segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O front paulista

Publicado na revista Caros Amigos, em setembro de 2009.

Houve uma fase do governo Lula em que a imprensa dedicou especial atenção às supostas pretensões hegemônicas do presidente. A polêmica, depois monopolizada pelo fantasma do terceiro mandato, escondia um temor inconfesso: alijada do poder federal, a oposição entraria em processo de decadência irrecuperável caso perdesse também seus predomínios regionais. Muito esforço midiático e financeiro foi mobilizado para impedir essa catástrofe em 2006, e logo será retomado.
São Paulo é o núcleo irradiador da resistência oposicionista. As gestões de José Serra e Gilberto Kassab destacam-se das heterogeneidades estaduais pela coerência de suas alianças e pela importância estratégica das imensas estruturas que administram. Elas abrigam fundadores e ideólogos do PSDB, membros dos escalões superiores dos governos FHC, próceres do conservadorismo religioso e das maiores fortunas industriais, bancárias e imobiliárias do país.
Sem essa base operacional, PSDB, DEM (PFL), parte do PMDB, PPS e demais agregados perderiam a identidade, a coesão e os alicerces materiais imprescindíveis num projeto de poder em âmbito nacional. O inevitável vácuo de liderança afetaria as representações parlamentares da coligação paulista, dispersando-a em aglomerados coadjuvantes e rivais entre si.
Serra só será candidato a presidente se a sucessão estadual estiver garantida para algum apadrinhado. Uma reeleição quase certa é preferível ao risco de perder em duas frentes; e ele conhece a fragilidade das próprias alternativas no pleito local. Por outro lado, a falta de adversários competitivos em São Paulo proporciona ao governador uma vantagem estratégica importantíssima no embate com Dilma Rousseff.
Eis por que a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes será decisiva para a campanha presidencial de 2010. A opção Ciro Gomes é menos absurda do que parece.

2 comentários:

Hudson Luiz Vilas Boas disse...

Caro Guilherme Scalzilli
Por mais que eu conheça os motivos para o PT paulista não querer lançar o nome do Senador Eduardo Suplicy, ainda assim, não consigo entender a tendência derrotista que tomou conta do partido no estado. Lançar Palocci ou qualquer outro nome aventado até agora só aumentará o prejuízo. Caso seja Suplicy o candidato haverá uma boa chance de pelo menos levar o pleito para o segundo turno e com certeza alavancaria as candidaturas proporcionais (imaginemos Marta, Palocci, Pietá, Emídio e talvez Haddad, junto a outros nomes de peso disputando uma cadeira na Câmara, com certeza o PT formaria a maior bancada). Suplicy é o nome certo para disputar um eleitorado, que embora avesso ao PT, enxerga nele um dos últimos moicanos (opinião do senso comum) no Senado Federal.

Guilherme Scalzilli disse...

Hudson, concordo contigo, mas questiono a capacidade de Suplicy enfrentar a máquina tucana no Estado. Isso não tem nada a ver com valores pessoais, mas envolve uma disposição para o embate que, sinceramente, não vejo no senador.
Abraço do
Guilherme