sexta-feira, 4 de abril de 2008

Brinco e Majestoso à venda

Parece que o Guarani e a Ponte Preta estão planejando seriamente vender seus estádios atuais e construir outros com parte do dinheiro. Desde que ouço esses boatos, há meses, estremeço.
Fico mais perplexo com o nível a que chegamos. As dívidas dos times de Campinas não são maiores que as de qualquer clube carioca ou paulistano, com exceções pontuais. Mas aqueles não possuem o mesmo apelo comercial e político dos chamados “grandes” e, sem esmolas, ajuda parlamentar e loterias, ninguém sobrevive a décadas de pilhagem.
O problema bugrino é mais grave: o antigo campeão brasileiro joga a terceira divisão, tem um time sofrível, um estádio caindo aos pedaços, as contas dilapidadas por gângsters que ninguém encarcera e está imerso no provincianismo desinteressado.

O dinheiro arrecadado pelo Guarani, incluindo contratos de patrocínio e a renda dos jogos (já minorada pelas circunstâncias), corre o risco permanente de ser penhorado para pagamento de condenações judiciais. É um fundo de poço falimentar que ameaça levar à destruição todo o enorme patrimônio histórico e moral do clube.
A solução conspirada seria: com o dinheiro da venda do Brinco de Ouro, paga-se todas as dívidas, constrói-se um novo estádio nos arrabaldes, monta-se um clube e um centro de treinamento dignos, contrata-se um bom elenco para galgar às primeiras divisões. A verba seria suficiente para tamanha empreitada? Há quem jure que sim. Eu, sincera e solidariamente, duvido.

A nossa Ponte parece mais bem administrada e esportivamente mais atraente do que o rival, embora na mesma pindaíba. Só compreenderia que ela entrasse no embalo se fosse para participar de nova arena que servisse aos dois clubes. Mal consigo imaginar o belo Majestoso, erguido na década de 40 num mutirão de torcedores comandados por Moisés Lucarelli, demolido para dar lugar a um shopping ou condomínio. Conheço velhinhos alquebrados por cento e sete anos de sofrimento que não suportariam a cena.
Esse aspecto simbólico mete medo sim. Até os bairros de Campinas adquiriram os nomes dos clubes que abrigam. Milhões de almas desencaminhadas aninham-se nas entranhas dos estádios, em permanente algazarra (mais lamuriosa que festiva, é verdade, mas muito honrada). São templos sagrados. Os hinos citam orgulhosamente seus nomes.
E se o dinheiro for desviado por algum diretor ou atravessador sacana (isso já aconteceu umas, digamos, quinhentas vezes)? E se não for suficiente para terminar o estádio novo e alguém decidir deixar por isso mesmo e assim permanecer? E se aparecerem outros administradores safardanas para pilhar os clubes – vender-se-ia os novos estádios? E se ficar feio, mal feito, fora de mão? E se der azar?
A possibilidade de começar do zero, com as contas em dia, é tentadora. Mas, como tudo na vida, ou quase tudo, fazer negócio com espírito de torcedor não dá certo. Nem a torcida bugrina nem a pontepretana conseguiriam tomar vinte mil lugares, quiçá trinta mil, no melhor estádio do universo. Seria necessário manter elencos e equipes técnicas à altura da exigência (jogando nas primeiras divisões, pelo menos) por uma década, até que tal margem fosse atingida. E não faz sentido construir estádios com capacidade intermediária, que depois não poderiam abrigar jogos da Libertadores ou mesmo da vindoura Copa do Mundo.
Em meio a tantas dúvidas, a única idéia sensata seria construir uma grande arena para servir aos dois times: Brinco nos jogos do Guarani e Majestoso nos da Ponte. Há exemplos desse tipo de fusão, bem sucedidos e pacíficos, por toda parte. E, por Osíris, que não me venham com um nome “oficial” de político falecido.
Aí entra o problema do Poder Público. A Prefeitura de Campinas já acertou ajuda do governo federal para a construção de nova arena poliesportiva, com esperança plausível de abocanhar um quinhão da Copa. Lamentavelmente, os membros do primeiro escalão municipal têm subestimado os dois clubes da cidade, fornecendo constantes indícios, em tom de ameaça velada, de que a Municipalidade não aceitará projetos concorrentes que coloquem em risco a já discutível viabilidade econômica do empreendimento oficial. Em outras palavras: ou Guarani e Ponte se sujeitam aos ditames do projeto político em vigor ou terão seus planos avinagrados por falta de apoio.
A tendência é Campinas ganhar uma arena desnecessária que, passada a utilidade conveniente, ficará às moscas, escondida nos arrabaldes da cidade. Pior para os times, que disputarão investimentos já esparsos em posição desvantajosa. A construção simultânea de três estádios bilionários simplesmente não vai acontecer.
Tanto melhor, talvez. Tenho muito medo dessas artimanhas desesperadas, que envolvem empreiteiras, demagogos e advogados-de-time. Para não dar tudo errado (não falo de dar tudo certo), as torcidas precisariam se organizar em comissões, que contassem com a participação do Ministério Público e especialistas de diversas áreas, para fiscalizar permanentemente todas as etapas do processo.
De qualquer forma, se acontecer o pior, eu estarei lá, no alambrado, para ver a tal caveira de boi sendo desenterrada do gramado do Majesta.

3 comentários:

Eugenio Hansen, Pai disse...

Paz e bem!

Não conheço os estádios de Campinas e sua localização na cidade. Mas aposto que hoje os estádios estão localizados em áreas bem valorizadas em termos imolibiários.

É o que ocorre aqui em Porto Alegre especialmente com o estádio Olímpico Munumental, do Grêmio, onde tudo se encaminha para a construção de uma arena no Bairro Humaitá e depois o Olímpico será demolido e veremos um shoping, um conjunto habitacional de luxo ou similar.

Quantos dirigentes do Grêmio engordarão seu pé-de-meia com a construção da arena e a vendo do Olímpico?

João disse...

Como todo corintiano, tenho sofrido com os papos sobre a construção de um estádio já há um bom tempo.
É fato que os times-empresas vêm tendo uma trajetória de muito mais sucesso no futebol. Caso do Barueri, por exemplo, que em poucos anos já possui um belo estádio e briga de igual com os grandes no Paulista - além de incomodar no Brasileirão da série B.
O próprio Corinthians, esse ano, inventou a tal da camisa roxa como desculpa de fortalecimento da paixão dos corintianos, tristes com a queda para a segundona.
A realidade é que não passa de uma bela jogada de marketing de Nizan Guanaes, em detrimento da tradição alvinegra do Todo Poderoso Timão.
A perspectiva campineira é assombrosa e eu realmente me sinto triste em ver o Guarani nessa situação.
Boa sorte pra vocês nas mãos de grandes coorporações e politicagem.

Bruno Ribeiro disse...

Guima, muito pertinentes vossas perguntas. Nossas opiniões a respeito da venda do Brinco e do Moisés coincidem. Mas, venho quebrando a cabeça há tempos para pensar em outra alternativa para a crise. Infelizmente, não consigo ver saída. O leitor gaúcho que apostou na especulação imobiliária (o primeiro comentário do post) acertou em cheio. Também acho que tem muito interesse de empreiteiras envolvido na negociação. Abraço.