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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Sobre as eleições municipais


















A direita exagera seu triunfo nas disputas municipais. Observando os mapas históricos, notamos dois fatores: a) jamais houve “onda vermelha” nessa esfera, desautorizando a hipótese da “onda” contrária; b) o resultado atual configura um rearranjo partidário de vitoriosos no mesmo campo ideológico tradicionalmente hegemônico.

Em outras palavras, confirmou-se o antigo predomínio regional da centro-direita, com pequena variação positiva. No quadro geral, só a perda acentuada de votos do PT se destaca pontualmente. Ela pode refletir menos um fortalecimento do PSDB do que o avanço das legendas pequenas que nasceram depois de 2012 (SD, PROS, PEN, etc.).

A derrota do PT foi mais notável nos grandes centros urbanos, palcos do imenso esforço propagandístico e financeiro das passeatas pelo impeachment. Ao mesmo tempo, o volume de votos inválidos (quase um terço do eleitorado) e a ascensão de candidatos sem experiência partidária sugerem que parte do antipetismo adquiriu uma face “antipolítica” apenas circunstancialmente ligada às rivalidades usuais.

De qualquer forma, é impossível estabelecer conexões causais de resultados em escopo tão vasto e complexo. Os arranjos das coligações, a influência de governadores e o fisiologismo do governo ilegítimo (que negociou o golpe  com os interesses eleitorais dos parlamentares) suplantam qualquer diagnóstico generalizante.

Cada processo eleitoral tem lógicas próprias que não podem ser ignoradas. Cito o exemplo de São Paulo, que tem servido erroneamente de modelo para abordagens conjunturais amplas. Ali, os seguintes aspectos precisam ser considerados:

- Tempo de rádio e TV: João Doria montou extensa coligação partidária, que resultou em maior exposição midiática e ampliou seu índice de reconhecimento.

- Dinheiro: graças às novas regras eleitorais, a riqueza pessoal de Doria deu-lhe enorme vantagem diante da falta de recursos de Fernando Haddad.

- Comunicação: Doria explorou um perfil alinhado ao ceticismo político do eleitor. Haddad chegou fragilizado pela sistemática propaganda negativa da imprensa paulistana, além de ter feito um governo com promoção institucional muito ruim.

- Estratégia: enquanto Haddad lutava para se garantir no segundo turno, Doria (com auxílio dos institutos de pesquisa) priorizou o arremate da disputa no primeiro.

- Arco de candidaturas: nas periferias, Doria se beneficiou com o desgaste mútuo de nomes fortes nessas regiões; no “centro expandido”, com o antipetismo militante das classes médias.

Por fim, parece urgente um debate sério acerca da proibição de financiamento empresarial de campanhas. A individualização do caixa dois e o favorecimento de candidatos com maior patrimônio são duas consequências da canetada que trazem um preocupante viés antidemocrático ao processo eleitoral.

Talvez esse tema entre nas pautas midiáticas, assim que decantar o cinismo festivo dos analistas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Balanço do golpe III
















As ruas

Qualquer afirmação sobre o apoio popular ao impeachment é especulativa. As poucas estatísticas disponíveis aferem muito mais o alcance midiático do tema do que sua própria avaliação pela sociedade. O respaldo maciço a novas eleições, por exemplo, embaralha os sentidos possíveis da rejeição a Dilma Rousseff.

Por aí compreendemos a passividade que amplos setores populares demonstraram no processo. Mas houve mobilização, de ambos os lados, e a evidente homogeneidade sócio-econômica dos manifestantes não a deslegitima. O problema é que a natureza parlamentar do golpe dispensaria o aval público de qualquer forma.

Os erros do governo federal não anulam certa influência dos atos de 2013 nas manifestações antipetistas de 2015-16. É possível encontrar simbologias comuns aos fenômenos, sugerindo que a defesa do impeachment esteve de alguma forma latente na busca por novas formas de representação política, e esta naquela.

Dadas as circunstâncias, foi o polo governista dos protestos que atingiu os resultados mais notáveis, a ponto de iludir muita gente a respeito de sua força persuasiva. Dele nasceu a base do movimento “Fora Temer”, o que justifica (mas desautoriza) os esforços para descolar o atual oposicionismo da militância petista.

Por outro lado, precisamos realçar o sucesso da máquina propagandística e empresarial que esteve por trás das passeatas anti-Dilma. O projeto uniu órgãos de mídia, corporações privadas, governos estaduais e municipais, partidos políticos, associações de classe e até a CBF, naquilo que talvez tenha sido a maior demonstração histórica da força mobilizadora da direita brasileira.

Embora seja equivocado extrapolar a alçada institucional do golpe, é impossível ignorar a gigantesca engrenagem externa constituída para viabilizá-lo. O tamanho desse esforço pode ser aferido pelos resultados das últimas eleições municipais.


A série “Balanço do golpe”:


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O suave passeio de Jonas

 

Jonas Donizette (PSB) reelegeu-se prefeito de Campinas com larga margem. Seu vice é filho de José Roberto Magalhães Teixeira (1937-96), co-fundador do PSDB, que dá nome a anel viário, rodovia, escolas, avenidas e praças na cidade.

Veterano radialista, habilíssimo em comunicação, o prefeito recebe apoio antigo, sistemático e escancarado, creio até ilegal, de toda a imprensa corporativa campineira. Toda. Mídia esportiva, religiosa, informativa, musical, radiofônica, impressa, televisiva.

Apenas esse respaldo justifica a votação de Jonas, depois do escândalo da prisão de um assessor direto, em dezembro passado. Ele foi recolhido a camburão, no paço municipal, por suspeita de pertencer ao PCC. Exatamente, o Primeiro Comando da Capital.

O caso ficou restrito ao noticiário do momento. Ninguém quis averiguar as ligações do sujeito com o crime organizado, a origem da nomeação, seus contatos na Câmara, o que fazia num gabinete vizinho ao do alcaide.

Não é algo isolado. A famosa suspeita de que Jonas tem ligações com grandes interesses imobiliários jamais foi verificada. Sequer depois de loteamentos milionários brotarem na cidade após sua eleição, com auxílio de obras viárias da monarquia Alckmin.

E poderíamos lembrar os descalabros administrativos, especialmente no transporte, os projetos copiados de Fernando Haddad e até o “sem medo de ser feliz” do jingle da reeleição. Jonas não sabe o que é receber tratamento verdadeiramente investigativo, crítico ou mesmo irônico da mídia local. Nem, aliás, do Judiciário.

Campinas tem população equivalente às de Montreal, Barcelona e Munique. É inimaginável um governante dessas metrópoles receber tamanha condescendência dos respectivos veículos de informação. Aqui tampouco, fosse Jonas do PT.

Eis um exemplo para análises sobre a vitória da direita no país e o papel da imprensa na construção do fenômeno. Não se trata de ignorar questões amplas, envolvendo a política nacional, mas de verificar como elas se reproduzem nas especificidades locais.

Inclusive nas pressões profissionais e pessoais que silenciam os indignados.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Emoções olímpicas

 















A simultaneidade abrangente da televisão diminui o fascínio grandioso da experiência nos Jogos Olímpicos, mas a presença nas competições impossibilita apreender algo além delas próprias. Paradoxalmente, a impressão de amplitude e diversidade fica mais nítida à medida que essas características se fazem menos apreensíveis.

O clima geral é festivo, deslumbrado e ordeiro. A sensação de segurança predomina, inclusive nas regiões sensíveis. Chega a soar surpreendente o baixíssimo número de ocorrências negativas registradas pela mídia. São inúmeras disputas simultâneas, multidões imensas circulando por centenas de quilômetros sem parar, pessoas de todas as nacionalidades, faixas etárias e motivações.

Sim, ocorrem problemas. No BRT, principalmente, que não se preparou para as responsabilidades assumidas pelo transporte rodoviário nos Jogos. Não existem mapas das linhas especiais no site da empresa, nem nas estações. Muitos funcionários dão informações desencontradas. Ninguém organiza as aglomerações nos horários de pico.

Também houve e há falhas logísticas. No primeiro dia, a rodoviária Novo Mundo só tinha dois caixas eletrônicos para compra do cartão de transporte, ambos quebrados. As estações de metrô fecham antes de algumas disputas terminarem.

Vencida a fase de aprendizado, porém, os deslocamentos pelo circuito olímpico transcorrem de forma satisfatória e evidenciam o acerto na escolha dos pontos de competição. Todas as regiões da cidade foram envolvidas, dispersando o afluxo gigantesco de pessoas e revelando a contraditória beleza desse lugar único

É necessário louvar o grau superior da organização interna dos Jogos, e criticar suas falhas pontuais, mas eles fazem parte de uma estrutura mastodôntica e bilionária que tem pouco a ver com a cidade-sede ou seus moradores. Mesmo as evidentes melhorias no transporte e nas instalações públicas cariocas precisam passar pelo teste do uso cotidiano, fora da excepcionalidade de um momento que parece a salvo de intempéries.

A tola confusão entre a nacionalidade dos anfitriões e o cosmopolitismo de um evento quase impecável serve apenas para revirar estômagos provincianos. E para nos lembrar de suas previsões catastróficas e de sua infame torcida pelo fracasso dos Jogos. Agora estão por aí, feitos zumbis ranzinzas, falando em déficits na Previdência.

Por outro lado, a mídia que lucra com o evento silencia sobre o papel fundamental que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff tiveram na viabilização da inesquecível festa olímpica. Cada imagem do triunfo evidencia o oportunismo do golpe e explica por que os golpistas se esforçam tanto para consumá-lo agora, em meio ao deslumbramento do país.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Reflexões inconvenientes sobre o MPL


















Publicado no Brasil 247

Por mais que simpatizemos com a ideia do transporte público gratuito e universal, é difícil imaginá-la em vigor na dura realidade administrativa do país. A falta de respostas aos problemas orçamentários e jurídicos da medida agrega à principal reivindicação do Movimento Passe Livre um incômodo aspecto de esoterismo coletivista.

A citação de exemplos isolados onde vigora a gratuidade soa inconvincente para referendá-la nos contextos caóticos das metrópoles brasileiras. Não é só uma questão de escala, mas também de prioridade. Fala-se na revisão das dívidas municipais, mas seria quase desonesto exigir que a solução (de resto improvável) deixasse de atender a demandas mais graves e urgentes da sociedade, como saúde, educação e segurança.

Mesmo a questão do transporte vai muito além das tarifas. O colapso da mobilidade nasce de imensos problemas de planejamento, gestão e infra-estrutura que extrapolam o âmbito municipal. Nenhum urbanista defende a gratuidade das passagens como estratégia suficiente para solucioná-los. Poucos, aliás, julgam-na viável em si.

A carência de propostas unificadas e coerentes para o setor reflete a extensão do dilema, e também sinaliza o divórcio entre as lucubrações militantes e a realidade gerencial da esfera pública. O melhor sintoma desse deslocamento é a limitação do MPL a pautas oportunistas e localizadas, que tangenciam as verdadeiras questões práticas da área.

Talvez cansados de transtornar suas cidades para exigir o inexeqüível, os ativistas passaram a lutar “apenas” contra o aumento das tarifas. Embora seu nome carregue uma reivindicação clara, o movimento prefere aceitar a inevitabilidade da cobrança, como se a ruína do sistema fosse uma simples questão de valor unitário dos bilhetes. A anulação do reajuste faria alguma diferença na qualidade dos serviços prestados?

Em suma, falta plataforma ao MPL, um rol de melhorias com base jurídica, técnica e contábil que amenizem as agruras dos habitantes do mundo real. Empurrar a lacuna para o Poder Público é uma forma ingênua e inconsequente de atuação política. Vulgariza as muitas insatisfações populares sob um rótulo protestante generalista que se satisfaz em causar danos esporádicos à coletividade.

Isso explica o gradativo isolamento do MPL, abandonado pelas facções políticas e midiáticas que outrora o paparicavam. Sequer a inaceitável brutalidade policial, que ajudou a preencher o vazio reivindicatório dos protestos em 2013, consegue aglutinar mais adeptos à causa sem pauta.

Não há coincidência no fato de os black blocs ressurgirem ali, depois de uma elucidativa ausência nas mobilizações populares recentes. O radicalismo dos mascarados ocupa a lacuna programática do MPL, canalizando o descontentamento da juventude para um teatro de confrontação que só interessa aos poderes estabelecidos.

É um lamentável desperdício de energia transformadora, mas não deixa de ter certa função pedagógica.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Prisão sugere elo entre PSB e crime organizado

O prefeito e o suspeito confraternizam
















Uma ação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) aprisionou dez pessoas suspeitas de pertencerem ao PCC (Primeiro Comando da Capital) no interior de São Paulo. A lista inclui um assessor do prefeito de Campinas, Jonas Dozinette (PSB), que governa em coligação com o PSDB.

O título acima, propositalmente bombástico, sugere como a mídia tucana interpretaria o episódio se envolvesse uma gestão petista. Ironias à parte, contudo, o exagero é apenas aparente. Afinal, o assessor preso, filiado ao PSB, ocupava um cargo de confiança no gabinete do alcaide. E pode representar a influência da notória rede criminosa na cúpula administrativa de uma das maiores cidades do país.

Quem indicou o cidadão para um posto de tamanha importância? Como ele chegou ao PSB? Que ligações possui com os vereadores da base governista? Quais atividades exerceu na campanha de Jonas e, depois, na sua gestão municipal? É verdade que fazia lobby para o nebuloso setor do transporte alternativo?
           
Essas questões seriam prontamente averiguadas pela imprensa corporativa se ela tivesse mínima lisura jornalística. Haveria um escândalo nacional, equivalente à gravidade do caso. E os guardiões da moralidade vomitariam desabafos indignados sobre o nível de corrupção a que chegaram os aliados de Geraldo Alckmin.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Legado ressentido

 

O antipetismo continua inconformado com o sucesso da Copa do Mundo brasileira. Sempre que aparece uma oportunidade, a imprensa corporativa dá um jeito de manchar a memória do torneio.

A primeira tentativa do ano (depois de um longo e sintomático silêncio) veio com os escândalos da FIFA. Ainda não deu muito certo porque as denúncias são generalizadas, envolvendo até os países que o provincianismo vira-lata costuma invejar.

Agora reaparecem as análises preocupadas com o tal “legado” da Copa. Elas têm dois problemas graves: a) tentam associar o evento a uma incompetência administrativa que nada tem a ver com a Copa em si; e, principalmente, b) ignoram a responsabilidade dos governos municipais e estaduais, federalizando problemas que o Planalto não poderia resolver nem se quisesse.

Acho necessário cobrar as promessas feitas para justificar os aportes financeiros locais. Mas esse rigor precisa evitar bisonhices partidárias. Qualquer viés diferente resultará apenas numa repetição póstuma das vergonhosas mentiras proferidas antes da Copa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O incrível estado que parou

 













Considerando o padrão ético da tucanolândia, é improvável que alguém esteja fiscalizando as eternas obras da concessionária Rota das Bandeiras na rodovia D. Pedro I, altura de Campinas. Sorte da empresa, que não parece muito preocupada em evitar contratempos aos usuários que lhe pagam fortunas de pedágio.

Somando a argúcia dos privatas rodoviários com a folclórica (indi)gestão de tráfego do governo municipal de Jonas Donizette (PSB-PSDB), o resultado é caos, cada vez mais duradouro e irremediável. Desde as principais avenidas campineiras até dezenas de quilômetros ao longo das mais importantes estradas paulistas, fica tudo parado. Apocalipticamente parado.

Ninguém faz nada. Não há um comentário na imprensa a respeito. Os motoristas sequer buzinam. O que não chega a surpreender, já que, numa simplificação estatística, podemos supor que mais da metade das vítimas está satisfeita com Geraldo Alckmin.

Seria um escandaloso “apagão” se o PT estivesse envolvido na pândega. Ou melhor. A essa altura as concessões já teriam sofrido uma cruel devassa do Ministério Público e da Polícia Federal. Mesmo que ainda estivéssemos fadados aos incompetentes, talvez não pagássemos tão caro para sustentá-los.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A 31ª Bienal























Uma proposta central oportuna, que busca discutir o papel da arte nos movimentos transformadores da sociedade contemporânea. O conjunto é múltiplo e desigual, como de hábito, nem sempre afinado com a premissa, ou capaz de levá-la para além das superfícies panfletárias. Mas há um surpreendente sentido de coesão no resultado, que logra deixar a experiência fluída e provocativa.

Resta saber se o predomínio do “texto” (narrativas, testemunhos, digressões, etc) ajuda a configurar uma estética historicamente demarcada, ou se é uma estratégia que utiliza o suporte artístico apenas como veículo de transmissão de enunciados. Parece que o esforço intelectualizante dos trabalhos empurra sua dimensão formal para um lugar secundário.
           
Também é curioso notar o extensivo recurso à figuração para tratar de “coisas que não existem”. Com poucas exceções, parece que a fantasia está sempre ancorada em alguma forma de representação, levando a inevitáveis referências ao surrealismo, ao expressionismo, à pop art.

Sintomaticamente, o vídeo se oferece melhor ao ímpeto contestatório, com especial destaque para “Não é sobre sapatos”, de Gabriel Mascaro e “Os excluídos. Em um momento de perigo”, do coletivo Chto Delat (vale a pena assistir na íntegra, desde o começo). Entre os objetos, destacam-se Edward Krasiński e Michael Kessus Gedalyovich. Na bidimensionalidade, o divertido “Mapa” de Qiu Zhijie, “Deus é Bicha”, de Nahum Zenil, Ocaña, Sergio Zevallos e Yeguas del Apocalipsis e os painéis “Sem Título”, de Éder Oliveira.

Sobre outras Bienais:
“O vazio”

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hipocrisia ambiental






















O imbróglio jurídico em torno da distribuição de sacolas plásticas no comércio levanta uma dúvida simples: a única alternativa “ecologicamente correta” implica o prejuízo do consumidor? Tão preocupados com o meio-ambiente, por que os supermercados não fornecem sacolas reutilizáveis, inclusive adaptadas para o transporte do lixo?

É típico do autoritarismo cientificista transformar o assunto num problema educativo, como se houvesse apenas uma versão correta do que é “melhor para a sociedade”. O cidadão que enxerga nisso tudo uma tremenda hipocrisia de vendedores gananciosos encarna o herege ignorante do culto racional à deusa Ciência.

Claro, culpar o contribuinte pelo desastre planetário é mais fácil do que enfrentar os verdadeiros dilemas da questão. A consciência ecológica parece muito bacana até mexer com os lucros do empresariado.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Direitos em marcha a ré


A partir de 1º de outubro, o transporte coletivo de Campinas deixou de aceitar pagamentos em dinheiro. O usuário agora deve estar cadastrado no Bilhete Único ou possuir cartões avulsos, disponíveis em pontos comerciais da cidade.

Trata-se de grave desrespeito ao interesse público. O cidadão amargará diversos prejuízos e contratempos sem receber vantagens equivalentes. Apesar da retórica falsamente inclusiva das autoridades, tudo se resume a permitir que as concessionárias melhorem sua arrecadação, cortem gastos e se livrem de malfeitores.

A mudança é flagrantemente ilegal. Segundo a Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), o transporte configura “prestação de serviços” (artigo 3), que se faz obrigatória sob imediata remuneração em dinheiro, independente da compra de outros bens (artigo 39). O mesmo artigo veda onerar o custo das passagens de forma desigual, ainda que temporária, como ocorre na cobrança pelo suporte físico do bilhete (sintomaticamente apelidado “casco”).

O transporte público recebe estatuto de “serviço essencial” na Constituição Federal (artigo 30), configurando o chamado direito-meio, fundamental para o exercício das demais prerrogativas básicas de cidadania. Essa condição jurídica presume que o uso de ônibus urbanos deve ter caráter permanente, universal e soberano, acima de condicionantes econômicas, materiais ou burocráticas.

A medida também esbarra em sérias barreiras práticas para usuários eventuais. Idosos, portadores de necessidades especiais e gestantes enfrentam distâncias absurdas para comprar os cartões avulsos, correndo o risco de não encontrá-los. E não se trata apenas de visitantes de outras cidades. Basta imaginar o morador da periferia que precisa de atendimento médico emergencial numa noite de domingo.

Para ter mínima eficácia e natureza verdadeiramente “modernizadora”, a mudança exigiria a venda automática de bilhetes em todos os pontos de ônibus. Aliás, já que o suposto modelo do novo sistema vem de países desenvolvidos, precisaríamos também desfrutar de veículos asseados, pontuais e numerosos. Mas tamanhos avanços demandariam uma capacidade administrativa que o governo Jonas Donizete (PSB-PSDB) não exibiu nesse triste episódio.

Por que o Procon, o Tribunal de Contas do Município e o Ministério Público não se posicionam a respeito? Esperam a primeira morte causada pela falta de um mísero pedaço de plástico? Ou o fim do período eleitoral já conseguirá despertá-los?

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Cadê os mascarados?

 















Os protestos desapareceram. Até das cidades em que as passagens do transporte urbano voltaram a aumentar. Até durante os desfiles do Sete de Setembro. Até, pasmem, na campanha eleitoral.

Claro que não me refiro a sem-teto, camelôs, grevistas e outros movimentos setorizados, com pautas mais ou menos claras e participação restrita. Falo daquela turba descontente que saiu às ruas bradando contra o sistema político, as desigualdades, o mau uso do dinheiro público. Exigindo escolas, hospitais, reformas diversas. Cadê?

É impossível culpar a repressão policial, que foi o grande propulsor das manifestações de 2013 e continua a espalhar suas brutalidades. Mesmo a prisão de ativistas deveria suscitar uma resposta à altura. O fim da Copa do Mundo tampouco serve como pretexto. Afinal, supondo sinceros os objetivos dos seus adversários, os problemas permanecem, e livres da aprovação recebida pelo evento.

Então onde diabos foram parar os indignados? Por que decidiram poupar a grande farsa do sufrágio, que pereniza a máquina estatal e o sistema burguês? Não seria coerente com seu verniz “tático” se os black blocs aproveitassem o ritual da maldita classe política para desmascará-la? E o voto nulo, a abstenção, a desobediência civil que parecia a única forma efetiva de luta?

Que sonífero tomou o “gigante das ruas”, bem no momento em que ele teria mais visibilidade, contundência e poder de transformação?

Pensando bem, estão certos aqueles que responsabilizam as eleições. Elas tornaram os mascarados pragmáticos. A arruaça não faria bem à imagem da candidata “inovadora” que passou a representar seus anseios revolucionários. Tampouco ao discurso probo do antipetismo, que milagrosamente substituiu as plataformas genéricas de outrora.

Parece coisa de marqueteiro esperto. Mas, como sabemos, os manifestantes são espontâneos e apartidários.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Chantagens e chantagens

 

Há quem procure justificar a ocorrência de protestos de cunho social às vésperas da Copa do Mundo ou no seu transcurso. Não seria chantagem, mas senso de oportunidade.

Acho que esse raciocínio depende de algumas ponderações morais e práticas sobre a proporcionalidade dos esforços frente aos objetivos alcançados, os efeitos colaterais das decisões, o alicerce legal, a legitimidade política, etc. A adesão incondicional à idéia de que os fins justificam os meios produz muitas armadilhas para os incautos.

A paralisação dos motoristas de ônibus em São Paulo é exemplar. Se endossarmos o pragmatismo oportunista de qualquer manifestação, precisaremos aceitar também esse transtorno ilegal, provocado por facções rivais de sindicatos, com aparência de locaute (pressão empresarial para aumentar as tarifas) e suspeitas de simples bandidagem, que as autoridades policiais só toleram porque são usadas num jogo político-eleitoral.

Não bastam apenas estratégias eficazes: elas precisam ser reconhecidamente as mais adequadas (ou as únicas disponíveis) nas circunstâncias. Há muitas formas de pressionar os empresários sem causar prejuízos incalculáveis a milhões de cidadãos. Liberar catracas, por exemplo, ou impedir a entrada e a saída dos administradores nas sedes dos gabinetes e das companhias. Mas, claro, quando verdadeiramente atingidos, os patrões chamam a polícia e tudo acaba rapidinho.

A verdade incontornável que os apologistas da moda protestante ignoram é que existem limites éticos e legais para o exercício dos soberanos direitos à greve e à manifestação pública. Aplaudir uma dúzia de gatos pingados fechando a avenida Paulista por qualquer causa obscura serve como incentivo para a desmoralização das verdadeiras lutas sociais. Depois, quando populares começarem a sair no tapa com os grevistas, vão reclamar do “conservadorismo” do brasileiro.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Finalmente uma reação


















A demora do governo federal em produzir uma campanha publicitária positiva sobre a Copa do Mundo evidencia que algo errado acontecia na Secretaria de Comunicação Social. A iniciativa deveria ter ocorrido no ano passado, com estrutura temática, numa série de episódios que seguisse até a realização dos jogos. 
Mesmo que não chegue a esse rigor, no entanto, já será alguma coisa.

Não que os preparativos estejam impecáveis, pelo contrário. Mas a construção opinativa sobre a Copa tem sido monopolizada por um viés partidário que sonega ao público o mínimo que ele necessita para entender o que se passa. As críticas ao evento nunca atingem os governos locais, de estados e municípios, que se endividaram no BNDES e aplicam recursos em obras que os clubes ou as empresas deveriam pagar. Tudo adquire uma aura antigovernamental genérica, direcionada à administração Dilma Rousseff.

Qual foi a última reportagem denunciatória sobre o estádio de Manaus que citou o governador Omar Aziz (PSD) ou o prefeito Arthur Virgílio (PSDB)? Por que ninguém questiona o governador Silval Barbosa (PMDB) ou o prefeito Mauro Mendes (PSB) pela Arena Pantanal, de Cuiabá?

A propaganda favorável joga suspeitas sobre a fantasia de unanimidade criada pela mídia e as simplificações repetidas pelos manifestantes. O ufanismo pode agredir algumas sensibilidades, mas elas tampouco deveriam aceitar a tolice de que haveria mais escolas e hospitais se a competição não fosse realizada. A grande importância da reação governamental, porém, reside na constatação óbvia de que não é exatamente à Copa (ou à FIFA) que se dirigem os ataques dos seus detratores.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Todos contra Haddad






















O Tribunal de Contas do Município vetou os corredores de ônibus. O Tribunal de Justiça impediu o aumento do IPTU. A Polícia Civil avacalhou a Operação Braços Abertos. Não há uma iniciativa da administração Fernando Haddad a salvo de alguma interferência saneadora milagrosa.

Qual foi a última vez que um órgão fiscalizador estadual vetou programas de Geraldo Alckmin? Ou que o Judiciário paulista retirou centenas de milhões de reais dos cofres tucanos? Ou ainda que a soldadesca entrou numa obra assistencial de qualquer prefeitura descendo o cacete nos beneficiários?

Claro que nada é casual nisso tudo. Um sucesso do PT em São Paulo, principalmente na sensível área dos transportes, soa como hecatombe às sanguessugas paulistanas. O mesmo vale para tantos projetos sociais que nasceriam de um vultoso aporte financeiro. E para a revitalização das áreas centrais, somada ao alívio da calamidade que atinge os dependentes químicos (área de atuação de Alexandre Padilha, pré-candidato petista ao governo, que esteve no local horas antes da chegada dos paisanos de Alckmin).

Mas o que assombra nos episódios é o porte institucional da sabotagem. Os três Poderes republicanos, em suas conformações locais, revezam-se numa série de medidas estranhas que só beneficiam o projeto reeleitoral do PSDB. São vinte anos de uma engrenagem muito bem regulada, a serviço do bem comum.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Funk segregassaum

 

Publicado no Amálgama

Shopping centers oferecem facilidades indiscutíveis, além de concentrarem as únicas salas de cinema (e, cada vez mais, também os teatros) que ainda restam nas grandes cidades. Um debate responsável sobre eles deveria considerar seu papel na atenuação da tragédia urbanística e na salvaguarda de atividades culturais e sociais que, por diversos motivos, ficaram inviáveis nas ruas.

O problema dos shoppings é funcionarem à margem das leis, praticando arbitrariedades e abusos tão comuns que já foram incorporados à normalidade consumista. Só os preços cartelizados e a cobrança dos estacionamentos, para não mencionar o asseio das cozinhas e dos sanitários, renderiam investigações barulhentas. Mas os frequentadores têm preguiça de reclamar, o Ministério Público não faz nada e os raros berros dos Procons silenciam nas liminares manjadas que os infratores arrumam.

Boa parte da impunidade dos estabelecimentos vem do pretexto de serem espaços privados, cujas regras o cidadão escolheria acatar. Esse conceito de “privado” é tão distorcido quanto o de “público” usado por energúmenos para destruir bens e espaços de uso coletivo. O cliente financia shoppings e empresas agregadas assim como os contribuintes mantêm os governos. Existem contrapartidas semelhantes nessas relações, no mínimo porque certos bens e serviços fundamentais encontram-se inexoravelmente mercantilizados. Por isso várias teorias jurídicas reconhecem no Direito do Consumidor um caminho para o próprio exercício da cidadania.

Se alguém precisa medir a extensão do problema, basta observar o desembaraço com que os centros de compras selecionam os visitantes. Não é prática nova ou localizada. Há décadas os brucutus engravatados da “segurança” barram a entrada de pessoas por causa das roupas que usam e da sua aparência física. Chegam a interrogar suspeitos, a constranger inocentes e a expulsar os indesejáveis. Às vezes no tapa.

Nenhuma surpresa, portanto, no desrespeito aos rolezeiros. A novidade dos casos recentes é que o hábito discriminatório dos empresários escancarou-se ao ponto de mobilizar juízes (sempre eles, não é mesmo?), levando inclusive à censura de manifestações na internet e à violência policial. E não se trata de matéria incontroversa, quer dizer, a demofobia que seduz a consciência de alguns magistrados poderia ser prontamente rechaçada com um mínimo de sensibilidade e espírito democrático.

Há racismo nas medidas criminalizantes sim, mas o que as norteia mesmo é nojo de pobre. Uma tentativa de preservar intocado o ambiente de convívio e lazer dos abonados, a salvo dos “filhos do Lula” que indignam as boas famílias com seus meios rudimentares de ostentação e suas ousadias civilizatórias. Exemplos dessa velha cultura segregacionista brotam aos milhares nos comentários das redes sociais, repetindo os jargões dos ataques contra os programas inclusivos do governo federal. Bolsa Família e rolezinhos têm os mesmos inimigos.

Mas devemos tomar cuidado para não misturar os sentidos sociológicos ou políticos da reação intolerante com os do fenômeno em si. Os anseios da juventude que mora nas periferias ultrapassam generalizações oportunistas. O excesso de especulação teórica da esquerda e a partidarização histérica incentivada pela direita obscurecem o desafio prático de sanear as relações de consumo, cuja imoralidade favorece os descalabros de tantos episódios semelhantes. As irregularidades cometidas nos shoppings precisam ser confrontadas sem o ranço antiburguês de uns e a hipocrisia liberalizante dos outros.

A insistência na excepcionalidade dos rolezinhos é perigosa, pois ajuda a reproduzir a lógica do preconceito, que parte justamente de uma visão diferenciadora dos seus integrantes. Se os jovens fossem vistos apenas como os consumidores que são (ou tentam ser), tudo ganharia uma transparência muito mais veemente e provocativa.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O que há por trás da batalha do IPTU

 

Existem aspectos locais nos ataques ao reajuste do IPTU paulistano. As melhorias iniciadas por Fernando Haddad no transporte público trazem o fantasma das medidas de cunho social com vasto apelo popular que marcaram a continuidade dos governos Lula e Dilma. A temida hipótese de uma bem-sucedida administração petista começou a soar plausível às coligações conservadoras da capital que arrasaram a cidade por quase uma década, ganhando inclusive ares mafiosos.

Mas esses fatores não explicam nem a metade do imbróglio. Pois ele se insere num contexto mais amplo, o da disputa estadual, onde PSDB e asseclas estão dispostos a investir todas as suas munições. Continuar vencendo no estado de São Paulo representa uma questão de sobrevivência para as lideranças tucanas locais, talvez até mesmo para o partido em nível nacional.

A participação de Paulo Skaf tem pouco a ver com suas frágeis e duvidosas pretensões na campanha de 2014. O empresário serve há tempos como um coadjuvante útil para a candidatura situacionista, essa figura muito comum nas disputas brasileiras, que assume os ataques seletivos aos adversários, permitindo que o aliado com mais chances desenvolva uma agenda propositiva.

E Geraldo Alckmin está mesmo precisando, já que é na área dos transportes (habilmente priorizada por Haddad) que borbulha o escândalo do Propinoduto, uma bomba de tamanho potencial que até a mídia demotucana foi obrigada a reconhecer sua existência. Adicionando-se o colapso da rede metroferroviária, os pedágios astronômicos, as trapalhadas das concessionárias e as paralisias intermináveis no litoral, resta material para mil anos de propaganda eleitoral.

Ou Haddad se prepara rápido para defender o front paulistano, ou será trucidado pela fúria de concorrentes muito poderosos e desesperados, que não brincam em serviço.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

De graça













Quando tentavam encurralar os membros do Movimento Passe Livre, meio atordoados pelos dribles que tomavam, os jornalistas sempre insistiam na questão de como financiar a gratuidade nas tarifas. Afirmavam, com certa dose de razão, que os exemplos dos vilarejos escandinavos e o pressuposto de que “existe dinheiro de sobra” não bastavam para provar a viabilidade da reivindicação.

Pois eis que ressurgem os sensatos das contas públicas malhando o reajuste do IPTU paulistano. Mas, afinal, não era necessário criar mecanismos contábeis para garantir as melhorias que a metrópole caótica exige? E que tributo levemente justo, com destinação municipal, poderia substituir o IPTU?

Agora já não querem saber desses detalhes. Impostos federais e estaduais, cortes de gastos e até o famigerado pedágio urbano são aventados para cobrir o rombo. Os bacanas (que nunca pisaram num busão) querem dividir os custos das obras que valorizarão o seu patrimônio. Solidariedade, só com o bolso alheio.

Opa. Não era isso que falavam do MPL?

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A censura na terra dos gigantes acordados

















É notícia velha, mas, numa época de trivialização do protesto e da rebeldia, possui natureza irônica e educativa: o engenheiro Ricardo Fraga Oliveira foi proibido de se manifestar sobre um empreendimento imobiliário da construtora Mofarrej na cidade de São Paulo. O Tribunal de Justiça determinou que o ativista silencie no Facebook e mantenha distância do local.

Não, não estou me referindo a episódio tenebroso da ditadura militar. Nem a um rincão perdido no mato, onde prevalece o coronelismo bandido. Ou a uma republica islâmica dominada por fanáticos barbudos. Trata-se do centro financeiro do país, da segunda instância do Judiciário, de uma democracia na era da internet. Em pleno século 21.

Saliento que Oliveira não fez qualquer apologia discriminatória ou extremista. Não ateou fogo a lixo empilhado. Não apedrejou vidraças. Ele apenas denunciava os possíveis danos ambientais e urbanísticos de uma obra milionária que, além de já ter sido embargada, atrai a oposição de especialistas e moradores do bairro.

A decisão dos desembargadores relativizou o preceito constitucional da liberdade de manifestação pública para preservar a imagem de uma empresa privada, isto é, os seus interesses comerciais. Censuraram um movimento civil pacífico, legítimo e representativo porque prejudicaria a venda de apartamentos.

Adoraria ver o caso discutido no sacrossanto STF, mesmo que aconteça quando o recurso das vítimas tiver perdido o sentido, graças ao estágio avançado da obra (e a pressa dos nobres ministros é bem seletiva, como sabemos). Mas seria muito importante que o tribunal fosse constrangido a sanar de vez qualquer dúvida sobre a matéria, antes que alguém proíba, por exemplo, os nutricionistas de criticarem o McDonald’s.

Antes, aliás, que a Constituição Federal passe a valer apenas o que dois ou três sábios de toga permitirem.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Só que nens

 

Campinas foi considerada a metrópole com melhor índice de bem-estar do Brasil. Para um morador crítico do lugar, há duas constatações imediatas: a de que o nível das outras regiões deve ser muito, muito baixo, e a de que os dados do Censo de 2010 ficaram atipicamente defasados.

Uma sucessão de governos desastrados foi minando aos poucos as grandes qualidades urbanísticas que fizeram certa fama da cidade nas décadas passadas. A situação presente é de carência infra-estrutural generalizada e abandono dos aparelhos públicos de esporte, lazer e cultura. Os transportes são particularmente mal administrados; o trânsito beira um caos surrealista, com lentidões dignas dos mais problemáticos centros metropolitanos.

A imprensa corporativa, comprometida com a eleição de Jonas Donizette (PSB/PSDB), adora as comparações descabidas que o trabalho do Observatório sugere. Pois, se vale qualquer paralelo conveniente, a imagem acima, do metrô de Munique, ajuda a colocar as coisas numa perspectiva mais realista. Campinas, com a mesma população da cidade alemã, não possui um centímetro de rota metroviária.