segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A soberania das Malvinas



Publicado na revista Caros Amigos, em novembro de 2010.

Continua o imbróglio em torno das ilhas Malvinas, que os colonizadores britânicos chamam Falklands. A imprensa internacional, especialmente a brasileira, esforça-se para abafar as implicações econômicas e ambientais do impasse, tratando-o como teimosia nacionalista, subproduto da ditadura, excentricidade da família Kirchner. Enquanto isso, transnacionais como a Repsol-YPF e a British Petroleum (a mesma que causou a tragédia no Golfo do México) unem esforços para controlar a exploração de petróleo em águas argentinas.

O argumento de que a minúscula população do arquipélago prefere viver sob jugo europeu vale quanto a platéia estiver disposta a pagar. É fácil adaptar noções de soberania às conveniências dos envolvidos. Toda reivindicação autonomista carrega prerrogativas transcendentes, do Tibete à Caxemira, do Tamil Eelam ao Curdistão. Até a Scalzillândia ganha ares sacros e humanitários, dependendo da boa-vontade do orador.

Mas, curiosamente, esse apelo não serve para pressionar potências econômicas a ceder seus territórios. Respeito à democracia é bom só nos olhos dos outros. Plebiscitos no Havaí ou no Alasca jamais seriam suficientes para corroborar a emancipação desses territórios. A Bélgica ignora os apelos internos para cindir o país nos limites da Valônia e de Flandres. A própria Inglaterra não esteve preocupada com a escolha dos norte-irlandeses, quando espalhava suas barbaridades pela colônia. Rússia e Espanha são poderosos inimigos da independência de Kosovo, aquela depois de causar um pequeno holocausto na separatista Tchetchênia e a segunda preocupada em conter a incômoda rebeldia basca.

Nem sempre (raramente?) o critério histórico é compatível com o das aspirações populares. Dilemas dessa natureza só se resolvem diplomaticamente, contemplando todos os antagonistas, sob aval e vigilância da ONU.

2 comentários:

Maria Elisa disse...

Guilherme, queria registrar que achei o texto bem interessante, mas que na verdade, comprei a Caros Amigos ontem ou anteontem se não me falha a memória, e já tinha lido essa matéria. E graças a mesma, descobri seu blog, o que até mesmo me inspirou a escrever e postar algo no meu blog, relacionando a Caros Amigos, Carta Capital e a Veja. Caso esteja interessado, o link segue abaixo. Caso contrário, deixo apenas meus agradecimentos por ter conhecido a Caros Amigos e consequentemente, por ter descoberto seu blog. Obrigada, Maria Elisa.

Guilherme Scalzilli disse...

Oi Maria Elisa, seja muito bem vinda. Parabéns pelo blog e continue participando.
Um abraço do
Guilherme