quarta-feira, 21 de agosto de 2019

A verdade sobre a verdade



A primeira reação da cúpula da Lava Jato diante das reportagens do Intercept residiu em obstruir a confirmação de sua autenticidade. Embora insinuassem sofrer calúnias, as supostas vítimas evitaram meios simples e eficazes de combatê-las: disseram ter apagado os arquivos originais e pouparam o veículo de acusações que o ônus da prova submeteria à perícia.

O inquérito dos hackers dificulta ainda mais o acesso à verdade. Enfiou-a num labirinto de papéis que demandam meses de verificações fajutas e inúteis, sem base comparativa possível ou desejada. As evidências ficarão ocultas, supostamente para não consumar o crime, e a versão oficial tratará de solucioná-lo usando outros materiais.

Tudo isso para esconder a nulidade da condenação que impediu a vitória eleitoral de Lula. Nenhuma revelação do Intercept possui semelhantes alcance e gravidade, tampouco o mesmo potencial de suscitar efeitos práticos imediatos. Segredo de Polichinelo da cobertura noticiosa, o tema alcança perplexa unanimidade nos círculos especializados.

O maior desafio aos objetivos da Lava Jato é o sucesso da estratégia de parcerias do Intercept. A veracidade das informações vazadas, inicialmente sujeita a controvérsia, passou a ser admitida de maneira oficiosa por todas as instâncias midiáticas e judiciais. O benefício da dúvida terminou sucumbindo à constatação de sua própria inverossimilhança.

Esse embaraço aflige as altas cortes e setores da mídia corporativa que, aderindo inicialmente à suspeita de falsificação, comprometeram-se a repudiar as conversas caso a soubessem reais. O mote da prova ilícita espana vernizes punitivistas, mas não alivia o desgaste de fingir ignorância acerca de algo repercutido em escala planetária. Provas, afinal, provam.

O STF ganhou um problema e tanto. Sabe que não poderá abraçar o outrora confortável malufismo jurídico, pois os preceitos doutrinários e republicanos que tornam as conversas abjetas são fortes e evidentes demais. Por outro lado, tratá-las como duvidosas agora reduziria o arco de atitudes do tribunal caso ele precise reagir a futuras revelações constrangedoras.

Acontece que não há saída para impedir a liberdade de Lula senão normalizando-se a ética profissional de Sérgio Moro e colegas procuradores. À luz do que ficou impossível não saber, parolagens sobre autenticidade são mera apologia ao delito. Qualquer posicionamento demanda juízos acerca dos valores constitucionais e democráticos afetados pelo escândalo.

Mantendo Lula preso, o STF abrilhantará a narrativa histórica do período com a explicação definitiva para o triunfo impune do arbítrio. Restarão identificados os cúmplices de Moro, as mentes e o poder que sempre faltaram à sua mediocridade intelectual e hierárquica. E mesmo a origem da institucionalização do fascismo no país ganhará um nexo bastante elucidativo.

Sejam quais forem os desdobramentos do episódio, e embora eles não pareçam alvissareiros, trata-se de uma derrota inédita do Regime de Exceção. Desta vez, os fatos escaparam a seu controle. A verdade sobre o golpe eleitoral da Lava Jato vazou, continuará vazando e ficará mais repugnante a cada tentativa de contê-la.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Os vazamentos provam



Os diálogos da Lava Jato divulgados até agora pelo Intercept são suficientes para anular a condenação de Lula. Provam, portanto, sua inocência. Essa prerrogativa inata da cidadania é restituída com o cancelamento de um ato judicial que venha a suspendê-la. A nulidade extingue o todos os componentes do processo.

Poucas vozes críticas repercutem de maneira clara esse aspecto óbvio e chocante. Mesmo o noticiário que denuncia o vexame ignora as suas implicações e o restringe à maleável seara ética. A moda entre os comentaristas é o negacionismo blasé, “decepcionado” com Sérgio Moro mas não com seu discurso, tratando a legislação como uma narrativa suspeita qualquer.

O motivo do silêncio reside na lógica inescapável dos fatos: se a prisão tirou Lula de uma disputa sucessória em que ele era favorito e se os vícios que anulam a condenação incluem o explícito viés político de seus artífices, a Lava Jato influiu deliberadamente no resultado das eleições presidenciais. E de maneira inconstitucional.

Muita gente participou da farsa. Da imprensa às cortes, passando pela militância digital e pelo campo jurídico, a percepção dos arbítrios contra Lula foi generalizada. Quem se omitiu o fez por adesão aos desdobramentos político-eleitorais da Lava Jato, fossem restritas à derrota do lulismo, fossem abarcando também a vitória de Jair Bolsonaro.

O apoio desses grupos ao Intercept é oportunista, contrariado e reticente. Visa domesticar os vazamentos com leituras higiênicas e descontextualizadas, que só admitem a inocência dos justiceiros. Moro agiu por soberba e afoiteza, não para favorecer o candidato que o tornaria ministro. Uma fraude eleitoral gigantesca não diminui o “legado” da Lava Jato.

O esforço apaziguador equivale à tentativa de criminalizar o Intercept, ao ridículo terrorismo com a ameaça de “anular tudo” (como se o caso Lula tivesse equivalentes) e à bobagem de que TRF-4, STJ e STF podem ser cúmplices dos delitos e ao mesmo tempo legitimá-los. Tudo isso faz parte de uma estratégia para ocultar aquilo que importa realmente. O que foi provado.

Não me iludo com as decorrências práticas das revelações, especialmente se vierem a atingir o STF, que, acuado, buscará o amparo dos fascistas. E será fácil juntar meia dúzia de juízes e desembargadores antipetistas para devolver Lula à cadeia, na improvável hipótese de soltura. Sobram mentiras para legitimar as arbitrariedades impunes do Regime de Exceção.

Isso não reduz a enorme importância histórica, pedagógica e simbólica das divulgações. Mas o cenário se aproxima de um paradoxo: quanto maior o escândalo, menos destaque receberá a nulidade jurídica da prisão de Lula e menor ainda será a consciência pública do golpe eleitoral da Lava Jato. A perplexidade se transformará aos poucos numa performance vazia.

O triunfalismo catártico do campo progressista corre o risco de despolitizar as revelações. Primeiro, tornando-as espetáculos da suposta putrefação institucional que embala o fascismo. Depois, permitindo que os bastidores dos vazamentos ofusquem seu conteúdo. Finalmente, supondo que punições individuais e autocríticas solenes encerram o assunto.

As reportagens do Intercept são provas cumulativas dos mesmos fatos originais. Resta apenas sedimentar esse nexo probatório nos debates vindouros, de maneira explícita e incondicional. Só assim as coisas passarão a fazer algum sentido, tanto naquilo que as informações ensinam sobre o passado recente do país, quanto no próprio gesto de divulgá-las.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A Lava Jato produziu o governo Bolsonaro



Os antigos defensores da Lava Jato, que festejaram quando a prisão de Lula impediu sua vitória eleitoral, reagem com perplexidade às estultices do governo Jair Bolsonaro. Ignorando a óbvia relação causal dos fenômenos, fingem que o jabuti subiu na árvore sozinho, como se a tragédia anunciada fosse um mero acidente de percurso na Cruzada Anticorrupção.

É fácil notar que a Lava jato enriquece delatores, advogados e multinacionais estrangeiras. Já considerá-la benéfica para o povo que a financia depende do repertório de valores de cada um. Se derrotar o lulismo compensa quaisquer sacrifícios, colapsos e prejuízos, maravilha, deu certo. Se nada justifica eleger milicianos e dementes obscurantistas, a conta não fecha.

O meio-termo, usado por muitos para fugir do dilema, disfarça a escolha pela primeira opção. Um dos apelos do imaginário fascista reside justamente em prender (e matar) bandidos. Não é outra a origem do discurso de que a corrupção supera negativamente a desigualdade social, a incompetência administrativa e o racismo institucionalizado. Ou o próprio fascismo.

E precificar os lados da balança não ajuda a equilibrá-la. Quantas fortunas recuperadas pagam a destruição da universidade pública, da cultura, dos direitos individuais? Quantos larápios aposentados ou irrelevantes compensam a inelegibilidade de um candidato favorito a presidente da República, o único capaz de impedir a escalada reacionária?

A agenda saneadora jamais precisaria da Lava Jato e do resultado eleitoral que ela gestou. As condenações de burocratas e políticos metidos em esquemas antigos e notórios seriam resolvidas há décadas, sem rótulos espalhafatosos, desde que policiais, procuradores e juízes cumprissem suas prerrogativas básicas. Todos esses casos dispensariam os arbítrios aplicados a Lula em nome da impunidade alheia. Só a excepcionalidade atingiria o petista.

Nisso a Lava Jato, porque ideológica, foi eficaz: partidarizou a constitucionalidade, tornando o antipetismo um alento moral para a naturalização do arbítrio. Nada mais explica o silêncio das cortes superiores diante dos métodos aplicados a Lula, cheios de vícios primários, que teriam derretido qualquer processo “comum”. O fato de não criar precedentes, mas exceções pontuais irrepetíveis, mostra o caráter deliberado e sistemático dessa covardia.

Basta resumir a trajetória de Sérgio Moro para sabermos que não houve mera coincidência entre as suas atividades e a ascensão fascista. O juiz vazou grampos ilegais para derrubar um governo, condenou por “crime indeterminado” o candidato do mesmo partido, manteve-o incomunicável na disputa eleitoral, ajudou a campanha do seu maior adversário e se tornou ministro da chapa vencedora. A de Bolsonaro, que lhe prometeu uma vaga no STF.

Esse pragmatismo oportunista só faz sentido como estratégia de poder. Não há justificativa técnica para encenações midiáticas e vazamentos de dados sigilosos. E é ilustrativo o gosto contraditório pela publicidade numa operação que resguarda seus próprios segredos tão bem, inclusive negando às defesas o acesso a documentos dos inquéritos.

A evidência final de que a Lava Jato pariu o monstro está na afinidade ética de ambos. O recurso de Moro ao espetáculo obscurantista e a manobras clandestinas sempre que algo ameaça seus interesses é típico do governo que o abriga. As pressões de militares sobre o STF na campanha e a desobediência às ordens de soltura de Lula têm a mesma essência.

Refém da desgraça bolsonariana, incapaz de sobreviver a uma CPI bem feita, a Lava Jato virou parte do sistema viciado que prometia destruir. É impossível separar cruzados judiciais e administrativos, pois o elo populista que os une também lhes confere sua única fantasia de legitimidade. Eles dependem do mesmo contingente raivoso e vingativo.

A normalização do país exige, portanto, que todos os articuladores do golpe que tirou Lula da disputa presidencial respondam juntos pelo desastre resultante. Permitir que os indignados tardios reciclem a agenda salvacionista, quiçá em torno do próprio Moro, seria um aval para novas aventuras tenebrosas da “gente de bem” que o idolatra. Os arrependidos de hoje sabiam, desde o início, aquilo que a Lava Jato preparava.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Liberdade de exceção



Existem diversas leituras razoáveis para a crise que envolveu o STF, o Ministério Público e veículos da direita midiática. Nenhuma delas inclui a defesa ou o cerceamento da liberdade de expressão. Essa narrativa é sedutora, mas não condiz com as atitudes dos seus porta-vozes e tampouco motiva os interesses que a puseram no centro dos debates.

Se as prerrogativas constitucionais de fato importassem, seus atuais defensores teriam reagido com a mesma veemência quando a Folha de São Paulo censurou judicialmente uma página virtual que a ironizava. Ou quando certo diretor da Globo processou um blogueiro que o mencionou de maneira indireta, em contexto ficcional. Ou ainda quando a delegada federal conseguiu silenciar os questionamentos incômodos que lhe fazia um jornalista.

Os exemplos são mais numerosos e absurdos do que nosso espírito libertário seria capaz de suportar. Nos rincões interioranos, os conflitos se resolvem com ajuda policial, para não citar o fuzilamento sumário, dispensando requintes processuais. Nos grandes centros, os casos mais civilizados arruínam indivíduos econômica e profissionalmente, por litigâncias intermináveis, caríssimas, abusivas. E quase sempre vencidas pelos cerceadores.

O desrespeito à livre manifestação está em todo lugar. Na proibição a Lula de conceder entrevistas e participar da propaganda eleitoral do PT. Nos vetos a reuniões de estudantes universitários. No patrulhamento a professores e funcionários públicos. Nas exposições de arte suspensas e nos artistas presos e humilhados. Na repressão violenta a manifestantes pacíficos e até a faixas políticas em estádios de futebol.

Judiciário, Ministério Público, imprensa corporativa, governo federal, ninguém dá a mínima para a liberdade de expressão. A dos outros, entenda-se bem. Para os “nossos”, vale tudo. Especialmente se a vítima da ofensa é a deputada petista, a vereadora do PSOL assassinada, o deputado gay que sofre ameaças, o ex-presidente retratado como bandido no filme de quinta categoria. Mas ninguém se atreveria a ofender a honra de Sério Moro, “talquei”?

Exatamente porque seletiva, a defesa de direitos é um discurso calcado no pressuposto de que uma parcela da sociedade não pode ter a mesma garantia. Ou melhor, um gesto simbólico que afirma a insignificância dos prejudicados e a superioridade dos seus antagonistas. O sigilo que impede a plena defesa de Lula torna-se desnecessário para os veículos divulgarem dados sigilosos que supostamente o incriminam. O absurdo faz parte da mensagem.

O uso retórico das liberdades é tudo, menos inocente. Dos grampos ilegais das conversas de Dilma e Lula, nas vésperas do golpe, ao apelido inócuo de um ministro da corte que julgará o recurso do ex-presidente, passando pelo depoimento inválido de Antônio Palocci, em plena campanha presidencial, há sempre um nexo oportunista nas boas intenções da mídia.

Por isso, quando se escudam na defesa da livre expressão, sabemos apenas o que os ataques ao STF não pretendem. A defendida liberdade para constranger o tribunal é a apologia pura desse constrangimento. Fosse um email insinuando a amizade de Moro com advogados de réus, teríamos uma campanha pela limitação responsável do que pode vazar.

Ninguém está acima da lei, exceto quem repete essa mentira.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Lula é a referência



Para recuperar a competitividade eleitoral, a esquerda precisa adotar novas táticas discursivas. Embora legítima e imprescindível, a pauta humanitária atesta a identidade política de Jair Bolsonaro e a coerência de sua plataforma hedionda, permitindo que ele controle os debates públicos através da verborragia esquizofrê­nica. Falta abalar o triunfo simbólico do projeto fascista e desestabilizar o conforto retórico de seus adeptos.

A busca pela vulnerabilidade narrativa do bolsonarismo poderia começar na sua obsessão por Lula. O ex-presidente incorpora o Outro rejeitado que positiviza o retrocesso, o antagonista que Bolsonaro maneja para traçar uma singularidade ideológica. Um Lula às avessas, o poste da Lava Jato afirma-se negando o modelo, mas preservando-o para usos oportunos.

Ora, sendo Lula uma referência privilegiada para a direita, por que não explorar o seu imenso potencial de comparação? Bolsonaro fugiu desse problema na campanha, mas venceu prometendo soluções milagrosas para o colapso gerado pela incompetência petista. O mínimo que se pode exigir do mito é superar administrativamente o grande enganador petralha.

Os índices dos governos Lula deveriam tornar-se base cotidiana para o acompanhamento da gestão Bolsonaro, em fóruns digitais, manifestações no Congresso, entrevistas de lideranças partidárias, blogs, páginas exclusivas na internet e até painéis publicitários. Criando uma enorme sombra de eficácia alheia em torno dos salvadores ultraliberais, um círculo virtuoso de “expectativas saudosas” que ressuscite as pautas relevantes de fato para a sociedade.

Sempre que os porta-vozes do bolsonarismo atacarem os paralelos, o jogo de réplicas e novas respostas ajudaria a sedimentá-los como tópico de discussão. O incômodo faria os governistas desqualificarem Lula, admitindo a premissa comparativa e seu potencial embaraçoso. A virulência ideológica do fascismo fortaleceria o apelo persuasivo das estatísticas. Quanto maior o ataque ao ex-presidente, mais enfática a cobrança para que ele seja superado. E maior a percepção do abismo que o distingue dos inimigos.

Cada pretexto para desviar o assunto (Dilma, crise, malufismo, etc.) oferece meios de retomá-lo. Acima de tudo, porém, a relevância de Lula afirma-se num motivo simples e indiscutível: só ele poderia vencer as eleições no lugar de Bolsonaro. As implicações desse fato, unindo os avanços de outrora à condenação arbitrária do ex-presidente, vão além de minúcias judiciais e folclores punitivistas, atingindo inclusive as pessoas decepcionadas com o PT.

Embora desagrade certos esforços para transformar a esquerda numa facção moderada (“construtiva”) do antipetismo, a proposta não alimenta delírios hegemônicos ou sebastianistas. Basta-lhe semear provocações incômodas nos consensos vigentes, usando critérios técnicos e positivos que não reproduzam os falsos encantos da doutrina reacionária.

Atingindo o cerne da autolegitimação fascista, o resgate da memória do lulismo talvez seja uma alternativa pragmática de luta nessa interfase eleitoral. Especialmente porque preencheria a perigosa lacuna de referências gerada pelo previsível fracasso de Bolsonaro, invertendo o jogo de vitimização que seus adeptos preparam para justificá-lo.

As manifestações coletivas de repúdio a Lula mostram que o furor das vaias e dos insultos visa acima de tudo calar o dissenso, impor a amnésia e a injustiça como fatos consumados. Esse ódio reflete medo, mostrando quão frágil é a virulência fascista, ansiosa por esconder seu maior fantasma numa solitária em Curitiba.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Idealização de Boechat precisa ser questionada



Publicado no Observatório da Imprensa

O volumoso necrológio do jornalista Ricardo Boechat foi digno de sua importância para a história da profissão no país. A trajetória pelos maiores veículos noticiosos e o vasto rol de premiações explicam as homenagens unânimes dos colegas. Verdadeira celebridade, recebeu merecida comoção popular diante da tragédia estúpida que o atingiu.

Mas seria indigno da memória do grande jornalista dedicar-lhe uma condescendência que ele próprio evitava na labuta cotidiana. Boechat decerto adivinhava os efeitos colaterais da postura independente e personalíssima que o definia, e esses desdobramentos fazem parte da complexidade e da riqueza do trabalho que o consagrou. Podemos respeitar o falecido sem transformá-lo num objeto de hagiografia populista.

Não me refiro ao indivíduo, ao pai de família, ao companheiro de tantas pessoas cujo luto exige a mais solene consideração. Trata-se aqui de uma reflexão exclusivamente ética, no sentido clássico da palavra, restrito à figura pública de Boechat e a seu papel nos debates sobre a prática jornalística. Aproveitando o esforço para torná-lo um modelo, uso-o como exemplo da necessária cautela ao abordar personagens de sua envergadura.

Meu primeiro questionamento envolve a tendência de minimizar certas colocações infelizes do jornalista sob as desculpas do humor, do improviso e das (baixas) expectativas do público. Basta lembrar um caso emblemático: a sugestão de que Dilma Rousseff quis visitar Lula na cadeia para um “encontro íntimo”, como se não houvesse outra razão possível, ou, pior, como se a ironia sexista fizesse contraponto razoável ao suposto cinismo do pedido.

O segundo problema, de natureza parecida, é a transformação de comportamentos profissionais reprováveis em deslizes menores de personalidade. Não podemos simplesmente ignorar os indícios de assédio moral no ataque virulento e insultuoso de Boechat a uma colega de trabalho, flagrado pela câmera do estúdio. Ou esse nível de agressão faz parte das normas de conduta da categoria? Seria apenas uma “bronca” na rotina das redações?

A terceira ressalva, de mais amplo escopo, se refere à natureza do jornalismo praticado por Boechat na sua militância apaixonada a favor da operação Lava Jato. Considerá-la um marco revolucionário da história brasileira constitui, evidentemente, prerrogativa básica do opinionismo. Algo bem diverso é privar a audiência de informações cruciais para o entendimento do que estava em jogo no último processo eleitoral.

Boechat participou ativamente na vilanização da classe política e na glamorização do campo judicial que culminaram no avanço reacionário. Contribuiu para a falaciosa assepsia ideológica da agenda punitivista e dos cruzados que a usaram para práticas ilegais. Omitiu ou suavizou as arbitrariedades cometidas contra Lula, ridicularizando seus defensores. Em suma, ajudou a naturalizar o Regime de Exceção que patrocinou a vitória de Jair Bolsonaro.

Sempre houve diversos caminhos possíveis, que não se desviariam necessariamente pelo proselitismo partidário. Enquanto Boechat reivindicava isenção jornalística nos aplausos a meganhas e magistrados nebulosos, eram jornalistas como ele que denunciavam as manobras da Polícia Federal em Curitiba, o papel do Judiciário no golpe, as injustiças contra Lula, os desvios de Sérgio Moro e a atuação política do Ministério Público.

Tudo isso agregando fatos documentados, testemunhos, depoimentos de especialistas, citações jurídicas. Material noticioso, portanto, de relevância inquestionável, que Boechat conhecia e não julgou oportuno explorar. O menosprezo por essas evidências e a adesão à narrativa legalista da excepcionalidade constituem atitudes legítimas, sinceras e coerentes, mas também tecnicamente reprováveis e marcadas por leituras equivocadas de conjuntura.

Esse posicionamento desinformou a audiência porque a induziu a acreditar que os métodos corruptos não desqualificavam os resultados da Lava Jato, que a destruição da candidatura Lula independia do escancarado partidarismo dos condenadores e que a pauta repressiva era preferível à defesa de direitos individuais. Embora repudiasse o fascismo, Boechat reverberou seus discursos e endossou a principal estratégia que levaria à sua vitória.

Apesar da gravidade dos erros, porém, não seria justo ou produtivo fazer do jornalista um bode expiatório do complexo fenômeno eleitoral. Questiono sua idealização póstuma pois a considero parte de esforços para limpar a imagem dos veículos informativos que toleraram ou favoreceram a ascensão fascista. Noutras palavras, um instrumento cínico e oportunista de autoelogio corporativo, tentando edulcorar a vergonha histórica da grande imprensa pela postura irresponsável diante dos escândalos que anunciavam o triunfo do obscurantismo.

Seria interessante usar um pouco do senso crítico e do ceticismo de Boechat contra seus próprios aduladores. Pela proximidade biográfica, iniciaríamos com um balanço do viés tendencioso do grupo Bandeirantes, outrora engajado na propaganda do golpe parlamentar e depois na promoção da candidatura Bolsonaro. Em seguida analisaríamos o padrão ideológico do grotesco noticiário policial, dos rudimentares programas locais de rádio e das demagogias moralistas do comentarismo esportivo.

Mas sabemos que esse debate não prospera: o imaginário messiânico sustenta o espírito cruzado e impede que a aventura punitivista se revele uma simples estratégia de poder. Boechat, que acreditou na fantasia, recebe o prêmio de ser incorporado a ela. E não surpreende que os campos jornalístico e judicial compartilhem agendas e referências éticas, tendo em vista o valor que ambos conferem aos respectivos mitos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Quem são esses culpados?



A tragédia de Brumadinho vem provocando ataques raivosos contra um inimigo de muitos nomes: “o Brasil”, “este país”, “aqui”, “nós” (os “brasileiros”), etc. Trata-se de vício antigo e complexo, mas que, no triste episódio da mineradora, soa particularmente inaceitável.

Primeiro porque, a rigor, o raciocínio é falso. Mais da metade das ações da Vale pertence a investidores estrangeiros, com importante participação da multinacional japonesa Mitsui & Co. Foi uma consultora alemã, a TÜV Süd, que certificou a segurança da barragem rompida. As atividades da mineradora são financiadas por governos de todo o planeta.

A deturpação sugere exclusividades falaciosas. Uma das donas da Samarco, responsável pelo desastre de Mariana, é a anglo-australiana BHP Billiton. Em 2016, a Arcelor Mittal, de Luxemburgo, foi multada por emissões de poluentes em Vitória. A norueguesa Hydro Alunorte sofreu denúncia na ONU pela poluição dos rios e igarapés de Barcarena (PA). Brasileiros não participaram dos vazamentos de combustível da Exxon, em 1989, e da British Petroleum, em 2010, nem dos rompimentos de barragens da italiana Prealpi Mineraria, em 1985, e da sul-coreana SK Engineering & Construction, ano passado.

A mesma falácia deturpa a origem da “nossa” corrupção. A Alstom, cuja diretoria subornou membros do governo tucano de São Paulo, é francesa. Os desvios do cartel chegam a 300 milhões de reais, fora superfaturamentos. São estrangeiros os laboratórios farmacêuticos cujas patentes causam prejuízos de 100 milhões de dólares por ano ao sistema público de Saúde.

Poderíamos alongar a lista com evidências do poder persuasivo de corporações internacionais sobre autoridades brasileiras nas áreas do entretenimento, da telefonia, da TV a cabo, dos eletrônicos, etc. Quase todos os lobbies envolvem atividades ilegais ou eticamente discutíveis, muitas delas proibidas nos países em que essas companhias mantêm seus escritórios centrais.

As fortunas destinadas a corromper brasileiros precisam sair de caixas controlados pelos altos círculos administrativos das multinacionais. Também as práticas temerárias e negligentes das filiais, quando incluem grandes riscos, dependem da conivência ou ao menos da omissão de suas diretorias estrangeiras, além das prestadoras de serviços de consultoria e certificações.

Por fim, cabe realçar a incoerência esperta da mania generalizante. Quem dissemina culpas por Brumadinho não ousa disseminar também o fascismo que elegeu Bolsonaro. As pechas de patriota e ufanista, que servem para desqualificar os críticos da simplificação tola do desastre, alimentam o orgulho dos simplificadores no front ideológico. Crimes de estatais são do governo, mas os da iniciativa privada caem na conta do “povo”.

O maior efeito negativo da autodepreciação coletiva reside em contribuir para a impunidade dos responsáveis diretos e indiretos pela tragédia: funcionários e executivos, deputados estaduais e federais, membros de órgãos fiscalizadores, magistrados de vários níveis. Todos têm nomes e sobrenomes, obrigações funcionais, atitudes registradas em atas e memorandos.

O desabamento foi causado por essas pessoas, não por entidades difusas como “a Vale”, “a Natureza”, “o Brasil”, “o capitalismo”. Se procuram uma especificidade brasileira, os analistas podem começar em seu próprio receio de contrariar poderosos de qualquer procedência. Nada mais tipicamente verde-amarelo do que pulverizar indignações para que elas não atrapalhem os negócios da “gente de bem”.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A exceção



Chega a ser hilariante a pantomima de suas excelências para evitar que Lula saia da prisão. As incursões pela comédia escatológica, pelo surrealismo de hospício tipo Ken Russell ou Luis Buñuel. O surto amoral que põe magistrados, militares, jornalistas e palpiteiros, nus, urrando no banquete, pintando-se de comida. Um mergulho no delírio da ausência de regras, cerimônias, prerrogativas, decoros.

Não restava uma vírgula jurídica nos ataques à decisão monocrática de Marco Aurélio Mello, provocada e obstruída por gestos igualmente monocráticos, num universo dominado pela monocracia. Não houve qualquer base legal para impedir Lula de comparecer ao velório do irmão, além de uma razoável suspeita de ilicitude na protelação da resposta.

Mas o texto absurdo faz parte da graça. Em vez de grunhir, os atores blasfemam contra o estado de Direito, aplaudem suas próprias irregularidades, chafurdam no ridículo. Estão seriamente engajados no desafio de interpretar crápulas orgulhosos, embora o ímpeto realista às vezes descambe para a caricatura. Eles se entendem, é o que importa.

E estão tranquilos, porque decerto o STJ confirmará a sentença, tirando Lula do alcance da decisão do STF sobre a segunda instância. Cuja sessão está marcada para dois meses depois, permitindo à corte posar de garantista sem favorecer o ex-presidente. Resumindo, seus recursos foram apressados para tirá-lo das eleições, arrastaram-se até que elas terminassem e de súbito passarão por uma coincidência de agendas que impedirá apenas a sua soltura.

Tudo no caso Lula é excepcional. Isso não “ocorre todo dia”, como afirma a esquerda que cai na arapuca punitivista e naturaliza a regra do fascismo cotidiano. Duvido que outro processo penal tenha suscitado tamanho espetáculo de tautologias. Quantas pessoas recebem habeas corpus do TRF e do STF que são ignorados por juízes de primeira instância? E quantas, ainda por cima, têm negado o direito ao velório de um familiar?

Nessas ocasiões tenebrosas os covardes lamentam que a “narrativa” lulista seja corroborada pelos fatos. Como se houvesse outra constatação possível, ou estivéssemos diante de uma polêmica doutrinária. O problema, para esses órfãos da racionalidade, não está nos arbítrios dos algozes, mas no embaraço de concordar com a vítima. Se continuarem tratando Lula como prisioneiro político, vai parecer que ele é de fato um prisioneiro político. Sério?

Mas engana-se quem vê no dilema um constrangimento para os cruzados. Eles querem mesmo deixar bem claro o viés ideológico de suas atitudes. Faz parte da punição. Como nos combates mais bárbaros, o sacrifício público do inimigo serve de exemplo para os derrotados e de ritual expiatório para os vencedores. E tanto melhor que a perplexidade tome escopo internacional, pois isso valoriza a mensagem e a firmeza santa dos cavaleiros.

Aí se revela a função performática da balbúrdia: o gesto de insubmissão à constitucionalidade é uma prova de poder. Nos vazamentos ilegais de Sérgio Moro, na afronta simbólica do TRF-4, na desobediência impune dos juízes de piso e no veto a uma prerrogativa humanitária de Lula sobressai a mesma verve ostentatória. A exceção confirma a força de quem a aplica.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

“Meme e aforização”



Meu artigo “Meme e aforização: uma abordagem discursiva da iconotextualidade digital” foi publicado na última edição dos Cadernos de Estudos Linguísticos (IEL – Unicamp). O texto pode ser acessado aqui.


Resumo

Este artigo busca reunir subsídios para uma análise dos mecanismos de aforização presentes nos memes digitais. Questionando a terminologia utilizada para definir um repertório tão vasto e complexo, proponho considerar o meme a partir de recorte baseado no conceito de iconotexto, herdado dos campos publicitário e jornalístico. Os critérios de abordagem seguem a linha francesa de Análise do Discurso, com ênfase no trabalho de Dominique Maingueneau. Os exemplos possuem natureza política e foram selecionados segundo a contribuição que podem oferecer ao estudo das modalidades primária e secundária de aforização.

Palavras-chave

Meme. Aforização. Análise do discurso.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

À espera dos cruzados




A Cruzada Anticorrupção finalmente se apoderou do Santo Graal político-administrativo que perseguia com fanática voracidade. Jair Bolsonaro, ungido pela seita, venceu alegando esse pertencimento. É o “poste” da Lava Jato, figura medíocre e vulnerável, submetida a interesses mais poderosos que receberão prerrogativas monárquicas para garantir sua sobrevivência.

Dizer que a Lava Jato contribuiu desacreditando a classe política é insuficiente. A virulência antipetista ganhou viés muito pragmático na condução dos assuntos pré-eleitorais, com precisão cirúrgica inexistente nos outros partidos, inclusive o pitoresco PSL de Bolsonaro. A lista de governadores e legisladores eleitos mostra que a moralidade atingiu apenas quem poderia, local e nacionalmente, atrapalhar os candidatos alinhados à causa santa.

Durante os últimos anos, procuradores e magistrados foram agentes diretos da normalização do fascismo brasileiro. No flanco repressivo, exorbitando um punitivismo inconstitucional e tendencioso contra jornalistas, militantes e líderes partidários. Na seara da impunidade, reproduzindo o hábito seletivo que garantiu a sobrevivência da Lava Jato, desde a proteção a seus membros até a blindagem daqueles que a apoiaram.

O vazamento ilegal de gravações já ilegais de Dilma Rousseff, de Lula e de familiares e advogados do ex-presidente passou incólume pelas rigorosas autoridades. O único adversário que poderia vencer Bolsonaro foi preso na véspera da disputa, por “crime indeterminado”, sem provas materiais de culpa. O STF manobrou para negar o direito de Lula ao habeas corpus e permitiu os atropelamentos de funções que barraram as ordens isoladas de soltura.

Esse padrão dominou a disputa presidencial. O TSE engoliu covardemente a pressão dos militares, as ameaças diretas de Bolsonaro, a violência escancarada de seus adeptos e sua fábrica de mentiras digitais. As cortes impediram Lula de falar à imprensa, divulgaram o depoimento inválido de Antônio Palocci, empastelaram uma revista, reprimiram debates universitários e censuraram propagandas que associavam o capitão à tortura que ele defende.

A naturalização dos hábitos nefastos das autoridades pavimenta o caminho do obscurantismo. A tolerância ante a brutalidade física de policiais, milicianos e energúmenos civis legitimará o arbítrio criminoso na solução cotidiana de conflitos. A adesão irregular de servidores públicos a absurdos como o Escola Sem Partido normalizará e disseminará o patrulhamento saneador em todos os níveis profissionais. Sérgio Moro virou ministro da Justiça, afinal de contas.

Ao mesmo tempo, a ideologia truculenta dos vitoriosos incentivará a destruição judicial dos oponentes. Podemos esperar um tenebroso varejo de garrotes, principalmente em litigâncias contra a liberdade de expressão, sob a desculpa de punir apologias ao crime, calúnias e difamações, atentados à moral, fake news, etc. A criminalização do uso do adjetivo “fascista”, por exemplo, só espera uma primeira iniciativa bem sucedida.

A vitória de Bolsonaro seguirá marcada pelo gesto agressivo que a impulsionou. Um ato sem nexo, misterioso, que a mídia transformou em espetáculo antes que o ceticismo pudesse enfraquecê-lo. Eis o núcleo imaginário do novo projeto de poder: o choque performático, a mistificação, o jogo redundante de ameaças intangíveis, o desvio pela irracionalidade.

“Não existe direito absoluto” e “ninguém está acima da lei”, os lemas do absolutismo togado, possuem utilidade metodológica. O triunfo político do Regime Judicial de Exceção baseia-se nesse discurso negativista, que nivela os cidadãos pela recusa generalizada à cidadania. Quanto mais autoritário for o governo, menos ele parecerá incompetente e corrupto. Direitos cerceados provarão a força do sistema e embalarão seu delírio revolucionário.

Mas, para as pessoas de bem, as instituições continuarão funcionando normalmente. Glória a Deus pela democracia brasileira.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A marinização de Ciro Gomes



Há semanas preparo uma análise sobre a atuação de Ciro Gomes na campanha presidencial. Outros autores se anteciparam à minha obsessão corretiva, publicando textos com viés muito semelhante. As redundâncias são inevitáveis. Tanto melhor, se fortalecerem o argumento de que o pedetista não representa uma alternativa de esquerda para as eventuais futuras eleições.

Apesar da indulgência de seus militantes, a postura de Ciro no segundo turno foi indefensável. Numa disputa “normal” já soaria imatura e incoerente, no mínimo porque ele defendeu a inocência de Lula. Entre os apoiadores tardios de Fernando Haddad, poucos se atreveram a tanto, o que não deixa de ilustrar o alcance de suas leituras sobre a ascensão fascista.

Mas contra Jair Bolsonaro não há calo pisado ou ego ferido que justifique passar a batalha decisiva fazendo turismo na Europa e chegar na véspera do pleito bancando o isentão rancoroso. Ciro literalmente fugiu da luta, satisfeito em afirmar que seu (não) voto fora declarado por frases alusivas salpicadas em dois vídeos amadores perdidos nas redes sociais.

É inútil especular o peso dessa traição no resultado, as chances improváveis de Ciro ganhar a disputa sozinho, a conveniência da estratégia petista ou a moralidade do jogo de alianças que o próprio pedetista legitimou quando acreditava poder vencê-lo. Pouco importam seus motivos pessoais e os segredos de bastidores que ele menciona, mas estranhamente oculta.

O problema reside na imagem que Ciro fez de si mesmo dando de ombros ao destino do país para vingar-se da cúpula de um partido. Não é possível aceitar que um político veterano, com ares de estadista ponderado, tome decisão dessa gravidade por ressentimento. E há algo de ofensivo na trivialidade bonachona de suas atuais manifestações sobre o tema.

Ciro parece mesmo repetir os equívocos de Marina Silva. Basta observar a facilidade com que ele incorporou os cacoetes do marinismo, particularmente a mania de vitimização e o uso do PT como pretexto coringa para amenizar suas incoerências. Também a agressividade desse discurso negativo, de incômoda semelhança com a apologia punitivista da Lava Jato.

O erro de Marina foi imaginar que, embora suas ideias não sejam “de esquerda”, talvez sequer progressistas, criticando Bolsonaro ela se garantia automaticamente no centro. Na verdade, porém, o repúdio ao PT a afastou desse objetivo. Rejeitando Haddad, um moderado clássico, a candidata reduziu-se a uma versão amena do polo vencedor. Igual a seus ex-aliados tucanos.

Ciro inoculou-se dessa esquizofrenia. Alojado num antipetismo vazio e autocomplacente, julgou pragmático abandonar o PT na certeza da derrota. Mas não percebe que a adesão tática ao eixo ideológico do Regime de Exceção inviabiliza seus planos centristas futuros. Afinal, quem faz “oposição construtiva” ao fascismo é a direita. Ou vamos agora evitar o rótulo de fascista para Bolsonaro porque Ciro precisa do figurino apaziguador?

Sem cargo de destaque, marcado pela demonstração de inconfiabilidade (algo fatal no meio político) e longe da maior bancada legislativa, o pedetista flerta com o isolamento. Quando se omitir diante dos arbítrios ou fizer discursos inábeis sobre as reformas antipopulares, ganhará imediata resistência dos movimentos sociais. E passará a atacá-los, como de praxe.

A esquerda ganharia muito se tirasse o bode eleitoral da sala, observando o cenário limpo das agendas pessoais e da intemperança autodestrutiva de Ciro. Talvez assim percebesse a falta que fazem espíritos agregadores nas articulações do campo progressista. Especialmente em circunstâncias adversas, que determinam o caráter e a legitimidade das verdadeiras lideranças.

domingo, 11 de novembro de 2018

"Estuário" à venda



"Estuário" começou a ser vendido oficialmente na página da editora Patuá, através deste link

Abaixo transcrevo a apresentação que abre o volume:


Estuário é uma coletânea de trinta e cinco poemas, produzidos ao longo das duas décadas que a separam do último livro em versos de Guilherme Scalzilli.

Os textos abordam desde tópicos universais de pendor metafísico até personagens e eventos cotidianos, passando pela ficção científica e por reflexões históricas, políticas e literárias. O ecletismo caracteriza também as opções formais da obra, que buscam assimilar referências das diversas genealogias do rigor estrutural, do verso livre e do experimentalismo.

O importante a ressaltar nas afinidades que perpassam o conjunto do livro, para além de filiações a tendências ou escolas literárias, é o nível de acabamento dos autores rigorosos no manuseio da palavra. Essa postura exigiu uma longa ourivesaria léxica, rítmica e melódica, em cujos resultados podemos constatar o rigoroso trabalho de pesquisa e amadurecimento que deu origem a Estuário.

O título remete a um encontro de vertentes heterogêneas, amálgama dialético de tradições que reúne o ímpeto e a riqueza de cada universo sem negar a sua natureza comum. A divisão da obra em três partes, alusivas ao fenômeno geográfico da metáfora paratextual (“Leito”, “Maré” e “Pororoca”), simboliza a gradativa e simultânea afluência de estímulos rumo às experiências complexas e irredutíveis que a poesia contemporânea tenta reproduzir.


O trabalho conquistou uma bolsa de criação no Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de 2016. Alguns dos poemas receberam prêmios e menções honrosas em concursos nacionais ou foram publicados em antologias.

Aproveito para agradecer ao Eduardo Lacerda pelo incentivo, pela compreensão e pelo capricho editorial. E a todos que me ajudarem na divulgação desse humilde relato de viagem. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Profecias desejosas e desejos proféticos



A esquerda superará a ressaca eleitoral quando expurgar os detritos ideológicos da campanha, entre eles a futurologia reversa que alguns comentaristas usam para legitimar suas narrativas falaciosas sobre a derrota. A onipresença do “eu avisei” em meio a tantas dúvidas ilustra a distância entre o chute e o prognóstico, os fatos e as verões que eles produzem.

Em primeiro lugar, nem todas as pessoas que dizem ter previsto a vitória de Jair Bolsonaro o fizeram realmente. E nem todas as previsões corretas possuíam argumentos sólidos para o cenário “normal” da época anterior à misteriosa facada. A esmagadora maioria dos anúncios catastróficos serviram a conveniências político-partidárias, especialmente de Ciro Gomes e Marina Silva, cobiçando o legado político de Lula.

Os setores auto-intitulados “progressistas” e antipáticos ao PT não adivinharam o fascismo antes, ou de maneira mais veemente, do que o próprio partido. Este vinha apontando a ascensão do monstro havia tempos, desde as vaias a Dilma Rousseff na Copa do Mundo até os ataques às caravanas de Lula, passando pelas simbologias raivosas do impeachment.

O antipetismo de esquerda gastou muito tempo minimizando ou desqualificando as denúncias sobre o caráter fascista da Cruzada Anticorrupção, do estelionato moral do golpe e da prisão política de Lula. O ataque frontal que unificou os democratas perplexos diante de Bolsonaro não apaga o desapreço comedido, cheio de meneios adversativos, que a maioria demonstrou quando o PT era vítima isolada do arbítrio.

A desonestidade intelectual de culpar o PT pela tragédia é tão evidente que resulta numa armadilha evasiva para dificultar a apreciação de certos dados constrangedores. Tragados por discussões inúteis sobre unidades que ninguém queria e planos hegemônicos dos quais ninguém abdicou, perdemos de vista, por exemplo, que parte dos pretensos adversários do fascismo abandonaram o país, simbólica e literalmente, apenas para negar uma vitória a Lula. Vêm dessas figuras e de seus círculos as mentiras mais evidentes sobre o processo eleitoral.

É irrelevante e leviano afirmar que, sozinho, Ciro Gomes teria mais chances na etapa final: ele nunca chegaria a disputá-la. Sem um petista para aglutinar o lulismo, Bolsonaro venceria no primeiro turno. Fernando Haddad teve ali 31 milhões de votos, 75% do total previsto para Lula. Com míseros 20% do grupo lulista indo para o capitão, mesmo na hipótese irreal de Ciro amealhar os restantes 80%, a disputa acabaria em 07 de outubro.

Especular sobre as possibilidades do segundo turno com base nos levantamentos do primeiro não passa de exercício tolo de adivinhação. Os institutos que antecipavam a vitória de Ciro contra Bolsonaro chegaram a apontar um empate técnico deste com Haddad. Estimativas que “erram” o destino de sete milhões de votos não servem para prognóstico algum.

Se o antipetismo inviabilizava a candidatura encabeçada pelo PT, isso ocorreria com um petista de vice, e talvez até numa simples aliança envolvendo o partido. Não seria possível mobilizar o lulismo sem citar Lula, mas tampouco escondê-los, pois só a imagem do ex-presidente represaria a ascensão imediata de Bolsonaro. E, no quesito “antipolítica”, Haddad é bem menos vulnerável do que Ciro.

Soa curioso que agora não encontremos quem diga ter vaticinado o triunfo do fascismo com base na incompetência estratégica daqueles que se diziam aptos a combatê-lo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A mídia naturalizou o fascismo



Publicado no Observatório da Imprensa

Tudo começou com o estranho ataque a Jair Bolsonaro. Numa rapidez incomum, os veículos de comunicação trataram de acatar não apenas a versão oficial, mas também a dos círculos próximos ao candidato. O ceticismo geral foi aplacado a golpes de moralismo civilizatório. A imagem da vítima dominou os espaços nobres do noticiário por semanas, garantindo exposição segura e positiva durante uma campanha marcada pela ausência do protagonista.

A iconografia construída em torno do acontecimento foi, digamos, singular. Do Cristo barroco nos braços do povo ao herói de guerra sob cuidados extremos, do mártir resistente ao filho pródigo que retorna em triunfo, criou-se um enredo para agasalhar os corações aflitos. Em meio a clichês do sensacionalismo policial, os balbucios perplexos do bravo militar completaram sua figura tolerante e indefesa, mística e abençoada. Às lágrimas.

Mesmo admitindo que as imagens e os depoimentos tinham relevância e que vieram de fontes externas, os veículos eram os únicos responsáveis pela organização das narrativas e por sua visibilidade. Ninguém que trabalha no meio pode alegar ignorância acerca da força simbólica do material divulgado. Não com Bolsonaro, não àquela altura da disputa.

Da mesma forma, os analistas que bradavam “atentado contra a democracia!” sabiam medir o tipo de associação legitimadora envolvida. Especialmente porque se referiam a uma pessoa homofóbica, racista e machista, defensora de assassinos e torturadores. O pacifismo seletivo dos indignados serviu à vitimização de um porta-voz da violência que eles dizem condenar.

Em seguida passaram a tratá-lo com eufemismos bondosos. É apenas um “excêntrico”, de ideias “polêmicas”, representante de certa “direita popular”. Chegamos ao ponto de ver redações patrulharem o vocabulário usado para classificá-lo e analistas desautorizando termos como “fascismo” e “ultradireita”, sob argumentos levianos e falsificadores.

O esforço culminou na postura acrítica, para não dizer cúmplice, diante dos métodos de Bolsonaro e seus acólitos. Os ataques físicos a adversários transformaram-se numa “violência política” de viés impessoal e generalizante. A disseminação unilateral e criminosa de mentiras virou uma difusa “guerra de fake news”, apelido já neutralizador e evasivo. Como se tudo fosse recíproco e espontâneo, com mínimo grau de sistematicidade ou profissionalismo.

A abordagem objetivista que Bolsonaro passou a receber após sua viabilização eleitoral faz parte de uma tentativa de amenizar o papel dos veículos nesse processo. A normalização do candidato gerou o antídoto retórico para normalizar a si mesma: agora que suavizaram o fanatismo, vestem um éthos moderado que não vê fanatismo em lugar algum.

Mas não há imparcialidade na ponderação diante de fascistas. Isso é adesão mal disfarçada. A grande imprensa fomentou por quase duas décadas um partidarismo virulento e irresponsável para chegar a essa temperança relativista diante do que há de mais pernicioso na política nacional. Os editoriais hipócritas de última hora não mudarão nada.

Às vésperas da tragédia, resta o consolo de saber que as posições ficarão delimitadas para juízo histórico. Antes que todos passem para o famigerado coro dos inocentes, cabe denunciar a tolerância da mídia corporativa com o fascismo, questioná-la a respeito, forçar a antecipação vexatória das narrativas arrependidas e desmascarar o álibi do cinismo ideológico.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O voto nulo não anula nada



Os fóruns digitais transbordam em receitas para a vitória de Fernando Haddad, exercícios de futurologia apocalíptica e sessões de ressentimento grupal. Virou hábito exigir recuos programáticos do petista, malhar a estratégia de Lula e culpar seu partido pelo triunfo momentâneo do fascismo. Todos já sabiam, avisaram, estão decepcionados.

Valesse a pena alimentar controvérsias, minha participação seria desacatar esses consensos. Por exemplo, questionando a narrativa de que Ciro Gomes teria mais chance de superar Jair Bolsonaro ou mesmo de impedir que este vencesse de imediato. O pedetista conseguiria 75% da votação estimada para Lula, como fez Haddad? O antipetismo pouparia uma chapa com o PT na vice-presidência? A bancada do PSL ficaria menor?

Também acrescentaria que a vitória do fascismo está longe de representar uma derrota isolada do PT. Foi o fracasso da direita antipetista que gerou o monstro reacionário: a frustração com o impeachment bandido, com a ruína moral da Lava Jato e com a vitimização inevitável de Lula. Os 50 milhões de votos de Bolsonaro equivalem à soma dos candidatos presidenciais do então futuro condomínio golpista no primeiro turno de 2014. Não é coincidência.

Mas prefiro fugir das platitudes hegemônicas, acomodadas em profecias autorrealizáveis e palpites desejosos. Parece mais urgente contrariar certas alas propositivas que se dedicam a afagar o fascismo como estratégia de aglutinação contra ele mesmo. Embora já presente na divulgação de dicas “sinceronas” (escondam Lula, tirem o vermelho, omitam o golpe), o esforço para tolerar bobagens chega ao ápice nos diálogos sobre o voto nulo.

Há tempos venho apontando que o “isentão” é um personagem reacionário que se legitima pela falsa imparcialidade. Tipicamente fascista, o niilismo antipolítico não rechaça todos os partidos, mas apenas aqueles que o negam e, por extensão, alinha-se aos que o adotam. Ecoando os argumentos de Bolsonaro e evitando ameaçar sua liderança parcial, o voto nulo no segundo turno revela uma escolha bem demarcada.

Isso explica os obscenos paralelos usados para rejeitar Haddad e Bolsonaro, como se fossem equivalentes em qualquer tema. Ou a defesa simultânea do voto útil para Márcio França, por exemplo, e do nulo na disputa presidencial. Pois há lógica nessa “loucura”. Quanto mais irracional o ódio ao PT, menor a sua dívida com a sensatez e a responsabilidade histórica. Menor, portanto, a disposição para o diálogo.

Se o antipetismo virou um detergente moral das consciências que vinham apoiando a escalada autoritária, o voto nulo serve a uma pantomima de superação tardia do erro. A apologia da anulação demarca o arrependimento dolorido e agressivo daqueles que sabem ter ajudado a criar condições para que o PT encabeçasse uma frente democrática no país. Hoje se escondem na suposta falta de opções, mas suas escolhas de outrora são incontornáveis.

Concordo que o momento pede moderação, espírito gregário, tolerância. Mas existe um ponto em que o acordo vira adesão unilateral. Pessoas que exigem concessões para repudiar alguém como Bolsonaro não valem o preço de legitimar uma postura indecente por natureza. Quando os anuladores não percebem logo seu favorecimento à barbárie, ou fingem não percebê-lo, é o caso de buscar interlocuções mais construtivas e eficazes.

Independentemente do resultado eleitoral, a luta contra o fascismo dependerá de parâmetros claros e posições firmes. A condescendência afoita da esquerda com seus adversários ameniza as diferenças que definem os papéis de cada um nesse período tenebroso.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A pauta do antipetismo só favorece a direita



À medida que se anunciava a polarização entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro no segundo turno, cresceu o volume de ataques a ambos por parte dos adversários. O fenômeno constitui um legítimo apelo das candidaturas preteridas, algo corriqueiro nestas circunstâncias. Mas não deixa de ser curioso que bases ideológicas diversas gerem discursos tão parecidos.

Esse eixo discursivo comum se articula ao redor do antipetismo. No embalo da rejeição ao antagonista demonizado nos respectivos círculos, campanhas de centro e de direita apostam na imagem negativa do PT como pretexto para o “voto útil”. Uns, tentando afastar o partido da corrida presidencial; outros, apresentando-se como concorrentes mais aptos a vencê-lo.

Não por acaso, a narrativa tem apoio veemente do condomínio midiático empenhado na destruição do lulismo. A tática reside em já transformar o sufrágio numa espécie de plebiscito sobre o PT, generalizando o tema, impondo-o às demais candidaturas e empobrecendo, pela partidarização, as pautas abrangentes que mobilizam a sociedade.

A manobra possui três objetivos imediatos. Primeiro, sedimentar o antipetismo enquanto ele ainda não foi monopolizado pelas bravatas repulsivas de Bolsonaro. Segundo, impedir que o Regime de Exceção fique associado ao fascista que certamente o defenderá. Por fim, neutralizar a previsível derrota simbólica dos movimentos golpistas no teste das urnas.

O fantasma do país conflagrado ameniza esses perigos. A ideia de evitar que a sucessão se transforme num “abismo” de rancores estigmatiza o combate legítimo contra a prisão política de Lula. Jogar Bolsonaro na conta do PT alivia a responsabilidade de quem defendeu ou tolerou o impeachment e os arbítrios da Lava Jato, marcos da ascensão reacionária no país.

As pesquisas sepultam os argumentos pseudo-pragmáticos e pacificadores das campanhas que entraram na onda. Bolsonaro aparece como único beneficiado pelo protagonismo deletério do PT. O jogo premonitório de acusações ao partido (elegerá o fascista, será ajudado por ele) produziu apenas uma disputa ainda mais polarizada, odienta e imprevisível.

Tanto a reiteração do antipetismo quanto seu uso como ameaça potencial alimentam uma força mais ampla e perigosa: o espírito antipolítico e autoritário que Bolsonaro representa. Nasce aí a própria ideia de que o ódio ao PT justifica o voto num fascista ou a anulação que o favorece. E não é outra a origem da agressividade obtusa de quem iguala os concorrentes.

Não se trata de subestimar a numerosa rejeição ao PT, mas de questionar os interesses ligados à mobilização desse repertório subjetivo. Só assim o campo progressista retomará o controle da agenda plebiscitária do segundo turno, pautando-o pelas questões programáticas, libertárias e republicanas que a direita busca abafar com o ressentimento e o moralismo tosco.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

"Estuário"



A  editora Patuá está lançando "Estuário", minha nova coletânea de poemas.

A fase de pré-venda já começou, neste link.

Em breve voltarei a falar da obra, para explicar um pouco sobre seu longo processo criativo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O Regime deu razão a Lula



O Regime Judicial de Exceção vem fazendo de tudo para impedir a vitória do PT na disputa presidencial. Sistemático e articulado, esse esforço atua em confronto direto com os interesses de Lula. Desde as penas aumentadas no TRF-4 até a proibição de visitas ao cárcere, passando pelas manobras do STF, não há um gesto das cortes que fuja ao roteiro.

Correndo para anular de vez a candidatura de Lula, o TSE seguiu a intuição de ser este o caminho que mais prejudicava o petista. A rapidez do julgamento não era inevitável, nem se baseava em jurisprudências ou normas. Tampouco no respeito a prerrogativas processuais, já que não houve tempo hábil para que as alegações da defesa fossem analisadas.

Em suma, os membros do TSE não adotariam a celeridade ritual caso suspeitassem que ela beneficiava Lula e o PT. Não depois do Regime apressar a condenação na segunda instância e atrasar o julgamento dos últimos recursos. Não depois de mantida sua prisão política e inconstitucional por um “crime indeterminado”.

O próprio antipetismo justiceiro admite, portanto, a eficácia dos planos petistas de levar o impasse até o limite do prazo legal. E, numa coincidência divertida, fez o que muita gente pedia ao PT, em nome do combate ao fantasma reacionário. Mas como entender essa harmonia de aspirações supostamente antagônicas?

A tática dos impugnadores togados é coerente. Evita que a polêmica da candidatura se aproxime da etapa em que a maioria dos eleitores decide seu voto. Dá justificativa para os institutos omitirem Lula nas pesquisas, fornecendo à direita vestida de centro (Marina Silva e Geraldo Alckmin) o apelo do voto útil. E esvazia logo a aura resistente que blindava a campanha petista e garantia visibilidade ao líder preso.

Também faz sentido a afoiteza dos círculos não-petistas. Querem tirar Lula do núcleo simbólico que dá coesão ao antifascismo, dispersando os eleitores do favorito para que seu partido não protagonize o polo democrático no segundo turno. A negação da centralidade do lulismo desagrega o campo progressista visando reconfigurá-lo. Cálculo pragmático sim, mas de um pragmatismo que não antagoniza apenas com a ameaça ultraconservadora.

Repito ser ociosa uma discussão estratégica sobre a insistência petista. O problema ultrapassa tanto a esfera eleitoral quanto a jurídica. Lula é apoiado por dezenas de milhões de brasileiros. Líderes políticos, religiosos e acadêmicos do mundo todo o endossam. Jamais existiu alguém de tamanha relevância que desse legitimidade voluntária a seus algozes.

Na falta de base técnica para adivinhações de qualquer tipo, soa mais racional explorar uma imagem que aglutina 40% dos eleitores. E parece indiscutível que o crescimento dessa popularidade está em sintonia com a postura combativa do PT. Ademais, sua propaganda sofrerá censura de qualquer modo, e talvez coisa pior, independentemente da chapa registrada.

As circunstâncias reduzem as margens de manobra do lulismo, que terminará seguindo as imposições do TSE. Mas o Regime ainda não terá vencido. E sua insatisfação servirá de excelente sintoma dos acertos do PT. Resta saber como reagirão os organizadores da fraude se os eleitores também decidirem contrariá-los.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O PT comanda o início da disputa sucessória



A força inicial da chapa Lula-Haddad transborda os limites simbólicos da “anticandidatura” de protesto. Sua competitividade irrefutável generalizou a expectativa de que as eleições serão decididas entre o lulismo e alguma fatia da direita. A avaliação tem base estatística e serve de referência (dissimulada) para os institutos, a mídia e as campanhas adversárias.

É ocioso questionar o pragmatismo eleitoral do PT. O registro de Lula como candidato segue um impulso coerente com a denúncia do caráter político da sua prisão, já induzida pela contínua liderança nas pesquisas que o partido agora tenta capitalizar. O escândalo em torno do imbróglio jurídico resultante será proporcional à viabilidade de ambos os objetivos.

A liminar do Comitê de Direitos Humanos da ONU, endossando a candidatura de Lula, teve efeitos que ultrapassaram a omissão da mídia local. O embaraço planetário rompeu a confortável bolha provinciana do conluio institucional que tenta destruir o lulismo. As reações toscas e irascíveis, típicas dos defensores das ditaduras, puseram o monstro numa briga que não se resolve com processos viciados e manipulação jornalística.

A afirmação de que Lula está “enganando” os eleitores reproduz o cinismo condenatório de seus algozes. Ele tem direito constitucional de pleitear o registro, além de amparo na jurisprudência para recorrer contra possível negativa. Só antecipa a decisão do TSE quem admite que a ideologia conduz os tribunais no seu caso.

Contrariando os palpites desejosos de catastrofistas e ressentidos, Fernando Haddad incorpora à chapa uma alternativa política renovadora que pode atrair o eleitorado incrédulo, dentro e fora da esquerda. Seu perfil atravessa os limites sociais e regionais que separam lulismo e antilulismo, ganhando vantagem num confronto eventual com a extrema direita.

A polarização da disputa servirá como teste para a sinceridade dos discursos contra o fantasma reacionário nos círculos ditos “progressistas” que negam o golpe e se enchem de rodeios adversativos para tratar da perseguição a Lula. Embora seja alvo previsível desses setores, a campanha de Lula-Haddad precisa tomá-los como fontes do voto útil que decidirá o embate final caso ele ocorra contra Geraldo Alckmin.

Aqui também notamos a eficácia dos planos petistas. Eles impuseram uma reconfiguração das suas vitórias eleitorais recentes, tiraram o PSDB do armário conservador e imprimiram caráter plebiscitário às disputas narrativas em torno do impeachment, submetendo seu respaldo popular ao teste das urnas. A ideia do “Golpão” era bem outra.

O quadro parece favorável para o PT, que pode chegar ao segundo turno com apenas metade dos votos lulistas e pequena parcela dos indecisos. Tendo a seu favor a gigantesca rejeição a Alckmin e asseclas, os arbítrios da Lava Jato e a força comparativa das administrações Lula. Enfrentando uma direita rachada, com excesso de proponentes que disputam o mesmo eleitorado e oscilam entre a maldição do governo Temer e a truculência antipática.

O êxito da candidatura petista depende de um plano de comunicação baseado na imagem do ex-presidente. Este será o foco das investidas do Regime de Exceção, através da censura do TSE às propagandas audiovisuais e do isolamento imposto pela carceragem curitibana. Como não há recurso jurídico possível sob o despotismo togado, a criatividade dos marqueteiros e a ação da militância despenharão papéis determinantes.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Bloco do golpe nasce para enfrentar o lulismo





Havia meses a direita brasileira preparava sua fuga para o “centro” imaginário do espectro eleitoral. A ideia era se esconder sob uma candidatura que dissimulasse os vínculos do grupo com o golpe, alvo de rejeição quase unânime. Com Jair Bolsonaro suavizando ideologicamente o grupo situacionista e empurrando Lula ao polo contrário, uma salvação moderada até que parecia atraente.

Enquanto o petista matinha chances de ser candidato, o pesadelo conservador residia em Lula adotar o perfil criado pela histeria midiática. Isso explica a veemência da reação contra os seus primeiros discursos apaziguadores, que mobilizou das rodas marinistas à revista Veja. Também ilumina a postura confrontativa do Judiciário contra o ex-presidente, provocação irresistível para alimentar sua imagem vingativa.

Marina Silva sempre incorporou a candidata dos sonhos do condomínio golpista. De origem popular e ideias conservadoras, favorável ao impeachment e à Lava Jato, adulada pela direita com perfumes progressistas, ela simboliza perfeitamente o imaginário envolvido na criação de uma alternativa aos extremos perigosos.

Contudo, patinando nas pesquisas, isolada no arco de alianças, com tempo irrisório de propaganda, Marina acabou perdendo até a mínima relevância necessária para esforços corretivos de suas fragilidades, como a tola mania de vitimização. Virou uma referência abstrata, um ideal a ser perseguido em cima de bases mais apropriadas.

Apesar do empenho quase ridículo, porém, as campanhas jornalísticas pela “Marina perfeita” frustraram-se a cada factoide. A sobrevivência política de Lula afugentou os aventureiros, levando o neocentrismo a repensar sua tática dissimuladora. Ganhava fôlego a ideia de assumir um lado na polarização, em vez de negá-la.

As enquetes fraudando cenários "Sem Lula" serviram de último teste para Marina. Provaram a sua inviabilidade (e também a de Ciro Gomes) ao mostrarem que a direita só chega ao segundo turno ocupando o lugar de Bolsonaro, não o do lulismo. E ninguém atrai o voto antipetista com posturas ambíguas e mistérios programáticos.

Os observadores surpresos que me perdoem, mas a união em torno de Geraldo Alckmin era bastante previsível. Faltava apenas a confirmação do potencial lulista para que seus maiores adversários se organizassem, reeditando o arranjo do golpe. O objetivo é impedir que o PT antagonize com o fascismo na etapa final.

O bloco “Direitão” (“Golpão” para os íntimos) demonstra que os profissionais do ramo consideram a influência de Lula um fator decisivo na disputa sucessória. E, talvez mais importante, que a estratégia petista passou a nortear as mobilizações alheias.

Não é uma candidatura prestes a ser impugnada que provoca atrasos nos planos dos competidores, mudanças de discurso, realinhamentos e mistérios. Tampouco o improvável respeito do TSE a prazos e jurisprudências que arranca seguidos vexames ideológicos do Regime de Exceção.

Ninguém ali acredita que Lula será candidato.