segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Pauta oca



As manifestações fracassaram. Reunir cem testemunhas sob o Masp ou duas mil na Cinelândia soa mais ou menos desapontador segundo a força midiática a serviço de cada evento, mas as expectativas eram bem outras. E a promessa de engajamento popular não se realizou.

Evito comemorar a tal mobilização da juventude ou uma pretensa conscientização da sociedade como fenômenos positivos em si. Nada disso é novo, nem tão disseminado ou espontâneo quanto alguns acreditam. Pelo contrário. Na tradição de lutas estudantis, sindicais e partidárias, essa gritaria moralista parece algo insípida e mesmo artificial. O Rock in Rio, por sua vez, lotou.

Protestos genéricos fazem sentido quando sua própria realização simboliza uma vitória, como ocorre nos regimes autoritários. Em democracias, repetir jargões difusos redunda em desperdícios de energia contestatória. Ainda que exigissem o afastamento de Dilma Rousseff, os manifestantes pelo menos teriam um diferencial, um objetivo palpável. A fraqueza desses eventos sobressai na maneira como os diversos interesses envolvidos procuram se apropriar deles para atacar ou defender o governo federal, o Congresso, o Poder Judiciário, a mídia, o PT, o PSDB, o capitalismo.

Para evitar novas decepções futuras, seria prudente desmitificar um pouco o papel da militância virtual, conferindo estatura realista às redes sociais. E partir logo para a árdua tarefa de estabelecer plataformas específicas, incontroversas, calcadas em vias legais e objetivas de viabilização. Projetos de lei e votações no STF, por exemplo.

Os festejados movimentos estrangeiros, que encantam os sonhos dos agitadores afoitos, devem-se à natureza das reivindicações e não à plataforma divulgadora. É a mensagem, não o meio, que faz essa diferença.

4 comentários:

Anônimo disse...

A superficialidade desses movimentos reflete a superficialidade da forma como os problemas são tratados nas redes sociais, a velocidade da informação nesses meios demonstram a incapacidade de qualquer analise aprofundada. Esperemos das redes sociais comunicação e divulgação veloz, mas não conscientização. Para se elaborar uma pauta de contestação qualificada precisamos de duas coisas básicas: tempo e reflexão. Duas coisas impossíveis numa rede social. Para ser realista mesmo, no fundo as redes sociais são bem rasas. A nova geração pensa e age no ritmo das redes sociais, acho que um pouco de tempo na biblioteca faria muito bem pra essa confusão mental generalizada.

Anônimo disse...

A superficialidade desses movimentos reflete a superficialidade da forma como os problemas são tratados nas redes sociais, a velocidade da informação nesses meios demonstram a incapacidade de qualquer analise aprofundada. Esperemos das redes sociais comunicação e divulgação veloz, mas não conscientização. Para se elaborar uma pauta de contestação qualificada precisamos de duas coisas básicas: tempo e reflexão. Duas coisas impossíveis numa rede social. Para ser realista mesmo, no fundo as redes sociais são bem rasas. A nova geração pensa e age no ritmo das redes sociais, acho que um pouco de tempo na biblioteca faria muito bem pra essa confusão mental generalizada.

Ricardo Cabral disse...

Caro Guilherme, apreciei os argumentos do teu post e em termos gerais não deixo de concordar com eles. Só não digo o mesmo em relação ao lugar que deu ao meu próprio post sobre o assunto, como se nele eu desse a entender que o movimento fosse bastante "disseminado ou espontâneo", segundo sus palavras, embora eu tampouco acredite nisso e nem creia que o post sugira algo nessas bases. O cerne de minha discussão disse respeito não propriamente às marchas, mas sobre como a totalidade das críticas tratou dos que a elas compareceram. Tratou-se a todos como uma indistinta massa ignara, um rebanho mais afeito às Senhoras de Santana ou à Marcha pela Família. Escrevi no post como vi essa pecha ser colada,

"...não sem certo ar de superioridade intelectual, a todos os que participaram dessas marchas, tratados como 100% alienados, ingênuos, hipócritas e falsos moralistas legitimadores da corrupção. Como atitude política, vá lá. [Faço referência à necessidade de fazer frente à força midiática que apoiou as marchas] Mas se tratada como análise político-filosófica, peca pelo simplismo e perde pela falta de meios tons."

Ou seja, não tratei as marchas da forma como seu post dá a entender. Inclusive referi-me à de Brasília para contextualizar o que não vi ser contemplado nas críticas ao movimento.

Você chegou a colar um post anterior seu, intitulado "Causas", na caixa de comentários daquele meu post. Eu respondi, mas pelo teor deste seu post "Pauta oca" não sei se chegou a ler. Sendo assim, colo minha resposta abaixo, pois creio que serve para aqui também:

"Caro Guilherme, as críticas que fazes no teu texto são claras e alinhadas ao que vem sendo dito acertadamente por todos, mas por um lado, não vejo analisar as particularidades desta ou daquela marcha nem tampouco o contexto internacional de reivindicações e seu traço “virótico”; e por outro, tampouco o vejo contemplar um potencial pedagógico para os mais jovens que agora ensaiam, ainda que sem foco, seus primeiros passos na arte de protestar politicamente.
A dureza das críticas, por mais que sua direção se mostre acertada, aplana a iniciativa de alguns que por lá estiveram. E que fique claro que eu não era um deles, já que o razoável número de cabelos brancos que tenho na cabeça certamente denotariam uma face neoudenista que não me cabe."


Prazer dialogar contigo.

Guilherme Scalzilli disse...

Caro Ricardo, realmente o linque não é fiel ao cerne de suas reflexões. Deixo registrada, portanto, a necessária retratação.

Mas insisto na referência porque foram exatamente a sua análise central e depois a atenciosa resposta ao meu comentário que suscitaram esta “Pauta oca”. Entre outras coisas, queria apresentar um humilde contraponto à idéia de que as manifestações “dão mostras de alguma efervescência relativamente nova” (cito palavras suas) no espírito contestador da juventude. Também queria afirmar que não vejo, de fato, “um potencial pedagógico para os mais jovens que agora ensaiam, ainda que sem foco, seus primeiros passos na arte de protestar politicamente” (idem) ou que eles possam facilmente ser enquadrados num “contexto internacional de reivindicações” (ibidem). Os motivos para essas discordâncias, creio, ficaram claros na postagem.

Compartilho sua preocupação em não simplificar as marchas e tampouco vejo motivos para classificá-las todas como “neoudenistas”. Mas acho que a provocação (explícita no texto “Causas”) pode servir para que os participantes evitem, eles próprios, as tentações simplificadoras do protesto. Se existem particularidades a serem consideradas, e se elas não ficaram claras para este observador distante, trata-se de um problema fundamental dos organizadores. Aliás, faço justamente o caminho oposto, defendendo plataformas mais elaboradas e contextualizadas.

Agradeço muito sua visita e a disposição ao diálogo. Participe sempre!

Um abraço do
Guilherme