segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A censura rediviva



Lamento ver pessoas que admiro defendendo a proibição judicial do filme “A Serbian Film”, que seria exibido no Rio de Janeiro. É censura, sim. E viola os princípios constitucionais que representam a própria essência do Estado Democrático de Direito.

Embora já pareça contraditório que alguém amaldiçoe algo sem conhecê-lo, o debate não deveria nem arranhar apreciações de natureza subjetiva. O Judiciário precisa coibir abusos da imprensa e de manifestações públicas em geral (não que ele esteja interessado no assunto), mas obras ficcionais são intocáveis. Simples assim. Pouco importa que exibam as patologias mais horrorosas, ou mesmo que incitem a demência coletiva. Cercear a difusão do produto criativo, sob quaisquer pretextos, sempre incorrerá em alguma forma de autoritarismo.

Se o Estatuto da Criança e do Adolescente serve para esse tipo de abuso, logo veremos um magistrado proibindo “Lolita” (Vladimir Nabokov), clássico da literatura universal, porque seu protagonista estupra a enteada, uma garota de 12 anos. Depois os saneadores culturais perseguirão todos os vilões que lhe parecerem demasiado asquerosos, os objetos artísticos que afrontem suas sensibilidades, os palavrões das músicas, a nudez e a escatologia dos espetáculos teatrais. E assim chegaremos ao mundo paranóico e restritivo que os conservadores tentam engendrar sob o pretexto do bem comum.

Um comentário:

Karlos Junior disse...

Exatamente isso Guilherme!! Usar o Estatuto da Criança e do Adolescente para justificar essa censura é no mínimo desonestidade intelectual desse pessoal. Daqui a pouco vão querer proibir os noticiários tb. Não poderemos ler Lolita, nem Cristiane F.

Obrigado pelo comentário e aproveito para linkar seu blog. Um abraço!! :)