quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Golpe se previne





















Se alguém está mesmo preocupado com certa onda golpista que avança no país, chegou o momento de agir.

Criando sites e publicações de análises e denúncias. Promovendo seminários com personalidades jurídicas e acadêmicas. Mobilizando setores da sociedade organizada, com debates em sindicatos, movimentos sociais, agremiações estudantis. Disseminando grupos de estudo nas universidades. Formando redes de militância junto a professores, artistas e intelectuais.

A história de que o povo sairá às ruas em caso de necessidade funciona como narrativa revolucionária, mas na vida real não vale um tiro de festim. O país amanheceria quieto e aliviado, como em abril de 1964. Mesmo na remota hipótese de alguma resistência pontual, ela seria esmagada cruelmente, com respaldo nessa aura de legitimidade que emana dos poderes instituídos.

Havendo um golpe, as estruturas burocráticas e repressivas do Estado imediatamente passariam a defender o grupo vitorioso. Do desembargador ao guarda municipal, todos os agentes públicos estariam a serviço da “autoridade em exercício”. E a mídia tradicional sufocaria a capacidade mobilizadora da blogosfera progressista.

Aqueles que confiam na sublevação popular se aferram à imagem de blindados nas ruas e generais de espada em riste. Essa fantasia mostra como os profetas da ameaça estão despreparados para enfrentar a única verdadeira possibilidade golpista: tropas de choque da PM portando mandados judiciais, ministros do STF prendendo lideranças políticas, Ministério Público, Polícia Federal e magistrados caçando adversários ideológicos.

A falta de medidas coordenadas para impedir uma “virada de mesa” antidemocrática sugere que o risco não é levado realmente a sério. Neste caso, talvez fosse mais produtivo aceitar a permanência inevitável do golpismo e discutir maneiras de lidar com esse desvio. Pois quando o espírito antidemocrático se materializar em conquistas efetivas nas estruturas do poder, será tarde demais para discursos libertários.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A memória da justiça
















Publicado no Brasil 247

A parcela da memória coletiva que a Comissão Nacional da Verdade ajuda a reconstruir é imprescindível, embora já tenha sido mais ou menos sistematizada pela vasta literatura sobre os crimes da ditadura militar. Mesmo que esse discurso histórico seja plenamente configurado, porém, ele não realizará a superação do maior trauma que os anos de chumbo originaram e que ainda transtorna o país: o da impunidade jurídica.

O testemunho contribui para resgatar a vítima de seu encerramento na experiência do horror, como defende Márcio Seligmann-Silva. Mas as próprias estruturas do cárcere subjetivo continuam preservadas, porque uma parte essencial do compromisso entre as memórias coletivas e individuais não encontra satisfação apenas no depoimento das vítimas.

Aproveitando a nomenclatura esboçada por Maria Rita Kehl, podemos chamar esse vínculo imaginário de “memória da justiça”. É a convicção de que a coletividade reconhece a gravidade dos horrores a ponto de estabelecer uma punição exemplar aos criminosos.

Se nada alterará os acontecimentos nefastos de outrora, se o estranhamento, a fragilidade e a incomunicabilidade marcam de maneira indelével a condição do sobrevivente, é no espaço dos poderes instituídos (na esfera política, em sentido amplo) que a experiência pessoal, feita denúncia, potencializa-se e rompe a clausura forjada pelo esquecimento apaziguador. Restrito à dimensão testemunhal, o “passado que não passa” (Seligmann-Silva) também redunda no inverso, um presente feito de reminiscências, amortecido pelo abismo temporal que separa o ouvinte-leitor e o relato. A inação da Justiça pereniza esta distância.

Os testemunhos de catástrofes que receberam anistias ou sucumbiram à amnésia oficial possuem um agravante de frustração ausente naqueles que relatam tragédias contempladas por esforços judiciais punitivos. Parece razoável imaginar que as condenações rigorosas de Nuremberg e similares ajudaram a amenizar o sofrimento das vítimas, ou pelo menos a poupá-las da indignação adjacente de saber que seus algozes continuavam em liberdade. Ademais, a impunidade é o objetivo final de qualquer estratégia negacionista, estágio definitivo de sepultamento do fato inaceitável, ou melhor, a oficialização de sua inexistência no domínio institucional.

Outro poder relevante da “memória da justiça” advém de sua natureza pedagógica. A punição efetiva materializa os dogmas do Estado de Direito, impondo limites reais às práticas de dominação que se articulam para sufocá-los. O mecanismo preventivo atua na subjetividade coletiva como um amálgama de valores humanistas que ajuda a blindar a sociedade contra a ressurreição de horrores passados, na forma da escravidão, dos atentados, das execuções, dos abusos policiais, de todo esse rol tenebroso de crimes contemporâneos. Quando aceitamos que os responsáveis por crimes semelhantes decretem o próprio indulto, contribuímos para relativizar a noção de barbárie no imaginário social.

A “verdade” que a Comissão engendra é uma verdade malbaratada, porque incompleta e impotente. A incompletude da denúncia juridicamente infrutífera e a impotência deliberativa transformaram as audiências em exercício de catarses individuais cuja serventia terapêutica não pode ser minimizada, mas apenas atenua os sintomas da enfermidade real, que é o desprezo generalizado pelos valores constitucionais de cidadania.

E não deixa de haver uma estranha coincidência no fato de que tal frustração se deve ao Supremo Tribunal Federal, que endossou a anistia penal dos ditadores para em seguida virar o paladino da moralidade pública brasileira.

sábado, 13 de dezembro de 2014

“Sweet Virginia”


The Rolling Stones, 1972. Com a participação do inigualável Bobby Keys (1943-2014). 

Outras com ele aqui e acolá.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Participação no Rascunho


















Ao longo de quinze meses, Luiz Bras publicou uma enquete na sua coluna do suplemento literário Rascunho. No último minuto da prorrogação tive a honra de participar da série. A pergunta central, dirigida a escritores, editores e acadêmicos, era a seguinte: "Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?" 

Sob a perspectiva de um autor que o observa da margem (e não sem algum ressentido ceticismo), o circuito midiático da literatura brasileira parece medíocre, condescendente e previsível. A monotonia temática, o narcisismo obsessivo, a diluição dos cânones, a pobreza dos enredos, a covardia política e o desleixo narrativo marcam boa parte dos títulos adotados pelas esferas privilegiadas do campo literário.

A banalidade norteia as dinâmicas legitimadoras do mercado porque elas são baseadas em relações interpessoais e corporativas. A escolha do original pela editora, a entrevista, o convite para a feira, a resenha do suplemento, o conto ou o poema ali publicado, a seleção pelos jurados de um concurso: quase todos os pequenos sucessos que formam a reputação literária passam por alguma teia de apadrinhamento. O fenômeno não deixa de existir só porque, na maioria das vezes, é automático e inconsciente; nem por ser talvez inevitável, num ambiente saturado de concorrência e falto de oportunidades.

O predomínio da influência empobrece os critérios avaliativos do meio, acomodando-o à ilusão de que as obras reconhecidas são de fato as melhores de seu tempo, ou de que conquistaram apreciação por méritos intrínsecos. O padrão hegemônico no chamado mainstream vira referência do que é a “boa” literatura contemporânea, justificando o anonimato da multidão sem colegas nem contratos. Então o círculo de reconhecimento se fecha no já aceito e influente, preservando-o ao infinito.

Enquanto isso, na periferia do sistema, os desconhecidos vagueiam entre nichos, tribos e seitas, gastando saúde, tempo e dinheiro em obras que ninguém lerá. Iludidos pela falsa popularidade da internet e por esporádicos aplausos nos convescotes provincianos, jamais terão sequer uma ideia de seu real valor. Mas continuam alimentando a mitologia de uma efervescência literária da qual permanecerão inexoravelmente excluídos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O incrível estado que parou

 













Considerando o padrão ético da tucanolândia, é improvável que alguém esteja fiscalizando as eternas obras da concessionária Rota das Bandeiras na rodovia D. Pedro I, altura de Campinas. Sorte da empresa, que não parece muito preocupada em evitar contratempos aos usuários que lhe pagam fortunas de pedágio.

Somando a argúcia dos privatas rodoviários com a folclórica (indi)gestão de tráfego do governo municipal de Jonas Donizette (PSB-PSDB), o resultado é caos, cada vez mais duradouro e irremediável. Desde as principais avenidas campineiras até dezenas de quilômetros ao longo das mais importantes estradas paulistas, fica tudo parado. Apocalipticamente parado.

Ninguém faz nada. Não há um comentário na imprensa a respeito. Os motoristas sequer buzinam. O que não chega a surpreender, já que, numa simplificação estatística, podemos supor que mais da metade das vítimas está satisfeita com Geraldo Alckmin.

Seria um escandaloso “apagão” se o PT estivesse envolvido na pândega. Ou melhor. A essa altura as concessões já teriam sofrido uma cruel devassa do Ministério Público e da Polícia Federal. Mesmo que ainda estivéssemos fadados aos incompetentes, talvez não pagássemos tão caro para sustentá-los.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O que Francis diria?
















Em 1997, Paulo Francis foi processado nos EUA por diretores da Petrobrás, que ele chamara de “uma grande quadrilha”. Há quem diga que a pressão resultante agravou a cardiopatia do jornalista, levando-o à morte pouco depois.

Acontece que o generoso tratamento da Justiça brasileira à irresponsabilidade acusatória não tem equivalentes internacionais. Nas cortes estrangeiras, qualificar a Petrobrás de quadrilha ou o PT de “organização criminosa”, como faz Aécio Neves, exige provas do falastrão. E a brincadeira sai caro.

De qualquer forma, porém, Francis não conseguiria reunir material para defender-se nas cortes dos EUA, porque a blindagem dos governos demo-tucanos envolvia todos os campos institucionais, principalmente o Judiciário. Um presidente podia ser reeleito graças a parlamentares subornados, para citar um exemplo notório e incontroverso.

Os comentaristas que hoje bradam “ele já sabia!” preferiram na época assistir à fritura do colega, em vez de investigar os contratos da empresa, inquirir fontes, traçar uns cálculos rudimentares. Tiveram o mesmo comportamento nas privatizações e, depois, durante a vigência da máfia dos cartéis metroviários do PSDB.

Mas a solidariedade póstuma da turma esquece o principal: se o jornalista estava certo nas suas acusações, os esquemas corruptos já vigoravam na estatal durante o governo FHC. Esse fato desqualificaria a propaganda do PT malvado e corroboraria a imagem saneadora da gestão Dilma Rousseff.

Vemos, portanto, que a memória de Francis é útil para entendermos o país, dezessete anos depois. E não apenas pelo que insinuava da Petrobrás e seus contratos.
  


sábado, 6 de dezembro de 2014

“Can't you hear me knocking”


The Rolling Stones com o grande Bobby Keys (1943-2014), membro emérito da banda, no saxofone.

Outro solo dele aqui.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A 31ª Bienal























Uma proposta central oportuna, que busca discutir o papel da arte nos movimentos transformadores da sociedade contemporânea. O conjunto é múltiplo e desigual, como de hábito, nem sempre afinado com a premissa, ou capaz de levá-la para além das superfícies panfletárias. Mas há um surpreendente sentido de coesão no resultado, que logra deixar a experiência fluída e provocativa.

Resta saber se o predomínio do “texto” (narrativas, testemunhos, digressões, etc) ajuda a configurar uma estética historicamente demarcada, ou se é uma estratégia que utiliza o suporte artístico apenas como veículo de transmissão de enunciados. Parece que o esforço intelectualizante dos trabalhos empurra sua dimensão formal para um lugar secundário.
           
Também é curioso notar o extensivo recurso à figuração para tratar de “coisas que não existem”. Com poucas exceções, parece que a fantasia está sempre ancorada em alguma forma de representação, levando a inevitáveis referências ao surrealismo, ao expressionismo, à pop art.

Sintomaticamente, o vídeo se oferece melhor ao ímpeto contestatório, com especial destaque para “Não é sobre sapatos”, de Gabriel Mascaro e “Os excluídos. Em um momento de perigo”, do coletivo Chto Delat (vale a pena assistir na íntegra, desde o começo). Entre os objetos, destacam-se Edward Krasiński e Michael Kessus Gedalyovich. Na bidimensionalidade, o divertido “Mapa” de Qiu Zhijie, “Deus é Bicha”, de Nahum Zenil, Ocaña, Sergio Zevallos e Yeguas del Apocalipsis e os painéis “Sem Título”, de Éder Oliveira.

Sobre outras Bienais:
O vazio

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Governo novo, ideias paleozoicas

 

O senador Cristovam Buarque encerrou as audiências públicas sobre a legalização da maconha evitando posicionar-se a respeito. Em termos práticos, avalizou a permanência da estupidez repressiva.

Enquanto o mundo adota gradativamente a legalização da erva, o Brasil se aferra a um atraso jurídico inexplicável, virando o paraíso mundial dos traficantes e empurrando cidadãos inofensivos à criminalidade. Inclusive familiares de pessoas que precisam dos derivados da planta para amenizar efeitos de doenças graves.

Além da sensação de nova chance perdida, é decepcionante ouvir o nobre legislador repetindo as justificativas do proibicionismo: os malefícios físicos e psicológicos da erva, o mito da “porta de entrada” para as drogas verdadeiramente nocivas, o risco de aumento do número de usuários, etc.

A incrível permanência de tais mistificações, contrariando todos os estudos disponíveis, mostra que a estratégia legalizadora chegou a um impasse. Manter a disputa no terreno da suposta racionalidade científica apenas legitima a falsa relevância de aspectos secundários, que sequer deveriam ser discutidos no âmbito legislativo.

Repitamos o óbvio: o que está em questão é a liberdade da pessoa usar seu corpo como quiser, salvaguardando-se os danos a terceiros. Simples assim.

Certos tópicos fundamentais da cidadania suplantam democratismos oportunistas. Ninguém submeteria a decisão sobre a pena de morte às vítimas da violência. O estado de Direito jamais seria laico se precisasse da autorização de líderes religiosos.

Eis porque a mais relevante iniciativa descriminalizadora dos últimos anos é o Recurso Extraordinário 635659, escondido numa pilha do STF. Infelizmente, o processo está sob a responsabilidade do ministro Gilmar Mendes. Mas, pelo menos, a petição é muito bem feita (vale a pena conhecê-la) e diz respeito às prerrogativas constitucionais da corte.

Abrir o debate para além do foco doutrinário nos direitos individuais confere poder de veto aos interesses vinculados à criminalização da maconha. Organizados e poderosos, esses lobbies sempre vencerão a falta de representatividade política e os estigmas que marginalizam os milhões de canabistas do país.

O governo federal poderia abraçar a causa, numa guinada progressista que teria sustentação pluripartidária e marcaria a reaproximação do PT com a juventude. Seria, principalmente, uma maneira de provar que o país pode evoluir mesmo sob uma administração aprisionada pelo conservadorismo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hipocrisia ambiental






















O imbróglio jurídico em torno da distribuição de sacolas plásticas no comércio levanta uma dúvida simples: a única alternativa “ecologicamente correta” implica o prejuízo do consumidor? Tão preocupados com o meio-ambiente, por que os supermercados não fornecem sacolas reutilizáveis, inclusive adaptadas para o transporte do lixo?

É típico do autoritarismo cientificista transformar o assunto num problema educativo, como se houvesse apenas uma versão correta do que é “melhor para a sociedade”. O cidadão que enxerga nisso tudo uma tremenda hipocrisia de vendedores gananciosos encarna o herege ignorante do culto racional à deusa Ciência.

Claro, culpar o contribuinte pelo desastre planetário é mais fácil do que enfrentar os verdadeiros dilemas da questão. A consciência ecológica parece muito bacana até mexer com os lucros do empresariado.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A conveniência da palavra democracia















Certos meios intelectualizados articulam discursos sobre a maldade petista usando uma espécie de perplexidade cívica para disfarçar os sintomas da ressaca eleitoral. Ao contrário dos debates biliosos do ressentimento derrotado, porém, essas manifestações merecem contrapontos imediatos, antes que seus veredictos pretensamente apartidários criem narrativas hegemônicas em torno das últimas eleições.

No artigo “A conveniência da palavra ódio”, Beatriz Bracher parte do pressuposto de que as estratégias da campanha de Dilma Rousseff foram excessivas, trapaceiras, imorais. O uso de perguntas retóricas exime a autora de fazer acusações diretas, mas restringe o espaço da dúvida ao mínimo. Aceitando seu raciocínio silogístico, o leitor se convence de que o PT rompeu os limites “aceitáveis” para vencer.

Ora, o mesmo jogo de insinuações serviria para inverter o sentido dos questionamentos. “Não pode ser considerado normal” a mídia acusar a presidenta de criminosa a dois dias do pleito. “Ou pode? É um excesso aceitável?” Quem divulgou que o doleiro preso havia morrido? “É legítimo? É punível pela lei atual? Por que não foi investigado?”

Se queremos resgatar “a civilidade da nossa democracia”, tenhamos então a idoneidade e a coragem de abordar as atuações da imprensa e do Judiciário na campanha. Esses âmbitos são fundamentais para estabelecermos o sistema de valores que norteará a disputa. É no campo institucional que nasce o vale-tudo das eleições brasileiras.

Existem muitas ferramentas para “retirar a legitimidade da crítica”. O estigma do ódio alheio é uma delas. Mas a apropriação do conceito de democracia pelos oposicionistas indignados soa igualmente mistificadora. Parece apenas um pretexto chique e ilustrado para desqualificar adversários e alimentar revanchismos estéreis.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A PF na ribalta

















Publicado em Brasil 247

As prisões dos executivos de grandes empresas servem para abafar as denúncias contra a atuação tendenciosa da Polícia Federal na Operação Lava Jato. A pirotecnia do gesto é proporcional à gravidade da suspeita: o partidarismo explícito dos delegados na campanha eleitoral sugere cumplicidade com a atuação criminosa da revista Veja às vésperas do segundo turno.

Ainda que a operação estivesse sendo organizada há tempos, seu oportunismo e sua teatralidade são inegáveis e sintomáticos. Atingir grandes empresas não garante o rigor ou a imparcialidade de qualquer procedimento jurídico. Os mandados foram expedidos pelo mesmo juiz que permitiu os vazamentos seletivos das delações dos bandidos em plena disputa presidencial. Só isso coloca toda a investigação em cheque.

Independente de culpas reais e apelos pedagógicos, as prisões parecem desnecessárias e até meio abusivas, como se fossem armadas para resultar juridicamente nulas. Lembram episódios recentes, quando irregularidades técnicas serviram para inutilizar as acusações nas instâncias superiores. Os investigadores “erram” nos detalhes e posam de inimigos do crime; os bacanas passam um aperto ligeiro e alguém depois arquiva tudo.

É tolice, portanto, fazer da Lava Jato um modelo de justiciamento dos “poderosos”. Os inesgotáveis trâmites processuais do caso sequer começaram. Uma ideia do que vem pela frente pode ser obtida nos inquéritos envolvendo os mensaleiros do PSDB. Quando Joaquim Barbosa dispersou-os pelas catacumbas das varas regionais, também se falava em “passar o país a limpo”.

A corrupção sempre possui diversas ramificações e desdobramentos. É fácil imaginar uma rede de contatos unindo a Petrobrás e o Palácio dos Bandeirantes, por exemplo. Mas nenhum juiz paulista ousará averiguar os contratos bilionários que essas empreiteiras mantêm com a administração tucana de São Paulo. As morosas e secretas apurações sobre a máfia dos cartéis fornecem exemplo suficiente de que o moralismo do Judiciário só desperta quando há conveniência política.

O tal doleiro bandido possui laços antigos e notórios com figuras do PSDB e do DEM, mas o vínculo, embora tenha provocado o início das apurações, foi esquecido assim que a Petrobrás surgiu na história. Por que os únicos elos investigados sobre o vasto esquema criminoso são os que envolvem o PT e seus aliados?

A tentativa do governo Dilma Rousseff de aproveitar a boa recepção da Lava Jato é compreensível, tendo em vista a hipocrisia generalizada e o histórico de engavetamentos de seus antecessores. Mas a natureza partidária da operação recomenda prudência. Basta que um ministro do STF incorpore o encosto imperial deixado por Joaquim Barbosa e podemos ter a presidenta metida numa farsa golpista que o PT aplaudiu como se fosse obra sua.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Só o mata-mata salva

 














O nobre torcedor e a nobre torcedora se lembram do último jogo, integral ou editado, que reviram na TV? Fanatismos à parte, e independente da modalidade, aposto que foi uma partida decisiva, ou seja, disputada no sistema eliminatório. Pontos corridos não produzem confrontos memoráveis.

Mas por que, diante da contínua decadência do longo, tedioso e previsível Campeonato Brasileiro de futebol, ainda aparece quem defenda sua fórmula de classificação? A resposta leva ao cerne da natureza nefasta do arranjo em vigor: nos pontos corridos não existem surpresas desagradáveis. Ali só time rico tem vez, o que equivale a dizer que só os favoritos da mídia corporativa possuem chances de sucesso.

Os espertos argumentam que a desigualdade financeira é um problema à parte, que não afeta a “justiça” do sistema. Mentira. Pontos corridos e favorecimento econômico formam a mesma estrutura competitiva. São indissociáveis.

A turma do espetáculo voltou a discutir o assunto, preocupada com a audiência minguante. Mas a fantasia do “bom senso”, como sabemos, esconde certa malícia. Tudo bem adotar os jogos decisivos em fases derradeiras dos campeonatos, desde que a sua competitividade seja reduzida até atingir o mesmo patamar de manipulação que as redes televisivas impõem hoje aos pontos corridos. Menos datas, menos jogos, menos times.

As mudanças aventadas para os estaduais seguem essa linha. Em vez de fortalecer os times do interior, equilibrando as disputas, querem extingui-los primeiro, para depois adotar o único sistema no qual eles poderiam ganhar alguma coisa. Sem “pequenos” que estraguem a festa.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

"Interestelar"






















Homenagem de Christopher Nolan ao "2001" de Stanley Kubrick (1969). Tem as mesmas pretensões metafísicas e, curiosamente, uma linha narrativa parecida. Há algo também do “Solaris” de Andrei Tarkovsky (1972).

O esplendor visual suplanta as complexidades científicas da trama e seus escorregões melodramáticos. As bases teóricas são difíceis demais para o espectador leigo, que aproveitará melhor a experiência se voltar ao filme depois de buscar umas noções rudimentares sobre os “buracos de minhoca” e afins.

Além dos efeitos, os aspectos mais positivos são a direção de atores (particularmente Matthew McConaughey, lamento admitir) e a fotografia, a cargo desse virtuose genial que é Hoyte Van Hoytema (de “Ela” e “O espião que sabia demais”).

Nolan é ótimo inventor de universos. Sabe mexer com os recursos digitais como poucos, criando ambientes muito próprios e sólidos. Aqui, retornando ao tempo, o tema central de sua obra, enfrenta o paradoxo já proposto em “A Origem”: a representação daquilo que é, quase por natureza, irrepresentável.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Você sabe com quem está falando?















Num exemplo mundial de presteza judiciária, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro já referendou a condenação da fiscal que negara a divindade do juiz infrator. Pois, como sabemos, lembrar a humanidade do magistrado causa-lhe sérios danos morais.

O Brasil é o paraíso da carteirada. O império do bacharel que exige ser chamado de “dotô”, do “adevogado” petulante que fura a fila porque se acha “otoridade”. Só ele pode estacionar em local proibido, guiar bêbado, elidir seus tributos malandramente. E cana pros petistas imundos.

Nada no caso deveria causar surpresa, muito menos a proteção corporativista da egrégia corte. Esses personagens asquerosos são produtos da mesma cultura cartorária que sustenta a OAB e os conselhos profissionais de toda estirpe. Os abusos de Joaquim Barbosa não foram tolerados à toa.

Se o juiz tem esse comportamento social, fico imaginando as centenas de decisões que tomou, envolvendo os destinos dos pobres mortais sem carteirinhas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Acertos na estratégia dilmista














A insistência midiática no mito da baixaria petista oculta os enormes sucessos estratégicos da campanha de Dilma Rousseff. Diante das circunstâncias e do resultado alcançado, o caso logo virará matéria de estudo acadêmico e modelo para cópias menores. Sem a pretensão de esgotar o tema, nem de fingir conhecê-lo, aponto alguns dos acertos que me parecem mais relevantes.

- Criar duas esferas de comunicação autônomas, com equipes lideradas por profundos conhecedores de cada área: João Santana (publicidade tradicional) e Franklin Martins (internet). A medida garantiu dinamismo e flexibilidade aos trabalhos.

- Apostar forte na importância das pesquisas quantitativas e qualitativas para referenciar os discursos ao longo da disputa. O nível de precisão das respostas dilmistas ressalta o amadorismo da equipe de Marina Silva e os equívocos dos articuladores tucanos.

- Assumir a pauta da sucessão, forçando respostas imediatas e conduzindo os debates midiáticos. Atacar antes de reagir. Forçar comparações. Não permitir que enunciados fortes (mudança, corrupção, etc) fossem apropriados pelos adversários.

- Fornecer conteúdo permanente para que a militância relativizasse as pesquisas, aglutinasse esforços, fomentasse o voto útil e mantivesse o clima belicoso nas redes sociais. Isso impediu que o antipetismo transformasse mentiras em consensos, nos momentos mais importantes da disputa.

- Escolher Aécio Neves como adversário no segundo turno. Evidente desde o início da campanha, a opção foi decisiva. Os coordenadores petistas levaram para a polarização final o maior antagonista do governo, provocando o acirramento do embate ideológico entre ambos. Aécio foi obrigado a guinar à extrema direita, contaminando-se com o que ela tem de mais impopular.

Um pouco de reflexão acerca desses tópicos ajudaria a entender o triunfo reeleitoral para além de ressentimentos e achismos. Não que os analistas midiáticos ignorem a complexidade das questões. Eles apenas fingem que são bobos para não admitirem que existe gente mais capacitada no meio.