segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Balanço do golpe II













A base parlamentar

A causa direta do golpe foi o desmoronamento do apoio a Dilma Rousseff no Congresso Nacional. O desgaste começou com o fracassado projeto de criar um “centrão” via PSD, ganhou cores vingativas após a chegada de Eduardo Cunha à presidência da Câmara e virou conspiração quando Michel Temer o substituiu no comando dos insatisfeitos.

Politicamente inapta, inflexível e mal assessorada, Dilma não soube (e em boa medida não quis) aplacar as pressões do fisiologismo. Suas concessões programáticas pouco aliviaram o problema, pois a aparência entreguista dos ministérios tenebrosos escondia uma relação esquizofrênica e autodestrutiva com as bases partidárias.

O triunfo reativo do pemedebismo ilustra os limites dessa ideia de governabilidade imanente, capaz de seduzir o baixo clero e as lideranças regionais com brioches burocráticos. Uma ingenuidade compartilhada pela esquerda antipetista, Marina Silva inclusa, que finge não ver os obstáculos intransponíveis a seu purismo retórico.

As manifestações pró-impeachment, o catastrofismo econômico e as ameaças cirúrgicas da Lava Jato criaram ambiente propício à debandada parlamentar. Mas as animosidades poderiam ter sido contidas, ao menos em curto prazo, através de boas articulações envolvendo os interesses eleitorais que dominaram o ano legislativo.

Cunha e Temer usaram tais demandas para canalizar os ânimos revoltos. Divulgando manifestações que o aproximavam do cargo presidencial, Temer empoderou-se como “pacificador” da base. Seu único obstáculo seria a entrada de Lula no governo. Tão logo isso ficou evidente, vazaram ilegalmente as gravações já ilegais de Sérgio Moro.

O impeachment foi um golpe parlamentar tradicional, quase ortodoxo na sua simplicidade. O esforço para naturalizá-lo (“é do jogo”) não o legitima, pelo contrário. Apenas destaca a sua importância como dispositivo de autopreservação de uma estrutura antidemocrática por natureza.


A série "Balanço do golpe":

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lula também será vítima do “julgamento político”






















Publicado no Brasil 247

Jamais existiu a menor perspectiva de Lula ser tratado com isenção nos processos da Lava Jato. Sua condenação em primeiro grau é tão óbvia quanto o viés antipetista do Judiciário. "Não temos provas cabais, mas temos convicção", o mote da denuncia feita pelo Ministério Público, resume perfeitamente essa tendência.

A frase representa mais do que uma confissão metodológica dos procuradores. É um elo intertextual entre a retórica legitimadora do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff e as condenações de petistas no STF pelo “mensalão”. A mensagem, nua e crua: julgamentos políticos dispensam provas.

Quem conhece um pouco do meio já percebeu que as acusações contra Lula são típicas de processos frágeis, desses que o coronelato usa para sumir com desafetos. É fácil identificar o estratagema, no viés interpretativo, nos delatores confessos, nos elementos materiais irrisórios, no jogo de suposições gratuitas, nos sigilos traiçoeiros.

Nada disso importa, pois a inocência de Lula deixou de ser uma possibilidade. Palavra contra palavra, emails com apelidos, rabiscos em agendas e está formado o “conjunto substancial de evidências” de que Sérgio Moro necessita, mais do que nunca forçado a evitar a desmoralização dos colegas procuradores. E a tese do “domínio do fato” fará sua reaparição espetacular diante da massa ignóbil.

Ainda que não perca seus direitos políticos, Lula passará inúmeros constrangimentos, entre interrogatórios, detenções e solturas, sob o festim da escandalolatria midiática. E os especialistas de sempre, ignorando questões técnicas rudimentares, ajudarão a validar a ideia de que provas são irrelevantes quando se tem “convicção”.

Em qualquer momento futuro, alguma corte superior absolverá Lula das principais acusações. “A tempo” de ele retomar uma carreira que todos saberão inviável. E os desembargadores, ou ministros, num teatro de isenção hipócrita, bradarão contra as injustiças aplicadas ao combalido e desmoralizado ex-presidente.

Para aplacar o escândalo formado pela absolvição, o STF centrará fogo na imaturidade dos procuradores e na condescendência de Rodrigo Janot, ressuscitando aquelas irregularidades de Sérgio Moro e da PF que passaram incólumes. E a operação será desfeita aos poucos, no decorrer dos anos, cumprindo seu roteiro original.

Não é correto imaginar, portanto, que a falta de provas robustas favorecerá Lula. Muito pelo contrário. Primeiro porque elas nunca impediram a predisposição condenatória das cortes. Segundo, e mais importante, porque fornecem um pretexto para que a cúpula do Judiciário preserve sua própria reputação, quando o sacrifício do petista for completado.

Gostaria de imaginar que protestos e debates virtuais podem reverter esse quadro, mas desconfio que é exatamente a radicalização do lulismo que os justiceiros mais desejam. A saída parece residir numa mobilização oriunda do próprio campo jurídico, local ou internacional, enquanto alguém ainda fica perplexo com a insanidade e o arbítrio.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

“Aquarius”

 

É evidente a segurança estilística de Kleber Mendonça Filho. Sua encenação meticulosa, que especulo ter algo de “fenomenológica”, deixa sempre algo a descobrir nas sutilezas do texto, nas nuances dramáticas, nos símbolos.

O título também é aberto a interpretações. Pode remeter ironicamente ao espírito libertário e igualitário hippie, mas também ao musical “Hair”, que Sônia Braga interpretou no Brasil. E por aí vai.

Metáforas fortes em torno do corpo (a doença, o prédio, o envelhecimento, a nudez explícita, a escatologia), reforçadas pela canção de Taiguara. Interessantes contrapontos entre as complexas personagens femininas, expondo conflitos de geração, mas também de perspectiva social. Todas saudosistas, parece, e melancólicas.

Algumas características de “O Som ao redor” se renovam. O ritmo contemplativo. A divisão em capítulos. A selvageria de certas elites oligárquicas. O caráter ambíguo dos tipos, que impede empatias fáceis. E, talvez, a indefinição genérica, unindo elementos de drama, suspense, terror.

Elevando o filme a sucesso comercial, as sabotagens do governo ilegítimo criaram uma expectativa que pode frustrar quem espera convenções narrativas e didatismos. Mas, à parte o provincianismo da discussão sobre o Oscar, tem o mérito de atrapalhar consensos sobre o cinema e o país.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Balanço do golpe I

















Introdução

Os equívocos administrativos dos governos Dilma Rousseff são insuficientes para explicar o sucesso do golpe. Os péssimos índices sócio-econômicos, a corrupção e a impopularidade não abreviaram os mandatos de José Sarney e FHC, por exemplo.

A associação dos fracassos gerenciais de Dilma com a queda visa dar a esta um verniz meritório, criando pretextos para a negociata que os golpistas apelidaram “julgamento político”. A responsabilização da vítima esconde suas tentativas de resistência e, acima de tudo, os esforços sistemáticos da mídia, do Judiciário e do Congresso para sabotá-las.

A viabilização do golpe se deu no âmbito estratégico. O impeachment representou uma confluência de elementos que foram se articulando ao longo dos últimos três ou quatro anos, nem sempre de forma planejada, mas partindo de setores com o mesmo interesse.

Nesse sentido o governo petista contribuiu com a própria tragédia, como um jogador que planeja mal seus movimentos e subestima as manobras adversárias. Isso diz respeito a uma esfera pragmática da atividade política, onde ideais, plataformas e mesmo realizações ocupam lugar lamentavelmente secundário.

Por ingenuidade, cinismo ou pura preguiça, os comentaristas midiáticos ignoram esse ambiente. Mas evitar a face espinhosa do impeachment leva a um idealismo alienante, que enxerga pressupostos no lugar de fatos, pessoas e instituições. Eis porque alguns progressistas e conservadores parecem ter visões tão semelhantes sobre o fenômeno.

Nas próximas semanas abordarei a consecução do golpe sob as óticas político-partidária, social, jurídica, econômica e midiática, com um epílogo perspectivo. Não pretendo esgotar os assuntos, nem mesmo desenvolvê-los, e sim propor um rol de questões que julgo merecerem figurar nos futuros debates historiográficos.

sábado, 10 de setembro de 2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dívida histórica
















É importante manter e divulgar registros detalhados sobre o apoio de políticos, jornalistas, magistrados, empresários e até militantes de redes sociais ao golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Contribuir para essa memória equivale a manter a chama da resistência nos tempos sombrios que se anunciam.

Haverá muitas oportunidades para que a conta seja cobrada. Durante a escalada arbitrária dos justiceiros ideológicos, a consumação da impunidade dos corruptos não-petistas, a dilapidação do patrimônio público, o desmonte de programas sociais.

Sabemos que os mais cínicos tentarão forjar espanto e salvar suas reputações. Pois serão desmascarados. Ninguém pode fingir inocência diante da natureza e das consequências do impeachment, que estiveram muito claras desde o início.

Um lugar de honra na galeria de horrores será ocupado pelo Supremo Tribunal Federal. A corte desperdiçou todas as chances de barrar o avanço do golpe, evitando o circo midiático da Lava Jato e punindo os corruptos que elaboraram o impeachment.

Mais do que as outras instituições antidemocráticas do país, o STF desempenhou papel decisivo na farsa. Repetindo a vergonhosa atuação no golpe militar de 1964, deu verniz de legitimidade a um escândalo jurídico de porte mundial.

Talvez a próxima Comissão Nacional da Verdade não seja tão condescendente com os nobres ministros quanto foi no balanço que fez sobre a ditadura e suas anistias. Mas o acerto viria tarde, soterrado por manipulações oficiosas da mídia e amenizado pela ausência póstuma dos algozes.

A força dessa memória reside em seu resgate imediato, constrangedor, provocativo. Como admite o próprio golpista Michel Temer, o governo ilegítimo está preocupado com a narrativa em torno do impeachment. Já conhecemos o seu ponto fraco.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Anamnese

 

















Edson Fachin, Cármen Lúcia, Luiz Fux, Rosa Weber, Teori Zavascki, Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Celso de Mello, Dias Toffoli.

Rodrigo Janot, Sérgio Moro, Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior, Janaina Paschoal, Claudio Lamachia, Ives Gandra da Silva Martins, Paulo Skaf.

Eduardo Cunha, Michel Temer, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva.

Hélio Schwartsman, Clóvis Rossi, Ruy Castro, Vinicius Torres Freire, Josias de Souza. Carlos Heitor Cony, Valdo Cruz, Ferreira Gullar.

Merval Pereira, Carlos Alberto Sardenberg, Arnaldo Jabor, Míriam Leitão, Ali Kamel.

Augusto Nunes, Ricardo Noblat, Maria Lima, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Guilherme Fiuza.

Dora Kramer, Eliane Cantanhêde, Lauro Jardim, Felipe Moura Brasil, Bolívar Lamounier, Rodrigo Salomon, Zezé de Lima.

Acir Gurgacz, Aloysio Nunes, Alvaro Dias, Ana Amélia, Antonio Anastasia, Antonio Carlos Valadares, Ataídes Oliveira, Aécio Neves, Benedito de Lira, Cidinho Santos, Ciro Nogueira, Cristovam Buarque, Cássio Cunha Lima.

Dalirio Beber, Davi Alcolumbre, Dário Berger, Edison Lobão, Eduardo Amorim, Eduardo Braga, Eduardo Lopes, Eunício Oliveira, Fernando Bezerra Coelho, Fernando Collor, Flexa Ribeiro, Garibaldi Alves Filho, Gladson Cameli.

Hélio José, Ivo Cassol, Jader Barbalho, José Agripino, José Aníbal, José Maranhão, José Medeiros, João Alberto Souza, Lasier Martins, Lúcia Vânia, Magno Malta, Maria do Carmo Alves, Marta Suplicy, Omar Aziz, Paulo Bauer, Pedro Chaves.

Raimundo Lira, Reguffe, Renan Calheiros, Ricardo Ferraço, Roberto Rocha, Romero Jucá, Romário, Ronaldo Caiado, Rose de Freitas, Simone Tebet, Sérgio Petecão, Tasso Jereissati, Telmário Mota, Valdir Raupp, Vicentinho Alves, Waldemir Moka, Wellington Fagundes, Wilder Morais, Zeze Perrella.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Golpe a Jato

 





















O país assiste passivamente à consumação do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. As audiências no Senado se transformaram em farsa legitimadora do processo, repetindo a eleição indireta que alavancou o regime militar de 1964. Antes e agora com aval do STF, da mídia corporativa e do empresariado.

Se algo desautoriza esse paralelo, não é a falta de arbítrio no caso atual. Abusando de suas prerrogativas e agindo em sintonia com a agenda do impeachment, o comando da operação Lava Jato sabotou cada esboço de resistência petista no Congresso. As gravações ilegais que antecederam o processo na Câmara e o indiciamento de Lula às vésperas da decisão no Senado dispensam comentários.
           
O tal “juízo político” dos senadores se resumiu a negociatas promovidas pelo banditismo interino. Grupos sem respaldo popular tomaram o governo de assalto e garantiram, no interior da máquina, que a invasão ficasse irreversível. E, pior, com estratagemas bem mais lesivos do que as manobras contábeis usadas contra Dilma.

É possível que Ricardo Lewandowski, não sem algum cinismo, cobre dos parlamentares a convicção nos crimes alegados. Mas ninguém ali se preocupa com a ilegalidade do golpe, nem com as inúmeras denúncias de acadêmicos, jornalistas, juristas e autoridades políticas do Brasil e do exterior.

Eis o ponto central: Dilma será julgada por pessoas indiferentes aos méritos jurídicos do processo. Qualquer acusação formal a derrubaria. As patéticas alegações dos senadores favoráveis ao impeachment revelam que eles ignoram até a base técnica do tal “crime de responsabilidade”.

Da mesma forma, os defensores do arbítrio na mídia passaram a falar em “fracasso” do governo Dilma, como se fosse motivo constitucional para derrubá-lo. Não é. Fazendo apologia de uma inconstitucionalidade, esses analistas escancaram a própria natureza antidemocrática de sua defesa do impeachment.

A previsível supervalorização da derrota de Dilma servirá como atestado simbólico de culpa, suprindo a falta de provas e fundamentos legais do veredito. Mas não deixa de ser sintomática a identificação do desmoralizado Congresso Nacional com a ideia de justiça que fundamenta o golpe.

sábado, 27 de agosto de 2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

As medalhas de Lula e Dilma

 

Frustraram-se as previsões catastrofistas sobre os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Fica escancarado, mais uma vez, o caráter mentiroso, provinciano e irresponsável das bravatas apocalípticas. As desculpas dos seus propagadores (“não foi bem isso que eu quis dizer”) apenas reforçam, pelo gesto de explicar, a ridícula admissão do erro.

Parece incoerente criticar a politização boçal do evento e depois politizar o seu sucesso. A questão é que toda a cobertura midiática dos Jogos foi politizada, tanto nos ataques anteriores quanto na aparência neutra do patriotismo que dominou as transmissões.

Nada é mais escandalosamente partidário que omitir o papel dos governos Lula e Dilma na realização dos Jogos e, acima de tudo, na conquista de medalhas e marcas inéditas. Comemorar a superação de atletas humildes e esconder os programas petistas que os apoiaram rebaixa o cinismo jornalístico a uma desonestidade própria de estelionatários.

O conservadorismo tosco aplaude as continências dos atletas, de simbologia inegável, principalmente quando facultativas. Mas é típico desse imaginário canhestro fazer da origem militar um símbolo de independência administrativa, como se as Forças Armadas gerassem as próprias verbas e estruturas.

As continências existiram porque as instituições militares receberam aportes generosos dos governos Lula e Dilma para que seus talentos individuais se desenvolvessem. Não foram a Rede Globo, a Fiesp, o PSDB, Michel Temer. Foram os programas Segundo Tempo, Bolsa Atleta, Atletas de Alto Rendimento, Atleta na Escola, etc. Do PT. Dinheiro público, aliás, e bem aplicado.

Acostumado a usurpações fáceis, o golpismo acredita que pode estender seu assalto para além da esfera política. Mas existem coisas que não se deixam subtrair tão facilmente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Medalhas são mesmo prioridade?














Como em toda competição internacional, a turma do provincianismo vira-latas tentará desmoralizar os resultados da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos do Rio. Agora, por motivos óbvios, com fúria redobrada.

O ramerrão é previsível: contas descabidas forjando custos exorbitantes por medalha, fracasso de expectativas supervalorizadas, comparações absurdas com outros países.

Não defendo o ufanismo cego, nem reduzo toda crítica a ressentimento antipatriótico. Apenas cobro consistência argumentativa, a partir de duas premissas complementares.

Primeiro, uma base conceitual e estatística sólida. A referência a qualquer exemplo internacional demanda conhecer seus programas de apoio, suas legislações específicas, os valores aplicados em cada modalidade, etc.

Segundo, a adoção de um modelo coerente de investimento, sem esquizofrenias sobre o papel do Estado no incentivo ao setor. Queremos que o esporte de ponta ganhe prioridade no uso do dinheiro público? Ou medalhas são responsabilidade da TV Globo, da Adidas, do Bradesco, da Vale?

Também é necessário superar o mito da formação de atletas olímpicos como trabalho de base apenas sócio-educativa. Se alto rendimento esportivo dependesse da qualidade da educação e da saúde oferecidas aos cidadãos comuns, os melhores IDHs do mundo seriam campeões de medalhas olímpicas.

Não resta dúvida sobre a importância do esporte para a infância e a juventude, mas pódios exigem mais do que diletantismo e popularidade. Exigem instalações modernas, equipamentos de última geração, laboratórios avançados, especialistas, suporte incondicional da mídia. Em suma, um tratamento digno de estratégia geopolítica.

Eis o núcleo indigesto do debate sobre nosso rendimento olímpico. Antes de aderir a politizações oportunistas e achismos simplórios, a cobrança por medalhas precisa levar em conta o nível de sacrifício e comprometimento necessários para se construir o idílio esportivo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Emoções olímpicas

 















A simultaneidade abrangente da televisão diminui o fascínio grandioso da experiência nos Jogos Olímpicos, mas a presença nas competições impossibilita apreender algo além delas próprias. Paradoxalmente, a impressão de amplitude e diversidade fica mais nítida à medida que essas características se fazem menos apreensíveis.

O clima geral é festivo, deslumbrado e ordeiro. A sensação de segurança predomina, inclusive nas regiões sensíveis. Chega a soar surpreendente o baixíssimo número de ocorrências negativas registradas pela mídia. São inúmeras disputas simultâneas, multidões imensas circulando por centenas de quilômetros sem parar, pessoas de todas as nacionalidades, faixas etárias e motivações.

Sim, ocorrem problemas. No BRT, principalmente, que não se preparou para as responsabilidades assumidas pelo transporte rodoviário nos Jogos. Não existem mapas das linhas especiais no site da empresa, nem nas estações. Muitos funcionários dão informações desencontradas. Ninguém organiza as aglomerações nos horários de pico.

Também houve e há falhas logísticas. No primeiro dia, a rodoviária Novo Mundo só tinha dois caixas eletrônicos para compra do cartão de transporte, ambos quebrados. As estações de metrô fecham antes de algumas disputas terminarem.

Vencida a fase de aprendizado, porém, os deslocamentos pelo circuito olímpico transcorrem de forma satisfatória e evidenciam o acerto na escolha dos pontos de competição. Todas as regiões da cidade foram envolvidas, dispersando o afluxo gigantesco de pessoas e revelando a contraditória beleza desse lugar único

É necessário louvar o grau superior da organização interna dos Jogos, e criticar suas falhas pontuais, mas eles fazem parte de uma estrutura mastodôntica e bilionária que tem pouco a ver com a cidade-sede ou seus moradores. Mesmo as evidentes melhorias no transporte e nas instalações públicas cariocas precisam passar pelo teste do uso cotidiano, fora da excepcionalidade de um momento que parece a salvo de intempéries.

A tola confusão entre a nacionalidade dos anfitriões e o cosmopolitismo de um evento quase impecável serve apenas para revirar estômagos provincianos. E para nos lembrar de suas previsões catastróficas e de sua infame torcida pelo fracasso dos Jogos. Agora estão por aí, feitos zumbis ranzinzas, falando em déficits na Previdência.

Por outro lado, a mídia que lucra com o evento silencia sobre o papel fundamental que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff tiveram na viabilização da inesquecível festa olímpica. Cada imagem do triunfo evidencia o oportunismo do golpe e explica por que os golpistas se esforçam tanto para consumá-lo agora, em meio ao deslumbramento do país.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Em busca da catástrofe olímpica


















Tenho visão em geral positiva sobre megaeventos esportivos realizados no Brasil. Gosto da experiência e do transe civilizatório que ela provoca. E dou enorme importância aos ganhos educativos, culturais e econômicos do turismo que essas efemérides incentivam.

Não acho que faltem problemas, muitíssimo pelo contrário. Refuto certas críticas por causa dos seus argumentos frágeis, omissos e distorcidos. Aconteceu na Copa e, de maneira previsível e patética, se repete agora, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

As comparações seletivas são ridículas. Deixando de mencionar, por exemplo, que em Londres houve conflitos de rua, instalações improvisadas, desorganização e falhas de segurança. Por que buscar paralelos na Rússia e na Grécia, mas ignorar os britânicos?
                                                                                                                                             
Outra besteira é o viés generalizante dado ao “desastre” dos Jogos brasileiros. Esse tom negativo engloba de maneira homogênea um empreendimento complexo, que possui múltiplos aspectos e possibilidades de abordagem. Inclusive o ufanismo hipócrita que serve de contraponto para justificar o extremo catastrofista, igualmente superficial.

A obsessão com “legados” chega a soar divertida. É como se os Jogos, num passe de mágica, devessem corrigir décadas de incompetência e descaso administrativo. Eventos privados não existem para substituir governos. As promessas irreais fazem parte da própria engrenagem que as tornou necessárias (e possíveis) em primeiro lugar.

A paranoia coletiva com o “dinheiro público” despreza o fato de as carências brasileiras se deverem à má gestão das verbas estatais, e não ao aporte investido. E aqui a relação custo-benefício é ardilosa, pois envolve os ditos “legados imateriais”, de difícil aferição. Duvido que qualquer evento patrocinado por governos, independente da área, sobreviva à contabilidade simplista que se costuma aplicar aos Jogos Olímpicos.

Nem vale a pena começar um debate sobre se “o Brasil merece” os Jogos. Esse tipo de viralatice pacóvia serve apenas para evitar que empresas e pessoas sejam denunciadas individual e nominalmente por suas trapalhadas. É mais cômodo e lucrativo demonizar a população do que mexer com anunciantes, amigos de chefes e aliados de golpistas.

Os países considerados “merecedores” dos Jogos não toleram análises depreciativas como as que seus veículos espalham sobre o Brasil, menos ainda se cometidas por estrangeiros. Os analistas brasileiros jamais ousariam manchar a imagem de uma cidade europeia ou norte-americana, alertando os viajantes sobre o risco de atentados, racismo, xenofobia, etc. E não sairia no New York Times.

Tudo se resume ao provincianismo tolo, essa vergonha de ser brasileiro que virou uma espécie de prerrogativa moral do ressentimento conservador. O mal dissimulado gozo com a desventura de cariocas, turistas e atletas revela o que há de pior na cultura atrasada que ameaça tornar-se hegemônica na mídia e na política do país.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mensalão 2.0

 














A importância conferida às delações do marqueteiro João Santana e de sua esposa torna ainda mais evidentes e constrangedoras as dificuldades da Lava Jato em realizar seus objetivos políticos. E nada tem de gratuito o retorno, à operação, das táticas consagradas na época da Ação Penal 470.

A ideia, em resumo, é usar contra petistas e aliados certas irregularidades que a Justiça e a imprensa toleram há décadas, e continuam tolerando, cinicamente, nos outros partidos. Deu certo na suposta compra de apoio parlamentar que originou os justiciamentos do mensalão. Vem dando certo nas picuinhas contábeis do impeachment golpista.

Apesar das somas vultosas, o enrosco dos Santana com a lei chega a soar pueril para quem conhece o meio. Caixa dois é o “trivial com fritas” das eleições nacionais. Sua generalização torna a própria lisura uma sandice estratégica nessa selva pragmática e competitiva, dominada pela permissividade moral.

O mesmo diria um jornalista que aceita prestar serviços para seu veículo como “pessoa jurídica”, burlando a legislação previdenciária.

Sem meios técnicos nem vontade política para escarafunchar maquiagens contábeis na imensidão disponível, a Justiça Eleitoral exibe uma estranha competência em fiscalizar certas linhas partidárias. E, assim, neste país continental, com eleições a cada dois anos, os únicos marqueteiros presos foram Duda Mendonça e João Santana, exatamente aqueles que trabalharam para petistas.

Como ocorreu no dito “mensalão”, os nobres magistrados apenas buscam o recurso mais cômodo e certeiro para atingir seus inimigos circunstanciais. Passado o escândalo, obtidos os efeitos desejados, tudo voltará à promiscuidade normal de sempre. Inclusive no Judiciário.

O caixa dois é a munição que Sérgio Moro fornece a Gilmar Mendes para atingir a campanha de Dilma Rousseff na hipótese de o Senado absolvê-la. Espremendo os Santana com suas técnicas policialescas, Moro saberá impedir que o casal aproveite o episódio para escancarar a hipocrisia do novo capítulo dessa farsa moralista.