quarta-feira, 30 de julho de 2014

Gigantes sanguinários

 

As sanções de EUA e Europa contra a Rússia, anunciadas em pleno massacre de civis palestinos, releva todo o cinismo da diplomacia ocidental.

Por um lado, serve de manto propagandístico que encobre a nova ofensiva da tática dos fatos consumados que Israel utiliza há décadas para inviabilizar a divisão da Palestina em dois Estados.

Por outro, usa de maneira brutal e oportunista as tragédias ucranianas para desqualificar um movimento separatista que em outros lugares seria visto como legítimo e democrático. E força uma radicalização ainda maior do governo Putin.

O Brasil pode até ser o “anão diplomático” mencionado pelo porta-voz israelense, mas seu governo pelo menos não bombardeia escolas e hospitais, e tampouco incentiva a histeria e a violência para ganhar uns trocados eleitoreiros.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A ditadura que eles querem






















As turbulências em torno das detenções de manifestantes levaram certos analistas políticos a tratá-los como heróis libertários, supostas vítimas dos arbítrios do malvado governo petista. Trata-se de uma perigosa inversão de valores.

A legalidade das prisões deve ser cobrada do Judiciário, fonte cotidiana de equívocos e abusos que amiúde trazem a marca da politização, do revanchismo e do pendor ao espetáculo midiático. Alguns petistas acabam de ter suas vidas destruídas por altos membros desse Poder.

Mas os desvios judiciais não desqualificam a necessária punição aos black blocs, nem representam ataques às liberdades democráticas. A criminalização dos protestos violentos começa na Constituição Federal. Ali consta o veto à máscara, à destruição do patrimônio e ao bloqueio surpreendente de vias públicas. A base jurídica dos inquéritos é sólida, portanto, e dispensa abstrações ideológicas.

A espinhosa e longeva discussão sobre a legitimidade de certos atos criminosos remete ao conceito de “desobediência civil”, importante na resistência a Estados totalitários e a normas inaceitáveis cuja mudança parece impossível em determinados ambientes. Seria esse o caso dos black blocs? Há que ache que sim.
           
Discordo humildemente. O problema incontornável da questão reside no objetivo a ser alcançado pelo dano material ou simbólico impingido a terceiros. O vandalismo não atende às necessidades básicas de sobrevivência. Não há rocambole conceitual que transforme a destruição de patrimônio em direito individual a ser preservado.

Se aceitarmos que a violência estatal justifica reações descontextualizadas (sem causa direta e imediata), precisaremos tolerar que o vandalismo hipotético ou já havido sirva de pretexto para episódios gratuitos de brutalidade fardada. O esforço para preservar o Estado de direito deve ser o mesmo quando ele é afrontado por instituições, empresas, grupos organizados ou indivíduos.

Essa não é uma luta entre mocinhos e bandidos. Assim como a incompetência das forças policiais possui conveniência político-eleitoral, também o descalabro judicial precisa ser visto com enormes reservas. O mito propagandístico da “ditadura petista” une os interesses dos black blocs e os das forças conservadoras que outrora os glorificavam e hoje contribuem para sua vitimização. Quanto mais arbitrário o tratamento conferido aos manifestantes violentos, mais estimulados e fortalecidos eles ficam.

sábado, 26 de julho de 2014

“Blues For Allah Medley”



Música do Grateful Dead, de 1975. A banda chama-se Jazz Is Dead, e a versão é de 1998: Jimmy Herring (guitarra), Alphonso Johnson (baixo), Billy Cobham  (bateria), Terry Lavitz (teclados).

sexta-feira, 25 de julho de 2014

“O Grande Hotel Budapeste”






















Wes Anderson é outro desses diretores que transitam num universo todo próprio, muito característico, inconfundível. Tem a ver com ambientação, ritmo, paleta de cores, dramaturgia. Ou seja, com estilo: os raros movimentos da câmera, a fotografia em tons quentes e pastéis, o gestual farsesco.

O elenco reúne uma constelação de atores e atrizes de primeiríssimo nível, a começar pelo protagonista Ralph Fiennes. Mas os melhores momentos ficam a cargo de Tony Revolori e sua expressividade frágil, tragicômica.

Anderson constrói uma narrativa onírica, cheia de camadas que se sucedem e interpõem, jamais perdendo a humanidade dos personagens e a verossimilhança dos símbolos que eles incorporam. Homenagem sutil e delicada ao cinema mudo, com uma ponta de melancolia, mas também com enorme generosidade.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Manipulação impune






















A mídia trata as suas deturpações contra a Copa do Mundo brasileira como acidentes de percurso, retratos momentâneos de uma espécie de alucinação coletiva pessimista que teria levado toda a sociedade ao engano. Mais uma vez, a imprensa se esforça para jogar as patranhas na conta da famosa “opinião pública”.

A ingenuidade não serve de álibi para o jornalismo profissional. Através de um trabalho rudimentar de apuração e de um tratamento cuidadoso da boataria anti-Copa, os veículos teriam evitado boa parte das bobagens que mancharam a cobertura do torneio. Principalmente as publicações estrangeiras, que embarcaram na onda alimentada pelos equivalentes locais e passaram vergonha junto com eles.

A revista alemã Sipegel cometeu uma capa assustadora, com o título “Morte e jogos”. O texto, de Jens Glüsing, fazia previsões sombrias de "protestos e greves, problemas com infraestrutura e violência". Correspondente anônimo da Economist anunciou um colapso nos transportes brasileiros, e foi seguido por Jonathan Wheatley, do Financial Times. Certo Patrick Hill assinou matéria hilariante para o The Daily Mirror, cujo título dispensa comentários: “Manaus assassina: torcedores ingleses enfrentarão partida da Copa do Mundo num dos lugares mais perigosos do planeta”.

É bem verdade que as fontes não ajudaram. O presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Augusto Nardes, por exemplo, bradou que o Brasil iria “passar vergonha” na Copa. O CEO da Avianca, José Efromovich, disse ao The Wall Street Journal que os problemas com vôos eram inevitáveis. O aeroporto de Fortaleza não teria condições de receber metade dos torcedores para a partida Brasil x México. E Ronaldo confessou-se envergonhado, para delírio dos fãs.

Mas foi nas colunas de opinião que a futurologia irresponsável atingiu o ápice. José Cruz (UOL) escreveu em janeiro que a Copa teria “repercussão internacional desastrosa” e representaria “um pesadelo”, “uma bomba”. Editorial do Estadão ponderou que seria “de bom tamanho se o Brasil não protagonizar um vexame sem precedentes na história das Copas”. Juca Kfouri (Folha) via “atrasos irrecuperáveis” e um prejuízo “vergonhoso” para a imagem do país.

Também na Folha, Eliane Cantanhêde levantou suspeitas generalizadas de corrupção em torno das melhorias destinadas à Copa. Depois chamou a situação de “preocupante”, denunciando investimentos “poucos e mal utilizados”, obras “a passos de tartaruga”, falta de compromisso “com prazos, com o usuário brasileiro, com as levas de turistas.” Arnaldo Jabor (CBN) vaticinou que o torneio iria “revelar ao mundo a nossa incompetência”. E Marília Ruiz (Terra), perguntava, indignada: “sete anos para fazer essa Copinha do Mundo? (...) Vai ser um vexame. Um ve-xa-me”.

Apesar de todos os equívocos, não houve uma linha explicando-os. Nenhum repórter se deu ao trabalho de inquirir novamente os antigos profetas do apocalipse acerca de suas antecipações macabras. Os geniais comentaristas deram de ombros, como se tivessem apenas cumprido obrigações funcionais, isentos e rigorosos que são.

Essa turma agora retorna fazendo ponderações equilibradas sobre a Copa, inventando um lugar digno para aqueles que tentaram sabotá-la. Os pimpões torcem para que, daqui a dois anos, tenhamos esquecido os prejuízos causados por suas mentiras. Não será tão fácil.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

“O teorema zero”






















Terry Gilliam retorna ao universo exagerado e caótico de “Brazil” (1986). Também existe algo de “Os 12 macacos” (1996), embora a principal ligação que mantenha com este seja a referência explícita ao clássico “La jetée” (1962), de Chris Marker. Em todos os casos, inclusive na obra-prima do mestre francês, a tecnologia possui uma aparência arcaica e desajeitada, mas exerce grande poder sobre a vida humana.

A produção, de recursos limitados, aposta na cenografia e nos figurinos para criar um ambiente retrógrado e kitsch, cheio de traquitanas, cores berrantes, muitos ícones que marcaram os primórdios da informática. O conjunto visual remete aos filmes toscos de ficção científica das décadas de 1960 e 70.

O elenco tem diversas estrelas em papéis coadjuvantes. Christoph Waltz, um dos maiores atores do cinema atual, entrega-se ao protagonista com o vigor de sempre. Sua figura tem muito de Bob Geldof em “The wall”, e há uma cena com a excelente Mélanie Thierry que talvez admita essa menção.

Mais do que uma distopia futurista, é uma crítica mordaz ao mundo contemporâneo. Tem momentos hilariantes, muitos detalhes curiosos, trilha sonora impecável. Parecerá meio barroco e histérico para os espíritos mais serenos, mas é desse estranhamento que retira sua força.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O exemplo alemão














Andam exagerando a importância do planejamento e da administração no título da Alemanha. A Asociación del Futbol Argentino não é nenhum baluarte nesses quesitos e seu time perdeu a final com um gol no segundo tempo da prorrogação. Dando um belo calor nos festejados germânicos.

Se fatores gerenciais decidissem torneios, a história do futebol seria outra. O Brasil talvez jamais tivesse conquistado sequer uma Copa. Não haveria surpresa, sorte e azar, superações e falhas individuais.

Além disso, precisamos ter cuidado ao incensar demais os primores da Alemanha. As máfias de apostas e os esquemas de compra de resultado, para não citar patologias coletivas de triste permanência, afastam o país de um modelo inquestionável.

O “projeto alemão” é competente em diversas áreas, inclusive no marketing que seduz os seus anfitriões de ego machucado. Evitemos, pois, confundir o título alheio com a imagem que fazemos dos vencedores. Esse equívoco nos levaria a alimentar utopias que apenas ocultariam a real natureza do nosso fracasso.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Depois do vexame
















Enfim ocorreu a hecatombe da seleção brasileira de futebol, longamente gestada nas entranhas putrefeitas da cartolagem. Era questão de tempo: um dia o pragmatismo tosco, a arrogância e a mediocridade chegariam a uma combinação explosiva que a sorte, a arbitragem e o talento individual seriam incapazes de neutralizar.

Faltava o desequilíbrio emocional para inflamar esse caldo melífluo. O patriotismo histérico dos jogadores já não parecia alvissareiro, principalmente em meio à tola “obrigação” de vencer o título. A vitimização de Neymar e a falta de comando da comissão técnica terminaram de ruir a frágil estabilidade do elenco.

A crônica esportiva agora fala em “mudar tudo”, em “revolucionar” a administração futebolística do país, em “bom senso”. Mas são palavras ocas. Ninguém aponta soluções práticas ou medidas pontuais e viáveis que de fato ajudem a reformular o sistema. Há apenas discursos genéricos e propostas paliativas que seguem os interesses dos grandes times e dos veículos de comunicação, os maiores apoiadores de José Maria Marin.

Mudanças reais no futebol brasileiro só viriam com a distribuição igualitária de verbas televisivas, limitações do poder das emissoras, restrições ao assédio de jovens atletas, regulamentação da atividade dos empresários, projetos nacionais de apoio a aspirantes, fortalecimento dos times interioranos, profissionalização da arbitragem, moralização dos tribunais desportivos, mecanismos de controle das gestões da CBF e dos clubes.

Todas essas mudanças passam por um papel mais ativo do Estado. Nascem de uma decisão política de tratar o esporte como área de interesse público, e não um feudo particular de castas inatingíveis que funciona por regras próprias.

O medinho da imprensa ao enfrentar o assunto não tem nada a ver com as ameaças da FIFA, que jamais arriscará a desmoralização de punir um pentacampeão mundial, sede da mais festejada Copa da história. O fantasma do intervencionismo estatal oculta a tentativa de manter os privilégios do esquema vexatório. Da mídia não virá qualquer iniciativa moralizadora do futebol brasileiro.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Inteligência padrão FIFA


















Dois grupos humanos predominam entre os inimigos da Copa do Mundo: os incautos e os maliciosos.

Os primeiros compartilham uma singela ignorância acerca das bases econômicas, administrativas e legais de eventos desse porte. Pouco importa se são desinformados, crédulos ou preguiçosos, pois a sinceridade os redime. Eles acreditam mesmo que o governo federal construiu estádios a fundo perdido, que haveria mais escolas, hospitais e linhas de metrô sem a competição, que superfaturamentos, atrasos e politicagens não ocorrem no resto do planeta. A Copa só lhes fornece o bode expiatório mais oportuno para as mazelas cotidianas que os afligem.

A outra categoria agrega uma elite intelectualizada, com experiência, capacitação profissional e às vezes bagagem acadêmica para discernir as tolices do imaginário anti-Copa. Esses formadores de opinião sabem como funcionam as parcerias público-privadas, os contratos estaduais e municipais, as desapropriações, os muitos interesses conflitantes em jogo. Apesar de tudo, porém, manipulam estatísticas, falseiam comparações e espalham mentiras para legitimar os equívocos da maioria ingênua.

A intransigência dos maliciosos é proporcional à simplicidade do repertório indignado que eles adotam. Quando refutamos certas ponderações honestas, mas conceitualmente equivocadas (chamar os empréstimos tomados junto ao BNDES de “gasto público”, por exemplo), recebemos floreios argumentativos que se empobrecem até culminar na tese de que o país simplesmente “não está preparado” para sediar eventos internacionais. A menor discordância diante desse delírio provinciano liberta uma avalanche de jargões rasteiros e ofensivos que inviabilizam qualquer debate.

Grande referência dos diletantes sabujos, o comentarismo dito “especializado” viola sistematicamente sua obrigação ética de manter fidelidade aos fatos. Culpa o governo federal por atrasos em obras a cargo de administrações regionais e companhias privadas. Lamenta a falta de sinal para internet e outros serviços capengas sem citar um único nome de empresa. Festeja a seleção da CBF como se ambas não tivessem nada a ver com as arbitrariedades da FIFA. Cobra investimentos estatais quando faltam e os demonizam quando existem.

A recente adesão do jornalismo cínico à causa rentável da Copa busca sacramentar as deturpações enquanto fatos consumados, livrando-as de análises críticas. As tentativas tardias de forjar uma racionalidade imparcial em torno de certos mitos sobre o torneio soam ridículas. Provam apenas que os veículos agiram conscientemente desde o início, desqualificando o torneio e incentivando seus sabotadores antes que a repercussão positiva fornecesse dividendos políticos para a gestão Dilma Rousseff. Garantido o estrago, agora temem que as turbas manipuladas constranjam os anunciantes.

Incautos e maliciosos são responsáveis pela bizarria que domina os questionamentos sobre a Copa do Mundo. Em vez de discutir as raízes corporativas e institucionais do desperdício de recursos, da falta de planejamento e dos improvisos, o público reproduz baboseiras ideológicas de mal disfarçado pendor eleitoral. Nunca houve tanta gente se dizendo preocupada com a imagem do país, que, no entanto, jamais sofreu tamanha desmoralização. A solidariedade com as populações carentes atinge níveis inéditos, mas não tolera os benefícios que elas podem receber do torneio malévolo.

Os maiores legados da Copa serão a hipocrisia, o oportunismo e a manipulação. Nada mais próximo do tal padrão FIFA, tão reivindicado pelos baluartes republicanos.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mal das penas

















A candidatura de Aécio Neves está em situação pior do que repercutem seus comparsas jornalísticos. Por causa do tempo escasso de propaganda e da incômoda e mal disfarçada aliança com o PSB de Eduardo Campos, a escolha do candidato ou da candidata a vice da chapa presidencial ganhara importância estratégica.

Talvez lhe faltassem boas alternativas. A de Ellen Gracie parecia alvissareira para a campanha tucana, apesar da falta de valor político agregado que a escolha traria. Mas de longe a menos indicada seria uma oriunda do próprio PSDB: nenhum minuto a mais no horário gratuito, poucos horizontes programáticos, restrito alcance partidário, tendência ao isolamento e à radicalização.

Como então explicar o anúncio do senador Aloysio Nunes para vice de Aécio? Os analistas simplórios dirão que é para fortalecer o eixo entre Minas Gerais e São Paulo, com vistas à maior concentração regional do eleitorado e ao imaginário desenvolvimentista que ainda sobrevive no discurso tucano. Mas existe um motivo bem menos esperto e lisonjeiro no arranjo.

A idéia principal é agradar José Serra, eterno desafeto do ex-governador mineiro, suserano dos feudos paulistas do PSDB. Nunes, amigo de Serra, garantiria a unidade do projeto, evitando a previsível debandada dos quadros serristas, já bastante ocupados em manter o quinhão estadual. O apoio do quercismo, onde o senador possui boas relações, também ajuda na opção.

Uma candidatura nacional que precisa abrir mão de um posto chave para garantir a unidade partidária em torno de pinimbas regionais não soa exatamente sólida e promissora.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A contraditória punição a Suárez














O atacante Luis Suárez mereceu ser suspenso pela ridícula mordida no adversário italiano. E a reincidência (quase) justifica o rigor dos comissários. Mas a decisão da FIFA está sujeita a muitos questionamentos.

As câmeras dos estádios flagram todos os detalhes de uma partida da Copa do Mundo, inclusive agressões físicas, provocações e insultos de graus variáveis. O mesmo vale para as simulações dos jogadores e as infrações que árbitros e assistentes ignoram ou assinalam equivocadamente. Por que a FIFA não busca essas imagens para preservar a justiça de resultados contestáveis?

Os puristas acreditam que o “erro humano” faz parte da experiência futebolística. Ora, se queremos preservar o imponderável nos jogos e se o juiz não viu a abocanhada de Suárez, ela deveria ser desconsiderada para sempre, igual a tantos outros eventos negativos que passam incólumes como contingências do espetáculo. Por outro lado, se a deslealdade merece castigos extemporâneos, seria coerente aplicá-los em quaisquer circunstâncias.

A FIFA utiliza o recurso visual de maneira seletiva: dispensa-o nas situações agudas que podem decidir títulos e utiliza-o para surpreender traquinagens que não interferem no resultado de uma partida. Posa de guardiã do “jogo limpo”, mas escolhe as vítimas de uma intolerância que, generalizada, afastaria muitos astros internacionais do espetáculo rentável das transmissões.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

“Antes do inverno”






















Provocou reações disparatadas na crítica, em parte por causa das expectativas geradas pelo suspense que conduz o enredo e pelo desfecho ambíguo e melancólico. Mas o casal de protagonistas, vivido por dois atores soberbos (Daniel Auteuil e Kristin Scott Thomas), garante a qualidade do entretenimento.

O ritmo é vagaroso, naturalista, lembrando “Caché” (Michael Haneke), com o mesmo Auteuil. Também possui algo dos dramas matrimoniais de François Truffaut e das intrigas policialescas de Claude Chabrol. O diretor Philippe Claudel narra com elegância e constrói uma ambientação caprichada, usando sabiamente as transições temporais sugeridas pelo título.

Atuações à parte, o aspecto mais interessante do filme é fazer das suspeitas e das revelações um meio de refletir sobre temas complexos como o envelhecimento, a culpa, o amor e a amizade.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Palavrão limpinho















É difícil abordar os xingamentos a Dilma Rousseff sem repetir as condenações ao espírito jeca e boçal de certas castas privilegiadas cujo padrão ético se baseia no esculacho e na patifaria. Causa algum incômodo, porém, o reiterado esforço para despolitizar a atitude, como se ela fosse vazia de intencionalidades e cargas simbólicas.

Toda ação pública possui sentidos políticos, e ofender uma autoridade governamental revela um posicionamento ideológico indiscutível. Não apenas pela iniciativa de repúdio, pois o vocabulário, o contexto, a ocasião e a vítima seguem escolhas militantes cheias de significados. Então por que os comentaristas procuram ignorar esses sinais?

Na superfície notamos o receio de vitimização da presidenta, aliado à vergonha diante do repertório intelectual oposicionista. Mas arrisco sugerir que também existe aí o temor inconfesso de que o grau de organização das brutalidades ultrapasse a utopia conveniente de um gesto espontâneo dos grupos ignóbeis. A eventual descoberta de que o ritual grotesco nasceu numa articulação do submundo partidário é bastante assustadora para que ninguém se aventure a sequer especulá-la.

Mas, claro, se a turma exigisse, durante uma cerimônia importante, a sodomia de Geraldo Alckmin ou Aécio Neves, o jornalismo civilizado já teria descoberto mil e uma conspirações. Até mesmo as plausíveis.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Quem fustigou os imbecis?

 
















Alguns jornalistas indignaram-se com as ofensas de setores das arquibancadas contra a presidenta Dilma Rousseff. Mas é fácil agora criticar um comportamento que a própria mídia insuflou sistematicamente ao longo dos últimos anos.

Se os nobres comentaristas tivessem atuado com responsabilidade e rigor investigativo, questionando as mentiras e deturpações proferidas acerca da Copa do Mundo em vez de reproduzi-las, talvez hoje o nível dos debates fosse menos polarizado e medíocre.

Em vez de fazerem um pouquinho de jornalismo, os colunistas preferiram agir como se fossem militantes de botequim. Sabendo que cedo ou tarde teriam de aderir ao evento, quiseram garantir uma imagem tortuosa de independência, atirando bobagens a esmo, talvez porque apostassem que um fracasso da Copa viria confirmá-las.

Esse populismo apenas fortaleceu a “elite branca” e os reacionários hidrófobos que acham correto insultar um chefe de Estado num evento internacional. A crônica esportiva não queria seduzi-los? Pois então que se vire com seus novos amiguinhos.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Mentiras que você ouve (e repete) sobre a Copa














As fontes das informações são acessíveis através dos links

Os estádios brasileiros custaram mais

Mesmo considerando as melhorias nos arredores, apenas o Mané Garrincha e o Maracanã tiveram custo por assento acima do observado nas arenas da Alemanha e da Coréia do Sul. Ainda assim, os dois citados custaram menos que o Saporo Dome, o Nissan Stadium (ambos no Japão) e o Cape Town Stadium (África do Sul). Nenhum dos brasileiros chegaria ao 20º lugar numa lista dos estádios mais caros do mundo.

Houve superfaturamento generalizado

As obras do Beira-Rio, do Mané Garrincha, da Arena da Baixada, do Maracanã e do Mineirão consumiram de 63% a 167% a mais do que o previsto, mas as outras sete arenas apresentaram variações consideradas aceitáveis. Em projetos estruturais complexos, essa margem oscila ao redor de 25%. A Fonte Nova foi realizada dentro da expectativa inicial. A Arena Pernambuco e o Castelão ficaram abaixo dela.
  
Superfaturamento só acontece aqui

Na Copa da Alemanha (2006), somando todas as sedes, as obras em estádios saíram 50% mais caras do que o orçado inicialmente. E lá a grande maioria das arenas foi apenas reformada. Na África do Sul (2010), os gastos ultrapassaram as expectativas em quase 700%. No estádio de Wembley (Inglaterra), esse índice chegou a 250%, passando de 245 milhões de libras (1997) para 600 milhões de libras (2000), sendo que a metade veio de empréstimos governamentais. Há muitos estudos apontando que os projetos de arenas esportivas, em todo o mundo, tendem a exceder o previsto. O fenômeno de deve a um leque múltiplo de razões, que as construtoras poderiam elucidar, se algum veículo ousasse questioná-las. Mas as empreiteiras são anunciantes da grande mídia, certo?

Corrupção é coisa nossa

Os escândalos recentes das apostas no futebol alemão causam prejuízos de 200 bilhões de euros. Repito: duzentos bilhões de euros, juntando propinas a jogadores, cartolas e árbitros. Na Coréia do Sul e na Itália ocorreram casos semelhantes. Na Copa da França, o escritório local da ISL envolveu-se em esquema criminoso de bilhetes fantasmas.

Dinheiro jogado fora

Se clubes e governos locais tiverem um mínimo de competência gerencial, as arenas construídas para a Copa do Mundo serão pagas com facilidade. Só a movimentação financeira proporcionada pela Copa das Confederações ultrapassou o custo dos doze estádios destinados ao torneio mundial, que deve gerar arrecadação três vezes maior, totalizando uma entrada de R$ 140 bilhões na economia do país. Boa parte desse montante será recolhida em tributação estadual e municipal.

Verbas públicas

Nenhum empreendimento de porte nacional é viável sem participação do Estado. A Copa da França (1998) teve pesados investimentos públicos, seja do Ministério da Juventude e dos Esportes, seja das municipalidades. Na Alemanha de 2006, metade dos recursos teve origem estatal. Em 1974 foi tudo pago diretamente com dinheiro público. Os exemplos abrangem outros esportes de massa: nos EUA, os estádios do Yankees (Nova York), do Florida Marlins (Miami),do Cowboys (Dallas), do Mets (NY) e do Colt (Indianápolis) foram construídos com gigantescos repasses municipais.

Sem Copa, mais escolas e hospitais

Essa já foi demolida até pela Folha de São Paulo, cujos analistas passaram anos dizendo justamente o contrário. Os gastos do governo federal na Copa equivalem a uma semana dos investimentos que ele realiza em educação. Somando-se as melhorias adjacentes, chega a um mês do montante gasto na área. Mas é sempre bom lembrar que as comparações do tipo guardam distorções graves, pois os nossos problemas de infra-estrutura básica são gerenciais, e não financeiros.

O BNDES não serve para isso

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social financia projetos públicos e privados em diversas áreas produtivas. Planeja investir mais de R$ 700 bilhões na indústria até 2017, sendo que apenas o setor químico recebeu nos últimos anos cerca de R$ 24 bilhões, três vezes o aporte destinado pelo banco de fomento à Copa. Para ficar num exemplo localizado, o grupo OI, de telecomunicações, terá empréstimos de mais de R$ 5 bilhões. Dificilmente algum desses beneficiados gera os três milhões de empregos-ano criados pela Copa no período 2010-2014.

O legado inexistente

Aos poucos surgem matérias descobrindo as heranças “esquecidas” pela imprensa partidária nos últimos meses. A Folha de São Paulo, por exemplo, já admite que 53% dos projetos foram concluídos e que 41% o serão “durante ou depois da Copa”. Quer dizer, até dezembro podemos ter 94% das melhorias prometidas. Esses avanços incluem desde a criação de empregos à mobilidade urbana, passando pela modernização de aeroportos e de instalações turísticas. Nas campanhas eleitorais de governadores e prefeitos vão chover responsáveis por um legado que não existia até outro dia mesmo.

 A bagunça brasileira

Sílvio Lancellotti foi um dos comentaristas que lamentaram a desorganização da Copa nos EUA (1994). Lá os estádios e seus arredores chocaram pelo improviso e receberam reclamações generalizadas. Na França (1998), as subsedes não ofereciam estrutura adequada, o Stade de France tinha problemas no gramado, houve confusão no credenciamento de jornalistas, ação aberta de camelôs, greve dos condutores de trem e até um movimento anti-Copa. Na África do Sul, as críticas foram tamanhas que é difícil selecionar uma fonte.

Não há transparência

Basta acessar aqui, ou aqui, ou aqui para descobrir. Depois tente fazer o mesmo com os pedágios do governo de Geraldo Alckmin.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Copa das Copas















Publicado no Amálgama

A Copa do Mundo brasileira é motivo de comemoração e deve ser preservada contra qualquer iniciativa que tente sabotá-la. Apenas os cínicos, os obtusos e a imprensa partidária têm justificativas para desejar o fracasso do evento. Essa patologia vira-lata que se tornou moda nas redes sociais reflete um esforço para dar vapores modernos e republicanos às antigas tendências xenófobas, preconceituosas e elitistas do imaginário colonizado.

Óbvio que há problemas de planejamento, execução e controle. Talvez haja corrupção. Embora o governo federal tenha sua parcela de culpa, nenhuma análise honesta sobre esse ônus pode ignorar o papel das grandes corporações privadas e dos administradores regionais. As construtoras dos estádios, as empreiteiras contratadas para melhorias, as prestadoras de serviços e as concessionárias também precisam responder por atrasos, desvios e negligências. Governadores e prefeitos, pelas verbas que receberam do BNDES e que retiraram dos próprios orçamentos.

Os debates sobre a Copa transformaram-se em propaganda eleitoral para impedir que Dilma Rousseff receba os merecidos benefícios de popularidade pelo grande evento que ajudou a viabilizar. Generalizações falsamente neutras (“governo”, “dinheiro público”, “bagunça”, “a resposta virá em outubro”) servem para livrar os políticos locais e as empresas de questionamentos que embaralhem o maniqueísmo da indignação farisaica. A solidariedade com os pobres termina assim que eles votam no inimigo petista.

Continuo desejando uma derrota vexatória da seleção. O sucesso dos jogadores-de-empresário patrocinados pela CBF e pela rede Globo simbolizaria o triunfo de um sistema viciado que manipula e apodrece o futebol nacional. Não é à toa que ele recebe o fervoroso apoio da crônica esportiva, tão rigorosa nas suas denúncias contra a FIFA. A farsa patriótica em torno da empáfia grosseira de Felipão e seus atletas milionários é um insulto aos seguidores de Ponte Preta, Guarani e outros clubes massacrados pela cartolagem televisiva, sob aplausos hipócritas da imprensa bairrista.

A propósito, não acho que um título seria positivo para a campanha dilmista. Primeiro porque o nexo é desautorizado historicamente. Segundo, e mais importante, porque o voto nesse ano atribulado tende à ruptura de expectativas e condicionamentos. O eleitor susceptível a tais influências parece mais propenso a votar seguindo um viés oposto a seus estímulos de torcedor do que alinhado com eles.

Gosto daquilo que o jargão “Copa das Copas” insinua, sem querer, sobre a multiplicidade nacional. São mesmo torneios diversos no mesmo evento. Há os sem-teto, índios, desapropriados, estudantes, vândalos, colecionadores de figurinhas, a nova classe média, a elite deseducada, fanáticos e indiferentes, bons e maus funcionários, bandidos, crianças, amigos, casais, preços abusivos, crimes, revolta, festa, esculacho, prazer, filas, sustos, o beijo e a porrada.

Nenhuma razão para vergonha. O Brasil não é, felizmente, a ilusão homogênea e previsível que os provincianos acalentam. Quanto mais polêmica, desafiadora e contraditória for a experiência da Copa, mais potente e complexa a imagem que o país construirá, inclusive para os brasileiros. Essa riqueza também inclui os oportunistas que se dedicam a destruí-la.