segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A pauta da ocupação



As abordagens negativas que a imprensa dedica ao protesto na USP tentam ocultar os debates que permeiam suas causas diretas.

Na prisão dos estudantes que fumavam maconha, a estupidez repressiva contra a erva demoníaca. No assassinato do aluno, os desserviços terceirizados no campus. Nos rostos encapuzados, o clima de repressão e vingança que borbulha sob a imagem bondosa das autoridades. No teatro ineficaz do policiamento ostensivo, o colapso da segurança pública demotucana. Nas ações truculentas da Polícia Militar (“vocês não queriam segurança?”), a criminalização da discórdia.

Mas o que amedronta realmente a intelectualidade conservadora paulista é a mensagem política oferecida pelo episódio. A ocupação de prédios administrativos precisa ser vilanizada antes que se transforme em gesto desesperado para vencer a obstrução do diálogo e em resposta razoável para a arrogância despótica de funcionários públicos. Se não forem descritos como baderneiros, os jovens revelam-se futuros historiadores, filósofos e jornalistas levando safanões dos cossacos no berço do cosmopolitismo nacional. E a maior universidade do país não terá sido capaz de nomear alguém com mínimos recursos pedagógicos para ouvir um punhado de rapazes bravios.

O modelo de gestão universitária imposto pelo governo estadual perdeu os últimos resquícios de legitimidade. As reitorias e os departamentos viraram feudos loteados por vassalos do governador, que espalham suas próprias redes de influência e forjam essa casca de segurança institucional que a ocupação ajuda a rachar. A falta de mecanismos representativos que atendam às demandas estudantis (leia-se: eleições diretas para reitor e diretores) pode soar desimportante a observadores externos, mas é bastante valorizada por seus privilegiados beneficiários.

5 comentários:

L. Rafael Nolli disse...

Totalmente de acordo, Guilherme!

Felipe Romani disse...

"se ajo contra a lei, a injustiça é minha" --Gandhi

Babacas riquinhos revolucionários.

miguel disse...

Quer dizer então que "só" nos Estados (des)governados pelo PSDB a segurança pública está em colapso? Me desculpe, mas não é o que eu vejo no dia-a-dia dessa gigantesca Banana Republic. E a PM BRASILEIRA (só não escrevo em negrito porque não tenho essa opção) é truculenta e corrupta desde 1500. Mas nem por isso defendo essa OCUPAÇÃO DE DESOCUPADOS. Pelo que li (não confirmei ainda) 4 desses estudantes (?) tem entre 28 e 31 anos. Acho que alguma coisa está (muito) errada quando 4 marmanjos que já estão bem pra lá de adolescentes ficam consumindo Cannabis numa universidade PÚBLICA e agora fazem esse "protesto". Pelo que sei a grande maioria dos próprios estudantes da USP é contra essa baderna (para mim é isso mesmo). E, pelo menos oficialmente, nem o PT que você tanto defende endossa essa atitude típica de burguesinhos que "adoram odiar" a burguesia. Parece que só o totalmente inexpressivo PCO está ao lado dos "injustiçados". Quero deixar bem claro que sou a favor de uma discussão ampla, verdadeiramente democrática e com dados cientificamente consistentes sobre uma possível descriminalização e legalização da erva. Confesso que ainda não tenho opinião formada sobre isso, mas procuro me informar o máximo possível sobre TODOS OS PRÓS E CONTRAS e lamento muito que a grande maioria dos brasileiros seja tão desinformada e alienada por essa tal grande mídia. Enfim, não será com atitudes ridículas (para não dizer coisa muito pior) como essa que esses caras vão angariar alguma simpatia da maior parte da população.

Vinícius disse...

O Guilherme, faz tempo que eu fiz um comentário em um artigo sobre as eleições diretas e você nem me respondeu hein ...

Guilherme Scalzilli disse...

Felipe e miguel, as respostas possíveis a essas críticas aparecem num texto que acaba de sair no Amálgama ( http://www.amalgama.blog.br/11/2011/falacias-que-ocuparam-o-debate/ ) e que segunda-feira publicarei aqui.

Vinicius, peço desculpas por não ter respondido. Voltando ao seu comentário (abril de 2008!!!), não tenho conhecimento sobre os conselhos para opinar sobre eles. Estou ausente dessa discussão há pelo menos uma década.
Mas acho que não podemos nos conformar com saídas intermediárias (e insuficientes) para a verdadeira questão da representatividade nos campi. A eleição direta para reitores e diretores de departamento em qualquer universidade pública (e talvez até nas particulares) é uma causa imbatível, se corretamente apresentada e defendida.
Continuemos o debate...

Abraços do
Guilherme