sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Aécio não existe
















Aécio Neves foi acusado de ter recebido propinas milionárias num esquema criminoso em Furnas. Trata-se de escândalo antigo, pesadíssimo, que vem sendo sistematicamente abafado pela imprensa oposicionista.

Mas agora não havia por que os veículos esconderem a delação. Afinal, ela envolve um senador da República, ex-governador, segundo candidato mais votado a presidente, líder destacado da oposição, defensor do impeachment de Dilma Rousseff. E muito, muito dinheiro público.

Para quem ainda acredita na independência do jornalismo corporativo, o resultado dessa expectativa é bastante desanimador. O exemplo da Folha de São Paulo fala por si.

O jornal não incluiu nenhuma citação ao caso de Aécio nas suas principais manchetes de primeira página. Repito: nenhuma referência. Em tempos de especulações diárias sobre imóveis que Lula jamais possuiu, o silêncio ao redor do tucano chega a ser cômico.

Sei como responderiam os editores: não divulgamos ilações, o caso tem menor relevância, é assunto requentado, etc.

Besteira. A Folha sempre viola esses falsos preceitos quando se trata de prejudicar a imagem de petistas e outras figuras combatidas pelo jornal. Basta observar as manchetes, abaixo, publicadas no alto da primeira página em 2015. O critério de noticiabilidade e relevância do veículo é político-partidário, pura e simplesmente.



30/11/2015: “Anotação indica que BTG pagou R$ 45 mil a Cunha por emenda”

17/07/2015: “Delator diz ter pago US$ 5 milhões a Cunha, que rompe com o governo”

27/6/2015: “Delação de empreiteiro eleva pressão sobre Dilma e o PT”

09/05/2015: “Empreiteiro afirma ter doado a Dilma por temer retaliação”

22/3/2015: “Dirceu recebia parte da propina paga ao PT, afirmam delatores.

13/02/2015: “Dirceu sabia de propina paga ao PT, afirma doleiro”

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Por que tanto esforço para incriminar Lula?
















A resposta simplificada: porque é, desde já, o candidato mais forte na eleição de 2018.

Seus governos são imbatíveis comparativamente. Não há estatística do período 2003-2010 que perca para outra similar no recorte histórico disponível. Isso ocorre tanto para os índices abrangentes da macroeconomia quanto para minúcias setorizadas e regionais, passando pelo acesso a bens de consumo, à cultura, à educação, à cidadania. E, acima de tudo, pela redução da desigualdade.

O lulismo é, de longe, a maior força isolada no cenário político nacional, exatamente porque não exige simpatia programática pelo PT. O voto antipetista se divide, à esquerda e à direita, em afinidades partidárias e pessoais amiúde incompatíveis no jogo de alianças. O lulismo agrega filiações diversas.

Nenhuma liderança chegará à próxima disputa com a vantagem inicial de Lula. É bobagem omitir esse fato nas análises conjunturais, pois ele se manifesta em dados precisos e aferíveis. Ignorá-los não revela prudência ou isenção do observador, mas uma tendência infantil para o auto-engano. É atitude típica dos comentaristas de direita, que sempre subestimaram as chances do PT nas eleições presidenciais e sempre erraram.

Mas existem grupos no campo oposicionista que não se satisfazem com narrativas confortáveis. Eles aprenderam a respeitar a dimensão político-eleitoral de Lula e vêm lutando arduamente para tirá-lo do páreo.

Não se trata mais de abalar sua imagem pública. O fracasso eleitoreiro do julgamento do “mensalão” mostrou que o prestígio de Lula sobrevive mesmo sob implacável campanha negativa. A própria estratégia golpista refluiu, entre outros motivos, por causa da incerteza quanto aos efeitos negativos sobre o ex-presidente.

A questão, portanto, é impedir a candidatura de Lula, suspendendo seus direitos políticos no TSE ou no STF, sob os convenientes auspícios da Ficha Limpa. Matar o projeto no estado embrionário, com o torniquete inapelável da legalidade.
                                                                                                            
Eis o motivo da afoiteza com que procuradores e juízes tratam as “suspeitas” contra Lula e sua família. A rapidez garante que um eventual processo transcorra, ou pelo menos seja iniciado, antes que a Lava Jato se desmoralize de vez.

E assim chegamos a uma resposta mais abrangente para a questão do título: a ofensiva contra Lula ocorre porque o Judiciário brasileiro se transformou num mecanismo capaz de atropelar a democracia para satisfazer interesses político-partidários.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Dois filmes sobre escândalos

 
















Em “A Grande Aposta” destaca-se o roteiro inventivo, que quase consegue explicar a origem da grande crise econômica de 2008. Os quadros didáticos usando celebridades estranhas à área e os protagonistas numerosos e simpáticos salvam a trama da ortodoxia que o tema sugere.

Sobressai o papel omisso e talvez criminoso das grandes agências de avaliação de risco no degringolar da catástrofe. As mesmas agências que hoje a imprensa oposicionista usa para alimentar a narrativa da crise brasileira.


















“Spotlight” pertence ao subgênero da investigação jornalística. Tem o mérito de também mostrar as falhas da imprensa, fugindo ao padrão apologético usual, embora recorra a diversos dos seus clichês. A denúncia aqui é bem conhecida, mas sempre necessária: os casos de pedofilia cometidos por padres católicos e acobertados tanto pela Igreja quanto pelas autoridades políticas. Sim, dos EUA.

É interessante notar os avanços da tecnologia disponível para os meios de comunicação neste intervalo de apenas quinze anos. O filme vale ainda para quem aprecia os filmes do bom diretor Tom McCarthy (gosto muito de “O Visitante”). Nos créditos finais aparece uma assustadora lista de cidades envolvidas por episódios semelhantes, inclusive algumas do Brasil.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Charlie merece a nossa incredulidade

















A denúncia de que o governo dos EUA mentiu sobre o assassinato de Osama Bin Laden comprovou a necessidade de mantermos cuidado especial com informações veiculadas em certos contextos dramáticos. Sob a comoção provocada por ataques terroristas, essa cautela pode fornecer o único antídoto contra radicalismos e xenofobias de toda espécie.

Um caso que ainda me parece desconfortável, no seu triste aniversário, é o do tenebroso atentado contra o Charlie Hebdo.

As imagens do ataque imediatamente chamaram a atenção para a eficácia dos matadores. Preparo, armamentos e estratégia lembraram mercenários muito bem treinados. Os melhores serviços secretos do mundo não fariam diferente.

Ao mesmo tempo, quase não houve semelhanças com outras ações motivadas por fanatismo religioso. O anonimato e a fuga destoavam da própria idéia de sacrifício ligada ao fenômeno. O silêncio inicial dos grupos terroristas foi outra raridade.

Como sói acontecer nesses casos, as versões oficiais não ajudaram. A identidade que o pistoleiro teria deixado no carro, os fuzilamentos de suspeitos e a confissão a um canal televisivo soaram convenientes demais para certos interesses poderosos.

Sob uma análise verdadeiramente crítica, não permanece nebulosa apenas a organização do crime. Tudo que temos de fato são pessoas mascaradas, a gravação de uma voz, as costumeiras biografias de imigrantes sofridos.
           
Somos obrigados a aceitar as evidências, fortes e coerentes demais para duvidarmos delas. Mas também precisamos lembrar que, numa das muitas hipóteses possíveis, se os jovens mortos tivessem sido forçados a assumir a autoria dos crimes, a narrativa disponível seria exatamente a mesma.

Manter algum ceticismo diante do episódio talvez não leve a descobertas inovadoras, mas pelo menos preserva algo do espírito iconoclasta do próprio Charlie Hebdo. Pois, se algo unia seus colaboradores chacinados, era a inabalável desconfiança perante discursos autorizados de qualquer natureza.

O problema é perceber que as teorias conspiratórias amenizam quase nada as assustadoras explicações das autoridades.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

“Os oito odiados”

 
















Bastante malhado pela crítica, que insiste em misturar a antipatia (algo merecida) por Quentin Tarantino com a qualidade do seu trabalho. Não é, de fato, o melhor dele, e talvez seja até o pior. Mas isso diz pouco num conjunto de altíssima qualidade.

A má-vontade se deve também ao teor negativista, cínico, brutalmente incorreto do texto. Está claro que Tarantino reage ao patrulhamento que sofreu pela suposta apologia racista de seus últimos filmes. E o faz com exageros quase humorísticos, que levam a crueldade a roçar no incômodo da empatia.

Apesar dos evidentes problemas de ritmo, o maior defeito aqui me parece a repetição de fórmulas. As do próprio Tarantino (a estrutura episódica) e as dos gêneros que ele recicla (o faroeste, as intrigas de detetive).

Mas as fragilidades não anulam o esmero da direção de arte, abrilhantada pela prodigiosa fotografia do mestre Robert Richardson. E o elenco notável. E a música do lendário Ennio Morricone. Já é bem mais do que encontramos na média hollywoodiana.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Reflexões inconvenientes sobre o MPL


















Publicado no Brasil 247

Por mais que simpatizemos com a ideia do transporte público gratuito e universal, é difícil imaginá-la em vigor na dura realidade administrativa do país. A falta de respostas aos problemas orçamentários e jurídicos da medida agrega à principal reivindicação do Movimento Passe Livre um incômodo aspecto de esoterismo coletivista.

A citação de exemplos isolados onde vigora a gratuidade soa inconvincente para referendá-la nos contextos caóticos das metrópoles brasileiras. Não é só uma questão de escala, mas também de prioridade. Fala-se na revisão das dívidas municipais, mas seria quase desonesto exigir que a solução (de resto improvável) deixasse de atender a demandas mais graves e urgentes da sociedade, como saúde, educação e segurança.

Mesmo a questão do transporte vai muito além das tarifas. O colapso da mobilidade nasce de imensos problemas de planejamento, gestão e infra-estrutura que extrapolam o âmbito municipal. Nenhum urbanista defende a gratuidade das passagens como estratégia suficiente para solucioná-los. Poucos, aliás, julgam-na viável em si.

A carência de propostas unificadas e coerentes para o setor reflete a extensão do dilema, e também sinaliza o divórcio entre as lucubrações militantes e a realidade gerencial da esfera pública. O melhor sintoma desse deslocamento é a limitação do MPL a pautas oportunistas e localizadas, que tangenciam as verdadeiras questões práticas da área.

Talvez cansados de transtornar suas cidades para exigir o inexeqüível, os ativistas passaram a lutar “apenas” contra o aumento das tarifas. Embora seu nome carregue uma reivindicação clara, o movimento prefere aceitar a inevitabilidade da cobrança, como se a ruína do sistema fosse uma simples questão de valor unitário dos bilhetes. A anulação do reajuste faria alguma diferença na qualidade dos serviços prestados?

Em suma, falta plataforma ao MPL, um rol de melhorias com base jurídica, técnica e contábil que amenizem as agruras dos habitantes do mundo real. Empurrar a lacuna para o Poder Público é uma forma ingênua e inconsequente de atuação política. Vulgariza as muitas insatisfações populares sob um rótulo protestante generalista que se satisfaz em causar danos esporádicos à coletividade.

Isso explica o gradativo isolamento do MPL, abandonado pelas facções políticas e midiáticas que outrora o paparicavam. Sequer a inaceitável brutalidade policial, que ajudou a preencher o vazio reivindicatório dos protestos em 2013, consegue aglutinar mais adeptos à causa sem pauta.

Não há coincidência no fato de os black blocs ressurgirem ali, depois de uma elucidativa ausência nas mobilizações populares recentes. O radicalismo dos mascarados ocupa a lacuna programática do MPL, canalizando o descontentamento da juventude para um teatro de confrontação que só interessa aos poderes estabelecidos.

É um lamentável desperdício de energia transformadora, mas não deixa de ter certa função pedagógica.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Recesso














Uma seleção de textos publicados aqui em 2015.

Faltou combinar com os eleitores”, sobre a disputa presidencial.

Não em nome do Charlie Hebdo”, sobre o atentado.

A arbitragem é o retrato do nosso futebol”, sobre a safadeza do apito.

A mídia apresenta suas armas”, sobre as manifestações de direita.

A farsa completa dez anos”, sobre o julgamento do “mensalão”.

Cotas em preto e branco”, sobre a inclusão racial.

As ruas sepultaram o golpe”, sobre as manifestações de esquerda.

Mentiras proibicionistas”, sobre a liberação da maconha.

Lama a jato”, sobre a presença do PSDB nas investigações.

Cota de tela urgentemente”, sobre a exibição de filmes brasileiros.


Por que só agora a Lava Jato chegou a Cunha?”, sobre o cerco ao chantagista.

Os Pilatos da esquerda brasileira”, sobre a reação ao golpe de certos setores.

Não parece golpe, mas é”, sobre o impeachment, claro.

A estranha reação do STF”, sobre a prisão de Delcídio.

A pauta do golpe”, sobre o alongamento da crise.

O quinhão do Timão”, sobre o título do Brasileiro.

O direito de querer”, sobre o Direito de Resposta.

A quem serve o Judiciário brasileiro?”, sobre o combate à corrupção no Brasil.

Prisão sugere elo entre PSB e crime organizado”, sobre um episódio campineiro.

O falso exemplo de Azeredo”, sobre a ilusão de equidade da Justiça.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O falso exemplo de Azeredo
















Publicado no Brasil 247

Analistas da mídia empresarial aplaudem a condenação de Eduardo Azeredo. Segundo eles, a esquerda já não tem motivo para reclamar da perseguição seletiva do Judiciário.

Bobagem da grossa. Continua inexistindo qualquer equilíbrio no tratamento dado a petistas e tucanos pelas cortes. O viés partidarizado manchou jurídica e moralmente os últimos dez anos de combate à corrupção no país. Com danos irreversíveis.

As manobras de Joaquim Barbosa para livrar o PSDB das execuções sumárias no STF anularam as chances de algum membro da sigla ser de fato punido. Em termos práticos, a tal “condenação” de Azeredo significa apenas ele passar o resto da vida em liberdade, ou pouco menos que isso.

E é caso único. Nenhum membro do PSDB foi sequer indiciado por décadas de cartel no metrô paulista. A Lava Jato ignorou as origens da corrupção na Petrobrás para poupar o governo FHC. Poderíamos seguir mencionando a privataria, as sanguessugas, o Banestado, as contas suíças e assim por diante.

O alívio da direita mostra que a sentença contra Azeredo faz parte de um roteiro previsto, seguro e controlado. Figura emblemática do mensalão, sua derrota ao mesmo tempo ameniza a percepção geral da impunidade tucana e é inócua o suficiente para mantê-la inalterada.

Jamais veremos líderes do PSDB conhecerem os rigores punitivos aplicados aos petistas. Um José Serra passar anos no xilindró por “domínio do fato criminoso”. Um Aécio Neves entrar algemado no camburão diante da imprensa televisiva. Um assessor de Geraldo Alckmin sofrendo tortura psicológica para delatá-lo.

Em circunstâncias menos assustadoras, isso apontaria para a inocência dos personagens. Mas a questão tornou-se meramente especulativa, pois ninguém ousa investigá-los de verdade, menos ainda com os abusos coercitivos de um Sérgio “Berlusconi” Moro. Assim que o primeiro depoimento sigiloso vazasse incriminando tucanos graúdos, o STF acabaria com a Lava Jato.

Então descobrimos o círculo vicioso das hipóteses que cercam a supremacia judicial do tucanato: a própria omissão do Ministério Público e dos magistrados dificulta mostrar que todos se omitem. Quanto mais politizada e institucional é a crítica ao Judiciário, mais partidária e corporativa é a sua reação.

A armadilha do episódio Azeredo consiste em canalizar o revanchismo petista para uma polêmica de rotos e esfarrapados, desviando as atenções do escandaloso viés partidário das cortes. Este é o debate que urge, e não o constrangimento reversível e tardio de uma figura já desmoralizada.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A mensagem das ruas






















O êxito das manifestações antigolpistas faz contraponto inevitável com as minguantes passeatas da direita. A diferença é óbvia, tanto na quantidade quanto na pluralidade da adesão. O projeto do impeachment perdeu de vez o argumento da força representativa.

Pouco importa a previsível manipulação do noticiário, em seu desespero infantil para esconder os fatos. A desmoralização da imprensa corporativa só alimenta o belo espírito inconformista das ondas vermelhas. Elas não precisaram de investimento empresarial nem de propaganda midiática para aflorar.

Antecipadas meses atrás, as curvas de comparecimento das mobilizações de esquerda e direita seguem tendências contrárias, de efeitos muito perigosos nas futuras disputas eleitorais. Cientes disso, os midiotas logo começarão a denunciar o “confronto” que os malditos petistas estariam promovendo nas ruas.

Com essa narrativa de conflagração social o golpismo buscará unanimidades em torno de um pacificador que substitua Dilma Rousseff. Mas o clima de embate só assustará ainda mais os já reticentes candidatos a assumir tarefa tão ingrata.

De qualquer forma, é impossível não creditar parte do impacto das passeatas legalistas à própria atuação dos defensores do impeachment. Apostaram tanto no peso das ruas que elas acabaram ganhando papel central, quiçá decisivo, nas disputas sobre o tema.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Minguando

















Os eufemismos, as estimativas forçadas e as desculpas dos analistas para esconder o retumbante fracasso das manifestações pelo impeachment atingem a hilaridade. Parece mesmo cruel rebatê-los com argumentos razoáveis.
                                                                                                  
Se antes a péssima relação custo-benefício dos protestos já saltava aos olhos, ela agora tem algo de chocante: com tamanho investimento empresarial e midiático, o resultado obtido é indigno até de menções depreciativas. Esses Desfiles do Orgulho Reacionário jogam dúvidas sobre a própria representatividade social da imprensa corporativa.

Usar Eduardo Cunha como bode expiatório é tolice do golpismo dolorido. A adesão ao impeachment caiu porque, passada a histeria inicial, ele se mostrou irresponsável, temerário e ilegítimo. Quando a brincadeira ficou séria e ganhou um objetivo prático, os amigos da PM preferiram a praia, o clube ou o shopping.

No final das contas, a insistência em fazer do suporte das “ruas” uma espécie de justificativa moral do golpe só consegue demonstrar sua essência antidemocrática.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Dilma Rousseff contra as almas sebosas


















Publicado no Brasil 247


Até aqui, o roteiro do impeachment seguiu a lógica previsível.

A iniciativa de Eduardo Cunha é consequência da pressão oportunista que ele sofreu do Judiciário, ávido para atingir os objetivos políticos da Lava Jato antes que o apuro dos tucanos esvazie a operação. A esquisita prisão de Delcídio Amaral deixou sinais de que as cortes já não conseguem lidar com a ansiedade dos bastidores investigativos.

Também o momento de prorrogação da crise obedece ao propósito original de manter o governo acuado, atingindo-o exatamente quando ele ameaçava recuperar alguma estabilidade. Por isso mesmo, recessos, “pedidos de vista” ou quaisquer adiamentos no desfecho da questão favorecem apenas o projeto reacionário.
                                                                                                    
As passeatas legalistas comprovarão seu papel decisivo no sepultamento do golpe. Nem tanto por causa da suposta resistência ao fato consumado, mas principalmente por anteciparem a força oposicionista que um novo governo enfrentaria. Esse aspecto será decisivo para o posicionamento do empresariado e do campo jurídico no embate.

O governismo agora precisa de união e iniciativa. Ambas se conquistam superando as desavenças com certa esquerda reticente e assumindo sem hesitações o pólo republicano da disputa. A mídia tentará descolar Cunha do processo para anular o antagonismo ético em jogo. Eis o ponto central da narrativa do impeachment.

Daí a importância de o Planalto não cair na armadilha de transformar Michel Temer em adversário direto. Ele é o representante ideal que o golpismo procura. Ao mesmo tempo, suas conspirações têm apelo restrito. O vice pode barganhar apenas um futuro incerto de crise e conturbação social. Dilma guarda poder efetivo, de materialização imediata.

Isso nos conduz ao fato de que a luta será decidida no Congresso Nacional. Ali não funciona brandir méritos jurídicos ou minúcias técnicas. A pressão sobre os parlamentares deve atingir os respectivos interesses nas eleições do ano que vem. Os candidatos e seus financiadores não querem passar 2016 justificando exonerações de correligionários e o apoio à chantagem de um notório contraventor.

Sabendo colocar-se como adversária da irresponsabilidade e da sordidez política, Dilma conseguirá ao menos preservar o cargo. Mas esta seria uma vitória frustrante, quase nula em médio prazo, se o governo continuar fraco e isolado. A luta abrange a preservação da agenda progressista endossada pelas urnas. O que temos adiante é o desfecho da campanha eleitoral mais longa e ruinosa de nossa história republicana.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Prisão sugere elo entre PSB e crime organizado

O prefeito e o suspeito confraternizam
















Uma ação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) aprisionou dez pessoas suspeitas de pertencerem ao PCC (Primeiro Comando da Capital) no interior de São Paulo. A lista inclui um assessor do prefeito de Campinas, Jonas Dozinette (PSB), que governa em coligação com o PSDB.

O título acima, propositalmente bombástico, sugere como a mídia tucana interpretaria o episódio se envolvesse uma gestão petista. Ironias à parte, contudo, o exagero é apenas aparente. Afinal, o assessor preso, filiado ao PSB, ocupava um cargo de confiança no gabinete do alcaide. E pode representar a influência da notória rede criminosa na cúpula administrativa de uma das maiores cidades do país.

Quem indicou o cidadão para um posto de tamanha importância? Como ele chegou ao PSB? Que ligações possui com os vereadores da base governista? Quais atividades exerceu na campanha de Jonas e, depois, na sua gestão municipal? É verdade que fazia lobby para o nebuloso setor do transporte alternativo?
           
Essas questões seriam prontamente averiguadas pela imprensa corporativa se ela tivesse mínima lisura jornalística. Haveria um escândalo nacional, equivalente à gravidade do caso. E os guardiões da moralidade vomitariam desabafos indignados sobre o nível de corrupção a que chegaram os aliados de Geraldo Alckmin.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A estranha reação do STF



















Publicado no Brasil 247

O debate sobre as flagrantes inconstitucionalidades que marcaram o encarceramento do senador Delcídio Amaral está deixando passar a grande questão do episódio: por que prender o indivíduo agora? Por que não processá-lo nos ritos normais, que acabariam inevitavelmente arruinando sua carreira política e seu apoio no Congresso?

A tese de “obstrução da Justiça” é ridícula. Ora, depois que o Judiciário conheceu o teor das gravações, a chance das tramóias vingarem desintegrou-se. Réu nenhum conseguiria fugir. Além disso, do ponto de vista estratégico, seria mais inteligente acompanhar as manobras de Amaral, apanhando todos os envolvidos no auge da ação criminosa.

Então repito: por que interromper um conluio fadado ao fracasso, diminuindo assim o alcance das investigações? Que tipo de malefício Amaral poderia causar conspirando à toa, sob a fiscalização atenta das autoridades?

Isento e probo como é, o STF não precisa temer ilações maldosas. Com o apoio da imprensa, os ministros citados já tiveram inúmeras oportunidades para afastar qualquer suspeita incômoda. A prudência legalista inclusive traria benefícios à imagem da corte, manchada exatamente pelo partidarismo intempestivo dos tempos de Joaquim Barbosa.

Tudo isso apenas reforça a certeza de haver um esforço na cúpula do Judiciário para evitar que as apurações em curso ultrapassem certos limites. Os elos de Amaral e do banqueiro André Esteves com o PSDB, de resto notórios, ganharam menções bastante constrangedoras nos diálogos que arruinaram o senador.

Amaral e Esteves trazem consigo a Petrobrás dos anos FHC, um nebuloso parente de José Serra, a Alstom da máfia metroviária paulista e as viagens de Aécio Neves. Sem contar Renan Calheiros, Michel Temer e os ministros do STF mencionados. É fácil imaginar o estrago que causariam algumas horas a mais de conversas grampeadas.

Alguém parece ter decidido recolher o falastrão antes que o caldo entornasse de vez.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

“Victoria”


















Suspense policial filmado num único plano-sequência, mais de duas horas transitando por inúmeros cenários, em situações de forte carga dramática. Prodígio técnico da equipe, especialmente do fotógrafo Sturla Brandth Grøvlen.

Outro desses trabalhos que só a tecnologia digital proporciona. Mas não possui os truques de “Birdman” (Alejandro Iñarritu) para forjar o efeito de continuidade, nem o porte da sua produção. Tampouco se restringe a um único ambiente, como o magistral “Arca Russa” (Alexandr Sokurov).

O ator e diretor alemão Sebastian Shipper teve três chances de captar toda a história sem cortes. A versão escolhida, a última realizada, traz um andamento meio arrastado na primeira metade, mas o resto do filme retribui a paciência do espectador. A partir de certa altura simplesmente ignoramos a falta de edição.

Assistir à versão original, sem legendas para os diálogos em alemão, aproxima-nos da experiência desesperadora da protagonista, uma espanhola que só fala inglês e luta para entender o que se passa com os personagens quase monoglotas. Esse recurso valoriza a entrega comovente da talentosa Laia Costa no papel-título.