segunda-feira, 2 de março de 2015

Não em nome do Charlie Hebdo














Na disputa shakespeariana sobre ser ou não ser Charlie, a tragédia em Paris serviu como reforço argumentativo para versões curiosas da liberdade de expressão, convenientes a cada grupo ou setor produtivo. Depois de tudo que se escreveu, resta a sensação de que esse conceito ficou ainda mais fragilizado e inatingível.

Sempre haverá espaço para discutir se o conteúdo veiculado pela publicação francesa abarca preconceitos religiosos. Mas nenhum cartunista do mundo tem obrigação de agradar sensibilidades. A manifestação criativa, principalmente nos campos da ficção, do opinionismo e do humor, não pertence à esfera polêmica. É soberana, imprescindível para a própria existência de um debate acerca dos seus produtos.

A idéia de que os cartunistas se excediam, além de admitir um inaceitável subtexto punitivo, implica o falacioso pressuposto de que eles estariam sujeitos a certas barreiras de ordem moral. Esse equívoco ajuda a contrabandear temas alheios à questão das liberdades individuais, submetendo-a ao mesmo relativismo autoritário que embasa, por exemplo, o cerceamento do dissenso político.

O uso impositivo da correção ideológica gera vias disfarçadas de arbítrio. Apesar dos jargões igualitários, as patrulhas do bom gosto, da decência e do “respeito” exercem uma forma de censura equivalente a qualquer outra. Deixam de valorizar as diferenças no momento em que estas se tornam incômodas: a democracia é positiva, desde que suas consequências não me desagradem.

Mas a responsabilização dos assassinados pelo menos ajuda a marcar posições claras. Muito pior é a apropriação oportunista e cínica do mote libertário. Alguns dos maiores inimigos da liberdade de expressão, especialmente governos e corporações midiáticas, usam o massacre para dissimular suas práticas coercitivas nas disputas que travam ao redor do tema.

Entre os aliados póstumos das vítimas há pessoas que defenderam a prisão do humorista francês Dieudonné. O veto a biografias não autorizadas. Os processos contra blogueiros que ridicularizaram o chefete da Rede Globo. A perseguição a quem ousa satirizar a sacrossanta Folha de São Paulo. A campanha contra o marco regulatório das telecomunicações. A difamação impune de adversários eleitorais.

O extremismo islâmico serve como antípoda legitimador dos interesses conservadores, tão hábeis em repetir discursos democráticos quanto em sufocá-los. Isso explica a rápida apropriação simbólica do massacre pelo mote institucional da “liberdade de imprensa”. O sentido prático dessa liberdade fica para os tribunais determinarem.

Charlie Hebdo virou ao mesmo tempo bode expiatório e mártir de uma cultura intolerante e repressiva que no fundo execra tudo que os cartunistas representam.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A brutalidade














O noticiário mentiroso sobre os confrontos envolvendo apoiadores e adversários do governo federal possui dois níveis de significado. O mais evidente é a tentativa de “venezuelização” do cenário político brasileiro. Mas a aparência esconde outro objetivo danoso.

A brutalidade nivela por baixo os antagonismos, despolitizando suas naturezas. Afugenta assim a militância de formação técnica e cultural mais sólida, que poderia denunciar as vulgaridades do antipetismo. Sem contrapontos intelectualizados, a oposição reconstrói o discurso único veiculado pela imprensa.

O surgimento desses baderneiros às vésperas do protesto marcado para março não é gratuito. O governismo não pode recuar às ameaças, mas tampouco partir para um enfrentamento que só interessa aos reacionários.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Margem de manipulação
















A CPI das Pesquisas Eleitorais tem jeito de tapete levantado para esconder o tema definitivamente. A gritaria dos institutos, ecoada nos veículos que os apoiam, pauta os debates eventuais, desviando o foco dos verdadeiros problemas da questão.

O apelo do “direito à informação” é diversionismo esperto. Tratar pesquisas como “informação” relevante pressupõe uma exatidão que nem mesmo seus maiores defensores apregoam. E informações podem ser checadas, ao contrário de vereditos parciais sobre a vontade dos cento e tantos milhões de eleitores.

Se fosse possível afirmar “Fulano sobe e empata com Cicrano”, todos os levantamentos deveriam gerar dados parecidos. A admissão de que a menor diferença metodológica pode refletir nos índices já retira o caráter “factual” da estatística.

Por isso o questionamento às pesquisas não envolve a sua distância dos resultados das votações. Apenas os institutos fazem essa associação, fingindo-se de tolos. O problema dos levantamentos é a discrepância eventual que apresentam entre si: aqueles números inexplicáveis que distorcem o cenário geral e viram factoides propagandísticos.

A CPI ganharia utilidade pública entrevistando matemáticos independentes, reconhecidos no meio acadêmico, visando sistematizar regras para a realização e a apresentação das pesquisas. Em duas ou três sessões o TSE perderia o pretexto da incompetência para omitir-se diante da manipulação dos institutos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

“Boyhood”






















Grande ideia de Richard Linklater, cineasta sempre interessante. A passagem do tempo transcorre com uma estranha homogeneidade narrativa, que evidencia a própria solidez do diretor ao longo dos anos. A transição sutil entre as épocas evita os cortes de uma estrutura episódica tradicional, mas não despreza as referências contextuais que ajudam a construir um painel histórico e cultural dos EUA.

O respaldo crítico e a consagração dos prêmios provocaram diversas ressalvas aceitáveis, como a da falta de arco dramático do roteiro. Mas as objeções quanto à simplicidade dos personagens soam exageradas. Num tratamento que se propõe realista, podemos esperar que as coisas da vida possuam “sentidos” claros e tranquilizadores?

De qualquer forma, é experiência invulgar, de uma delicadeza quase melancólica, exatamente porque limpa de verborragias metafísicas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Ainda o desespero

 















O que soa esquisito na campanha pelo impeachment é sua consecução atabalhoada. Não há embasamento legal, estratégia coordenada, senso de oportunidade. Uma causa que poderia ganhar força com o mínimo de esperteza desgasta-se na precipitação e na verborragia fanática.

Serve como prova da inevitável longevidade do espírito golpista, mas para chegar a articulação efetiva falta muita consistência político-social. Nem mesmo a hipótese de que se busca desgastar a imagem de Dilma Rousseff me parece exata como artimanha consciente e organizada.

Por que tanta afoiteza? Meu palpite é que as investigações sobre a Petrobrás atingiram o governo FHC e até alguns membros da cúpula tucana, além de parlamentares de outras legendas. E que esse fato chegou aos ouvidos prestigiados pelos vazamentos seletivos do Judiciário.

A Lava Jato possui dois desfechos possíveis: uma desmoralizante pizza de manobras judiciais ou um terremoto multipartidário de proporções inéditas. Em ambos os casos o PT deixará o foco dos ataques, com chance de reverter o ônus à sua imagem.

Os astutos já perceberam que a sanha justiceira da oposição pode se transformar na sua própria tragédia. Nesse contexto, a absurda pauta do impeachment parece mais fruto de temor do que de convicção.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

“Mistério do Planeta”



Novos Baianos (uma parte deles): Paulinho Boca de Cantor (voz); Moraes Moreira (violão); Pepeu Gomes (guitarra); Dadi (baixo); Jorginho Gomes (bateria).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Dois sobre cientistas

 




















Ambos narrativamente convencionais, baseados em notoriedades da ciência moderna e episódios históricos. Também compartilham os protagonistas difíceis e geniais, o tratamento melodramático, umas licenças factuais incômodas.

Filmes demasiado semelhantes, em suma. A coincidência mais lamentável entre eles, contudo, é a solene indiferença pelos aspectos científicos. O público sabe algo das respectivas biografias, mas ignora as inovações técnicas que as tornaram especiais.






















Dito isto, são passatempos agradáveis e bem realizados. Os trabalhos de Benedict Cumberbatch e Eddie Redmayne estão acima de qualquer padrão hollywoodiano, especialmente o último, que enfrenta um imenso esforço físico sem perder as sutilezas emocionais da interpretação.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O estranho factóide do impeachment


















Um advogado amigo de FHC encomendou parecer ao jurista Ives Gandra Martins sobre a possibilidade da corrupção na Petrobrás embasar um pedido de afastamento de Dilma Rousseff. A resposta, obviamente, foi positiva.

Esse tipo de consulta custa caro e, também por isso, demanda predisposição da parte interessada em agir de acordo com o veredito. Mesmo na hipótese provável de Martins ter deixado de cobrar o alto valor habitual, sua manifestação tem um peso que praticamente força a iniciativa dos interessados.

E aqui o arranjo complica. Primeiro porque o nobre consultor está errado na sua interpretação da lei. Segundo, e mais grave, porque o parecer foi publicado na Folha de São Paulo, com destaque na primeira página.

Uma celebridade do campo jurídico empenha sua vasta reputação avalizando um anseio golpista. E a mídia, em plena crise de credibilidade, abraça um juízo discutível para aglutinar apoio à causa de um partido minoritário no Congresso. Dando aos adversários tempo e oportunidade para se reorganizarem em torno de uma pauta poderosa.

Quem correria tanto risco apenas para alimentar as próximas pesquisas de opinião?  Gente desesperada, talvez?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

“Birdman”


















Um dos melhores exemplos recentes da versatilidade da tecnologia digital. Se não reproduz a delicadeza da película (especialmente nas externas), permite os travellings imensos, os planos-sequência, as evoluções dramáticas e até uns efeitos especiais mais ou menos apurados.

Claro que o uso do digital tem aspecto “político” nesta crítica feroz ao cinemão hollywoodiano. Mas a sua ousadia metalinguística, que mistura tratamentos hiperrealistas e alegóricos em cenários grandiosos, seria quase impossível sob as exigências do sistema analógico. E não deve ter sido fácil mesmo assim: outro marco da genialidade do fotógrafo Emmanuel Lubezki.

Edição de som primorosa, ajudada pelos expressivos solos de bateria. Ótima direção de elenco, habitual nos trabalhos de Alejandro Iñárritu. Talvez não seja a melhor obra do mexicano, mas certamente é a mais original.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dilma estava entrando na deles














A troca na direção da Petrobrás marca o início do novo mandato de Dilma Rousseff. É uma boa notícia por diversos aspectos, mas principalmente porque mostra o governo deixando de agir em função do noticiário catastrofista.

Até agora o Planalto parecia contaminado pelo vírus da crise avassaladora. Nem mesmo o índice de desemprego abaixo de 5% (entre os menores do mundo) era capaz de injetar um pouco de otimismo na cúpula governista.

Esse é o antigo problema de reverberar a mídia corporativa: cedo ou tarde a mentira cola por insistência. Passamos a acreditar que a realidade é feita só dos problemas que o jornalismo seleciona e supervaloriza.

A gestão de Graça Foster na Petrobrás vinha cometendo erros típicos da somatização depressiva. Quando rompia o silêncio temeroso, a predisposição ao colapso fornecia ainda mais material para que ele se reproduzisse no imaginário popular.

Realmente faltam rudimentos de comunicação ao governo. Sua incapacidade de rebater os boatos mais estapafúrdios beira o amadorismo. E o desprezo da presidenta pela negociação política tem algo de arrogante, para não dizer autoritário.

Acima de tudo, porém, falta-lhe atitude propositiva. O ímpeto vencedor que a oposição tenta ofuscar desde o primeiro momento. Assim que Dilma recuperar a altivez, o resto virá no embalo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A política necessária
















A imprensa tucana fará semanas de propaganda sobre a “imensa derrota” do governo federal na eleição da presidência da Câmara. Como sempre, a blogosfera endossará a pauta com previsões catastróficas, inclusive o impeachment.

Isso tudo apenas enfraquece a imagem política de Dilma Rousseff, tornando-a ainda mais refém da súcia fisiologista que abraçou Eduardo Cunha. Pois o objetivo da gangue (e da oposição) não é derrubar a presidenta, e sim imobilizá-la sob a ameaça do caos, numa sangria permanente dos recursos federais que inviabilize o projeto petista.

O que o Planalto precisa entender é que o esforço para manutenção da governabilidade depende da governabilidade resultante. Se as coalizões vigentes só produzem esse esculacho conservador que barrará todas as iniciativas progressistas da sociedade, chegou a hora de discutir seriamente a relação.

O volume de cargos distribuídos para a base aliada é incompatível com a votação recebida por Arlindo Chinaglia (PT). O governo absorve centenas de apaniguados obscuros de caciques indiferentes a qualquer plataforma de esquerda, para receber uma cínica traição no primeiro teste de fidelidade? E o PT aceita ser tratado como coadjuvante no seu próprio terreno?

O momento exige uma reconfiguração urgente no diálogo político entre Executivo e Legislativo. Não é apenas uma questão de malícia, mas também de responsabilidade perante os eleitores que endossaram as gestões de Lula e Dilma. O governo deve usar o poder que ainda lhe resta, se pretende possuir algum no médio prazo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

“Foxcatcher”


















Vale ao menos para conhecer a curiosa história real que, contrariando o subtítulo imbecil em português, passou despercebida na época. As insinuações eróticas, as ambiguidades do protagonista e o tratamento visual esmerado para o estranho universo da luta greco-romana distinguem o filme de seus congêneres esportivos.

O diretor Benett Miller tem reconhecido talento para a biografia, especialmente sobre personagens complicados. Aqui ele busca um trato realista, algo melancólico, próximo dos filmes dos anos 1970 (lembra os policiais de Don Siegel e os dramas de Alan J. Pakula e John Frankenheimer).

As interpretações têm o vigor e a correção de tom que marcaram os outros trabalhos de Miller. Bem menos harmoniosa, porém, é a maquiagem meio caricatural de Steve Carell, que talvez tenha ofuscado a sua inspirada composição.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Apagão redux

 












O racionamento de água em São Paulo só passou a existir na mídia corporativa quando as quedas no fornecimento de energia elétrica abriram uma brecha para que ambos os fenômenos partilhassem o mesmo discurso, compensando-se mutuamente. Mesmo assim, a disparidade no tratamento noticioso a eles ultrapassa as raias do puro cinismo.

“Crise hídrica”, “rodízio” e outras malandragens terminológicas ganham o contraponto federal do “apagão”, cujo sentido é bem mais contundente, embora também equivocado. Para a imprensa tucana, quedas de energia provocadas por picos de consumo refletem problemas sistêmicos, enquanto a falta d’água, num sistema ultrapassado, que chega a desperdiçar um terço da vazão, cai na conta das chuvas.

Acontece que o tucanato ainda guarda muito ressentimento do colapso de energia do final do governo FHC, grande furo na ilusão de competência administrativa do PSDB, que ajudou a eleger Lula. O estado de São Paulo vive momento similar, sob o desgoverno de Geraldo Alckmin. A desesperada invenção de paralelos com o âmbito federal (quando não a simples federalização dos problemas estaduais) mostra que os marqueteiros midiáticos entenderam a dimensão eleitoral da incompetência.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Déficit de esquema

 













A saída do ministro Jorge Hage da Controladoria Geral da União, nesse período turbulento, deveria ter suscitado mais curiosidade jornalística. Ninguém parece lembrar que a CGU, com o Tribunal de Contas da União, possui responsabilidade constitucional de fiscalizar os contratos da Petrobrás.

É implausível que as tretas bilionárias da estatal tenham passado despercebidas pelas autoridades controladoras. Não se trata de minúcias técnicas dos contratos, pois as fortunas pagas em propinas aos diretores precisavam ser embutidas nos preços finais, onerando-os de forma acintosa.

Tampouco falamos de ladroagens furtivas. Há diversas vias protocolares para aplicar os acréscimos, desde a simples majoração dos valores contratados até aditamentos viciosos no decorrer da prestação dos serviços. Todas essas etapas exigem procedimentos técnicos, formulários e autorizações. Muito papel precisa ser assinado.

Em algum lugar deve haver pareceres, aditivos e planilhas traficando os abusos. Se não há, pior ainda, pois assim a disparidade das contas fica latente. Quem autorizou a sujeira por tanto tempo nos órgãos fiscalizadores? Onde estão os nomes da pequena multidão de intermediários que viabilizaram as ilicitudes nos labirintos burocráticos do Poder Público? E as comissões da Câmara e do Senado?

A credibilidade da Operação Lava Jato depende de respostas muito claras a essas dúvidas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

“Whiplash”

 
















O enredo já foi contado mil e uma vezes, ambientado em quartéis, hospitais, ringues, companhias de dança e até, como aqui, escolas de música. Também podemos fazer restrições a furos do texto, à verossimilhança, à apologia do sacrifício, ao desfecho.

Pouco importa. A trilha sonora é excelente, e as cenas de números musicais chegam a emocionar os aficionados. O sempre ótimo J. K. Simmons comprova sua versatilidade num papel que poderia descambar para a caricatura. O jovem Milles Teller (“The Spetacular Now”) enfrenta o enorme desafio com bastante dignidade.

A fotografia, talvez premida por limitações orçamentárias, faz uma acertada opção pelos planos fechados, sob luzes duras, que realçam a claustrofobia das situações e o rosto expressivo de Simmons. Mas é a edição impecável de Tom Cross que confere o verdadeiro brilho técnico do filme.
           
Dá vontade de aprender bateria.