segunda-feira, 12 de março de 2012

Marcha errada



As ciclofaixas dominicais movimentam vasto contingente de servidores e bagunçam o trânsito de vias importantes a pretexto de incentivar um exercício físico de salubridade questionável. Apesar da fachada atraente, não passam de paliativos demagógicos para a falta de infra-estrutura pública de lazer e convívio. Mas o verdadeiro disparate desses remendos de alcance ínfimo é que as administrações municipais poderiam usar os recursos gastos com equipamentos e horas extras para construir quilômetros de ciclovias permanentes, sinalizadas e protegidas.

As ciclovias ultrapassam o âmbito puramente recreativo. Servindo ao deslocamento das pessoas em percursos cotidianos, suavizam o trânsito caótico e suas nefastas conseqüências ambientais e econômicas. E, acima de tudo, evitam mortes estúpidas e horríveis. Eis a principal responsabilidade que precisa ser cobrada pelas tragédias rotineiras envolvendo ciclistas.

A outra (menor, mas nem por isso inexistente) cabe aos próprios ciclistas. Conduzir bicicleta no meio do tráfego intenso é uma completa loucura, um risco desnecessário, um capricho estatisticamente fadado ao pior. Pouco importa o que dizem o Código de Trânsito, a moda européia, os princípios libertários: os direitos das vítimas não lhes servem mais quando elas jazem despedaçadas no asfalto. Pode-se encarcerar um motorista assassino, na melhor das hipóteses, mas sempre restarão outros milhões para substituí-lo.

O trânsito urbano é dominado pelo absoluto desrespeito às normas. Exibe um microcosmo transparente da frouxidão moral generalizada que em outras esferas de convívio ainda conseguimos disfarçar sob farisaísmos de pendor ideológico. As autoridades fazem vistas grossas porque o rigoroso cumprimento das leis romperia o frágil equilíbrio de um mecanismo já saturado e inviável. Ninguém dá a mínima para aventureiros que ousam desafiar essa aparente normalidade.

Se o improviso e a insensatez servissem para amenizar a anarquia estabelecida, a proliferação de motocicletas já teria levado a resultados satisfatórios. É hora dos ciclistas abandonarem a tática do martírio inútil, trocando-o por campanhas que reúnam força política para pressionar os governos locais a enfrentar o colapso dos transportes nas grandes cidades e a tratar as ciclovias como espaços prioritários de circulação.

4 comentários:

caminhos do sul disse...

companheiro sua narrativa é inquestionável pelo conteúdo e principalmente por chamar a atenção dos ciclististas da sua real importância em torno do tema sustentabilidade....chegamos ao cúmulo de comprar carros q não podem rodar, como São Paulo(rodizio), porém continua-se a fomentar redução de imposto pra vender mais carro com relação de crescimento econômico; realmente estamos na contra mão....

Cibele disse...

Por que "salubridade questionável"? Ficar horas sentado dentro de um carro é que é saudável? Eu sei que o seu gosto é mais ou menos assim: cinema, bebida, cigarro e carro. Sorte sua. Vai morrer fazendo o que gosta. Já os ciclistas não têm o direito de fazer o que gostam, não é? Não têm o direito de ocupar as cidades? E a Holanda, Paris, onde as pessoas vão pra balada de bicicleta e podem alugá-las até de madrugada, como é que ficam na sua lógica? Lá não há carros? Há sim. Mas há a consciência por parte dos motoristas, não são menininhos americanos querendo se auto afirmar. Menos Hollywood e mais maturidade pra esse Brasil!

Guilherme Scalzilli disse...

Cibele, querida, se você tivesse pesquisado um pouco melhor, saberia que também gosto de corrida de aventura, da qual o ciclismo é parte fundamental. Mas não precisamos ser atletas ou drogados para defender os direitos de atletas e drogados (ou mesmo para criticá-los), certo?
Quanto à sua pergunta, devo admitir que o trecho citado foi sutil em demasia: não é nem um pouco saudável fazer exercícios físicos respirando monóxido de carbono e outras químicas mortais expelidas por escapamentos que passam a metros dos pulmões dilatados. Sem contar os outros problemas envolvidos com a prática esportiva sazonal, a exposição ao sol, o uso de equipamentos de proteção, etc.
Mas o fato é que você entendeu tudo errado. Meu repúdio se restringe às ciclofaixas dominicais, provisórias. Sempre defendi as ciclovias permanentes, e reforço-o no texto. Mas também cobro um pouco de sapiência por parte dos ciclistas que se arriscam à toa no meio de motoristas ignorantes.
Paris tem um trânsito caótico e muito parecido com o paulistano. Ademais, por diversos motivos, não sei se é muito prudente andar de bicicleta por lá em certos horários e regiões. Amsterdã parece mais civilizada, mas o uso de automóveis é restrito, pois o transporte coletivo não-poluente, pontual e eficaz chega a quase todas as ruas da capital. Eis o ponto fundamental, e o motivo de haver tanta gente preferindo ou precisando passar horas sentada dentro de carros.
Abraços imaturos do
Guilherme

Cibele disse...

Guilherme, desculpe, joguei um monte de coisas em cima de você, mas eu é que não estava lá muito bem. Não tenho problemas em reconhecer isso. Fiz uma análise apressada, sem refletir muito, além disso, fui rude com você. Foi mal. Sempre gostei do seu blog e não quis agredi-lo.
Abraços meio confusos.
Cibele