segunda-feira, 15 de março de 2010

Sim, mas quem matou?


Prezado Paulo Vinicius Coelho,

seu artigo “Morreu!” (Folha, 7 de março - só encontrei ligação para assinantes) lamenta a degradação institucional que corrói o futebol brasileiro e defende que a revitalização comece pelas competições regionais. Como sempre, a análise é exata e pertinente. Mas seria interessante enriquecer o debate com uma avaliação das responsabilidades da imprensa esportiva na formação desse contexto.

A decadência dos times interioranos é fenômeno recente. Nas décadas de 70 e 80, alguns deles participavam da elite do futebol nacional. Podemos discutir os variados motivos que levaram à sua ruína, mas parece incontroverso que a tendência foi acompanhada por uma proporcional valorização dos clubes das capitais. Festejados por sua suposta “grandeza”, atraíram mais recursos públicos e privados, centralizaram os talentos individuais, monopolizaram títulos, conquistaram torcedores dos rincões. Faça viciosas as virtudes de tal enredo, invertendo suas conseqüências, e surgirá um roteiro da trajetória dos chamados “pequenos”. Ora, nada mais natural que o privilégio de uma elite conduza à penúria generalizada da grande maioria.

Acontece que a mídia participou desse processo. Não apenas fazendo apologias bairristas e fabricando favoritismos, mas também, e principalmente, fingindo ignorar os prejuízos sofridos pelos clubes menos poderosos (erros de arbitragem, derrotas em tribunais, descaso da CBF e do Clube dos 13, etc). E não estou falando de comportamentos antigos. Um exemplo atual: como é possível que a crônica esportiva tolere a distribuição desigual de cotas financeiras entre os participantes da mesma competição (e ainda comemore a “justiça” do resultado!)?

O fim dos estaduais e outras medidas apressadas serviriam apenas como paliativos, na melhor das hipóteses, se a raiz das desigualdades continuar intocada. O enfraquecimento dos times “pequenos” parece um mero sintoma, enquanto na verdade é a causa do problema.

Receba um grande abraço deste admirador.

Um comentário:

Anderson Santos disse...

Só pra dar dois exemplos de como é desigual o tratamento dado pela "imparcial" cobertura esportiva do nosso Brasil:

1.O Fluminense, atual campeão brasileiro, subiu de da terceira direto para a primeira divisão. Antes disso promoveu uma virada de mesa para não cair, e mesmo assim, a grande imprensa não faz nenhuma alusão a isto.
2. Os ressentes, e polêmicos erros de arbitragem das duas últimas edições do brasileirão (o gol anulado do Palmeiras contra o Fluminense em 2009 que ajudou o Flu a permanecer na série A. O penalti marcado em Ronaldo contestado pelo Cruzeiro em 2010) rendem semanas de debates e discussões, porém em 2009 o Clube Náutico Capibaribe, de Recife, foi claramente prejudicado contra o Botafogo e nenhum programa esportivo discutiu isso. Vale lembrar que em 2009 o Náutico caiu e Fluminense e Botafogo escaparam nas últimas rodadas.