sábado, 23 de julho de 2016

“Sicilienne, Op. 78”



Composição de Gabriel Fauré (1845-1924). Olga Zmanovskaya na flauta e Elizaveta Bushueva na harpa.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Os golpes, o golpe, o povo












A conjuntura da tentativa de golpe de Estado na Turquia é singular e complexa demais para sequer esboçarmos paralelos com qualquer outro país. A armadilha comparativa ficou clara nas primeiras reações brasileiras aos acontecimentos: a direita saudando um golpe para marcar posição junto ao suposto laicismo dos militares turcos; a esquerda, rechaçando os golpistas, endossava um presidente despótico e retrógrado.

Logo foram as diferenças que, de tão óbvias, passaram a nortear os embates centrados no impeachment de Dilma Rousseff. A insurreição militar da Turquia provaria que no Brasil não há golpe. E a reação do povo turco mostraria que o brasileiro aceita a deposição em curso.

Faz tempo que os apologistas do impeachment insistem na necessidade de ação militar para caracterizar golpes. Eles “ignoram” que milicianos e polícias vivem substituindo as Forças Armadas na instauração do arbítrio, inclusive sob fachada republicana. Aliás, o próprio conceito de ruptura institucional é bastante maleável. Vazar grampos ilegais contra uma presidente da República seria coisa de “normalidade democrática”?

“Povo” é outra noção escorregadia. Certamente a imagem da resistência turca perderia o viés heroico se nossos preguiçosos observadores considerassem suas motivações, entre outras dúvidas mal explicadas do episódio. Da mesma forma, o caráter popular das passeatas golpistas brasileiras não resiste a uma análise minimamente séria dos vetores midiáticos e empresariais que as viabilizaram.

Nada autoriza afirmar que “os brasileiros” aprovam o impeachment. O próprio Datafolha, vinculado à mídia golpista, afirma que um terço da população rejeita a saída de Dilma. Em termos numéricos, o índice supera os votos de Aécio Neves no segundo turno presidencial: são sessenta milhões de pessoas.

A apatia diante do golpe não espelha aceitação, mas uma consciência da inutilidade de enfrentá-lo para além de certos limites concedidos. Essa acomodação tem a ver com a blindagem legalista que o STF concedeu ao golpe, repetindo, aliás, seu aval à eleição indireta de Castelo Branco em 1964. Graças à corte, o governo tucano de Michel Temer ganha um aspecto irreversível, soberano, talvez mesmo ameaçador.

Os tanques e bombardeios se tornaram desnecessários.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Polyana investigadora
















Dá para imaginar o escândalo que haveria se o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato fizessem cursos e reuniões na Rússia ou na Venezuela antes de arrasarem a Petrobras. Gigantes petrolíferos ajudando a destruir a concorrência brasileira? Então. Com os EUA é “cooperação internacional”.

Espionagem? Conspiração? Depende da maneira como definimos tais atividades. Ou melhor, do grau de credulidade que abraçamos para embalar nossa ilusão de autonomia e segurança. Quase toda ação escusa tem uma fachada legítima que satisfaz os ingênuos.

Claro, soa insensato embaralhar os verdadeiros deslizes éticos de Moro com suspeitas afins. No imaginário diplomático, ele seria um péssimo candidato à cooptação. Além de excessivamente visado, nutre visão messiânica e idealista do seu papel. E tem motivações ideológicas já alinhadas à agenda estadunidense.

Ao mesmo tempo, é muita ingenuidade ignorar os elos geopolíticos da desmoralização de algumas das maiores empresas do país, com negócios planetários em áreas estratégicas para as potências financeiras. E é simplesmente estúpido achar que desmontes desse tipo são fenômenos gratuitos no inescrupuloso universo do empresariado transnacional.

Podemos até acreditar que a Lava Jato serve “apenas” como instrumento manipulado por interesses poderosos, em troca do seu próprio sucesso no âmbito doméstico. O problema está no pacote de versões oficiais, bem menos convincentes, que dão suporte à hipotética inocência dos nossos berlusconis.

Por exemplo, a tese de que o profissionalismo, a força material e o respaldo midiático do movimento pelo impeachment nasceram de ações espontâneas e desarticuladas, embora seus líderes tenham ligações com obscuras companhias norte-americanas. Também a de que o cargo de ministro das Relações Exteriores de José Serra não tem nada a ver com seu projeto que abre o pré-sal à exploração estrangeira. Ou com os policiais federais que vazaram os sigilos da Lava Jato.

Será que as teorias conspiratórias nascem da quantidade de coincidências estranhas em torno do mesmo fenômeno, ou do desprezo geral por esses sinais? Precisaríamos mesmo de documentos governamentais para saber que os EUA participaram do golpe militar de 1964? Sem o Wikileaks ninguém imaginaria que a Casa Branca espiona mensagens eletrônicas de governos, empresas e cidadãos?

A lista dessas “descobertas” tardias ocuparia compêndios. As nódoas comuns a todos os seus episódios são a covardia da imprensa dita investigativa e o descrédito público dos paranoicos que levantaram as perguntas que ninguém ousava formular.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A palavra proibida

















Elio Gaspari admitiu na Folha de São Paulo que há um golpe em curso. Mas “golpe”, veja bem, no sentido democrático, mero jogo sujo dos parlamentares malvados.

Eis outro típico reboleio semântico de quem se envergonha de ter apoiado o impeachment. Doravante choverão análises parecidas, tardias e eufemísticas, em busca de um lugar confortável na posteridade.

Foi assim com as reações às ilegalidades de Sérgio Moro e ao banditismo do governo interino. Será assim com a pizza da Lava Jato e a destruição política de Lula.

Debaixo da retórica boazinha, porém, esses remendos escrupulosos preservam as suas falácias originais, como caroços opinativos inquebráveis que não podemos refutar. Moro é imparcial. Dilma mereceu. O impeachment segue a Constituição.

Percebemos o cinismo dos apologistas daquilo-que-seria-golpe-se-golpe-fosse quando eles qualificam o fenômeno: é do “conluio de bandidos” para baixo. Ou seja, tem cheiro de golpe, cara de golpe, discurso de golpe, mas... golpe? Não, não é.

Afinal, o que falta ao impeachment para merecer a alcunha maldita? Ruptura institucional? Violação das regras? Mas isso aconteceu em 1964? O STF não acatou a deposição de João Goulart e a eleição indireta de Castelo Branco? Não foi tudo dentro da tal “constitucionalidade”?

A questão central aqui é que não se trata de diletantes desinformados das redes sociais. Gaspari, por exemplo, estudou profundamente a ditadura militar. E muitas das pessoas que repetem seus argumentos possuem sólida formação acadêmica, tanto que recorrem a teorias muito bem elaboradas para rechaçar o conluio do PT com as elites.

Então vemos especialistas ignorando fatos históricos para endossar suas posições partidárias. E progressistas foucaultianos aplaudindo togados e meganhas como heróis nacionais. E a cúpula do Judiciário repetindo os notórios erros dos antepassados.

Por isso acho meio pueril festejar o recuo estratégico de Gaspari e de outros analistas. A natureza do impeachment não depende dos seus juízos clarividentes e seletivos. O problema de apoiar um golpe é deles e do próprio STF. Usem a palavra que preferirem.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A intelectualidade sob pressão














A tentativa de aniquilar o Ministério da Cultura, os expurgos na Empresa Brasil de Comunicação e as intervenções do governo interino em órgãos científicos são reflexos administrativos de um fenômeno mais amplo. Seja por ações judiciais, seja em textos na mídia tradicional e na internet, multiplicam-se investidas cerceadoras ou difamatórias contra acadêmicos, artistas e jornalistas considerados “de esquerda”.

O problema não tem nada a ver com os méritos da isenção fiscal à Cultura e outras pautas oportunistas. Argumentos grotescos do tipo “mamar nas tetas do Estado” servem apenas para destilar o pseudoliberalismo de botequim que embala o orgulho reacionário. Na época da Guerra Fria falava-se em estar “a soldo de Moscou”.

A fobia anti-intelectual é velha como o fascismo. Ela nasce na aversão à criatividade e ao espírito crítico, valores provocativos e libertários por natureza. A arte, o humor e a análise ofendem o autoritarismo porque atuam em esferas nas quais a força coercitiva, econômica ou física, não possui eficácia total.

E existe o perigo da visibilidade. Uma pessoa famosa denunciando o golpe diante da imprensa mundial destroi meses de propaganda partidária do jornalismo brasileiro. Não há manipulação que sobreviva ao apelo emocional de um ídolo gestado no próprio sistema de legitimação do veículo manipulador.

Daí o esforço de neutralizar essas potências com ilações sobre o uso de recursos estatais ou afinidades partidárias. A exigência de uma isenção impossível, desprezada em todos os campos de estudo, serve para desautorizar justamente as pessoas que combatem a mentira do apartidarismo no Judiciário e na imprensa. Maliciosa inversão: usa-se o veneno para destruir seu antídoto.

O espírito vingativo e intolerante fornece um amálgama ideológico para as diversas facções institucionais envolvidas no impeachment de Dilma Rousseff. Mas seria ingênuo ver aí apenas um subproduto espontâneo do antipetismo histérico. O fenômeno ganhou tamanha ressonância que pode se transformar em instrumento coercitivo.

Os ataques a intelectuais visam impedi-los de participar na construção das narrativas históricas sobre este momento do país. Silenciando as versões antagônicas, a direita pretende institucionalizar sua memória salvacionista, usando o discurso homogêneo do noticiário como legado de uma falsa unanimidade em torno das disputas políticas.
           
E é exatamente porque a moda obscurantista vincula-se a um projeto de poder que os intelectuais não podem cair na armadilha da despolitização legitimadora. Quanto mais agressivos forem os adeptos do discurso único, maior o estímulo para combatê-los com a afronta da resistência militante.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Janot e a tática do tsunami
















Convenhamos. Ninguém acreditava realmente que José Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros seriam presos. Nem Rodrigo Janot, o procurador-geral que assinou o pedido.

Janot pode ser muita coisa, mas tolo não é. Suas ações sempre mostraram pragmatismo e senso de oportunidade, jamais um temperamento dado a arroubos inviáveis.

Ele sabe que as suspeitas contra a cúpula do golpe ficarão esquecidas no STF até bem depois do impeachment. E que metade das delações não será sequer considerada.

“Eu tentei investigar todos”, dirá o procurador-geral, quando o acusarem de partidarismo. “A culpa é do STF, que não deixou”.

Mas Janot tentou mesmo? E as acusações contra JoséSerra na privataria? E os casos de corrupção do governo FHC? E Michel Temer? E os grampos ilegais de Sérgio Moro?

Notem que o Ministério Público jamais atingiu a cúpula do PSDB. Essa que manda no governo Temer e que recebeu doações milionárias das empreiteiras da Lava Jato.

E eis que o tsunami de Janot conseguiu duas coisas importantes: forçou o PMDB a se proteger no golpe e acirrou o ânimo antipetista dos berlusconis curitibanos.

Lula, por sua vez, a onda justiceira engole sem dó.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Foco na luta contra o golpe














Cada vez que Dilma Rousseff ou seus apoiadores falam em novas eleições, ou em plebiscito para referendá-las, o impeachment fica mais perto de se concretizar. No mínimo, é uma confissão de derrota. E pode virar um incentivo para os senadores deixarem as coisas como estão.

Antes de maiores especulações, é necessário reforçar que a ideia não tem viabilidade prática. Ninguém a aceitaria no Congresso, no Judiciário, no empresariado ou na mídia corporativa. Nem no PT há unanimidade a respeito.

Dilma deve permanecer no cargo porque a Constituição o exige, e não por um acordo conveniente de bastidores. Encurtar o mandato, sob qualquer pretexto, sacramentaria o golpe. Dependendo da narrativa em torno do arranjo, poderia até legitimá-lo.

Mesmo que vingasse, o tal “pacto” seria um presente para os golpistas. Eles ganhariam a chance de apagar a vergonha desse governo ilegal, corrupto, autoritário e antissocial que instauraram visando garantir a impunidade dos seus líderes.

Mas então por que a direita não apoiaria o acordo? Porque a impopularidade de Michel Temer poderia desembocar em eleições gerais, viabilizando a candidatura de Lula antes que a Lava Jato atinja seu objetivo central. Simples assim.

Depois do ruinoso prefácio da gestão interina de Michel Temer, não faz sentido discutir se Dilma conseguiria governar. A mera recondução da petista já selaria um pacto informal pelo retorno a certos padrões de decência e responsabilidade administrativa.

Por outro lado, prevalecendo o golpe, é preferível que ele se complete sem máscaras reconfortantes. Seus apoiadores na imprensa, no Judiciário e na sociedade não merecem afagos negociadores. Que integrem a memória do país como cúmplices do triunfo do banditismo sobre a democracia.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Culpando a vítima











O repertório machista que atravessa algumas agendas políticas ajuda a fortalecê-las transferindo as fórmulas do preconceito para esferas de análise onde a questão de gênero parece irrelevante. Isso ocorre com Dilma Rousseff (além do desrespeito aberto que ela sempre sofreu) nos debates sobre o impeachment.

Uma das mais graves e disseminadas falácias sobre o estupro reside na presunção de “merecimento” da vítima, que teria favorecido ou provocado a agressão. O ataque perde então a essência bárbara e passa ser compreensível, mero desdobramento de atitudes que a mulher poderia evitar se quisesse.

Argumento similar ressurge em certas manifestações de apoio à deposição de Dilma. Para digerir a escandalosa ilegalidade do processo e a imoralidade dos seus líderes, os defensores do arbítrio precisam jogá-las na conta da própria mandatária. Apesar de tudo, ela “mereceu” o ataque dos parlamentares ignaros.

Assim, os supostos defeitos pessoais de Dilma (arrogância, incompetência, falsidade) amenizam a ofensa jurídica do impeachment. A violação constitucional deixa de ser um golpe inescrupuloso, transformando-se em mera consequência, algo normal no sistema de relações do mundo político. A culpa é da vítima, que provocou sua tragédia.

Tais reflexões jamais esgotariam um tema sério e complexo como o da agressão sexual. A intenção aqui se resume a mostrar que o hábito de responsabilização da vítima extrapola a tolerância perante o estupro, servindo de instrumento para legitimar violências de outra ordem, certamente menos lesivas, mas nem por isso aceitáveis.

O fato de essa transposição soar natural e inofensiva para muitas pessoas solidárias com as mulheres que sofrem agressões físicas não deixa de simbolizar uma derrota no combate à impunidade dos agressores.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

“Quem não conhece o esquema do Aécio?”














As gravações de Sérgio Machado enterram de vez o imaginário honroso e republicano do impeachment. Elas fornecem o retrato perfeito do combate à corrupção que mobiliza o antipetismo e da imoralidade que acompanha o processo golpista.

Chega a ser divertida a quantidade de flagrantes insinuando negociatas escusas junto ao STF. Como pode haver tantas pessoas, até de facções opostas, com a mesma pretensão? Nesse ritmo, os anais da Lava Jato correm o risco de reunir mais citações constrangedoras à corte do que ao próprio Lula...

O episódio não ameniza o viés tendencioso do procurador-geral Rodrigo Janot. Pelo contrário. Ele precisa explicar, no mínimo, por que escondeu até agora a gravação de Romero Jucá, feita em março. Que outras informações continuam guardadas para não prejudicar o avanço do impeachment?

Por outro lado, é necessário muito ceticismo diante das conversas. Se tucanos e líderes do governo interino tivessem motivos para recear a Lava Jato, não haveria impeachment em primeiro lugar. Talvez sequer a Lava Jato. As interpelações de Machado têm algo de teatral, que dificilmente passou despercebido pelos veteranos interlocutores.

O vazamento não ocorre por acaso, ou num ímpeto qualquer de transparência. O resgate da imagem dos investigadores e o fortalecimento de certas alas peessedebistas da gestão Michel Temer elucidam os interesses envolvidos. Os métodos utilizados também, inclusive na cobertura midiática.

Supondo tratar-se de um conluio entre o PSDB serrista e os procuradores, o sacrifício de Aécio Neves parece tão inevitável quanto uma cartada final contra Lula. Aécio é o bode expiatório perfeito para salvar as aparências imparciais da caça ao petista. Que sempre foi, e continua sendo, o grande objetivo desse espetáculo justiceiro.

Tudo é imoral nas gravações, e não apenas seu conteúdo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O governo tucano de Michel Temer

 

É absurda a ideia de que entre os governos Dilma Rousseff e Michel Temer há pouca diferença programática. Basta observar o que os golpistas fizeram com as áreas sociais, culturais e diplomáticas do ministério para se ter noção do retrocesso em andamento.

Mas há um diferencial ainda mais evidente: o PSDB. José Serra, Fernando Henrique, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, todas as lideranças do partido foram agraciadas com cargos nos vários escalões da máquina. Desde 2002 não ocorria algo parecido.

Supondo inevitável que o PMDB e os partidos nanicos aderissem a qualquer vitorioso em 2014, o que temos é uma versão próxima de um eventual governo Aécio. O golpe inverteu o resultado das eleições. Sem eleições.

Aí percebemos por que é falacioso afirmar que o voto em Dilma dá legitimidade aos atos do seu vice. Temer não apenas traiu o projeto administrativo que o elegeu, mas também abraçou um partido adversário na disputa, rejeitado pelas urnas.

Por mais que Dilma tenha recuado em suas plataformas, manter peessedebistas fora do Planalto representou uma fidelidade mínima a compromissos de campanha. Esse detalhe estava claro na polarização do segundo turno e, como vemos, tinha enorme importância para os rumos da gestão federal.

No empoderamento do PSDB revela-se a essência antidemocrática do impeachment. A entrega de postos estratégicos ao partido viola princípios básicos de representatividade, impondo ao país uma agenda que ele não debateu e muito menos aprovou.
                                  
A guinada tucana explica a sanha vergonhosa com que os golpistas tomaram de assalto o poder interino. A consumação rápida e implacável da hegemonia do PSDB é uma forma de nocautear a sociedade brasileira antes que ela perceba o tamanho do prejuízo.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A luta possível

 













Publicado no Brasil 247

A fase decisiva de prevenção ao golpe começa agora. O Senado aprovou a abertura do processo por 55 votos, apenas um a mais do que o necessário à condenação final. Vários senadores favoráveis ao julgamento afirmam que não se decidiram a respeito. Basta que dois deles recuem e o impeachment acaba.

As manifestações públicas da esquerda nunca foram tão necessárias. Bem organizadas, pacíficas e numerosas, podem refrear a narrativa triunfante do golpismo e evidenciar a impopularidade de Michel Temer.

Outro meio de atuação ficará a cargo da militância digital. Por exemplo, pressionando os senadores, divulgando o caráter golpista do impeachment, rebatendo o discurso apocalíptico da crise econômica ou denunciando as pizzas judiciais que estão no forno.

Embora não cultive grandes expectativas de vitória, antevejo bons frutos no Senado. Ali o impeachment será exibido em sua nudez ilegítima, trazendo à memória a péssima impressão deixada pela Câmara. E haverá o desgaste já perceptível do governo interino.

Ricardo Lewandovski, presidente das sessões, cumprirá papel importante em manter o foco na legalidade do processo. A crescente escandalização internacional reforçará esse aspecto no imaginário “republicano” dos senadores. Boa parte deles, aliás, tem admitido a falta de base estritamente jurídica para a deposição.

Resta, portanto, uma etapa crucial da disputa, quiçá a mais equilibrada de todas. A ausência de Eduardo Cunha e a agenda antipopular de Temer anunciam um ambiente de divisão e desgaste que o Congresso não vivia nas fases anteriores.

A mídia corporativa se esforça para encerrar a questão, tentando convencer o público de que Dilma não teria condições de retornar. Mentira, típica propaganda golpista, que apenas demonstra o receio de enfrentar a resistência democrática.

O derrotismo antecipado da esquerda é a última barreira que o impeachment precisa transpor para sua concretização.