sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A mídia naturalizou o fascismo



Tudo começou com o estranho ataque a Jair Bolsonaro. Numa rapidez incomum, os veículos de comunicação trataram de acatar não apenas a versão oficial, mas também a dos círculos próximos ao candidato. O ceticismo geral foi aplacado a golpes de moralismo civilizatório. A imagem da vítima dominou os espaços nobres do noticiário por semanas, garantindo exposição segura e positiva durante uma campanha marcada pela ausência do protagonista.

A iconografia construída em torno do acontecimento foi, digamos, singular. Do Cristo barroco nos braços do povo ao herói de guerra sob cuidados extremos, do mártir resistente ao filho pródigo que retorna em triunfo, criou-se um enredo para agasalhar os corações aflitos. Em meio a clichês do sensacionalismo policial, os balbucios perplexos do bravo militar completaram sua figura tolerante e indefesa, mística e abençoada. Às lágrimas.

Mesmo admitindo que as imagens e os depoimentos tinham relevância e que vieram de fontes externas, os veículos eram os únicos responsáveis pela organização das narrativas e por sua visibilidade. Ninguém que trabalha no meio pode alegar ignorância acerca da força simbólica do material divulgado. Não com Bolsonaro, não àquela altura da disputa.

Da mesma forma, os analistas que bradavam “atentado contra a democracia!” sabiam medir o tipo de associação legitimadora envolvida. Especialmente porque se referiam a uma pessoa homofóbica, racista e machista, defensora de assassinos e torturadores. O pacifismo seletivo dos indignados serviu à vitimização de um porta-voz da violência que eles dizem condenar.

Em seguida passaram a tratá-lo com eufemismos bondosos. É apenas um “excêntrico”, de ideias “polêmicas”, representante de certa “direita popular”. Chegamos ao ponto de ver redações patrulharem o vocabulário usado para classificá-lo e analistas desautorizando termos como “fascismo” e “ultradireita”, sob argumentos levianos e falsificadores.

O esforço culminou na postura acrítica, para não dizer cúmplice, diante dos métodos de Bolsonaro e seus acólitos. Os ataques físicos a adversários transformaram-se numa “violência política” de viés impessoal e generalizante. A disseminação unilateral e criminosa de mentiras virou uma difusa “guerra de fake news”, apelido já neutralizador e evasivo. Como se tudo fosse recíproco e espontâneo, com mínimo grau de sistematicidade ou profissionalismo.

A abordagem objetivista que Bolsonaro passou a receber após sua viabilização eleitoral faz parte de uma tentativa de amenizar o papel dos veículos nesse processo. A normalização do candidato gerou o antídoto retórico para normalizar a si mesma: agora que suavizaram o fanatismo, vestem um éthos moderado que não vê fanatismo em lugar algum.

Mas não há imparcialidade na ponderação diante de fascistas. Isso é adesão mal disfarçada. A grande imprensa fomentou por quase duas décadas um partidarismo virulento e irresponsável para chegar a essa temperança relativista diante do que há de mais pernicioso na política nacional. Os editoriais hipócritas de última hora não mudarão nada.

Às vésperas da tragédia, resta o consolo de saber que as posições ficarão delimitadas para juízo histórico. Antes que todos passem para o famigerado coro dos inocentes, cabe denunciar a tolerância da mídia corporativa com o fascismo, questioná-la a respeito, forçar a antecipação vexatória das narrativas arrependidas e desmascarar o álibi do cinismo ideológico.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O voto nulo não anula nada



Os fóruns digitais transbordam em receitas para a vitória de Fernando Haddad, exercícios de futurologia apocalíptica e sessões de ressentimento grupal. Virou hábito exigir recuos programáticos do petista, malhar a estratégia de Lula e culpar seu partido pelo triunfo momentâneo do fascismo. Todos já sabiam, avisaram, estão decepcionados.

Valesse a pena alimentar controvérsias, minha participação seria desacatar esses consensos. Por exemplo, questionando a narrativa de que Ciro Gomes teria mais chance de superar Jair Bolsonaro ou mesmo de impedir que este vencesse de imediato. O pedetista conseguiria 75% da votação estimada para Lula, como fez Haddad? O antipetismo pouparia uma chapa com o PT na vice-presidência? A bancada do PSL ficaria menor?

Também acrescentaria que a vitória do fascismo está longe de representar uma derrota isolada do PT. Foi o fracasso da direita antipetista que gerou o monstro reacionário: a frustração com o impeachment bandido, com a ruína moral da Lava Jato e com a vitimização inevitável de Lula. Os 50 milhões de votos de Bolsonaro equivalem à soma dos candidatos presidenciais do então futuro condomínio golpista no primeiro turno de 2014. Não é coincidência.

Mas prefiro fugir das platitudes hegemônicas, acomodadas em profecias autorrealizáveis e palpites desejosos. Parece mais urgente contrariar certas alas propositivas que se dedicam a afagar o fascismo como estratégia de aglutinação contra ele mesmo. Embora já presente na divulgação de dicas “sinceronas” (escondam Lula, tirem o vermelho, omitam o golpe), o esforço para tolerar bobagens chega ao ápice nos diálogos sobre o voto nulo.

Há tempos venho apontando que o “isentão” é um personagem reacionário que se legitima pela falsa imparcialidade. Tipicamente fascista, o niilismo antipolítico não rechaça todos os partidos, mas apenas aqueles que o negam e, por extensão, alinha-se aos que o adotam. Ecoando os argumentos de Bolsonaro e evitando ameaçar sua liderança parcial, o voto nulo no segundo turno revela uma escolha bem demarcada.

Isso explica os obscenos paralelos usados para rejeitar Haddad e Bolsonaro, como se fossem equivalentes em qualquer tema. Ou a defesa simultânea do voto útil para Márcio França, por exemplo, e do nulo na disputa presidencial. Pois há lógica nessa “loucura”. Quanto mais irracional o ódio ao PT, menor a sua dívida com a sensatez e a responsabilidade histórica. Menor, portanto, a disposição para o diálogo.

Se o antipetismo virou um detergente moral das consciências que vinham apoiando a escalada autoritária, o voto nulo serve a uma pantomima de superação tardia do erro. A apologia da anulação demarca o arrependimento dolorido e agressivo daqueles que sabem ter ajudado a criar condições para que o PT encabeçasse uma frente democrática no país. Hoje se escondem na suposta falta de opções, mas suas escolhas de outrora são incontornáveis.

Concordo que o momento pede moderação, espírito gregário, tolerância. Mas existe um ponto em que o acordo vira adesão unilateral. Pessoas que exigem concessões para repudiar alguém como Bolsonaro não valem o preço de legitimar uma postura indecente por natureza. Quando os anuladores não percebem logo seu favorecimento à barbárie, ou fingem não percebê-lo, é o caso de buscar interlocuções mais construtivas e eficazes.

Independentemente do resultado eleitoral, a luta contra o fascismo dependerá de parâmetros claros e posições firmes. A condescendência afoita da esquerda com seus adversários ameniza as diferenças que definem os papéis de cada um nesse período tenebroso.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A pauta do antipetismo só favorece a direita



À medida que se anunciava a polarização entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro no segundo turno, cresceu o volume de ataques a ambos por parte dos adversários. O fenômeno constitui um legítimo apelo das candidaturas preteridas, algo corriqueiro nestas circunstâncias. Mas não deixa de ser curioso que bases ideológicas diversas gerem discursos tão parecidos.

Esse eixo discursivo comum se articula ao redor do antipetismo. No embalo da rejeição ao antagonista demonizado nos respectivos círculos, campanhas de centro e de direita apostam na imagem negativa do PT como pretexto para o “voto útil”. Uns, tentando afastar o partido da corrida presidencial; outros, apresentando-se como concorrentes mais aptos a vencê-lo.

Não por acaso, a narrativa tem apoio veemente do condomínio midiático empenhado na destruição do lulismo. A tática reside em já transformar o sufrágio numa espécie de plebiscito sobre o PT, generalizando o tema, impondo-o às demais candidaturas e empobrecendo, pela partidarização, as pautas abrangentes que mobilizam a sociedade.

A manobra possui três objetivos imediatos. Primeiro, sedimentar o antipetismo enquanto ele ainda não foi monopolizado pelas bravatas repulsivas de Bolsonaro. Segundo, impedir que o Regime de Exceção fique associado ao fascista que certamente o defenderá. Por fim, neutralizar a previsível derrota simbólica dos movimentos golpistas no teste das urnas.

O fantasma do país conflagrado ameniza esses perigos. A ideia de evitar que a sucessão se transforme num “abismo” de rancores estigmatiza o combate legítimo contra a prisão política de Lula. Jogar Bolsonaro na conta do PT alivia a responsabilidade de quem defendeu ou tolerou o impeachment e os arbítrios da Lava Jato, marcos da ascensão reacionária no país.

As pesquisas sepultam os argumentos pseudo-pragmáticos e pacificadores das campanhas que entraram na onda. Bolsonaro aparece como único beneficiado pelo protagonismo deletério do PT. O jogo premonitório de acusações ao partido (elegerá o fascista, será ajudado por ele) produziu apenas uma disputa ainda mais polarizada, odienta e imprevisível.

Tanto a reiteração do antipetismo quanto seu uso como ameaça potencial alimentam uma força mais ampla e perigosa: o espírito antipolítico e autoritário que Bolsonaro representa. Nasce aí a própria ideia de que o ódio ao PT justifica o voto num fascista ou a anulação que o favorece. E não é outra a origem da agressividade obtusa de quem iguala os concorrentes.

Não se trata de subestimar a numerosa rejeição ao PT, mas de questionar os interesses ligados à mobilização desse repertório subjetivo. Só assim o campo progressista retomará o controle da agenda plebiscitária do segundo turno, pautando-o pelas questões programáticas, libertárias e republicanas que a direita busca abafar com o ressentimento e o moralismo tosco.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

"Estuário"



A  editora Patuá está lançando "Estuário", minha nova coletânea de poemas.

A fase de pré-venda já começou, neste link.

Em breve voltarei a falar da obra, para explicar um pouco sobre seu longo processo criativo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O Regime deu razão a Lula



O Regime Judicial de Exceção vem fazendo de tudo para impedir a vitória do PT na disputa presidencial. Sistemático e articulado, esse esforço atua em confronto direto com os interesses de Lula. Desde as penas aumentadas no TRF-4 até a proibição de visitas ao cárcere, passando pelas manobras do STF, não há um gesto das cortes que fuja ao roteiro.

Correndo para anular de vez a candidatura de Lula, o TSE seguiu a intuição de ser este o caminho que mais prejudicava o petista. A rapidez do julgamento não era inevitável, nem se baseava em jurisprudências ou normas. Tampouco no respeito a prerrogativas processuais, já que não houve tempo hábil para que as alegações da defesa fossem analisadas.

Em suma, os membros do TSE não adotariam a celeridade ritual caso suspeitassem que ela beneficiava Lula e o PT. Não depois do Regime apressar a condenação na segunda instância e atrasar o julgamento dos últimos recursos. Não depois de mantida sua prisão política e inconstitucional por um “crime indeterminado”.

O próprio antipetismo justiceiro admite, portanto, a eficácia dos planos petistas de levar o impasse até o limite do prazo legal. E, numa coincidência divertida, fez o que muita gente pedia ao PT, em nome do combate ao fantasma reacionário. Mas como entender essa harmonia de aspirações supostamente antagônicas?

A tática dos impugnadores togados é coerente. Evita que a polêmica da candidatura se aproxime da etapa em que a maioria dos eleitores decide seu voto. Dá justificativa para os institutos omitirem Lula nas pesquisas, fornecendo à direita vestida de centro (Marina Silva e Geraldo Alckmin) o apelo do voto útil. E esvazia logo a aura resistente que blindava a campanha petista e garantia visibilidade ao líder preso.

Também faz sentido a afoiteza dos círculos não-petistas. Querem tirar Lula do núcleo simbólico que dá coesão ao antifascismo, dispersando os eleitores do favorito para que seu partido não protagonize o polo democrático no segundo turno. A negação da centralidade do lulismo desagrega o campo progressista visando reconfigurá-lo. Cálculo pragmático sim, mas de um pragmatismo que não antagoniza apenas com a ameaça ultraconservadora.

Repito ser ociosa uma discussão estratégica sobre a insistência petista. O problema ultrapassa tanto a esfera eleitoral quanto a jurídica. Lula é apoiado por dezenas de milhões de brasileiros. Líderes políticos, religiosos e acadêmicos do mundo todo o endossam. Jamais existiu alguém de tamanha relevância que desse legitimidade voluntária a seus algozes.

Na falta de base técnica para adivinhações de qualquer tipo, soa mais racional explorar uma imagem que aglutina 40% dos eleitores. E parece indiscutível que o crescimento dessa popularidade está em sintonia com a postura combativa do PT. Ademais, sua propaganda sofrerá censura de qualquer modo, e talvez coisa pior, independentemente da chapa registrada.

As circunstâncias reduzem as margens de manobra do lulismo, que terminará seguindo as imposições do TSE. Mas o Regime ainda não terá vencido. E sua insatisfação servirá de excelente sintoma dos acertos do PT. Resta saber como reagirão os organizadores da fraude se os eleitores também decidirem contrariá-los.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O PT comanda o início da disputa sucessória



A força inicial da chapa Lula-Haddad transborda os limites simbólicos da “anticandidatura” de protesto. Sua competitividade irrefutável generalizou a expectativa de que as eleições serão decididas entre o lulismo e alguma fatia da direita. A avaliação tem base estatística e serve de referência (dissimulada) para os institutos, a mídia e as campanhas adversárias.

É ocioso questionar o pragmatismo eleitoral do PT. O registro de Lula como candidato segue um impulso coerente com a denúncia do caráter político da sua prisão, já induzida pela contínua liderança nas pesquisas que o partido agora tenta capitalizar. O escândalo em torno do imbróglio jurídico resultante será proporcional à viabilidade de ambos os objetivos.

A liminar do Comitê de Direitos Humanos da ONU, endossando a candidatura de Lula, teve efeitos que ultrapassaram a omissão da mídia local. O embaraço planetário rompeu a confortável bolha provinciana do conluio institucional que tenta destruir o lulismo. As reações toscas e irascíveis, típicas dos defensores das ditaduras, puseram o monstro numa briga que não se resolve com processos viciados e manipulação jornalística.

A afirmação de que Lula está “enganando” os eleitores reproduz o cinismo condenatório de seus algozes. Ele tem direito constitucional de pleitear o registro, além de amparo na jurisprudência para recorrer contra possível negativa. Só antecipa a decisão do TSE quem admite que a ideologia conduz os tribunais no seu caso.

Contrariando os palpites desejosos de catastrofistas e ressentidos, Fernando Haddad incorpora à chapa uma alternativa política renovadora que pode atrair o eleitorado incrédulo, dentro e fora da esquerda. Seu perfil atravessa os limites sociais e regionais que separam lulismo e antilulismo, ganhando vantagem num confronto eventual com a extrema direita.

A polarização da disputa servirá como teste para a sinceridade dos discursos contra o fantasma reacionário nos círculos ditos “progressistas” que negam o golpe e se enchem de rodeios adversativos para tratar da perseguição a Lula. Embora seja alvo previsível desses setores, a campanha de Lula-Haddad precisa tomá-los como fontes do voto útil que decidirá o embate final caso ele ocorra contra Geraldo Alckmin.

Aqui também notamos a eficácia dos planos petistas. Eles impuseram uma reconfiguração das suas vitórias eleitorais recentes, tiraram o PSDB do armário conservador e imprimiram caráter plebiscitário às disputas narrativas em torno do impeachment, submetendo seu respaldo popular ao teste das urnas. A ideia do “Golpão” era bem outra.

O quadro parece favorável para o PT, que pode chegar ao segundo turno com apenas metade dos votos lulistas e pequena parcela dos indecisos. Tendo a seu favor a gigantesca rejeição a Alckmin e asseclas, os arbítrios da Lava Jato e a força comparativa das administrações Lula. Enfrentando uma direita rachada, com excesso de proponentes que disputam o mesmo eleitorado e oscilam entre a maldição do governo Temer e a truculência antipática.

O êxito da candidatura petista depende de um plano de comunicação baseado na imagem do ex-presidente. Este será o foco das investidas do Regime de Exceção, através da censura do TSE às propagandas audiovisuais e do isolamento imposto pela carceragem curitibana. Como não há recurso jurídico possível sob o despotismo togado, a criatividade dos marqueteiros e a ação da militância despenharão papéis determinantes.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Bloco do golpe nasce para enfrentar o lulismo





Havia meses a direita brasileira preparava sua fuga para o “centro” imaginário do espectro eleitoral. A ideia era se esconder sob uma candidatura que dissimulasse os vínculos do grupo com o golpe, alvo de rejeição quase unânime. Com Jair Bolsonaro suavizando ideologicamente o grupo situacionista e empurrando Lula ao polo contrário, uma salvação moderada até que parecia atraente.

Enquanto o petista matinha chances de ser candidato, o pesadelo conservador residia em Lula adotar o perfil criado pela histeria midiática. Isso explica a veemência da reação contra os seus primeiros discursos apaziguadores, que mobilizou das rodas marinistas à revista Veja. Também ilumina a postura confrontativa do Judiciário contra o ex-presidente, provocação irresistível para alimentar sua imagem vingativa.

Marina Silva sempre incorporou a candidata dos sonhos do condomínio golpista. De origem popular e ideias conservadoras, favorável ao impeachment e à Lava Jato, adulada pela direita com perfumes progressistas, ela simboliza perfeitamente o imaginário envolvido na criação de uma alternativa aos extremos perigosos.

Contudo, patinando nas pesquisas, isolada no arco de alianças, com tempo irrisório de propaganda, Marina acabou perdendo até a mínima relevância necessária para esforços corretivos de suas fragilidades, como a tola mania de vitimização. Virou uma referência abstrata, um ideal a ser perseguido em cima de bases mais apropriadas.

Apesar do empenho quase ridículo, porém, as campanhas jornalísticas pela “Marina perfeita” frustraram-se a cada factoide. A sobrevivência política de Lula afugentou os aventureiros, levando o neocentrismo a repensar sua tática dissimuladora. Ganhava fôlego a ideia de assumir um lado na polarização, em vez de negá-la.

As enquetes fraudando cenários "Sem Lula" serviram de último teste para Marina. Provaram a sua inviabilidade (e também a de Ciro Gomes) ao mostrarem que a direita só chega ao segundo turno ocupando o lugar de Bolsonaro, não o do lulismo. E ninguém atrai o voto antipetista com posturas ambíguas e mistérios programáticos.

Os observadores surpresos que me perdoem, mas a união em torno de Geraldo Alckmin era bastante previsível. Faltava apenas a confirmação do potencial lulista para que seus maiores adversários se organizassem, reeditando o arranjo do golpe. O objetivo é impedir que o PT antagonize com o fascismo na etapa final.

O bloco “Direitão” (“Golpão” para os íntimos) demonstra que os profissionais do ramo consideram a influência de Lula um fator decisivo na disputa sucessória. E, talvez mais importante, que a estratégia petista passou a nortear as mobilizações alheias.

Não é uma candidatura prestes a ser impugnada que provoca atrasos nos planos dos competidores, mudanças de discurso, realinhamentos e mistérios. Tampouco o improvável respeito do TSE a prazos e jurisprudências que arranca seguidos vexames ideológicos do Regime de Exceção.

Ninguém ali acredita que Lula será candidato.

terça-feira, 17 de julho de 2018

A teratologia escancarada



Um juiz de férias coordena a desobediência de um delegado da Polícia Federal a um desembargador. Enquanto isso, membros do tribunal atravessam prerrogativas para anular uma decisão legítima do plantonista. O objetivo: impedir um habeas corpus concedido ao favorito nas pesquisas presidenciais. Não aconteceu numa ditadura bolivariana ou islâmica. Aconteceu no país da normalidade democrática, onde só militares aplicam golpes.

Tudo previsível, lamentavelmente. A avalanche de inconstitucionalidades vem desabando há meses, anunciando futuros sombrios, enquanto o garrote se normaliza a cada arbítrio da Lava Jato. Aconteceu de novo e de novo passará incólume.

O que de fato sobressai no episódio é o desnudamento irreversível do caráter político da prisão de Lula. As autoridades vociferando ordens de seus retiros dominicais e turísticos. A mobilização desesperada e quase clandestina, o enfrentamento indisciplinado, o atropelo de ritos. A afoiteza das maiores instâncias da Justiça, lutando contra o tempo como se estivessem metidas numa invasão de alienígenas famintos.

Fizeram parte da tragicomédia os circunspectos especialistas midiáticos, inventando bobagens sobre "juízo natural" e "competências", vociferando jargões vazios, distorcendo normas e conceitos num estranho surto de ignorância jurídica. Então descobrimos que os textos legais são demasiado ambíguos para as combativas "agências de checagem".

A selvageria ideológica da Cruzada Anticorrupção foi instrumentalizada pelo coronelismo eleitoral. Uma espécie de loucura sem loucos que protege as decisões judiciais e entorpece os debates públicos sobre elas, obstruindo a percepção e a denúncia dos absurdos cometidos contra Lula. O delírio ultrapunitivista se confunde com o ódio ao ex-presidente, servindo de pretexto inclusive para criminalizar tentativas de preservação de seus direitos constitucionais.

Não havendo esperança de vitória nesse deserto de regras, o combate possível é romper a ilusão do jogo ritualístico, derrubar o manto doutrinário que esconde a ditadura togada. Triunfos técnicos da defesa de Lula, como no blefe dos recibos, apenas forçam mudanças de estratégia condenatória. Já o imbróglio simbólico do habeas corpus arrancou os guardiões da Lava Jato da pantomima do rigor processual. Despiu-os de seus personagens republicanos.

Decerto virá resposta à altura da infame provocação petista. Afinal, garantindo sua própria impunidade e legitimando a si mesmo, o Regime Judicial de Exceção tem poderes ilimitados. Nisso, contudo, ele se torna vulnerável. Quanto maiores os esforços empenhados para destruir a influência de Lula, maior a derrota da obsessão imperial dos tribunos e mais óbvia a disparidade entre o indivíduo e as corporações que o martirizam.

O cunho eleitoral da investida também prejudica seus protagonistas. Alimentada pela ameaça do lulismo, a radicalização fanática aproxima os déspotas da Lava Jato do polo reacionário da disputa presidencial. A julgar pelas pesquisas, a certa altura os monstros se unirão em torno da causa comum. Então, alinhados ao atraso, rejeitados por todas as correntes partidárias, receberão do país aquilo que tentam outorgar a Lula. Tarda mas não falha.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Pesquisa "Sem Lula" é fraude




O destaque dado pelo último Datafolha à viabilidade de Marina Silva foi malicioso. O instituto não se esforçou de fato em medir o possível comportamento do eleitorado nos cenários mais prováveis. Os 47% que poderiam votar no indicado por Lula desapareceram na inserção de outros petistas, abrindo uma lacuna imensa no conjunto probabilístico.

Essa disparidade tem origem metodológica: basta omitir o eventual apoio de Lula aos petistas incluídos nos cenários alternativos. O entrevistado vê apenas uma lista com os candidatos em cada situação. Como não há outro estímulo nessa rodada, os índices dependem do grau de reconhecimento de nomes e rostos. E, claro, Marina supera qualquer coadjuvante.

Mas boa parte dos eleitores de Lula saberá identificar o seu substituto através da propaganda gratuita e de eventos públicos, se já não o fizer pela simples repercussão do veto no TSE. A impugnação da candidatura jamais resultará na ausência completa do maior cabo eleitoral da campanha. "Sem Lula" constitui uma premissa vazia.

Em resumo, o Datafolha não apenas inflou as chances de Marina, mas também forjou o panorama idealizado pelo Regime Judicial de Exceção. Amenizou o alcance do lulismo e amarrou uma enquete limpa de elementos que prejudicassem a candidata ou desagradassem as cortes soberanas. Escondeu as verdadeiras notícias.

Equilibrando os mesmos dados com uma influência verossímil de Lula (metade do potencial aferido), podemos imaginar um petista na liderança, pouco acima de Jair Bolsonaro, enquanto Ciro Gomes e Marina compartilham a terceira colocação dez pontos atrás. Não foi isso que o Datafolha quis divulgar, mas é o que seus números parciais sugerem.

O resultado soa particularmente ruim para Ciro. A pesquisa mostra que nem a neutralização artificial de Lula favorece o pedetista, complicando suas pretensões a unificador automático da esquerda. Mas ele também é prejudicado pelo silêncio em torno do eventual apoio de Lula, suficiente para tirar Marina do segundo turno (e das manchetes).

A principal consequência da omissão é justamente negar ao PT uma base ampla de informações que norteie suas estratégias. O instituto recusa ao partido os testes que realizaria com nomes conservadores se tivessem um aliado forte impedido de concorrer. Mas não deixa de fornecer indícios sobre o eleitorado que os setores antipetistas disputarão na etapa inicial.

Acontece que a tentativa de dissimular estatisticamente a força do lulismo implica admiti-la de antemão. Se tivesse dúvida sobre a viabilidade dos planos do PT, o Datafolha buscaria submeter suas candidaturas a todas as provas possíveis. Não o faz porque sabe a resposta, como quem ignora um fato consumado para elucidar as incertezas restantes.

Se o instituto dá como irreversíveis as chances petistas no primeiro turno e antecipa a derrota de Bolsonaro para o voto útil no segundo, o favorecimento de Marina ganha um viés curioso. Ao afirmar que ela é a única alternativa da direita moderada ao fantasma reacionário, o Datafolha antecipa o confronto de ambos. Afinal, só há uma vaga imediata a preencher.

Tudo indica, portanto, que a exposição desmedida e precoce da candidata constitui um laboratório visando a polarização decisiva da campanha. Com Lula, direta ou indiretamente, e sem Bolsonaro. Um cenário oposto àquele que serve de base para o Datafolha, revelando que seu marinismo, como de hábito, é bem menos ingênuo do que parece.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Carona perigosa



As causas dos caminhoneiros são inquestionáveis. Trata-se de um governo golpista, ilegítimo e corrupto. De combustível caro demais para a oferta de matéria-prima. De uma administração criminosa na Petrobrás. Mas não precisamos negar a pertinência desses fatores para apontarmos os diversos aspectos problemáticos do movimento e do apoio que ele recebeu.

Desde o início ficou evidente o caráter ambíguo de uma "greve" que associava interesses de funcionários e patrões. Soa estranho combater a precarização com exigências que favorecem parte dos responsáveis por ela. E a lógica de transferir o ônus tributário dos acordos às próprias vítimas da escassez não coaduna com a ideia de justiça social.

Não por acaso, a vitória imediata dos protestos será negativa para a maioria dos trabalhadores brasileiros, cujos hábitos sequer retornarão à "normalidade" ruim de sempre. Os oportunistas já lucraram como nunca. O custo de vida ficou acima dos índices anteriores à crise. O corte de vagas, especialmente as informais, não será revertido tão cedo.

É difícil abordar esses problemas porque o antagonismo com Michel Temer dá ao movimento uma espécie de salvo-conduto político para suas contradições. A solidariedade acrítica leva os afoitos a idealizarem os manifestantes, transformando sua luta numa panaceia libertária que se torna benéfica à sociedade apenas porque teve respaldo popular.

O viés subversivo dos protestos parece bem menos inocente se associado à passividade das forças de segurança durante a instalação dos bloqueios e à ação incontida de saqueadores e vândalos nos centros urbanos. As mesmas autoridades que bombardeiam passeatas assistiram imóveis ao triunfo da performance antipolítica, antissindical e militarista dos caminhoneiros.

Todo evento histórico é complexo, heterogêneo, irredutível, etc. Trazer esses rótulos coringas ao debate só contribui para mergulhá-lo numa lógica adversativa que aceita qualquer coisa. A diversidade não constitui antídoto para a tendência conservadora dos motoristas, e sim um componente natural das ideologias, inclusive as antidemocráticas. Inexiste valor positivo intrínseco numa "espontaneidade" que articula milhares de pessoas através de redes digitais.

O consolo adversativo redunda num esforço para enquadrar o fenômeno em certas agendas partidárias, exigindo o recurso a diagnósticos equivocados sobre a conjuntura política do país. O mais grave deles é superestimar a derrota da direita com os protestos, associando-os a uma onda oposicionista de automático proveito para a esquerda.

As paralisações permitiram ao condomínio golpista retomar o controle da agenda nacional. A poucos meses das eleições, o governismo descobriu a fórmula para imobilizar o país, seja forçando a radicalização de quem é capaz de fazê-lo, seja disseminando uma histeria coletiva de resultados similares. A jogada provocaria o adiamento da votação, permitindo chegar o tão sonhado conciliador da direita e dando ao Regime Judicial de Exceção o prazo que lhe falta para tirar Lula da campanha, das urnas e do noticiário.

Temer é um fantoche útil no esquema. Sua impopularidade canaliza o anseio transformador da população e oferece à direita uma saída que arrefeça os ânimos no momento propício. O fantasma do salvacionismo reacionário tem o mesmo papel neutralizador. E, conscientemente ou não, os caminhoneiros fazem parte dessa aventura de desestabilização institucional que facilita a sobrevivência do golpismo.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Lula e Ciro têm razão (ou não)



As pesquisas demonstram que seria uma insanidade o PT abdicar da candidatura própria. Lula é a grande referência política dessas eleições. Sua capacidade de transferência de votos supera o índice de apoio ao segundo colocado e a soma dos outros adversários. Se o ex-presidente for substituído por um "anticandidato", este será no mínimo competitivo.

O uso da propaganda gratuita para denunciar a prisão política de Lula teria força considerável, multiplicada pelo choque diante da sua ausência repentina. Levando a candidatura às últimas consequências (a anulação dos seus votos), o PT minaria a legitimidade das eleições, causando ao Judiciário um ônus político de alcance inestimável.

O problema do roteiro lulista, contudo, é acreditar na viabilidade da campanha denunciatória. O TSE proibirá qualquer tentativa de fazer do horário eleitoral um veículo para o desmascaramento da perseguição a Lula. O Regime Judicial de Exceção jamais aceitará ser confrontado num jogo em que ele próprio define as regras e, quiçá, os resultados.

As tentativas de confinamento de Lula no cárcere e o desprezo das cortes superiores por seus direitos indicam que o petista não conseguirá participar da campanha sequer na fase anterior à impugnação. Há entraves legais tanto para o material veiculado nos programas de rádio e TV quanto para o acesso de técnicos e equipamentos à carceragem.

Ciro Gomes também segue estratégia compreensível. Antecipando a adesão automática dos petistas na hipótese de uma disputa final contra a direita, não vê sentido em barganhar alianças com o PT agora. Na verdade, prefere mesmo evitá-las, para seduzir simpatizantes da Lava Jato e de Marina Silva. Posar de vítima do lulismo vingativo faz parte desse jogo.

Sem desafiar a hegemonia do PT, Ciro perderia o mote mais valioso de sua campanha, o da novidade de centro-esquerda. Em vez de se atritar com Lula, porém, ele provoca a rejeição das lideranças petistas. E alimenta a sensação de urgência causada pelo fenômeno reacionário para atrair adeptos, isolando o PT no espectro de coligações.

Mas não convém superestimar as chances de Ciro. Sua margem de crescimento é enganadora, pois a maioria que o desconhece também desconfia da política tradicional e de aventureiros imprevisíveis, dois estigmas possíveis nesse caso. E a candidatura pedetista guarda problemas de imagem pessoal e discurso que não se resolvem com alianças.

A migração afoita e precoce para Ciro é um equívoco da esquerda simpatizante do PT. Como reagiriam os antigos adeptos do "Lula livre" se o pragmatismo do candidato pedir ataques a Lula e afagos ao condomínio golpista, especialmente o Judiciário? E se a vaga no segundo turno for disputada palmo a palmo entre o lulismo e um Ciro apaziguador?

O ressentimento petista não originou as dificuldades de Ciro, nem este é responsável pelos dilemas do PT. Ambos seguem projetos diversos, igualmente legítimos e problemáticos. Melhor que desenvolvam forças articuladas e paralelas, sem se enfraquecerem numa sociedade conflituosa que serviria de alvo fácil para a direita.

Ao PT cabe avaliar se existem de fato alternativas à inviabilização jurídica dos seus planos, ou se o partido afundará num abraço de afogados com seus inimigos. Aos lulistas defensores de Ciro resta a sensatez de não virarem reféns de um marinismo desagregador que os abandonará na primeira oportunidade, arruinando de vez a união da (verdadeira) esquerda.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A escandalosa isenção do Judiciário brasileiro



Lula é um prisioneiro político porque sua condenação visou tirá-lo de uma disputa eleitoral que ele venceria. As fragilidades da sentença desqualificam a natureza “comum” do julgamento. Os ritos processuais foram meras formalidades, com recursos praticamente ignorados e manobras para ceifar os direitos do réu.

O esforço das cortes em seguir a agenda sucessória e o bloqueio de visitas no cárcere possuem idêntica motivação. O homem de 72 anos que o regime judicial de exceção tenta confinar em solitária é o candidato indesejado, o líder partidário de influência perigosa, e não um indivíduo com prerrogativas humanitárias reconhecidas mundialmente.

Condenar meia dúzia de figuras menores, decadentes ou aposentadas, jamais equilibrará o gesto inigualável de obstruir uma candidatura favorita à presidência da República. E a comparação de Lula com bandidos célebres só evidencia ainda mais a disparidade financeira, legal e probatória dos respectivos casos.

A lisura ideológica do Judiciário termina antes da aplicação do “paradigma Lula” aos processos em trânsito. Que tal meter na cadeia os ex-secretários de Transportes de São Paulo, até que entreguem os chefes? Grampear conversas de Aécio Neves com seus advogados? Enquadrar José Serra no “ato de ofício indeterminado” e colocá-lo em prisão preventiva? Criar uma figura jurídica para incriminar FHC pelas origens do esquema na Petrobrás? Pois é, “veja bem”.

Mas o oportunismo das ações judiciais já havia quebrado qualquer fachada de isonomia. A ausência de Eduardo Azeredo viabilizou o rito sumário de Joaquim Barbosa contra os petistas do “mensalão”. Cunha, Aécio, Temer e asseclas eram inocentes até a consumação do golpe que levou o tucanato ao governo federal. Geraldo Alckmin garantiu dois mandatos seguidos, escapou da Lava Jato e percorre o país fazendo campanha.

Nunca é demais lembrar que o inquérito contra Serra por crime eleitoral foi extinto no STF. Que o Ministério Público suspendeu o acordo para que os réus da Odebrecht delatassem propinas a Alckmin, Serra e Kassab. Que a operação Castelo de Areia, envolvendo a Camargo Corrêa, o Tribunal de Contas e o governo paulista, foi anulada por supostas irregularidades em grampos telefônicos (!), tendo suas provas destruídas.

Depois do impeachment, do trágico governo Temer, da sobrevivência do PSDB paulista e de umas tantas prescrições, é ridículo afirmar que a prisão ilegal de Lula foi o “começo da faxina”. Em vez de seguir as gravíssimas evidências delituosas de seus protegidos, o Judiciário preferiu um apartamento sem dono trocado por favores incertos. A “faxina” é tão imparcial que teve início na única via que tirava o petista das eleições.

A isonomia da Lava Jato não passa de um construto simbólico do ideário salvacionista, seletivo e antidemocrático da Cruzada Anticorrupção. Faz parte de sua estratégia inventar simulacros amenos, tardios e insuficientes de uma violência que só atingiu Lula e seus eleitores porque não atingiu mais ninguém.

A mancha do partidarismo judicial jamais sairá da memória desses tempos sombrios.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Regime judicial de exceção



O STF já flertava com a ideia de excepcionalidade jurídica durante o julgamento do “mensalão”. Ela serviu como base de um acordo tácito entre os ministros, dando-lhes uma justificativa oportunista ao desprezo por provas materiais, ao viés condenatório e ao histrionismo inquisidor de Joaquim Barbosa. Todos imaginavam que seria algo passageiro, suficiente para impedir a reeleição de Lula.

Assessor de Rosa Weber na época, Sérgio Moro incorporou a frustração da corte com a blindagem popular do lulismo e o desejo de rompê-la a qualquer custo. O impulso seria canalizado à Lava Jato, afagando interesses semelhantes na direita midiática e abrindo uma Caixa de Pandora ideológica nos gabinetes, nas delegacias e nos tribunais. Os grampos e vazamentos clandestinos que viabilizariam o golpe parlamentar resultaram desse clima de vale-tudo baseado no imaginário da Cruzada Anticorrupção.

De novo em nome do interesse público e da moralidade, o STF tolerou os arbítrios, permitindo a trivialização de medidas extremas desnecessárias, às vezes ilegais, que usam o modelo racista e xenófobo de repressão estatal como pretexto para impor agendas obscurantistas. A condução coercitiva passou a justificar o sequestro policial, a delação a favorecer negociatas, a prisão temporária a servir de tortura para arrancar denúncias.

Subproduto da essência tendenciosa que viabilizou a Lava Jato, o maquiavelismo oportunista transformou o desrespeito a prerrogativas constitucionais em instrumento persecutório. Podendo escolher quem, como e quando punir, procuradores e magistrados alcançaram um predomínio irrefreável na agenda pública brasileira, violando autonomias institucionais, esmagando adversários, beneficiando grupos corruptos, manipulando eleições ao sabor de afinidades político-partidárias.

Daí surgiu uma espécie de poder paralelo, unido pela coerência discursiva engendrada nas redes digitais, onde os métodos espúrios são tidos como estratégia de combate às plataformas progressistas. Poder corrupto pela natureza parcial e por desvios éticos e funcionais protegidos sob a ética raivosa e punitiva. Poder não apenas impune, mas também soberano, quase vitalício, inatingível.

Esse tipo de autoritarismo assusta porque, no limite, nada é capaz de vencê-lo. Não existem obstáculos viáveis para uma força que conta com tamanho vigor repressivo, desde o uso censório da litigância até a opressão policial, passando pelo corporativismo dos tribunais e o apoio da mídia. Faz parte do próprio ideário da excepcionalidade a relativização dos direitos básicos que deveriam limitá-la.

O desprezo pela legalidade, cada vez mais explícito nas cortes superiores, reverbera o discurso antipolítico, portanto antidemocrático, que sustenta a ilusão meritória da primazia judicial no país. A demonização da representatividade eletiva mostra o conceito civilizatório que mobiliza nossos governantes de fato e de direito. E não é por acaso que a campanha sucessória começa com um golpe preventivo articulado pelo regime judicial.

Um posicionamento claro em torno da exceção ajudará a definir a legitimidade e a lisura de qualquer programa eleitoral que se apresente como progressista. Se a esquerda precisa de uma bandeira popular e libertária, convém aproveitar a oportunidade enquanto ainda é possível.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O golpe preventivo contra Lula



O empenho institucional para viabilizar a prisão de Lula destoa da insignificância da sua base condenatória. Somando as esferas e os recursos comprometidos com a aventura, não deixa de ser curioso que tenham sido incapazes sequer de especificar as circunstâncias do crime. Mas é chocante verificar que isso não fez diferença no resultado final.

As coincidências arbitrárias do projeto suplantam os limites pessoais e funcionais de Sérgio Moro. Sem um acordo de bastidores e a garantia de respaldo superior ele jamais arriscaria a reputação nesse jogo de lances temerários. A demonização do juiz favorece as autoridades ocultas que o instruíram e avalizaram desde o início.

Tamanho esforço persecutório é equivalente ao peso de Lula e ao benefício conseguido em neutralizar seu capital político. A putrefação recíproca de fins e meios escancara o viés ideológico da “excepcionalidade” punitivista, cuja eficácia se resumiu a correr para apanhar o favorito nas pesquisas antes do início da disputa presidencial.

Lula foi tratado como um dissidente político de qualquer ditadura. As licenças jurídicas, as artimanhas clandestinas, as manobras processuais e os precedentes temerários, culminando na violação do preceito constitucional da inocência, mostram que ele jamais teve a menor chance. As cortes iriam até onde quisessem para apanhá-lo.

O regime militar também possuía tribunais, ritos jurídicos, princípios republicanos e mesmo o aval do STF. Todos os seus prisioneiros foram condenados por “crimes comuns”. O apego da direita a narrativas formalistas visa transformar o teatro autoritário da legalidade em sinônimo de efetiva observância de direitos. Eis outra repetição histórica.

O volume da corrupção no meio político brasileiro e a impunidade do PSDB paulista generalizaram a sensação de injustiça no caso Lula a um ponto irreversível, quase anedótico. Essa perplexidade ficará marcada no imaginário público por muito tempo, alimentando a indelével martirização do petista.

Quanto mais se fortalecer a expectativa (ingênua ou hipócrita) numa faxina “redentora” do país, maior será o escândalo de sua frustração. Cada preso importante que a Lava Jato usar como exemplo de idoneidade levantará questões incômodas: a demora para agir, os outros que escaparam, a gravidade dos delitos, as chances eleitorais dos atingidos.

Se a prisão de Lula tem natureza política e anuncia uma inevitável derrota simbólica do condomínio justiceiro, podemos esperar que o ataque se estenda para o âmbito sucessório. No embalo da tentativa de transformar Lula em bandido ordinário virá o impulso de fazer o mesmo com seus apoiadores.

O isolamento do PT e de seus aliados é imprescindível para a consumação do jogo. À medida que Lula mantiver sua influência nas articulações da esquerda, o garrote judicial se fechará, nem que para tanto recorra à criminalização pura e simples de indivíduos e grupos organizados. A desunião marca o início do fim das chances eleitorais do campo progressista. E talvez da própria resistência democrática a curto prazo.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Lula não cabe no STF



A presidente do STF, Cármen Lúcia, mostrou ter incorporado a simbologia do acórdão do TRF-4. A ideia de evitar que a corte se “apequene” reverbera o caráter pedagógico do castigo aplicado pelos desembargadores a Lula. Daí a insistência em reiterar que ele é um cidadão como outro qualquer, que não merece tratamento especial e que está abaixo da lei, isto é, do próprio STF.

A simples reafirmação do óbvio, fazendo referência a um caso determinado, já o torna atípico. Essa questão nunca seria levantada em circunstâncias normais, menos ainda para medir a autoridade dos ministros ou o “tamanho” de um réu. Se Lula fosse um indivíduo comum, não causaria tamanho constrangimento na corte máxima do país, forçando sua presidente a declarações de menosprezo e a tentativas de quebrar o protocolo do tribunal.

Claro que a repetição obsessiva da falácia igualitária serve para ocultar as práticas opostas que a desautorizam. E não precisamos retornar aos blindados tucanos de São Paulo. Os procedimentos de Sérgio Moro, as acusações do Ministério Público, as bases probatórias da sentença e as penas aplicadas a Lula demonstram que seu caso já nasceu raríssimo.

Cármen Lúcia e aliados anteveem o desgaste de lidar com essas discrepâncias. A exibição internacional de ministros defendendo o “ato de ofício indeterminado” renderá polêmica excessiva para um julgamento que se pretende corriqueiro. E o endosso aos métodos da Lava Jato e de Moro exigirá a disposição de negá-los em recuos futuros, exatamente com base na excepcionalidade deste caso.

Os ministros sabem que todo processo é singular e que a biografia de um ex-presidente o torna ao menos tão especial quanto os membros do STF que ele nomeou. Só que os nobres juízes (e Marina Silva) subvertem a doutrina jurídica. O adjetivo “comum” aplicado ao cidadão réu deveria aludir à isonomia dos tribunais, únicos responsáveis pela impunidade seletiva, mas se tornou atalho para violar os direitos de uma pessoa.

A individualização do habeas corpus, transformado em anseio por privilégio, prepara a decisão final do STF sobre Lula. O viés escandalosamente previsível da condenação agora se alinha ao imaginário vulgar da direita, que liga punitivismo a isenção. A deplorável presunção do réu vem amenizar a imagem tendenciosa do julgamento.

A tentativa de garantir que Lula cumpra ao menos a etapa midiática da prisão reforça o caráter político, portanto diferenciado e parcial, da resistência a lhe conceder o habeas corpus. Trata-se, afinal, de neutralizar exatamente aquilo que o diferencia de qualquer juiz: a popularidade capaz de influenciar eleições nacionais, o capital político que suplanta o escrutínio institucional, a força que só se combate pelo arbítrio.

Reduzindo Lula à insignificância vexatória do cárcere, seus algozes buscam o alento simbólico de superá-lo. Vaidade e corporativismo, decerto, mas também o ressentimento ideológico exposto nas manifestações públicas de muitos magistrados. A cadeia não é consequência da natureza ordinária de Lula, e sim o instrumento para afirmá-la.

quarta-feira, 21 de março de 2018

A mensagem da tragédia



Há algo incômodo na linha comumente adotada para explicar os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Podemos resumir essa versão hegemônica na ideia de que tudo se restringiu a interromper a combativa militância da vereadora.

O ponto fraco da hipótese é a incapacidade de conciliar dois fatos inegáveis. Por um lado, o profissionalismo da execução, típico de quem não comete arroubos impensados. Por outro, o péssimo oportunismo do ataque, realizado em plena intervenção militar, de uma forma ostentatória e francamente provocativa.

Quisesse “apenas” eliminar uma inimiga política, a estratégia usada soaria temerária. As ligações com os possíveis mandantes são óbvias demais. E o fortalecimento das causas defendidas pela vítima trará visibilidade indesejável para os negócios que ela denunciava.

Seria possível forjar um latrocínio, um tiroteio fortuito ou até um acidente, para atingir a mesma finalidade. O disfarce, ainda que inverossímil, suscitaria uma ponta de dúvida que as autoridades, sob pressão, não hesitariam em aproveitar.

Transparente na sua veemência ignóbil, o crime não permite devaneios narrativos nem teatros da polícia com os suspeitos de praxe. E a própria eficácia do ataque esvazia os elos causais que as investigações poderiam fornecer.

O viés performático da ação deve ser tratado como um objetivo em si. Esse “recado” admite muitas interpretações, mas de modo algum possui natureza colateral, tampouco de publicidade involuntária de alguém que se prefere anônimo.

Em outras palavras, o assassinato foi cometido visando abalar a sociedade. Chamando as atenções para seu significado, os autores miraram alvos amplos e difusos, que extrapolam não apenas o domínio pragmático de preservar atividades ilícitas, mas também o exemplo pedagógico voltado a eventuais adversários.

A compreensão da tragédia precisa começar nos interesses favorecidos pelos efeitos que ela conscientemente produziu: a dúvida, o medo, o sensacionalismo emotivo da cobertura midiática. Mas também a radicalização do espírito punitivista e o fortalecimento dos discursos de ódio que o legitimam.

Não esqueçamos que se trata do fuzilamento de uma liderança que criticava a intervenção militar imposta por um governo golpista desmoralizado. Às vésperas da campanha presidencial, quando a plataforma policialesca da direita se encaminha para o fracasso vexatório. Com a candidatura mais popular impedida por arbítrios judiciais.

Nenhuma explicação simplista resolve todas essas coincidências.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Narrativas e simbologias da condenação de Lula



Publicado na página do Le Monde Diplomatique 

I

O acórdão do TRF-4 que condenou Lula reúne duas narrativas fortes e complementares. De um lado, o retrospecto de eventos criminosos imputados ao réu, tecendo as delações e os indícios materiais em função de um raciocínio preestabelecido. De outro, o programa ético que permitiu à corte ignorar os desvios morais e legais usados na construção dessa retórica e na busca do objetivo prático de impedir a candidatura do petista.

Os desembargadores ofereceram diversas pistas de que houve uma articulação prévia dos seus votos. Essa sintonia serviu para amarrar a miscelânea de elementos da peça condenatória, harmonizando a denúncia do Ministério Público e a sentença de Sérgio Moro. A ideia era criar uma história coesa, que se afirmasse a partir do efeito de verossimilhança, dando-lhe o maior didatismo possível.

A obstinação em asseverar a veracidade dos indícios, sem exibir os instrumentos que permitiram atestá-la empiricamente, mostra que a corte estava cônscia dos pontos frágeis do enredo. Por isso lançou mão da teoria do domínio do fato, que, descaracterizada, serviu de equivalente jurídico para as convicções dos promotores.

Assim nasceu o infame “ato de ofício indeterminado”, excrescência jurídica usada para encaixar o tríplex nas falcatruas da Petrobras. É como se os desembargadores dissessem “não sabemos por que estamos condenando Lula, mas ele sabe que merece”. O raciocínio soando plausível, a conclusão do público vira “nós sabemos que merece”.

Não deixa de ser curioso que a própria viabilidade prática da trama condenatória tenha exigido uma estripulia malvada. Em mais uma evidência indisfarçável de arranjo no acórdão, as penas coincidiram, todas aumentadas para impedir que o “ato de ofício indeterminado” prescrevesse e para reduzir as chances recursais de Lula.

Aí entra o imaginário punitivista. “Ninguém está acima da lei”, o jargão repetido pelas cortes, blinda a narrativa do TRF-4 com outra narrativa inquestionável, endossada pelo uso proverbial comum. Direitos viram privilégios. Quem rejeita a condenação de Lula se compromete com a sua inocência e com a impunidade em geral.

Ambos os enredos compartilham a premissa ética: os respectivos fiadores institucionais conciliam a autoridade enunciativa de um e o espírito punitivista do outro. O rigor naturaliza os arbítrios que legitimam a condenação, que por sua vez reafirma a premissa inflexível do “novo paradigma” da excepcionalidade.

Na época das mentiras transformadas em “pós-verdades”, era previsível que a condenação de Lula tivesse caráter mais narrativo do que propriamente jurídico. O regime da versão dos fatos é fechado na subjetividade, basta por si, enquanto o regime do factual é aberto ao escrutínio público e à contestação.


II


A mencionada articulação dos votos foi uma demonstração de força do TRF-4. Exibindo sua união com o Ministério Público e com Sérgio Moro, aumentando a pena para não perder o controle dos recursos que envolvem provas e fazendo comentários valorativos sobre a administração Lula, os desembargadores assumem postura magnificente, para não dizer confrontativa, diante dos adversários da Lava Jato.

Esse gesto incorpora uma espécie de mensagem exemplar de superioridade corporativa, não apenas sobre a esfera política, mas principalmente sobre Lula. De tão escancarado, o viés ilegítimo da condenação acaba servindo como sinal de menosprezo, uma descompostura para colocar o réu “no seu lugar”.

Aqui a injustiça também desempenha papel educativo. O lugar imaginário de Lula e do PT é o daquela plebe vulgar do mundo político que alimenta as estatísticas seletivas da Cruzada Anticorrupção. Algo como o “ato de ofício indeterminado” jamais seria usado contra políticos do PSDB paulista, por exemplo, mas é exatamente essa certeza que realça a insignificância jurídica das vítimas.

A narrativa já conota vexame: ex-presidente da República condenado por um esquema de corrupção bilionário que lhe rendeu... reformas num apartamento no Guarujá e num sítio em Atibaia. Só pode soar, se não ridículo, indigno para os padrões nacionais de malfeitoria. Nem roubar direito essa gente sabe.

Confronto, humilhação e rigor confluem no recolhimento do passaporte de Lula e na ameaça da prisão imediata. Atos de provocação, mas também de alerta, que mantêm o petista e sua militância na defensiva, “na linha”, para não serem castigados. Longe da atenção internacional, fora da campanha, baixando o tom das críticas. Sem contestar a narrativa hegemônica da Instituição.

A arrogância é o tempero dessa performance agressiva: silencia os modestos e puxa os atrevidos para uma briga que eles não conseguiriam vencer. Quanto maior a reação, melhor, mais enfática será a afirmação de poder que a reprimirá. E, caso necessário, aperta-se um pouco mais o torniquete, jogando a culpa nos radicais.

A mensagem que os jovens assoberbados da Lava Jato transmitem ao país é assustadora. E há um pouco de estratégia na perplexidade que ela provoca, em plena disputa eleitoral, num cenário de polarização e ressentimento. Nesse contexto, a frase “Ninguém está acima da lei” ganha o aspecto de uma premonição macabra.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

As perspectivas de Lula



O TRF-4 inviabilizou a candidatura oficial de Lula, seja qual for a etapa da impugnação. A lei da Ficha Limpa e a falta de jurisprudência específica facilitam a decisão do TSE, que já teria viés negativo mesmo sem esse respaldo. Os trâmites devem postergar, mas dificilmente impedirão algo que norteou toda a estrutura inquisitória da Lava Jato.

Acontece que Lula possui um poder de influência que exorbita as prerrogativas do TSE. A cúpula do Judiciário conhece o valor estratégico da mobilização em torno do petista e adivinha o significado perigoso de tê-lo solto, fazendo grandes comícios, denunciando os justiceiros, alimentando a expectativa dos eleitores.

Apesar do relativo apoio no STF, o pedido de habeas corpus carrega desdobramentos que poriam em cheque a própria essência ideológica da condenação. Eis o limite do teatro republicano da corte, inclusive entre os quadros garantistas: o corporativismo judicial prefere criar um mártir sob controle a permitir que o exercício de direitos constitucionais descambe para a apologia da desobediência.

Essa gangorra de prerrogativas negadas e concedidas faz parte dos planos da Lava Jato. A iminência da cadeia serve de blindagem para a cassação da candidatura, garantindo que esta seja vista como um “mal menor” e forçando Lula à humilhação de aceitá-la sem resistência. Não que lhe restem muitas alternativas, mas nenhuma delas inclui desafiar a imagem soberana do Judiciário.

É razoável imaginar que Sepúlveda Pertence proponha a Lula uma atitude apaziguadora em troca da boa vontade do STF. E a hipótese de abstenções no julgamento do habeas corpus pode mesmo significar um aceno de contrapartida à moderação do ex-presidente. Remédio incerto, quiçá fugaz, mas ainda assim preferível ao encarceramento, numa data forte como 21 de abril ou 1º de maio, com requintes de humilhação pública.

Em breve constataremos a estratégia adotada. Mas pragmatismo e confronto afluem para a admissão de que a candidatura Lula ruiu, seja como afago à sanha punitiva da Lava Jato, seja como resultado lógico da sua materialização. Resta saber de que maneira o petista administrará o imenso legado político que o cerco judicial tenta neutralizar.

Persistindo a postura hostil às cortes, negar a perspectiva da prisão de Lula seria uma forma de contribuir com o esforço em legitimá-la sob a falácia da imprevisibilidade. Canalizando as atenções para um suspense farsesco, o marco simbólico preparado pela mídia naturalizaria o infame acórdão do TRF-4. O foco do lulismo precisaria se ater mais à escandalosa iminência do fato que à expectativa de impedi-lo.

A opção conciliadora também pede cuidados. Lula teria o desafio de equilibrar sua luta nos tribunais e as articulações sucessórias, combatendo a ameaça conservadora sem dar pretextos para a hidrofobia vingativa do STF. Um eventual habeas corpus resultaria positivo para a imagem do ex-presidente, inclusive na sua esperança de absolvição, mas não tardaria a suscitar reações fortes do antipetismo judicial.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A fraude



O antipetismo foi o motor central da Lava Jato, das mobilizações pelo impeachment, da omissão do STF no golpe parlamentar e do apoio da mídia à Cruzada Anticorrupção. As bandeiras e justificativas pontuais serviram para conferir verniz apolítico a posturas que não tinham outro estímulo senão o mais singelo partidarismo.

As narrativas definidoras desses episódios espelham posições similares. Os elogios a Sérgio Moro, a negação do golpe e o aval à condenação de Lula seguem viés ideológico muito claro e reiterado. O apoio e a rejeição ao ex-presidente ocupam o cerne oculto das polêmicas, quaisquer sejam os seus temas e abordagens.

O julgamento de Lula que chega ao TRF-4 não foge a essa regra. A fragilidade técnica da sentença de Moro se tornou tão evidente que até os seus adeptos parecem ter desistido da polêmica. Pouco lhes importa se não há crime, prova, contrapartida, lógica. Resta apenas um emaranhado de ilações baseadas na aversão a Lula e ao PT. Eles merecem e acabou.

No final das contas, o antipetismo (e mais especificamente o antilulismo) serve como recalque social para o tabu inconfessável da injustiça que o país e o mundo estão prestes a testemunhar. A paixão redime a falta de ética. O fator humano esconde a falência das instituições e do estado de Direito. A loucura sectária ameniza a fraude que a torna possível. Fecha-se o círculo do arbítrio.

Foi triste, mas elucidativo, acompanhar os esforços da defesa de Lula para transpor essas dificuldades. Mesmo conseguindo refutar as alegações que exigiam certa base material, os advogados esbarraram nas convicções dos acusadores, Moro incluso, porque, afinal, a crença é irrefutável por natureza. Estranhas ao regime da constatação, da prova, as preferências políticas admitem qualquer parâmetro de verdade.

Não há argumentação possível em tais circunstâncias, especialmente se elas são admitidas pelos próprios julgadores. Quando o presidente do TRF-4 elogia uma sentença que ele não leu, escrita por juiz de notório viés tendencioso, a mensagem clara é de uma adesão subjetiva que suplanta a racionalidade jurídica.

Nunca é demais insistir nesse aspecto. Dos analistas midiáticos aos ministros do STF, passando por militantes à direita e à esquerda, todos os defensores da condenação de Lula sabem perfeitamente que ela é política. Debaixo da tardia e oportunista ladainha sobre derrotá-lo nas urnas, adoram a ideia de ver o favorito nas pesquisas fora da disputa.

Mais do que um laboratório de arbítrio jurídico, portanto, vejo no julgamento do TRF-4 uma cena entre muitas desse espetáculo nacional de cinismo em que se transformou a caça a Lula. De resto, não acredito em resistências heroicas e suspeito que a tentativa de adotá-las é a senha que o Judiciário aguarda para interferir de vez no processo eleitoral.

E talvez fosse melhor assim, escancarar de vez o inominável. Por enquanto, sei apenas que o suspense matuto da imprensa é uma artimanha para ocultar a previsibilidade do veredito e para transformá-lo num marco de campanha favorável à direita. O tempo dirá se as coisas serão tão fáceis.

sábado, 23 de dezembro de 2017

“Fine and mellow”


Canção escrita e interpretada pela inigualável Billie Holiday (1915-1959). A gravação também traz um elenco estelar nos metais.

Outra com ela aqui.