segunda-feira, 20 de julho de 2009

O império derrotado

Publicado na revista Caros Amigos, em julho de 2009.

Parece consensual que a política externa de Barack Obama representa uma guinada positiva em relação ao espírito intervencionista dos governos Bush. Mesmo a frustração parcial das enormes expectativas iniciais é creditada ao gradualismo exigido por algumas radicais promessas da campanha democrata.
Mas a benevolência da opinião pública internacional omite a natureza pragmática da festejada mudança de rumo. O próprio Obama admitiu que os interesses dos EUA no restante do planeta são ameaçados pelo fracasso de sua própria diplomacia agressiva e intransigente. Considerando que o presidente questionava (e atualmente modifica) os pilares históricos do predomínio norte-americano, trata-se de uma pungente confissão de derrota.
E o cenário internacional demonstra que ele está certo: a potência chinesa, o predomínio regional russo (sob os desmandos de um grupo oriundo da KGB), o Irã dos aiatolás, a resistência cubana, a Líbia do eterno Kadafi, a desafiadora Coréia do Norte. As regiões dominadas militarmente pelos EUA sofrem com marionetes ditatoriais ou viraram palco de massacres injustificáveis, destruição generalizada e revolta popular.
O antiamericanismo prolifera também nas populações sob regimes democráticos e liberais, como em boa parte da Europa e da América Latina – vitrines das pretensões estadunidenses desde o início do século passado. Ademais, quase todos os governantes em exercício no continente americano já foram combatidos pela Casa Branca, individual ou coletivamente, durante algum processo eleitoral ou revolucionário.
São reveses sérios demais para tratarmos a moderação apaziguadora dos EUA como uma novidade inofensiva. Porém, ainda que a estratégia reformulada apenas esconda a essência intocada do paradigma geopolítico, ela demonstra uma ruptura em relação às suas pretensões hegemônicas originais.

3 comentários:

Anônimo disse...

Guilherme,com esse golpe em Honduras,e a posição tomada pelos americanos, dá a impressão de que o Obama, não controla a sua máquina governamental. Ou estou errado? Abraço.Roberto.

Dias insólitos disse...

Ou não tanto dessa ruptura, se a análise se der da perspectiva sobre a importância e peso de Honduras, combinada a atual postura e pretensas ações em outros países com outros pesos e importância estratégica da AL, movendo as peças com poder hegemonico, as vistas de quem quiser.

Guilherme Scalzilli disse...

Ou Obama sabe perfeitamente o que está ocorrendo e essa diplomacia do "não gostei mas tudo bem" é a marca da família Clinton em questões internacionais. Holocaustos como o dos Balcãs e de Ruanda, ocorridos sob a omissão de governos democratas, exemplificam muito bem as piores consequências dessa postura.
Abraços do
Guilherme