sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

“Whiplash”

 
















O enredo já foi contado mil e uma vezes, ambientado em quartéis, hospitais, ringues, companhias de dança e até, como aqui, escolas de música. Também podemos fazer restrições a furos do texto, à verossimilhança, à apologia do sacrifício, ao desfecho.

Pouco importa. A trilha sonora é excelente, e as cenas de números musicais chegam a emocionar os aficionados. O sempre ótimo J. K. Simmons comprova sua versatilidade num papel que poderia descambar para a caricatura. O jovem Milles Teller (“The Spetacular Now”) enfrenta o enorme desafio com bastante dignidade.

A fotografia, talvez premida por limitações orçamentárias, faz uma acertada opção pelos planos fechados, sob luzes duras, que realçam a claustrofobia das situações e o rosto expressivo de Simmons. Mas é a edição impecável de Tom Cross que confere o verdadeiro brilho técnico do filme.
           
Dá vontade de aprender bateria.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Faltou combinar com os eleitores






















Publicado na página do Le Monde Diplomatique Brasil

O último processo eleitoral brasileiro foi marcado pela continuidade. A maioria absoluta dos deputados federais e estaduais reelegeu-se. Metade dos senadores em fim de mandato alcançou o objetivo. Dos dezoito governadores que tentaram permanecer no cargo, onze conseguiram. Oitenta milhões de votantes endossaram a polarização entre PT e PSDB, rejeitando as candidaturas presidenciais alternativas. Cerca de 54 milhões optaram depois pela via situacionista, dando-lhe a quarta vitória seguida.

Os resultados frustraram as expectativas de renovação acima das médias históricas e, principalmente, de uma derrota do governo federal. Isso aconteceu porque o ímpeto de mudança que teria dominado o país era mais um desejo dos comentaristas do que um diagnóstico preciso. Em outras palavras, a perspectiva de transformação do cenário político baseou-se na projeção de anseios setorizados e teve natureza essencialmente propagandística.

O equívoco nasceu nos consensos do campo midiático sobre as manifestações populares do ano passado. Ansiosos para domesticar a perigosa simbologia dos protestos e sua polêmica pauta original, certos observadores apressaram-se em acomodá-los sob um denominador comum. O suposto desejo coletivo de mudança foi então adotado como fator identitário e unificador do fenômeno heterogêneo e caótico das manifestações.

Essa leitura também ajudava a neutralizar ideologicamente a militância. Uma reação generalizada “contra tudo que está aí” dispensava plataformas e condicionantes sociais ou partidárias. Era a essência positiva de qualquer atitude rebelde, inclusive quando os seus argumentos se mostravam rasteiros, como nas falácias sobre os gastos com a Copa do Mundo. O mesmo valia para a ilusão “tática” dos blocos mascarados.

Logo a mídia passou a instrumentalizar a revolta com fins eleitorais. A condenação do radicalismo das ruas serviu para reforçar sua antítese pacífica e ordeira, a mudança pelo voto. O mantra apaziguador “a resposta será dada nas urnas em outubro” virou moda na imprensa corporativa, adquirindo uma tonalidade pedagógica de forte viés autoritário.

Claro que todos previam a influência desse discurso na disputa presidencial vindoura, fortemente plebiscitária e polarizada. A naturalização do mote novidadeiro disseminava e fortalecia o apelo de qualquer candidatura oposicionista que se tornasse competitiva. E conferia uma fachada isenta ao antipetismo preponderante nos veículos.

A jogada tinha algum respaldo histórico. Nas pesquisas de 1989, por exemplo, a mudança política foi o motivo mais citado para a decisão final de voto, particularmente a dos eleitores do vitorioso Fernando Collor. (1) Em 2002, a metáfora da esperança brandida por Luiz Inácio da Silva utilizou apelo semelhante. (2)

Ao longo de 2014, contudo, a novidade sucumbiu à vulgarização midiática. Repetido nos slogans de Dilma Rousseff (“Muda Mais”), Aécio Neves (“Muda Brasil”) e Marina Silva (“Coragem pra mudar o Brasil”), o conceito diluiu-se até perder o sentido. Serviu tanto para o governo acenar com melhorias quanto para a oposição amenizar seus elogios aos programas federais. Virou um rótulo camaleônico a serviço do oportunismo.

Parece inegável que as narrativas mudancistas do marketing eleitoral dialogavam com efetivas demandas da sociedade. Mas as versões jornalísticas desses anseios tomavam-nos como parte do legado subjetivo dos protestos, e não como suas causas, exagerando a possível influência deles sobre as urnas. Se as manifestações escancaravam a falência do sistema representativo, dificilmente prenunciariam uma guinada institucional que dependesse da própria estrutura sufragista caduca.

Os prognósticos de renovação eleitoral falharam ao simplificar demais as motivações do voto no país. Fizeram de um fenômeno socioculturalmente delimitado um microcosmo representativo da maioria, ignoraram os enormes contingentes populares que não aderiram à febre reivindicatória e desconsideraram os estímulos morais e pragmáticos do chamado “eleitor não-racional”, decisivo em qualquer disputa. (3)

Misturando estratégia publicitária com análise conjuntural equivocada, a apologia da mudança pelo voto iludiu os círculos oposicionistas a ponto de comprometê-los moralmente com a fantasia redentora. O espírito vingativo que se apossou dos derrotados é consequência direta dessa perplexidade rancorosa contra os eleitores que baldaram suas previsões.

(1)
Carreirão, Yan de Souza. “A decisão do voto nas eleições presidenciais brasileiras”. Florianópolis: Ed. Da UFSC; Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2002, p. 81-86.

(2)
RUBIM, Antonio Albino Canelas. As imagens de Lula presidente, 2003. in FAUSTO NETO, Antonio (Org.s) Lula Presidente: televisão e política na campanha eleitoral. Porto Alegre: Hacker Editores / Unisinos, 2003. p.43.

(3)
Silveira, Flavio Eduardo. “A decisão do voto no Brasil”. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 182-190.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Voltando


















Aos poucos retomo as atividades neste humilde espaço. Não queria começar o ano falando em tragédia, então me permiti um preâmbulo despretensioso. E é uma chance de usar a fotografia do Hunter S. Thompson, que aparece mocinho na postagem anterior.

O volume de compromissos reduzirá o dos textos blogueiros e deixará as colaborações com outros veículos mais esparsas. Espero, no entanto, manter alguma regularidade nas publicações todas.

Pretendo fazer algumas atualizações na página, assim que a agenda permitir. Na primeira oportunidade retomarei os temas do cotidiano atribulado.

Conto com a participação dos heroicos seguidores e com sua ajuda para divulgar o conteúdo que julgarem relevante.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Recesso















Uma seleção de textos publicados por aqui em 2014.
                              
Funk Segregassaum, sobre os rolezinhos

"Ela", filme de Spike Jonze

O baile dos mascarados, sobre o black bloc

O papel das policias nos protestos de rua.


"A caça", filme de Thomas Vinterberg


"O lobo atrás da porta", filme de Fernando Coimbra

Manipulação impune, sobre as mentiras contra a Copa

O exemplo alemão, exagerado pelo 7 a 1

"Balada de um homem comum", filme dos irmãos Coen

A ilegalidade conveniente das taxas para compra pela internet

O voto da Sabesp nas eleições presidenciais

"O homem mais procurado", filme de Anton Corbijn 

Direitos em marcha-ré no trânsito campineiro

A conveniência da palavra democracia no discurso dos derrotados

A PF na ribalta com a Operação Lava Jato

A memória da justiça faltou à Comissão da Verdade

O que Francis diria sobre os escândalos da Petrobrás

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A chance do futebol brasileiro

 

Publicado no Brasil 247

A modalidade esportiva mais popular no país vive uma crise institucional de proporções inéditas. A seleção foi desmoralizada. Os campeonatos acumulam jogos medíocres e público irrisório. Clubes e rede Globo têm dívidas fiscais bilionárias, talvez impagáveis, enquanto a maioria dos atletas amarga péssimas condições de trabalho.

Governo federal, Congresso, dirigentes, jogadores, a CBF e a emissora mobilizam-se para proteger seus interesses. Apesar da dinheirama, os políticos temem a insatisfação dos torcedores com ações judiciais que inviabilizem os times populares. A desmoralizada CBF antevê uma onda intervencionista que ganha adeptos em diversas instâncias. A Globo, sempre questionada por causa dos horários das partidas, recebe pressões de anunciantes insatisfeitos com o espetáculo decadente que patrocinam. Os atletas julgam-se desprestigiados demais para enfrentar os lobbies do setor.

Existe uma saída possível para as demandas conjuntas. Ela passa pela criação de uma Liga de clubes que administre os campeonatos de todas as divisões, negociando com a mídia e os patrocinadores diretamente. As principais inovações do estatuto da entidade seriam:

- Sistema rotativo de comando nos clubes e nas federações.

- Calendário racional de jogos, harmonizando os campeonatos e as “datas FIFA”.

- Distribuição igualitária das verbas televisivas entre os participantes da competição.

- Rigidez fiscal e trabalhista.

- Compensações aos times reveladores de talentos.

- Fundo para apoio a categorias de base, alimentado com porcentagens das bilheterias, divididas em faixas proporcionais à pendência tributária de cada agremiação.

O pacote pode nascer de uma ação coordenada dos três Poderes, que usariam os passivos exorbitantes como forma de persuadir seus responsáveis. Desde que ninguém apareça com acintosas anistias, o futuro dos times está fadado ao trâmite amargo dos ritos processuais. Cedo ou tarde os devedores serão executados, perdendo reservas, contratos, patrimônio e direitos. Acordos paliativos de renegociação apenas perenizam a ruína das estruturas futebolísticas.

As contrapartidas valeriam o sacrifício. Os times e a Globo zerariam suas pendências, ganhando fôlego para investir e livrando-se da constrangedora devassa. Os jogadores teriam as velhas demandas atendidas. A CBF garantiria poder irrestrito sobre a seleção, mantendo vínculos arrecadatórios com a Liga. Os torcedores receberiam campeonatos mais equilibrados e emocionantes, em condições dignas de organização. E o governo trocaria um dinheiro incerto pelos frutos políticos da iniciativa moralizadora.

A crise atual representa uma chance irrepetível de reorganizar o futebol brasileiro. Basta um pouco de visão estratégica das autoridades públicas, do Bom Senso e dos times de menor poder financeiro, cuja situação majoritária nunca foi tão decisiva. Se a imprensa esportiva pudessenão ser bairrista só desta vez, já contribuiria bastante.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Golpe se previne





















Se alguém está mesmo preocupado com certa onda golpista que avança no país, chegou o momento de agir.

Criando sites e publicações de análises e denúncias. Promovendo seminários com personalidades jurídicas e acadêmicas. Mobilizando setores da sociedade organizada, com debates em sindicatos, movimentos sociais, agremiações estudantis. Disseminando grupos de estudo nas universidades. Formando redes de militância junto a professores, artistas e intelectuais.

A história de que o povo sairá às ruas em caso de necessidade funciona como narrativa revolucionária, mas na vida real não vale um tiro de festim. O país amanheceria quieto e aliviado, como em abril de 1964. Mesmo na remota hipótese de alguma resistência pontual, ela seria esmagada cruelmente, com respaldo nessa aura de legitimidade que emana dos poderes instituídos.

Havendo um golpe, as estruturas burocráticas e repressivas do Estado imediatamente passariam a defender o grupo vitorioso. Do desembargador ao guarda municipal, todos os agentes públicos estariam a serviço da “autoridade em exercício”. E a mídia tradicional sufocaria a capacidade mobilizadora da blogosfera progressista.

Aqueles que confiam na sublevação popular se aferram à imagem de blindados nas ruas e generais de espada em riste. Essa fantasia mostra como os profetas da ameaça estão despreparados para enfrentar a única verdadeira possibilidade golpista: tropas de choque da PM portando mandados judiciais, ministros do STF prendendo lideranças políticas, Ministério Público, Polícia Federal e magistrados caçando adversários ideológicos.

A falta de medidas coordenadas para impedir uma “virada de mesa” antidemocrática sugere que o risco não é levado realmente a sério. Neste caso, talvez fosse mais produtivo aceitar a permanência inevitável do golpismo e discutir maneiras de lidar com esse desvio. Pois quando o espírito antidemocrático se materializar em conquistas efetivas nas estruturas do poder, será tarde demais para discursos libertários.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A memória da justiça
















Publicado no Brasil 247

A parcela da memória coletiva que a Comissão Nacional da Verdade ajuda a reconstruir é imprescindível, embora já tenha sido mais ou menos sistematizada pela vasta literatura sobre os crimes da ditadura militar. Mesmo que esse discurso histórico seja plenamente configurado, porém, ele não realizará a superação do maior trauma que os anos de chumbo originaram e que ainda transtorna o país: o da impunidade jurídica.

O testemunho contribui para resgatar a vítima de seu encerramento na experiência do horror, como defende Márcio Seligmann-Silva. Mas as próprias estruturas do cárcere subjetivo continuam preservadas, porque uma parte essencial do compromisso entre as memórias coletivas e individuais não encontra satisfação apenas no depoimento das vítimas.

Aproveitando a nomenclatura esboçada por Maria Rita Kehl, podemos chamar esse vínculo imaginário de “memória da justiça”. É a convicção de que a coletividade reconhece a gravidade dos horrores a ponto de estabelecer uma punição exemplar aos criminosos.

Se nada alterará os acontecimentos nefastos de outrora, se o estranhamento, a fragilidade e a incomunicabilidade marcam de maneira indelével a condição do sobrevivente, é no espaço dos poderes instituídos (na esfera política, em sentido amplo) que a experiência pessoal, feita denúncia, potencializa-se e rompe a clausura forjada pelo esquecimento apaziguador. Restrito à dimensão testemunhal, o “passado que não passa” (Seligmann-Silva) também redunda no inverso, um presente feito de reminiscências, amortecido pelo abismo temporal que separa o ouvinte-leitor e o relato. A inação da Justiça pereniza esta distância.

Os testemunhos de catástrofes que receberam anistias ou sucumbiram à amnésia oficial possuem um agravante de frustração ausente naqueles que relatam tragédias contempladas por esforços judiciais punitivos. Parece razoável imaginar que as condenações rigorosas de Nuremberg e similares ajudaram a amenizar o sofrimento das vítimas, ou pelo menos a poupá-las da indignação adjacente de saber que seus algozes continuavam em liberdade. Ademais, a impunidade é o objetivo final de qualquer estratégia negacionista, estágio definitivo de sepultamento do fato inaceitável, ou melhor, a oficialização de sua inexistência no domínio institucional.

Outro poder relevante da “memória da justiça” advém de sua natureza pedagógica. A punição efetiva materializa os dogmas do Estado de Direito, impondo limites reais às práticas de dominação que se articulam para sufocá-los. O mecanismo preventivo atua na subjetividade coletiva como um amálgama de valores humanistas que ajuda a blindar a sociedade contra a ressurreição de horrores passados, na forma da escravidão, dos atentados, das execuções, dos abusos policiais, de todo esse rol tenebroso de crimes contemporâneos. Quando aceitamos que os responsáveis por crimes semelhantes decretem o próprio indulto, contribuímos para relativizar a noção de barbárie no imaginário social.

A “verdade” que a Comissão engendra é uma verdade malbaratada, porque incompleta e impotente. A incompletude da denúncia juridicamente infrutífera e a impotência deliberativa transformaram as audiências em exercício de catarses individuais cuja serventia terapêutica não pode ser minimizada, mas apenas atenua os sintomas da enfermidade real, que é o desprezo generalizado pelos valores constitucionais de cidadania.

E não deixa de haver uma estranha coincidência no fato de que tal frustração se deve ao Supremo Tribunal Federal, que endossou a anistia penal dos ditadores para em seguida virar o paladino da moralidade pública brasileira.

sábado, 13 de dezembro de 2014

“Sweet Virginia”


The Rolling Stones, 1972. Com a participação do inigualável Bobby Keys (1943-2014). 

Outras com ele aqui e acolá.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Participação no Rascunho


















Ao longo de quinze meses, Luiz Bras publicou uma enquete na sua coluna do suplemento literário Rascunho. No último minuto da prorrogação tive a honra de participar da série. A pergunta central, dirigida a escritores, editores e acadêmicos, era a seguinte: "Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?" 

Sob a perspectiva de um autor que o observa da margem (e não sem algum ressentido ceticismo), o circuito midiático da literatura brasileira parece medíocre, condescendente e previsível. A monotonia temática, o narcisismo obsessivo, a diluição dos cânones, a pobreza dos enredos, a covardia política e o desleixo narrativo marcam boa parte dos títulos adotados pelas esferas privilegiadas do campo literário.

A banalidade norteia as dinâmicas legitimadoras do mercado porque elas são baseadas em relações interpessoais e corporativas. A escolha do original pela editora, a entrevista, o convite para a feira, a resenha do suplemento, o conto ou o poema ali publicado, a seleção pelos jurados de um concurso: quase todos os pequenos sucessos que formam a reputação literária passam por alguma teia de apadrinhamento. O fenômeno não deixa de existir só porque, na maioria das vezes, é automático e inconsciente; nem por ser talvez inevitável, num ambiente saturado de concorrência e falto de oportunidades.

O predomínio da influência empobrece os critérios avaliativos do meio, acomodando-o à ilusão de que as obras reconhecidas são de fato as melhores de seu tempo, ou de que conquistaram apreciação por méritos intrínsecos. O padrão hegemônico no chamado mainstream vira referência do que é a “boa” literatura contemporânea, justificando o anonimato da multidão sem colegas nem contratos. Então o círculo de reconhecimento se fecha no já aceito e influente, preservando-o ao infinito.

Enquanto isso, na periferia do sistema, os desconhecidos vagueiam entre nichos, tribos e seitas, gastando saúde, tempo e dinheiro em obras que ninguém lerá. Iludidos pela falsa popularidade da internet e por esporádicos aplausos nos convescotes provincianos, jamais terão sequer uma ideia de seu real valor. Mas continuam alimentando a mitologia de uma efervescência literária da qual permanecerão inexoravelmente excluídos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O incrível estado que parou

 













Considerando o padrão ético da tucanolândia, é improvável que alguém esteja fiscalizando as eternas obras da concessionária Rota das Bandeiras na rodovia D. Pedro I, altura de Campinas. Sorte da empresa, que não parece muito preocupada em evitar contratempos aos usuários que lhe pagam fortunas de pedágio.

Somando a argúcia dos privatas rodoviários com a folclórica (indi)gestão de tráfego do governo municipal de Jonas Donizette (PSB-PSDB), o resultado é caos, cada vez mais duradouro e irremediável. Desde as principais avenidas campineiras até dezenas de quilômetros ao longo das mais importantes estradas paulistas, fica tudo parado. Apocalipticamente parado.

Ninguém faz nada. Não há um comentário na imprensa a respeito. Os motoristas sequer buzinam. O que não chega a surpreender, já que, numa simplificação estatística, podemos supor que mais da metade das vítimas está satisfeita com Geraldo Alckmin.

Seria um escandaloso “apagão” se o PT estivesse envolvido na pândega. Ou melhor. A essa altura as concessões já teriam sofrido uma cruel devassa do Ministério Público e da Polícia Federal. Mesmo que ainda estivéssemos fadados aos incompetentes, talvez não pagássemos tão caro para sustentá-los.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O que Francis diria?
















Em 1997, Paulo Francis foi processado nos EUA por diretores da Petrobrás, que ele chamara de “uma grande quadrilha”. Há quem diga que a pressão resultante agravou a cardiopatia do jornalista, levando-o à morte pouco depois.

Acontece que o generoso tratamento da Justiça brasileira à irresponsabilidade acusatória não tem equivalentes internacionais. Nas cortes estrangeiras, qualificar a Petrobrás de quadrilha ou o PT de “organização criminosa”, como faz Aécio Neves, exige provas do falastrão. E a brincadeira sai caro.

De qualquer forma, porém, Francis não conseguiria reunir material para defender-se nas cortes dos EUA, porque a blindagem dos governos demo-tucanos envolvia todos os campos institucionais, principalmente o Judiciário. Um presidente podia ser reeleito graças a parlamentares subornados, para citar um exemplo notório e incontroverso.

Os comentaristas que hoje bradam “ele já sabia!” preferiram na época assistir à fritura do colega, em vez de investigar os contratos da empresa, inquirir fontes, traçar uns cálculos rudimentares. Tiveram o mesmo comportamento nas privatizações e, depois, durante a vigência da máfia dos cartéis metroviários do PSDB.

Mas a solidariedade póstuma da turma esquece o principal: se o jornalista estava certo nas suas acusações, os esquemas corruptos já vigoravam na estatal durante o governo FHC. Esse fato desqualificaria a propaganda do PT malvado e corroboraria a imagem saneadora da gestão Dilma Rousseff.

Vemos, portanto, que a memória de Francis é útil para entendermos o país, dezessete anos depois. E não apenas pelo que insinuava da Petrobrás e seus contratos.
  


sábado, 6 de dezembro de 2014

“Can't you hear me knocking”


The Rolling Stones com o grande Bobby Keys (1943-2014), membro emérito da banda, no saxofone.

Outro solo dele aqui.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A 31ª Bienal























Uma proposta central oportuna, que busca discutir o papel da arte nos movimentos transformadores da sociedade contemporânea. O conjunto é múltiplo e desigual, como de hábito, nem sempre afinado com a premissa, ou capaz de levá-la para além das superfícies panfletárias. Mas há um surpreendente sentido de coesão no resultado, que logra deixar a experiência fluída e provocativa.

Resta saber se o predomínio do “texto” (narrativas, testemunhos, digressões, etc) ajuda a configurar uma estética historicamente demarcada, ou se é uma estratégia que utiliza o suporte artístico apenas como veículo de transmissão de enunciados. Parece que o esforço intelectualizante dos trabalhos empurra sua dimensão formal para um lugar secundário.
           
Também é curioso notar o extensivo recurso à figuração para tratar de “coisas que não existem”. Com poucas exceções, parece que a fantasia está sempre ancorada em alguma forma de representação, levando a inevitáveis referências ao surrealismo, ao expressionismo, à pop art.

Sintomaticamente, o vídeo se oferece melhor ao ímpeto contestatório, com especial destaque para “Não é sobre sapatos”, de Gabriel Mascaro e “Os excluídos. Em um momento de perigo”, do coletivo Chto Delat (vale a pena assistir na íntegra, desde o começo). Entre os objetos, destacam-se Edward Krasiński e Michael Kessus Gedalyovich. Na bidimensionalidade, o divertido “Mapa” de Qiu Zhijie, “Deus é Bicha”, de Nahum Zenil, Ocaña, Sergio Zevallos e Yeguas del Apocalipsis e os painéis “Sem Título”, de Éder Oliveira.

Sobre outras Bienais:
O vazio

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Governo novo, ideias paleozoicas

 

O senador Cristovam Buarque encerrou as audiências públicas sobre a legalização da maconha evitando posicionar-se a respeito. Em termos práticos, avalizou a permanência da estupidez repressiva.

Enquanto o mundo adota gradativamente a legalização da erva, o Brasil se aferra a um atraso jurídico inexplicável, virando o paraíso mundial dos traficantes e empurrando cidadãos inofensivos à criminalidade. Inclusive familiares de pessoas que precisam dos derivados da planta para amenizar efeitos de doenças graves.

Além da sensação de nova chance perdida, é decepcionante ouvir o nobre legislador repetindo as justificativas do proibicionismo: os malefícios físicos e psicológicos da erva, o mito da “porta de entrada” para as drogas verdadeiramente nocivas, o risco de aumento do número de usuários, etc.

A incrível permanência de tais mistificações, contrariando todos os estudos disponíveis, mostra que a estratégia legalizadora chegou a um impasse. Manter a disputa no terreno da suposta racionalidade científica apenas legitima a falsa relevância de aspectos secundários, que sequer deveriam ser discutidos no âmbito legislativo.

Repitamos o óbvio: o que está em questão é a liberdade da pessoa usar seu corpo como quiser, salvaguardando-se os danos a terceiros. Simples assim.

Certos tópicos fundamentais da cidadania suplantam democratismos oportunistas. Ninguém submeteria a decisão sobre a pena de morte às vítimas da violência. O estado de Direito jamais seria laico se precisasse da autorização de líderes religiosos.

Eis porque a mais relevante iniciativa descriminalizadora dos últimos anos é o Recurso Extraordinário 635659, escondido numa pilha do STF. Infelizmente, o processo está sob a responsabilidade do ministro Gilmar Mendes. Mas, pelo menos, a petição é muito bem feita (vale a pena conhecê-la) e diz respeito às prerrogativas constitucionais da corte.

Abrir o debate para além do foco doutrinário nos direitos individuais confere poder de veto aos interesses vinculados à criminalização da maconha. Organizados e poderosos, esses lobbies sempre vencerão a falta de representatividade política e os estigmas que marginalizam os milhões de canabistas do país.

O governo federal poderia abraçar a causa, numa guinada progressista que teria sustentação pluripartidária e marcaria a reaproximação do PT com a juventude. Seria, principalmente, uma maneira de provar que o país pode evoluir mesmo sob uma administração aprisionada pelo conservadorismo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hipocrisia ambiental






















O imbróglio jurídico em torno da distribuição de sacolas plásticas no comércio levanta uma dúvida simples: a única alternativa “ecologicamente correta” implica o prejuízo do consumidor? Tão preocupados com o meio-ambiente, por que os supermercados não fornecem sacolas reutilizáveis, inclusive adaptadas para o transporte do lixo?

É típico do autoritarismo cientificista transformar o assunto num problema educativo, como se houvesse apenas uma versão correta do que é “melhor para a sociedade”. O cidadão que enxerga nisso tudo uma tremenda hipocrisia de vendedores gananciosos encarna o herege ignorante do culto racional à deusa Ciência.

Claro, culpar o contribuinte pelo desastre planetário é mais fácil do que enfrentar os verdadeiros dilemas da questão. A consciência ecológica parece muito bacana até mexer com os lucros do empresariado.