terça-feira, 8 de abril de 2008

O ataque à UFMG

Faltam explicações convincentes do governo mineiro sobre a atuação da Polícia Militar no ataque ao Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais. A ação ocorreu no início da noite de 3 de abril, quando a reitoria permitiu a entrada da PM para reprimir a exibição do filme “Grass” (“grama”, um dos apelidos para maconha), que não havia sido oficialmente autorizada.
Dezenas de estudantes foram agredidos, ocorrendo pelo menos uma prisão. Há imagens no Youtube mostrando a chegada das viaturas (aqui) e as agressões dos policiais (aqui), sob protestos gerais.
O comando da PM falou em “apologia ao crime”, supostamente cometida pelos cartazes do filme, ou talvez por seu próprio teor “subversivo”. A tese da apologia, que sempre serve para reprimir protestos contra a legislação proibicionista e já embasou a prisão do grupo Planet Hemp, não passa de uma bobagem retórica e um instrumento legal remanescente do autoritarismo, incompatível com a estabilidade do regime democrático. Vigorando a liberdade de expressão, não há qualquer forma de apologia na criação humana.
Esse tipo de violência contra a democracia é digno de regimes totalitários. A administração Aécio Neves (PSDB), tratada como excepcional pela imprensa do Sudeste, tem a obrigação moral de responder pelos inaceitáveis gestos de seus servidores.

“Grass”

Documentário de 1999, dirigido pelo veterano canadense Ron Mann. Foi exibido no GNT, canal pago da rede Globo, há alguns anos, e depois vendido como encarte da revista Superinteressante. Trata-se de uma edição com imagens de arquivo raras e valiosas, comentadas pelo texto de Solomon Vesta, em narração do ator Woody Harrelson (de “Assassinos por natureza”, entre outros).
Estudo crítico sobre a demonização da maconha, acompanha o surgimento da legislação repressiva nos EUA e sua disseminação para o resto do planeta. Através de extensa pesquisa iconográfica, o filme expõe o ridículo da propaganda governamental antidrogas, desde os primeiros comerciais, dos anos 1920.
Mostra ainda os vários casos de censura, prisões ilegais, perseguições a atores, músicos, escritores e ativistas, histeria institucionalizada e muita manipulação demagógica nos pseudo-documentários que abriam as sessões de cinema e entremeavam as atrações na televisão recém-nascida. Não poderiam faltar, evidentemente, os exemplos de contaminação por essa propaganda repressiva nas produções de ficção, inclusive hollywoodianas.
O documentário ajuda a demonstrar que a criminalização do usuário de maconha (uma erva de comprovadas propriedades medicinais, utilizada há milênios) é uma excrescência jurídica e um equívoco histórico. Quase todos os países da Europa, o Canadá e até algumas regiões dos EUA já abandonaram a legislação repressiva, após concluir que é justamente a proibição que leva à criminalização do usuário, à marginalidade e, no limite, à violência.
“Grass” pode ser assistido no Youtube, dividido em várias partes, infelizmente sem legendas. A primeira parte está disponível neste link. Outras informações podem ser obtidas junto à produtora do filme, a Sphinx. Sobre a luta pela legalização, procure a Marcha da Maconha ou a página do deputado Fernando Gabeira.

2 comentários:

Anônimo disse...

Peraí.
Será que eu entendí direito?
A polícia do AÉCIO NEVES batendo em gente por causa de droga?

Guilherme Scalzilli disse...

Eis o problema: não foi por causa de droga. Foi por causa de um filme.