segunda-feira, 30 de março de 2015

Por que esconder as contas na Suíça?

















Apenas Fernando Rodrigues sabe quem são os brasileiros que abriram contas bancárias na filial suíça do HSBC. Mas ele não divulga esses nomes. Até agora, só identificou dados restritos a 2006 e 2007, envolvendo trinta pessoas citadas na já seletiva Operação Lava Jato. O resto, mais de oito mil e quinhentas contas, fica em segredo. E, pelo jeito, assim continuará.

O jornalista assumiu a tarefa de estabelecer o “interesse público” das informações que obteve. Isso equivale a adivinhar o que o distinto leitorado quer saber acerca do caso. Em outras palavras, o sacrossanto direito da sociedade à informação depende da ética profissional e do espírito investigativo de Rodrigues.

Os indícios de enriquecimento de familiares e amigos de José Serra na época das privatizações de FHC foram considerados irrelevantes pela mídia corporativa. Rodrigues, que fez carreira no meio, jamais usou a verve detetivesca para esclarecer aquelas estranhas coincidências. E segue achando que o período não tem “interesse público”, tanto que ignora que o número de contas abertas por brasileiros no HSBC da Suíça cresceu de maneira substancial entre 1997 e 2002.

Ora, basta juntar os documentos apresentados no livro “A Privataria Tucana” com o histórico das contas suíças. Os nomes se repetem? Possuem elos com os personagens da máfia dos cartéis metroviários, criada na mesma época? E com as famílias donas das redes Globo e Bandeirantes e do Grupo Folha, que apareceram na lista? Afinal, por que diabos Rodrigues não elucida um mistério tão simples e verificável?

A alegação de resguardar inocentes é capciosa. A citação num inquérito em andamento não previne injustiças, pois, mesmo condenados, os réus da Lava Jato podem ter contas legítimas no exterior. Ademais, se os depoimentos dos delatores da Petrobrás têm “interesse público”, ainda que não comprovados, o mínimo que a cartilha jornalística exige diante da abertura de contas estrangeiras nos contextos das privatizações ou dos cartéis é lhes conferir tratamento similar.

Rodrigues diz que a Receita Federal não responde às suas ralas consultas. Mas a imprensa precisa de governos para nortear apurações? Então por que não esperar a fase de provas para espalhar apenas as delações verdadeiras da Lava Jato? Aliás, quando as suspeitas envolvendo petistas ou agregados mereceram cautelas desse nível?

O falso zelo de Rodrigues funciona como garantia de que o Suissleaks não sairá do controle da direita brasileira. É um subterfúgio partidarizado e hipócrita para manter a lama do escândalo distante da mídia empresarial e do grande tucanato. O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos dá guarida institucional a esse logro.

Diante dos riscos que Rodrigues assume contra sua própria reputação, podemos imaginar o teor das informações que ele oculta.

sexta-feira, 27 de março de 2015

“O abutre”


















O título brasileiro infame talvez se refira ao clássico de Billy Wilder sobre o jornalismo, “A Montanha dos Sete Abutres”. Guardadas as suas proporções, o filme de Dan Gilroy tem a mesma contundência na abordagem da atividade.

O vigor da obra reside no protagonista, um dos mais complexos e instigantes desta safra hollywoodiana. Jake Gyllenhaal o compõe com extrema verossimilhança, auxiliada por uma eficaz transmutação física.

Um ensaio incômodo sobre o cinismo de parte da imprensa televisiva, o impacto das imagens e a exploração da violência. Parece indispensável para jornalistas e estudantes da área.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Panelinha


















O esforço da imprensa corporativa em construir uma imagem de multiplicidade social para os protestos apenas evidencia como ela é frágil e discutível. Mais importante: mostra que a oposição valoriza esse aspecto a ponto de forjá-lo.

A ênfase justifica-se. O absurdo investimento dos veículos na promoção das passeatas corre o risco de virar propaganda negativa, fortalecendo o arquétipo do endinheirado ressentido, que já participa do repertório político tucano.

A invenção do protesto popular passará por um teste decisivo nos próximos atos. Será interessante acompanhar suas estratégias de cooptação.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O cansaço e o panelaço

 

Quanto mais observo as imagens das manifestações de 15 de março, mais me parece evidente a homogeneidade social, talvez até mesmo étnica, do fenômeno. Seria leviano afirmar que os presentes eram apenas eleitores do PSDB, brancos ou “burgueses”. Mas fica impossível generalizar em sentido contrário, isto é, dizer que os atos espelharam proporcionalmente a sociedade brasileira.

Não quero dizer que as classes menos favorecidas estejam felizes com Dilma Rousseff, mas apenas que elas não encontram representação no movimento. O dado possui implicações políticas relevantes, inclusive quanto aos objetivos da revolta. Um inimigo do assistencialismo estatal e um beneficiário dos seus programas podem ter razões bem diversas para reclamar do mesmo governo.

A grande marca identitária dos protestos atuais é o ressentimento moralista contra a classe política. Ele só envolve a melhoria das condições de vida da população de maneira indireta e hipotética. A pauta do combate à corrupção ganha aqui um claro viés elitista, independente da origem de quem a defende, pois exige mudanças conservadoras do ponto de vista da desigualdade social.

A prisão de executivos e políticos não resolve os imensos problemas que atingem os trabalhadores (falta d’água, por exemplo) e, como observamos no caso Petrobrás, pode até agravar esses problemas se conduzida de maneira irresponsável. O desejo punitivo e a solidariedade possuem naturezas e consequências distintas, amiúde inconciliáveis.

Isso deveria ser levado mais a sério por certos analistas, que comemoram as passeatas como se tivessem uma essência positiva e transformadora. Não faz sentido, para quem ridicularizou aqueles primeiros gestos isolados do Cansei, aplaudir depois a sua temerária apoteose.

sábado, 21 de março de 2015

“Beba Coca-Cola”


Composição para coral de Gilberto Mendes, sobre poema de Décio Pignatari. Há um belíssimo documentário sobre Mendes no Youtube.

sexta-feira, 20 de março de 2015

“Força Maior”






















Interessante pequeno filme sueco, premiado em Cannes e desprezado pelo circuito brasileiro de porcarias.

Sem antecipar o enredo, é possível dizer que a avalanche possui também um sentido metafórico, ou subjetivo, no drama familiar retratado. O tratamento meio fabuloso e onírico ajuda a amenizar a temática pesada, de pendores metafísicos, explorando a comicidade das situações mais inquietantes. A ironia do tema musical (o “Verão”, das “Quatro Estações” de Vivaldi) contribui com esse efeito.

Destaque para a fotografia belíssima, de longas janelas, adequadas a enquadramentos expressivos e paisagens deslumbrantes.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A mídia apresenta suas armas

 
Publicado no Brasil 247

Quem acredita que os protestos foram surtos espontâneos de revolta desconhece a árdua rotina das mobilizações populares no país. Se as redes sociais bastassem para sublevar descontentes, as capitais paralisariam todo fim de semana. Reivindicações não faltam. O que falta é o apoio da imprensa corporativa a elas.

Trabalhos acadêmicos futuros mostrarão como o fenômeno de 15 de março de 2015 foi construído pelos grandes veículos. Ao longo das três semanas anteriores, canais de TV, emissoras de rádio, jornais, revistas e portais da internet uniram-se na divulgação do evento, associada a noticiário negativo sobre o governo federal.

Esse fabuloso esforço propagandístico deu visibilidade heroica a grupelhos irrelevantes da direita, que há poucos meses faziam passeatas minguadas e caricatas. Disseminou a imagem republicana dos atos, atraindo os adeptos das modas protestantes de 2013. E naturalizou ideologicamente o antipetismo no repertório moralista da classe média.

Desde a preparação do golpe militar de 1964, a imprensa brasileira não agia de maneira tão uníssona e articulada. Nas TVs e rádios, houve menções contínuas em todos os espaços de programação, incluindo chamadas sensacionalistas para coberturas ao vivo. Até astros e celebridades foram mobilizados. Nos meios impressos, primeiras páginas, colunas e reportagens dedicaram-se diariamente ao tema.

O recado que as empresas de comunicação transmitem ao governo federal é inequívoco: “eis o que podemos fazer contra nossos inimigos”. O gesto adquire oportunismo diante dos debates envolvendo o Marco Regulatório do setor, a reforma política e a taxação de grandes fortunas. E agora ganha ainda mais sentido com a descoberta do envolvimento de chefetes midiáticos na lista de contas no HSBC suíço.

Tendo em vista o porte do empreendimento, mobilizar 1% do eleitorado nacional chega a soar um tanto irrisório. Mesmo entre os 51 milhões de eleitores de Aécio Neves, uma fração mínima saiu às ruas. Claro que, na condição de promotora do espetáculo, a imprensa vai exagerar seus resultados, conferindo grandiosidades inéditas ao feito, sem esmiuçar os outros detalhes que também o tornaram único na história recente.

Mas é a simbologia do episódio que deveria preocupar o governo Dilma Rousseff. Repetindo março de 64 (e a coincidência nas datas não é casual), os agressores querem evitar que o Planalto supere a crise política através de medidas radicais que aglutinem as bases populares. Basta um leve sinal nesse sentido e a mídia joga o “apelo das ruas” sobre o Congresso, na forma do impeachment.

A mensagem é muito clara e preocupante para receber apenas discursos apaziguadores e promessas vazias. A não ser que Dilma tenha desistido de enfrentar seus adversários.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Quem se beneficia com os protestos?

















As manifestações previstas para 15 de março foram promovidas sistematicamente pela grande imprensa. Grupos obscuros da direita antidemocrática receberam dos veículos uma visibilidade que movimentos sociais representativos jamais desfrutaram.

Grandes empresários financiam a propaganda dos atos nas redes sociais e até em panfletagens de rua. Suas corporações estão envolvidas com parlamentares, governantes, instituições bancárias e especuladores financeiros.

O PSDB e agregados mobilizam recursos humanos, técnicos e econômicos na realização dos protestos. A tese golpista do impeachment sempre teve apoio do tucanato, para desestabilizar o país visando benefícios eleitoreiros.

Eis os interesses que patrocinam as manifestações. Elas não são gestos espontâneos da sociedade, mas eventos realizados por entidades poderosas que instrumentalizam o ressentimento antipetista e a desinformação de setores do público.

Se visassem a corrupção, os protestos também exigiriam as renúncias de Geraldo Alckmin e José Serra, por conta das máfias metroviárias paulistas.

Se respondessem à incompetência administrativa, culpariam Alckmin pelos inúmeros problemas de São Paulo e Beto Richa pelo caos no Paraná.

Se defendessem a moralidade, atacariam FHC, que teve a reeleição comprada e nomeou Renan Calheiros ministro da Justiça; Aécio Neves, que construiu um aeroporto nas terras de sua família; e Eduardo Azeredo, envolvido com o mensalão mineiro.

As passeatas organizam-se de maneira nebulosa e reivindicam pautas manipuladas. Os vícios talvez não anulem sua legitimidade, mas revelam a natureza partidária e maliciosa de uma iniciativa que se apresenta como idônea e republicana.

Quem participa desse teatro imaginando promover melhorias para o país é apenas inocente útil a serviço de cínicos.  Incapaz de perder uma eleição com dignidade, a direita brasileira continua precisando de marchas familiares para ganhar relevância.

segunda-feira, 9 de março de 2015

A “Lista de Janot” é uma farsa

 















O rol de políticos indiciados pelo Ministério Público segue critérios incoerentes e partidarizados. Houve nítida condescendência com o PSDB, tanto na exclusão de Aécio Neves quanto no recorte cronológico dos fatos a averiguar.

Aécio tem mais indícios contra si do que boa parte dos investigados. Também há diversas evidências de que os desvios na Petrobrás começaram pelo menos durante o governo FHC, mas só foram considerados suspeitos os personagens com atuação predominante no período petista.

Essa politização já desqualifica o trabalho dos promotores, que não existem para fazer médias e demagogias. Se eles decidiram seguir a opinião dos alcaguetes, que metessem todos os citados na ribalta, sem exceções. Se, por outro lado, queriam bases mínimas de credibilidade, selecionar fofocas é irresponsável e amadorístico.

Tudo começou na atuação do juiz Sérgio Moro, cuja seletividade ideológica esteve clara desde muito cedo. Ali foi desenhada a moldura antipetista da Lava Jato e seu “esquecimento” da origem tucana dos escândalos na Petrobrás.

Ainda que Rodrigo Janot e seus assessores tenham feito o possível com o tortuoso material que receberam, eles endossaram as manobras tendenciosas do Judiciário paranaense. E, pior, tentaram dar-lhe um aspecto falsamente pluripartidário que visa apenas salvaguardar a já combalida credibilidade do inquérito.

A farsa não reside, portanto, na lista em si. Ela advém do seu uso como símbolo midiático de uma pretensa luta contra a corrupção. É um slogan da velha escandalolatria jornalística para alimentar a rejeição popular contra a classe política, às vésperas dos protestos contra o governo federal. Tem a mesma natureza manipuladora do tal “panelaço” inventado pelos veículos oposicionistas.

Quando conhecermos a dimensão da mentira, Janot dirá que a culpa foi de Moro, que a jogará sobre os delinquentes, que terão sumido para saborear os restos de suas fortunas.

sexta-feira, 6 de março de 2015

“Ida”


















A fotografia em preto e branco é uma lição de narrativa visual. A composição dos quadros se altera segundo o arco emocional da protagonista, partindo de tomadas com grandes espaços sobre as figuras e chegando a planos fechados nos rostos e corpos.

A monocromia e a janela quadrangular (1,37:1) sugerem algo de “clássico” no tratamento, mas as referências terminam soando modernas e inventivas. Uma seria a plasticidade do cinema soviético do período retratado (década de 1960), especialmente nas lindas imagens de Marlen Khutsiev e demais autores de linhagem eisensteiniana. Outra leva aos primeiros trabalhos de Wim Wenders, marcados pelo rigor formal e pelo viés metalinguístico.

Agata Trzebuchowska brilha no papel-título, contida e expressiva ao mesmo tempo. A aridez do subtexto histórico (o nazismo) não afunda o filme no melodrama porque é abordada com sutileza e equilibrada pelo rito de passagem da protagonista.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Os números da crise
















Comentaristas afirmam que o índice de desemprego no Brasil é falso, maquiado pelas autoridades. Outros comparam a inflação daqui e de outros países, para “provar” que a nossa não está baixa.

Os sabujos só usam números oficiais quando corroboram a propaganda apocalíptica da crise. Os que a relativizam são desqualificados como tendenciosos.

Vale citar dados estrangeiros na crítica aos 7% do IPCA. Mas os 6% que põem o desemprego petista entre os mais baixos do mundo não merecem paralelos.

Somando tudo, o que sabemos sobre a crise econômica se resume ao que sabemos sobre a crise de credibilidade da imprensa corporativa.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Não em nome do Charlie Hebdo














Na disputa shakespeariana sobre ser ou não ser Charlie, a tragédia em Paris serviu como reforço argumentativo para versões curiosas da liberdade de expressão, convenientes a cada grupo ou setor produtivo. Depois de tudo que se escreveu, resta a sensação de que esse conceito ficou ainda mais fragilizado e inatingível.

Sempre haverá espaço para discutir se o conteúdo veiculado pela publicação francesa abarca preconceitos religiosos. Mas nenhum cartunista do mundo tem obrigação de agradar sensibilidades. A manifestação criativa, principalmente nos campos da ficção, do opinionismo e do humor, não pertence à esfera polêmica. É soberana, imprescindível para a própria existência de um debate acerca dos seus produtos.

A idéia de que os cartunistas se excediam, além de admitir um inaceitável subtexto punitivo, implica o falacioso pressuposto de que eles estariam sujeitos a certas barreiras de ordem moral. Esse equívoco ajuda a contrabandear temas alheios à questão das liberdades individuais, submetendo-a ao mesmo relativismo autoritário que embasa, por exemplo, o cerceamento do dissenso político.

O uso impositivo da correção ideológica gera vias disfarçadas de arbítrio. Apesar dos jargões igualitários, as patrulhas do bom gosto, da decência e do “respeito” exercem uma forma de censura equivalente a qualquer outra. Deixam de valorizar as diferenças no momento em que estas se tornam incômodas: a democracia é positiva, desde que suas consequências não me desagradem.

Mas a responsabilização dos assassinados pelo menos ajuda a marcar posições claras. Muito pior é a apropriação oportunista e cínica do mote libertário. Alguns dos maiores inimigos da liberdade de expressão, especialmente governos e corporações midiáticas, usam o massacre para dissimular suas práticas coercitivas nas disputas que travam ao redor do tema.

Entre os aliados póstumos das vítimas há pessoas que defenderam a prisão do humorista francês Dieudonné. O veto a biografias não autorizadas. Os processos contra blogueiros que ridicularizaram o chefete da Rede Globo. A perseguição a quem ousa satirizar a sacrossanta Folha de São Paulo. A campanha contra o marco regulatório das telecomunicações. A difamação impune de adversários eleitorais.

O extremismo islâmico serve como antípoda legitimador dos interesses conservadores, tão hábeis em repetir discursos democráticos quanto em sufocá-los. Isso explica a rápida apropriação simbólica do massacre pelo mote institucional da “liberdade de imprensa”. O sentido prático dessa liberdade fica para os tribunais determinarem.

Charlie Hebdo virou ao mesmo tempo bode expiatório e mártir de uma cultura intolerante e repressiva que no fundo execra tudo que os cartunistas representam.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A brutalidade














O noticiário mentiroso sobre os confrontos envolvendo apoiadores e adversários do governo federal possui dois níveis de significado. O mais evidente é a tentativa de “venezuelização” do cenário político brasileiro. Mas a aparência esconde outro objetivo danoso.

A brutalidade nivela por baixo os antagonismos, despolitizando suas naturezas. Afugenta assim a militância de formação técnica e cultural mais sólida, que poderia denunciar as vulgaridades do antipetismo. Sem contrapontos intelectualizados, a oposição reconstrói o discurso único veiculado pela imprensa.

O surgimento desses baderneiros às vésperas do protesto marcado para março não é gratuito. O governismo não pode recuar às ameaças, mas tampouco partir para um enfrentamento que só interessa aos reacionários.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Margem de manipulação
















A CPI das Pesquisas Eleitorais tem jeito de tapete levantado para esconder o tema definitivamente. A gritaria dos institutos, ecoada nos veículos que os apoiam, pauta os debates eventuais, desviando o foco dos verdadeiros problemas da questão.

O apelo do “direito à informação” é diversionismo esperto. Tratar pesquisas como “informação” relevante pressupõe uma exatidão que nem mesmo seus maiores defensores apregoam. E informações podem ser checadas, ao contrário de vereditos parciais sobre a vontade dos cento e tantos milhões de eleitores.

Se fosse possível afirmar “Fulano sobe e empata com Cicrano”, todos os levantamentos deveriam gerar dados parecidos. A admissão de que a menor diferença metodológica pode refletir nos índices já retira o caráter “factual” da estatística.

Por isso o questionamento às pesquisas não envolve a sua distância dos resultados das votações. Apenas os institutos fazem essa associação, fingindo-se de tolos. O problema dos levantamentos é a discrepância eventual que apresentam entre si: aqueles números inexplicáveis que distorcem o cenário geral e viram factoides propagandísticos.

A CPI ganharia utilidade pública entrevistando matemáticos independentes, reconhecidos no meio acadêmico, visando sistematizar regras para a realização e a apresentação das pesquisas. Em duas ou três sessões o TSE perderia o pretexto da incompetência para omitir-se diante da manipulação dos institutos.