terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Fumantes inofensivos

Quase todos os países europeus já adotaram legislações rigorosas contra o tabagismo (veja matéria a respeito). É estranho saber que a França acaba de aderir à tendência. Com exceção da China (os chineses são imbatíveis nesse quesito), talvez não exista país com maior porcentagem de fumantes. As ruas, os vagões do metrô, as galerias dos museus, tudo lá recende a tabaco, ou melhor, a uma estranha mistura de fumaça com produtos de limpeza destinados a neutralizá-la. A impressão é de que todo francês fuma, e muito. Tenho minhas dúvidas sobre a eficácia da lei francesa.
Não há espírito benemerente nesse proibicionismo. A questão pertence à esfera econômica. O Estado de Bem-estar Social europeu, à beira da falência, quer livrar-se dos gastos médicos exigidos por populações de fumantes inverterados. A primeira medida, antiga, foi taxar fortemente o tabaco, transformando-o num produto de luxo. Agora a idéia é forçar o cidadão a parar por constrangimento legal: entre pagar multa e acender seu cigarro sob nevasca, talvez ele se convença a deixar pra lá, roendo as unhas.
Os argumentos médicos, ou sanitários, continuam polêmicos. Não parece razoável imaginar que uma doença, o vício, seja curada por imposições burocráticas. Até que ponto essas proibições resultam em melhoria na qualidade de vida da população? Fumar caminhando é menos danoso do que num balcão de bar? Sugar um cigarro às pressas, em poucos e longos tragos, é melhor do que numa conversação tranqüila? A tese do fumo passivo serve também para ambientes ventilados?
Não se trata, porém, de questionar malefícios. O fato é que a onda anti-tabagista possui um viés autoritário. O Estado não apenas segrega e pune parcelas substanciais da coletividade, mas sequer oferece alternativas ao livre-arbítrio das vítimas. O estabelecimento comercial não pode abrigar sopradores de fumaça, mesmo que possua espaços propícios ou reservados, mesmo que todos os seus funcionários e freqüentadores sejam fumantes, mesmo ainda que os não-fumantes queiram aspirar névoa alheia.
Os fumantes acatam passivamente essas arbitrariedades porque assimilaram a culpa disseminada pelas campanhas oficiais. Jamais deixariam de fumar por causa dos ratos mortos nos maços de cigarros, mas a associação consegue minar-lhes a ilusão da cidadania. Sentem-se párias de uma sociedade que privilegia a ostentação da longevidade postiça, que exige a felicidade sem transgressões e que se alimenta de aparências e estereótipos sobre o “bem viver”, acolhendo crianças bulímicas ou obesas e seus pais viciados em remédios, desde que não soltem baforadas nos outros.
“Tudo é proibido se não estiver destituído de sua substância e, assim, acabamos por levar uma vida completamente regulada”, escreveu, a respeito, o filósofo Slavoj Zizek. Se somos o que comemos (ou fumamos), sejamos vazios e inofensivos. O abraço paternalista do proibicionismo submete o indivíduo à lógica da homogeneização coletiva, que visa no limite apaziguar as contradições inconvenientes, através da negação das individualidades.

9 comentários:

carlos pessoa rosa disse...

Ola:

Indiquei o Blog do meiotom.
Quanto ao tema, o autoritarismo não é diferente com maconha, cocaína etc. Interessante é não ocorrer com o álcool. Coisas da natureza humana, toda ela precisa de algum tipo de droga, mas escolhe uma ou outra para ser o vilão da história.

carlos pessoa rosa

carlos pessoa rosa disse...

no e não do

Gu do Angu disse...

Quem sabe não convencemos o Ministério da Saúde, no Brasil, a multar quem pegar febre amarela? ;-)

fks disse...

Tá aí um debate levado às raizes, às possibilidades e essências do gênero humano vistas com partitura filosófica.
"Porra! num se pode mais acender um cigarro no café do Sartre e seus convivas, os homens de botas preta

fks

Arthur Rotta disse...

Muito interessante. Não fumo. mas concordo com o texto acho que existe um exagero nessa perseguição aos fumantes. De fato, não cabe ao Estado controlar nossos hábitos, não em demasia. O Estado deve deixar sermos livres o máximo possível. Não pode nos tratar como crianças levadas. Espero que essa onda anti-tabagista na frança não se espalhe, afinal do jeito que vai logo logo criminalizão o fumante.

Guilherme Scalzilli disse...

Arthur, é através dos pequenos abusos que o Estado finca suas estruturas controladoras. A sociedade precisa estar constantemente alerta para impedir sua disseminação silenciosa.

simone disse...

Finalmente encontro alguém que também associa a perseguição aos fumantes ao autoritarismo, e é mesmo. Tanto é que, aqui em São Paulo, Estado que caiu de amores por ditadores, desde que lutou contra Getúlio e perdeu, o mais-do-que-autoritário José Serra apresentou PL para impedir o fumo até mesmo nos condomínios! O que temos que fazer? DESOBEDIÊNCIA CIVIL! Desrespeitar a lei e ponto final!

Sandra disse...

Vai ter uma hora em que a discriminação contra os fumantes vai ser tanta que será necessário fazer o que os homossexuais estão fazendo, lutando pelo direito à diversidade. Ao mesmo tempo em que a mídia incita a perseguição ao fumante ela planeja a liberação da maconha e induz o público ao uso cada vez mais intenso do uso de bebidas alcóolicas. Nas cenas das novelas da Globo, por exemplo, o whisky não pode faltar, o vinhozinho está sempre presente, é a maior propaganda. Me preocupa o efeito que isso causa na cabeça de uma criança ou adolescente. Percebo também a intenção de uma futura "caça às bruxas" contra pessoas não magras. O Globo Repórter e outros tantos programas estão falando demais sobre nutrição, ditando regras sobre quais alimentos devemos consumir. Logo logo os gordinhos também serão multados e exterminados da sociedade. Serão proibidos de frequentar restaurantes.É uma pena!!! Enquanto a sociedade e as leis brasileiras lutam pelos direitos dos cidadãos, a mídia trata de inculcar o preconceito e a discriminação nas mentes desavisadas e manipuláveis. ACORDEM POVO BRASILEIRO!!! A Globo criou o fumante e agora trata-o como criminoso. FUMO SIM...PAGO MINHAS DÍVIDAS...SUSTENTO MEU VÍCIO E NÃO SOU CRIMINOSA, SOU UMA PESSOA DECENTE. Mas tenho me sentido muito constrangida com os olhares e desprezo das pessoas em todo lugar onde ando. Até bêbado passou perto de mim, tentando ficar em pé, me criticou por estar fumando. Eu estava na rua e ele disse "na televisão falou que não pode fumar"....aiiii...eu mereço...é um absurdo!!!

Teca disse...

Acho que está claro que não dá para o estado controlar nossos hábitos assim e que o direito individual deve ser respeitado. Acho que nem tanto, nem tão pouco! Sou ex fumante e muitos me condenam porque hoje sou contra o fumante criar um fumante passivo junto consigo, o que significaria fumar em ambiente fechado e com muita gente. Ponto final. Tem que ter um equilíbrio para que todos os direitos sejam respeitados, tanto o de quem fuma quanto o de quem não está a fim de receber a baforada na cara! RS! O melhor é não perder o humor e não aceitar tudo passivamente. O governo tem a maior responsabilidade nisso tudo e é quem mais sai de fininho...