segunda-feira, 20 de março de 2017

O “isentão” e a neutralidade ideológica




Publicado no Observatório da Imprensa

Em meio à polarização que inflama os fóruns digitais, ganhou notoriedade uma linha argumentativa supostamente avessa a todos os flancos que porventura participem dos debates. A tendência, calcada no repúdio indiscriminado à esfera política, atrai descontentes que não querem se comprometer com programas e legendas. A eles ficou associada a alcunha “isentão”, que já entrou para o léxico informal da mídia brasileira.

Cabe esclarecer que não estamos no âmbito da relutância, da ambiguidade, da incerteza, do desinteresse e de outras reações compreensíveis diante de algum tema espinhoso. O diferencial do “isentão” reside tanto na postura incisiva, polêmica e amiúde raivosa nos debates políticos quanto na superfície retórica de objeção aos mesmos comportamentos. É uma espécie de hooligan da (falsa) neutralidade.

Claro que esse discurso é tão ideológico quanto outro qualquer. Podemos vislumbrar repertórios de valores bem marcados no seu punitivismo inflexível, no ódio à militância, no individualismo anticoletivista e meritório, enfim, numa rede simbólica ligada a práticas sociais tipicamente conservadoras, talvez mesmo reacionárias. Além disso, há ali o sintoma clássico da ideologização, o esforço para tornar um posicionamento natural, desapegado, incontroverso.

Assim como todo silêncio alude a um não-dito com certo grau de especificidade, o recurso à aparência de isenção está contaminado pelo viés que procura esconder. Ela funciona a favor de algo que precisa ser negado para garantir sua própria legitimidade junto aos interlocutores. No caso, em meio a disputas inflamadas de narrativas com vínculos eleitorais, tenta-se apagar as marcas de interesses político-partidários cujo desmascaramento quebraria o feitiço niilista da antipatia giratória.

Tais ligações sobressaem na predominância de eixos argumentativos que partem de um antagonismo radical a certas identidades políticas, mas que se tornam cuidadosamente generalizantes, perdendo a contundência e a especificidade, quando se aproximam de outras. O repúdio localizado e o desalento global formam uma estrutura discursiva coesa, fundada na sua própria incoerência, isto é, no vetor indutivo que dela resulta.

Como bom produto ideológico, o “isentismo” demanda adesão completa. Todas as suas manifestações se assemelham na intransigência com que defendem as respectivas linhas de raciocínio e desqualificam o espírito crítico, particularmente do cidadão politizado, estigmatizando as controvérsias que ele provoca. É fácil entender a força que adquire o antipetismo, por exemplo, nesse simulacro de intercâmbio.

O apego ao chamado “discurso único” remete à imprensa corporativa, de onde partem os enunciados que os falsos apartidários reverberam sobre si mesmos. Também o jornalismo tendencioso precisa do ramerrão da objetividade para legitimar suas preferências. O afã de escondê-las, de resto bastante suspeito, revela a tolerância que a dissimulação adquire junto ao público-alvo desses veículos.

Sintomaticamente, outro forte elo intertextual dos “neutros” vem do campo Judiciário, espécie de modelo ético daquele grupo. Na mitologia objetivista, onde os magistrados são idôneos por natureza, a repetição de quimeras igualitárias parece dirimir a prática tendenciosa que as contradiz. Delas nasce o mote favorito do cinismo antitudo, a defesa de punições judiciais isonômicas que jamais acontecem e nas quais ninguém acredita realmente.

O “isentão” personifica a falência de um programa conservador que em outras épocas teve status de plataforma eleitoral. Sem nortes programáticos, frustrados por lideranças indefensáveis, seus adeptos constroem uma nova identidade ocultando os resquícios da antiga, mantendo, porém, o mesmo conteúdo e as mesmas estratégias de persuasão. O menosprezo à democracia representativa é apenas o canal mais conveniente para essa reciclagem de velharias autoritárias.

sexta-feira, 17 de março de 2017

“Moonlight”



Drama bonito e delicado sobre muitos temas sensíveis. A predominância dos azuis, especialmente de certos tons que se tornaram meio gastos no cinema artístico recente, aqui pelo menos tem razão de ser. Grata surpresa o equilíbrio entre a câmera irrequieta, próxima, expressiva, e o tratamento contido de um texto com forte carga dramática.

O Oscar para Mahershala Ali soa exagerado. Mas a consagração do filme é defensável, talvez a mais justa da Academia nas últimas décadas. Qualquer prêmio desse porte deve ser norteado pela relevância histórica da obra e, nas atuais circunstâncias, “Moonlight” adquire um peso enorme, que suplanta a sua modéstia original e lhe acrescenta algo de nobre e exemplar.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Sobre a união das esquerdas



No cenário eleitoral de 2018, há dois setores relevantes do campo progressista: os grupos que orbitam ao redor de Lula e aqueles antipáticos à sua proeminência. Ambos os flancos são inconciliáveis, pois têm como diferencial privilegiado a figura do ex-presidente e as posturas antagônicas que ele provoca.

Essas divergências espelham narrativas opostas sobre fenômenos decisivos da política brasileira recente. Uma delas envolve a natureza golpista do impeachment e o papel do PT no processo. Outra, a ideologização do Judiciário e as “excepcionalidades” da Lava Jato, incluindo o justiciamento ideológico de Lula.

O conflito de versões é inevitável, assim como a cizânia resultante. A esquerda antipetista vê tantas dificuldades em se afastar dos seus apoios velados ao golpe e aos inquisidores judiciais quanto o PT em coadunar com as forças que tentam destruí-lo. Especialmente porque a discórdia está inserida numa dinâmica de responsabilização mútua pela tragédia administrativa e moral que acomete o Poder Executivo.

Mas o problema tem seu lado estratégico. Depois das derrotas municipais e diante da absurda falta de quadros, o PT jamais poderia abrir mão de uma candidatura que as estatísticas apontam como a mais forte da esquerda, senão de todo o espectro partidário. Mesmo não encabeçando a chapa, Lula desfruta de uma popularidade que lhe confere status natural de liderança articuladora no seu círculo de influência.

Já os demais partidos do espectro usam esse antagonista simbólico para resguardar a sua identidade programática, mergulhada em profunda crise representativa. A Rede teve quase o mesmo número de votos, no país todo, que Fernando Haddad na capital paulista. O PSOL nacional perdeu para João Doria. Marcelo Freixo para si mesmo, em 2012. Pouco resta às legendas senão evitar um confronto direto com o antipetismo que dominou os programas conservadores vitoriosos. Ou até adotá-lo.

As pesquisas sobre 2018 sugerem que esse afastamento será fundamental para levar a dissidência progressista ao segundo turno. O desafio exige o enfraquecimento da candidatura associada ao lulismo e a sedução de fatias descontentes do seu eleitorado. O embate interessa também ao PT, que prefere mil vezes polarizar com um adversário abertamente conservador na fase derradeira.

É inútil, portanto, esperar uma aproximação que não agrada a nenhuma das partes envolvidas. E que, sejamos honestos, apenas manteria a esquerda isolada, internamente dispersa em altercações ressentidas e centralizando ataques de todos os outros flancos. A divisão aumentará a diversidade dos questionamentos ao governo Temer, talvez resultando mais danosa à direita do que um bloco frágil e estigmatizado.

Se quiserem mesmo posar de pragmáticas e expeditas, as alas progressistas podem selar um acordo pluripartidário informal, para coordenar estratégias que levem os seus membros ao máximo de cadeiras no Congresso, sem confrontos inúteis, tendo como inimigo comum o pemedebismo fisiológico. Já seria um grande avanço, e talvez o mais urgente na atual conjuntura.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Privilégios



Há algo muito esquisito na metamorfose que vem sofrendo a percepção pública acerca do STF. Menos de um ano depois de servir como alicerce moral do golpe, a corte virou uma espécie de paraíso da delinquência política. E quem o diz é a própria claque da Lava Jato, com suporte da mídia corporativa.

A demonização marqueteira do foro privilegiado, que já alcança o nível de campanha civilizatória, só pode ser tomada como afronta à idoneidade do tribunal. Caso contrário, o julgamento dos egrégios ministros, com a rapidez e o rigor que lhes cabem, seria visto como a grande arma da cruzada anticorrupção.

O que teria mudado nesse curto período? Como foi possível se deteriorar tanto a imagem de uma instituição festejada há pouco pelos mesmos setores que ora a desqualificam? E ainda hoje tais interesses não continuam sendo protegidos pelo STF?

As respostas estão disponíveis na lista dos personagens ameaçados pelas novas delações da Odebrecht. Ou melhor, daqueles que ocupam cargos legislativos ou de primeiro escalão governamental, isto é, que ficariam à mercê do STF em eventuais indiciamentos. Sem as prerrogativas de foro, escapariam do julgamento sumário e sorveriam as benesses protelatórias das instâncias inferiores. Como Eduardo Azeredo, por exemplo.

Uma revisão do foro livraria o STF do desgaste maior de, no futuro próximo, desmontar o paradigma punitivo que vigorou com o PT no poder. A corte já não sabe direito o que fazer com os réus perigosamente tagarelas que ameaçam desmoronar o governo Temer. O acréscimo da temível nobreza tucana ao rol de indiciados não anuncia outra saída senão uma humilhante complacência garantista que, a partir desses protegidos, inviabilize parte da rede probatória da Lava Jato.

Some-se a isso as pretensões de Lula, cada vez mais fortalecidas e, nestas circunstâncias, irrefreáveis. A possibilidade dele ser jogado às feras curitibanas, à parte o estrago que causa numa disputa eleitoral, exime o STF de lidar com as ações envolvendo o petista. Condenar um réu aclamado pelas urnas, em processos frágeis e talvez irregulares, demandaria certos sacrifícios que os ministros não devem estar dispostos a fazer.

Também a cúpula da Lava Jato amealha benefícios na luta contra o foro privilegiado. Na pior das hipóteses, transforma a prerrogativa (e o STF) em bode expiatório para o previsível degringolar da operação. Na melhor delas, concede às cortes intermediárias o poder de selecionar as suas vítimas e de aniquilar carreiras políticas antes que a corte máxima interponha as tardias correções.

De fato, nunca houve tanta gente no país preocupada com a questão da impunidade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Diferentes diferenças



A nomeação de Lula à Casa Civil, em março passado, tinha potencial para impedir o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Tanto que foi sabotada, numa artimanha duplamente ilegal, e a conspiração teve êxito.

Reduzir o episódio a uma tentativa de obstrução da Justiça parece um meio de salientar a contradição do STF no indulto ao ministério de Moreira Franco. Mas não passa de uma deturpação para ofuscar as cruéis diferenças que separam ambas as circunstâncias.

Sim, os casos são diversos. O de Lula teve singularidade estratégica e simbólica que sua biografia já deixaria evidente, para além do escandaloso ineditismo do grampo telefônico. O foro especial do secundário Moreira Franco trará no máximo constrangimentos ao STF.

Por isso não convém cair na armadilha de tornar as situações equivalentes, como se o tratamento a Lula fosse aceitável e, portanto, devesse atingir também o peemedebista. Repudiar o arbítrio seletivo não implica defender a sua generalização.

Tampouco se trata de argumento favorável à decisão de Gilmar Mendes contra o petista. Usando supostas evidências que o próprio STF declarou inaceitáveis, o ministro lavrou uma canetada que atingiu o cerne da autonomia institucional no país. Celso de Mello tornou o erro original ainda mais peculiar quando evitou repeti-lo.

É falacioso comparar o status legal de Lula e Moreira, Dilma e Temer, sob um prisma que os iguale, mesmo em princípio. Há muito esse tipo de imbróglio fugiu ao âmbito jurídico, estabelecendo-se numa seara cujo pressuposto básico é o cinismo oportunista.

Nesse universo de disparidades inatas, o posicionamento ideológico do analista se revela nas diferenças que ele escolhe para criticar.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

“Demônio de neon”



Nicolas Winding Refn tem uma obra variada e complexa. É impossível reduzir os dramas realistas da trilogia “Pusher” e de “Drive”, os pesadelos sombrios de “Bronson”, “Medo X” e “Guerreiro silencioso” e as fábulas estilizadas de “Só Deus perdoa” e “Demônio de neon” a um mero fascínio visual pela violência.

David Lynch, Quentin Tarantino e Martin Scorsese são referências óbvias de seus trabalhos, principalmente os mais recentes, onde os estilos dos três se misturam. Parte da crítica torce o nariz para o diretor dinamarquês, contudo, talvez porque ele seja bom demais em mimetizar seus ídolos, atraindo o espectador para um cinismo que eles não ousam destilar.

Imagino que o universo imoral e ofensivo de “Demônio” provoque respostas variáveis, dependendo da experiência que se tem com aberrações cinematográficas. De minha parte, a demência dos personagens teve um impacto muito menor do que a beleza hipnótica da ambientação kitsch (ou seria camp?), levada a extremos pouco vistos na atualidade.

Em outras palavras, a fotografia de Natasha Braier (um espetáculo de iluminação captado em digital), a direção de arte de Austin Gorg e a música de Cliff Martinez valem o desconforto. E há também a crítica feroz ao universo da moda, à competividade feminina e à mercantilização do corpo na selva midiática. Tudo muito polêmico, etc., mas ninguém disse que o cinema precisa ser apenas seguro e confortável.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Conspiração



É inútil esperar grandes revelações sobre o episódio que vitimou Teori Zavascki. Jamais saberemos toda a verdade, seja pelas dificuldades técnicas e materiais de qualquer apuração do tipo, seja porque a improvável descoberta de indícios criminosos dificilmente chegaria aos seus eventuais autores, menos ainda aos mandantes.

Resta-nos uma espécie de disputa narrativa em torno da própria incerteza com a qual teremos de conviver. Mesmo sem esperança de sanar as suspeitas plausíveis, sugiro que as protejamos dos rótulos paranoides que elas recebem de crédulos e cínicos. Duvidar é sempre o caminho menos alienante.

Isso tem relevância porque envolve a simbologia da morte de Zavascki, esfera em que a manipulação age com mais desenvoltura. Há algo estranhamente passivo no conformismo fatalista alimentado às custas da tragédia. Parece que todos se preparam para um futuro inexorável de horrores trazidos pela ira divina. Sem resistência.

Por que não ocorre o contrário? O uso das notórias posições de Zavascki para pressionar o substituto a respeitá-las em seus votos? Para que os ministros do STF reconheçam e preservem esse legado? O esclarecimento da opinião pública acerca dos caminhos que os processos sob análise do falecido tomariam sem a tragédia?

Não precisamos buscar estratégias conspiratórias nas causas da queda do avião. Suas consequências são graves o bastante. A simples possibilidade delas terem nascido de uma sabotagem deveria servir para interditar os desdobramentos óbvios pretendidos pelos hipotéticos assassinos. Mas sussurramos “que peninha” e seguimos adiante.

Curioso esse comportamento surgir nos supostos defensores da Lava Jato. E justo naqueles mais céticos e avessos à tese do atentado hollywoodiano. Mas eles têm razão. O que importa é o desfecho ser convincente.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Três vezes Isabelle



Felizes coincidências me colocaram diante de três filmes recentes protagonizados pela maravilhosa Isabelle Huppert. São universos bem distintos: “Elle” é um suspense erótico (na falta de rótulo melhor), “Mais forte que bombas” um drama familiar e “O que está por vir” uma reflexão filosófica sobre o tempo e as gerações.

As obras têm tratamentos parecidos, talvez para explorar o dom inigualável de Huppert no registro contido, minimalista. Daí que mesmo as passagens mais dramáticas ou violentas transcorrem num clima de sugestão e enigma.



Nessa levada, “O que está por vir” me pareceu mais rico, instigante e provocador. Não é o melhor cinematograficamente, pois mestre Paul Verhoeven dá uma aula de ritmo e ambientação em “Elle”. Mas a premiada condução da jovem Mia Hansen-Love tem o mérito de, reduzindo a carga emocional da protagonista em sua desventura amorosa, evidenciar toda a complexidade de um texto muito especial.



“L´Avenir” (o futuro): o abandono e a velhice da mãe de Nathalie; ela própria, com seu conformismo cético e sua solidão anunciando o destino das utopias coletivistas e revolucionárias dos alunos; o neto recém-nascido, sob o pranto assustado da jovem mãe, que é também filha, nova e antiga ao mesmo tempo...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Dezessete (preguiça, desalento, vontades)



Antes que eu pudesse esboçar perspectivas, os primeiros fatos do ano vieram inviabilizá-las. Mesmo os desdobramentos das grandes emoções de 2016 já não parecem suficientes para anteciparmos as turbulências inevitáveis de 2018. Reféns da imprevisibilidade, atropelados por sobressaltos, flertamos com a desesperança.

Esse ambiente de susto e incerteza me apanha reflexivo, cheio de urgências, mudanças, riscos. Certa sensação de esgotamento dos modelos expressivos que vinha utilizando, mas também desejo de ampliar horizontes, buscar vias novas.

Um desamparo preguiçoso diante da selva de textões que saturam as redes digitais, alimentando miríades de bolhas discursivas indiferentes à controvérsia e ao debate. Uma desconfiança do intercâmbio algorítmico e da obsolescência que ele pretende impor a espaços digressivos fora dos seus cubículos de vidro.

Cansaço de novidades que reciclam velharias. De intelectual cínico. De esquerda que defende índio mas apoia meganhas e excelências. Da burrice orgulhosa de si mesma e da raiva que a incentiva. Do provincianismo barulhento, feio, doméstico. De velharias que inspiram falsas novidades.

O desejo de resgatar o viés subjetivo da página pessoal, ou melhor, de preservá-lo da traiçoeira sedução da ágora feicibuquiana. Um apego extemporâneo à ideia de autoria, como antídoto contra a suruba diletante virtual. Talvez apenas a impressão de que algo relevante se perde quando levo as coisas a sério demais.

A certeza do recomeço. Do passo seguinte que cada passo engendra. Essa ideia permanecerá latente: a necessidade da mudança. Ou seria a dura constatação de sua inevitabilidade?

sábado, 24 de dezembro de 2016

“A Hard Rain's A-Gonna Fall”



Patti Smith representando Bob Dylan na cerimônia do Nobel. Além de emocionante, o episódio traz uma simbologia muito especial para esse tumultuado 2016 que se encerra. O prêmio ao poeta, sua ausência, a canção escolhida, a beleza da interpretação e até o erro da cantora carregam mais significados sobre o momento histórico atual do que muitas análises críticas lograriam reunir.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Balanço do golpe VI


















Conclusão

As análises desta série procuraram reunir evidências de que o impeachment de Dilma Rousseff configurou um golpe parlamentar. O conceito implica, primeiro, que não houve base jurídica para a deposição e, principalmente, que ela ocorreu na única esfera capaz de viabilizá-la dentro dos tênues limites da constitucionalidade.

O papel da máquina de propaganda, financiamento e legitimação da agenda golpista foi enquadrar o pemedebismo fisiológico no roteiro dos conspiradores palacianos. Para além de fantasias meritórias e espontâneas, a “tempestade perfeita” que levou ao impeachment reuniu pressões, chantagens e escambos eleitoreiros tendo o Congresso como palco.

Soa incongruente que os vencedores disputem espólios nessa ruína moral e administrativa que restou da aventura, mas o que está em jogo é transformá-la num projeto duradouro de poder. Para isso torna-se necessário evitar que a impopularidade de Michel Temer escancare os vícios do rito que o empoderou, jogue para seus artífices a conta da crise generalizada e fortaleça os setores prejudicados no episódio.

A tática do Judiciário e da mídia tucana consiste em fazer da Cruzada anticorrupção o legado positivo do impeachment. Uma bandeira “republicana” que permitiria destruir a candidatura de Lula, represar a insatisfação social antes que seja canalizada pela esquerda e afastar os obstáculos para a criação de um governo transitório nos moldes de Itamar Franco, de onde surja a plataforma situacionista em 2018.

Assim compreendemos a atualidade e a relevância do embate narrativo e epistemológico em torno do golpe. Sua negação fornece as bases discursivas sobre as quais se mantém o sistema ideológico da guinada conservadora, incluindo o repúdio à democracia representativa e aos programas sociais, o antipetismo judicial e o arbítrio punitivista.

O esquecimento das circunstâncias históricas do impeachment faz parte das pretensões conciliadoras e hegemônicas do programa golpista. Enquanto a democracia brasileira se defronta com a perigosa naturalização de excepcionalidades, é importante lembrar a mais escancarada e afrontosa de todas.


A série “Balanço do golpe”:

Introdução

A base

As ruas

O papel do Judiciário

O poder da mídia

sábado, 17 de dezembro de 2016

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

“Estação das clínicas”




















Chegou o mais recente trabalho poético de Iacyr Anderson Freitas, celebrado autor de “Viavária” e “Ar de arestas”. A apresentação é de Luiz Ruffato, e a edição da Escrituras.

Um comentário crítico sobre a obra pode ser acessado aqui. Abaixo, um exemplo, entre muitos, dos seus belos e sofridos poemas.


Menos um dia


cruzei a soleira do sono
escada abaixo
de pesadelo em pesadelo

como se tivesse
um ninho de serpes
no travesseiro

urinei de hora em hora

até que a bigorna em fogo
da aurora
bateu forte no meu rosto

acordei com raiva dos santos
e das sete virtudes teologais

não tomei café não comi
um pedaço de pão
sequer

fui direto para o trabalho
para ascender mais um dia
ao calvário

de nenhum
calendário

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

É necessário resistir à Cruzada anticorrupção



Publicado na página do Le Monde Diplomatique Brasil


Enquanto a esquerda brasileira busca novas agendas e programas, o tema da corrupção vem ganhando protagonismo cada vez maior nos seus debates. Vejo essa tendência com perplexidade e desalento, pois a considero um erro conceitual e estratégico grave, que pode mesmo inviabilizar a sobrevivência do progressismo organizado no país.

Chamo doravante de Cruzada o amplo repertório subjetivo que acompanha a pauta anticorrupção nos moldes atuais. O termo abarca tanto o viés místico da plataforma quanto seu imaginário bélico, ambos tendo como principal símbolo a operação Lava Jato, apesar de não restritos a ela. A qualificação busca espelhar também o uso sectário do programa, o hábito de desqualificar seus críticos por suposto apoio a alas “infiéis”.

Logo de saída notamos que o espírito da Cruzada guarda uma contradição insanável: precisa ser inflexível na propaganda, mas tolerante na aplicação. Levada a purismos extremos, ela jamais daria conta das minúcias irregulares da vida social, das instituições públicas e do setor corporativo. Por outro lado, admitindo sua inviabilidade prática, perde o sentido isonômico e universalista que a justifica, ou parece justificar.

Considerando que as próprias infantarias cruzadas sucumbiriam ao rigorismo total, apela-se para uma relativização seletiva. O alvo então se restringe à demonizada classe política, mais especificamente ao “outro” malfeitor que não desfruta das simpatias ocasionais dos fiscalizadores (partidárias, religiosas, performativas). E é exatamente esse farisaísmo que termina por arruinar os bons propósitos da empreitada.

Como na obsoleta “guerra”contra as drogas, o falso “combate” da Cruzada se resume a um ciclo vicioso de fracassos que geram novas medidas de exceção, cujas derrotas servem de pretexto para mais arbítrio. Ora, não faltam leis. Mesmo às vezes desatualizada, a legislação brasileira é suficiente. O verdadeiro problema da corrupção, a impunidade, nasce nas instituições que mais defendem o aperto regulatório e os extremos punitivos.

O único resultado prático da radicalização legal é empoderar tais setores, essencialmente antidemocráticos, eles próprios corrompidos, privilegiados e impunes. O esforço para impedir que o decálogo saneador se estendesse ao Judiciário exibiu, mais do que apego à blindagem corporativista, o reconhecimento das prerrogativas arbitrárias em disputa.

A Cruzada é, portanto, um construto ideológico. Uma âncora discursiva presa a memórias e práticas sociais incompatíveis com qualquer plataforma libertária. Sua negatividade substancialista mobiliza intolerância, medo, castigo. O aplauso a polícias e justiceiros togados embute uma potência desejosa de “vigiar e punir” (pobre Foucault) que permeia as vias mais arcaicas de opressão. Elas precisam ser extintas, não generalizadas.

Mas, convenhamos, os sinais estavam claros já nas manifestações pelo impeachment, com seus grupelhos fascistas, seus policiais-modelo, seus bonecos enforcados, suas apologias militares. E continuam óbvios em grampos ilegais, vazamentos clandestinos, delações manipuladas, denúncias vazias, humilhações de réus, vendetas escusas, todo um rol de “excepcionalidades” inconstitucionais que chocavam os progressistas de antanho.

Do ponto de vista estratégico, a pauta da Cruzada não é ruim para a esquerda porque moralista, embora algumas de suas vertentes talvez mereçam o adjetivo. É ruim porque simplória, vetusta, agressiva, com cheiro de elite “cansada”. E porque jamais conseguirá se desvencilhar do ódio pela democracia representativa, do ressentimento contra o eleitor, da mesura à autoridade e do menosprezo por ritos e direitos.

Se existe um meio libertário e inclusivo de abordar o imenso problema da corrupção sem instrumentalizá-lo ideologicamente, o trajeto é inverso: valorizar a representação política, a constitucionalidade, a isonomia judicial, a transparência institucional ampla e irrestrita. Principalmente no Poder Judiciário, que, repito, sempre foi a grande fonte da impunidade e agora finge ser vítima dos seus beneficiários.

Pesquisas de opinião monotemáticas ou realizadas no calor da polêmica servem para aferir o poder dos cruzados midiáticos, não uma tendência que a sociedade teria se o debate público fosse de fato amplo e informativo. Aliás, mesmo o aval majoritário da população pode ser questionado. Ou será que a desculpa do acolhimento ao anseio popular valeria também para a defesa da pena de morte? Para a criminalização do aborto?

Adotar a Cruzada representa um oportunismo contraditório com as críticas desferidas às alianças espúrias do PT. E uma repetição do seu pragmatismo suicida: o fortalecimento de alas retrógradas que não hesitariam em aplicar o legalismo tendencioso à esquerda adesista ou em absorvê-la, gerando facções moderadas nas franjas de uma coligação conservadora hegemônica. Todos apaziguados pela causa comum.

Algumas tropas já se voluntariam para o sacrifício. São as seitas do esquerdismo antipetista mais radical, atraídas pela Cruzada apenas porque o PT denuncia seus métodos. Incapazes de superar a mal resolvida crise edipiana com Lula, aninham-se no colo maternal da Justiça, esperando que ela os satisfaça através do sacrifício expiatório do antigo líder. E brandindo a retórica policialesca na falta de outra que a substitua.

É óbvio que esse lacerdismo cor-de-rosa está restrito a uma verborrágica porém diminuta minoria, que não se dá sequer ao trabalho de explicar suas contradições sem recorrer ao antipetismo como selo autolegitimador. Observando o campo progressista para além das bolhas digitais, vemos uma ampla constelação de valores, desejos e narrativas que poderiam levar a pauta da corrupção a patamares menos inconsequentes.

As promessas redentoras e paradisíacas da Cruzada parecem tentadoras porque a suposta falta de perspectivas (também ela um subproduto da ideologia judicial) empurra a militância para os confortos inerciais do discurso único. Basta que ele seja desarticulado, mostrando a intolerância, a desigualdade e o autoritarismo da sua nudez obscurantista. Aí a esquerda encontrará sua pauta, articulada não em torno da adesão, e sim da resistência.