segunda-feira, 24 de agosto de 2015

As ruas sepultaram o golpe
















Publicado no Brasil 247

As manifestações contrárias ao impeachment surpreenderam a oposição. Nem tanto pelo que de fato realizaram, mas paradoxalmente pelos resultados que poderiam ter atingido em outras circunstâncias. Ou melhor, que poderão atingir com um pouco mais de organização e esperteza.

Apesar das tentativas públicas de menosprezar os atos, nas redações e nos gabinetes o tom das conversas é parecido: o governismo ainda possui capacidade mobilizadora e conta com penetração social que seus adversários não conquistaram. Enquanto as passeatas da direita flertam com a repetição, a caricatura e certo esgotamento de propósitos, as da esquerda mal começaram e têm potencial para crescer.

As multidões com bandeiras vermelhas completaram o tripé sobre o qual assentará a permanência do governo Dilma Rousseff. O primeiro pilar é a fragilidade política da oposição, enroscada na decadência de Eduardo Cunha e nas capivaras da Lava Jato. O segundo veio com o manifesto de juristas notórios contra o golpe, atitude pouco divulgada pela mídia, mas que repercutiu nos meios jurídico e acadêmico.

As manobras golpistas precisariam dominar pelo menos um desses flancos. A frente partidária coesa, o respaldo técnico do legalismo e a unanimidade popular, mesmo atuando isolados, suplantariam as demais lacunas. Mostrando-se competitivo nas três frentes, o governo afugenta os pragmáticos do mundo político-empresarial, isolando os aventureiros numa posição incendiária que ninguém ousará bancar.

Mas o golpe foi riscado da agenda antipetista principalmente porque os atos da esquerda criaram um novo cenário hipotético para o futuro próximo. É fácil imaginá-lo: uma onda de reações cada vez mais unidas, representativas e abertamente governistas contra o impeachment. E se os desfiles reacionários suscitarem equivalentes progressistas sempre maiores, fomentando a combalida militância para as eleições de 2018?

Esse prognóstico sombrio domina os bastidores oposicionistas em todos os âmbitos. Por trás das verborragias ameaçadoras, seus líderes na verdade preparam uma despedida honrosa do monstro, que de tão feroz terminou rosnando para os próprios donos. A súbita transferência dos ataques, de Dilma para Lula, sinaliza a estratégia alternativa que o golpismo começa a articular.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Mentiras proibicionistas

        













Ao adiar o julgamento da inconstitucionalidade da legislação antidrogas, o ministro Luiz Edson Fachin evidenciou que o STF se encaminha para uma decisão progressista. Nas próximas semanas, caberá aos defensores das liberdades individuais contrapor o lobby de interesses favoráveis à proibição, que ganharam a chance de um apelo final.

A prova de que essa turma não está para brincadeira aparece nas mentiras deslavadas que seus asseclas vêm proferindo na corte. Não se trata apenas de exageros sem base técnica, que, afinal, os especialistas da área derrubam facilmente. O problema é a falácia protegida pela autoridade.

Como pode um procurador-geral da República afirmar que 90% dos usuários de maconha se tornam viciados? Ocorre exatamente o contrário: a dependência na erva não chega a 10%, índice menor que o do álcool e do tabaco. Ou Rodrigo Janot mentiu para os ministros, ou cometeu um equívoco incompatível com o cargo que ocupa.

Mas a questão principal ainda se esconde em outro viés deturpador. O que o STF está julgando é o direito de o cidadão dispor do próprio corpo sem interferência do Estado. Não cabe ao Judiciário “descriminalizar as drogas”. Se esta é uma consequência da aplicação dos direitos individuais previstos na Constituição, tanto pior para a lei obtusa que os viola. Mas, repito, é a constitucionalidade que está em discussão.

Os proibicionistas (inclusive os da mídia corporativa) tentam ofuscar o tema central do debate com arroubos catastrofistas que, além de falsos, servem para enfraquecer a insuperável base jurídica da tese legalizadora. Tática velha e surrada, própria da desonestidade intelectual repressiva.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O desfile do orgulho reacionário
















É quase impossível extrair informações confiáveis sobre as manifestações na imprensa corporativa. Claro, ela inventou a festa, agora quer inventar os significados da festa. Mas a tentativa de moldar os fatos chega a soar um tanto ridícula.

Os cálculos esdrúxulos (sete pessoas por metro quadrado!) não escondem dois fatos visíveis: a) os protestos encolheram e b) mantiveram a mesma composição étnico-social dos anteriores. Novamente, basta assistir às imagens disponíveis.

Em março e abril já havia certa sensação de “muito barulho por nada”, mas agora ela domina a memória das passeatas, feito ressaca de vinho ruim. Com aparato midiático dessa envergadura, até a adesão exagerada pelos oposicionistas parece frustrante. Se as marchas fossem um produto, considerando o preço e a extensão dos seus anúncios noticiosos, ele teria o pior custo-benefício per capta da publicidade universal.

Algo que me intriga no comportamento da coxinhada é o contraste entre o clima brincalhão e o teor horripilante dos cartazes e faixas empunhados. Ninguém dá muita bola para estar fazendo propaganda fascista. Os discursos parecem menos importantes do que o prazer de exibi-los com criatividade, como em certos eventos populares que representam mortos e assombrações.

Os protestos vão se estabelecendo como festas públicas do conservadorismo, onde os adeptos da nova moda podem sair do armário e soltar as frangas sem o patrulhamento do bom senso e da responsabilidade histórica. Com o gradativo esvaziamento da agenda golpista, talvez este seja o prêmio de consolação das suas viúvas: passar vergonha na frente dos outros uma vez por ano.

sábado, 15 de agosto de 2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A função dos protestos












As próximas manifestações promovidas pela imprensa corporativa e por setores da direita organizada marcam a etapa culminante da agenda golpista. O resultado publicitário do movimento norteará as manobras institucionais do impeachment.

Essa lógica soa trivial, mas é tão séria e elucidativa que tem sido sistematicamente ocultada pela mídia. O projeto da deposição de Dilma Rousseff precisa do apelo das ruas porque, sozinho, nas esferas judiciais e legislativas, tende ao fracasso.

Não porque faltem oportunistas antidemocráticos no Judiciário e no Congresso, pelo contrário, mas porque essas facções não conseguiram inventar bases razoáveis para o impedimento. E ninguém está disposto a assumir a conta de um golpe descarado que se apóie em ilações e trivialidades técnicas.

A dificuldade transparece na mudança de postura dos organizadores dos atos, que passaram a exigir a renúncia da presidente. Então os próprios indignados perderam a convicção na tese do afastamento inevitável? Agora Dilma só sai se quiser?

Toda essa esquizofrenia parece diluir-se na imagem positiva e solene que a imprensa fornece das passeatas. A propaganda do fenômeno popular espontâneo serve de escudo para o envergonhado ímpeto antidemocrático dos seus líderes.

Mas a estratégia tem um problema difícil de resolver: quanto mais radicalizados ficam os manifestantes (e o submundo violento que os acompanha), menos atraentes eles se tornam para as pretensões salvacionistas do golpe. Em outras palavras, escancaram a verdadeira essência do golpismo de gabinete.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Lama a jato














Publicado no Brasil 247

A cada depoimento novo, o cenário da Lava Jato fica mais constrangedor para a oposição. A imprensa tucana faz algazarra em torno das menções dos delatores a Dilma e Lula, mas o que vemos é um número crescente de elos com José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, etc.

Inflado pela mídia corporativa, Sérgio Moro convenceu-se de que podia criminalizar as maiores empreiteiras do país e ao mesmo tempo manter o processo focado nos petistas. Mas suas pretensões exacerbadas são inconciliáveis com o viés seletivo dos inquéritos.
                                                                               
Ao longo dos intermináveis ritos processuais será impossível desnudar as construtoras sem atingir as doações para candidaturas do PSDB e os contratos no metrô de São Paulo, por exemplo. As menções a Serra nos emails da Odebrecht (e as canhestras tentativas de ocultá-las) fornecem um indicativo dos monstros ocultos nesses armários.

Algo parecido amedronta os ministros do STF. Se tratarem os políticos citados sob critérios menos rigorosos do que usaram no julgamento do “mensalão”, escancaram o partidarismo de seus votos submissos a Joaquim Barbosa. Repetindo aquela verve condenatória, precisarão meter a cúpula oposicionista na cadeia.
                           
Eis o dilema central de Moro e seus asseclas: quanto mais eficazes forem do ponto de vista jurídico, mais perigosos se tornam politicamente. O esforço para manter as investigações em certos eixos convenientes evidencia a preocupação com esses limites. A cronologia usada para o escândalo da Petrobrás fala por si.

E os justiceiros estão certos. A Lava Jato não sobrevive uma semana se extrapolar os limites da atual base governista. Logo surgiriam os editoriais pedindo cautela, os protestos da OAB, as admoestações do CNJ e as interferências das cortes superiores. Prender tucano é coisa que a boa sociedade não aceita e ponto final.

Talvez se precavendo desses perigos, a alcaguetagem comandada por Moro teve tantas falhas rudimentares. Grampos ilegais, vazamentos seletivos e outras esquisitices dificilmente sairão ilesos dos trâmites processuais. É mesmo previsível que as irregularidades inviabilizem boa parte das ações, quando não as anularem por completo. Já vimos esse filme antes, aliás.

A estratégia delatora presume um componente de barganha que dá sentido muito próprio a deslizes que podem favorecer os réus em longo prazo. No mínimo insinua que a efetiva punição dos empreiteiros não configurava o objetivo central dos inquéritos.

Assim compreendemos por que a oposição tenta agravar logo o desgaste do governo federal. O impeachment selaria a utilidade partidária do justiciamento de Moro, garantindo a blindagem dos outros interesses que ele ameaça. Seria um alívio para as próprias defesas, que enfim sorveriam o desvio da atenção midiática.

O golpe representa uma cortina de fumaça para o vergonhoso desfecho que a Lava Jato previa desde o início. Além de alvos de um procedimento político, Dilma e o PT são bodes expiatórios da impunidade dos seus adversários.

sábado, 8 de agosto de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A reação necessária














Os processos de Guido Mantega contra o imbecil que o insultou e de Lula contra a revista Veja indicam uma reviravolta no comportamento dos petistas. Antes tarde do que nunca, mas todos precisam ser cobrados pelo silêncio anterior.

Os governos federais do PT foram marcados por uma exasperante pusilanimidade perante os abusos dos adversários, em especial a mídia corporativa. É razoável afirmar que essa tolerância incentivou a escalada selvagem da direita, ao menos quanto à presunção de impunidade.

Não alimento ilusões no equilíbrio do Judiciário, especialmente nas instâncias superiores, túmulos inevitáveis de qualquer ação contra mentirosos e agressores oposicionistas. Mas, se o pedido reparatório tem pouca serventia pragmática, sua função pedagógica é inegável.

Tivessem agido nos primeiros ataques maliciosos, os petistas conteriam a naturalização da hidrofobia reacionária. Talvez hoje contassem com uma ou duas vitórias simbólicas que evitassem os crimes eleitorais de Veja e os vazamentos seletivos da Lava Jato.

Há uma grande confusão entre passividade e o tal “espírito republicano” defendido por alguns petistas. Republicanismo é exigir proteção legal contra a calúnia, a difamação, a injúria, a agressão. É cobrar das instituições um comportamento digno de suas prerrogativas no estado de Direito.
                                   
Mas não devemos reduzir todas as agressões da direita a uma simples culminância da inação das vítimas. O atentado ao Instituto Lula, por exemplo: na conjuntura atual, ele pode ter sido motivado exatamente pelo início de reação petista, que inclui as ações judiciais, o apoio dos governadores a Dilma, as manifestações antigolpe, etc.

A violência também é uma resposta desesperada à recuperação da dignidade do campo governista. Isso torna evidente que os tempos de masoquismo cívico do PT ficaram num passado irrecuperável. A não ser, claro, que a barbárie prevaleça.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Pândega

 












O esforço de setores da imprensa para diminuir o rendimento brasileiro nos Jogos Pan-Americanos ilustra como o rancor político sobrepuja até mesmo as causas mais nobres e incontroversas.

Que defensores da popularização do esporte podem menosprezar as conquistas de atletas que se sacrificaram horrores para aqueles breves momentos de glória?

Não vale a pena esmiuçar as inúmeras mentiras e distorções usadas nas bobagens vira-latas. A própria ênfase no número de medalhas (e no de pódios, de ouros, etc) contraria qualquer esforço analítico minimamente sério sobre o tema.

O importante aqui é lembrar que os ataques às conquistas do Pan visam atingir a imagem do governo federal petista, o maior sustentáculo do nosso esporte olímpico, além de viabilizador dos Jogos de 2016.

Dinheiro público sim, e bem aplicado. Mas isso os sabujos não podem saber, pois seu modelo de eficácia é a seleção mafiosa da CBF.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Samba"






















Drama simpático dos mesmos autores do grande sucesso “Intocáveis”. Dali também reaparece o excelente Omar Sy, que, com Charlotte Gainsbourg, constitui o maior atrativo do filme.

Houve alguma resistência da crítica à abordagem da realidade do imigrante na Europa. Mas esse tratamento não invalida a proposta de tratar um tema difícil com leveza e até otimismo.

E, nestas paragens provincianas, é salutar um passatempo que lembre os espectadores das massas anônimas e exploradas do paraíso turístico europeu. Principalmente agora, uma década após o fuzilamento de um brasileiro inocente pelos impolutos cossacos britânicos.

Essa lembrança dá um toque de involuntária complexidade a certo personagem, de resto bastante verossímil, que justifica a inclusão de Jorge Benjor e Gilberto Gil na trilha sonora.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O golpe ameaçado



















A desmoralização de Eduardo Cunha coloca os planos golpistas em cheque. Obrigada a afastar-se do seu testa-de-ferro, a oposição perde um atalho à maioria parlamentar que poderia derrubar Dilma Rousseff a qualquer momento. No mínimo, fica impedida de brandir esse privilégio.

Restam três alternativas aos viradores de mesa.

A primeira seria transformar Cunha numa versão apocalíptica de Roberto Jefferson, dedicada a causar o maior estrago possível no governismo. Essa via dificilmente sobreviverá ao isolamento gradativo do peemedebista, ao fisiologismo do baixo clero e à associação do impeachment com o ânimo vingativo de um suspeito.

A segunda hipótese exigiria que um tucano ou assemelhado se apresentasse como líder substituto da causa. Mas a falta de consenso no PSDB e o receio de assumir a vidraça da “crise” dificultam ações partidárias num plano arriscado e pretensioso demais.

Já a terceira saída reside em forçar iniciativas externas (TCU, Ministério Público, Judiciário) que transformem a deposição de Dilma num desdobramento inevitável da luta anticorrupção. Embora poderosa, a tática tem seus limites. O vergonhoso inquérito contra Lula, rechaçado até por juristas conservadores, mostra o perigo do atropelo judicial fortalecer suas pretensas vítimas.
           
Nas próximas semanas, por falta de uma opção sólida, o golpismo tende a combinar todas as estratégias citadas. Seus defensores se consolarão dizendo que preparam as manifestações de agosto, coroação da investida antidemocrática.

Mas a realidade parece bem menos favorável a eles. O recurso a vários estratagemas complicados denota fraqueza e, pior, falta de confiança num caminho viável rumo à deposição de Dilma. É muito desespero para um projeto dessa envergadura.

Se o governo e seus apoiadores conseguirem refrear a previsível histeria do golpismo ferido e acuado, até o final do ano o bicho definha e vira tapete.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Cotas em preto e branco

















Publicado no jornal Correio Popular

O triunfo das ações afirmativas de viés étnico-racial ocorreu em parte graças aos seus próprios adversários. Desde que eles incorporaram certas mistificações do repertório conservador (especialmente a ilusão da democracia racial brasileira) e desde que a imprensa corporativa moldou o debate segundo uma estratégia tola e oportunista de antagonismo ao governo federal, a causa cotista adquiriu uma relevância que sobrepôs os méritos intrínsecos da ideia.

Mas as cotas raciais não se tornam incontroversas apenas porque nos satisfazemos com a derrota do obscurantismo. Em situações de maior equilíbrio ideológico, poderíamos refletir sobre o destino dos estudantes pobres não beneficiados pelo mecanismo, as esferas legítimas para a construção de programas estatais de vasto alcance, as conseqüências de baseá-los na cor de pele, na genealogia ou mesmo na reparação de violências ancestrais e o efetivo papel das ações inclusivas no combate ao preconceito.

Muitos autores favoráveis às cotas fornecem respostas interessantes a esses dilemas. Por outro lado, nem todos os argumentos contrários partem de charlatões brancos e desonestos, mesmo quando se parecem com os proferidos pelos charlatões brancos e desonestos que imbecilizam a controvérsia. Porque ninguém precisa recorrer à estupidez de negar que a desigualdade está marcada racialmente para sugerir soluções que superem o caráter racial dessa desigualdade.

Acontece que o âmbito formulador das ações afirmativas foi contaminado pela fantasia de que o mundo se divide entre dois coletivos homogêneos, o dos sábios visionários defensores das cotas e o dos racistas ignorantes que as odeiam. Quem não quer fingir que pertence ao primeiro grupo e nem possui bile para gastar evitando a pecha do segundo prefere se afastar do debate.

Ficamos então condenados aos programas públicos que essa visão bipolar é capaz de construir. E nos satisfazemos com os inegáveis avanços sociais resultantes, mesmo que tenham origem pouco democrática. Isso talvez sirva em demandas momentâneas, mas é insuficiente para um projeto nacional duradouro e inclusivo de verdade.