terça-feira, 8 de julho de 2008

De refém a presidente (e uma história muito mal contada)

A ira contra as Farc serve muito bem ao conservadorismo da mídia brasileira. Ser “moderno”, “liberal” ou até “civilizado” exige uma condenação incondicional da guerrilha e de seus defensores, engolindo acriticamente os disparates de Álvaro Uribe e George W. Bush. Mas alguém pode rejeitar toda forma de violência e ainda assim permanecer imune a esse jogo maniqueísta que tenta reprimir qualquer forma de questionamento.
Há muitas lacunas insatisfatórias na cobertura jornalística dos últimos acontecimentos envolvendo as Farc. A grande imprensa limita-se a reproduzir versões oficiais, ignorando suas óbvias incongruências. Não temamos escancará-las.

Os relatos sobre a saúde de Ingrid Betancourt descreviam-na como uma doente quase irrecuperável, à beira da morte. A conhecida fotografia em que aparecia cabisbaixa, abatida, com os cabelos escorridos sobre o peito, era a representação de uma mártir torturada pela brutalidade insensível dos bandidos.
Mas a refém libertada não parece moribunda, muito pelo contrário: sem exibir sinais de subnutrição ou abatimento, locomovia-se com facilidade, teve forças para conceder inúmeras entrevistas, encontrar-se com autoridades e viajar. Não passou sequer um dia hospitalizada, nem mesmo para exames. Aliás, o mesmo estranho vigor transparece nos três mercenários contratados pelo governo Bush e também resgatados. Será possível que a ninguém ocorreu esmiuçar esses milagres da recuperação humana?
De fato, Betancourt está em campanha. Seu seqüestro a transformou numa candidata fortíssima a presidente colombiana, com aval não apenas europeu, mas principalmente estadunidense. Uma previsível coligação com Álvaro Uribe ou seu secretário de Defesa seria imbatível.
Num espaço de dois meses, o presidente anulou a desmoralização causada pelos escândalos de corrupção. No momento em que busca meios de driblar a Constituição para reeleger-se, ganhou uma aliada popular e emblemática. Num sumiço de seis anos, a candidata que obteve 0,5% de votos (na campanha que elegeu Uribe) transforma-se no primeiro mandatário virtualmente eleito sem esforço midiático. Ou houve propaganda e nós é que não percebemos?
Os detalhes do resgate continuam suspeitamente obscuros. É no mínimo curioso que, depois de décadas inatingível, uma força tão temida sucumba a um golpe de infiltrados com camisetas do Che Guevara e helicóptero da Cruz Vermelha. As próprias Farc já devem ter descartado artifícios semelhantes para suas ações. Se toda essa operação rocambolesca fosse real, as Farc estariam reduzidas a núcleos dispersos de ogros ingênuos, sem comando, mal equipados, displicentes. Sendo assim, por que não acabar logo com eles e resgatar as centenas de reféns ainda sob sua guarda? Mas como poderia haver “centenas” de reféns nas mãos de soldadinhos tão indigentes?
A identidade do guerrilheiro preso não foi confirmada. E talvez nunca seja, pois o prisioneiro já desapareceu nos porões do exército colombiano. Ou estadunidense, mas fica tudo por isso mesmo, porque ninguém se deu ao trabalho de investigar. Aliás, se a participação de militares dos EUA nas últimas ações contra as Farc é tão óbvia, por que todos fazem tanto esforço para negá-la?
Sempre pareceu evidente que as avançadas tecnologias disponíveis seriam (e são) capazes de identificar rapidamente um grupo de pessoas manobrando na floresta amazônica, ainda mais se elas de fato usassem computadores, telefones e rádios. Mas também soa estranho que os combatentes sanguinários e ardilosos do noticiário tenham ignorado esses riscos. Ah, é verdade, eles viraram brucutus sonsos da noite para o dia.

O mais absurdo de tudo isso não são as perguntas indesejáveis – seria possível inventar desculpas convincentes para cada uma delas. Pior é o silêncio da imprensa, que sabe dessas lacunas, mas simplesmente finge que elas não existem. Talvez os governos da Colômbia e dos EUA tenham até preparado uma lista de argumentos plausíveis para utilizar em caso de espírito crítico exacerbado. Se nem esse constrangimento tiveram, imagino do que serão capazes quando não quiserem realmente prestar qualquer esclarecimento.

2 comentários:

fabrício disse...

parece uma coisa psicanalítica esse lance do discurso do nosso jornalismo sempre mostrar mais dele mesmo do que sobre o que é relatado. lembro de boris casoy, william waack, cristiane pelajo, diogo mainardi. estranhos tarados, esses.

Guilhermé disse...

A ex-senadora não só voltou bochechuda e fagueira, como deve estar até agora passeando pela Europa, de evento em evento, homenagem em homenagem sem ao menos uma revisãozinha médica.
Não estou aqui diminuindo os 6 anos em cativeiro na mata, nem enaltecendo as FARC, pelo contrário, quero dar meus parabéns à ex-senadora que mostrou que mesmo em cativeiro soube astutamente transformar-se em mito e preparar sua eventual volta triunfal.
http://resistenciacarioca.blogspot.com/2008/07/and-oscar-goes-to.html#links