quarta-feira, 2 de abril de 2008

O dossiê da Folha

Esse factóide artificial do levantamento dos gastos do casal FHC foi uma invenção típica de Veja, panfleto reacionário de acabamento luxuoso, com um histórico pródigo em ações semelhantes. A cumplicidade da Folha de São Paulo não deveria surpreender, tendo em vista a atuação do jornal nos outros episódios polêmicos do governo Lula. É apenas mais uma antecipação preocupante da animosidade com que a imprensa se prepara para a sucessão de 2010.
A campanha contra Dilma Roussef tem ares de embate pré-eleitoral. Lula acabara de discursar, “ameaçando” eleger seu candidato, as pesquisas davam-lhe aprovação recorde e uma enquete sobre intenção de voto estava sendo preparada. Como apontei em postagem anterior, pelo menos um analista influente (Merval Pereira, da CBN) deixou clara a intenção de atingir Dilma, algo que outros discursos têm a polidez de disfarçar.
É fácil, como sempre, transferir a questão para o futebolismo ideológico em voga. Estamos acostumados ao baixo nível de Veja e congêneres, mas falta esclarecer satisfatoriamente o envolvimento de um veículo prestigiado como a Folha de São Paulo nessa patranha indigna. Não, as tentativas feitas até o momento (inclusive por seu ouvidor), não são suficientes.
Sintomaticamente, à medida que a barra começa a pesar, sua desmoralizada sucursal de Brasília mobiliza-se para distribuir justificativas. Ontem (1/4) ela gerou um artigo curioso, de Marta Salomon, intitulado “Argumentos do governo para dossiê não justificam base de dados paralela”, que tenta explicar a atuação da própria Folha, jogando a responsabilidade do caso para o governo federal.
O texto chama a atenção por sugerir uma idéia fixa: diz que o levantamento de dados teria “claro viés político”, repete que seriam “anotações de viés político”, e insiste na frase ainda outra vez, no quadro artístico explicativo que completa a página. No final das contas, como Merval havia feito, a jornalista desmascara motivações misteriosas, que deveriam ser apenas factuais ou, no máximo, analíticas.
Salomon finaliza com uma ponderação sobre a relevância dos gastos: “Embora o relatório - cuja autoria a Casa Civil assumiu - não contenha nenhum dado grave sobre os gastos de FHC, são fartos os registros de compras de bebidas alcoólicas ou de produtos de consumo supostamente suntuosos, como ‘estragão francês’ (R$ 91,14).” Engraçado. A tapioca do ministro não foi tratada com semelhante condescendência, mesmo tendo custado umas trinta vezes menos do que o estragão. Que critérios Marta Salomon utilizou para decidir se os dados são graves, toleráveis ou banais? E por que abordar os gastos do casal FHC com tamanha cautela, depois da Folha expor as compras da ministra no freeshop, publicar editorial defendendo a publicidade completa dos gastos com cartões e fazer campanha pela sua moralização?
Inverto, portanto, a manchete do artigo: os argumentos da Folha não justificam suas matérias sobre suposto dossiê.
A Folha reproduz a estratégia manipuladora da Veja, negando aos leitores informações fundamentais para a compreensão do caso: o levantamento de gastos não constitui crime, infração administrativa ou violação estatutária; se houve ilícito (vazamento de dados sigilosos para o público), sua autoria precisa ser prontamente esclarecida, pois o sigilo da fonte não pode ser utilizado para preservar a identidade de infratores. Portanto, tudo depende de sabermos como a imprensa obteve cópia desse material. Por que parece tão difícil obter resposta para perguntas tão singelas?
Feita a paspalhice, resta à Folha pelo menos empenhar-se em ir até o fim na apuração do evento, mesmo que para concluir numa constrangedora exposição de seus próprios defeitos.

Um comentário:

Tiago Almeida Fonseca Nunes disse...

Li a reportagem da jornalista de ontem e concordo contigo.
Como, agora, argumentar o contrário do argumentado? Ou seja, para casos particulares a elucidação dos gastos têm de ser fato, mas para outros resta esconder??
Um tanto quanto contraditória.
Até o próprio Ombudsman da folha falou que o jornal está se manifestando unilateralmente. Um fiasco.

Abraco