Mostrando postagens com marcador Aventura e Viagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aventura e Viagem. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Emoções olímpicas

 















A simultaneidade abrangente da televisão diminui o fascínio grandioso da experiência nos Jogos Olímpicos, mas a presença nas competições impossibilita apreender algo além delas próprias. Paradoxalmente, a impressão de amplitude e diversidade fica mais nítida à medida que essas características se fazem menos apreensíveis.

O clima geral é festivo, deslumbrado e ordeiro. A sensação de segurança predomina, inclusive nas regiões sensíveis. Chega a soar surpreendente o baixíssimo número de ocorrências negativas registradas pela mídia. São inúmeras disputas simultâneas, multidões imensas circulando por centenas de quilômetros sem parar, pessoas de todas as nacionalidades, faixas etárias e motivações.

Sim, ocorrem problemas. No BRT, principalmente, que não se preparou para as responsabilidades assumidas pelo transporte rodoviário nos Jogos. Não existem mapas das linhas especiais no site da empresa, nem nas estações. Muitos funcionários dão informações desencontradas. Ninguém organiza as aglomerações nos horários de pico.

Também houve e há falhas logísticas. No primeiro dia, a rodoviária Novo Mundo só tinha dois caixas eletrônicos para compra do cartão de transporte, ambos quebrados. As estações de metrô fecham antes de algumas disputas terminarem.

Vencida a fase de aprendizado, porém, os deslocamentos pelo circuito olímpico transcorrem de forma satisfatória e evidenciam o acerto na escolha dos pontos de competição. Todas as regiões da cidade foram envolvidas, dispersando o afluxo gigantesco de pessoas e revelando a contraditória beleza desse lugar único

É necessário louvar o grau superior da organização interna dos Jogos, e criticar suas falhas pontuais, mas eles fazem parte de uma estrutura mastodôntica e bilionária que tem pouco a ver com a cidade-sede ou seus moradores. Mesmo as evidentes melhorias no transporte e nas instalações públicas cariocas precisam passar pelo teste do uso cotidiano, fora da excepcionalidade de um momento que parece a salvo de intempéries.

A tola confusão entre a nacionalidade dos anfitriões e o cosmopolitismo de um evento quase impecável serve apenas para revirar estômagos provincianos. E para nos lembrar de suas previsões catastróficas e de sua infame torcida pelo fracasso dos Jogos. Agora estão por aí, feitos zumbis ranzinzas, falando em déficits na Previdência.

Por outro lado, a mídia que lucra com o evento silencia sobre o papel fundamental que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff tiveram na viabilização da inesquecível festa olímpica. Cada imagem do triunfo evidencia o oportunismo do golpe e explica por que os golpistas se esforçam tanto para consumá-lo agora, em meio ao deslumbramento do país.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Em busca da catástrofe olímpica


















Tenho visão em geral positiva sobre megaeventos esportivos realizados no Brasil. Gosto da experiência e do transe civilizatório que ela provoca. E dou enorme importância aos ganhos educativos, culturais e econômicos do turismo que essas efemérides incentivam.

Não acho que faltem problemas, muitíssimo pelo contrário. Refuto certas críticas por causa dos seus argumentos frágeis, omissos e distorcidos. Aconteceu na Copa e, de maneira previsível e patética, se repete agora, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

As comparações seletivas são ridículas. Deixando de mencionar, por exemplo, que em Londres houve conflitos de rua, instalações improvisadas, desorganização e falhas de segurança. Por que buscar paralelos na Rússia e na Grécia, mas ignorar os britânicos?
                                                                                                                                             
Outra besteira é o viés generalizante dado ao “desastre” dos Jogos brasileiros. Esse tom negativo engloba de maneira homogênea um empreendimento complexo, que possui múltiplos aspectos e possibilidades de abordagem. Inclusive o ufanismo hipócrita que serve de contraponto para justificar o extremo catastrofista, igualmente superficial.

A obsessão com “legados” chega a soar divertida. É como se os Jogos, num passe de mágica, devessem corrigir décadas de incompetência e descaso administrativo. Eventos privados não existem para substituir governos. As promessas irreais fazem parte da própria engrenagem que as tornou necessárias (e possíveis) em primeiro lugar.

A paranoia coletiva com o “dinheiro público” despreza o fato de as carências brasileiras se deverem à má gestão das verbas estatais, e não ao aporte investido. E aqui a relação custo-benefício é ardilosa, pois envolve os ditos “legados imateriais”, de difícil aferição. Duvido que qualquer evento patrocinado por governos, independente da área, sobreviva à contabilidade simplista que se costuma aplicar aos Jogos Olímpicos.

Nem vale a pena começar um debate sobre se “o Brasil merece” os Jogos. Esse tipo de viralatice pacóvia serve apenas para evitar que empresas e pessoas sejam denunciadas individual e nominalmente por suas trapalhadas. É mais cômodo e lucrativo demonizar a população do que mexer com anunciantes, amigos de chefes e aliados de golpistas.

Os países considerados “merecedores” dos Jogos não toleram análises depreciativas como as que seus veículos espalham sobre o Brasil, menos ainda se cometidas por estrangeiros. Os analistas brasileiros jamais ousariam manchar a imagem de uma cidade europeia ou norte-americana, alertando os viajantes sobre o risco de atentados, racismo, xenofobia, etc. E não sairia no New York Times.

Tudo se resume ao provincianismo tolo, essa vergonha de ser brasileiro que virou uma espécie de prerrogativa moral do ressentimento conservador. O mal dissimulado gozo com a desventura de cariocas, turistas e atletas revela o que há de pior na cultura atrasada que ameaça tornar-se hegemônica na mídia e na política do país.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

“Até o fim”






















Passou meio batido pelo circuito brasileiro, provavelmente por causa da sinopse. Mas é incrível o que se pode fazer com apenas um (bom) ator, uma ideia simples, alguns artesãos competentes.

O primor técnico mantém o interesse na ação. O incrível desenho de som substitui a completa falta de diálogos. As traquitanas de estúdio reproduzem com perfeição a experiência no cenário único do veleiro. A fotografia certeira e a edição agregam ritmo quase desesperador à pantomima silenciosa do homem.


O interessante é que não precisamos conhecer os rituais de segurança náutica para entender a maioria dos procedimentos do velejador e até para julgá-los corretos nas circunstâncias. Os amantes de barcos devem gostar, principalmente os interessados em aventuras, viagens, perrengues e afins.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Copa das Copas















Publicado no Amálgama

A Copa do Mundo brasileira é motivo de comemoração e deve ser preservada contra qualquer iniciativa que tente sabotá-la. Apenas os cínicos, os obtusos e a imprensa partidária têm justificativas para desejar o fracasso do evento. Essa patologia vira-lata que se tornou moda nas redes sociais reflete um esforço para dar vapores modernos e republicanos às antigas tendências xenófobas, preconceituosas e elitistas do imaginário colonizado.

Óbvio que há problemas de planejamento, execução e controle. Talvez haja corrupção. Embora o governo federal tenha sua parcela de culpa, nenhuma análise honesta sobre esse ônus pode ignorar o papel das grandes corporações privadas e dos administradores regionais. As construtoras dos estádios, as empreiteiras contratadas para melhorias, as prestadoras de serviços e as concessionárias também precisam responder por atrasos, desvios e negligências. Governadores e prefeitos, pelas verbas que receberam do BNDES e que retiraram dos próprios orçamentos.

Os debates sobre a Copa transformaram-se em propaganda eleitoral para impedir que Dilma Rousseff receba os merecidos benefícios de popularidade pelo grande evento que ajudou a viabilizar. Generalizações falsamente neutras (“governo”, “dinheiro público”, “bagunça”, “a resposta virá em outubro”) servem para livrar os políticos locais e as empresas de questionamentos que embaralhem o maniqueísmo da indignação farisaica. A solidariedade com os pobres termina assim que eles votam no inimigo petista.

Continuo desejando uma derrota vexatória da seleção. O sucesso dos jogadores-de-empresário patrocinados pela CBF e pela rede Globo simbolizaria o triunfo de um sistema viciado que manipula e apodrece o futebol nacional. Não é à toa que ele recebe o fervoroso apoio da crônica esportiva, tão rigorosa nas suas denúncias contra a FIFA. A farsa patriótica em torno da empáfia grosseira de Felipão e seus atletas milionários é um insulto aos seguidores de Ponte Preta, Guarani e outros clubes massacrados pela cartolagem televisiva, sob aplausos hipócritas da imprensa bairrista.

A propósito, não acho que um título seria positivo para a campanha dilmista. Primeiro porque o nexo é desautorizado historicamente. Segundo, e mais importante, porque o voto nesse ano atribulado tende à ruptura de expectativas e condicionamentos. O eleitor susceptível a tais influências parece mais propenso a votar seguindo um viés oposto a seus estímulos de torcedor do que alinhado com eles.

Gosto daquilo que o jargão “Copa das Copas” insinua, sem querer, sobre a multiplicidade nacional. São mesmo torneios diversos no mesmo evento. Há os sem-teto, índios, desapropriados, estudantes, vândalos, colecionadores de figurinhas, a nova classe média, a elite deseducada, fanáticos e indiferentes, bons e maus funcionários, bandidos, crianças, amigos, casais, preços abusivos, crimes, revolta, festa, esculacho, prazer, filas, sustos, o beijo e a porrada.

Nenhuma razão para vergonha. O Brasil não é, felizmente, a ilusão homogênea e previsível que os provincianos acalentam. Quanto mais polêmica, desafiadora e contraditória for a experiência da Copa, mais potente e complexa a imagem que o país construirá, inclusive para os brasileiros. Essa riqueza também inclui os oportunistas que se dedicam a destruí-la.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Apagation


















Os viajantes acabam de passar maus bocados no aeroporto de Nova York. Vôos cancelados, desinformação geral, atendentes grosseiros, descaso das companhias, autoridades omissas, gente espalhada pelo chão. A coisa durou vários dias, causando prejuízos incalculáveis. E começou bem antes da famosa frente polar que agora toma o noticiário.

Nada muito diferente do que se costuma sofrer (particularmente o estrangeiro) nos principais aeroportos do mundo em situações críticas. A diferença é que aqui a mídia corporativa chama isso de “apagão”, enquanto nos casos gringos busca uma justificativa razoável e esquece rapidinho.

Se o circo nova-iorquino ocorresse em Cumbica ou no Galeão, as primeiras páginas brasileiras fariam bafafás homéricos. “Imagina na Copa”, rosnariam os colunistas solidários. Não se falaria em outra coisa por semanas.

O transporte aéreo civil está saturado nas grandes cidades estadunidenses e européias há tempos, chegando às vezes a um nível de bagunça que talvez jamais tenhamos conhecido. Alguns (poucos) aeroportos são colossos arquitetônicos, mas basta uma nevasca ou uma greve para a empáfia primeiro-mundista virar do avesso.

O engraçado de tudo isso é que os nossos bravios colunistas estão cansados de sofrer nos apagões internacionais. Mas, lá fora, tratados como bestas, metem os rabos entre as pernas e reservam o orgulho para despejá-lo contra o país que odeiam.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Piada de brasileiro

















Essa vai para o anedotário da demofobia universal: não é permitido ler no Real Gabinete Português de Leitura. Apenas obras do acervo local, restritas a usuários cadastrados. Quem puxa uma cadeira e ameaça abrir um livro próprio, ou um jornalzinho básico, recebe a visita de uma suave funcionária que vem negar o mimo.

“Porque não pode”, ela responde, já menos simpática, à indagação óbvia. O mistério nos autoriza imaginar que se trata de medida para uma espécie (mal) disfarçada de assepsia social. Temor de que a sacralidade solene do ambiente seja conspurcada pelo populacho ignóbil.

O Real Gabinete é um verdadeiro tesouro arquitetônico, oásis oculto no abandono da região central carioca. Mas essa pretensão a templo de iniciados viola os mais rudimentares conceitos modernos de museologia e administração de aparelhos culturais. Vira gesto característico daquela nobreza colonial que, não à toa, recebeu o devido pagamento histórico na forma de chacota.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Marcha errada



As ciclofaixas dominicais movimentam vasto contingente de servidores e bagunçam o trânsito de vias importantes a pretexto de incentivar um exercício físico de salubridade questionável. Apesar da fachada atraente, não passam de paliativos demagógicos para a falta de infra-estrutura pública de lazer e convívio. Mas o verdadeiro disparate desses remendos de alcance ínfimo é que as administrações municipais poderiam usar os recursos gastos com equipamentos e horas extras para construir quilômetros de ciclovias permanentes, sinalizadas e protegidas.

As ciclovias ultrapassam o âmbito puramente recreativo. Servindo ao deslocamento das pessoas em percursos cotidianos, suavizam o trânsito caótico e suas nefastas conseqüências ambientais e econômicas. E, acima de tudo, evitam mortes estúpidas e horríveis. Eis a principal responsabilidade que precisa ser cobrada pelas tragédias rotineiras envolvendo ciclistas.

A outra (menor, mas nem por isso inexistente) cabe aos próprios ciclistas. Conduzir bicicleta no meio do tráfego intenso é uma completa loucura, um risco desnecessário, um capricho estatisticamente fadado ao pior. Pouco importa o que dizem o Código de Trânsito, a moda européia, os princípios libertários: os direitos das vítimas não lhes servem mais quando elas jazem despedaçadas no asfalto. Pode-se encarcerar um motorista assassino, na melhor das hipóteses, mas sempre restarão outros milhões para substituí-lo.

O trânsito urbano é dominado pelo absoluto desrespeito às normas. Exibe um microcosmo transparente da frouxidão moral generalizada que em outras esferas de convívio ainda conseguimos disfarçar sob farisaísmos de pendor ideológico. As autoridades fazem vistas grossas porque o rigoroso cumprimento das leis romperia o frágil equilíbrio de um mecanismo já saturado e inviável. Ninguém dá a mínima para aventureiros que ousam desafiar essa aparente normalidade.

Se o improviso e a insensatez servissem para amenizar a anarquia estabelecida, a proliferação de motocicletas já teria levado a resultados satisfatórios. É hora dos ciclistas abandonarem a tática do martírio inútil, trocando-o por campanhas que reúnam força política para pressionar os governos locais a enfrentar o colapso dos transportes nas grandes cidades e a tratar as ciclovias como espaços prioritários de circulação.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Rio de Janeiro continua sendo



Queria denunciar a bituca de cigarro acesa que alguém jogou de um escritório e caiu sobre o casal que conversava em pleno largo da Carioca. Lembrar que a tragédia no bondinho de Santa Teresa anunciava-se desde a Guerra de Canudos, época de sua inauguração. Dedurar as propagandas da prefeitura que se apropriam de obras bancadas pelo governo federal e sequer o mencionam. Chacotear o anedótico “metrô na superfície”, um simples busão com poucas paradas, e os mapas oficiais com estações imaginárias. Maldizer os engravatados que tentam furar a fila da esfirra na base da gíria malandra. Indagar por que os fiscais de trânsito precisam organizar cruzamentos em que os semáforos funcionam perfeitamente. Amaldiçoar os taxistas desvairados que ignoram qualquer lei, seja dos homens, seja da natureza. Lamentar a situação do centro antigo, arruinado pelo descaso das autoridades e da população. Xingar as intermináveis obras de encanamento que jogam os pedestres para cima dos motoristas insanos. Bradar contra a omissão generalizada perante a informalidade, o desrespeito, o improviso.

Mas então me lembro dos corvos que adoram desqualificar a cidade e suas pretensões a eventos internacionais. E dessa facção publicitária da esquerda, igualmente obtusa, que acha progressista confundir incivilidade com descontração e Estado de Direito com fascismo, e que impõe obstáculos sociais para toda política urbana imaginável, enxergando burgueses expropriadores em qualquer forasteiro indignado que ouse sugerir menos bagunça na sede das Olimpíadas. No final dá preguiça de levantar um debate que não tem como chegar ao necessário meio-termo, pois ele não interessa a nenhuma das facções adversárias. Talvez nem mesmo aos próprios cariocas.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vergonha européia


A xenofobia recrudesce lentamente na Europa desde o pós-guerra, e nunca esteve tão forte e estruturada. O fenômeno atinge até mesmo os turistas, que amargam o desprezo (e amiúde o escancarado preconceito) de autoridades e moradores. A gaiola do aeroporto espanhol de Barajas é apenas o exemplo acintoso de uma prática bastante disseminada pelas ruas.

Os atentados na Noruega não desmascaram apenas a face tenebrosa do nacionalismo radical europeu. O perplexo espírito conservador ocidental (muito particularmente o brasileiro) não sabe como lidar com a chacina perpetrada por um norueguês jovem, rico e bem-educado, sob a torturante incompetência das forças de segurança locais.

Quem está acostumado a louvar a superioridade civilizatória do Velho Continente não assimila uma explosão e fuzilamentos na impoluta, rigorosa e segura Escandinávia. Os apologistas da pureza étnica (“crime na Europa é coisa de imigrantes”) chocam-se ao constatar que alguém de tez rósea, olhos translúcidos e topete loiro pode agir feito um selvagem. E os partidários da islamofobia estremecem diante de uma barbaridade que há pouco justificava seu ódio ao fundamentalismo islâmico.

Nem o antigo recurso de culpar as próprias vítimas pode aplacar a náusea do colonizado jeca (“ninguém mandou ser ilegal”, ele resmunga, quando a polícia da metrópole espanca desvalidos nos arrabaldes da capital charmosa). É por isso que já começam a aparecer análises responsabilizando o falecido Osama Bin Laden pela insânia do puro e inocente cidadão norueguês.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Brasil Brau 2011



Um parque de diversões para o amante da cerveja. São dezenas de produtores brasileiros, dos menos conhecidos aos já consagrados no circuito alternativo, oferecendo e comentando suas criações. Há tanta oferta que fica difícil conciliar a degustação com a outra parte do evento, ocupada por expositores de equipamentos e insumos destinados a todos os processos da fabricação cervejeira.

A fauna, interessantíssima, reúne as grandes celebridades do ramo, entre consultores, jornalistas, fabricantes e agregados, de copos em riste, berrando no idioma dos bebedores exigentes, gargalhando feito crianças na Disneylândia. Festa para os sentidos, aula de produção, grande oportunidade de fazer amigos e ficar vermelho sem ressaca.

Segundo o regulamento da feira, sua gratuidade é restrita aos profissionais da área (fui como avaliador do Brejas), mas esse controle não é absoluto. Uma idéia para futuras edições seria equacionar melhor o grande afluxo de curiosos com o restrito espaço de convívio e fluxo. E também seria humano permitir uma lanchonete onde os guerreiros possam forrar as entranhas.

Pena que dura pouco, e demora a se repetir. Hoje é o último dia. Mais informações podem ser acompanhadas na página oficial do evento ou através do blog do Brejas.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

“Meia-noite em Paris”



Inevitável escala parisiense da série “turística” de Woody Allen, forçado a viajar mais por razões financeiras que propriamente afetivas. Conhecer previamente o enredo pode estragar a primeira reviravolta do roteiro, construída com notável fluidez. Tentarei não revelá-lo.

A homenagem à capital francesa edulcora a camada mais imediata e agradável do filme, com suas belas imagens, os clichês românticos, as moçoilas deslumbrantes. Um pouco além deleitamo-nos com os ótimos atores secundários (não engulo Owen Wilson) e seus engenhosos personagens, principalmente os de Rachel McAdams e Michael Sheen, que fornecem um sutil contraponto simbólico para o conflito principal.

À medida que nos deixamos levar pelos substratos possíveis, no entanto, descortina-se o verdadeiro tema da obra: a nostalgia, o anseio de aprisionar um passado impossível, a insatisfação do indivíduo com o mundo que o rodeia. Gil, o protagonista (cujo romance também aborda a questão), conclui que esta é uma tendência humana, que se repete de geração em geração desde tempos imemoriais. Ninguém nunca está feliz com sua época.

Tudo bem, mas será que o próprio diretor se satisfaz com esse diagnóstico, tão otimista e apaziguador e, enfim, tão alinhado aos insossos relativismos da tal pós-modernidade? Que tipo de futuro tenebroso precisará vitimar o planeta para que seus habitantes vejam neste mundo superficial, amedrontado e autoritário a mesma riqueza cultural, o mesmo espírito inventivo, a mesma irresponsabilidade experimentalista dos anos 1920, ou até da última década do século XIX?

Acho que a homenagem metalingüística ao surrealismo serve como uma piscadela disfarçada que Allen nos dirige para insinuar sua própria resposta ao dilema.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Urubus



Se a imensa população da região metropolitana de Campinas não se mexer a tempo, o aeroporto de Viracopos receberá o nome de Orestes Quércia. Outra vertente quer batizá-lo de Carlos Gomes. Tratando-se de universo que envolve superstições e fobias diversas, talvez fosse o caso de pesar bem as duas simbologias envolvidas.

A depender da vontade da imprensa local (e de alguns mandatários da cidade), a questão será fechada num golpe fulminante de caneta. E os locais terão de explicar assuntos meio embaraçosos para os torcedores estrangeiros da Copa. Sem contar o mau agouro.


quinta-feira, 3 de março de 2011

“127 horas”



Foi impossível manter uma completa surpresa acerca do enredo, pois a imprensa (críticos inclusive) fez a gentileza de contá-lo aos poucos, até o final. Sendo uma história real, e célebre, ficaria muito difícil escondê-la. Só posso imaginar o impacto do desenlace para espectadores que não a conhecem.

James Franco, arrebatador, talvez seja uma das injustiças do Oscar, subestimada por sua fraca atuação como apresentador do prêmio. O imenso desafio técnico do roteiro foi vencido pela entrega do ator e pelas firulas visuais de Danny Boyle, desta vez bem aplicadas. A exuberância do canyon também ajuda.

Quem já vivenciou perrengues aventurescos entenderá tudo aquilo muito bem: a busca pela solidão, os equipamentos, as técnicas, as alucinações, os dilemas. É angustiante constatar que você tem a flacidez de miolos necessária para cair na mesma enrascada de Aaron Ralston, mas nenhum dos seus conhecimentos e da sua coragem para sair dela. Preciso urgentemente fazer um curso de salvamento.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Mamata

Walter Feldman passará alguns meses morando em Londres às nossas custas, com a árdua missão de passear pelas obras e reuniões preparativas da olimpíada britânica. Indicação de Gilberto Kassab, que já o empregava como secretário de Esportes pela cota de José Serra na administração paulistana.

Curioso como a imprensa corporativa acha certas prebendas naturais e inquestionáveis. Imagino a gritaria da turma dos cartões corporativos caso fosse Orlando Silva o privilegiado, e ele ainda por cima reclamasse do salário de R$ 12 mil.

Se Kassab quiser, faço pela metade. Trabalhando num frigorífico, doze horas por dia, pegando busão na perifa.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Doeu

O governo espanhol acusou o golpe. Em pleno escândalo causado pela deportação da brasileira Denise Severo, o embaixador da Espanha publicou um artigo na Folha de São Paulo e o Globo Repórter fez uma extensa matéria turística sobre o país, com toda a cara do mais puro jabá.

Sinais de que é no bolso que a tal retaliação mais amedronta os xenófobos, racistas e machistas civilizadores europeus. Revidar nas alfândegas é só parte (obrigatória e legítima) do processo. Há outras linguagens internacionais bastante enfáticas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Barajas é aqui



As boas almas se solidarizam com a última vítima da truculência espanhola.

Mas é fácil politizar o sofrimento dos brasileiros no aeroporto de Barajas, jogando a culpa na submissão do Itamaraty. Embora fosse uma atitude correta e urgente do governo brasileiro, a reciprocidade não resolveria o problema. Nossas autoridades jamais teriam coragem de tratar estrangeiros da maneira como somos tratados em seus países, e tampouco espalhariam igual número de violências.

Centenas de brasileiros são maltratadas anualmente por leões-de-chácara espanhóis na Guantánamo dos turistas sul-americanos. A imprensa divulga apenas os casos mais gritantes, e olhe lá. O escandaloso episódio envolvendo Guinga, por exemplo, sumiu da pauta.

Esse silêncio é subvencionado pelas agências de viagens, ricas anunciantes da mídia corporativa, que não querem admitir a seus clientes que eles podem perder as economias e passar humilhações porque um idiota fardado não foi com as suas fuças. Quando a turma começar a desprezar pacotes e ofertas que envolvam empresas aéreas espanholas, uma luzinha amarela acenderá na xenofobia (machista) dos civilizados europeus.

Mas, claro, continua mais cômodo fingir que as vítimas fizeram por merecer ou deram um bruto azar, coitadas. Se os painhos fizeram, é porque precisava, certo? Até que acontece com a gente e ninguém dá mesmo nenhuma bola.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Rumo a Santa Cruz


A partir de amanhã terei o privilégio de participar da IV Feira do Livro de Santa Cruz do Rio Pardo, que contará com diversas atividades e convidados ilustres. Pretendo fazer uma breve cobertura da Feira para o blog. Depois também listarei aqui os temas e as referências mencionados na minha apresentação.

Clique na imagem acima para ampliar. Programação completa na página do evento.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Copa dos erros


A final simbolizou o futebol violento, burocrático e enfadonho que prevaleceu na África do Sul. A vitória do supervalorizado time espanhol coroa um pragmatismo que parece ter se transformado em sinônimo de sucesso, principalmente para as equipes menos capacitadas: aversão ao risco, marcação, resistência.

Fazia tempo que não víamos a mídia esportiva errar tantas previsões. Mal iniciada a competição, Itália, França e Inglaterra calaram metade dos oráculos de botequim. Brasil, Argentina, Portugal e Alemanha viveram seus momentos de “virtuais campeões” durante os mata-matas, com os resultados conhecidos. Por outro lado, seleções menosprezadas (Uruguai, Paraguai, Chile) surpreenderam positivamente.

As estrelas também ficaram devendo. Rooney, Lampard, Kaká, Robinho, Cristiano Ronaldo, Eto´o e Messi (este em menor intensidade) decepcionaram os fãs. Estavam claramente fora de condições físicas. Mas a falta de destaques individuais não redundou necessariamente em forças coletivas inquestionáveis. Não houve um grande time. Quase todas as partidas emocionantes tiveram nível técnico medíocre.

Se a Fifa não superar o ridículo arcaísmo tecnológico, as competições internacionais logo perderão a credibilidade restante. Os erros bizantinos de arbitragem novamente decidiram jogos numa Copa, e talvez a própria conquista da taça. A estranha tolerância de Joseph Blatter com esse absurdo permite suspeitas de manipulação e mancha definitivamente a história do esporte.

A desorganização e as falhas infra-estruturais das sedes sul-africanas demonstram que é necessário muito problema para inviabilizar uma Copa do Mundo. E também revela algo sobre a sanha denunciatória da imprensa (brasileira, inclusive), quando se trata de cobrir festividades alheias.