sábado, 27 de dezembro de 2008

O picho no vazio

Paulo Herkenhoff escreveu quase tudo que ainda poderia ser dito sobre a infame prisão da pichadora da Bienal. Essa demonstração da mentalidade rudimentar das elites paulistanas foi o legado mais significativo de um evento absurdo, irresponsavelmente abandonado por todas as instâncias de produção cultural. Aliás, sobre o tal Vazio em si, resta pouco a acrescentar.
Faltou alguém ressaltar que os pichadores da Bienal pareceram tão ofensivos, ao contrário dos outros malfeitores tolerados pela sociedade bem-pensante, porque ousaram politizar sua contravenção. Escreveram “fora Serra”, associaram a assepsia protegida da Bienal a uma ditadura e dirigiram seu discurso iconoclasta contra autoridades ligadas ao governo estadual.
A ignorância majoritária da mídia (disfarçada de complacência crítica) engole todo tipo de manifestação “artística”; só não vale atingir José Serra e seus asseclas, protagonistas do retorno triunfal do conservadorismo aos poderes federais. Aí já vira violência, caso de polícia, tolerância zero.
O obscurantismo autoritário dos apologistas do vazio tentou se apossar do episódio para transformá-lo numa oportunidade de reflexão sobre as “instituições brasileiras” e outras abstrações cômodas. Enquanto isso, os pichadores ganharam incentivos renovados e surgiu uma nova mártir do movimento. O que poderia ser uma punição educativa e exemplar se transformou num lampejo raivoso da Promotoria, que agiu como braço repressivo do tucanato hegemônico.
Ninguém tirará dos pichadores o mérito de desmascarar essa patética aventura pela incompetência administrativa, expondo o avesso de sua pretensiosa limpidez.

9 comentários:

Luciano Mauro disse...

Comentou-se que a falta de obras para serem expostas no local era grande, ou seja de artistas de renome.Tanta gente boa e sem vez precisa de oportunidade.Mas parece que se não comungar com o poder dominante não pode aparecer.O que a moça fez na verdade foi dá brilho a esse evento apagado e serrista, isto é, direitista. Na busca de um festival de direita que assole o país em 2010.

Caim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Caim disse...

Se pichação ou grafite em locais bem apropriados como a Bienal não é cultura, por que o tucanato não manda toda nossa ascendência cultural latina para cloaca? Já que é para radicalizar, que o governador faça bem feito, oras!

Anônimo disse...

Caro Guilherme, faltou dizer que, para a "elite" (rejeito utilizar esse termo, pois elite é definida, de acordo com o Aurélio, como "o que há de melhor em uma sociedade") não é subversivo deixar um homem perambular completamente nu pelo prédio da Bienal. Criticar o Serra, isso sim é subversivo. Também faltou dizer que a garota somente foi libertada após a pressão de pelo menos três ministros de estado do governo Lula, aquele mesmo que instaurou um "estado policial" no Brasil.

Anônimo disse...

Só complementando o que o Caim disse, um evento recente da administração Kassab em São Paulo me deixou atônito. Funcionários contratados pela prefeitura apagaram o grafite de artistas renomados na Europa e nos EUA. Estavam amplicando o "fabuloso" Cidade Limpa e não se perceberam que a obra foi realizada naquele prédio público com o aval da prefeita Marta (que falta que ela faz!)

IAMoraes disse...

"demonstração da mentalidade rudimentar das elites paulistanas":

Que alias sempre foram uma desgraca pro Brasil todinho, e pelas quais o Brasil ja passou fome varias vezes.

IAMoraes disse...

Caro G: tou meio atrazado, mas felicissimo Ano Novo pra voce e todos os seus. Que os bons espiritos te acompanhem.

Guilherme Scalzilli disse...

Olá Moraes,
mais atrasado ainda, agradeço e devolvo-lhe os votos de um 2009 cheio de paz e realizações.
Um abração do Guilherme

Caim disse...

Guilherme, como não achei o seu email no blogue, venho por meio deste comentário propor uma parceria de link, o que acha?