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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Ainda falta o terceiro turno



A campanha bolsonarista foi abertamente criminosa. Perdeu, mas ficou impune. E seguiu naturalizando esse privilégio, nos posteriores deboches à norma constitucional.

Como previsto, a sucessão de golpes que pariu o governo Bolsonaro tornou-o tão ilegítimo que o deslocou para fora do regime da legalidade. Assim termina o mandato.

Talvez (ainda) não haja muito a fazer na seara governamental, pois o Congresso aliou-se ao banditismo. Individualmente, porém, a história é bem outra.

O caminhoneiro que expõe crianças, o policial prevaricador, o líder dos piquetes, o jurista mentiroso, a deputada pistoleira, todos podem e devem ter punição imediata.

Não faltam provas. Não há controvérsias, brechas legais ou direitos a preservar. São criminosos notórios, em atividades documentadas, de ampla repercussão pública.

Assim como os hábitos ilícitos de Bolsonaro, o vandalismo fascista aproveita a cumplicidade e a omissão das cúpulas judiciárias. A anistia é um projeto institucional.

Ou acreditamos realmente que nossos heróis togados não conseguem identificar os organizadores dos ataques? Que não têm prerrogativa para meter nazistas na cadeia?

Um ano atrás alertei que as autoridades atiçavam o golpismo fingindo combatê-lo. Agora fingem surpresa diante dos ataques mais previsíveis do universo.

Não basta liberar estradas, recolher pistolas, abrir sindicâncias, bloquear contas digitais. Não estamos lidando com ameaças ou tentativas, e sim com delitos flagrantes.

Perdoar delinquentes é o exato oposto da pacificação. É um desatino incendiário que alimenta a instabilidade social e convida o golpismo a alargar seus limites.

Enquanto nos contentamos em tirar bodes da sala, os facínoras ganham adeptos e melhoram sua organização. Hoje voltam para casa. Amanhã saem armados. E depois?

Sem uma ação imediata e rigorosa do Judiciário, a posse de Lula ocorrerá no meio de batalhas campais. E ele presidirá um país à beira da guerra civil.

A esquerda otimista ri dos patetas, mas continua com medo de sair à rua usando roupa vermelha. Sonha com a Bolívia de Arce e periga despertar no Chile de Allende.

O que falta é pressão de democratas corajosos. Menos chororô perplexo e mais atitude efetiva. As instituições precisam responder para quem, afinal, estão funcionando.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Como é o Brasil da sua Venezuela?



Nosso entendimento da crise venezuelana é prejudicado pela qualidade da mediação informacional disponível. De um lado, temos o reducionismo sensacionalista das agências e dos grandes veículos. De outro, um microcosmo subjetivo de testemunhos e opiniões selecionados segundo critérios de variadas conveniências.

Ninguém sabe direito o que se passa na Venezuela. Nem a tal “mídia progressista” estrangeira, a julgar por suas fontes. De qualquer forma, não precisamos de intérpretes para notar que a narrativa da ditadura ilegítima e consensualmente odiada é tão frágil e questionável quanto a narrativa do levante imperialista contra os heróis bolivarianos.

Falto de base empírica, o debate sobre o assunto virou um mosaico de respostas a polêmicas da atualidade brasileira, projetadas para o universo vizinho. Na esfera antipetista, a vilanização caricatural de Nicolás Maduro tem óbvias referências locais. Também o repúdio intempestivo à Assembleia Constituinte, um fantasma que ronda o reformismo hipócrita da direita verde-amarela.

Mas nem tudo prima pela coerência nesse jogo de projeções. Boa parte dos argumentos negativos usados contra Maduro poderia servir para a desqualificação de Michel Temer, da Lava Jato, do impeachment e até dos governos estaduais tucanos. Ideias que no Brasil seriam estigmatizadas como “petralhas” ganham status civilizado ao tratar da Venezuela.

Segundo os democratas conterrâneos, ditadores abocanham o poder manipulando normas constitucionais. Enviam polícias e mascarados para reprimir manifestantes. Compram apoio da mídia com publicidade estatal. Destroem adversários através de arbítrios judiciais. Aparelham as cortes e aliciam magistrados. Subornam congressistas.

Soa familiar?

Sintomaticamente, a maioria dos ataques apaixonados à ditadura venezuelana vem de pessoas que jamais qualificam o impeachment brasileiro como golpe parlamentar. São intolerantes com “bandidos de estimação”, fãs de juízes e procuradores ativistas, inimigos de acordos de governabilidade, incrédulos quanto ao sistema representativo no país.

Sim, os contextos (sempre) são diferentes, mas aqui o álibi perspectivista vale pouco. Não interessa o conflito de posicionamentos. A questão é baseá-los em conceitos volúveis, que se transmutam ao sabor das conclusões desejadas: a identidade do réu definindo a essência criminosa do ato. O exemplo jurídico, tão atual e assustador, mostra a força deletéria da esquizofrenia “pós-verdadeira”.

Quem usa sentidos diversos de “golpe” e “democracia” ao tratar de Brasil e Venezuela fala sobre qualquer coisa, menos de golpe e democracia. Fala muito, certamente, de si mesmo. Essa revelação involuntária, se não ajuda a compreender a crise alheia, fornece pistas interessantes sobre as nossas próprias vicissitudes.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Polyana investigadora
















Dá para imaginar o escândalo que haveria se o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato fizessem cursos e reuniões na Rússia ou na Venezuela antes de arrasarem a Petrobras. Gigantes petrolíferos ajudando a destruir a concorrência brasileira? Então. Com os EUA é “cooperação internacional”.

Espionagem? Conspiração? Depende da maneira como definimos tais atividades. Ou melhor, do grau de credulidade que abraçamos para embalar nossa ilusão de autonomia e segurança. Quase toda ação escusa tem uma fachada legítima que satisfaz os ingênuos.

Claro, soa insensato embaralhar os verdadeiros deslizes éticos de Moro com suspeitas afins. No imaginário diplomático, ele seria um péssimo candidato à cooptação. Além de excessivamente visado, nutre visão messiânica e idealista do seu papel. E tem motivações ideológicas já alinhadas à agenda estadunidense.

Ao mesmo tempo, é muita ingenuidade ignorar os elos geopolíticos da desmoralização de algumas das maiores empresas do país, com negócios planetários em áreas estratégicas para as potências financeiras. E é simplesmente estúpido achar que desmontes desse tipo são fenômenos gratuitos no inescrupuloso universo do empresariado transnacional.

Podemos até acreditar que a Lava Jato serve “apenas” como instrumento manipulado por interesses poderosos, em troca do seu próprio sucesso no âmbito doméstico. O problema está no pacote de versões oficiais, bem menos convincentes, que dão suporte à hipotética inocência dos nossos berlusconis.

Por exemplo, a tese de que o profissionalismo, a força material e o respaldo midiático do movimento pelo impeachment nasceram de ações espontâneas e desarticuladas, embora seus líderes tenham ligações com obscuras companhias norte-americanas. Também a de que o cargo de ministro das Relações Exteriores de José Serra não tem nada a ver com seu projeto que abre o pré-sal à exploração estrangeira. Ou com os policiais federais que vazaram os sigilos da Lava Jato.

Será que as teorias conspiratórias nascem da quantidade de coincidências estranhas em torno do mesmo fenômeno, ou do desprezo geral por esses sinais? Precisaríamos mesmo de documentos governamentais para saber que os EUA participaram do golpe militar de 1964? Sem o Wikileaks ninguém imaginaria que a Casa Branca espiona mensagens eletrônicas de governos, empresas e cidadãos?

A lista dessas “descobertas” tardias ocuparia compêndios. As nódoas comuns a todos os seus episódios são a covardia da imprensa dita investigativa e o descrédito público dos paranoicos que levantaram as perguntas que ninguém ousava formular.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Por qué no te quedas, Juan?






















Outro símbolo de arrogância e destempero que escapole à primeira dificuldade. Juan Carlos, aquele que mandou Hugo Chávez calar a boca, não suportou a desmoralização pública. Pois é, que maluquice: apesar de tudo, Chávez jamais renunciou.

O monarca deixa o trono durante a maior crise econômica da história espanhola desde, pelo menos, a Guerra Civil. Lá o desemprego beira os 25% (no Brasil da Copa chega a 7% segundo os levantamentos mais pessimistas). Lá a própria família real está imersa num escândalo inédito de corrupção, enquanto os governos se sucedem, incapazes de aplacar a insatisfação generalizada.

Só podia ser no Primeiro Mundo.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tipicamente americanos
















Numa entrevista remota, Caetano Veloso criticou a expressão “estadunidense” como referência ao que é natural dos EUA. Muita gente considera a palavra pedante e até xenófoba. Seria preferível usar “americano”, de uso consagrado e assimilação imediata. Mas o problema ultrapassa o âmbito vocabular.

Nas suas mais antigas aparições, o topônimo América se referia a uma porção territorial do que seria depois o Nordeste brasileiro. O termo foi apropriado pelos articuladores da independência dos EUA, mais de duzentos anos depois, e serviu como base para o imaginário do Destino Manifesto, a missão civilizadora do país no continente. O lema “A América para os americanos”, que fundamentava as pretensões imperialistas da Doutrina Monroe (1823), consagrou a associação com viés inconfundível e duradouro.

Algum paralelo com outras nacionalidades realçaria quão presunçosa e artificial é a apropriação, mas ela não possui equivalentes modernos de uso disseminado – por exemplo, querer que “europeus” signifique especificamente os franceses ou “asiáticos” os chineses. Esses absurdos hipotéticos insinuam o alcance que a maleabilidade terminológica poderia atingir. Se tecnicidade geográfica de tal importância é dispensada como preciosismo desnecessário, não haveria motivo para respeitar a exatidão em qualquer caso.

Aliás, é curioso como os artífices da clareza politicamente correta sabem tolerar as generalizações que lhes convêm. Os chamados “povos nativos”, além deste cuidadoso rótulo genérico, são identificados pelos ramos étnico-lingüísticos que os distinguem do contexto populacional majoritário. Quando se trata de “americanos”, esse purismo desaparece, com um agravante: o direito à auto-designação de um povo anula o mesmo direito de outros povos.

Qual o sentido de negar a quase um bilhão de pessoas, nascidas em mais de 30 países, o direito de se identificar com o continente que habitam? Por que fingir que os EUA não compartilham as formações históricas e culturais de outras nações? Será pela vergonha de possuir as mesmas origens que alguns dos países mais pobres e explorados do planeta? Ou será por vergonha de toda análise geopolítica advinda do conhecimento da História desses povos?

E, principalmente, por que usar uma palavra com tamanha fragilidade semântica, e que serve à ilusão de superioridade e à afirmação de um nacionalismo embevecido por delírios agressivos de hegemonia?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Venezuela imaginária















As bobagens proferidas na imprensa corporativa sobre a Venezuela têm fornecido material para décadas de pesquisas acadêmicas alinhadas a todas as metodologias disponíveis. Já é possível até reconhecer o veículo de predileção do interlocutor pelo discurso que este reverbera nas conversas informais.

Chegamos a um estágio de manipulação que desestimula o próprio uso do noticiário como fonte de conhecimento sobre a situação atual no país. À distância, simplesmente não dispomos de informações confiáveis, e corremos o risco de reproduzir modelos argumentativos falsos mesmo quando precisamos contrapô-los.

Mas os números disponíveis são suficientes para iluminar algumas deturpações. A “surpresa” perante a votação do candidato oposicionista, por exemplo, inaugura a incrível modalidade das expectativas isentas de qualquer respaldo estatístico.

Os adversários do chavismo sempre atingiram marcas próximas aos 40%, chegando a 45% na última vitória de Hugo Chávez. Conquistar novos 4% do conjunto dos eleitores, numa disputa marcada pela ausência do maior personagem político do país, não chega a representar uma arrancada sensacional. Alguém poderia até interpretar o resultado como vitória simbólica do chavismo, dadas as circunstâncias desfavoráveis.

Os aguerridos conservadores brasileiros esbanjaram sagacidade, no entanto, quando apoiaram a recontagem dos votos venezuelanos. Porque ela é viável na ditatorial Venezuela, onde a maioria das urnas eletrônicas produz um recibo impresso para eventuais conferências. No democrático sistema brasileiro, esse luxo seria impossível.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Chávez renasce















Considerando as bobagens proferidas na imprensa a respeito de assuntos políticos bastante próximos e atuais, é compreensível que a cobertura internacional chegue a níveis fictícios. Mas a demonização de Hugo Chávez ultrapassa critérios básicos de razoabilidade que justifiquem algum esforço argumentativo.

Compartilho e entendo a repulsa por líderes fardados de qualquer inclinação. Mas esse aspecto ocupa lugar muito secundário nas manifestações da direita hidrófoba, cujos argumentos, quando legíveis, poderiam servir para criticar quase todos os governos do planeta. Mesmo a insistente denúncia do suposto caráter autoritário do chavismo é acompanhada por um sabujo silêncio a respeito dos mecanismos institucionais de controle da mídia em vigor nas mais antigas democracias.

As peculiaridades que sempre fizeram de Chávez um espectro assustador para certas elites brasileiras não morreram com o ex-presidente. Na verdade, sua força ganha novos sentidos e maior perenidade a cada rompante ideológico daqueles que tentam distorcê-lo. Uma entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães, um artigo de Pablo Escobar e um depoimento de George Galloway fornecem ótimos contrapontos a essa mistificação.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Yoani se foi














Yoani Sánchez conseguiu a visibilidade que pretendia em sua rápida passagem pelo país. É bem verdade que a truculência dos radicais terminou servindo mais aos propósitos da blogueira do que ao seu eventual desmascaramento. Mas, bolas, os achaques dos manifestantes fazem parte da complexa dinâmica da democracia que ela afirma defender. Se exibissem o mesmo comportamento em Cuba, contra dirigentes do governo, as imagens seriam vendidas como a Primavera Caribenha.

Não consigo determinar o momento em que Yoani deixa de parecer uma personagem plausível para se tornar um enigma incômodo, mas essa ruptura existe. Há algo de incongruente na figura da jornalista cativante e articulada circulando em turnê, sendo recebida no Congresso Nacional, inclusive por figuras da direita mais reacionária, e concedendo entrevistas aos maiores veículos de comunicação.

Talvez seja por causa de certa vaziez programática do discurso calcado na denúncia do regime autoritário cubano. Porque este se alimenta do obsceno bloqueio estadunidense, porque a ditadura é um meio cruel de domesticação exercido por Washington e porque o governo desfruta, sim, de apoio popular considerável. Ignorando as complexidades locais e geopolíticas em jogo (salvo quando provocada, e mesmo assim de maneira deveras cuidadosa), a moça adquire um ar messiânico cheio de piscadelas ideológicas.

Talvez ainda me ressinta das respostas que ela fornece às incômodas questões de natureza prática formuladas por seus adversários. Algumas perguntas são procedentes, e as poucas explicações de Yoani parecem menosprezar a seriedade dos temas. Reafirmar o caráter independente, pessoal e voluntário do seu blog, por exemplo, soa inverossímil. Que os conservadores da mídia brasileira minimizem certas lacunas (“pouco importa se ela recebe dinheiro do governo dos EUA”) é sintomático da sua relevância.

Desconfio há tempos desses mitos da internet que personificam uma experiência humana mais promissora e libertária. Questiono principalmente a necessidade contemporânea de aparentar “isenção”, como se isso fosse possível, desejável ou mesmo estrategicamente eficaz. Os defensores incondicionais de Yoani abraçam as duas ilusões.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Os nossos golpistas















É necessária muita desfaçatez para negar que a deposição de Fernando Lugo foi um golpe de Estado. Não bastasse o escandaloso rito sumário do Congresso paraguaio e a conveniência pré-eleitoral do arranjo, sabemos agora que a conspiração estava em curso desde 2009, pelo menos, sob os auspícios do governo dos EUA. Protagonizada por notórios delinquentes políticos locais.

Os argumentos favoráveis à “normalidade” da tramóia são toscos demais para um debate sério. Qualquer arbítrio pode furtar retórica de normas constitucionais, como a “defesa da segurança nacional” que justificou a ditadura militar brasileira e tantas outras pelo mundo. Ainda que houvesse base técnica para as denúncias contra Lugo, ela jamais suplantaria o direito de defesa do presidente e a integridade do seu mandato.

Os defensores do golpe não parecem notar que suas desculpas são imitações ruins das utilizadas pelos governos sul-americanos que eles próprios acusam de autoritários. Ignorando o fato de que Hugo Chávez, Evo Morales e Cristina Kirchner foram eleitos e desfrutam de grande respaldo popular, cada comparação indevida chama atenção para esses humores antidemocráticos que abraçam a legalidade apenas quando serve a projetos obscuros de poder.

A direita brasileira vê em Lugo o adversário ideal, impopular e pusilânime, que o teatro sufragista manipula e descarta ao sabor das conveniências. É tudo que Lula poderia ter sido e não foi. Nos primeiros anos de governo petista, a mídia demotucana urdiu silenciosamente sua ruína, certa de que chegaria o momento de esmagá-lo em circunstâncias muito parecidas. O julgamento do chamado “mensalão” é uma herança daquele período nebuloso e símbolo máximo da frustração dos nossos conspiradores.

Que se exponham, portanto, corroborando o que sempre dissemos a seu respeito.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A soberania das Malvinas



Publicado na revista Caros Amigos, em novembro de 2010.

Continua o imbróglio em torno das ilhas Malvinas, que os colonizadores britânicos chamam Falklands. A imprensa internacional, especialmente a brasileira, esforça-se para abafar as implicações econômicas e ambientais do impasse, tratando-o como teimosia nacionalista, subproduto da ditadura, excentricidade da família Kirchner. Enquanto isso, transnacionais como a Repsol-YPF e a British Petroleum (a mesma que causou a tragédia no Golfo do México) unem esforços para controlar a exploração de petróleo em águas argentinas.

O argumento de que a minúscula população do arquipélago prefere viver sob jugo europeu vale quanto a platéia estiver disposta a pagar. É fácil adaptar noções de soberania às conveniências dos envolvidos. Toda reivindicação autonomista carrega prerrogativas transcendentes, do Tibete à Caxemira, do Tamil Eelam ao Curdistão. Até a Scalzillândia ganha ares sacros e humanitários, dependendo da boa-vontade do orador.

Mas, curiosamente, esse apelo não serve para pressionar potências econômicas a ceder seus territórios. Respeito à democracia é bom só nos olhos dos outros. Plebiscitos no Havaí ou no Alasca jamais seriam suficientes para corroborar a emancipação desses territórios. A Bélgica ignora os apelos internos para cindir o país nos limites da Valônia e de Flandres. A própria Inglaterra não esteve preocupada com a escolha dos norte-irlandeses, quando espalhava suas barbaridades pela colônia. Rússia e Espanha são poderosos inimigos da independência de Kosovo, aquela depois de causar um pequeno holocausto na separatista Tchetchênia e a segunda preocupada em conter a incômoda rebeldia basca.

Nem sempre (raramente?) o critério histórico é compatível com o das aspirações populares. Dilemas dessa natureza só se resolvem diplomaticamente, contemplando todos os antagonistas, sob aval e vigilância da ONU.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Cuba é aqui


Os democráticos inimigos da ditadura cubana sofrem de indignação seletiva. Ninguém ousaria defender que um presidente brasileiro se negasse a visitar os EUA sob a alegação de que o país tortura inocentes em campos de concentração. E ai do jornalista que constrangesse o mandatário, em visita à Casa Branca, a se pronunciar sobre o tema.

Os adversários de regimes autoritários curiosamente silenciam sobre a proibição da Marcha da Maconha no Brasil (para citar um exemplo inofensivo). A Justiça viola preceitos constitucionais básicos ao nosso lado, mas, claro, temos outras prioridades. Democracia nos olhos dos outros é refresco. Sorte que existe o Fidel para nos distrair de nossas próprias instituições putrefeitas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A ocupação do Haiti


A catástrofe oculta uma disputa mal dissimulada pelo controle militar do Haiti. A cúpula do Canadá assumiu o fato abertamente, sem tomar medidas efetivas para preveni-lo.

É óbvio que as necessidades urgentes da população, em meio ao caos administrativo, exigem soluções drásticas. Mas a agressividade das tropas dos EUA, seu desprezo pelas instituições haitianas e a arrogância com que utilizam a superioridade bélica para assumir o comando da reconstrução evidenciam o espírito colonizador dessa duvidosa solidariedade.

A Minustah, sob comando brasileiro, foi importantíssima para a pacificação do país. A grande imprensa nacional, subalterna e jeca, desaprova nossa bandeira diante do palácio arruinado, mas aplaude comovida a propaganda dos painhos gringos, repentinamente preocupados com uma nação que eles ajudaram a destruir e depois abandonaram. Plano Marshall pode, Plano Lula pega mal.

Todos sabem como será cobrada essa dívida impagável do povo haitiano, refém de um exército especializado em realizar geopolítica na base do bombardeio. Nossos comentaristas aproveitam a tragédia para neutralizar as conquistas e pretensões internacionais da bem-sucedida política externa brasileira. É exatamente a mesma estratégia de Washington.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Chile é aqui


Semelhante ao mito do “renascimento conservador”, outro delírio provocado pelas eleições chilenas é o de que a imensa popularidade de Lula também poderia ser insuficiente para alavancar Dilma Rousseff. Poderia, claro, mas quem disse que não? Ninguém precisa da vitória de Piñera para reafirmar essa possibilidade.

Há uma curiosa precaução na escolha de exemplos exteriores. Michelle Bachelet não serve como símbolo feminino de sucesso e competência, por exemplo. E a derrota de Eduardo Frei não revela uma insatisfação com políticos tradicionais identificados com o centrismo, tendência que talvez prejudicasse o PSDB de José Serra e FHC.

Muitas dessas bobagens continuarão a ser testadas pela mídia, até o início da campanha eleitoral. Cada qual escolherá o alucinógeno mais conveniente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Democracia, volver


Soa exagerado interpretar a vitória de Miguel Piñera no Chile como sinal de reação conservadora na América Latina. O equívoco é repetido por apologistas de direita e de esquerda. Os primeiros gostam de trombetear vingança, criando um paralelo com José Serra nas eleições brasileiras; os demais pensam em forças malévolas, necessariamente retrógradas e autoritárias.

Não existe essa onda conservadora no continente. A recente vitória de Pepe Mujica no Uruguai equivaleu, em proporções muito menores, à de Lula no Brasil. E restam ainda Lugo, Morales, Chávez.

“Esquerda”, “centro” e “direita” são simplificações úteis em noticiários e discursos partidários, mas neutralizam uma diversidade humana cada vez mais decisiva num ambiente institucional dominado pelo pragmatismo. Isso vale, especificamente, para o Chile: até que ponto o governo de Michelle Bachelet pode ser rotulado como “de esquerda”? E o que dizer do moderadíssimo ex-presidente Eduardo Frei? Empresários são inevitáveis crápulas políticos?

A alternância democrática é marcada justamente pelo revezamento cíclico de forças políticas divergentes. Projetos eleitorais se esgotam, pessoas cansam, plataformas caducam. A derrota de candidatos com discursos progressistas, especialmente os que deixam o poder, pode significar a possibilidade de aprender com a experiência administrativa e construir novos consensos.

Tudo depende do contexto político-partidário. Em certas circunstâncias, a renovação é necessária e louvável, mas em outras é apenas aparente. No caso brasileiro, uma vitória de Serra poderia realmente significar um retrocesso histórico do qual demoraríamos décadas para nos recuperar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O golpe era esse mesmo



Sabíamos desde o começo que as turbulências em Honduras terminariam nessa farsa eleitoral, com presença de metade da população e a legitimação fraudulenta dos golpistas. Tudo seguiu mais ou menos o Decálogo do Golpe Moderno, com alguns escorregões pela caricatura bananeira. O envio do presidente a uma base dos EUA, seqüestrado de pijamas, convenhamos, é coisa que não se via há tempos.

Que fique registrado para a posteridade: em plena alvorada do século 21, o presidente dos EUA, prêmio Nobel da Paz, endossou um golpe de Estado na América Central. Será útil não perder de vista que a grande imprensa brasileira também apoiou o golpe, com base em falsificações factuais e rancores ideológicos.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Faces do golpismo

Há duas atitudes aparentemente distintas perante o golpe de Estado hondurenho.
Uma destila o tradicional veneno antidemocrático, de retórica agressiva e valores distorcidos. Encontramo-la no udenismo renovado que aflorou no vácuo moral das classes médias urbanas. Para a vertente, Zelaya caiu porque mereceu, porque o “chavismo” deve ser combatido a porrete.
A outra face, enganadoramente inofensiva, escuda-se na apatia manhosa do pior provincianismo. Prefere a omissão do colonizado jeca, escancarando a banguela, tirando o chapéu para o painho estadunidense. Tem vergonha de ser brasileiro e defende que o país ocupe seu lugar na latrina do mundo subalterno. Convenientemente ignóbil, não “consegue” perceber que as próximas eleições hondurenhas vão justamente sacramentar o golpe, tornando-o irreversível e impune.
Ambas as posturas são complementares e indissociáveis. Mescladas nas diversas gradações combinatórias possíveis, constituem o estofo ideológico de todo movimento golpista: sempre há uma vanguarda atuante, apoiada na massa de manobra servil, que lhe garante a ilusão da legitimidade.
É importante entender esse mecanismo em funcionamento durante episódios externos e distantes, para reconhecê-lo quando operar em nosso próprio ambiente.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Bases militares na América Latina

Só mesmo a obtusão baba-ovos do conservadorismo nacional é capaz de julgar “natural” que o governo estadunidense espalhe seu aparato bélico em países soberanos de qualquer continente. O ridículo pretexto Hugo Chávez já se tornou uma espécie de chacota que ninguém leva a sério, como se crianças mimadas ficassem a repetir bordões acusadores à espera que alguém lhes dê uma bronca silenciadora.
Narcotráfico uma ova. Os apologistas do Plano Colômbia não têm a honradez de admitir seus objetivos reais. Se a ingerência visava extinguir as Farc e deu tão certo como diz a propaganda oficial, não seria necessário prorrogá-la; se deu errado, ou foi insuficiente, menos ainda. A cocaína, aliás, continua circulando às toneladas.
É impossível dissociar a presença militar estadunidense dos gigantescos recursos naturais em permanente descoberta na região amazônica, da futura exploração do pré-sal (cujas dimensões parecem mais assustadoras a cada estudo) e da vasta rede de oleodutos que percorre a porção ocidental do continente. Ninguém menciona que o governo Bush transformou o exército colombiano na maior força bélica da América do Sul, com um contingente quase igual ao brasileiro. A Colômbia é uma potência militar agressiva, controlada por um império de pretensões hegemônicas.
O antichavismo tosco pensa que Álvaro Uribe conquistou os governos vizinhos em lero-leros bilaterais. Mas o colombiano demonstrou covardia (por fugir do debate numa arena multipartidária) e desonestidade (ao ocultar seus verdadeiros interesses). Desde que ordenou um ataque em solo equatoriano, deveria ter sido relegado ao limbo dos agressores inaceitáveis. Ah, se fosse a selva israelense, não é mesmo?
Toda a teoria da “colaboração” militar com os EUA é falaciosa. A política repressiva contra as drogas fracassou há décadas, a começar pela criminalização do usuário, mantida por Washington na contramão da tendência histórica mundial. A soberania dos países é afetada sim, através da inevitável captação de informações estratégicas por parte dos militares instalados. Se os objetivos fossem realmente nobres, e puramente policiais, bastaria criar uma força de elite internacional, com tropas e equipamentos de todos os países da região. Mas decidimos só confiar no painho da Casa Branca.
Barack Obama, de quem tanto se esperava inicialmente, demonstra cada vez mais que sabe jogar o “War” da geopolítica intrusiva que herdou dos canalhas antecessores. Mas, claro, Hilary Clinton não está ali à toa.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mercenários na América do Sul

Passou curiosamente desapercebida a história obscura dos capangas abatidos num hotel de Santa Cruz, região separatista da Bolívia. Estavam armados até os dentes, com mapas, vídeos e equipamentos de uso militar. O presidente Evo Morales alega que queriam matá-lo. Circula uma versão alternativa, embora ambas não sejam excludentes.
Todo esse enredo parece extraído de um filme B com Chuck Norris, mas aqui, lamentavelmente, sobra verossimilhança. O uso de mercenários em conflitos armados remonta aos primórdios da própria guerra; recentemente ganhou inédito respaldo oficial, com a contratação da gigante Blackwater para privatizar a segurança do Iraque ocupado.
Mercenários são ex-militares, com experiência em combates, que recebem “soldos” generosos para defender interesses de empresas, grupos políticos ou mesmo governos. Trata-se, geralmente, de criminosos de guerra, com atrocidades inomináveis nos currículos – não à toa, os conflitos na Bósnia e na Tchetchênia forneceram centenas desses párias para a iniciativa privada.
As honradas democracias ocidentais, que às vezes precisam de serviços sujos operados na clandestinidade e sem constrangimentos políticos, utilizam esses combatentes há décadas. A África dos conflitos coloniais (retratada nos romances de Frederick Forsyth) foi seu habitat e continua sendo, como o Oriente Médio e os Balcãs. Diversos qüiproquós sul-americanos revelam indícios desses profissionais, e não há qualquer razão para suspeitar que Morales exagere as forças que o ameaçam.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A OEALC

Parece teste de datilografia, mas é sigla para Organização dos Estados da América Latina e Caribe, que nasceu na cúpula brasileira recente. O evento foi um triunfo diplomático do governo Lula, independente de incertezas e palavrórios comuns em tais ocasiões (líderes nacionais deveriam evitar mergulhos no Atlântico diante de fotógrafos do mundo inteiro, ou eu é que vou ficando ranzinza?).
A cúpula também representa um subproduto positivo da tragicomédia bushiana. Os think tanks conservadores há muito discutem “como perdemos a América Latina” durante a administração George W. Bush (mostrando que nem sempre o melhor governante para os EUA é o melhor para nós). Uma reaproximação via Barack Obama terá de enfrentar o fim do embargo a Cuba, objetivo que, sozinho, justificaria o esforço de qualquer cúpula.
Com o irreversível esvaziamento da Organização dos Estados Americanos, guilda inventada para conferir certa legitimidade aos desmandos estadunidenses na região, os EUA foram isolados numa área de influências regionais circunscritas ao norte do continente – conveniências eleitorais em breve reformularão o protetorado colombiano, única exceção ainda restante. A resistência da esmagadora maioria dos governos sul-americanos a seguir a agenda da Casa Branca representa um marco histórico dos paradigmas diplomáticos estabelecidos no pós-guerra.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Chávez é o peru eleitoral

Domingo haverá eleições regionais na Venezuela. A julgar pelos comentários na imprensa brasileira, Hugo Chávez sairá derrotado. De qualquer jeito. Independente dos resultados.
Claro, agora é fácil tripudiar. Basta os governistas vencerem em menos de 20 das 22 províncias (sua abrangência atual): 70% dos governos (15) parecerão uma enorme queda no poder do presidente-demônio. Ademais, cada pequeno rincão desolado receberá importância crucial para o país, desde que passe para administradores oposicionistas. E os dissidentes serão heróis.
Até perder por 0,7% no plebiscito reformista, Chávez ganhou tudo que disputou, inclusive um golpe de Estado, principalmente seguidas (e desnecessárias) reafirmações de sua legitimidade. E sempre combatendo uma elite poderosa, a grande mídia local e o governo dos EUA. Chegou ao teto, foi reeleito até 2013 e começou a perceber que não está imune a um processo natural e inevitável de desgaste político-administrativo. Mas sua força permanece, como indicam as pesquisas.
As torcidas, pró e anti-Chávez, babarão em seus delírios de revanchismo e mistificação. Restará uma pequena fresta de realidade a ser perscrutada em meio à ideologização boboca.