terça-feira, 31 de março de 2026

Indo além do pessimismo com as pesquisas



Percebo duas estratégias interessantes na coordenação da campanha de Lula. De um lado, a “escolha” de Flávio Bolsonaro como adversário. De outro, seu isolamento no quadro ideológico da disputa, antecipando a polarização para o primeiro turno.

A entrada de Fernando Haddad e as articulações de Marina Silva e Simone Tebet no front paulista visam segurar Tarcísio de Freitas na campanha a governador. O grupo que o financia não se arrisca a perder a máquina estadual por uma aventura incerta.

Claro que Lula precisa de parte do grande eleitorado de São Paulo. Mas poderia atingir o objetivo, com resultados até melhores, se ali o PT enfrentasse um nome situacionista fraco. E os atritos do PSD com o PL tendem a dividir a base de Tarcísio no interior.

Só que Lula acerta ao preferir o antagonismo de Flávio Bolsonaro, ruim de sobrenome, palanque e debate, cheio de capivaras sombrias, inexperiente e agressivo. E, talvez pior, ao contrário de Tarcísio, com dificuldade para reunir apoios fora de seu nicho político.

O “teto” inicial de Flávio é o do bolsonarismo fiel, em torno de 35% do eleitorado. Sim, ele deve subir um pouco nas pesquisas, para desespero dos afoitos. Apesar de robusto, porém, esse limite pode manter o bloco oposicionista abaixo da votação de Lula.

As artimanhas metodológicas e o viés especulativo das enquetes dificultam a percepção da chance do presidente vencer no primeiro turno. Pois é notável que, mesmo antes da campanha e em cenários artificiais, a direita mal soma 50% dos votos válidos.

A única serventia dos levantamentos de segundo turno é confirmar a alta na rejeição ao governo, o maior obstáculo para uma vitória imediata de Lula. Sinal da eficácia da comunicação subterrânea da rede bolsonarista, favorecida pelos oligopólios digitais.

Como venho repetindo, esse fator irracional serve para ofuscar méritos administrativos na escolha do voto. É desafio graúdo, mas único e decisivo. Acertando a fórmula para neutralizá-lo, principalmente no Judiciário, a campanha de Lula encerra logo a fatura.

Tendência por tendência, há bons motivos para esperarmos que a já enorme rejeição a Flávio cresça com a propaganda eleitoral. Sem a munição positiva de Lula, falta pouco para Bolsonaro se tornar uma opção matematicamente inviável e desprestigiada.

Nesta altura do campeonato, dizer que o plano dará certo seria tão leviano quanto dizer que vai malograr. O mesmo vale para o lavajatismo da mídia conservadora, que avança na corda bamba e exibe um desespero contrastante com suas análises triunfalistas.

Também vale, diga-se, para o factoide que o bolsonarismo prepara, com os arapongas de Donald Trump, em socorro de Flávio. A vantagem de pautar a agenda eleitoral, que Lula habilmente cultiva, agrega o bônus (e o ônus) de antecipar sustos previsíveis.

A direita insufla receios no campo progressista para inverter a tática de Lula: a crise na campanha federal alivia a pressão sobre Tarcísio. Oxalá os conselheiros do presidente descubram a tempo o que uma dose de audácia conseguiria nas disputas em São Paulo.

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