Mostrando postagens com marcador Estados. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estados. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Sobre as eleições municipais


















A direita exagera seu triunfo nas disputas municipais. Observando os mapas históricos, notamos dois fatores: a) jamais houve “onda vermelha” nessa esfera, desautorizando a hipótese da “onda” contrária; b) o resultado atual configura um rearranjo partidário de vitoriosos no mesmo campo ideológico tradicionalmente hegemônico.

Em outras palavras, confirmou-se o antigo predomínio regional da centro-direita, com pequena variação positiva. No quadro geral, só a perda acentuada de votos do PT se destaca pontualmente. Ela pode refletir menos um fortalecimento do PSDB do que o avanço das legendas pequenas que nasceram depois de 2012 (SD, PROS, PEN, etc.).

A derrota do PT foi mais notável nos grandes centros urbanos, palcos do imenso esforço propagandístico e financeiro das passeatas pelo impeachment. Ao mesmo tempo, o volume de votos inválidos (quase um terço do eleitorado) e a ascensão de candidatos sem experiência partidária sugerem que parte do antipetismo adquiriu uma face “antipolítica” apenas circunstancialmente ligada às rivalidades usuais.

De qualquer forma, é impossível estabelecer conexões causais de resultados em escopo tão vasto e complexo. Os arranjos das coligações, a influência de governadores e o fisiologismo do governo ilegítimo (que negociou o golpe  com os interesses eleitorais dos parlamentares) suplantam qualquer diagnóstico generalizante.

Cada processo eleitoral tem lógicas próprias que não podem ser ignoradas. Cito o exemplo de São Paulo, que tem servido erroneamente de modelo para abordagens conjunturais amplas. Ali, os seguintes aspectos precisam ser considerados:

- Tempo de rádio e TV: João Doria montou extensa coligação partidária, que resultou em maior exposição midiática e ampliou seu índice de reconhecimento.

- Dinheiro: graças às novas regras eleitorais, a riqueza pessoal de Doria deu-lhe enorme vantagem diante da falta de recursos de Fernando Haddad.

- Comunicação: Doria explorou um perfil alinhado ao ceticismo político do eleitor. Haddad chegou fragilizado pela sistemática propaganda negativa da imprensa paulistana, além de ter feito um governo com promoção institucional muito ruim.

- Estratégia: enquanto Haddad lutava para se garantir no segundo turno, Doria (com auxílio dos institutos de pesquisa) priorizou o arremate da disputa no primeiro.

- Arco de candidaturas: nas periferias, Doria se beneficiou com o desgaste mútuo de nomes fortes nessas regiões; no “centro expandido”, com o antipetismo militante das classes médias.

Por fim, parece urgente um debate sério acerca da proibição de financiamento empresarial de campanhas. A individualização do caixa dois e o favorecimento de candidatos com maior patrimônio são duas consequências da canetada que trazem um preocupante viés antidemocrático ao processo eleitoral.

Talvez esse tema entre nas pautas midiáticas, assim que decantar o cinismo festivo dos analistas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cidadãos organizados
















A torcida do Corinthians inventou de protestar contra a Federação Paulista de Futebol, a Confederação Brasileira de Futebol, a rede Globo e até a máfia das merendas do governo Geraldo Alckmin. Essas manifestações têm dois aspectos curiosíssimos, que a imprensa corporativa finge não perceber.

O primeiro é a repressão violenta dos cossacos. Quem ordena tais ações policiais? Os árbitros das partidas? Um funcionário da FPF? Alguém da Globo? Essas pessoas têm autoridade sobre as forças de segurança? É atribuição de servidores públicos impedir protestos pacíficos? Entidades privadas podem suspender prerrogativas constitucionais?

A segunda estranheza vem da impertinência política dos torcedores. A lembrança da corrupção tucana em plena massa alvinegra sinaliza para um viés inesperado no descontentamento popular. Mesmo que tudo não passe de resposta a perseguidores de torcidas organizadas (interessante maneira “pejorativa” de qualificá-las) e à chefia da PM brucutu, a simples associação demonstra uma consciência crítica livre dos condicionamentos da mídia. Da própria Globo, aliás.

É fácil apontar a incoerência dos ataques contra as mesmas instituições que financiam e promovem os sucessos do Corinthians. Mas precisamos saudar em seu exemplo a demonstração de que a defesa da cidadania começa no rompimento das inúmeras amarras cotidianas, exatamente as que parecem naturais e inquestionáveis, e que os poderosos preservam com toda a força coercitiva disponível.

Se os torcedores do país percebessem isso, mudariam muito mais do que o futebol brasileiro.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Prisão sugere elo entre PSB e crime organizado

O prefeito e o suspeito confraternizam
















Uma ação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) aprisionou dez pessoas suspeitas de pertencerem ao PCC (Primeiro Comando da Capital) no interior de São Paulo. A lista inclui um assessor do prefeito de Campinas, Jonas Dozinette (PSB), que governa em coligação com o PSDB.

O título acima, propositalmente bombástico, sugere como a mídia tucana interpretaria o episódio se envolvesse uma gestão petista. Ironias à parte, contudo, o exagero é apenas aparente. Afinal, o assessor preso, filiado ao PSB, ocupava um cargo de confiança no gabinete do alcaide. E pode representar a influência da notória rede criminosa na cúpula administrativa de uma das maiores cidades do país.

Quem indicou o cidadão para um posto de tamanha importância? Como ele chegou ao PSB? Que ligações possui com os vereadores da base governista? Quais atividades exerceu na campanha de Jonas e, depois, na sua gestão municipal? É verdade que fazia lobby para o nebuloso setor do transporte alternativo?
           
Essas questões seriam prontamente averiguadas pela imprensa corporativa se ela tivesse mínima lisura jornalística. Haveria um escândalo nacional, equivalente à gravidade do caso. E os guardiões da moralidade vomitariam desabafos indignados sobre o nível de corrupção a que chegaram os aliados de Geraldo Alckmin.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Quem é vítima de quem
















Publicado no Brasil 247

Os empresários presos pela operação Lava Jato afirmam que sofreram extorsão dos diretores da Petrobrás. Negando-se a pagar propinas, não conseguiriam exercer suas atividades e favoreceriam a concorrência, pois alguém sempre estaria disposto a aproveitar a malandragem. Embora deva ser descartada como justificativa ou atenuante do crime, a alegação fornece alguns tópicos proveitosos para análise.

Costumamos abordar o tema da corrupção entrincheirados numa fantasia de legalismo absoluto, mas essa postura é cômoda e ilusória. Cômoda porque nos permite condenar atitudes alheias usando critérios que deixamos de aplicar a algumas de nossas próprias decisões. E ilusória porque parte do pressuposto de que a observância irrestrita das normas é viável em certos ambientes.

O comodismo pode ser vislumbrado na violação cotidiana das normas de trânsito. É tristemente sintomática a tolerância que elas desfrutam na sociedade, mesmo em épocas de indignação moralista. Porém, se admitirmos diferenças de grau para certas irregularidades (que as tornariam “aceitáveis”), contrariamos a premissa da honestidade inflexível que enfia todo desvio no mesmo pacote condenável.

Já a ilusão advém da ignorância sobre o funcionamento das compras públicas. Quem participa de editais sempre depara com exigências comicamente restritivas para qualificação dos interessados. É comum haver preços vencedores que inviabilizam a observância das normas previstas ou que extrapolam margens razoáveis de lucro e despesas. Isso acontece em todos os níveis de governo, e diariamente.

A vitimização e o pragmatismo embasam o gesto irregular na vida em sociedade. A safadeza dos políticos justifica a sonegação de tributos, a impunidade alheia incentiva o ato lesivo e assim por diante. As esfarrapadas desculpas das empreiteiras transferem o raciocínio para uma escala gigantesca, mas, no domínio conceitual (ético, se preferirem), guardam a mesma simbologia de um automóvel parado em fila dupla.

Não é posição muito diversa daquela que afirma a inocência dos governantes tucanos que conviveram com a máfia dos cartéis metroviários. As gestões de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin foram vítimas do conluio malvado e, portanto, estão livres de qualquer consequência punitiva. Como se elas não tivessem os meios e a obrigação de fiscalizar a legalidade dos contratos e aditivos.

Eis por que a abordagem seletiva do escândalo da Petrobrás redunda em enorme desserviço à luta contra a epidemia da corrupção. Cria-se a fantasia de que os desvios são exceções localizadas no interior de um padrão honesto, dando à opinião pública o falso consolo de que basta prender meia dúzia de larápios para que o resto do sistema continue limpo. Em vez de questionar o silêncio das autoridades fiscalizadoras  perante décadas de falcatruas na estatal, o cidadão se contenta em saber que uns bodes expiatórios foram sacrificados para redimir a sua consciência infratora.

Boa parte dos ruidosos paladinos da moralidade que se horrorizam com a Petrobrás tem comportamento social muito parecido com o dos pagadores de propina. E usa idênticas justificativas canhestras para gozar as benesses do famoso “jeitinho brasileiro”. Todos são vítimas até que se prove o contrário.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Legado ressentido

 

O antipetismo continua inconformado com o sucesso da Copa do Mundo brasileira. Sempre que aparece uma oportunidade, a imprensa corporativa dá um jeito de manchar a memória do torneio.

A primeira tentativa do ano (depois de um longo e sintomático silêncio) veio com os escândalos da FIFA. Ainda não deu muito certo porque as denúncias são generalizadas, envolvendo até os países que o provincianismo vira-lata costuma invejar.

Agora reaparecem as análises preocupadas com o tal “legado” da Copa. Elas têm dois problemas graves: a) tentam associar o evento a uma incompetência administrativa que nada tem a ver com a Copa em si; e, principalmente, b) ignoram a responsabilidade dos governos municipais e estaduais, federalizando problemas que o Planalto não poderia resolver nem se quisesse.

Acho necessário cobrar as promessas feitas para justificar os aportes financeiros locais. Mas esse rigor precisa evitar bisonhices partidárias. Qualquer viés diferente resultará apenas numa repetição póstuma das vergonhosas mentiras proferidas antes da Copa.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Porrada a jato

















A truculência policial virou sinônimo do modo tucano de governar. E há método nesse autoritarismo. Em vez de atuarem no arrefecimento dos ânimos, Geraldo Alckmin e Beto Richa incentivam a radicalização dos movimentos para reprimi-los com mais força, acuando os adversários políticos.

Mas é importante lembrar que esses arbítrios possuem respaldo institucional. Mesmo agindo sob a tolerância criminosa dos respectivos comandos civis, as tropas fardadas podem sempre argumentar que seguiam ordens judiciais. Foi assim na tragédia do Pinheirinho, em São José dos Campos. Foi assim na Assembléia Legislativa do Paraná.

A barbárie dos cossacos paranaenses nasceu na autorização de um juiz ou de uma juíza que pôde escolher entre o suplício de contribuintes e a integridade moral dos nobres deputados. A pessoa encarregada de zelar pela cidadania preferiu sufocá-la através da violência desmedida, abusiva, inconstitucional.

A mídia esconde o nome do magistrado, tirando o caráter individual e subjetivo da liminar assassina. A omissão também preserva o Judiciário paranaense do vexame causado pela vergonha repressiva. Afinal, o sacrossanto Sérgio Moro trabalha ali bem perto e pode ficar injuriado.

Não há qualquer coincidência no fato do espetáculo grotesco de Curitiba ter sido autorizado pelo mesmo órgão que promove a desfaçatez da operação Lava Jato. Eis o preço que pagamos pela glamorização acrítica da Justiça.

Os defensores dos direitos humanos devem cobrar a punição de governantes que toleram a fúria sanguinolenta da soldadesca. Mas é imprescindível fazer o mesmo com os funcionários que despertam o monstro em primeiro lugar.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sobre o blog tucano
















Então descobriram que o tal Fernando Gouveia recebe 70 mil reais por mês do governo Alckmin. Nada mau para quem atacava os “blogueiros sujos” do Planalto, não é mesmo?

Em vez de questionarem os motivos da Folha de São Paulo na divulgação do caso, os blogueiros governistas deveriam indagar por que esta não ocorreu graças a algum veículo de esquerda, ou mesmo à própria blogosfera dita “progressista”. Bastava um pouco de espírito investigativo e duas ou três consultas a dados públicos. Uma figura manjadíssima como Gouveia jamais atraiu a curiosidade da imprensa combativa?

Esse estranhamento se agrava com a passividade da militância diante do escândalo. Setenta paus é muito dinheiro para uma empresinha com apenas dois sócios. Sendo verba de subcontratação, pior ainda: podemos só imaginar o tamanho do faturamento das agências contratadas diretamente pelo governo paulista. Deve haver mais gente recebendo nacos da fortuna, talvez de maneira irregular. Mas ninguém parece muito preocupado em solucionar uma dúvida tão cruel.

Gouveia é a ponta menos incógnita de um iceberg secreto a serviço da propaganda tucana. As redes sociais estão entupidas de gente promovendo ideias esquisitas. Não há acasos ou ingênuos nesse meio. A partir dos nomes ligados a José Serra, por exemplo, dezenas de elos tenebrosos podem vir à tona.

O mesmo vale para a turma do impeachment. As manifestações recentes, desde a divulgação até a infraestrutura, contaram com mão-de-obra profissional e vasto aporte financeiro. Quem paga tudo aquilo? Aposto que na ponta da capivara existe verba pública, disfarçada em alguma “licitação” milionária.

Se dependermos da Folha de São Paulo para conhecermos a verdade, estaremos fritos.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Fora todo mundo

















Publicado no Brasil 247

É típico do uso partidário do combate à corrupção dividir a sociedade entre os adeptos da cruzada saneadora e os cúmplices da roubalheira. Essa armadilha serve justamente para ocultar a instrumentalização, pela direita, da pauta da moralidade pública.

Mas o conservadorismo da bandeira anticorrupção não reside apenas no seu uso por facções políticas. A tática de acuar o governo federal visa mais do que impedi-lo de guinar à esquerda para recuperar o apoio das bases. Visa também evitar que o Planalto reivindique e incentive ações de combate ao crime para além dos domínios petistas.

A estupidez do impeachment serve à impunidade geral. A mídia endossa a ideia de afastamento de Dilma Rousseff para ofuscar a roubalheira generalizada e para que o absurdo e a inviabilidade da iniciativa golpista contaminem o debate sobre a corrupção no país.

Não é coincidência que a bobagem ganhe força junto com a descoberta de escândalos que mancham a hipocrisia moralista da direita. Sabendo que Dilma não cairá por vias legítimas, a oposição tenta enfiar seus apaniguados sob a mesma blindagem. Transformando-a em bode expiatório da pizza resultante.

Apesar da irracionalidade e do oportunismo da caça às bruxas, a esquerda comete um erro estratégico ignorando o fenômeno. O silêncio orgulhoso dos sensatos permite que os brucutus se apropriem de uma causa forte e sedutora, naturalizando a falácia de que apoiar o governo federal equivale a aceitar ilicitudes.

Os adversários da histeria, dentro e fora do governismo, fariam melhor lidando cinicamente com os cínicos. Em vez de repudiar o clima justiceiro, deveriam alimentá-lo até o paradoxo, participando das passeatas com cartazes de “Fora Alckmin”, “Fora Richa” e “Fora Serra”, e faixas sobre as contas secretas na Suíça, os mensaleiros tucanos e a máfia dos cartéis metroviários paulistas.

Aderindo ao estímulo majoritário das manifestações, o gesto não poderia ser acusado de malicioso ou ilegal. Qualquer advogado consegue uma liminar preventiva garantindo o direito de explorar o falso apartidarismo defendido pela própria liderança dos atos.

Mesmo sem autorização judicial, desde que os impertinentes se mantivessem coesos, pacíficos e imunes a provocações, os organizadores e as polícias seriam forçados a tolerar sua presença. Afinal, eles aceitam neonazistas, não aceitam?

Basta formar um bloco de míseras duas mil pessoas com camisetas da seleção, filmando cada passo, distribuindo panfletos, seduzindo populares. Depois, espalhando material nas redes sociais, causando polêmica na mídia e suscitando debates.

Aposto que a moda moralista começa a dissipar em poucas semanas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Apagão redux

 












O racionamento de água em São Paulo só passou a existir na mídia corporativa quando as quedas no fornecimento de energia elétrica abriram uma brecha para que ambos os fenômenos partilhassem o mesmo discurso, compensando-se mutuamente. Mesmo assim, a disparidade no tratamento noticioso a eles ultrapassa as raias do puro cinismo.

“Crise hídrica”, “rodízio” e outras malandragens terminológicas ganham o contraponto federal do “apagão”, cujo sentido é bem mais contundente, embora também equivocado. Para a imprensa tucana, quedas de energia provocadas por picos de consumo refletem problemas sistêmicos, enquanto a falta d’água, num sistema ultrapassado, que chega a desperdiçar um terço da vazão, cai na conta das chuvas.

Acontece que o tucanato ainda guarda muito ressentimento do colapso de energia do final do governo FHC, grande furo na ilusão de competência administrativa do PSDB, que ajudou a eleger Lula. O estado de São Paulo vive momento similar, sob o desgoverno de Geraldo Alckmin. A desesperada invenção de paralelos com o âmbito federal (quando não a simples federalização dos problemas estaduais) mostra que os marqueteiros midiáticos entenderam a dimensão eleitoral da incompetência.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O incrível estado que parou

 













Considerando o padrão ético da tucanolândia, é improvável que alguém esteja fiscalizando as eternas obras da concessionária Rota das Bandeiras na rodovia D. Pedro I, altura de Campinas. Sorte da empresa, que não parece muito preocupada em evitar contratempos aos usuários que lhe pagam fortunas de pedágio.

Somando a argúcia dos privatas rodoviários com a folclórica (indi)gestão de tráfego do governo municipal de Jonas Donizette (PSB-PSDB), o resultado é caos, cada vez mais duradouro e irremediável. Desde as principais avenidas campineiras até dezenas de quilômetros ao longo das mais importantes estradas paulistas, fica tudo parado. Apocalipticamente parado.

Ninguém faz nada. Não há um comentário na imprensa a respeito. Os motoristas sequer buzinam. O que não chega a surpreender, já que, numa simplificação estatística, podemos supor que mais da metade das vítimas está satisfeita com Geraldo Alckmin.

Seria um escandaloso “apagão” se o PT estivesse envolvido na pândega. Ou melhor. A essa altura as concessões já teriam sofrido uma cruel devassa do Ministério Público e da Polícia Federal. Mesmo que ainda estivéssemos fadados aos incompetentes, talvez não pagássemos tão caro para sustentá-los.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hipocrisia ambiental






















O imbróglio jurídico em torno da distribuição de sacolas plásticas no comércio levanta uma dúvida simples: a única alternativa “ecologicamente correta” implica o prejuízo do consumidor? Tão preocupados com o meio-ambiente, por que os supermercados não fornecem sacolas reutilizáveis, inclusive adaptadas para o transporte do lixo?

É típico do autoritarismo cientificista transformar o assunto num problema educativo, como se houvesse apenas uma versão correta do que é “melhor para a sociedade”. O cidadão que enxerga nisso tudo uma tremenda hipocrisia de vendedores gananciosos encarna o herege ignorante do culto racional à deusa Ciência.

Claro, culpar o contribuinte pelo desastre planetário é mais fácil do que enfrentar os verdadeiros dilemas da questão. A consciência ecológica parece muito bacana até mexer com os lucros do empresariado.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O voto da Sabesp






















É uma enorme bobagem creditar a vitória de Dilma Rousseff a certas regiões do país. O chute não tem base estatística e só serve para alimentar revanchismos e preconceitos. Qualquer conjunto de três milhões de votos, mesmo sem afinidades entre eles, pode estar na origem da vantagem final da petista sobre Aécio Neves.

A maior estupidez da divisão bicolor do mapa eleitoral é sugerir que a vitória de um candidato desintegra a votação do adversário no mesmo lugar. Aécio teve oito milhões de votos no Nordeste. Dilma reuniu cerca de 34 milhões de votos fora dali. Ou seja, 63% do eleitorado da petista não vivem naquela região.

Mas a simplificação também atende a conveniências partidárias: jogando a culpa nos outros, o tucanato paulista pode esquecer os 8,5 milhões de conterrâneos que preferiram Dilma nas terras secas de Geraldo Alckmin. Ela cresceu 2,5 milhões de votos em relação ao primeiro turno, a metade da votação recebida por Marina Silva no estado.

A dianteira nacional da petista ficou bem próxima do seu avanço em São Paulo. Considerando que essa guinada ocorreu durante a descoberta do estelionato hídrico da Sabesp, fica fácil entender por que os analistas insistem no fantasma nordestino.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Os paulistas vão punir o estelionato do PSDB?

















Confirmando os anúncios gritados pelos impertinentes ao longo da campanha, está faltando água em todo o estado de São Paulo. Geraldo Alckmin reelegeu-se prometendo que isso não aconteceria. Racionamento era coisa do terrorismo petista.

E agora? A mentira irresponsável do governador já é suficiente para uma reação do eleitorado paulista?  Ou este vai continuar acreditando que a Sabesp não tem nada a ver com a falta de planejamento que levou ao colapso?

Houve um tempo em que até os nevoeiros de Curitiba entravam para a conta do “caos aéreo” do PT. Uma torre danificada por raio sinalizava um terrível “apagão”. Agora é tudo por causa do calor e da falta de chuva. Que singeleza.

Mas ainda podemos cobrar uma parte da fatura do logro. O candidato a vice de Aécio Neves é o paulista Aloysio Nunes Ferreira, ligado à cúpula tucana de São Paulo. E Aécio recebe o apoio da imprensa local, que fez vistas grossas para os descalabros administrativos de Alckmin, inclusive endossando a patranha de que a água não faltaria.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A vanguarda do atraso






















As preferências do eleitorado paulista desmoronam a ilusão civilizatória e modernosa do estado mais rico do país. As prováveis vitórias de Geraldo Alckmin (governador) e José Serra (senador) atestam uma cegueira política e uma ruína de valores incompatíveis com o orgulhoso imaginário local.

Apenas o antipetismo exaustivamente fabricado pela mídia é incapaz de explicar esse fenômeno. Alckmin enfrenta o manhoso peemedebista Paulo Skaf como adversário direto, e o concorrente de Serra, Eduardo Suplicy, tem uma trajetória muito própria, às vezes contrária aos interesses do PT.

O que mais chama a atenção, contudo, é a fragilidade potencial dos tucanos.

Alckmin submergiu num lamaçal de escândalos de corrupção, promessas malbaratadas e colapsos estruturais. Sua incompetência administrativa resultou na maior crise da história das universidades estaduais e na brutalidade da Polícia Militar, chegando ao cúmulo de causar um racionamento de água.

Serra, o mártir da bolinha de papel, figura antipática e autoritária, acumula participações em tenebrosos enredos da crônica política nacional. O suposto envolvimento na máfia das Sanguessugas e as gravíssimas denúncias do livro “A Privataria Tucana” já bastariam para alimentar uma avassaladora rejeição ao candidato.

A eleição de ambos representaria uma vergonha histórica para o povo de São Paulo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Cadê os mascarados?

 















Os protestos desapareceram. Até das cidades em que as passagens do transporte urbano voltaram a aumentar. Até durante os desfiles do Sete de Setembro. Até, pasmem, na campanha eleitoral.

Claro que não me refiro a sem-teto, camelôs, grevistas e outros movimentos setorizados, com pautas mais ou menos claras e participação restrita. Falo daquela turba descontente que saiu às ruas bradando contra o sistema político, as desigualdades, o mau uso do dinheiro público. Exigindo escolas, hospitais, reformas diversas. Cadê?

É impossível culpar a repressão policial, que foi o grande propulsor das manifestações de 2013 e continua a espalhar suas brutalidades. Mesmo a prisão de ativistas deveria suscitar uma resposta à altura. O fim da Copa do Mundo tampouco serve como pretexto. Afinal, supondo sinceros os objetivos dos seus adversários, os problemas permanecem, e livres da aprovação recebida pelo evento.

Então onde diabos foram parar os indignados? Por que decidiram poupar a grande farsa do sufrágio, que pereniza a máquina estatal e o sistema burguês? Não seria coerente com seu verniz “tático” se os black blocs aproveitassem o ritual da maldita classe política para desmascará-la? E o voto nulo, a abstenção, a desobediência civil que parecia a única forma efetiva de luta?

Que sonífero tomou o “gigante das ruas”, bem no momento em que ele teria mais visibilidade, contundência e poder de transformação?

Pensando bem, estão certos aqueles que responsabilizam as eleições. Elas tornaram os mascarados pragmáticos. A arruaça não faria bem à imagem da candidata “inovadora” que passou a representar seus anseios revolucionários. Tampouco ao discurso probo do antipetismo, que milagrosamente substituiu as plataformas genéricas de outrora.

Parece coisa de marqueteiro esperto. Mas, como sabemos, os manifestantes são espontâneos e apartidários.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Os dilemas de Marina
















O desespero midiático para fazer de Marina Silva a sucessora da “terceira via” eleitoral subestima as dificuldades da tarefa. Assumir o vácuo deixado pela morte de Eduardo Campos não será fenômeno tão natural como pretendem os oposicionistas. Menos ainda a transformação do luto em combustível para uma arrancada rumo ao segundo turno.

Campos aglutinava as facções tucanas e governistas do PSB, ambas com líderes resistentes à ex-senadora. Sem elos históricos ou orgânicos na militância regional, Marina amargará a falta de comprometimento dos candidatos pessebistas em colégios eleitorais importantes, como o Rio de Janeiro e São Paulo.

Para ultrapassar Aécio Neves, Marina precisa triplicar as preferências declaradas na sua chapa atual. Mas não pode roubar eleitores do tucano, pois a transferência ajudaria a vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno. Isso equivale a conquistar os indecisos e a pequena parcela dos votos inconvictos declarados à petista, em só quarenta dias de propaganda eletrônica, com menos de um quinto do tempo utilizado pela presidenta.

A coroação como salvadora do oposicionismo é incômoda para Marina. Quanto mais sua candidatura se mostra viável, maior a migração do voto antipetista concentrado em Aécio (o eleitorado de ambos tem perfil muito parecido, aliás). O movimento, além de preservar o quadro atual, favorável a Dilma, ideologiza excessivamente a imagem pública de Marina, indispondo-a com a juventude cética e desejosa de novidades. Se confrontar o tucano, ela mergulhará numa desgastante briga paralela com o PSDB.

Resumindo, mesmo que Marina viabilize o segundo turno, sua continuidade na disputa ainda parece incerta, senão improvável. Caso não supere Aécio, ela prejudicará as chances da oposição e será responsabilizada por isso.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Skaf quer moleza















A resistência de Paulo Skaf a assumir a aliança nacional do PMDB com a candidatura Dilma Rousseff é exemplo dessas práticas eleitorais maliciosas que ajudam a minar a credibilidade da esfera política.

Um filiado que ignora as decisões legítimas de sua agremiação viola não apenas os princípios da coerência programática, mas também a própria lógica do sistema partidário. Coligações, convenções e plataformas simplesmente deixam de fazer sentido quando os quadros de uma sigla utilizam-na segundo conveniências pessoais.

Skaf quer evitar o desgaste do antipetismo paulista, longa e cuidadosamente articulado pela imprensa local. Quer posar de “independente”, quiçá “apolítico”, nos sentidos ilusoriamente positivos, que essas palavras ganharam junto à indignação desinformada.

O representante da indústria quer, em suma, se locupletar apenas dos benefícios que as estruturas eleitorais lhe proporcionam. Na hora de encarar as complexidades e os percalços do fazer político, o sabujo posa de pragmático. Filiar-se a uma legenda nanica sem mídia ou estrutura? Nem pensar.

É possível e necessário confrontar, inclusive judicialmente, a cômoda infidelidade de Skaf perante o PMDB e seus acordos. Pelo menos para mostrar que o comando da campanha petista conhece os riscos abertos pelo precedente.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Chorumelas eleitorais

 

É tão pequenininho e tolo esse factoide sobre o “gabarito” de perguntas na CPI da Petrobras que desconfio até mesmo das intenções oposicionistas de verdadeiramente desgastar o governo federal. Afinal, às vezes a banalização fica lucrativa também para aqueles que fingem combatê-la.

Não deixa de haver algo estranho na preguiça do PSDB e da imprensa tucana diante da espetacularização dos problemas na estatal. Insistem nas miudezas mais idiotas, levantam denúncias frágeis, apontam supostas irregularidades que uma conversa com técnicos da área derruba em minutos. Tudo isso em ano eleitoral.

Ou a turma não acredita na própria indignação ou tem medo de atiçar os ânimos investigativos em torno da uma CPI, por exemplo, da máfia do metrô paulista. Em ambos os casos os veículos jornalísticos participam do logro.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A ditadura que eles querem






















As turbulências em torno das detenções de manifestantes levaram certos analistas políticos a tratá-los como heróis libertários, supostas vítimas dos arbítrios do malvado governo petista. Trata-se de uma perigosa inversão de valores.

A legalidade das prisões deve ser cobrada do Judiciário, fonte cotidiana de equívocos e abusos que amiúde trazem a marca da politização, do revanchismo e do pendor ao espetáculo midiático. Alguns petistas acabam de ter suas vidas destruídas por altos membros desse Poder.

Mas os desvios judiciais não desqualificam a necessária punição aos black blocs, nem representam ataques às liberdades democráticas. A criminalização dos protestos violentos começa na Constituição Federal. Ali consta o veto à máscara, à destruição do patrimônio e ao bloqueio surpreendente de vias públicas. A base jurídica dos inquéritos é sólida, portanto, e dispensa abstrações ideológicas.

A espinhosa e longeva discussão sobre a legitimidade de certos atos criminosos remete ao conceito de “desobediência civil”, importante na resistência a Estados totalitários e a normas inaceitáveis cuja mudança parece impossível em determinados ambientes. Seria esse o caso dos black blocs? Há que ache que sim.
           
Discordo humildemente. O problema incontornável da questão reside no objetivo a ser alcançado pelo dano material ou simbólico impingido a terceiros. O vandalismo não atende às necessidades básicas de sobrevivência. Não há rocambole conceitual que transforme a destruição de patrimônio em direito individual a ser preservado.

Se aceitarmos que a violência estatal justifica reações descontextualizadas (sem causa direta e imediata), precisaremos tolerar que o vandalismo hipotético ou já havido sirva de pretexto para episódios gratuitos de brutalidade fardada. O esforço para preservar o Estado de direito deve ser o mesmo quando ele é afrontado por instituições, empresas, grupos organizados ou indivíduos.

Essa não é uma luta entre mocinhos e bandidos. Assim como a incompetência das forças policiais possui conveniência político-eleitoral, também o descalabro judicial precisa ser visto com enormes reservas. O mito propagandístico da “ditadura petista” une os interesses dos black blocs e os das forças conservadoras que outrora os glorificavam e hoje contribuem para sua vitimização. Quanto mais arbitrário o tratamento conferido aos manifestantes violentos, mais estimulados e fortalecidos eles ficam.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mal das penas

















A candidatura de Aécio Neves está em situação pior do que repercutem seus comparsas jornalísticos. Por causa do tempo escasso de propaganda e da incômoda e mal disfarçada aliança com o PSB de Eduardo Campos, a escolha do candidato ou da candidata a vice da chapa presidencial ganhara importância estratégica.

Talvez lhe faltassem boas alternativas. A de Ellen Gracie parecia alvissareira para a campanha tucana, apesar da falta de valor político agregado que a escolha traria. Mas de longe a menos indicada seria uma oriunda do próprio PSDB: nenhum minuto a mais no horário gratuito, poucos horizontes programáticos, restrito alcance partidário, tendência ao isolamento e à radicalização.

Como então explicar o anúncio do senador Aloysio Nunes para vice de Aécio? Os analistas simplórios dirão que é para fortalecer o eixo entre Minas Gerais e São Paulo, com vistas à maior concentração regional do eleitorado e ao imaginário desenvolvimentista que ainda sobrevive no discurso tucano. Mas existe um motivo bem menos esperto e lisonjeiro no arranjo.

A idéia principal é agradar José Serra, eterno desafeto do ex-governador mineiro, suserano dos feudos paulistas do PSDB. Nunes, amigo de Serra, garantiria a unidade do projeto, evitando a previsível debandada dos quadros serristas, já bastante ocupados em manter o quinhão estadual. O apoio do quercismo, onde o senador possui boas relações, também ajuda na opção.

Uma candidatura nacional que precisa abrir mão de um posto chave para garantir a unidade partidária em torno de pinimbas regionais não soa exatamente sólida e promissora.