terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Jornalismo para crianças

A superexposição da ex-ministra Matilde Ribeiro mostra que é simplista restringir o episódio de sua demissão a aspectos puramente administrativos. Mas a discussão sobre se houve ou não preconceito na cobertura da imprensa leva a um tortuoso labirinto. Podemos indagar “e se fosse um homem, caucasiano, empresário?”, mas seria impossível estender a adivinhação sem chegar a “e se fosse membro do governo FHC?”, transfigurando o problema inicial.
A dificuldade de comprovar preconceito racial ou de gênero na abordagem dos escândalos não anula outros deslizes. Quando os comentaristas insistem nessa questão, negando discriminações difusas, acreditam generalizar sua profissão de idoneidade para toda a cobertura jornalística. Não cola.
Editores, repórteres e colunistas sabem perfeitamente quão ridículo é o alarde em torno dos oito reais “desviados” pelo ministro Orlando Silva, ou da esteira usada pelos seguranças da Presidência. Sim, são gestos simbólicos, precedentes que podem se tornar graves. Mas, além da flagrante razoabilidade desses gastos, eles jamais representarão mínimas frações do dinheiro público desviado cotidianamente no país. Corrupção não aparece em extrato de cartão de crédito.
Qual foi a última vez que alguém questionou a destinação de oito, ou duzentos, ou quinze mil reais, na contabilidade do governo do estado de São Paulo, por exemplo? Parece inacreditável que, diante da absoluta falta de controle sobre os gastos realizados pelo Poder Público, em todas as instâncias, a mídia trate aluguéis de carro, almoços com comitivas estrangeiras e diárias de hotéis como se fossem o supra-sumo da torpeza.
Mais uma para a crônica da atuação jornalística nos anos Lula.

2 comentários:

Orlando Soares Varêda disse...

Sabemos todos nós, que não se trata de ingenuidade, muito menos, falta do que noticiar. O que deixa a gente com a pulga atrás da orelha, por exemplo: O filho por fora do FHC, não existe para a imprensa. O ex-presidente tem direito a cartão corporativo? É necessário apurar, não concordas?
Abraços.
Orlando

Guilherme Scalzilli disse...

Orlando, o que irrita é a disparidade de critérios na cobertura da grande imprensa. Mas o caso dos cartões de FHC ainda vai dar pano para manga.