quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A PF na ribalta

















Publicado em Brasil 247

As prisões dos executivos de grandes empresas servem para abafar as denúncias contra a atuação tendenciosa da Polícia Federal na Operação Lava Jato. A pirotecnia do gesto é proporcional à gravidade da suspeita: o partidarismo explícito dos delegados na campanha eleitoral sugere cumplicidade com a atuação criminosa da revista Veja às vésperas do segundo turno.

Ainda que a operação estivesse sendo organizada há tempos, seu oportunismo e sua teatralidade são inegáveis e sintomáticos. Atingir grandes empresas não garante o rigor ou a imparcialidade de qualquer procedimento jurídico. Os mandados foram expedidos pelo mesmo juiz que permitiu os vazamentos seletivos das delações dos bandidos em plena disputa presidencial. Só isso coloca toda a investigação em cheque.

Independente de culpas reais e apelos pedagógicos, as prisões parecem desnecessárias e até meio abusivas, como se fossem armadas para resultar juridicamente nulas. Lembram episódios recentes, quando irregularidades técnicas serviram para inutilizar as acusações nas instâncias superiores. Os investigadores “erram” nos detalhes e posam de inimigos do crime; os bacanas passam um aperto ligeiro e alguém depois arquiva tudo.

É tolice, portanto, fazer da Lava Jato um modelo de justiciamento dos “poderosos”. Os inesgotáveis trâmites processuais do caso sequer começaram. Uma ideia do que vem pela frente pode ser obtida nos inquéritos envolvendo os mensaleiros do PSDB. Quando Joaquim Barbosa dispersou-os pelas catacumbas das varas regionais, também se falava em “passar o país a limpo”.

A corrupção sempre possui diversas ramificações e desdobramentos. É fácil imaginar uma rede de contatos unindo a Petrobrás e o Palácio dos Bandeirantes, por exemplo. Mas nenhum juiz paulista ousará averiguar os contratos bilionários que essas empreiteiras mantêm com a administração tucana de São Paulo. As morosas e secretas apurações sobre a máfia dos cartéis fornecem exemplo suficiente de que o moralismo do Judiciário só desperta quando há conveniência política.

O tal doleiro bandido possui laços antigos e notórios com figuras do PSDB e do DEM, mas o vínculo, embora tenha provocado o início das apurações, foi esquecido assim que a Petrobrás surgiu na história. Por que os únicos elos investigados sobre o vasto esquema criminoso são os que envolvem o PT e seus aliados?

A tentativa do governo Dilma Rousseff de aproveitar a boa recepção da Lava Jato é compreensível, tendo em vista a hipocrisia generalizada e o histórico de engavetamentos de seus antecessores. Mas a natureza partidária da operação recomenda prudência. Basta que um ministro do STF incorpore o encosto imperial deixado por Joaquim Barbosa e podemos ter a presidenta metida numa farsa golpista que o PT aplaudiu como se fosse obra sua.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Só o mata-mata salva

 














O nobre torcedor e a nobre torcedora se lembram do último jogo, integral ou editado, que reviram na TV? Fanatismos à parte, e independente da modalidade, aposto que foi uma partida decisiva, ou seja, disputada no sistema eliminatório. Pontos corridos não produzem confrontos memoráveis.

Mas por que, diante da contínua decadência do longo, tedioso e previsível Campeonato Brasileiro de futebol, ainda aparece quem defenda sua fórmula de classificação? A resposta leva ao cerne da natureza nefasta do arranjo em vigor: nos pontos corridos não existem surpresas desagradáveis. Ali só time rico tem vez, o que equivale a dizer que só os favoritos da mídia corporativa possuem chances de sucesso.

Os espertos argumentam que a desigualdade financeira é um problema à parte, que não afeta a “justiça” do sistema. Mentira. Pontos corridos e favorecimento econômico formam a mesma estrutura competitiva. São indissociáveis.

A turma do espetáculo voltou a discutir o assunto, preocupada com a audiência minguante. Mas a fantasia do “bom senso”, como sabemos, esconde certa malícia. Tudo bem adotar os jogos decisivos em fases derradeiras dos campeonatos, desde que a sua competitividade seja reduzida até atingir o mesmo patamar de manipulação que as redes televisivas impõem hoje aos pontos corridos. Menos datas, menos jogos, menos times.

As mudanças aventadas para os estaduais seguem essa linha. Em vez de fortalecer os times do interior, equilibrando as disputas, querem extingui-los primeiro, para depois adotar o único sistema no qual eles poderiam ganhar alguma coisa. Sem “pequenos” que estraguem a festa.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

"Interestelar"






















Homenagem de Christopher Nolan ao "2001" de Stanley Kubrick (1969). Tem as mesmas pretensões metafísicas e, curiosamente, uma linha narrativa parecida. Há algo também do “Solaris” de Andrei Tarkovsky (1972).

O esplendor visual suplanta as complexidades científicas da trama e seus escorregões melodramáticos. As bases teóricas são difíceis demais para o espectador leigo, que aproveitará melhor a experiência se voltar ao filme depois de buscar umas noções rudimentares sobre os “buracos de minhoca” e afins.

Além dos efeitos, os aspectos mais positivos são a direção de atores (particularmente Matthew McConaughey, lamento admitir) e a fotografia, a cargo desse virtuose genial que é Hoyte Van Hoytema (de “Ela” e “O espião que sabia demais”).

Nolan é ótimo inventor de universos. Sabe mexer com os recursos digitais como poucos, criando ambientes muito próprios e sólidos. Aqui, retornando ao tempo, o tema central de sua obra, enfrenta o paradoxo já proposto em “A Origem”: a representação daquilo que é, quase por natureza, irrepresentável.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Você sabe com quem está falando?















Num exemplo mundial de presteza judiciária, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro já referendou a condenação da fiscal que negara a divindade do juiz infrator. Pois, como sabemos, lembrar a humanidade do magistrado causa-lhe sérios danos morais.

O Brasil é o paraíso da carteirada. O império do bacharel que exige ser chamado de “dotô”, do “adevogado” petulante que fura a fila porque se acha “otoridade”. Só ele pode estacionar em local proibido, guiar bêbado, elidir seus tributos malandramente. E cana pros petistas imundos.

Nada no caso deveria causar surpresa, muito menos a proteção corporativista da egrégia corte. Esses personagens asquerosos são produtos da mesma cultura cartorária que sustenta a OAB e os conselhos profissionais de toda estirpe. Os abusos de Joaquim Barbosa não foram tolerados à toa.

Se o juiz tem esse comportamento social, fico imaginando as centenas de decisões que tomou, envolvendo os destinos dos pobres mortais sem carteirinhas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Acertos na estratégia dilmista














A insistência midiática no mito da baixaria petista oculta os enormes sucessos estratégicos da campanha de Dilma Rousseff. Diante das circunstâncias e do resultado alcançado, o caso logo virará matéria de estudo acadêmico e modelo para cópias menores. Sem a pretensão de esgotar o tema, nem de fingir conhecê-lo, aponto alguns dos acertos que me parecem mais relevantes.

- Criar duas esferas de comunicação autônomas, com equipes lideradas por profundos conhecedores de cada área: João Santana (publicidade tradicional) e Franklin Martins (internet). A medida garantiu dinamismo e flexibilidade aos trabalhos.

- Apostar forte na importância das pesquisas quantitativas e qualitativas para referenciar os discursos ao longo da disputa. O nível de precisão das respostas dilmistas ressalta o amadorismo da equipe de Marina Silva e os equívocos dos articuladores tucanos.

- Assumir a pauta da sucessão, forçando respostas imediatas e conduzindo os debates midiáticos. Atacar antes de reagir. Forçar comparações. Não permitir que enunciados fortes (mudança, corrupção, etc) fossem apropriados pelos adversários.

- Fornecer conteúdo permanente para que a militância relativizasse as pesquisas, aglutinasse esforços, fomentasse o voto útil e mantivesse o clima belicoso nas redes sociais. Isso impediu que o antipetismo transformasse mentiras em consensos, nos momentos mais importantes da disputa.

- Escolher Aécio Neves como adversário no segundo turno. Evidente desde o início da campanha, a opção foi decisiva. Os coordenadores petistas levaram para a polarização final o maior antagonista do governo, provocando o acirramento do embate ideológico entre ambos. Aécio foi obrigado a guinar à extrema direita, contaminando-se com o que ela tem de mais impopular.

Um pouco de reflexão acerca desses tópicos ajudaria a entender o triunfo reeleitoral para além de ressentimentos e achismos. Não que os analistas midiáticos ignorem a complexidade das questões. Eles apenas fingem que são bobos para não admitirem que existe gente mais capacitada no meio.       

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

“Hiperconexões II”

 



















Meu poema “Obrigação de fazer” acaba de ser publicado na segunda antologia pós-humana organizada por Luiz Bras.

A festa de lançamento foi uma oportunidade para finalmente nos encontrarmos, depois de longa correspondência, iniciada ainda na época em que ele era o Nelson de Oliveira.

Deixo aqui meu agradecimento ao seu generoso convite.


















Para conhecer o trabalho, basta acessar http://hiperconexoes.tumblr.com/

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

“Ele sabia do pó”

 











Imaginemos uma situação hipotética, totalmente fictícia e inverossímil.

O piloto do helicóptero dos Perrella, recentemente flagrado transportando cocaína, faz um acordo de delação premiada com a Justiça. Papo vai, papo vem, a dois dias da eleição presidencial, certa revista despeja um milhão de exemplares nas bancas com uma foto sombria de Aécio Neves e a frase: Ele sabia do pó. Sem aspas.

A mesma imagem percorre o país em centenas de outdoors estrategicamente montados perto de locais de votação. A mídia impressa repercute a bomba, multiplicando seu alcance. Faltando menos de 12 horas para o início do pleito, a rede Globo divulga em rede nacional a “matéria” da revista.

Nada comprova a acusação. Não ha sequer a certeza de que alguém disse mesmo a frase divulgada. Há apenas possíveis ligações políticas do tucano com a família proprietária da aeronave apreendida. E uma suposta fonte bandida, que não dá entrevistas.

A resposta judicial de Aécio à revista seria chamada de “censura”? A publicação ficaria impune? Os veículos deixariam de averiguar a veracidade dos ataques? A campanha de Aécio continuaria sendo acusada de jogar sujo para vencer a eleição?

Então. Pois é.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A mentira contada mil vezes


















A oposição derrotada faz o possível para difundir a falácia de que a campanha de Dilma Rousseff teria usado apelações e sujeiras contra Aécio Neves. Ninguém esmiúça que falsidades seriam essas. Apenas se repete o mantra da maldade petista, na esperança de que ele fique naturalizado, à prova de demonstrações racionais.

O tucano passou meses destilando os venenos que seus marqueteiros julgavam convenientes, inclusive acusações criminais não comprovadas. Quando a brincadeira doeu no moço, ele rápido buscou o lenitivo judicial e a pena da sociedade. Se tivesse ganhado a eleição, tudo não passaria de acerto estratégico.

Observada friamente, porém, a propaganda midiática oficial transcorreu de maneira bastante razoável. Desde que os debates foram dominados pela pauta da corrupção, seria ingênuo esperar deles amenidades propositivas. As lamúrias em torno da desconstrução de Marina Silva, que partiu de ambos os lados, revelam um desalento com as próprias limitações da candidata.

Aécio foi inclusive poupado de questionamentos pessoais que ele mesmo jamais teria evitado se o favorecessem contra um adversário. Para sua sorte, algum petista graúdo cometeu o equívoco machista e irresponsável de engavetar as suspeitas de que o mineiro teria agredido uma mulher, como se fosse coisa íntima de menor relevância. Em nenhuma democracia do planeta esse tema seria ignorado numa campanha presidencial.

Mas acredito que o esforço para enraizar as mentiras sobre o veneno do PT se deve mais a uma tentativa de criar responsabilidades pela derrota de Aécio. Sem o vilão vermelho, o tucanato precisaria analisar e admitir seus equívocos. E isso, como sabemos, demanda uma boa dose de humildade.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

“Relatos selvagens”






















Um prólogo e mais cinco histórias autônomas, unidas apenas por enredos centrados em situações de irracionalidade nas quais afloram diversas formas de vingança. É difícil escolher o melhor, mas tenho particular identificação com o episódio protagonizado por Ricardo Darín.

Os irmãos Almodóvar deixam marcas na produção caprichada e no apuro da fotografia tecnicamente desafiadora. Mas todo mérito do filme cabe a Damián Szifrón, autor do excelente roteiro, que também o dirige com precisão cirúrgica, extraindo comicidade das situações mais embaraçosas e trágicas.

O modo como força os limites do hiper-realismo até resvalar no surreal, embora jamais enveredando pelo caminho do absurdo, revela grande talento dramático.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O voto da Sabesp






















É uma enorme bobagem creditar a vitória de Dilma Rousseff a certas regiões do país. O chute não tem base estatística e só serve para alimentar revanchismos e preconceitos. Qualquer conjunto de três milhões de votos, mesmo sem afinidades entre eles, pode estar na origem da vantagem final da petista sobre Aécio Neves.

A maior estupidez da divisão bicolor do mapa eleitoral é sugerir que a vitória de um candidato desintegra a votação do adversário no mesmo lugar. Aécio teve oito milhões de votos no Nordeste. Dilma reuniu cerca de 34 milhões de votos fora dali. Ou seja, 63% do eleitorado da petista não vivem naquela região.

Mas a simplificação também atende a conveniências partidárias: jogando a culpa nos outros, o tucanato paulista pode esquecer os 8,5 milhões de conterrâneos que preferiram Dilma nas terras secas de Geraldo Alckmin. Ela cresceu 2,5 milhões de votos em relação ao primeiro turno, a metade da votação recebida por Marina Silva no estado.

A dianteira nacional da petista ficou bem próxima do seu avanço em São Paulo. Considerando que essa guinada ocorreu durante a descoberta do estelionato hídrico da Sabesp, fica fácil entender por que os analistas insistem no fantasma nordestino.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vitória
















A reeleição de Dilma Rousseff ganha importância histórica das próprias forças que se uniram para impedi-la. O conluio de setores do Judiciário, da mídia corporativa e do mercado financeiro aglutinou tamanhos poderes contra a petista que o resultado das urnas possui algo de consagrador e até de verdadeiramente heroico.

A vantagem apertada não arranha a importância do feito. Num cenário de mínimo equilíbrio institucional não teríamos segundo turno, mas essa hipótese era remota desde o início. Mesmo as oscilações da campanha tiveram sua cota de previsibilidade.

Comentários afoitos e partidários serão veiculados nas próximas semanas. É hora de especulação, de rancor e de vingança. Os analistas da imprensa tucana precisam justificar de alguma forma os salários que pagam suas previsões equivocadas.

A histeria repugnante que borbulha nas redes virtuais tentará transformar o antagonismo eleitoral numa cizânia de classe e de região, com arroubos xenófobos e talvez racistas. A exposição ao ridículo, o isolamento e eventuais medidas jurídicas ajudarão a aplacar os extremistas. Confrontá-los só alimenta sua ilusão de importância.

Não termina aqui, portanto, a tarefa da militância. A ela cabe equalizar a festa merecida com a prudência necessária para manter o clima civilizado da sucessão. Há muito, muito trabalho pela frente, e não convém gastar energia toureando ressentidos.

Restam diversas questões a debater sobre a campanha finda e o próximo governo. Pretendo contribuir com esses temas pontuais, à medida que os dados e as análises ficarem mais claros e sólidos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Dilma contra a baixaria

















Merecem risos de escárnio as acusações de que a disputa eleitoral ficou manchada pelo “jogo sujo” da campanha petista. É exatamente o contrário.

Dilma Rousseff sofreu, desde muito antes do primeiro turno, um bombardeio de ataques inescrupulosos. As mentiras sobre a Copa do Mundo (não, não nos esquecemos) e o espetáculo das acusações infundadas foram apenas dois de muitos exemplos da malícia desses mesmos veículos e comentaristas que hoje posam de perplexos.

Só Aécio Neves desfruta do apoio de uma revista de circulação nacional que espalha calúnias sobre seus adversários. Só ele tem a seu lado uma rede hegemônica de televisão que reverbera aqueles crimes eleitorais em horário nobre.

O discurso do antipetismo compartilha diversos enunciados com os discursos fascistas tradicionais. Basta analisar o tratamento negativo dado ao PT e a sua militância nas redes sociais e compará-los com léxico semelhante nas manifestações contra judeus, negros, homossexuais, etc. Aécio repetiu esses jargões cotidianamente.

A propaganda tucana, além de preconceituosa e autoritária, embute falsificações irresponsáveis. A mais grave delas é falar em “libertação” (“dessa gente”), como se o país vivesse um simulacro de ditadura; como se, aliás, não fosse Dilma a candidata que mais sofre com o partidarismo do Judiciário.

Até onde lembro, foi a polícia de Geraldo Alckmin (PSDB) que espancou manifestantes no ano passado.

Outra mentira muito cômoda é justamente a falácia da baixaria, que tenta associar a petista à sujeira dos seus adversários. Não há limites para o excremento verbal atirado em Dilma. Se ela reage, no entanto, vira terrorista.

Assim transcorrerá a campanha até domingo. A militância petista precisa ter em mente que a baderna e a agressividade são favoráveis aos eleitores de Aécio Neves. No mínimo porque extravasa a ansiedade e talvez a frustração que eles sofrem no momento. No máximo porque ajuda a melar um jogo perdido.

A grandeza simbólica de uma eventual vitória de Dilma Rousseff será proporcional à imbecilidade dos seus oponentes.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O caráter de Aécio Neves

 

















Em 2009, Juca Kfouri afirmou que o então governador Aécio Neves teria agredido uma mulher no Rio de Janeiro. O jornal Hora do Povo repercutiu o caso em primeira página. A coluna de Joyce Pascowitch relatou o episódio, ocultando seus protagonistas.

Todos foram desmentidos, mas não houve recuos, tampouco investigações profundas. E Aécio reagiu de maneira um tanto acanhada, para alguém que processa jornalistas e blogueiros por divergências bem menos contundentes e objetivas.

Ele foi acusado de dar um tapa no rosto da sua acompanhante, numa festa de luxo, na presença de vários convidados, e ficou satisfeito com uma declaração à imprensa?

Qualquer inocente na mesma situação processaria os mentirosos. Com a influência e os recursos que tem, Aécio ganharia fácil uma ação judicial contra ilações desse teor. E reverteria o constrangimento posando de vítima indignada.
           
Sempre tive receio de abordar a vida íntima dos políticos. Os boatos sobre as supostas dependências químicas de Aécio, apesar da verossimilhança dos flagrantes, me parecem meio levianos. Estão muito próximos das apelações reducionistas que a própria direita usa para conquistar adeptos no farisaísmo generalizado.

Por outro lado, há certas prerrogativas da privacidade que deixam de valer para pessoas que escolheram a vida pública. Não acho que Aécio fugir do bafômetro seja irrelevante. Dirigir sob efeito de álcool ou com a carteira de habilitação vencida é atitude inaceitável para um senador.

Semelhante barreira moral deveria prevalecer contra sujeitos descontrolados e covardes que estapeiam mulheres. Por que não acontece? A sociedade brasileira é tão machista e permissiva que toleraria esse tipo de conduta num pretendente ao maior cargo executivo do país? O antipetismo suplanta qualquer limite civilizado?

Não se trata de simples questão doutrinária. Enquanto a corrupção domina os debates eleitorais, soa incoerente fazer vistas grossas para os repertórios de valores dos candidatos. Se o caráter de um indivíduo não tem importância, jamais deveríamos nos revoltar com as suas atitudes. Agressão física, diga-se de passagem, é crime.

Recusar essa discussão como “jogo sujo” ou “baixaria”soa desonesto e irresponsável. O problema da violência contra a mulher é grave demais para receber meras insinuações anedóticas ou para sucumbir à verborragia programática. O tema exige esclarecimento incontroverso, pouco importando o status e o poder dos envolvidos.

Diante do partidarismo da mídia, porém, resta-nos votar imaginando que os defeitos de Aécio não atingem esse nível. Pois a chance de termos um agressor de mulheres como presidente da República é tão revoltante que chegamos a torcer para que tudo não passe de uma fofoca irresponsável. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Golpe eleitoral



















A tentativa de atingir a candidatura Dilma Rousseff com as investigações sobre a Petrobrás é escandalosa. Não há pretextos éticos, informativos ou judiciais para a divulgação dos depoimentos de réus confessos que influem numa campanha eleitoral e que só poderão ser confirmados ou desmentidos após o fim da disputa.

O argumento de que o episódio ajuda a moralizar a vida pública brasileira oscila entre a estupidez e o cinismo. Esse ímpeto saneador atinge apenas os interesses do PT. Sequer arranha a estrutura da corrupção generalizada, pois se resume a selecionar bodes expiatórios que incriminem adversários políticos ocasionais em troca de penas brandas.

Aconteceu no julgamento do chamado mensalão. Sob a nefasta liderança de Joaquim Barbosa, o STF atropelou ritos e doutrinas para condenar petistas, enquanto os acusados tucanos receberam benefícios equivalentes à impunidade. Os fariseus aplaudiram o rigor dos ministros, mas “esqueceram” a origem do esquema no reduto de Aécio Neves.

Os papéis que supostamente incriminariam José Serra na máfia das Sanguessugas sumiram depois de aniquilarem a candidatura de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo. A mídia não ouviu os irmãos Vedoin, testemunhas-chaves daquele episódio, mas agora dedica espaço nobre a Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef.

Tampouco houve espírito investigativo dos bravos repórteres diante das denúncias do livro “A privataria tucana”, que ligam o enriquecimento de familiares e amigos de Serra às vendas de estatais pelo governo FHC. A obra contém documentos de acesso público, disponíveis aos mesmos curiosos que hoje reverberam as bravatas de Costa e Youssef.

E por que ninguém assedia os envolvidos na máfia do metrô paulista, que vigorou por três governos do PSDB no estado? Como explicar que o inquérito de apenas oito meses sobre a Petrobrás receba tamanho destaque, mas os cartéis metroviários, conhecidos há pelo menos seis anos, continuem secretos? Cuidado para não causar injustiças?

O viés partidário da imprensa corporativa e de certos magistrados talvez seja inerente às suas atividades. Mas o uso do poder institucional visando objetivos eleitorais tem a marca histórica do golpismo. Toda ação antidemocrática nasce em organismos legítimos da sociedade e instrumentaliza pautas republicanas para fins espúrios.

Os discursos que insuflam o antipetismo (corrupção, baderna, aparelhamento) atualizam a propaganda anticomunista de 1964. Os mesmos veículos que na época aplaudiram os militares encabeçam a histeria desmoralizadora contra o governo federal. Novamente com apoio de setores do Judiciário, do capital financeiro, da classe média conservadora.

A preferência dessas forças autoritárias por Aécio Neves confere sentido muito especial à luta para vencê-lo. E transforma seus apoiadores em cúmplices do arbítrio, do cinismo e da manipulação que o favorecem.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O voto limpinho


O Tribunal Superior Eleitoral proibiu as campanhas de veicular material negativo sobre os adversários. Sob a ótica da disputa, essa medida beneficia apenas Aécio Neves. Os ataques a Dilma Rousseff continuarão, diariamente, na mídia corporativa. Censuradas na propaganda petista, as denúncias contra o tucano desaparecerão.

Canetada esperta: empurra os debates para terreno favorável ao discurso novidadeiro do candidato de FHC. Tudo que Aécio precisa agora é limpar sua imagem dos podres que escancaram a falsidade da “mudança” que a torna palatável.

A campanha dilmista poderia aproveitar a piada inevitável da mordaça “propositiva”. Talvez defendendo uma legislação que impeça a candidatura de ex-governadores que usaram dinheiro público para instalar aeroportos nas terras de suas famílias. E outra lei cassando mandatos de legisladores que fogem do bafômetro.

Mas falando sério. Algo está muito errado quando magistrados interferem na pauta eleitoral, mudando as regras no meio do processo. Pior ainda quando o fazem para calar informações relevantes sobre a índole de alguém que tenta ser presidente da República.

Se o nepotismo e a irresponsabilidade (e a hipocrisia e o passado nebuloso) são detalhes insignificantes de um candidato, qualquer mandrião pode chegar ao Planalto. Basta que o sacrossanto Judiciário impeça os eleitores de conhecerem o bandido que os engana.

A sucessão transcorre muito bem, portanto, de forma igualitária, justa e equilibrada.