quarta-feira, 12 de junho de 2013

Porte ilegal de muletas














Por Gustavo Scalzilli

O Guarani fez a sua estreia no Brinco de Ouro pela Série C nesse domingo e não pude comparecer.

Reformulo a frase: compareci, porém não pude assistir ao clube de coração que acompanho desde meus tempos de criança, 37 anos atrás.

Fui barrado pela Polícia Militar.

Motivo? Simples. Eu estava utilizando muletas para me locomover.

Aposto que muitos lendo esse relato, com tom de desabafo, irão pensar qual seria o motivo de impedir uma pessoa de muletas entrar no estádio?

Conto toda a história para tentar achar, junto com você, um motivo.

Atleta amador de Corrida de Aventura, estou no momento com o tendão do tornozelo inflamado após uma longa prova de que participei.

Tenho que utilizar muletas para evitar de colocar o pé no chão além de remédios e gelo.

Digo isso para explicar que minha condição é temporária, mas fiquei pensando, muito mais do que o normal, naquelas pessoas que não tem a mesma “sorte” que a minha.

Que dependem das muletas para conseguir se locomover. Sempre.

Cheguei ao Brinco de Ouro e fui direto às vitalícias, setor em que possuo três cadeiras em conjunto com o meu pai.

Na revista da Polícia Militar fui informado por um soldado que não poderia entrar naquele setor de muletas, pois existe um local específico, na entrada principal, para deficientes.

Perguntei se com isso eu seria impedido de entrar no setor que anualmente pago para manter e a resposta taxativa do soldado foi: “não”.

Fui à entrada principal procurando a entrada dos deficientes, mas, pensando: Se eu consigo entrar em outros setores por que seria privado disso?

Cheguei a outra revista na entrada principal e quatro soldados (desculpem, não sei a patente dos envolvidos nem nomes, uma falha minha, confesso) vieram conversar comigo e logo apontaram para minha muleta e disseram: “o senhor não poderá entrar com isso”.

Perguntei que vim para a entrada específica para deficientes e eles disseram que eu estava no lugar certo, porém de muletas eu não poderia entrar.

Questionei dizendo que eu as estava utilizando por necessidade, mas nesse momento recebi a melhor pergunta: “o senhor terá que deixar as muletas na entrada antes de entrar. Consegue subir as escadas sem elas?” Claro que não!!!

Nesse momento confesso que meu sangue subiu e perguntei se eles estavam impedindo uma pessoa deficiente de entrar no estádio e responderam naturalmente: “não senhor. Estamos impedindo que entre com a muleta pois ela pode ser utilizada por outros torcedores como arma em uma eventual confusão”.

Um dos soldados ainda questionou o seu superior (ao menos era que o dava as ordens, imagino ser superior) sobre o setor dos “cadeirantes”.

A resposta foi a cereja no bolo da incompetência da PM: “o setor de cadeirantes é somente para cadeirantes”.

Gênios!

Novamente, confesso que sem nenhuma calma, perguntei se eles iriam me impedir de entrar no estádio para ver o time do coração por estar utilizando de muletas para me locomover.

A resposta taxativa e no auge da má vontade: “não”.

Perdi a paciência soltei diversos palavrões com dedo na cara dos “homens de farda”.

Eu acabava de ser impedido de entrar no estádio utilizando muletas por pura incompetência da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Incapaz de conter eventual problema de uma pessoa de muletas em um jogo da série C do Brasileiro, com público máximo de 4mil pagantes. Jogo de torcida única.

Nem os xingamentos (exagerei, confesso) fizeram eles mudarem a postura.

Recebi um novo retorno: “o senhor pode entrar sem as muletas, se conseguir”.

Genialidade em pessoa.

O diálogo terminou com o meu desabafo: “e vocês se acham capazes de organizar uma Copa do Mundo. Patético (para dizer o mínimo)”.

Fui à secretaria do Guarani e expliquei a situação e todos ficaram perplexos.

Perguntei sobre o que poderia ser feito e a resposta foi: “infelizmente não podemos fazer nada. A Polícia Militar tem poderes de impedir alguém de entrar no estádio. Mas isso não faz sentido algum”.

A comoção das pessoas ali presentes na secretaria não me animou a tentar entrar.

Um funcionário até conversou dizendo que queria ir comigo e conversar com a PM.

Meu ânimo já tinha acabado e apenas registrei um protesto contra a situação e um pedido que a Diretoria do Guarani Futebol Clube entrasse em contato com a Polícia Militar para resolver esse tipo de situação.

A minha condição é momentânea.

Em menos de uma semana passo a caminhar novamente e, após fisioterapias e exercícios, voltarei às minhas atividades esportivas em menos de um mês.

Mas penso, de coração, nas pessoas com reais deficiências.

Aquelas pessoas que vivem ou viverão com o apoio de muletas, “andadores” ou cadeiras de rodas. Como essas pessoas são privadas de viver e curtir como todo o resto da população?

Um reflexo de que a Polícia Militar do Estado de São Paulo não está preparada para lidar com a população em todos os níveis.

Não há preparo para lidar com situações tão simples e importantes.

Não há preparo para eventos grandes.

Não há preparo para lidar com as pessoas especiais.

Não há preparo para lidar com os cidadãos.

Utilizo de um jargão já conhecido para encerrar: “Imagina na Copa….” Sim, imagino… e fico triste demais com o que penso no momento.

Gustavo Scalzilli é bugrino fanático, Analista de Sistemas, atleta amador e está com um tornozelo inflamado.

Um comentário:

Eugenio Hansen, OFS . disse...

Pa e bem!
.
No proximo jogo,
se ainda estiveres de muleta,
tenha muita calma,
vá ao jogo acompanhado com duas pessoas
e quando os PMs barrarem tua entrada
registre por escrito o nome deles
uma das pessos esteja ao teu lado
para ajudar a decorar os nomes
(isto se eles não tirarem as identificações)
e a outra pessoa tire fotos deles
(mas esteja afastada pois conhecemos
a gentileza deles);
depois volte à Inet,
vá a corregedoria, Ministério Público
etcetera.