquícios da antiga, mantendo, porém, o mesmo conteúdo e as mesmas estratégias de persuasão. O menosprezo à democracia representativa é apenas o canal mais conveniente para essa reciclagem de velharias autoritárias.

sexta-feira, 17 de março de 2017

“Moonlight”



Drama bonito e delicado sobre muitos temas sensíveis. A predominância dos azuis, especialmente de certos tons que se tornaram meio gastos no cinema artístico recente, aqui pelo menos tem razão de ser. Grata surpresa o equilíbrio entre a câmera irrequieta, próxima, expressiva, e o tratamento contido de um texto com forte carga dramática.

O Oscar para Mahershala Ali soa exagerado. Mas a consagração do filme é defensável, talvez a mais justa da Academia nas últimas décadas. Qualquer prêmio desse porte deve ser norteado pela relevância histórica da obra e, nas atuais circunstâncias, “Moonlight” adquire um peso enorme, que suplanta a sua modéstia original e lhe acrescenta algo de nobre e exemplar.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Sobre a união das esquerdas



No cenário eleitoral de 2018, há dois setores relevantes do campo progressista: os grupos que orbitam ao redor de Lula e aqueles antipáticos à sua proeminência. Ambos os flancos são inconciliáveis, pois têm como diferencial privilegiado a figura do ex-presidente e as posturas antagônicas que ele provoca.

Essas divergências espelham narrativas opostas sobre fenômenos decisivos da política brasileira recente. Uma delas envolve a natureza golpista do impeachment e o papel do PT no processo. Outra, a ideologização do Judiciário e as “excepcionalidades” da Lava Jato, incluindo o justiciamento ideológico de Lula.

O conflito de versões é inevitável, assim como a cizânia resultante. A esquerda antipetista vê tantas dificuldades em se afastar dos seus apoios velados ao golpe e aos inquisidores judiciais quanto o PT em coadunar com as forças que tentam destruí-lo. Especialmente porque a discórdia está inserida numa dinâmica de responsabilização mútua pela tragédia administrativa e moral que acomete o Poder Executivo.

Mas o problema tem seu lado estratégico. Depois das derrotas municipais e diante da absurda falta de quadros, o PT jamais poderia abrir mão de uma candidatura que as estatísticas apontam como a mais forte da esquerda, senão de todo o espectro partidário. Mesmo não encabeçando a chapa, Lula desfruta de uma popularidade que lhe confere status natural de liderança articuladora no seu círculo de influência.

Já os demais partidos do espectro usam esse antagonista simbólico para resguardar a sua identidade programática, mergulhada em profunda crise representativa. A Rede teve quase o mesmo número de votos, no país todo, que Fernando Haddad na capital paulista. O PSOL nacional perdeu para João Doria. Marcelo Freixo para si mesmo, em 2012. Pouco resta às legendas senão evitar um confronto direto com o antipetismo que dominou os programas conservadores vitoriosos. Ou até adotá-lo.

As pesquisas sobre 2018 sugerem que esse afastamento será fundamental para levar a dissidência progressista ao segundo turno. O desafio exige o enfraquecimento da candidatura associada ao lulismo e a sedução de fatias descontentes do seu eleitorado. O embate interessa também ao PT, que prefere mil vezes polarizar com um adversário abertamente conservador na fase derradeira.

É inútil, portanto, esperar uma aproximação que não agrada a nenhuma das partes envolvidas. E que, sejamos honestos, apenas manteria a esquerda isolada, internamente dispersa em altercações ressentidas e centralizando ataques de todos os outros flancos. A divisão aumentará a diversidade dos questionamentos ao governo Temer, talvez resultando mais danosa à direita do que um bloco frágil e estigmatizado.

Se quiserem mesmo posar de pragmáticas e expeditas, as alas progressistas podem selar um acordo pluripartidário informal, para coordenar estratégias que levem os seus membros ao máximo de cadeiras no Congresso, sem confrontos inúteis, tendo como inimigo comum o pemedebismo fisiológico. Já seria um grande avanço, e talvez o mais urgente na atual conjuntura.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Privilégios



Há algo muito esquisito na metamorfose que vem sofrendo a percepção pública acerca do STF. Menos de um ano depois de servir como alicerce moral do golpe, a corte virou uma espécie de paraíso da delinquência política. E quem o diz é a própria claque da Lava Jato, com suporte da mídia corporativa.

A demonização marqueteira do foro privilegiado, que já alcança o nível de campanha civilizatória, só pode ser tomada como afronta à idoneidade do tribunal. Caso contrário, o julgamento dos egrégios ministros, com a rapidez e o rigor que lhes cabem, seria visto como a grande arma da cruzada anticorrupção.

O que teria mudado nesse curto período? Como foi possível se deteriorar tanto a imagem de uma instituição festejada há pouco pelos mesmos setores que ora a desqualificam? E ainda hoje tais interesses não continuam sendo protegidos pelo STF?

As respostas estão disponíveis na lista dos personagens ameaçados pelas novas delações da Odebrecht. Ou melhor, daqueles que ocupam cargos legislativos ou de primeiro escalão governamental, isto é, que ficariam à mercê do STF em eventuais indiciamentos. Sem as prerrogativas de foro, escapariam do julgamento sumário e sorveriam as benesses protelatórias das instâncias inferiores. Como Eduardo Azeredo, por exemplo.

Uma revisão do foro livraria o STF do desgaste maior de, no futuro próximo, desmontar o paradigma punitivo que vigorou com o PT no poder. A corte já não sabe direito o que fazer com os réus perigosamente tagarelas que ameaçam desmoronar o governo Temer. O acréscimo da temível nobreza tucana ao rol de indiciados não anuncia outra saída senão uma humilhante complacência garantista que, a partir desses protegidos, inviabilize parte da rede probatória da Lava Jato.

Some-se a isso as pretensões de Lula, cada vez mais fortalecidas e, nestas circunstâncias, irrefreáveis. A possibilidade dele ser jogado às feras curitibanas, à parte o estrago que causa numa disputa eleitoral, exime o STF de lidar com as ações envolvendo o petista. Condenar um réu aclamado pelas urnas, em processos frágeis e talvez irregulares, demandaria certos sacrifícios que os ministros não devem estar dispostos a fazer.

Também a cúpula da Lava Jato amealha benefícios na luta contra o foro privilegiado. Na pior das hipóteses, transforma a prerrogativa (e o STF) em bode expiatório para o previsível degringolar da operação. Na melhor delas, concede às cortes intermediárias o poder de selecionar as suas vítimas e de aniquilar carreiras políticas antes que a corte máxima interponha as tardias correções.

De fato, nunca houve tanta gente no país preocupada com a questão da impunidade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Diferentes diferenças



A nomeação de Lula à Casa Civil, em março passado, tinha potencial para impedir o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Tanto que foi sabotada, numa artimanha duplamente ilegal, e a conspiração teve êxito.

Reduzir o episódio a uma tentativa de obstrução da Justiça parece um meio de salientar a contradição do STF no indulto ao ministério de Moreira Franco. Mas não passa de uma deturpação para ofuscar as cruéis diferenças que separam ambas as circunstâncias.

Sim, os casos são diversos. O de Lula teve singularidade estratégica e simbólica que sua biografia já deixaria evidente, para além do escandaloso ineditismo do grampo telefônico. O foro especial do secundário Moreira Franco trará no máximo constrangimentos ao STF.

Por isso não convém cair na armadilha de tornar as situações equivalentes, como se o tratamento a Lula fosse aceitável e, portanto, devesse atingir também o peemedebista. Repudiar o arbítrio seletivo não implica defender a sua generalização.

Tampouco se trata de argumento favorável à decisão de Gilmar Mendes contra o petista. Usando supostas evidências que o próprio STF declarou inaceitáveis, o ministro lavrou uma canetada que atingiu o cerne da autonomia institucional no país. Celso de Mello tornou o erro original ainda mais peculiar quando evitou repeti-lo.

É falacioso comparar o status legal de Lula e Moreira, Dilma e Temer, sob um prisma que os iguale, mesmo em princípio. Há muito esse tipo de imbróglio fugiu ao âmbito jurídico, estabelecendo-se numa seara cujo pressuposto básico é o cinismo oportunista.

Nesse universo de disparidades inatas, o posicionamento ideológico do analista se revela nas diferenças que ele escolhe para criticar.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

“Demônio de neon”



Nicolas Winding Refn tem uma obra variada e complexa. É impossível reduzir os dramas realistas da trilogia “Pusher” e de “Drive”, os pesadelos sombrios de “Bronson”, “Medo X” e “Guerreiro silencioso” e as fábulas estilizadas de “Só Deus perdoa” e “Demônio de neon” a um mero fascínio visual pela violência.

David Lynch, Quentin Tarantino e Martin Scorsese são referências óbvias de seus trabalhos, principalmente os mais recentes, onde os estilos dos três se misturam. Parte da crítica torce o nariz para o diretor dinamarquês, contudo, talvez porque ele seja bom demais em mimetizar seus ídolos, atraindo o espectador para um cinismo que eles não ousam destilar.

Imagino que o universo imoral e ofensivo de “Demônio” provoque respostas variáveis, dependendo da experiência que se tem com aberrações cinematográficas. De minha parte, a demência dos personagens teve um impacto muito menor do que a beleza hipnótica da ambientação kitsch (ou seria camp?), levada a extremos pouco vistos na atualidade.

Em outras palavras, a fotografia de Natasha Braier (um espetáculo de iluminação captado em digital), a direção de arte de Austin Gorg e a música de Cliff Martinez valem o desconforto. E há também a crítica feroz ao universo da moda, à competividade feminina e à mercantilização do corpo na selva midiática. Tudo muito polêmico, etc., mas ninguém disse que o cinema precisa ser apenas seguro e confortável.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Conspiração



É inútil esperar grandes revelações sobre o episódio que vitimou Teori Zavascki. Jamais saberemos toda a verdade, seja pelas dificuldades técnicas e materiais de qualquer apuração do tipo, seja porque a improvável descoberta de indícios criminosos dificilmente chegaria aos seus eventuais autores, menos ainda aos mandantes.

Resta-nos uma espécie de disputa narrativa em torno da própria incerteza com a qual teremos de conviver. Mesmo sem esperança de sanar as suspeitas plausíveis, sugiro que as protejamos dos rótulos paranoides que elas recebem de crédulos e cínicos. Duvidar é sempre o caminho menos alienante.

Isso tem relevância porque envolve a simbologia da morte de Zavascki, esfera em que a manipulação age com mais desenvoltura. Há algo estranhamente passivo no conformismo fatalista alimentado às custas da tragédia. Parece que todos se preparam para um futuro inexorável de horrores trazidos pela ira divina. Sem resistência.

Por que não ocorre o contrário? O uso das notórias posições de Zavascki para pressionar o substituto a respeitá-las em seus votos? Para que os ministros do STF reconheçam e preservem esse legado? O esclarecimento da opinião pública acerca dos caminhos que os processos sob análise do falecido tomariam sem a tragédia?

Não precisamos buscar estratégias conspiratórias nas causas da queda do avião. Suas consequências são graves o bastante. A simples possibilidade delas terem nascido de uma sabotagem deveria servir para interditar os desdobramentos óbvios pretendidos pelos hipotéticos assassinos. Mas sussurramos “que peninha” e seguimos adiante.

Curioso esse comportamento surgir nos supostos defensores da Lava Jato. E justo naqueles mais céticos e avessos à tese do atentado hollywoodiano. Mas eles têm razão. O que importa é o desfecho ser convincente.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Três vezes Isabelle



Felizes coincidências me colocaram diante de três filmes recentes protagonizados pela maravilhosa Isabelle Huppert. São universos bem distintos: “Elle” é um suspense erótico (na falta de rótulo melhor), “Mais forte que bombas” um drama familiar e “O que está por vir” uma reflexão filosófica sobre o tempo e as gerações.

As obras têm tratamentos parecidos, talvez para explorar o dom inigualável de Huppert no registro contido, minimalista. Daí que mesmo as passagens mais dramáticas ou violentas transcorrem num clima de sugestão e enigma.



Nessa levada, “O que está por vir” me pareceu mais rico, instigante e provocador. Não é o melhor cinematograficamente, pois mestre Paul Verhoeven dá uma aula de ritmo e ambientação em “Elle”. Mas a premiada condução da jovem Mia Hansen-Love tem o mérito de, reduzindo a carga emocional da protagonista em sua desventura amorosa, evidenciar toda a complexidade de um texto muito especial.



“L´Avenir” (o futuro): o abandono e a velhice da mãe de Nathalie; ela própria, com seu conformismo cético e sua solidão anunciando o destino das utopias coletivistas e revolucionárias dos alunos; o neto recém-nascido, sob o pranto assustado da jovem mãe, que é também filha, nova e antiga ao mesmo tempo...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Dezessete (preguiça, desalento, vontades)



Antes que eu pudesse esboçar perspectivas, os primeiros fatos do ano vieram inviabilizá-las. Mesmo os desdobramentos das grandes emoções de 2016 já não parecem suficientes para anteciparmos as turbulências inevitáveis de 2018. Reféns da imprevisibilidade, atropelados por sobressaltos, flertamos com a desesperança.

Esse ambiente de susto e incerteza me apanha reflexivo, cheio de urgências, mudanças, riscos. Certa sensação de esgotamento dos modelos expressivos que vinha utilizando, mas também desejo de ampliar horizontes, buscar vias novas.

Um desamparo preguiçoso diante da selva de textões que saturam as redes digitais, alimentando miríades de bolhas discursivas indiferentes à controvérsia e ao debate. Uma desconfiança do intercâmbio algorítmico e da obsolescência que ele pretende impor a espaços digressivos fora dos seus cubículos de vidro.

Cansaço de novidades que reciclam velharias. De intelectual cínico. De esquerda que defende índio mas apoia meganhas e excelências. Da burrice orgulhosa de si mesma e da raiva que a incentiva. Do provincianismo barulhento, feio, doméstico. De velharias que inspiram falsas novidades.

O desejo de resgatar o viés subjetivo da página pessoal, ou melhor, de preservá-lo da traiçoeira sedução da ágora feicibuquiana. Um apego extemporâneo à ideia de autoria, como antídoto contra a suruba diletante virtual. Talvez apenas a impressão de que algo relevante se perde quando levo as coisas a sério demais.

A certeza do recomeço. Do passo seguinte que cada passo engendra. Essa ideia permanecerá latente: a necessidade da mudança. Ou seria a dura constatação de sua inevitabilidade?