sexta-feira, 31 de outubro de 2014

“Relatos selvagens”






















Um prólogo e mais cinco histórias autônomas, unidas apenas por enredos centrados em situações de irracionalidade nas quais afloram diversas formas de vingança. É difícil escolher o melhor, mas tenho particular identificação com o episódio protagonizado por Ricardo Darín.

Os irmãos Almodóvar deixam marcas na produção caprichada e no apuro da fotografia tecnicamente desafiadora. Mas todo mérito do filme cabe a Damián Szifrón, autor do excelente roteiro, que também o dirige com precisão cirúrgica, extraindo comicidade das situações mais embaraçosas e trágicas.

O modo como força os limites do hiper-realismo até resvalar no surreal, embora jamais enveredando pelo caminho do absurdo, revela grande talento dramático.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O voto da Sabesp






















É uma enorme bobagem creditar a vitória de Dilma Rousseff a certas regiões do país. O chute não tem base estatística e só serve para alimentar revanchismos e preconceitos. Qualquer conjunto de três milhões de votos, mesmo sem afinidades entre eles, pode estar na origem da vantagem final da petista sobre Aécio Neves.

A maior estupidez da divisão bicolor do mapa eleitoral é sugerir que a vitória de um candidato desintegra a votação do adversário no mesmo lugar. Aécio teve oito milhões de votos no Nordeste. Dilma reuniu cerca de 34 milhões de votos fora dali. Ou seja, 63% do eleitorado da petista não vivem naquela região.

Mas a simplificação também atende a conveniências partidárias: jogando a culpa nos outros, o tucanato paulista pode esquecer os 8,5 milhões de conterrâneos que preferiram Dilma nas terras secas de Geraldo Alckmin. Ela cresceu 2,5 milhões de votos em relação ao primeiro turno, a metade da votação recebida por Marina Silva no estado.

A dianteira nacional da petista ficou bem próxima do seu avanço em São Paulo. Considerando que essa guinada ocorreu durante a descoberta do estelionato hídrico da Sabesp, fica fácil entender por que os analistas insistem no fantasma nordestino.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vitória
















A reeleição de Dilma Rousseff ganha importância histórica das próprias forças que se uniram para impedi-la. O conluio de setores do Judiciário, da mídia corporativa e do mercado financeiro aglutinou tamanhos poderes contra a petista que o resultado das urnas possui algo de consagrador e até de verdadeiramente heroico.

A vantagem apertada não arranha a importância do feito. Num cenário de mínimo equilíbrio institucional não teríamos segundo turno, mas essa hipótese era remota desde o início. Mesmo as oscilações da campanha tiveram sua cota de previsibilidade.

Comentários afoitos e partidários serão veiculados nas próximas semanas. É hora de especulação, de rancor e de vingança. Os analistas da imprensa tucana precisam justificar de alguma forma os salários que pagam suas previsões equivocadas.

A histeria repugnante que borbulha nas redes virtuais tentará transformar o antagonismo eleitoral numa cizânia de classe e de região, com arroubos xenófobos e talvez racistas. A exposição ao ridículo, o isolamento e eventuais medidas jurídicas ajudarão a aplacar os extremistas. Confrontá-los só alimenta sua ilusão de importância.

Não termina aqui, portanto, a tarefa da militância. A ela cabe equalizar a festa merecida com a prudência necessária para manter o clima civilizado da sucessão. Há muito, muito trabalho pela frente, e não convém gastar energia toureando ressentidos.

Restam diversas questões a debater sobre a campanha finda e o próximo governo. Pretendo contribuir com esses temas pontuais, à medida que os dados e as análises ficarem mais claros e sólidos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Dilma contra a baixaria

















Merecem risos de escárnio as acusações de que a disputa eleitoral ficou manchada pelo “jogo sujo” da campanha petista. É exatamente o contrário.

Dilma Rousseff sofreu, desde muito antes do primeiro turno, um bombardeio de ataques inescrupulosos. As mentiras sobre a Copa do Mundo (não, não nos esquecemos) e o espetáculo das acusações infundadas foram apenas dois de muitos exemplos da malícia desses mesmos veículos e comentaristas que hoje posam de perplexos.

Só Aécio Neves desfruta do apoio de uma revista de circulação nacional que espalha calúnias sobre seus adversários. Só ele tem a seu lado uma rede hegemônica de televisão que reverbera aqueles crimes eleitorais em horário nobre.

O discurso do antipetismo compartilha diversos enunciados com os discursos fascistas tradicionais. Basta analisar o tratamento negativo dado ao PT e a sua militância nas redes sociais e compará-los com léxico semelhante nas manifestações contra judeus, negros, homossexuais, etc. Aécio repetiu esses jargões cotidianamente.

A propaganda tucana, além de preconceituosa e autoritária, embute falsificações irresponsáveis. A mais grave delas é falar em “libertação” (“dessa gente”), como se o país vivesse um simulacro de ditadura; como se, aliás, não fosse Dilma a candidata que mais sofre com o partidarismo do Judiciário.

Até onde lembro, foi a polícia de Geraldo Alckmin (PSDB) que espancou manifestantes no ano passado.

Outra mentira muito cômoda é justamente a falácia da baixaria, que tenta associar a petista à sujeira dos seus adversários. Não há limites para o excremento verbal atirado em Dilma. Se ela reage, no entanto, vira terrorista.

Assim transcorrerá a campanha até domingo. A militância petista precisa ter em mente que a baderna e a agressividade são favoráveis aos eleitores de Aécio Neves. No mínimo porque extravasa a ansiedade e talvez a frustração que eles sofrem no momento. No máximo porque ajuda a melar um jogo perdido.

A grandeza simbólica de uma eventual vitória de Dilma Rousseff será proporcional à imbecilidade dos seus oponentes.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O caráter de Aécio Neves

 

















Em 2009, Juca Kfouri afirmou que o então governador Aécio Neves teria agredido uma mulher no Rio de Janeiro. O jornal Hora do Povo repercutiu o caso em primeira página. A coluna de Joyce Pascowitch relatou o episódio, ocultando seus protagonistas.

Todos foram desmentidos, mas não houve recuos, tampouco investigações profundas. E Aécio reagiu de maneira um tanto acanhada, para alguém que processa jornalistas e blogueiros por divergências bem menos contundentes e objetivas.

Ele foi acusado de dar um tapa no rosto da sua acompanhante, numa festa de luxo, na presença de vários convidados, e ficou satisfeito com uma declaração à imprensa?

Qualquer inocente na mesma situação processaria os mentirosos. Com a influência e os recursos que tem, Aécio ganharia fácil uma ação judicial contra ilações desse teor. E reverteria o constrangimento posando de vítima indignada.
           
Sempre tive receio de abordar a vida íntima dos políticos. Os boatos sobre as supostas dependências químicas de Aécio, apesar da verossimilhança dos flagrantes, me parecem meio levianos. Estão muito próximos das apelações reducionistas que a própria direita usa para conquistar adeptos no farisaísmo generalizado.

Por outro lado, há certas prerrogativas da privacidade que deixam de valer para pessoas que escolheram a vida pública. Não acho que Aécio fugir do bafômetro seja irrelevante. Dirigir sob efeito de álcool ou com a carteira de habilitação vencida é atitude inaceitável para um senador.

Semelhante barreira moral deveria prevalecer contra sujeitos descontrolados e covardes que estapeiam mulheres. Por que não acontece? A sociedade brasileira é tão machista e permissiva que toleraria esse tipo de conduta num pretendente ao maior cargo executivo do país? O antipetismo suplanta qualquer limite civilizado?

Não se trata de simples questão doutrinária. Enquanto a corrupção domina os debates eleitorais, soa incoerente fazer vistas grossas para os repertórios de valores dos candidatos. Se o caráter de um indivíduo não tem importância, jamais deveríamos nos revoltar com as suas atitudes. Agressão física, diga-se de passagem, é crime.

Recusar essa discussão como “jogo sujo” ou “baixaria”soa desonesto e irresponsável. O problema da violência contra a mulher é grave demais para receber meras insinuações anedóticas ou para sucumbir à verborragia programática. O tema exige esclarecimento incontroverso, pouco importando o status e o poder dos envolvidos.

Diante do partidarismo da mídia, porém, resta-nos votar imaginando que os defeitos de Aécio não atingem esse nível. Pois a chance de termos um agressor de mulheres como presidente da República é tão revoltante que chegamos a torcer para que tudo não passe de uma fofoca irresponsável. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Golpe eleitoral



















A tentativa de atingir a candidatura Dilma Rousseff com as investigações sobre a Petrobrás é escandalosa. Não há pretextos éticos, informativos ou judiciais para a divulgação dos depoimentos de réus confessos que influem numa campanha eleitoral e que só poderão ser confirmados ou desmentidos após o fim da disputa.

O argumento de que o episódio ajuda a moralizar a vida pública brasileira oscila entre a estupidez e o cinismo. Esse ímpeto saneador atinge apenas os interesses do PT. Sequer arranha a estrutura da corrupção generalizada, pois se resume a selecionar bodes expiatórios que incriminem adversários políticos ocasionais em troca de penas brandas.

Aconteceu no julgamento do chamado mensalão. Sob a nefasta liderança de Joaquim Barbosa, o STF atropelou ritos e doutrinas para condenar petistas, enquanto os acusados tucanos receberam benefícios equivalentes à impunidade. Os fariseus aplaudiram o rigor dos ministros, mas “esqueceram” a origem do esquema no reduto de Aécio Neves.

Os papéis que supostamente incriminariam José Serra na máfia das Sanguessugas sumiram depois de aniquilarem a candidatura de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo. A mídia não ouviu os irmãos Vedoin, testemunhas-chaves daquele episódio, mas agora dedica espaço nobre a Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef.

Tampouco houve espírito investigativo dos bravos repórteres diante das denúncias do livro “A privataria tucana”, que ligam o enriquecimento de familiares e amigos de Serra às vendas de estatais pelo governo FHC. A obra contém documentos de acesso público, disponíveis aos mesmos curiosos que hoje reverberam as bravatas de Costa e Youssef.

E por que ninguém assedia os envolvidos na máfia do metrô paulista, que vigorou por três governos do PSDB no estado? Como explicar que o inquérito de apenas oito meses sobre a Petrobrás receba tamanho destaque, mas os cartéis metroviários, conhecidos há pelo menos seis anos, continuem secretos? Cuidado para não causar injustiças?

O viés partidário da imprensa corporativa e de certos magistrados talvez seja inerente às suas atividades. Mas o uso do poder institucional visando objetivos eleitorais tem a marca histórica do golpismo. Toda ação antidemocrática nasce em organismos legítimos da sociedade e instrumentaliza pautas republicanas para fins espúrios.

Os discursos que insuflam o antipetismo (corrupção, baderna, aparelhamento) atualizam a propaganda anticomunista de 1964. Os mesmos veículos que na época aplaudiram os militares encabeçam a histeria desmoralizadora contra o governo federal. Novamente com apoio de setores do Judiciário, do capital financeiro, da classe média conservadora.

A preferência dessas forças autoritárias por Aécio Neves confere sentido muito especial à luta para vencê-lo. E transforma seus apoiadores em cúmplices do arbítrio, do cinismo e da manipulação que o favorecem.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O voto limpinho


O Tribunal Superior Eleitoral proibiu as campanhas de veicular material negativo sobre os adversários. Sob a ótica da disputa, essa medida beneficia apenas Aécio Neves. Os ataques a Dilma Rousseff continuarão, diariamente, na mídia corporativa. Censuradas na propaganda petista, as denúncias contra o tucano desaparecerão.

Canetada esperta: empurra os debates para terreno favorável ao discurso novidadeiro do candidato de FHC. Tudo que Aécio precisa agora é limpar sua imagem dos podres que escancaram a falsidade da “mudança” que a torna palatável.

A campanha dilmista poderia aproveitar a piada inevitável da mordaça “propositiva”. Talvez defendendo uma legislação que impeça a candidatura de ex-governadores que usaram dinheiro público para instalar aeroportos nas terras de suas famílias. E outra lei cassando mandatos de legisladores que fogem do bafômetro.

Mas falando sério. Algo está muito errado quando magistrados interferem na pauta eleitoral, mudando as regras no meio do processo. Pior ainda quando o fazem para calar informações relevantes sobre a índole de alguém que tenta ser presidente da República.

Se o nepotismo e a irresponsabilidade (e a hipocrisia e o passado nebuloso) são detalhes insignificantes de um candidato, qualquer mandrião pode chegar ao Planalto. Basta que o sacrossanto Judiciário impeça os eleitores de conhecerem o bandido que os engana.

A sucessão transcorre muito bem, portanto, de forma igualitária, justa e equilibrada.

sábado, 18 de outubro de 2014

“Stay with me”



The Faces: Ron Wood (guitarra), Rod Stewart (vocal), Ronnie Lane (baixo), Ian McLagan (teclado) e Kenney Jones (bateria).

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

“O homem mais procurado”






















Uma das últimas chances de ver o soberbo Philip Seymour Hoffman em ação. Exemplo raro de filme de espionagem contemporâneo que não trata o espectador como imbecil. Tem algo da correção política de “O fundamentalista relutante” (Mira Nair, 2012) e flerta com o universo de “O espião que sabia demais” (Tomas Alfredson, 2011), sem a mesma elegância deste.

O diretor, Alan Corbijn, é respeitado no universo musical. Na ficção, dirigiu um ou dois trabalhos que apreciei. Aqui, mantém o registro ágil e naturalista, permitindo que o ótimo elenco garanta o resultado.

Tudo pode parecer meio gratuito até o final, mas o desfecho suscita boas reflexões sobre o caráter e os métodos do protagonista. Então as coisas começam a fazer sentido.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Os paulistas vão punir o estelionato do PSDB?

















Confirmando os anúncios gritados pelos impertinentes ao longo da campanha, está faltando água em todo o estado de São Paulo. Geraldo Alckmin reelegeu-se prometendo que isso não aconteceria. Racionamento era coisa do terrorismo petista.

E agora? A mentira irresponsável do governador já é suficiente para uma reação do eleitorado paulista?  Ou este vai continuar acreditando que a Sabesp não tem nada a ver com a falta de planejamento que levou ao colapso?

Houve um tempo em que até os nevoeiros de Curitiba entravam para a conta do “caos aéreo” do PT. Uma torre danificada por raio sinalizava um terrível “apagão”. Agora é tudo por causa do calor e da falta de chuva. Que singeleza.

Mas ainda podemos cobrar uma parte da fatura do logro. O candidato a vice de Aécio Neves é o paulista Aloysio Nunes Ferreira, ligado à cúpula tucana de São Paulo. E Aécio recebe o apoio da imprensa local, que fez vistas grossas para os descalabros administrativos de Alckmin, inclusive endossando a patranha de que a água não faltaria.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Só vale se for pro Aécio















Na imprensa tucana, a liberdade de expressão depende da anuência do chefe. O colunista Xico Sá acaba de ser impedido pela direção da Folha de São Paulo de manifestar apoio a Dilma. Pediu demissão.

O pretexto para a censura é tosco: um veto a “proselitismo eleitoral” contido no Manual de Redação. Fala sério. Na Folha? Os colaboradores regulares do jornal fazem apologia aberta dos adversários do governo federal, todos os dias, há meses. E agora alguém se lembrou de “neutralizar” o opinionismo do diário?

A Folha deve estar cheia de petralhas comunas cerceadores do direito à manifestação.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Direitos em marcha a ré


A partir de 1º de outubro, o transporte coletivo de Campinas deixou de aceitar pagamentos em dinheiro. O usuário agora deve estar cadastrado no Bilhete Único ou possuir cartões avulsos, disponíveis em pontos comerciais da cidade.

Trata-se de grave desrespeito ao interesse público. O cidadão amargará diversos prejuízos e contratempos sem receber vantagens equivalentes. Apesar da retórica falsamente inclusiva das autoridades, tudo se resume a permitir que as concessionárias melhorem sua arrecadação, cortem gastos e se livrem de malfeitores.

A mudança é flagrantemente ilegal. Segundo a Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), o transporte configura “prestação de serviços” (artigo 3), que se faz obrigatória sob imediata remuneração em dinheiro, independente da compra de outros bens (artigo 39). O mesmo artigo veda onerar o custo das passagens de forma desigual, ainda que temporária, como ocorre na cobrança pelo suporte físico do bilhete (sintomaticamente apelidado “casco”).

O transporte público recebe estatuto de “serviço essencial” na Constituição Federal (artigo 30), configurando o chamado direito-meio, fundamental para o exercício das demais prerrogativas básicas de cidadania. Essa condição jurídica presume que o uso de ônibus urbanos deve ter caráter permanente, universal e soberano, acima de condicionantes econômicas, materiais ou burocráticas.

A medida também esbarra em sérias barreiras práticas para usuários eventuais. Idosos, portadores de necessidades especiais e gestantes enfrentam distâncias absurdas para comprar os cartões avulsos, correndo o risco de não encontrá-los. E não se trata apenas de visitantes de outras cidades. Basta imaginar o morador da periferia que precisa de atendimento médico emergencial numa noite de domingo.

Para ter mínima eficácia e natureza verdadeiramente “modernizadora”, a mudança exigiria a venda automática de bilhetes em todos os pontos de ônibus. Aliás, já que o suposto modelo do novo sistema vem de países desenvolvidos, precisaríamos também desfrutar de veículos asseados, pontuais e numerosos. Mas tamanhos avanços demandariam uma capacidade administrativa que o governo Jonas Donizete (PSB-PSDB) não exibiu nesse triste episódio.

Por que o Procon, o Tribunal de Contas do Município e o Ministério Público não se posicionam a respeito? Esperam a primeira morte causada pela falta de um mísero pedaço de plástico? Ou o fim do período eleitoral já conseguirá despertá-los?

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

“Garota exemplar”






















David Fincher é cineasta acadêmico, mas isso apenas evidencia a sua competência narrativa. Ele desenvolve a estética de cada filme a partir das exigências do texto, interferindo o menos possível no resultado. Não por acaso, costuma trabalhar com obras literárias fortes e célebres.

Em “Garota exemplar”, a fidelidade ao romance original resulta num curioso exercício de gênero: os diferentes estilos se sucedem, a partir de transições e reviravoltas, e nunca parecem forçados. Citar as referências estragaria um pouco das surpresas, mas elas existem e são conduzidas com a segurança e o cuidado técnico habitual em Fincher.

Reflexões sobre a mídia, o casamento, as fantasias sociais, o egoísmo e talvez algum outro tema contemporâneo de amplitude impossível. Sem esperar (ou conhecer) muita coisa, é ótima diversão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Aécio é a nova Marina



















Publicado no Brasil 247

O exagero em torno da “surpreendente” votação de Aécio Neves amplifica o modesto triunfo de superar Marina Silva, candidata frágil e sem estrutura partidária. Também contribui para ofuscar a vexatória derrota do ex-governador em Minas Gerais.

Repetindo o “furacão Marina”, a grande imprensa agora constrói um Aécio de mitologia esportiva, lutador incansável e habilidoso que dribla obstáculos rumo ao pódio. Os discursos da superação e da virada substituem o da esperança novidadeira que há pouco dominava as referências à pessebista.

Com Aécio, os analistas voltam a supervalorizar a força da sua candidatura preferida. É o mesmo autoengano que fez de Marina a salvadora da oposição, dando-lhe um favoritismo ilusório que no final das contas só a prejudicou.

Os 33% do mineiro foram inesperados apenas sob a ótica das pesquisas. É o aporte histórico do oposicionismo nos anos petistas, que oscilou na direção de Marina e retornou a Aécio no embalo das definições estaduais, particularmente em São Paulo. O cenário atual parece o de 2006, quando Lula venceu José Serra com certa facilidade.

Há um desmesurado respeito pela dianteira paulista de Aécio. A vantagem de Dilma no Nordeste foi duas vezes maior. A base federal elegeu governadores em 10 estados, acumulando 15 milhões de votos que podem migrar dos vencedores para Dilma. O PSDB recebeu o mesmo contingente em São Paulo e no Paraná, mas só ganhou ali.

A estratégia petista acertou ao favorecer um segundo turno contra Aécio. Ele não é tão competitivo quanto Marina seria. A sombra dos anos FHC, o repertório escandaloso dos tucanos e os episódios constrangedores do próprio candidato fornecem um volume de material negativo que jamais teria equivalente na ex-senadora. Os vídeos em que Aécio figura, digamos, confuso, ilustram o tamanho do problema.

A polarização PT x PSDB favorece Dilma. Primeiro graças à comparação entre os governos federais de ambos os partidos. Segundo porque, neutralizado o cabo-de-guerra da corrupção, os tucanos são associados a plataformas impopulares (privatizações, desemprego, arrocho) que o eleitor repudia de forma quase inercial.

O apoio formal de Marina soa irrelevante. Nem mesmo as poucas centenas de sinceros adeptos da Rede migrarão para Aécio automaticamente. Boa parte da militância do PSB simpatiza com o lulismo ou repudia a herança do PSDB. Esse grupo é bem maior do que um terço dos votos que Marina recebeu, parcela suficiente para eleger Dilma.

Não se trata de amenizar as dificuldades do PT, mas de impedir que seus militantes incorporem o alarmismo da mídia tucana. Sabíamos desde o início que a disputa final seria acirrada, e contra esses adversários. A imprevisibilidade histérica é uma criação propagandística para moldar a campanha ao perfil de Aécio Neves.

O factoide sedutor da novidade ruiu com Marina e desmoronará também com Aécio. Basta a coordenação petista seguir o roteiro combativo das eleições passadas. Não há razão para pessimismo. Não, pelo menos, entre os adeptos de Dilma Rousseff.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Marina perdeu para si mesma














O declínio da candidatura Marina Silva era lógico e previsível. A maioria das avaliações precipitadas que sucederam à morte de Eduardo Campos ignoraram as óbvias fragilidades políticas e os imensos desafios estratégicos que terminariam minando a campanha da pessebista.

O grande erro da candidata e de seus apoiadores foi tratar as contradições da “terceira via” eleitoral como simples intriga baixa dos adversários. Em vez de construir um modelo administrativo sólido, preferiram remendá-lo. A metamorfose neoliberal foi substituída pelo ramerrão da vítima indefesa. A novidade perdeu o encanto e passou a incomodar.

A derrota de Marina teve pouco a ver com jogo sujo dos concorrentes. Sua propaganda foi a que mais bateu nos outros, segundo levantamento da própria Folha de São Paulo. Aliás, o discurso obsessivo da corrupção generalizada na Petrobrás e as tentativas de desdizer compromissos públicos são típicos da apelação populista.

Marina sucumbiu ao amadorismo dos seus próprios assessores pessoais. A simples presunção de que uma senhorinha vulnerável e sem partido seria capaz de vencer as máquinas do PT e do PSDB revela uma ingenuidade que não está à altura do cargo pretendido.

O leitor que foi ludibriado pelo otimismo dos analistas acerca de Marina deve jogá-los no lixo da incredulidade eterna.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A vanguarda do atraso






















As preferências do eleitorado paulista desmoronam a ilusão civilizatória e modernosa do estado mais rico do país. As prováveis vitórias de Geraldo Alckmin (governador) e José Serra (senador) atestam uma cegueira política e uma ruína de valores incompatíveis com o orgulhoso imaginário local.

Apenas o antipetismo exaustivamente fabricado pela mídia é incapaz de explicar esse fenômeno. Alckmin enfrenta o manhoso peemedebista Paulo Skaf como adversário direto, e o concorrente de Serra, Eduardo Suplicy, tem uma trajetória muito própria, às vezes contrária aos interesses do PT.

O que mais chama a atenção, contudo, é a fragilidade potencial dos tucanos.

Alckmin submergiu num lamaçal de escândalos de corrupção, promessas malbaratadas e colapsos estruturais. Sua incompetência administrativa resultou na maior crise da história das universidades estaduais e na brutalidade da Polícia Militar, chegando ao cúmulo de causar um racionamento de água.

Serra, o mártir da bolinha de papel, figura antipática e autoritária, acumula participações em tenebrosos enredos da crônica política nacional. O suposto envolvimento na máfia das Sanguessugas e as gravíssimas denúncias do livro “A Privataria Tucana” já bastariam para alimentar uma avassaladora rejeição ao candidato.

A eleição de ambos representaria uma vergonha histórica para o povo de São Paulo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Todos com Marina















Publicado no Observatório da Imprensa

A figura pública de Marina Silva foi longamente construída para transformá-la em candidata presidencial. Apesar dos esforços despendidos, houve quem duvidasse do projeto. As teimosias da ex-senadora afastavam apoios de amplo espectro, resultando numa base partidária pequena, esparsa e amadorística. As trapalhadas no registro da Rede e a submissão aos planos do PSB deixaram-na em posição secundária, consolidando o indigesto Aécio Neves na disputa.

Papel ingrato, pois nem os bastidores tucanos acreditavam nas pretensões do mineiro. O escândalo do aeroporto e o estranho incêndio na prefeitura local agravaram problemas de imagem que já seriam difíceis de neutralizar numa disputa nacionalizada. Com pouco tempo de propaganda, lutando em duas frentes, rejeitado por setores do próprio PSDB, Aécio teve dificuldade até para equacionar os apoios regionais que lhe faltavam.

Há tempos o meio político sabe que Marina representa a única alternativa capaz de aglutinar o antipetismo no segundo turno. Eduardo Campos frustrava essa expectativa, pois sua trajetória tinha natureza demasiado regional e oligárquica. Além disso, apesar da hipocrisia póstuma dos novos admiradores, Campos era visto com relutância pelo jornalismo corporativo, que temia sua guinada pró-governo durante a polarização na reta final da campanha.

Após a tragédia, Marina ressurgiu como a última esperança do oposicionismo. Seu programa dúbio de governo recebeu aplausos nos circuitos “especializados” e abriu as portas dos reticentes meandros do tucanato. O plano conservador agora é empurrá-la cada vez mais à direita, forçando os atritos com o PT ao nível da ruptura inconciliável, de maneira que seu eventual governo seja aglutinado pela antiga base de FHC.

Essa estratégia aposta na demonização da campanha dilmista para chocar os setores indecisos do eleitorado e para radicalizar os apoiadores de Marina. Mas é importante lembrar que a reação contra o “terrorismo do PT” só veio quando as críticas à candidata se mostraram eficazes. Depois de passar meses pregando o voto antipetista (“vamos protestar em outubro”) e tolerando os ataques pessoais a Aécio e a Dilma, o bondoso comentarismo não suporta a desconstrução da fantasia messiânica da terceira via.

Que ninguém se engane, portanto, com a falácia de que Marina é vítima de jornalistas tucanos. Essa ideia não sobrevive a uma análise do noticiário ou, principalmente, das colunas de opinião. Aliviados em dispor de um favorito competitivo, certos autores mandaram os escrúpulos às favas e passaram a fazer campanha aberta pela candidata dos sonhos. Os textos recentes de Eliane Cantanhêde na Folha de S.Paulo, por exemplo, são legítimas peças publicitárias de mobilização marinista.

Em época propícia a comparações dolorosas, eis um ponto que Marina compartilha com Fernando Collor e FHC: o vigoroso apadrinhamento da grande imprensa. Daí, podemos abstrair tantas outras semelhanças constrangedoras. Inclusive a tentativa de ocultá-las.