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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Quatro anos em dois dias



No primeiro turno das eleições de 2022, os institutos de pesquisa levaram um tombo dos números apurados. Pela explicação mais amena, as últimas enquetes da campanha teriam sido realizadas antes de uma convergência abrupta e unilateral de votos para a extrema-direita, principalmente nas disputas ao Senado e à Presidência.

Esse fenômeno eleitoral retornou no primeiro turno de 2026, embora mais ou menos sugerido pelas pesquisas. E o problema sobrevive: o que justificaria a passagem massiva de eleitores, às vésperas do pleito, para o mesmo lado ideológico das disputas?

Quatro anos depois, as desculpas de antanho caducaram. O tal “voto envergonhado”, se outrora existiu, acontece também nos tóxicos ambientes bolsonaristas atuais. As abstenções imensas (20%) causam algum prejuízo às campanhas de esquerda (pequeno, segundo consta), mas não o avanço numérico bruto de seus adversários.

Enquanto normalizavam a surpresa desagradável, os democratas se apegaram a essas platitudes técnicas, meros eufemismos para “não sabemos o que ocorre com dezenas de milhões de eleitores nas últimas 48 horas de campanha”. Mas sempre soubemos.

Basta observar um shopping lotado, veículos de transporte coletivo, uma sala de espera, um intervalo de aula e até os corredores de uma seção eleitoral. Aquelas pessoas esfregando os dedos em telas de celular exibem a resposta óbvia e ululante do enigma.

Agora, tardiamente, o país descobre que a disseminação quase total do acesso a redes digitais levou a capacidade manipuladora da direita a estratosferas inéditas. Foi um erro pueril, de Lula inclusive, achar que o voto ficaria imune ao controle de oligopólios tecnológicos, aliados de Donald Trump, sobre as comunicações de todos os eleitores.

Eis aí a Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp) protagonizando um escândalo histórico de manipulação eleitoral, verdadeiro destruidor de paradigmas, e o TSE ameaçando fulminar o Exército do Lula exatamente naquelas 48 horas fatídicas. Tá bão procêis?

Como sempre, o fascismo jogará as forças disponíveis na batalha do fim de semana eleitoral. O heroico levante da militância lulista, nas redes e nas ruas, enfrentará o teste mais duro. O primeiro realmente aberto, com o inimigo antecipando seus movimentos.

Não sei se as táticas adotadas pela esquerda até aqui darão conta, sozinhas, da sabotagem das redes. Algo pode ter mudado no desenho “normal” de seus dispositivos, que o lulismo dominou nos avanços iniciais, e que, por isso, deixou de servir aos donos.

Será necessário burlar a inteligência artificial das plataformas, que seleciona e bloqueia o material “engajado” pela esquerda. E, mais importante, sair da bolha de redundâncias triunfalistas, saturando os rizomas que de fato chegam aos eleitores indecisos.

De qualquer maneira, o extremismo perdeu a vantagem do susto.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Lula quase lá



Afinando o tom da campanha na internet, no rádio e na TV, Lula pode se aproximar da vitória no primeiro turno. Um crescimento modesto em seus índices atuais, tendência lógica para as circunstâncias da disputa, cola o petista na soma dos demais candidatos.

A direita jornalística também acha essa perspectiva real, tanto que apelou para ataques desvairados ao filho do presidente. Desespero provocado pelos efeitos que a dianteira imediata de Lula teria, nas chances progressistas, em redutos estaduais conservadores.

Não foi à toa que o bolsonarismo decidiu usar São Paulo como quartel-general. Se Lula apenas transferir seus votos no estado a Fernando Haddad, este chega perto do empate com Tarcísio de Freitas. E um presidente reeleito no palanque muda qualquer cenário.

A trincheira paulista exibe a fragilidade da campanha de Flávio Bolsonaro. É excessiva sua dependência do governador, aliado reticente e oportunista, que não hesitará em rifá-lo ao menor ruído. Até porque ambos são adversários internos de um grupo náufrago.

Para além do volume de adeptos, o problema de Flávio é o poder de crescimento. A manutenção da base fiel valerá pouco se o desgaste de sua imagem bloquear a afluência de novos apoios. Afinal, mesmo os inconvictos eleitorais alimentam lá suas convicções.

Isso explica a ânsia da mídia corporativa para ocultar as malvadezas de Flávio jogando o bode do STF na sala do debate público. Todos sabem que os índices de Bolsonarinho não suportariam a humilhação de noticiários fiéis aos interesses imediatos do país.

Basta notar que Flávio estagnou nas pesquisas, mesmo favorecido pelo bombardeio diversionista da mídia. Essa paralisia antecipa, aliás, a vantagem do lulismo em eventual segundo turno (pois as abstenções superariam a transferência de votos da direita).

Mas Lula terá dificuldade para ultrapassar a pequena diferença que deve separá-lo da vitória imediata. Esse objetivo demanda seduzir eleitores já posicionados a favor de Bolsonaro ou de seus dublês nanicos. Não basta melhorar a aprovação do governo.

O desafio exige invadir as bolhas digitais da direita, algo que o TSE e as plataformas não cederiam fácil. A militância pode ajudar, mas um efeito relevante demanda volume, ciência e apoio jurídico. Os adversários fazem muito pior, e com certeza de impunidade.

Lula vem adotando estratégia cautelosa, de “jogar parado”, confiante numa investida certeira às vésperas do primeiro turno e, se necessário, na perspectiva de isolar Flávio no segundo. Postura razoável, pragmática, focada na prioridade máxima da disputa.

Ocorre que o cenário mudou. Ainda que o “mar de lama” da direita midiática e judicial termine prejudicando mais Flávio do que Lula, o acréscimo de três semanas à campanha serviria a uma instabilidade perigosa. O fedor de golpe não pode mais ser ignorado.

Estão ressuscitando os planos de Donald Trump: crise institucional, enfraquecimento do STF e da PF contra ataques internos e externos, factoides brotando das catacumbas lavajatistas. E, de novo, o jornalismo escorpião insuflando a agenda antidemocrática.

Não acho que a campanha de Lula deva gastar toda munição agora, mas há medidas simples que abririam flancos na blindagem bolsonarista. Por exemplo, grudar Flávio e Tarcisio nos escândalos do Master, de maneira a torná-los indissociáveis dessa pauta.

Outro imperativo é tirar os democratas da pregação apocalíptica para convertidos. Há muito pessimismo nos círculos progressistas, indicando que há poucos progressistas fazendo campanha de verdade. Alguém precisa afinar o tom geral dos militantes.

Lula beira 45% dos votos válidos. É o que importa agora. Especulações sobre um hipotético segundo turno servem apenas para consumá-lo. A simples possibilidade da vitória imediata obriga-nos moralmente a lutar por esse objetivo.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Dez anos de agonia



O golpe da Lava Jato ocorreu em duas etapas: o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Ambos os episódios tiveram aparência legalista, mas isso é irrelevante. A ditadura militar também começou com rituais parlamentares e o aval do STF.

Assim como na alegada vacância do cargo de João Goulart, o pretexto para depor Dilma era falso e, portanto, gerou um ato ilegal. A prerrogativa do juízo político não dispensa bases probatórias mínimas, tampouco a isenção e a lisura dos julgadores.

O grotesco festival obscurantista das votações, infestadas de corruptos notórios, ilustra a “legitimidade” do processo. E a canetada de Gilmar Mendes, que impediu Lula de atuar no governo, pautou-se pelos ilícitos de Sérgio Moro, outra figura “legítima” de então.

Na falta de argumentos razoáveis para justificar o impeachment, seus defensores lançam as cínicas desculpas da rejeição popular e do fracasso administrativo. Em suma, culpam a vítima. Ela “mereceu” ser derrubada por uma conspiração de canalhas e traidores.

A mídia empresarial não usaria essas bengalas meritórias contra a péssima e impopular gestão Michel Temer. Decerto porque sua agenda antidemocrática, urdida em acordos obscuros com o “direitão”, incluiu a ruína dos sindicatos e das proteções trabalhistas.

No calor dos acontecimentos, quando era impossível antever seu rumo, o impeachment exibiu preparo, execução e discurso de golpe. Em retrospecto, contudo, parece a etapa inicial, talvez pensada para ser única, de algo que veio a assumir dimensões maiores.

Nada supera o governo ilegítimo de Jair Bolsonaro (pois ilegítima a obstrução do candidato que podia vencê-lo) no currículo do golpismo lavajatista. Mas o impeachment facilitou a tarefa de várias maneiras, no mínimo demonstrando sua viabilidade.

Uma dessas ajudas foi aglutinar os vetores fascistas que já se insinuavam em junho de 2013. A origem do bolsonarismo remete às vaias contra Dilma na abertura da Copa, ao pato amarelo da Fiesp e à iconografia patriótica das manifestações pelo impeachment.

O episódio tornou a governabilidade um trauma incurável do campo progressista. Dilma passou a simbolizar, para alguns, e de maneira redutora, o perigo da firmeza excessiva de princípios. Outros a tomam como evidência dos próprios limites do tal “lulismo”.

Ambas as leituras ignoram a amplitude dos conluios institucionais que engendraram o impeachment. Não há governabilidade que impeça o arbítrio judicial, e este, com o beneplácito do STF e massiva propaganda midiática, aniquila qualquer arranjo político.

Vemos hoje que o ardil maligno espera apenas uma faísca oportuna para ressuscitar. Nesse tênue equilíbrio de forças, as eleições legislativas ganham peso estratégico, até superior à da presidencial. Enfraquecer o “direitão” é imperativo democrático urgente.

A permanência do espírito golpista deve muito à normalização do impeachment e da Lava Jato. Aí se revela a natureza do jornalismo peçonhento, que setores da esquerda insistem em prestigiar. Não tem sido por falta de aviso, desde antes de 2016.

terça-feira, 31 de março de 2026

Indo além do pessimismo com as pesquisas



Percebo duas estratégias interessantes na coordenação da campanha de Lula. De um lado, a “escolha” de Flávio Bolsonaro como adversário. De outro, seu isolamento no quadro ideológico da disputa, antecipando a polarização para o primeiro turno.

A entrada de Fernando Haddad e as articulações de Marina Silva e Simone Tebet no front paulista visam segurar Tarcísio de Freitas na campanha a governador. O grupo que o financia não se arrisca a perder a máquina estadual por uma aventura incerta.

Claro que Lula precisa de parte do grande eleitorado de São Paulo. Mas poderia atingir o objetivo, com resultados até melhores, se ali o PT enfrentasse um nome situacionista fraco. E os atritos do PSD com o PL tendem a dividir a base de Tarcísio no interior.

Só que Lula acerta ao preferir o antagonismo de Flávio Bolsonaro, ruim de sobrenome, palanque e debate, cheio de capivaras sombrias, inexperiente e agressivo. E, talvez pior, ao contrário de Tarcísio, com dificuldade para reunir apoios fora de seu nicho político.

O “teto” inicial de Flávio é o do bolsonarismo fiel, em torno de 35% do eleitorado. Sim, ele deve subir um pouco nas pesquisas, para desespero dos afoitos. Apesar de robusto, porém, esse limite pode manter o bloco oposicionista abaixo da votação de Lula.

As artimanhas metodológicas e o viés especulativo das enquetes dificultam a percepção da chance do presidente vencer no primeiro turno. Pois é notável que, mesmo antes da campanha e em cenários artificiais, a direita mal soma 50% dos votos válidos.

A única serventia dos levantamentos de segundo turno é confirmar a alta na rejeição ao governo, o maior obstáculo para uma vitória imediata de Lula. Sinal da eficácia da comunicação subterrânea da rede bolsonarista, favorecida pelos oligopólios digitais.

Como venho repetindo, esse fator irracional serve para ofuscar méritos administrativos na escolha do voto. É desafio graúdo, mas único e decisivo. Acertando a fórmula para neutralizá-lo, principalmente no Judiciário, a campanha de Lula encerra logo a fatura.

Tendência por tendência, há bons motivos para esperarmos que a já enorme rejeição a Flávio cresça com a propaganda eleitoral. Sem a munição positiva de Lula, falta pouco para Bolsonaro se tornar uma opção matematicamente inviável e desprestigiada.

Nesta altura do campeonato, dizer que o plano dará certo seria tão leviano quanto dizer que vai malograr. O mesmo vale para o lavajatismo da mídia conservadora, que avança na corda bamba e exibe um desespero contrastante com suas análises triunfalistas.

Também vale, diga-se, para o factoide que o bolsonarismo prepara, com os arapongas de Donald Trump, em socorro de Flávio. A vantagem de pautar a agenda eleitoral, que Lula habilmente cultiva, agrega o bônus (e o ônus) de antecipar sustos previsíveis.

A direita insufla receios no campo progressista para inverter a tática de Lula: a crise na campanha federal alivia a pressão sobre Tarcísio. Oxalá os conselheiros do presidente descubram a tempo o que uma dose de audácia conseguiria nas disputas em São Paulo.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

A derrota do “centrinho”



A partidarização superficial dos resultados municipais distorce a análise das tendências ideológicas manifestas pelos eleitores. As forças envolvidas sobressaem nos discursos das campanhas, não nos lugares que as legendas ocupam num espectro político ideal.

É impossível dizer que determinado campo ganhou ou perdeu onde não estava de fato concorrendo. Pouco importa a identidade programática original do candidato, se ele a nega ou disfarça para seduzir os imensos contingentes apartidários da sociedade.

Pois quantas candidaturas da órbita petista realmente exibiram opiniões e plataformas de esquerda? O que havia de “centro” nas propostas de PSD, União, PP e MDB? São essas questões que caracterizam, a partir dos resultados, os vieses políticos dos eleitores.

Não é fácil respondê-las sem cairmos nos labirintos de especificidades locais ou no atoleiro conceitual (“defina esquerda”). Mas quem acompanha o noticiário político e observou algumas disputas relevantes consegue ensaiar generalizações razoáveis.

De um lado, notamos uma predominância de posturas típicas de centro nos quadros da esquerda partidária. Sintoma forte, aguçado pelas cautelas usuais de campanha, foi sua posição evasiva e condescendente nos ubíquos debates sobre os tais “costumes”.

Do outro lado, e seguindo as mesmas referências, o uso agressivo dessas pautas mostra como o apelido centrista distorce a verdadeira natureza do “direitão” fisiológico. Só normalizando o fascismo alguém consegue associar esse grupo à ideia de meio-termo.

Em suma, a maioria dos eleitores rejeitou o centro e aderiu a várias modalidades de direita. Salvo raras exceções, sequer teve a alternativa de descartar uma esquerda que se afirmasse como tal. Diante dos novos conciliadores, preferiu antigos radicais.

Talvez a aversão à esquerda antecedesse sua metamorfose centrista. Mas essa mudança também pode ter agravado o prejuízo, o que dá quase na mesma. O fato é que o retoque na imagem dos candidatos foi incapaz de alterar as predisposições antagônicas.

A estratégia de afagar o conservadorismo dominante seria genial se levasse a vitórias dignas do sacrifício. Por respeito a esse espírito pragmático, porém, chegou a hora de abandoná-la. Deu ruim. Teimar no “projeto centrinho” é autossabotagem negacionista.

O fetiche apaziguador minou a competitividade eleitoral da esquerda partidária. Reativa e camaleônica, ela assimilou as idiossincrasias do eleitorado, em vez de se esforçar para mudá-las. Confundiu “diálogo” com a legitimação de discursos que a inviabilizam.

Os “costumes”, por exemplo, fornecem ao bolsonarismo e à direita ortodoxa o mote comum da demonização das simbologias tradicionais de esquerda. Apoiam o imaginário obscurantista e, não por acaso, alimentam a pregação religiosa ultraconservadora.

Esse repertório mostra não apenas que a polarização segue a pleno vapor, mas também que ela se expandiu socialmente. A novidade é que um dos polos deixou de combater o outro. Adivinhe qual dos dois elegeu a maior quantidade de prefeitos no país.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Jornalismo de memes



Publicado no Observatório da Imprensa

Uma série de montagens visuais com o rosto do ministro Fernando Haddad surgiu nas redes bolsonaristas. As peças fazem trocadilhos pejorativos com referências midiáticas, no mesmo acabamento rudimentar que (não) disfarça o profissionalismo da autoria.

São os tais “memes” (iconotextos, na língua semiótica), de existência quase tão antiga quanto a da própria internet. Há milhões dessas figuras em circulação diária, das mais variadas estirpes, envolvendo celebridades, anônimos, bichos, personagens etc.

De repente, simultâneos, Folha, Estadão, Globo e outros veículos informativos trataram de divulgar o material contra Haddad. Algo que ficaria restrito a nichos radicais ganhou a atenção de um público mais amplo, endossada pelo discurso jornalístico.

Em outras palavras, a mídia que se afirma democrática e legalista ajudou a disseminar material enganoso, ofensivo a uma autoridade pública, não muito diferente dos produtos da indústria de crimes cibernéticos do fascismo. Mas qual seria a notícia no episódio?

Os editores têm duas respostas possíveis. De um lado, entenderam que houve um crime. Então precisariam seguir os protocolos éticos da denúncia jornalística: nomear o delito, esclarecer os fatos deturpados, cobrar as autoridades responsáveis. Apurar.

Isso não aconteceu. As difamações receberam tratamento de ironia crítica legítima. Haddad e o governo ocuparam espaços de contraponto, como se tivessem justificativas a dar. Como se os próprios veículos não soubessem discernir as falácias insinuadas.

De outro lado, a notícia poderia ser o alcance das mensagens. Mas a cobertura aumentou essa visibilidade no ato de repercuti-la. Em suma, criou o fenômeno que motivaria o destaque inicial. Potencializou o dano malicioso para explorar seu interesse.

Critério de noticiabilidade, sempre discutível, é terreno propício para o cinismo. Entre os registros literais das bravatas fascistas de Jair Bolsonaro e os artigos que julgam os discursos de Lula, o rigor seletivo das redações exala seus pendores ideológicos.

Tão sisudos para a falta de provas em acusações incômodas, os fiscais da verdade não acham correto problematizar os memes contra Haddad. Agências que denunciam “fake news” da esquerda fazem vistas grossas diante de material similar que a atinge.

Há anos, centenas de imagens ridicularizam Sérgio Moro, a família Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, ministros do STF e Arthur Lira, com popularidade e relevância contextual, mas são ignoradas pela imprensa. A reputação de Haddad não inspira o mesmo cuidado.

O problema já seria grave se ficasse na ingênua adesão ao vale-tudo digital, que certo jornalismo acha eficaz para reverter sua crise de legitimidade. Nivelando-se pela estupidez hegemônica, esse campo vira apenas outra ferramenta propagadora de memes.

Ocorre que a serventia é mais profunda e embaraçosa. O ataque à política econômica de Lula tem viés eleitoral. E o método da campanha, misturando escracho e manipulação, revela um pedigree bastante claro. Só precisamos entender de quem estamos rindo.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

A questão evangélica



“A esquerda precisa dialogar com os evangélicos”. Essa frase, muito repetida, permite várias leituras. No sentido literal, gregário e educativo, é irrefutável. Mas não vai além da constatação meio acaciana de uma necessidade inerente à rotina política.

Em termos pragmáticos, ligados à formulação de agendas comuns, a ideia é eficaz apenas se envolver representantes de igrejas, governos e partidos. Seria impossível chegar a consensos amplos com as numerosas, variadas e dispersas bases de fiéis.

Mas a proposta dialógica leva a raciocínio unilateral: não cobra dos líderes evangélicos que tomem a iniciativa ou se exponham a princípios diferentes dos seus. No fundo, a ideia exige concessões do campo progressista. Que não pode e não deve fazê-las.

Primeiro, porque o resultado seria um programa conservador. Apesar de heterogêneo, o pluriverso evangélico tem viés ideológico predominante, com vastos setores inflexíveis. E o meio-termo entre a esquerda possível e a extrema direita fica longe do centro.

Segundo, porque as cúpulas evangélicas são alinhadas a interesses políticos que se definem pelo antagonismo com o campo progressista. Uma incompatibilidade, quase sempre ostensiva, que serve como ferramenta de persuasão dogmática e partidária.

Lula tentou seduzir os fiéis com discursos conservadores e anuência a certos regressos legislativos. As bancadas radicais, inclusive as religiosas, usaram suas pautas pré-históricas para exorbitar o custo civilizatório da aproximação. Ou seja, para sabotá-la.

Esse desejo de polarização amiúde resulta num confronto aberto com os setores laicos. Então a performance indecorosa serve como atentado simbólico ao imaginário secular e, nos casos mais agressivos, como propaganda insurrecional de bandeiras teocráticas.

Minando a pacificação da sociedade, aliando-se a projetos totalitários de poder e divulgando estereótipos negativos contra valores da cidadania, as lideranças evangélicas criaram um problema institucional. O varejo da militância política não irá solucioná-lo.

Organismos sociais e partidos progressistas têm direito e obrigação ética de constranger o STF a redefinir os limites da atividade político-religiosa. Começando pelos ilícitos mais antigos e salientes, romperiam a blindagem legal e discursiva do abuso dogmático.

Propaganda eleitoral em espaços de culto, proselitismo religioso em repartição pública e candidatura com título clerical são exemplos de violações ao princípio constitucional da laicidade do Estado. Ultrapassam as liberdades de expressão e de exercício da fé.

Só há separação de duas instâncias quando ambas renunciam ao contato. Um Estado que permite influência religiosa em seus procedimentos não é laico. Igrejas que desfrutam de direitos absolutos servem de abrigo para a apologia impune do fascismo.

Nada disso envolve as intenções e os valores das bases evangélicas. O receio de afrontá-las é pueril. Não esqueçamos que a resistência progressista à imposição das pautas de “costumes” foi simultânea à melhora na popularidade do governo federal.

terça-feira, 16 de abril de 2024

As ruas perderam a esquerda?




Depois de alguma polêmica, a esquerda abandonou a ideia de realizar manifestações exigindo a prisão de Jair Bolsonaro. Os motivos apontados foram a natureza jurídica da pauta, o risco de violência e a suposta inevitabilidade da condenação.

Só que esses raciocínios jamais impediram qualquer ato público, tampouco o seu êxito. Na verdade, as críticas vinham da correta impressão de que os eventos fracassariam (no jargão digital, “flopariam”), agravando os paralelos inevitáveis com o ato bolsonarista.

A abertura de escopo temático e a descentralização atenuaram o embaraço comparativo, mas não o problema original que o anunciava: a pequena quantidade de participantes. Nenhuma das iniciativas atingiu volume digno do teor das pautas abordadas.

Há algo errado nessa fatura. O número de pessoas que apoiam bandeiras progressistas (inclusive a prisão de Bolsonaro) é suficiente para encher, ao mesmo tempo, avenidas e praças em todos os grandes centros urbanos. Basta calcular pelas pesquisas.

Desse contingente, a fração que comparece a atos públicos é irrisória. E não menos absurda que a inexistência de passeatas contra os ataques golpistas do ano passado. Em que país de tradição participativa o “8 de janeiro” ficaria sem protestos à altura?

Não acho que a esquerda “perdeu as ruas”. O respaldo popular a seu programa é sólido e extenso, até majoritário em alguns tópicos, ainda que partidariamente inconvicto. Só que a adesão às propostas não se materializa no impulso de reivindicá-las.

As explicações costumeiras (julho de 2013, alienação, crise de representatividade) são mais fatalistas do que produtivas. E não é verdade que apenas a direita possui recursos para divulgação, transporte e logística, supondo que façam tanta diferença no caso.

Essas desculpas acomodam partidos e movimentos na fórmula das convocações afoitas, da publicidade restrita, do zelo para apenas marcar posição, respeitando os pruridos de Lula. Como se realmente não pudessem utilizar estratégias mais eficazes.

Ao mesmo tempo, vastas parcelas da população deixam de cultivar o espírito gregário e combativo que ajudaria os democratas a barrar o avanço do obscurantismo. A apatia das ruas exibe o desperdício de um potencial mobilizador imprescindível na atualidade.

domingo, 24 de setembro de 2023

É tarde para reclamar de Zanin



O voto do ministro Cristiano Zanin contrário à descriminalização da posse de maconha exibiu o prejuízo de sua indicação ao STF. Lula errou. Mas parte dessa culpa também precisa ser dividida com a militância progressista, incluindo os críticos da escolha.

A manifestação de Zanin incomodou sobretudo pela baixa qualidade técnica. Repetindo lugares-comuns do arcaísmo proibicionista, ignorou décadas de estudos sobre o tema. Afastou-se das tendências de setores esclarecidos da própria direita.

Não há justificativa legal ou científica em penalizar a “posse para uso” de qualquer substância, principalmente da maconha. A inconstitucionalidade da legislação atual só não é mais evidente do que seus malefícios sociais, educativos e humanitários.

Trata-se de matéria objetiva, abordada em vasto repertório acadêmico. O proibicionismo aciona “costumes” e palpites contra argumentos racionais, estatísticos, verificáveis. Admite o óbvio, por decoro, mas recusa os desdobramentos lógicos de sua admissão.

Essa atitude não é conservadora. É negacionista. Não faz sentido naturalizá-la depois de combatermos suas versões pandêmicas e eleitorais. A questão vai além dos projetos de Lula, dos demais votos de Zanin e até da importância da droga para os debates do país.

Ocorre que, salvo exceções isoladas, o PT esnobou a legalização por muito tempo. Adotou-a, no embalo do STF, para amenizar o constrangimento com Zanin e dividir os louros da provável vitória da tese. O silêncio de Lula a respeito é, digamos, eloquente.

Outros setores progressistas também despertaram atrasados. Alguns dos mais furiosos críticos de Zanin apoiaram Marina Silva quando ela prometeu um absurdo plebiscito sobre a maconha e Ciro Gomes quando ele defendeu a penalização do usuário.

As militâncias de Lula, Marina e Ciro sempre conviveram pacificamente com discursos “cuidadosos” similares ao de Zanin. Os bate-bocas digitais estão cheios de antigos lustradores de idiossincrasias fazendo-se perplexos com as esquisitices alheias.

Mais alinhado a lideranças supostamente modernas do que à maioria do vetusto STF, Zanin personifica uma séria defasagem programática da esquerda institucional. Só que também exibe o fracasso (ou o desinteresse) de suas bases sociais em atualizá-la.

A inevitável judicialização de certos temas não substitui a luta política. Se o governismo participasse do consenso civilizatório do STF, teria uma resposta orgânica e imediata contra os ataques de senadores e prefeitos à descriminalização iniciada no tribunal.

Essas ameaças retrógradas seriam úteis para provocar o esboço de uma agenda mínima comum, representativa e suprapartidária, que definisse o básico do básico da ética progressista. A dificuldade de realizar algo tão simples é motivo de profunda reflexão.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Dez anos em junho



Cada pessoa que vivenciou os protestos de junho de 2013 define-os à sua maneira. São milhões de análises baseadas em experiências individuais distintas. Todas válidas como testemunho, mas não necessariamente como juízos históricos sobre o período.

As opiniões mais positivas tendem a vir dos partícipes mais engajados, muito jovens na época, talvez em sua primeira grande aventura politizada. Hoje o saudosismo inevitável modula a autoimagem heroica e pioneira que eles projetam nos eventos.

As lembranças pouco elogiosas vêm da militância antiga, calejada com as expectativas e frustrações de episódios similares, como as Diretas Já. Exageros conspiratórios à parte, os céticos de 2013 gozam a vantagem de não terem anunciado um futuro promissor.

Estive entre os que alertaram desde cedo para a falta de agendas claras em movimentos daquele porte. Víamos na iconoclastia antipolítica difusa um catalisador de anseios que poderiam confluir no repúdio indiscriminado ao sistema democrático. Dito e feito.

É fácil provar que a expansão das passeatas logo exibiu os símbolos e discursos que a direita usaria contra Dilma e a favor de Bolsonaro. Mas fazia parte do jogo. A natureza performativa de “ir à rua” servia justamente para liberar todas as demandas represadas.

Pois também o fascismo nasce do desejo de representatividade, do ódio à classe política e de um impulso gregário emancipador. Esses fatores não igualam nem distinguem os pendores ideológicos dos manifestantes. Na verdade, não explicam muita coisa.

Reconhecendo a complexidade do ânimo insurrecional de 2013, evitamos idealizá-lo. É arriscado celebrar rebeldias espontâneas no âmbito das redes digitais. E a identificação majoritária dos atos como “de esquerda” simplifica os inúmeros contextos envolvidos.

Esses esforços de legitimação, porque a rigor desnecessários, transbordam os paradoxos que tentam ocultar. Se o antipetismo não fosse influente nas reivindicações, ninguém usaria o álibi autonomista para criticar, em retrospecto, a falta de tutela do PT.

É bobagem responsabilizar os protestos pelos golpes seguintes. Ainda que não tenha gerado a cruzada lavajatista, porém, a revolta forneceu-lhe pretextos oportunos, tanto no perigo revolucionário a ser contido quanto na popularidade da bandeira anticorrupção.

Ambas as desculpas, convenhamos, traduziam o imaginário de 2013. Acentuando seu voluntarismo cívico e ampliando o escopo dos inimigos, os fascistas completaram o ciclo vicioso de apropriações: sim, morta a democracia, outro mundo era possível.

Então os rebeldes progressistas de outrora despertaram para o viés nefasto da obsessão moral, do vandalismo, da loucura patriótica. E, no avesso do sonho, correram em busca de seus antigos vilões para ressuscitar aqueles tempos saudosos de normalidade política.

A utopia dos “levantes de junho” envelheceu mal.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Uma estratégia para a reta final



Metáfora futebolística, exagerando na prudência: o time de Lula está ganhando o jogo por um a zero, faltando poucos minutos para acabar. Suponhamos, por um arroubo de catastrofismo, que o empate dá o título ao adversário e que o juiz não é confiável.

Se recuar, Lula toma sufoco e pode sofrer um revés fatal. Precisa manter a pressão no campo do bolsonarismo. Pouco importa não fazer gol, desde que impeça ou atrapalhe as jogadas alheias. De preferência mantendo a bola, isto é, a pauta dos debates eleitorais.

Defendendo, obviamente, os bolsonaristas não atacam. O esforço que seria usado com a disseminação de mentiras é canalizado para aliviar o desgaste de Bolsonaro. Afinal, ele não pode desperdiçar um mísero voto.

O lulismo não vencerá se jogar bonito, der “chutão” ou esperar o adversário. Quer dizer, respectivamente, com firulas conceituais nas bolhas progressistas, arroubos públicos desesperados e confiança nas instituições. Esse foi o esquema que perdeu em 2018.

Abafar as investidas do bolsonarismo exige tirá-lo do conforto, recuar seus atacantes. Isso equivale a surpreendê-lo, atuando nos espaços em que ele se julga mais seguro: páginas, grupos e perfis digitais de propaganda fascista e dos aliados de Bolsonaro.

O grau de fidelidade na polarização é quase total, mas ainda existem bolsonaristas inconvictos. Desde que os formadores de opinião se envolvam no esforço de preservá-los, o placar não muda. O tempo passa e Lula continua em vantagem.

Não vale a pena abusar de texto. A agressividade reforça a coesão bolsonarista e jargões democráticos não afetam sua demência. Fotos e vídeos são suficientes, no máximo com um chamado tipo “vejam isso”, “estou preocupada”, “não sei mais o que pensar”, etc.

Os ambientes possuem leques temáticos próprios. Os círculos religiosos são sensíveis a imagens de violência contra católicos, pedofilia, canibalismo. Nos “jornalísticos” cabem desemprego, arrocho, corrupção. Nos partidários, ameaças de golpe e sabotagem.

Também é importante divulgar conteúdo informativo legítimo, sem alterações. Tanto para afastar suspeitas de crime eleitoral quanto para ampliar o estrago e forçar respostas mais elaboradas. E ninguém precisa de “fake news” para desmascarar Bolsonaro.

Se cada militante der algumas dessas estocadas por dia em certos nichos bolsonaristas, as intervenções atingem números capazes de emperrar os avanços digitais de Bolsonaro. O volume importa, pois dá trabalho fiscalizar, bloquear e responder comentários.

Não faz sentido estratégico repetir os discursos propositivos que a campanha oficial de Lula já divulga, com alcance inigualável. A militância possui maneiras mais eficazes de aplicar sua ansiedade pré-eleitoral, sem correr riscos desnecessários.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Vera Magalhães e a lógica do escorpião



Questionada no Twitter a respeito da ausência de Lula no programa Roda Viva (TV Cultura), a âncora Vera Magalhães respondeu, em dois de abril de 2020:

Olha só: ele foi convidado no ano passado, antes da minha gestão. Quis aprovar a bancada. Diante do não, se recolheu. Não vai usar o programa para retomar uma polarização nefasta ao país e que é tudo que o bolsonarismo quer.

Lula não é player da crise de covid-19. É um condenado em prisão domiciliar. Por isso e por ter mais de 60 tem de ficar em isolamento. Emular esse espantalho político é tudo que Bolsonaro quer para cortina de fumaça dos seus erros.

Se afoitos e ingênuos querem ser o sapo da travessia do escorpião, o Roda Viva não será essa jangada. Vamos seguir fazendo jornalismo de serviço e relevância, ouvindo quem tem o que dizer nesse momento grave do país.

Tiremos logo o bode pandêmico da sala. Poucos dos entrevistados pelo Roda Viva naquele ano tinham ligação profissional com áreas relacionadas à Covid. Menos da metade ocupava cargo público de qualquer natureza. A lista incluiu Ciro Gomes, Simone Tebet e João Santana (!), prestando serviço mais ao sonho da “terceira via” eleitoral do que ao contribuinte.

A estreia de Magalhães no programa ocorrera três meses antes das mensagens acima, tendo Sérgio Moro como convidado. Os anfitriões formaram uma bancada amistosa para recebê-lo. Esnobaram Glenn Greenwald, cujas reportagens haviam originado o então recente escândalo da “Vaza Jato”, que já anunciava uma reviravolta no cenário político nacional.

Alguém com a índole autocrática e vaidosa de Moro não participaria do Roda Viva, naquele contexto, sem vetar nomes. A direção jornalística da emissora (já a cargo de Leão Serva) antecipou-se e tornou o veto desnecessário. Livrou de constrangimentos o artífice do golpe judicial que permitira a ascensão do fascismo ao poder. Um ministro do governo Bolsonaro.

O episódio ajuda a entender o viés ideológico dos textos de Magalhães. A falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro e a adjetivação negativa do ex-presidente com base na sentença de Moro fazem parte do discurso típico do lavajatismo. A sugestão de manter o petista fora do jogo político (“isolado”) repete o objetivo confesso do ex-juiz e de seus cúmplices.

Como se não bastasse, Magalhães ironizou a idade de Lula, distorceu sua situação jurídica e usou-a para torná-lo indigno do debate público. Eximiu Bolsonaro de culpa, reduzindo seus crimes a “erros” e naturalizando a ideia de que ele apenas reage ao polo contrário. Em suma, usou a retórica fascista habitual para desqualificar uma liderança do campo democrático.

Dois anos depois, o “espantalho político” de Magalhães é novamente o favorito disparado na corrida sucessória. A “polarização nefasta”, que Lula jamais deixou de encabeçar, sintetiza um anseio majoritário pelo fim da tragédia parida no sucesso midiático da Lava Jato. A vitrine do Roda Viva não se mostrou capaz de alavancar seus “players” de estimação.

Eis que a metáfora com a fábula do sapo e do escorpião ganha aspecto premonitório. No final das contas, os afoitos e ingênuos estrebuchando no rio são Magalhães e Serva, ferroados pelos bichos paridos do arbítrio que ambos legitimaram. Num requinte de humilhação, recebem a (merecida) solidariedade que negaram aos desafetos injustiçados.

Mas a narrativa edificante serve também para os progressistas que se lançam no resgate dos colegas em apuros. Quando o fascismo incendeia a floresta, os anfíbios democratas ajudam os aracnídeos de ideologia peçonhenta a alcançarem a margem segura da civilização. Basta começar o governo Lula e a natureza recolocará esse pacto ilusório nos devidos termos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Os defensores do TSE caíram na armadilha de Bolsonaro



O transporte e o armazenamento da estrutura de votação fornecem brechas oportunas ao impulso golpista. É mais fácil o bolsonarismo sabotar um processo vigiado por militares e policiais federais do que os funcionários civis fiscalizarem tamanho contingente.

Ocorre que TSE não se preparou para um cenário de ameaça efetiva. Esnobando os acadêmicos sérios que apontavam falhas no sistema digital, perdeu a interlocução crítica e qualificada que o forçaria a evoluir. Iludiu-se com os brilhos da unanimidade.

A rejeição do voto impresso deveria incentivar rigores que o substituíssem, mas os avanços foram superficiais. A amostragem de urnas selecionadas para controle, por exemplo, segue critérios estatísticos impróprios e tem escasso valor preventivo.

O fã-clube do TSE nem tomou conhecimento dos riscos. Preferiu repetir que os testes oficiais nunca apontaram problemas e que as fraudes são impossíveis porque ainda não ocorreram. Festejou o apoio dos diplomatas a um método que seus governos repudiam.

A mania de blefar em benefício da urna sinaliza que Jair Bolsonaro pautou esse debate. Ideologizando questões técnicas, conseguiu se livrar do cientificismo que seus inimigos usaram para desmascará-lo no auge da pandemia. Tornou-os negacionistas.

A obsessão com as narrativas de Bolsonaro naturalizou sua mentira central: a ideia de que a integridade do sufrágio depende apenas da “lisura” do TSE. Já que a hipótese de conluio do tribunal com o PT é absurda, a correta apuração dos votos está garantida.

Mas a confiança nas autoridades e os fenômenos materiais têm lógicas probabilísticas muito diversas. Embora o sucesso de um ataque ao sistema eleitoral seja duvidoso, a chance de correção dos seus danos é simplesmente zero. Não, boletins não servem.

Imaginemos que, ao término da votação, os códigos de uma urna revelem um comando capaz de transferir votos de Bolsonaro para Lula. Seria ridículo atribuir a manobra ao PT, mas não haveria meios tecnológicos, legais ou políticos de absolvê-lo.

Assim, os apologistas do TSE podem estar ajudando a produzir o clima da cassação da candidatura petista. Quanto maior a afinidade simbólica da oposição com o tribunal, maior o constrangimento imposto por uma fraude anônima que “ajudasse” Lula.

A esquerda subestima os efeitos de litígios na disputa presidencial. Foram os tribunais que engendraram o golpe fascista, com auxílio dessa mídia que não checa as auditorias que não auditam. No próprio TSE há ministros que seguem aplaudindo Sérgio Moro.

Mas é sobretudo o corporativismo que ameaça os planos progressistas. Nem a imprensa nem as cortes darão a Lula o benefício da dúvida, se para isso tiverem de expor uma vulnerabilidade qualquer do rito eletrônico. Muitas reputações graúdas estão em jogo.

Confundindo propaganda com certeza e republicanismo com autoengano, os democratas ajudam a manter o país vulnerável ao golpe. A transformação do TSE em protagonista da campanha dá a Bolsonaro o único oponente que ele consegue derrotar sem voto.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Vamos falar de golpe?



O campo democrático exibe uma irresponsabilidade chocante apegando-se às frágeis narrativas do TSE sobre a segurança do voto eletrônico. Pessoas que temem um golpe fascista desconsideram os meios potencialmente mais simples de viabilizá-lo.

A miopia tem origem na presunção de que a natureza “científica” da tecnologia eleitoral serve como antídoto para o obscurantismo bolsonarista. Assim, a defesa da candidatura Lula se confunde com a defesa do equipamento que registrará seu êxito inevitável.

É assombroso que ninguém sequer imagine o cenário oposto. E se a apuração der vitória a Bolsonaro, contrariando a liderança de Lula nas pesquisas? A claque do TSE aceitaria boletins de urna como prova? Ou questionaria o método que não cansou de elogiar?

Por outro lado, e se Lula vencer, mas os técnicos descobrirem um comando malicioso supostamente capaz de favorecê-lo? Os votos originais seriam recuperados, para atestar a falta de sentido da manobra? O PT conseguiria evitar a cassação da chapa?

Essas hipóteses valem tanto quanto qualquer especulação conspiratória. E as perguntas que as acompanham não são retóricas. Quem confia nos mecanismos de votação deve respondê-las sem apelar para a fácil recusa de sua verossimilhança.

Mas nem a credulidade absoluta serve como argumento. Os controles do TSE poderiam ser ludibriados mesmo que não tivessem as lacunas graves que têm. A sofisticação do crime digital amiúde supera os melhores sistemas de vigilância do planeta.

Menciono um exemplo já considerado obsoleto: há doze anos, EUA e Israel sabotaram usinas nucleares iranianas, sem recorrer à internet, usando um vírus que apagava seus rastros. E é com o governo israelense que Bolsonaro negocia programas espiões...

A esquerda se protege do fatalismo cultivando uma espécie de paranoia desejosa com o tal motim fascista. Apesar da violência que a define, é a mais reconfortante das ameaças antidemocráticas. Começa na derrota do inimigo e termina com sua desmoralização.

Seria prudente imaginar também as alternativas incômodas. Certos riscos pedem cautela preventiva ainda que tenham mínimas chances estatísticas, ou sequer admitam cálculos de probabilidade. Basta que envolvam danos gravíssimos e irreversíveis.

Uma sabotagem eficaz contra a vulnerável estrutura do TSE consolidaria a reeleição de Bolsonaro. O golpe seria escandaloso, mas não haveria clima político ou bases técnicas para impedi-lo. Afinal, os próprios democratas legitimaram a confiabilidade do sistema.

A fantasia de resistência institucional ao fascismo nutre um vício triunfalista. Enquanto faz apelos pragmáticos e moderados, a oposição subestima os adversários e se acomoda numa passiva utopia tecnológica. Não pode haver definição mais precisa de “salto alto”.

terça-feira, 15 de março de 2022

Falta explicar Alckmin



Quando nasceu a ideia de tornar Geraldo Alckmin vice de Lula, diziam que era uma jogada para tirar o ex-governador da disputa em São Paulo. Parecia engenhoso, mas logo soubemos que, antes do convite, sua candidatura já não tinha espaço no PSDB.

Então surgiu a desculpa de que Alckmin ajudaria Lula a vencer no primeiro turno. Sem respaldo estatístico, o anúncio gerou ceticismo até nos defensores do arranjo. E eles se apressaram a ponderar que não, o ganho não seria propriamente em votos.

O benefício, afirmaram a seguir, residiria na tal governabilidade. De novo, porém, não há evidências de que Alckmin possui prestígio suficiente na classe política para lidar com uma tarefa tão árdua e complexa. Sua antiga base partidária está em frangalhos.

Agora o livram do fardo, talvez para livrá-lo também de críticas individuais. Alckmin doravante significa um grupo, a resistência democrática ao possível golpe bolsonarista. É o clube dos magnânimos fiadores do processo eleitoral e mesmo da posse de Lula.

Enquanto houver prioridades legítimas na agenda petista, Alckmin será seu viabilizador potencial. Não importa como. O hábito de substituir respostas práticas por aforismos (“um passo atrás, dois à frente”) blinda a escolha contra verificações objetivas.

Não há necessidade de inventar correntes progressistas da Opus Dei para Alckmin. Seu nome virou a antítese natural dos riscos que ameaçam a campanha e o futuro governo. Ao questionarem a solução, os céticos são tratados como se duvidassem dos problemas.

A inflação de expectativas em torno de Alckmin produz mensagens temerárias. Quem ousar contrariá-lo ajudará os fascistas. A coerência programática da esquerda impede a “reconstrução do país”. Lula precisa da direita para não merecer um (novo) golpe.

Eis o paradoxo da salvação frenteamplista: a causa nobre demanda sacrifícios do PT, mas não obriga os aliados a abdicarem de exigi-los. O espírito republicano de Lula se manifesta em concessões; o da direita, no soberano aval às concessões alheias.

A falta de reciprocidade arruína o valor pragmático em ter Alckmin como vice. O gesto, unilateral, não recebeu qualquer garantia de contrapartida para além daquelas que tendem a resultar da força política de Lula e de suas alianças partidárias.

Pragmatismo de verdade seria Alckmin concorrer a deputado federal, puxando votos para ampliar as vagas da coligação governista. Depois, ocupar a Presidência da Câmara ou um ministério. Solução mais prudente e eficaz do que torná-lo sucessor de Lula.

Os ganhos certos dessa alternativa superam qualquer prognóstico desejoso inventado para o idílio salvacionista. O cargo de vice reduz o útil apoio de Alckmin a um erro tolo, cujo fracasso é consumado de antemão, pelas vantagens potenciais que desperdiça.

Haveria mais do que símbolos e esperanças a debater, portanto, se a chapa de Lula fosse avaliada segundo uma estratégia técnica e profissional. Na obstrução dessa abordagem percebemos de onde parte o verdadeiro sectarismo que atrapalha a campanha.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Alckmin de vice é autossabotagem



Nem as melhores intenções do mundo justificam a proposta de tornar Geraldo Alckmin candidato a vice na chapa de Lula. O arranjo é duplamente desnecessário. Além de não fortalecer as supostas prioridades da campanha e do país, gera problemas evitáveis que só atrapalham o favoritismo e o eventual governo do petista.

Alckmin desagrega. Desde que foi aventado, seu nome causa discussões entre militantes de esquerda nas redes digitais. Conflitos minoritários, talvez, mas precoces, inflamados e potencialmente corrosivos. Nesse ritmo, em semanas de campanha oficial os debates internos ficariam tomados por agressões, “cancelamentos” e cizânias rancorosas.

Seria difícil abafar a memória de lutas da esquerda contra o tucanato paulista, inclusive pela óbvia conveniência dessa propaganda negativa para os adversários. E não podemos desprezar o estrago eleitoral de uma avalanche de registros sobre escândalos impunes dos governos Alckmin, ataques a professores e estudantes, amizades nefastas, etc.

O esforço dos defensores da ideia para torná-la menos indigesta agrava a discordância. Afinal, se até o rótulo “conservador” parece lisonjeiro em Alckmin, situá-lo no centro político beira mesmo o escárnio. Sua simpatia pela Opus Dei, que abriga também parte do fascismo judicial, denota valores incompatíveis com qualquer agenda progressista.

Nunca haverá plena harmonia ideológica numa coligação, mas além de certo limite a diferença vira mau agouro. Ao contrário de José Alencar, Alckmin nutre ambições presidenciais. Embora isso não o torne conspirador, tampouco o sintoniza com os planos lulistas. Aliado relutante, inamovível, tratado pela mídia como sucessor natural de Lula, o vice representaria uma contínua ameaça de ruptura na cúpula do governo.

Ao mesmo tempo, os benefícios prometidos são duvidosos. As pesquisas apontam que Alckmin levaria ganho minúsculo de votos à chapa, decerto incapaz de compensar a dissidência de esquerda no primeiro turno e irrelevante para a adesão inercial dos oposicionistas no segundo. A expectativa de reforço à governabilidade não considera o ressentimento da antiga base partidária do ex-tucano pela derrota em São Paulo.

É desonesto chamar os críticos a Alckmin de sectários. A rejeição a ele vai muito além de purismos esquerdistas ou de horror a pactos moderados. Trata-se de formular estratégias aglutinadoras que não recorram a pragmatismos capengas, nem desperdicem a enorme vantagem de Lula adotando uma das piores soluções possíveis.

Por que rachar a militância faltando pouquíssimo para o triunfo imediato? O comando da campanha não vê os benefícios que essa perspectiva daria ao futuro governo e às candidaturas da aliança? Que simbologia conciliadora já não foi transmitida pelos amorosos diálogos com Alckmin, com os órfãos da terceira via e até com golpistas?

A obsessão em tratar a disputa eleitoral como sacrifício expiatório sugere que parte do lulismo internalizou a culpa alheia pela tragédia fascista. Vendo na escolha do vice um fardo necessário para “salvar a democracia”, o PT responde por erros que não cometeu em 2018 e assume responsabilidades que não lhe cabem agora. Essa autocrítica solidária desrespeita o próprio espírito do voto popular em Lula. É o famoso medo de ser feliz.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Vai ter golpe?



Há algo estranho na conturbação institucional que aflige o país. Vivemos a ameaça permanente de uma ruptura que nunca se concretiza e que não sabemos definir, para além das bravatas enigmáticas e desconexas de Jair Bolsonaro. Tudo parece à beira do colapso, mas não vislumbramos suas possibilidades, nem ações efetivas para impedi-lo.

Por um lado, o golpe já ocorreu e Bolsonaro é sua consequência. Isso o torna ilegítimo, portanto fora do alcance das normas legais, atropeladas exatamente para que ele chegasse ao poder. O fascista desconhece freios e contrapesos, gostaria de se perpetuar e não tem chance através do voto. Sabe que consegue ao menos bloquear estradas.

Por outro lado, não creio em “golpe dentro do golpe”. Mesmo que fosse unanimidade entre os militares, Bolsonaro não teria recursos humanos ou técnicos para impor um regime despótico de escala nacional. Seu idílio de tomar o poder ocupando tribunais não dura uma semana de insubordinação, baderna e paralisia administrativa. E prisões.

Sim, existe o perigo de policiais, milicianos e outros jagunços cometerem violências em nome de Bolsonaro. Mas esse tipo “comum” de banditismo pode ser evitado e punido a qualquer momento. Bastam esforços preventivos simples dos governos estaduais, para não citar sua costumeira eficácia em reprimir amotinados e manifestantes indesejáveis.

Também é verdade que Bolsonaro goza de conforto jurídico inigualável. O STF sequer determina ao Congresso que analise o impeachment. A autonomia dos Poderes nunca impediu os ministros de vetarem nomeações do Executivo e até de enviarem deputados à cadeia. A balela das prerrogativas aparece para proteger um fascista que as despreza.

Só que o golpe não depende de Bolsonaro permanecer no cargo. Ninguém é obrigado a buscar aval do Congresso para punir delinquentes, inclusive os das Forças Armadas. O bloqueio do impeachment, apesar de nefasto em muitos aspectos, recebe peso absurdo nos debates sobre a ruptura. E serve como desculpa esfarrapada à omissão institucional.

As esferas capazes de conter o golpismo, aliás obrigadas a isso, limitam-se à defesa de suas autoridades formais. Exigem respeito a decisões que não tomam, a comandos que não exercem, a inquéritos que não terminam, a regras que não cumprem. Respondem às crises com paliativos, festejam o recuo alheio e anunciam a próximo susto.

Essas ambiguidades mantêm a ameaça golpista numa temperatura controlada, abaixo da ebulição, porém mais alta do que precisaria ficar. O fantasma da ruptura se normaliza a ponto de esquecermos que as instituições têm meios e motivos para dissipá-lo de vez. A verborragia de Bolsonaro consegue pôr em dúvida a ocorrência da disputa sucessória.

Afastando as plumas cerimoniais, percebemos que a contenção do golpismo depende de alguns dos órfãos da “terceira via”. No STF, entre os defensores da Lava Jato, um ex-ministro do golpista Michel Temer. Nos estados, tucanos e outros círculos aspirantes à Presidência. Na mídia, a tropa da conciliação e das equivalências caluniosas.

Então faz sentido. A paranoia com o golpe iminente serve para atiçar a piromania do bolsonarismo. Em vez de enfrentá-lo, seus contendores o provocam, deixando abertas as vias de um ataque fascista que desestabilize o processo eleitoral. Nada grave. Apenas o tumulto necessário para atropelar a disputa com a pacificação da direita sem voto.

A estratégia do oportunismo incendiário se desnuda em alertas do tipo “não é hora de pensar em eleições”. Devemos esquecer a democracia para salvá-la, despolitizar a luta contra forças antipolíticas, abrir mão do candidato que pode vencer o fascismo no primeiro turno. O próprio Bolsonaro não formularia seus desejos com tamanha clareza.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O impeachment morreu abraçado pela “terceira via”









As pesquisas frustram a esperança de um nome da centro-direita chegar ao segundo turno presidencial tendo Lula e Bolsonaro na disputa. As várias chapas daquele campo dividiriam no máximo 30% dos eleitores. Com os índices atuais, nem a improvável união de seus pré-candidatos passaria à etapa decisiva. Sequer somando os indecisos.

Por definição, para uma via ser “terceira” é preciso haver outras duas. A lógica mostra que a alternativa intermediária só faz sentido numa conjuntura que a esvazia. Não obstante, seus ideólogos criaram uma saída retórica para o impasse. Bastaria excluir Bolsonaro, ocupar o seu flanco na polarização e chamá-lo de “meio-termo”.

Ocorre que o impeachment deixou de fornecer esse atalho fácil. O substituto do fascista pode até imitá-lo, mas nunca herdaria todo o seu eleitorado. Pelo contrário. Amplos setores do bolsonarismo desistiriam de votar, ou anulariam o voto, em gesto de repúdio à política tradicional. Não perdoariam os carrascos do ídolo motoqueiro.

Como as adesões a Lula já beiram a metade dos votos válidos, a diminuição desse total facilitaria o desfecho da campanha no primeiro turno. Cada eleitor de Bolsonaro perdido exigiria que a centro-direita conquistasse um lulista ou alguém predisposto a descartá-la. Parece uma dinâmica insustentável na proporção necessária.

Há também a percepção do impeachment como bandeira da esquerda, imagem facilitada pelos protestos, que resistiram à neutralidade patriótica dos conciliadores. De fato, corretamente ou não, o sucesso da proposta ficou associado a um triunfo simbólico de Lula. Cabe lembrar que ele atrai cerca de dois terços da maioria que rejeita Bolsonaro.

O dilema da centro-direita vai além do retorno do PT ao governo federal. Envolve ainda os candidatos de sua coligação a governos estaduais e cargos legislativos, que seriam beneficiados por uma votação expressiva de Lula ou teriam um presidente eleito como reforço no segundo turno. O conservadorismo receia uma “onda vermelha” nacional.

Nesse panorama, o bloqueio do impeachment serve aos objetivos políticos dos setores capazes de efetivá-lo. Todos, inclusive os poderosos defensores judiciais, midiáticos e financeiros da “terceira via”. Ou acreditamos que os artífices dos golpes recentes não saberiam derrubar alguém como Bolsonaro, em plena catástrofe humanitária?

A praxe fisiológica adapta-se às circunstâncias, raramente as determina. Bolsonaro permanece no cargo não porque cedeu gabinetes, e sim porque as pesquisas o apontam como única barreira contra um tsunami lulista. E será absolvido no plenário, com fanfarra, caso sua fragilidade chegue a ameaçar a ocorrência do segundo turno.

Se o golpismo institucional preserva o fascista, num ambiente de polarização de ambos com o PT, a finalidade é óbvia: Bolsonaro em campanha, inflamando o antipetismo, aglutinando o voto conservador e freando o avanço de Lula. Assim que o genocida cumprir a tarefa, planejam finalmente sacrificá-lo, como fizeram com Eduardo Cunha.

Curiosamente, Bolsonaro dá pistas de preferir uma deposição que o martirize. Força tanto a barra que seus inimigos são obrigados a reagir, mas com uma delicadeza que torna ainda mais absurdo o fim do impeachment. Mesmo incapazes de ressuscitá-lo, as ruas poderão testar os limites do espírito democrático dos órfãos da “terceira via”.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

O fator Lula

















O campo progressista continua discutindo como derrotar o bolsonarismo em 2022. Supondo tratar-se realmente de questão pragmática simples, a saída pragmática simples é Lula. Ninguém possui maiores chances de vitória, nem o próprio Jair Bolsonaro.

Esse diagnóstico ignora partidos, hegemonias, arrependimentos. Não envolve juízos a respeito das supostas prioridades nacionais, dos governos petistas, da inocência de Lula, do neoliberalismo. Parte de raciocínio probabilístico, baseado nas pesquisas disponíveis.

Os profetas da obsolescência lulista adotam plataformas que confirmem seus vaticínios desejosos. Contrariados pelos números, inventam outros problemas que justifiquem o abandono da solução inicial. Mudam a pergunta para chegarem à resposta que desejam.

A aparência estratégica desse debate esconde uma bagunça de metas secundárias. Ou a prioridade imediata é vencer a eleição ou é conciliar o país, inaugurar a terceira via, neutralizar o lulismo. Estratégias servem para facilitar projetos, não para complicá-los.

Antipetismo é desculpa de antipetista. Lula tem uma das menores rejeições entre os possíveis candidatos. O fracasso humanitário, econômico e social do governo Bolsonaro suplantará de longe o ódio ao PT como estímulo negativo dos indecisos.

Não havendo outro golpe, o simples envolvimento de Lula na campanha impedirá a repetição de 2018. Bolsonaro jamais o confrontou, no voto ou no palanque. Ganhou se escondendo, protegido por milícias digitais, montado na conspiração Lava Jato.

O sonho com a vinda do Godot alternativo ignora não apenas os dados numéricos das pesquisas, mas também as conjunturas históricas do país. Ignora, em suma, o “fator Lula”: a união do respaldo popular com a importância simbólica do ex-presidente.

Principal força organizadora do jogo sucessório, o fator Lula determina o eixo em torno do qual transcorrerá a polarização que vem mobilizando a sociedade brasileira. Garante protagonismo na aliança democrática e dá coesão à sua plataforma eleitoral.

Por um lado, é estatisticamente incontroverso que o lulismo chegará ao segundo turno em qualquer cenário de relativa normalidade. Isso ocorreu até com Lula preso, impedido de participar de uma campanha cujas intenções de voto eram menores que as atuais.

Ao mesmo tempo, quem quer que enfrente a coligação petista na última etapa atrairá o bolsonarismo e o lavajatismo. O beneficiado não conseguiria evitá-los nem se quisesse, mas as projeções sugerem que ele de fato buscará esse apoio para sonhar com a vitória.

Assim, por afinidades ou inimigos comuns, o lulismo e a causa antifascista possuem objetivos indissociáveis. E identificam-se mais a cada esforço narrativo para normalizar as origens, os discursos e os métodos do governo federal.

Embora legítima, a proposta de superar Bolsonaro e Lula juntos é inviável na prática e fantasiosa como leitura das circunstâncias. Democratas que se agarram a essa ideia não priorizam a derrota do fascismo. Vivem a utopia de seus manifestos ambíguos.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O que pretendem esses manifestos?




A ideia de resguardar a democracia brasileira contra Jair Bolsonaro possui viés negacionista. Para haver normalidade institucional sob ameaça, ela precisa ter sobrevivido aos arbítrios da Lava Jato. Ou o estado de Direito permite conspirações de agentes públicos para eleger um fascista, ou não vivemos nesse regime desde pelo menos 2016.

Faz diferença tratar a deposição de Bolsonaro como rito expiatório do golpismo arrependido ou como símbolo corretivo das manobras inconstitucionais que o puseram no cargo. Está em jogo a naturalização do fascismo. O endosso tácito a um sistema, dito “democrático”, no qual procuradores, magistrados, congressistas e militares atuam abertamente a favor do genocida.

O recalque do golpe deve muito ao fetiche sadomasoquista que a imprensa cultiva com os blefes presidenciais. Perigos hipotéticos, jamais realizados, eternizam a vitimização mútua que legitima os parceiros desse intercâmbio agressivo. Sua performance verborrágica esconde a harmonia recente dos arquitetos do fascismo com os veículos de comunicação.

Diante do que sabemos acerca da eleição de Bolsonaro, divulgar quimeras doutrinárias beira a covardia. Qualquer bolsonarista escolarizado repete chavões cívicos e apelos humanitários. É fácil repudiar a figura asquerosa do presidente. Esses mínimos denominadores comuns traçam um campo moral, não político. Buscam a conversão de fiéis em vez de medidas práticas.

A urgente deposição de Bolsonaro ultrapassa a esfera do merecido castigo pessoal. Ninguém confrontou a ditadura pedindo a domesticação do tirano ou a troca de um fardado por outro. A plataforma sufragista implicava o fim do regime, não a sua continuidade com civis biônicos. A admissão do golpe era requisito fundamental da bandeira democrática.

Se realmente quisessem promovê-la, os manifestos abordariam as ilegalidades que levaram o fascismo ao poder. Antes que a podridão da Lava Jato virasse trunfo certo para Bolsonaro, denunciariam a simbiose original de ambos e a resultante natureza ilegítima do governo. Jamais criariam uma agenda que se confundisse com a de Sérgio Moro.

Essa afinidade perpassa a ideologia conservadora do “frenteamplismo”. Seu ideal resistente limita-se a garantir que o Regime de Exceção sobreviva a Bolsonaro. A demagogia altruísta substitui o discurso justiceiro com o mesmo rancor antipolítico. A doença, eterna metáfora da corrupção, aproxima as mitologias de neutralidade dos respectivos combatentes.

O mote “é hora de esquecermos nossas diferenças” revela o espírito da patrulha conciliadora: pedagogia autoritária, amnésia edificante, abandono de princípios. Mínimo valor pragmático, nenhuma reciprocidade. A obsessão gregária dos confinados posta a serviço do antipetismo. Autoanistia preventiva, outorgada em nome do sofrimento alheio. Perdão sem justiça.

Apesar das responsabilidades de tribunais, governadores e prefeitos na tragédia sanitária, faz sentido usá-la para uma união em torno do impeachment presidencial. Mas o mínimo que se espera de quem repudia Bolsonaro por suas ameaças à constitucionalidade é mencionar os delitos antidemocráticos, bastante documentados, que nos legaram a tarefa de afastá-lo.

Caindo na armadilha adesista, a esquerda se compromete com essas pautas deliberadamente vulneráveis. Um toque de moderação nas atitudes de Bolsonaro e a democracia estará salva. Ou basta apanhá-lo numa das tramas policialescas do STF e da Lava Jato. Primeiro tiramos o capitão, redimindo seus asseclas. Depois comemoramos a liberdade de escrever manifestos.