segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Notas sobre a guerra do Rio


Publicado na revista Caros Amigos em janeiro de 2010

Qualquer solução para a supremacia do crime organizado nas regiões carentes prevê uma etapa de choque armado e conquista territorial. É ingênuo supor que apenas a redução da desigualdade conseguiria sanar o caos institucional vigente, e mais ingênuo ainda imaginar que algum programa social de longo prazo seria viável nas atuais circunstâncias. As Forças Armadas podem e devem participar do processo. Já não fariam mais do que honrar os altos custos orçamentários que acarretam ao país. Quando militares são incapazes de resistir a ameaças e tentativas de corrupção, lamento muito, mas lhes falta apenas um passo rumo à inutilidade.

As ações policiais nas favelas cariocas precisam continuar até a concretização inequívoca de seus objetivos. Caso contrário, após dois ou três episódios semelhantes o crime organizado ficará tática e logisticamente invencível. Seria um desrespeito às famílias que toleram sacrifícios imensuráveis, além de representar a humilhação histórica das autoridades públicas fluminenses. Ou o Estado triunfa definitivamente ou em uma década ele terá perdido o controle do espaço público e a legitimidade junto à população. Nenhum pesadelo é tenebroso o bastante para ilustrar essa hipótese.

O uso da força tem papel estratégico. Apesar do caráter reativo, as investidas nos morros cariocas devem compor um sistema de iniciativas coordenadas que visem à total reurbanização das favelas. As Unidades de Polícia Pacificadora só fazem sentido se acompanhadas por obras de infra-estrutura, projetos residenciais, instalação de aparelhos e edifícios públicos, combate ao banditismo policial. Mas é necessário também um debate livre de hipocrisias e mistificações acerca da urgente descriminalização da maconha, que já ocorreu com sucesso no mundo civilizado. O proibicionismo é o alicerce legal desse edifício putrefeito.

2 comentários:

Anônimo disse...

Caí neste blog ao ler um artigo, muito bem escrito, a respeito do Tropa de Elite I. Decepção ao ver que este mesmo blog posiciona-se ao lado do fascínora que governa o Rio de Janeiro, em sua propaganda de guerra.
Não há Estado neutro, que represente os interesses de toda a sociedade, sequer os interesses da maioria como nos conta o mito do Estado Democrático e de Direito. As instituições estatais, cujo autor defende o direito ao uso da força, são impenetráveis aos moradores das favelas. Não há juiz, governante ou general favelado.
E os agentes armados dessas instituições estatais não passam de bandidos protegidos pela lei, como demonstram os recentes escândalos, revelados aós a guerra civil deixar os noticiários.

Guilherme Scalzilli disse...

Anônimo, concordo com tudo o que vc diz. Mas continuo achando que não existe solução para o predomínio do crime organizado que não passe pelo uso da força por parte do Estado, com auxílio das Forças Armadas. Abraço do
Guilherme