quarta-feira, 4 de abril de 2012

Entrevista com Seth Godin



Quando o Sr. vê a indústria editorial se tornar completamente irreconhecível para os padrões a que estamos acostumados? Que aparência ela assumirá desta vez?

Godin:
Grandes adiantamentos para os autores de sucesso mediano serão os primeiros a acabar. E depois irão todas as pessoas que trabalham duro na cadeia de produção do livro, porque a escassez torna difícil pagá-los para fazer o trabalho que fazem. Principalmente, porém, eu acho que haverá um desvanecimento da influência do livro publicado em papel. Quando qualquer um puder publicar um e-book, qualquer um irá publicá-lo.

O papel dos agentes literários mudou nos últimos anos e está mudando cada vez mais. O que eles podem fazer agora, de modo a se manterem no jogo e não sumirem na poeira do e-book digital?

Eu começaria por redefinir a atividade. Eu não acho que o objetivo do agente é maximizar o tamanho do adiantamento (que é o que eles faziam, como demonstram seus próprios relatos sobre a forma como eram pagos). Eu acho que o objetivo daqui para frente será influenciar cada elemento de impacto de um autor sobre o mundo, incluindo licenciamentos de produtos, a conquista de seguidores, a abordagem para a construção de uma tribo.

As pessoas olham para o que você realizou, mas não percebem que isso não surgiu da noite para o dia. Quais são as três coisas que os autores, especialmente os independentes, podem fazer para deixar o anonimato?

Recebi novecentas cartas de rejeição no meu primeiro ano como editor independente. Levei algum tempo para ver que não havia atalhos. Economicamente, o que ficou realmente claro para mim é que há mais oportunidades para ser generoso, liderar e organizar do que jamais houve. Se você passar um ano ou dois ou cinco fazendo isso, no seu tempo livre, sem foco real em ser pago pelo investimento, as pessoas cedo ou tarde vão querer mais de você... e então você não terá outra saída senão receber por isso. Um autor começando hoje precisa defender-se, estabelecer um nicho, tornar-se verdadeiramente o melhor nesse segmento e de forma incansável e generosa influenciá-lo. Leva um bom tempo, mas ainda é mais rápido que esperar as grandes editoras encontrarem-no.

Muitos autores ouvem sua mensagem sobre estar disposto a doar seus livros, distribuí-los gratuitamente, ou a se concentrar na divulgação da mensagem, mas a questão que fazem é: "Eu tenho aluguel para pagar, então como faço para transformar esse produto em dinheiro?"

Quem disse que você tem o direito de ganhar dinheiro escrevendo? Dei centenas de palestras antes de ser pago para escrever uma. Escrevi mais de quatro mil mensagens de blog gratuitamente. Poetas não recebem pagamento (na maioria das vezes), mas não há escassez de poesia. O futuro será dos amadores, e os verdadeiramente talentosos e persistentes irão fazer grande sucesso. Mas os dias dos escritores assalariados que ganham a vida pela palavra acabaram.

Entrevista na íntegra aqui (em inglês). Mais sobre o entrevistado no seu blog.

2 comentários:

Vania disse...

Achei muito interessante, mas acabei me perguntando se o entrevistado não foi longe demais em suas "previsões". Só o tempo dirá!

Guilherme Scalzilli disse...

Vânia,
compartilho sua dúvida. Mas o Godin fala do mercado editorial estadunidensede, uma realidade muito distante da nossa. Lá ainda é possível imaginar escritores que ganham dinheiro vendendo livros. Será que conheceremos esse estágio intermediário, antes da chegada de uma nova fase dominada por ebooks e afins?
Abraço do
Guilherme