segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Time pobre não tem vez


Publicado na revista Caros Amigos, em janeiro de 2010.

A fórmula de pontos corridos representa a definitiva elitização do futebol nacional. Em sua vigência, as melhores colocações do Campeonato Brasileiro serão sempre ocupadas por clubes que receberem os maiores repasses financeiros, enquanto competidores menos favorecidos lutarão contra o rebaixamento e consolações efêmeras.

Esse fato inquestionável tem sido minimizado pela crônica das capitais, graças ao título aparentemente imprevisível do Flamengo e a fracassos isolados de outros poderosos. Mas em nenhum caso a tendência geral do modelo foi contrariada.

Qualquer processo classificatório permite milhares de métodos, todos sujeitos à interferência de arbitragens tendenciosas, tribunais abjetos, influências diversas. Ainda que houvesse debate aberto e desapegado sobre novas estratégias de competitividade (por exemplo, o sorteio de atletas promissores, nos moldes dos “drafts” da NBA americana), qualquer moralização do esporte passaria necessariamente pela distribuição eqüitativa das verbas milionárias oriundas de patrocínios e transmissões televisivas.

O sistema atual, defendido como o mais “justo”, legitima uma estrutura viciada, onde as cotas definem previamente o encaminhamento da disputa. As disparidades resultantes, imensas e decisivas, inviabilizam qualquer ilusão de equilíbrio: eis o mecanismo que se esconde no elogio à regularidade dos clubes bem-sucedidos. Ora, nada contrariará o mito da “competência” dos vitoriosos enquanto os adversários estiverem inferiorizados desde o início.

Os privilégios transformam as competições longas e desgastantes em farsas destinadas ao regozijo de uma aristocracia imutável que domina os bastidores da cartolagem. Por isso há tanto medo das surpresas possibilitadas pelo sistema de grupos, ou “mata-mata”, com decisões sucessivas. O monopólio não admite o imponderável.

5 comentários:

Lingua de Trapo disse...

Concordo com você somente no diz respeito a distribuição das cotas, mas você se esqueceu da relutância da Fifa e da CBF em adotar os recursos eletrônicos e informáticos para controle da arbitragem, que sempre favorece os grandes de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Não tenho dúvidas de que os pontos corridos valorizam aqueles que se organizam melhor e, por essa mesma razão, obtém os melhores resultados. É isso que eu entendo merecer melhor observação.

Saudações Cruzeirenses

Carneiro disse...

Meu caro

sabe que discordo de você. É ilusão achar que mata-mata impera o imponderável ou qualquer coisa do gênero.
Basta ver os campeões brasileiros antes dos pontos corridos. Que time de menor força conseguiu vencer? Vamos lá: Guarani, Coritiba, Atletico-PR. Em 30 anos de fórmulas mirabolantes, somente 2 anos terminou com um time tido como "de menor força" como campeão. Isso prova que os mata mata sempre tem o imponderável da arbitragem.
Existem n casos de roubo do "homem de preto". Para ficar em somente 1, basta ver o título do SP em 1986 contrao Guarani. O penalti não dado pelo Aragão na final é coisa de outro mundo. E a declaração dele no final foi "(...) para mostrar quem manda dentro de campo". E algo foi feito? Nada.

O que de fato acontece no esporte do mundo todo é que o mais forte vence. Mesmo na NBA em que o draft premia os times piores, a quantidade de títulos é dividida entre as mesmas equipes de sempre. Pq? Por causa do dinheiro. Quando o jogador pode sair do time, ele sai para ganhar mais. Tanto lá, como cá, como acolá ...
É a tônica dos esportes competitivos mundo afora.
O que os times de menor dinheiro tem que fazer é conseguir arrecadar com outro tipo de fonte de renda sem que seja a TV e patrocínio direto de camisa. Essa é a tônica do marketing esportivo: conseguir arrecadação sem depender do mesmo. Nesse ponto TODOS os times brasileiros estão anos luz atrasados.
A torcida existe, ela está lá, mas sempre é mal tratada.
Falar que a grana que recebem é sempre o problema é esconder os desvios de verba e a incompetência dos cartolas que assolam os times desse país. Reclamar do sistema é sempre mais fácil do que implementar uma mudança para me adequar a ele.

Anônimo disse...

A burguesia e o proletariado .
A consciência de classe na mesma classe.
Vamos revolucionar o futebol ?

Guilherme Scalzilli disse...

Caríssimos, aqui a arbitragem tem papel secundário, pq ela sempre poderá influir em resultados, independente da fórmula. A questão é que, nos pontos corridos, os melhores sempre serão os que receberem mais dinheiro. Sempre.
É difícil um time pobre vencer no mata-mata, mas nos ptos corridos é impossível. É fácil alcançar resultados, e assim parecer um bom administrador, tendo uma fortuna para gastar e um monte de adversários em condições desfavoráveis desde o início da competição.
Parece-me ilusório achar que um clube sem estrelas nem títulos, portanto sem apelo popular, conseguirá atrair os investimentos e a publicidade dos clubes que podem pagar craques e disputar Libertadores.
Não canso de afirmar: os ptos corridos só existem pq existe a divisão desigual de cotas. Assim, viciando uma boa fórmula, cria-se uma fachada de "competência" para um jogo de cartas marcadas.
Mas vamos continuar debatendo todas essas questões espinhosas...
Um abraço do
Guilherme

Germano disse...

Guilherme concordo inteiramente contigo e acrescento o seguinte:

Imparcialidade. Todo jornalista deveria ser imparcial. Mas, infelizmente, o que se vê no Brasil é um bando de “torcedor” em pele de “jornalista”.

É nítida a predileção dos órgãos de imprensa pelos times da sua cidade. Os times dos estados fora do “eixo” são desrespeitados e menosprezados. Os jornais e TVs nacionais se limitam a “falar” dos times de RJ e SP como se não existisse futebol longe desses estados.

Este fato dá origem à três problemas:

1) Alguns torcedores alienados deixam de torcer pelos times da sua cidade natal e passam a torcer pelos times do “eixo”.
2) Utilizando a desculpa do IBOPE, a cota de TV tem sido utilizada para criar uma “reserva de mercado” no futebol brasileiro.
3) A cota injusta cria um círculo vicioso. Se um clube não ganha uma boa verba de TV, logo não pode montar bons times. Sem um bom time, não ganha jogos. Se não ganha jogos, não desperta interesse. Se não desperta interesse, não dá IBOPE. Se não dá IBOPE, não ganha verba de TV.

Quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha?

Como um time como o Atlético-GO que recebe apenas R$ 3,9 milhões pode competir em pé de igualdade com um Flamengo ou um Palmeiras que recebem R$ 21 milhões?

É muita injustiça! Isto não é esporte é um verdadeiro apartheid . E o pior é que os “gênios” do marketing esportivo que inventaram esta aberração acham tudo isto muito lindo e justo. Será que eles não veem que se a divisão de cotas fosse igualitária teríamos um campeonato excepcional muito mais disputado? E se um produto é melhorado, podemos cobrar mais caro por ele.

Mas como o esporte é que menos importa e o mais importante é o IBOPE da TV criou-se esta aberração esportiva econômica. E como nossos “jornalistas” são, na realidade, “torcedores” fazem questão de defender este absurdo. Até porque acham um absurdo o Atlético-GO receber a mesma verba dos queridinhos Flamengo, Palmeiras, São Paulo, etc.

Enquanto tivermos esse sistema perverso não há a menor chance de um clube fora do “eixo”, como é o caso do Atlético-GO, se sagrar campeão brasileiro.