sexta-feira, 31 de julho de 2009

William Carlos Williams (1883-1963)

Uma espécie de canção

Que a cobra fique à espera sob
suas ervas daninhas
e que a escrita se faça
de palavras, lentas e prontas, rápidas
no ataque, quietas na tocaia,
sem jamais dormir.

- pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor (Idéias
só nas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.
________________________

O carrinho de mão vermelho

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

Traduções de José Paulo Paes. Veja também "Poesia na veia".

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mundo é dos crédulos – a caça aos fretados paulistanos

Desta vez o bom Noel está indignado. Não suporta mais ouvir que a proibição aos fretados em São Paulo é parte de um cabo-de-guerra entre as empresas de transporte e certas autoridades ávidas pela caixinha que sempre teria azeitado esse tipo de atividade semi-regulamentada. E não aceita insinuações de que, normalizado o molha-mão geral, tudo será tido como um enorme equívoco.
“Absurdo”, escreve Nicolau do Golfo de Bótnia (na Lapônia o verão é rigoroso). “A restrição aos ônibus foi uma decisão puramente técnica, planejada em estudos detalhados e longas reuniões multidisciplinares, com autoridades de todas as instâncias governamentais. As inquestionáveis estatísticas divulgadas pela administração demonstram a melhora substancial do trânsito na capital – que, aliás, sempre foi caótico por culpa desses malditos ônibus”.
O velhinho finaliza ponderando que não poderá disponibilizar seu trenó para os incautos por respeito ao gênio Gilberto Kassab. “A última palavra em gerência de tráfego é trocar o transporte coletivo pelo individual”, remata o ancião.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Arapuca para Lula

O presidente faria um favor a aliados e contribuintes se descobrisse uma fórmula para escapar da armadilha retórica onde foi metido pelo jornalismo oposicionista. Parece joguinho de criança falastrona, mas tem gente que leva (e pratica) a sério. Funciona assim: defender José Sarney denota cumplicidade com o coronelismo safardana; permitir que seja defenestrado equivale a traição, derrota ou inabilidade política. Um e outro daqui a pouco se transmutam num híbrido monstruoso, o Lularney.
Lula, como as pombas do Alvorada, sabe que os ataques midiáticos a Sarney guardam o gene da hipocrisia. O painho maranhense é o que é há pelo menos quatro décadas, mas sua família aparece nas páginas investigativas apenas quando há interesses eleitorais em jogo. Roseana foi deixada em paz assim que topou não atrapalhar os planos de José Serra em 2002. Uns poucos aninhos antes, a aliança "pragmática" com o PMDB era vendida como habilidade esperta do governo FHC.
Falta ao Planalto diagnosticar friamente a situação e descobrir que há duas cúpulas peemedebistas, uma já irremediavelmente afastada da candidatura tucana em 2010 e outra que aguarda o andamento das negociações regionais. É esta segunda frente que precisa ser atraída para a campanha de Dilma Rousseff e que, aliás, promete muito imbróglio político.
Defender Sarney com elogios pessoais e referências biográficas, além do teor duvidoso, desestimula a militância histórica e favorece essa rachadura interna no PMDB (tida pelos próprios tucanos como a última chance de sucesso para a candidatura Serra). Lula só conseguirá escapar do abraço de afogado do maranhense quando e se partir para o ataque, usando um pouco mais de ironia e menos desse rubor acuado e raivoso que é tão inconveniente quanto desnecessário.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Antonio Cicero (n. 1945)

Eco

A pele salgada daquele surfista
parece doce de leite condensado.
Como seu olhar, o mar é narcisista
e, na vista de um, o outro é espelhado.

E embora, quando ele dança sobre as cristas,
goste de atrair olhares extraviados
de banhistas distraídos ou artistas,
é claro que o mar é seu único amado.

Ei-lo molhado em pé na areia: folgado,
ao pôr-do-sol tem de um lado a prancha em riste
e usa do outro uma gata e um brinco e assiste

serenamente ao horizonte inflamado
e a brisa o alisa e enfim ele não resiste
à beleza e diz “sinistro!” e ouve eco ao lado.

Do livro “Guardar” (1996)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Governando na porrada 2

Eis a governadora Yeda Crusius (PSDB-RS) em momento finesse. A ação truculenta da polícia sob seu comando imita a famigerada PM paulista, do correligionário José Serra. Ambos os Estados, como o partido que os domina, vangloriam-se de certa superioridade civilizatória. Vê-se.
Fico imaginando o que a imprensa diria se no lugar da simpática Yeda tivéssemos, digamos, Marta Suplicy, a vociferar protegida pelo portão e por cossacos da Guarda Imperial. As interjeições de Eliane (“Gente!”) Cantanhêde, os impropérios miriambatuqueiros de Bárbara Gancia, as lágrimas indignadas das beldades do Saia Justa, os comentários jocosos de Arnaldo Jabor.
Yeda sobrevive porque a grande mídia (local, mas também nacional) ainda acredita que seu interminável cozimento é preferível ao vergonhoso impeachment de uma governadora tucana às vésperas das eleições. Enquanto isso, a direção do PSDB julga que o desgaste sepulta de vez um quadro partidário incômodo; seria o mal menor de uma operação dolorosa, mas necessária.
Tudo isso pode mudar ao sabor das próximas pesquisas e da criatividade da governadora.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O império derrotado

Publicado na revista Caros Amigos, em julho de 2009.

Parece consensual que a política externa de Barack Obama representa uma guinada positiva em relação ao espírito intervencionista dos governos Bush. Mesmo a frustração parcial das enormes expectativas iniciais é creditada ao gradualismo exigido por algumas radicais promessas da campanha democrata.
Mas a benevolência da opinião pública internacional omite a natureza pragmática da festejada mudança de rumo. O próprio Obama admitiu que os interesses dos EUA no restante do planeta são ameaçados pelo fracasso de sua própria diplomacia agressiva e intransigente. Considerando que o presidente questionava (e atualmente modifica) os pilares históricos do predomínio norte-americano, trata-se de uma pungente confissão de derrota.
E o cenário internacional demonstra que ele está certo: a potência chinesa, o predomínio regional russo (sob os desmandos de um grupo oriundo da KGB), o Irã dos aiatolás, a resistência cubana, a Líbia do eterno Kadafi, a desafiadora Coréia do Norte. As regiões dominadas militarmente pelos EUA sofrem com marionetes ditatoriais ou viraram palco de massacres injustificáveis, destruição generalizada e revolta popular.
O antiamericanismo prolifera também nas populações sob regimes democráticos e liberais, como em boa parte da Europa e da América Latina – vitrines das pretensões estadunidenses desde o início do século passado. Ademais, quase todos os governantes em exercício no continente americano já foram combatidos pela Casa Branca, individual ou coletivamente, durante algum processo eleitoral ou revolucionário.
São reveses sérios demais para tratarmos a moderação apaziguadora dos EUA como uma novidade inofensiva. Porém, ainda que a estratégia reformulada apenas esconda a essência intocada do paradigma geopolítico, ela demonstra uma ruptura em relação às suas pretensões hegemônicas originais.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Miguel Torga (1907-95)

Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

As melhores melodias dos Beatles

Desde que mergulhei na obra do quarteto, venho ensaiando uma pequena seleção de linhas melódicas inspiradas, sem qualquer pretensão antológica, nem consideração pelo texto. Pensei em juntar cinco ou seis canções, em postagens semanais, mas o número pode aumentar, claro, tendo em vista a riqueza disponível. Toda sugestão será bem-vinda (especialmente a daquela turma com a qual já conversei sobre isso e que ficou de enviar títulos, etc).

“Norwegian wood” pertence ao álbum “Rubber Soul” (1965). Apesar do crédito oficial, foi composta quase integralmente por John Lennon.


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Golpe consumado

O golpe de Estado em Honduras pelo menos ajudou a sepultar a constrangedora campanha publicitária da “Gloriosa” iraniana. Sintomática e previsivelmente, os inimigos ocidentais de Ahmadinejad mostram-se cautelosos em relação à democracia hondurenha. Nem sempre a mitologia libertária serve a todos os interesses em jogo.
Resta pouco a acrescentar às origens e aos desdobramentos da deposição de Manuel Zelaya. Trata-se de uma reedição bem-sucedida do levante contra Hugo Chávez, de 2002, na Venezuela: imprensa, partidos políticos e associações empresariais unidos no levante autoritário, oscilações determinantes das Forças Armadas, letargia de grande parte da sociedade e algum belicismo das minorias atuantes.
Golpe de feitio tradicional, portanto, e também no discurso pseudo-legalista dos revoltosos. Sempre há perigos a combater, um interesse nacional a salvaguardar. Os comunistas de nosso 1964 viraram os atuais vilões do Eixo do Mal – substituídos, para o folclore tropical, pelo coronel venezuelano. E novamente a defesa da “democracia” serve como justificativa para destruí-la. O apoio popular legitima o golpe, não a mudança constitucional proposta por um presidente eleito. Governantes podem ser depostos, mas nunca reeleitos, pelo clamor das ruas.
Um aspecto incômodo da cobertura jornalística é a simpatia concedida aos silêncios (omissões?) de Barack Obama. As ambigüidades do episódio hondurenho sugerem cautela. Não há razões para acreditar que o governo dos EUA deixou de apoiar, direta ou indiretamente, sabotagens contra adversários. A proximidade dos golpistas com antigos funcionários da Casa Branca deixa pouco espaço para dúvidas.
Acusações inócuas e sanções paliativas alimentarão o antiamericanismo da população hondurenha, fortalecendo a posição do governo provisório e mantendo o chavista Zelaya afastado até as eleições de novembro. Eis a saída cômoda (e irrevogável) para os lados mais fortes envolvidos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Deformações jornalísticas

Publicado na página da Caros Amigos e no Observatório da Imprensa.

Nos esporádicos eventos que exigem apresentações (entrevistas, por exemplo), é comum haver referências à minha atuação como “jornalista”. Dentre todas as alcunhas imerecidas, esta provoca mais desconforto, porque não tenho formação na área, jamais pretendi exercer a atividade e tampouco acredito exercê-la. Tento desfazer o equívoco, mas os interlocutores argumentam que minhas colaborações regulares para veículos informativos me inserem na seleta categoria.
Discordo, embora lisonjeado. Furtar um grau superior reconhecido oficialmente soaria desonesto com o distinto público. Também alimento a ilusão (ultrapassada e romântica, admito) de que jornalistas profissionais possuem compromisso com a objetividade, a veracidade e o interesse coletivo. Meus textos, ao contrário, são demasiado opinativos e diletantes para tamanhas pretensões.
Abdicar da qualificação não significa, entretanto, aceitar seu viés legitimador. Ninguém precisa de diplomas para coletar informações, cultivar análises e reproduzir raciocínios legíveis. Canudos de papel não materializam vocações ou talentos, em qualquer afazer criativo.
Na verdade, considerando a qualidade média dos serviços em questão, a própria formação universitária precisa ser repensada com urgência. Uma preocupante parcela dos jovens jornalistas brasileiros carece de rudimentos teóricos que deveriam ser exigidos de qualquer cidadão, ainda mais de alguém que pretende “formar opiniões”. Supondo-os diplomados, e quase todos são, chegamos a nos perguntar como conseguiram completar o colegial e passar num vestibular, antes mesmo da formatura.
Não me refiro à imprensa de província (amiúde injustiçada), nem às crônicas esportivas e policiais, recheadas de cacoetes divertidos. Até respeitados veículos de abrangência nacional sucumbem a escrutínios rigorosos. Os erros de gramática e concordância aparecem com lamentável freqüência. Amiúde surge o clássico “dar a luz a” e uma constelação de cacofonias no estilo “nunca ganha”. E os lugares-comuns se transformaram em dialeto particular, subproduto inócuo do discurso publicitário (leia o texto na íntegra aqui ou aqui)...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Allen Ginsberg (1926-97)

Um supermercado na Califórnia

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitmam, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?

E o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual é o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?

Tradução de Claudio Willer

quarta-feira, 8 de julho de 2009

“Dicionário de pequenas solidões”

Recebo de Ronaldo Cagiano seu bom volume de contos, em edição mais do que esmerada (Língua Geral, 2006). Temática suburbana, personagens trágicos, linguagem direta e crua que adota o monólogo interior sem cair na caricatura. Cagiano topa o risco, por si só uma qualidade rara no escritor contemporâneo.

Fígaro
(trecho)

“Recebeu na cara o vento inaugural da manhã e olhou fixamente um céu distante e pavoroso e viu de novo a cidade, aquela paisagem difusa crescendo em suas retinas. Uma tristeza oceânica, o silêncio reverberando inquieto, cerimonioso. As imagens se sucedem: desconexas, saltitam e comicham, cascavilhando a memória em sua trajetória de insistência: mancomunando contra a sua resistência em rever o passado diante daquela sacada. Tudo parecia um emergir violento, como um estouro de búfalos, de um sono (de um sonho? não, porque a realidade era próspera, próxima demais para ser esquecida), mas naquele canto – quietude e angústia se misturando – ainda soavam as tesouras, os fregueses esperando a sua vez, o cheiro de álcool recém-passado nos rostos escanhoados, os braços agitados do velho pai com suas pernas cheias de varizes e sem hora para comer, as folhinhas velhas penduradas na parede, o antigo ventilador Eletromar colocado estrategicamente num canto a digerir os verões (...)”.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Por falar em PMDB

Sob condições “normais”, a imolação pública de José Sarney mereceria lautos festins. Acontece que a febre moral da grande imprensa visa apenas desgastar o PMDB governista antes das disputas de 2010. É pura campanha eleitoral.
As sucursais brasilienses existem há décadas, com repórteres alimentados por centenas de fontes em todos os níveis de poder, e nenhum deles, nenhunzinho, jamais soube de falcatruas operadas por diretores do Senado antes do governo Lula (nunca é demais lembrar que Agaciel Maia esteve lá por 14 anos). O Sarney que presidiu a Casa e coordenou a base parlamentar do governo FHC (1995-97) era probo, literato e elegante.
Parece que duvidar da imprensa virou elogio ao coronel maranhense. Sei. Então tá. Proponho o seguinte: aspiremos bons fluídos republicanos, montemos na vassoura ética e investiguemos o PMDB de uma vez por todas. Que tal começar pelo quercismo?
Sugiro um levantamento dos órgãos e cargos ocupados por peemedebistas na atual gestão paulistana de Gilberto Kassab. Como se sabe, a vice-prefeita, Alda Marco Antônio, foi secretária dos “polêmicos” governos estaduais de Orestes Quércia (1987-90) e Luiz Antônio Fleury (1991-94) – aquele do massacre do Carandiru.
Alguém pode aproveitar o embalo para escarafunchar também o governo de José Serra, que se aliou a Quércia para vencer a disputa estadual e manter sólida maioria na Assembléia. Não parece razoável que uma aliança dessa envergadura tenha transcorrido sem qualquer, digamos, retribuição. Ora, deve restar alguma irregularidade, mínima que seja, escondida nos milhares de departamentos e incontáveis gabinetes dessas portentosas máquinas administrativas.
Ops. Cadê o furor investigativo? Agora deu preguiça?

sexta-feira, 3 de julho de 2009

William Butler Yeats (1865-1939)

I
A uma criança que dança no vento


Vá lá, vá na praia dançar;
Pois como pensar que a incomoda
Rugido de vento ou de mar?
E solte os cabelos à roda,
Molhados por gotas de sal;
Tão jovem, você desconhece
O tolo exultar do boçal,
O amor que ao nascer já perece,
E o obreiro melhor que, sem vida,
Deixou a colheita ao relento.
Mas como pensar que a intimida
O grito monstruoso do vento?

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II
Dois anos mais tarde

Ninguém falou da falta de cultura
Dessas pupilas tão gentis e ousadas?
Nem lhe avisou da angústia que tortura
As mariposas quando são queimadas?
Eu lhe diria, mas... é jovenzinha;
A sua língua não é igual à minha.

Você pensa que o mundo é amigo seu,
E a tudo o que surgir vai dizer sim;
Há de sofrer como sua mãe sofreu,
E como ela há de estar quebrada ao fim.
Mas sou velho e você é jovenzinha,
E é língua bárbara esta língua minha.

Traduções de Paulo Vizioli

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Pérolas do juridiquês moderno

Escreve o advogado de um grande banco nacional, apelando de decisão em processo de cobrança perdido pela instituição em primeira instância (não é piada, embora pareça):

“Em que pese o inconformismo do queixoso, bem como seu direito constitucionalmente garantido de acesso ao Poder Judiciário para que, através do ‘conjunto de atos concatenados que visam a solução de uma lide posta à apreciação do Estado-Juiz’", conforme leciona o professor TOURINHO, venha a ter sua teratológica ‘causa pretendi’ satisfeita, por um decreto condenatório prolatado em um r. ‘decisum’ terminativo negativo ao banco contestante, a presente ação não merece, sequer prosperar, haja vista a ausência de elementos fáticos e jurídicos que o fato apontado apresenta, bem como por estar baseada em alegações estéreis, cuja responsabilidade do contestante, bem como existência de dano, ou ainda ilicitude nascitura de ato deste, encontram fulcro apenas na ‘ens imaginationis’ do requerente que, ‘permissa venia’, está ‘ab absurdo’.”