segunda-feira, 27 de julho de 2015

Pândega

 












O esforço de setores da imprensa para diminuir o rendimento brasileiro nos Jogos Pan-Americanos ilustra como o rancor político sobrepuja até mesmo as causas mais nobres e incontroversas.

Que defensores da popularização do esporte podem menosprezar as conquistas de atletas que se sacrificaram horrores para aqueles breves momentos de glória?

Não vale a pena esmiuçar as inúmeras mentiras e distorções usadas nas bobagens vira-latas. A própria ênfase no número de medalhas (e no de pódios, de ouros, etc) contraria qualquer esforço analítico minimamente sério sobre o tema.

O importante aqui é lembrar que os ataques às conquistas do Pan visam atingir a imagem do governo federal petista, o maior sustentáculo do nosso esporte olímpico, além de viabilizador dos Jogos de 2016.

Dinheiro público sim, e bem aplicado. Mas isso os sabujos não podem saber, pois seu modelo de eficácia é a seleção mafiosa da CBF.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Samba"






















Drama simpático dos mesmos autores do grande sucesso “Intocáveis”. Dali também reaparece o excelente Omar Sy, que, com Charlotte Gainsbourg, constitui o maior atrativo do filme.

Houve alguma resistência da crítica à abordagem da realidade do imigrante na Europa. Mas esse tratamento não invalida a proposta de tratar um tema difícil com leveza e até otimismo.

E, nestas paragens provincianas, é salutar um passatempo que lembre os espectadores das massas anônimas e exploradas do paraíso turístico europeu. Principalmente agora, uma década após o fuzilamento de um brasileiro inocente pelos impolutos cossacos britânicos.

Essa lembrança dá um toque de involuntária complexidade a certo personagem, de resto bastante verossímil, que justifica a inclusão de Jorge Benjor e Gilberto Gil na trilha sonora.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O golpe ameaçado



















A desmoralização de Eduardo Cunha coloca os planos golpistas em cheque. Obrigada a afastar-se do seu testa-de-ferro, a oposição perde um atalho à maioria parlamentar que poderia derrubar Dilma Rousseff a qualquer momento. No mínimo, fica impedida de brandir esse privilégio.

Restam três alternativas aos viradores de mesa.

A primeira seria transformar Cunha numa versão apocalíptica de Roberto Jefferson, dedicada a causar o maior estrago possível no governismo. Essa via dificilmente sobreviverá ao isolamento gradativo do peemedebista, ao fisiologismo do baixo clero e à associação do impeachment com o ânimo vingativo de um suspeito.

A segunda hipótese exigiria que um tucano ou assemelhado se apresentasse como líder substituto da causa. Mas a falta de consenso no PSDB e o receio de assumir a vidraça da “crise” dificultam ações partidárias num plano arriscado e pretensioso demais.

Já a terceira saída reside em forçar iniciativas externas (TCU, Ministério Público, Judiciário) que transformem a deposição de Dilma num desdobramento inevitável da luta anticorrupção. Embora poderosa, a tática tem seus limites. O vergonhoso inquérito contra Lula, rechaçado até por juristas conservadores, mostra o perigo do atropelo judicial fortalecer suas pretensas vítimas.
           
Nas próximas semanas, por falta de uma opção sólida, o golpismo tende a combinar todas as estratégias citadas. Seus defensores se consolarão dizendo que preparam as manifestações de agosto, coroação da investida antidemocrática.

Mas a realidade parece bem menos favorável a eles. O recurso a vários estratagemas complicados denota fraqueza e, pior, falta de confiança num caminho viável rumo à deposição de Dilma. É muito desespero para um projeto dessa envergadura.

Se o governo e seus apoiadores conseguirem refrear a previsível histeria do golpismo ferido e acuado, até o final do ano o bicho definha e vira tapete.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Cotas em preto e branco

















Publicado no jornal Correio Popular

O triunfo das ações afirmativas de viés étnico-racial ocorreu em parte graças aos seus próprios adversários. Desde que eles incorporaram certas mistificações do repertório conservador (especialmente a ilusão da democracia racial brasileira) e desde que a imprensa corporativa moldou o debate segundo uma estratégia tola e oportunista de antagonismo ao governo federal, a causa cotista adquiriu uma relevância que sobrepôs os méritos intrínsecos da ideia.

Mas as cotas raciais não se tornam incontroversas apenas porque nos satisfazemos com a derrota do obscurantismo. Em situações de maior equilíbrio ideológico, poderíamos refletir sobre o destino dos estudantes pobres não beneficiados pelo mecanismo, as esferas legítimas para a construção de programas estatais de vasto alcance, as conseqüências de baseá-los na cor de pele, na genealogia ou mesmo na reparação de violências ancestrais e o efetivo papel das ações inclusivas no combate ao preconceito.

Muitos autores favoráveis às cotas fornecem respostas interessantes a esses dilemas. Por outro lado, nem todos os argumentos contrários partem de charlatões brancos e desonestos, mesmo quando se parecem com os proferidos pelos charlatões brancos e desonestos que imbecilizam a controvérsia. Porque ninguém precisa recorrer à estupidez de negar que a desigualdade está marcada racialmente para sugerir soluções que superem o caráter racial dessa desigualdade.

Acontece que o âmbito formulador das ações afirmativas foi contaminado pela fantasia de que o mundo se divide entre dois coletivos homogêneos, o dos sábios visionários defensores das cotas e o dos racistas ignorantes que as odeiam. Quem não quer fingir que pertence ao primeiro grupo e nem possui bile para gastar evitando a pecha do segundo prefere se afastar do debate.

Ficamos então condenados aos programas públicos que essa visão bipolar é capaz de construir. E nos satisfazemos com os inegáveis avanços sociais resultantes, mesmo que tenham origem pouco democrática. Isso talvez sirva em demandas momentâneas, mas é insuficiente para um projeto nacional duradouro e inclusivo de verdade.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sete a um de novo

 














No embalo das lucubrações envolvendo a goleada sofrida pela seleção brasileira de futebol, julgo interessante lembrar três textos da época.

O primeiro, “Depois do vexame”, aponta que o desastre não era apenas previsível, mas também causado pela cumplicidade da própria imprensa esportiva com a CBF.

O segundo questiona os exageros em torno do “Exemplo alemão”, que tiveram muito de subserviência e provincianismo.

O terceiro rebate “As mentiras que você ouve (e repete) sobre a Copa”. É importante para manter o ceticismo diante dos balanços que hoje a mídia faz do evento.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Quem é vítima de quem
















Publicado no Brasil 247

Os empresários presos pela operação Lava Jato afirmam que sofreram extorsão dos diretores da Petrobrás. Negando-se a pagar propinas, não conseguiriam exercer suas atividades e favoreceriam a concorrência, pois alguém sempre estaria disposto a aproveitar a malandragem. Embora deva ser descartada como justificativa ou atenuante do crime, a alegação fornece alguns tópicos proveitosos para análise.

Costumamos abordar o tema da corrupção entrincheirados numa fantasia de legalismo absoluto, mas essa postura é cômoda e ilusória. Cômoda porque nos permite condenar atitudes alheias usando critérios que deixamos de aplicar a algumas de nossas próprias decisões. E ilusória porque parte do pressuposto de que a observância irrestrita das normas é viável em certos ambientes.

O comodismo pode ser vislumbrado na violação cotidiana das normas de trânsito. É tristemente sintomática a tolerância que elas desfrutam na sociedade, mesmo em épocas de indignação moralista. Porém, se admitirmos diferenças de grau para certas irregularidades (que as tornariam “aceitáveis”), contrariamos a premissa da honestidade inflexível que enfia todo desvio no mesmo pacote condenável.

Já a ilusão advém da ignorância sobre o funcionamento das compras públicas. Quem participa de editais sempre depara com exigências comicamente restritivas para qualificação dos interessados. É comum haver preços vencedores que inviabilizam a observância das normas previstas ou que extrapolam margens razoáveis de lucro e despesas. Isso acontece em todos os níveis de governo, e diariamente.

A vitimização e o pragmatismo embasam o gesto irregular na vida em sociedade. A safadeza dos políticos justifica a sonegação de tributos, a impunidade alheia incentiva o ato lesivo e assim por diante. As esfarrapadas desculpas das empreiteiras transferem o raciocínio para uma escala gigantesca, mas, no domínio conceitual (ético, se preferirem), guardam a mesma simbologia de um automóvel parado em fila dupla.

Não é posição muito diversa daquela que afirma a inocência dos governantes tucanos que conviveram com a máfia dos cartéis metroviários. As gestões de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin foram vítimas do conluio malvado e, portanto, estão livres de qualquer consequência punitiva. Como se elas não tivessem os meios e a obrigação de fiscalizar a legalidade dos contratos e aditivos.

Eis por que a abordagem seletiva do escândalo da Petrobrás redunda em enorme desserviço à luta contra a epidemia da corrupção. Cria-se a fantasia de que os desvios são exceções localizadas no interior de um padrão honesto, dando à opinião pública o falso consolo de que basta prender meia dúzia de larápios para que o resto do sistema continue limpo. Em vez de questionar o silêncio das autoridades fiscalizadoras  perante décadas de falcatruas na estatal, o cidadão se contenta em saber que uns bodes expiatórios foram sacrificados para redimir a sua consciência infratora.

Boa parte dos ruidosos paladinos da moralidade que se horrorizam com a Petrobrás tem comportamento social muito parecido com o dos pagadores de propina. E usa idênticas justificativas canhestras para gozar as benesses do famoso “jeitinho brasileiro”. Todos são vítimas até que se prove o contrário.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O pão que Jô amassou














A guinada racional de Jô Soares mostra que o apresentador ficou assustado com o nível de imbecilização dos setores sociais que compõem seu público-alvo. Talvez porque se sinta responsável por essa patologia, o humorista quer preservar a própria imagem de vergonhas futuras que a insânia possa lhe causar.

As reações dos imbecis, mesmo que calculadas por Jô, mostram que a mudança veio tarde, como de hábito. Melhor seria ter evitado o problema, incentivando a moderação e o equilíbrio antes que seu programa televisivo se transformasse em palco de exorcismos reacionários. É impossível acreditar que ele não percebia o nível das inclassificáveis comentaristas que alimentavam (e continuam alimentando) a hidrofobia dos insones.

Isso não o faz merecedor de agressões, mas demonstra a irresponsabilidade de se brincar com o espírito fascista. Lamentar o rumo que as coisas tomaram pode ser um gesto digno, mas é também o menos proveitoso para o país.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Pessimismo desejoso

 












Basta um pouco de discernimento para saber que as peculiaridades políticas, históricas e econômicas tornam Brasil e Grécia incomparáveis. Pois então o que leva alguém a anunciar que o país se aproxima do colapso grego?

A questão pode ser apresentada de outra forma: no universo de palpiteiros diletantes que discutem economia como se fosse trama de novela, por que as previsões carregam um viés tão catastrofista, sem espaço para o meio-termo, a dúvida, a probabilidade?

Não me refiro (apenas) ao hábito de criticar o pacote do governo federal sem oferecer soluções alternativas. O problema central é usar o opinionismo de botequim para falsear a realidade, enganando o público de forma deliberada e sistemática.

Esquadrinhando o ramerrão do pessimismo, descobrimos apenas um mal disfarçado rancor antipetista. Ninguém quer discutir economia com sensatez e base técnica, mas apenas culpar Dilma Rousseff e Joaquim Levy por todos os males da nação.

Demissões, negativas de crédito, atrasos em obras municipais e estaduais, falência de clubes de futebol, falta d’água, desrespeito ao consumidor, não há problema localizado que os sabujos deixem de jogar na conta do governo federal.

A esquizofrenia dos argumentos revela sua malícia. Defensores do Estado mínimo cobram do Planalto uma solução mágica para as dificuldades do setor privado. Reclamam dos gastos públicos e reclamam dos cortes de gastos públicos. Anunciam o colapso da Previdência e se escandalizam com as tentativas de saná-la.

Por isso a moda apocalíptica não prenuncia um futuro plausível, mas um desejo. E aqui a tragédia vislumbrada é proporcional ao temor do futuro positivo. Quanto pior o cenário da fantasia, maior será a frustração dos oráculos, ainda que o resultado venha a ser apenas razoável.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

"Enquanto somos jovens"


















Comédia baseada no conflito de gerações, incrementada por uma intriga secundária que lembra o clássico “A malvada” (Joseph L. Mankiewicz, 1950). O que importa, como de hábito na obra de Noah Baumbach, é sua enorme habilidade em elaborar personagens críveis, geralmente artistas que enfrentam a falta de perspectiva e o fracasso.

O conjunto parece acadêmico, de uma caretice que costuma aproximar Baumbach de Woody Allen. Mas em ambos os casos o interesse não reside no âmbito estético, e sim no textual, na reflexão simpática e algo inofensiva sobre certo universo de valores.

Dentro dessa proposta, resulta muito bem-sucedido. Os diálogos certeiros e as referências culturais engendram alguns momentos hilariantes. Para quem já vislumbrou a tal crise da meia-idade, pode ser uma diversão quase terapêutica.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Perderam a noção do ridículo






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A viagem dos senadores demotucanos à Venezuela, com suas patuscadas amadorísticas, incrementa o repertório de vergonhas alheias protagonizadas pela oposição. A comédia ganha um ar melancólico, porém, quando lembramos que ali estavam pessoas que pretendem governar o país.

Nem precisávamos usar a memória. Tudo foi típico de uma encenação para filme televisivo de campanha eleitoral: a fila de parlamentares engravatados, avançando como trupe de banda roqueira, mártires das nobres causas, indignados, convictos, sitiados pelos zumbis carnívoros.

E jornalistas diplomados contribuem para criar o efeito documental da palhaçada. Sem o apoio da mídia corporativa, os heróis pareceriam apenas uns patetas fujões criando factoide com dinheiro público. Pobrezinhos, pegaram congestionamento, foram “hostilizados” e tiveram de voltar correndo!

Gargalhadas à parte, há um sério risco na gradativa naturalização dessas excrescências caricatas. Acostumando-se a tolerar os fanfarrões, o eleitorado adota a imbecilidade que eles promovem. E o ridículo vira modelo de propaganda.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Legado ressentido

 

O antipetismo continua inconformado com o sucesso da Copa do Mundo brasileira. Sempre que aparece uma oportunidade, a imprensa corporativa dá um jeito de manchar a memória do torneio.

A primeira tentativa do ano (depois de um longo e sintomático silêncio) veio com os escândalos da FIFA. Ainda não deu muito certo porque as denúncias são generalizadas, envolvendo até os países que o provincianismo vira-lata costuma invejar.

Agora reaparecem as análises preocupadas com o tal “legado” da Copa. Elas têm dois problemas graves: a) tentam associar o evento a uma incompetência administrativa que nada tem a ver com a Copa em si; e, principalmente, b) ignoram a responsabilidade dos governos municipais e estaduais, federalizando problemas que o Planalto não poderia resolver nem se quisesse.

Acho necessário cobrar as promessas feitas para justificar os aportes financeiros locais. Mas esse rigor precisa evitar bisonhices partidárias. Qualquer viés diferente resultará apenas numa repetição póstuma das vergonhosas mentiras proferidas antes da Copa.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Liberdades não autorizadas

 

A festa midiática em torno da liberação das biografias faz parecer que seus defensores são baluartes cósmicos da liberdade de expressão. Nem tanto.

A causa prevaleceu no Supremo Tribunal Federal (e só foi votada agora) graças a uma campanha eficaz das entidades envolvidas na questão. Veículos noticiosos e editoras, principalmente, ansiosos por salvaguardas jurídicas para seus negócios.

Não se trata apenas de vender livros, nem mesmo de economizar com advogados. Há ainda a preocupação em abrir caminho para que qualquer material biográfico possa vir a público sem o veto prévio dos envolvidos. Podemos vislumbrar os desdobramentos político-eleitorais dessa prerrogativa.

Ninguém ali está muito preocupado em garantir liberdades. A Folha de São Paulo, por exemplo, recorreu à Justiça para calar um blog que a ironizava, sob o argumento de que os leitores poderiam (dã) confundir a sátira e o modelo real. E os desembargadores paulistas acataram a tese. Repito: desembargadores.

Então compreendemos a insistência em deixar que eventuais abusos sejam punidos posteriormente. O respaldo que certos interesses corporativos recebem das instâncias judiciais garante a virtual impunidade dos difamadores poderosos.

Nada disso reduz o mérito da pauta endossada pelo STF. É mesmo absurdo que ela precise de um endosso jurisprudencial em plena democracia. Mas precisamos lembrar que o tema não ganhou relevância por suas qualidades intrínsecas, e sim porque mobilizou determinados setores com particular influência no Judiciário.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O seu dinheiro banca a CBF


O sumiço dos patrocinadores da Confederação Brasileira de Futebol, nesses tempos conturbados, traz à tona um antigo debate sobre o financiamento geral da corrupção. Resumindo: o cidadão sustenta a roubalheira mesmo quando ela não usa recursos oriundos de tributos. Tudo é “dinheiro público”.

A CBF e a FIFA enriqueceram graças aos consumidores dos produtos das empresas que sustentam aquelas instituições. Para se ter noção do volume financeiro envolvido, um exemplo nacional incluiria Chevrolet, Englishtown, AmBev, Itaú, Mastercard, Samsung, Gillette, Gol, Michelin, Nike, Sadia, Tênis Pé, Unimed e Vivo.

Adicionando à conta os anunciantes de transmissões televisivas (que bancam a visibilidade mercadológica dos patrocinadores principais), teremos um contingente de financiadores tão respeitável quanto o de contribuintes em dia com o Fisco. E nem começamos a refletir sobre o caráter público das próprias emissoras de rádio e TV.

As naturezas e extensões dos aportes privados e estatais são diversas, talvez incomparáveis, mas umas não agregam necessariamente mais liberdade ou transparência do que as outras. O que as opõe na prática é o grau de engajamento que elas provocam nos cidadãos indignados. Principalmente os sonegadores.