sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sobre o blog tucano
















Então descobriram que o tal Fernando Gouveia recebe 70 mil reais por mês do governo Alckmin. Nada mau para quem atacava os “blogueiros sujos” do Planalto, não é mesmo?

Em vez de questionarem os motivos da Folha de São Paulo na divulgação do caso, os blogueiros governistas deveriam indagar por que esta não ocorreu graças a algum veículo de esquerda, ou mesmo à própria blogosfera dita “progressista”. Bastava um pouco de espírito investigativo e duas ou três consultas a dados públicos. Uma figura manjadíssima como Gouveia jamais atraiu a curiosidade da imprensa combativa?

Esse estranhamento se agrava com a passividade da militância diante do escândalo. Setenta paus é muito dinheiro para uma empresinha com apenas dois sócios. Sendo verba de subcontratação, pior ainda: podemos só imaginar o tamanho do faturamento das agências contratadas diretamente pelo governo paulista. Deve haver mais gente recebendo nacos da fortuna, talvez de maneira irregular. Mas ninguém parece muito preocupado em solucionar uma dúvida tão cruel.

Gouveia é a ponta menos incógnita de um iceberg secreto a serviço da propaganda tucana. As redes sociais estão entupidas de gente promovendo ideias esquisitas. Não há acasos ou ingênuos nesse meio. A partir dos nomes ligados a José Serra, por exemplo, dezenas de elos tenebrosos podem vir à tona.

O mesmo vale para a turma do impeachment. As manifestações recentes, desde a divulgação até a infraestrutura, contaram com mão-de-obra profissional e vasto aporte financeiro. Quem paga tudo aquilo? Aposto que na ponta da capivara existe verba pública, disfarçada em alguma “licitação” milionária.

Se dependermos da Folha de São Paulo para conhecermos a verdade, estaremos fritos.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A arbitragem é o retrato do nosso futebol


















Publicado no Brasil 247

Aconteceu de novo. Um gol legítimo da Ponte Preta foi anulado e o time perdeu a vaga na semifinal do Campeonato Paulista para o Corinthians. O lance não apresentava dificuldade, nem exigia interpretação. Tampouco bloqueou uma jogada com desenlace imprevisível. A bola entrou, de maneira límpida e incontroversa.

Os responsáveis pela arbitragem justificaram o prejuízo irremediável dizendo que “o erro faz parte do jogo”. Acontece que todo ano ocorrem “acidentes” parecidos. Sempre favorecendo os times poderosos, em decisões com equipes menos privilegiadas. É impossível acreditar em casualidade.

A CBF e suas representações estaduais manipulam descaradamente os campeonatos que organizam. No sistema de pontos corridos, repassando (muito) mais dinheiro da TV aos seus favoritos. Nas disputas eliminatórias, escalando juízes e auxiliares que “erram” contra adversários indefesos. Não há recursos possíveis às vítimas.

As instâncias capazes de influir nos resultados de jogos e torneios estão sob controle dos clubes das capitais, através de seu poder nas federações. É como se as disputas de certo ramo corporativo fossem fiscalizadas por funcionários das maiores empresas.

Isso parece aceitável apenas no futebol brasileiro, visto como atividade menor, folclórica, indigna de obrigações com a legalidade. Repetindo o vício usual nas relações de consumo, abandona-se o esporte num limbo jurídico, onde torcedores, atletas e agremiações não têm qualquer proteção contra o cartel em exercício.

A imprensa possui grande responsabilidade na legitimação do esquema. Porque endossa a mentira do equívoco inocente. Porque evita fazer levantamentos estatísticos das lambanças das arbitragens. E principalmente porque subestima o problema, ignorando-o nas suas bravatas moralistas.

Não faltam propostas viáveis para amenizar o problema. O recurso visual, por exemplo, corriqueiro em diversas modalidades. Mas o ideal seria quebrar o domínio da CBF e das federações sobre a arbitragem, pelo menos concedendo aos times o direito de fugir dos conchavos regionais. Ou alguém acredita que a Ponte passaria pelo São Paulo nas semifinais da Copa Sulamericana de 2013 se os árbitros fossem brasileiros?

Qualquer projeto digno de moralização do futebol precisa coibir esse absurdo ancestral e reincidente que pereniza o poder de uma elite corrupta. Chega de tratar a injustiça desportiva como algo fortuito ou natural. Antes que percamos de vez a capacidade de nos indignarmos.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

“Mapas para as estrelas”


















Retrato impiedoso do universo das celebridades midiáticas, hollywoodianas em particular. Diálogos contundentes e personagens cruéis, que chegam a soar engraçados de tão verossímeis e repugnantes. Um pequeno tratado sobre o cinismo habilmente construído pelo roteirista Bruce Wagner.

O estilo inconfundível de David Cronenberg dá solidez à abordagem, no estranhamento (e na deformação) dos corpos, na sexualidade latente e tortuosa, nas composições visuais que sempre têm algo de incômodo. Também na direção do elenco estelar, com destaque para Julianne Moore, premiada em Cannes pelo filme.

Muito se especula sobre os subtextos e as alegorias do enredo. Acho mais seguro apostar nas óbvias dicotomias (fogo e água, sonho e realidade, passado e presente) e naquilo que elas sugerem sobre o mundo sombrio do entretenimento.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O protesto meio cheio


















As manifestações fracassaram porque prometiam levar um número crescente de pessoas às ruas e mal chegaram a um terço da participação anterior. Também ruiu a fantasia da heterogeneidade social do movimento, que pareceu ainda menos defensável.

A derrota maior coube à mídia corporativa. O poder propagandístico empenhado pelos grandes veículos foi equivalente à decepção com os resultados obtidos, ferindo a própria credibilidade das empresas jornalísticas.

Não subestimemos o tamanho dessa frustração. O noticiário provocativo durante o domingo chegou a níveis patéticos (“70 pessoas em Arapiraca!”), faltando pouco para a convocação aberta. As contagens de público pareciam relatar apurações eleitorais, com a mesma expectativa e, por isso, o mesmo constrangimento final.

Previsivelmente, o comentarismo golpista procura consolos que preservem a relevância da campanha. Mas é fácil perceber os analistas desnorteados e macambúzios, fazendo um ridículo esforço para transmitir otimismo com os atos meio vazios.

O malogro evidencia que a bandeira do combate à corrupção é um tiro no pé dos defensores do impeachment. As duas plataformas são incompatíveis num ambiente apartidário. Quanto mais a moralidade pública norteia o discurso revoltoso, mais difícil fica para o antipetismo instrumentalizá-lo.

Insisto, portanto, na necessidade da esquerda aproximar-se dos protestos, usando suas pautas éticas para conquistar espaço e visibilidade. Assim que os interesses da mídia, do empresariado e dos governos regionais sofrerem abalos (como já começou a ocorrer), o golpismo voltará à insignificância original.

sábado, 11 de abril de 2015

“Fine and mellow”


Canção escrita e interpretada pela inigualável Billie Holiday (1915-1959). A gravação também traz um elenco estelar nos sopros.

Outra com ela aqui.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Entrar no jogo

 










Sei que provoquei arrepios ao sugerir que a esquerda comece a participar das passeatas, explorando suas incoerências e falsidades. É fácil entender a necessidade de quebrar a ilusão maniqueísta entre inimigos e cúmplices da ilicitude, mas bem menos tranquilo aceitar a adesão provocativa como estratégia de confronto.

Acontece que não há alternativas melhores no espaço de luta política em que o golpismo tem avançado. A via do protesto antagônico, na linha esboçada em 13 de março, tem pouca chance de êxito, pois jamais desfrutará do imenso aparato divulgador que a mídia coloca a serviço da direita. E, mais importante, reforça a dicotomia entre bons e maus que norteia o tema no imaginário popular.

Agir no seio da indignação moralista remete ao Cavalo de Tróia da mitologia: fingindo aderir à causa principal (derrubar Dilma Rousseff), os infiltrados usariam a premissa da corrupção para atingir também os inimigos do petismo. O choque resultante provocaria os debates que faltam sobre o tema, quebrando a apropriação do mote legalista pela direita e rasgando a fantasia apartidária dos protestos e da imprensa que os promove.

Não se trata de defender o governo federal, mas de forçar a participação dos progressistas numa instância de cidadania que tem sido interditada a quem ousa desafiar o falso consenso reacionário.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Fora todo mundo

















Publicado no Brasil 247

É típico do uso partidário do combate à corrupção dividir a sociedade entre os adeptos da cruzada saneadora e os cúmplices da roubalheira. Essa armadilha serve justamente para ocultar a instrumentalização, pela direita, da pauta da moralidade pública.

Mas o conservadorismo da bandeira anticorrupção não reside apenas no seu uso por facções políticas. A tática de acuar o governo federal visa mais do que impedi-lo de guinar à esquerda para recuperar o apoio das bases. Visa também evitar que o Planalto reivindique e incentive ações de combate ao crime para além dos domínios petistas.

A estupidez do impeachment serve à impunidade geral. A mídia endossa a ideia de afastamento de Dilma Rousseff para ofuscar a roubalheira generalizada e para que o absurdo e a inviabilidade da iniciativa golpista contaminem o debate sobre a corrupção no país.

Não é coincidência que a bobagem ganhe força junto com a descoberta de escândalos que mancham a hipocrisia moralista da direita. Sabendo que Dilma não cairá por vias legítimas, a oposição tenta enfiar seus apaniguados sob a mesma blindagem. Transformando-a em bode expiatório da pizza resultante.

Apesar da irracionalidade e do oportunismo da caça às bruxas, a esquerda comete um erro estratégico ignorando o fenômeno. O silêncio orgulhoso dos sensatos permite que os brucutus se apropriem de uma causa forte e sedutora, naturalizando a falácia de que apoiar o governo federal equivale a aceitar ilicitudes.

Os adversários da histeria, dentro e fora do governismo, fariam melhor lidando cinicamente com os cínicos. Em vez de repudiar o clima justiceiro, deveriam alimentá-lo até o paradoxo, participando das passeatas com cartazes de “Fora Alckmin”, “Fora Richa” e “Fora Serra”, e faixas sobre as contas secretas na Suíça, os mensaleiros tucanos e a máfia dos cartéis metroviários paulistas.

Aderindo ao estímulo majoritário das manifestações, o gesto não poderia ser acusado de malicioso ou ilegal. Qualquer advogado consegue uma liminar preventiva garantindo o direito de explorar o falso apartidarismo defendido pela própria liderança dos atos.

Mesmo sem autorização judicial, desde que os impertinentes se mantivessem coesos, pacíficos e imunes a provocações, os organizadores e as polícias seriam forçados a tolerar sua presença. Afinal, eles aceitam neonazistas, não aceitam?

Basta formar um bloco de míseras duas mil pessoas com camisetas da seleção, filmando cada passo, distribuindo panfletos, seduzindo populares. Depois, espalhando material nas redes sociais, causando polêmica na mídia e suscitando debates.

Aposto que a moda moralista começa a dissipar em poucas semanas.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Por que esconder as contas na Suíça?

















Apenas Fernando Rodrigues sabe quem são os brasileiros que abriram contas bancárias na filial suíça do HSBC. Mas ele não divulga esses nomes. Até agora, só identificou dados restritos a 2006 e 2007, envolvendo trinta pessoas citadas na já seletiva Operação Lava Jato. O resto, mais de oito mil e quinhentas contas, fica em segredo. E, pelo jeito, assim continuará.

O jornalista assumiu a tarefa de estabelecer o “interesse público” das informações que obteve. Isso equivale a adivinhar o que o distinto leitorado quer saber acerca do caso. Em outras palavras, o sacrossanto direito da sociedade à informação depende da ética profissional e do espírito investigativo de Rodrigues.

Os indícios de enriquecimento de familiares e amigos de José Serra na época das privatizações de FHC foram considerados irrelevantes pela mídia corporativa. Rodrigues, que fez carreira no meio, jamais usou a verve detetivesca para esclarecer aquelas estranhas coincidências. E segue achando que o período não tem “interesse público”, tanto que ignora que o número de contas abertas por brasileiros no HSBC da Suíça cresceu de maneira substancial entre 1997 e 2002.

Ora, basta juntar os documentos apresentados no livro “A Privataria Tucana” com o histórico das contas suíças. Os nomes se repetem? Possuem elos com os personagens da máfia dos cartéis metroviários, criada na mesma época? E com as famílias donas das redes Globo e Bandeirantes e do Grupo Folha, que apareceram na lista? Afinal, por que diabos Rodrigues não elucida um mistério tão simples e verificável?

A alegação de resguardar inocentes é capciosa. A citação num inquérito em andamento não previne injustiças, pois, mesmo condenados, os réus da Lava Jato podem ter contas legítimas no exterior. Ademais, se os depoimentos dos delatores da Petrobrás têm “interesse público”, ainda que não comprovados, o mínimo que a cartilha jornalística exige diante da abertura de contas estrangeiras nos contextos das privatizações ou dos cartéis é lhes conferir tratamento similar.

Rodrigues diz que a Receita Federal não responde às suas ralas consultas. Mas a imprensa precisa de governos para nortear apurações? Então por que não esperar a fase de provas para espalhar apenas as delações verdadeiras da Lava Jato? Aliás, quando as suspeitas envolvendo petistas ou agregados mereceram cautelas desse nível?

O falso zelo de Rodrigues funciona como garantia de que o Suissleaks não sairá do controle da direita brasileira. É um subterfúgio partidarizado e hipócrita para manter a lama do escândalo distante da mídia empresarial e do grande tucanato. O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos dá guarida institucional a esse logro.

Diante dos riscos que Rodrigues assume contra sua própria reputação, podemos imaginar o teor das informações que ele oculta.

sexta-feira, 27 de março de 2015

“O abutre”


















O título brasileiro infame talvez se refira ao clássico de Billy Wilder sobre o jornalismo, “A Montanha dos Sete Abutres”. Guardadas as suas proporções, o filme de Dan Gilroy tem a mesma contundência na abordagem da atividade.

O vigor da obra reside no protagonista, um dos mais complexos e instigantes desta safra hollywoodiana. Jake Gyllenhaal o compõe com extrema verossimilhança, auxiliada por uma eficaz transmutação física.

Um ensaio incômodo sobre o cinismo de parte da imprensa televisiva, o impacto das imagens e a exploração da violência. Parece indispensável para jornalistas e estudantes da área.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Panelinha


















O esforço da imprensa corporativa em construir uma imagem de multiplicidade social para os protestos apenas evidencia como ela é frágil e discutível. Mais importante: mostra que a oposição valoriza esse aspecto a ponto de forjá-lo.

A ênfase justifica-se. O absurdo investimento dos veículos na promoção das passeatas corre o risco de virar propaganda negativa, fortalecendo o arquétipo do endinheirado ressentido, que já participa do repertório político tucano.

A invenção do protesto popular passará por um teste decisivo nos próximos atos. Será interessante acompanhar suas estratégias de cooptação.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O cansaço e o panelaço

 

Quanto mais observo as imagens das manifestações de 15 de março, mais me parece evidente a homogeneidade social, talvez até mesmo étnica, do fenômeno. Seria leviano afirmar que os presentes eram apenas eleitores do PSDB, brancos ou “burgueses”. Mas fica impossível generalizar em sentido contrário, isto é, dizer que os atos espelharam proporcionalmente a sociedade brasileira.

Não quero dizer que as classes menos favorecidas estejam felizes com Dilma Rousseff, mas apenas que elas não encontram representação no movimento. O dado possui implicações políticas relevantes, inclusive quanto aos objetivos da revolta. Um inimigo do assistencialismo estatal e um beneficiário dos seus programas podem ter razões bem diversas para reclamar do mesmo governo.

A grande marca identitária dos protestos atuais é o ressentimento moralista contra a classe política. Ele só envolve a melhoria das condições de vida da população de maneira indireta e hipotética. A pauta do combate à corrupção ganha aqui um claro viés elitista, independente da origem de quem a defende, pois exige mudanças conservadoras do ponto de vista da desigualdade social.

A prisão de executivos e políticos não resolve os imensos problemas que atingem os trabalhadores (falta d’água, por exemplo) e, como observamos no caso Petrobrás, pode até agravar esses problemas se conduzida de maneira irresponsável. O desejo punitivo e a solidariedade possuem naturezas e consequências distintas, amiúde inconciliáveis.

Isso deveria ser levado mais a sério por certos analistas, que comemoram as passeatas como se tivessem uma essência positiva e transformadora. Não faz sentido, para quem ridicularizou aqueles primeiros gestos isolados do Cansei, aplaudir depois a sua temerária apoteose.

sábado, 21 de março de 2015

“Beba Coca-Cola”


Composição para coral de Gilberto Mendes, sobre poema de Décio Pignatari. Há um belíssimo documentário sobre Mendes no Youtube.

sexta-feira, 20 de março de 2015

“Força Maior”






















Interessante pequeno filme sueco, premiado em Cannes e desprezado pelo circuito brasileiro de porcarias.

Sem antecipar o enredo, é possível dizer que a avalanche possui também um sentido metafórico, ou subjetivo, no drama familiar retratado. O tratamento meio fabuloso e onírico ajuda a amenizar a temática pesada, de pendores metafísicos, explorando a comicidade das situações mais inquietantes. A ironia do tema musical (o “Verão”, das “Quatro Estações” de Vivaldi) contribui com esse efeito.

Destaque para a fotografia belíssima, de longas janelas, adequadas a enquadramentos expressivos e paisagens deslumbrantes.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A mídia apresenta suas armas

 
Publicado no Brasil 247

Quem acredita que os protestos foram surtos espontâneos de revolta desconhece a árdua rotina das mobilizações populares no país. Se as redes sociais bastassem para sublevar descontentes, as capitais paralisariam todo fim de semana. Reivindicações não faltam. O que falta é o apoio da imprensa corporativa a elas.

Trabalhos acadêmicos futuros mostrarão como o fenômeno de 15 de março de 2015 foi construído pelos grandes veículos. Ao longo das três semanas anteriores, canais de TV, emissoras de rádio, jornais, revistas e portais da internet uniram-se na divulgação do evento, associada a noticiário negativo sobre o governo federal.

Esse fabuloso esforço propagandístico deu visibilidade heroica a grupelhos irrelevantes da direita, que há poucos meses faziam passeatas minguadas e caricatas. Disseminou a imagem republicana dos atos, atraindo os adeptos das modas protestantes de 2013. E naturalizou ideologicamente o antipetismo no repertório moralista da classe média.

Desde a preparação do golpe militar de 1964, a imprensa brasileira não agia de maneira tão uníssona e articulada. Nas TVs e rádios, houve menções contínuas em todos os espaços de programação, incluindo chamadas sensacionalistas para coberturas ao vivo. Até astros e celebridades foram mobilizados. Nos meios impressos, primeiras páginas, colunas e reportagens dedicaram-se diariamente ao tema.

O recado que as empresas de comunicação transmitem ao governo federal é inequívoco: “eis o que podemos fazer contra nossos inimigos”. O gesto adquire oportunismo diante dos debates envolvendo o Marco Regulatório do setor, a reforma política e a taxação de grandes fortunas. E agora ganha ainda mais sentido com a descoberta do envolvimento de chefetes midiáticos na lista de contas no HSBC suíço.

Tendo em vista o porte do empreendimento, mobilizar 1% do eleitorado nacional chega a soar um tanto irrisório. Mesmo entre os 51 milhões de eleitores de Aécio Neves, uma fração mínima saiu às ruas. Claro que, na condição de promotora do espetáculo, a imprensa vai exagerar seus resultados, conferindo grandiosidades inéditas ao feito, sem esmiuçar os outros detalhes que também o tornaram único na história recente.

Mas é a simbologia do episódio que deveria preocupar o governo Dilma Rousseff. Repetindo março de 64 (e a coincidência nas datas não é casual), os agressores querem evitar que o Planalto supere a crise política através de medidas radicais que aglutinem as bases populares. Basta um leve sinal nesse sentido e a mídia joga o “apelo das ruas” sobre o Congresso, na forma do impeachment.

A mensagem é muito clara e preocupante para receber apenas discursos apaziguadores e promessas vazias. A não ser que Dilma tenha desistido de enfrentar seus adversários.