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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Quatro anos em dois dias



No primeiro turno das eleições de 2022, os institutos de pesquisa levaram um tombo dos números apurados. Pela explicação mais amena, as últimas enquetes da campanha teriam sido realizadas antes de uma convergência abrupta e unilateral de votos para a extrema-direita, principalmente nas disputas ao Senado e à Presidência.

Esse fenômeno eleitoral retornou no primeiro turno de 2026, embora mais ou menos sugerido pelas pesquisas. E o problema sobrevive: o que justificaria a passagem massiva de eleitores, às vésperas do pleito, para o mesmo lado ideológico das disputas?

Quatro anos depois, as desculpas de antanho caducaram. O tal “voto envergonhado”, se outrora existiu, acontece também nos tóxicos ambientes bolsonaristas atuais. As abstenções imensas (20%) causam algum prejuízo às campanhas de esquerda (pequeno, segundo consta), mas não o avanço numérico bruto de seus adversários.

Enquanto normalizavam a surpresa desagradável, os democratas se apegaram a essas platitudes técnicas, meros eufemismos para “não sabemos o que ocorre com dezenas de milhões de eleitores nas últimas 48 horas de campanha”. Mas sempre soubemos.

Basta observar um shopping lotado, veículos de transporte coletivo, uma sala de espera, um intervalo de aula e até os corredores de uma seção eleitoral. Aquelas pessoas esfregando os dedos em telas de celular exibem a resposta óbvia e ululante do enigma.

Agora, tardiamente, o país descobre que a disseminação quase total do acesso a redes digitais levou a capacidade manipuladora da direita a estratosferas inéditas. Foi um erro pueril, de Lula inclusive, achar que o voto ficaria imune ao controle de oligopólios tecnológicos, aliados de Donald Trump, sobre as comunicações de todos os eleitores.

Eis aí a Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp) protagonizando um escândalo histórico de manipulação eleitoral, verdadeiro destruidor de paradigmas, e o TSE ameaçando fulminar o Exército do Lula exatamente naquelas 48 horas fatídicas. Tá bão procêis?

Como sempre, o fascismo jogará as forças disponíveis na batalha do fim de semana eleitoral. O heroico levante da militância lulista, nas redes e nas ruas, enfrentará o teste mais duro. O primeiro realmente aberto, com o inimigo antecipando seus movimentos.

Não sei se as táticas adotadas pela esquerda até aqui darão conta, sozinhas, da sabotagem das redes. Algo pode ter mudado no desenho “normal” de seus dispositivos, que o lulismo dominou nos avanços iniciais, e que, por isso, deixou de servir aos donos.

Será necessário burlar a inteligência artificial das plataformas, que seleciona e bloqueia o material “engajado” pela esquerda. E, mais importante, sair da bolha de redundâncias triunfalistas, saturando os rizomas que de fato chegam aos eleitores indecisos.

De qualquer maneira, o extremismo perdeu a vantagem do susto.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Lula quase lá



Afinando o tom da campanha na internet, no rádio e na TV, Lula pode se aproximar da vitória no primeiro turno. Um crescimento modesto em seus índices atuais, tendência lógica para as circunstâncias da disputa, cola o petista na soma dos demais candidatos.

A direita jornalística também acha essa perspectiva real, tanto que apelou para ataques desvairados ao filho do presidente. Desespero provocado pelos efeitos que a dianteira imediata de Lula teria, nas chances progressistas, em redutos estaduais conservadores.

Não foi à toa que o bolsonarismo decidiu usar São Paulo como quartel-general. Se Lula apenas transferir seus votos no estado a Fernando Haddad, este chega perto do empate com Tarcísio de Freitas. E um presidente reeleito no palanque muda qualquer cenário.

A trincheira paulista exibe a fragilidade da campanha de Flávio Bolsonaro. É excessiva sua dependência do governador, aliado reticente e oportunista, que não hesitará em rifá-lo ao menor ruído. Até porque ambos são adversários internos de um grupo náufrago.

Para além do volume de adeptos, o problema de Flávio é o poder de crescimento. A manutenção da base fiel valerá pouco se o desgaste de sua imagem bloquear a afluência de novos apoios. Afinal, mesmo os inconvictos eleitorais alimentam lá suas convicções.

Isso explica a ânsia da mídia corporativa para ocultar as malvadezas de Flávio jogando o bode do STF na sala do debate público. Todos sabem que os índices de Bolsonarinho não suportariam a humilhação de noticiários fiéis aos interesses imediatos do país.

Basta notar que Flávio estagnou nas pesquisas, mesmo favorecido pelo bombardeio diversionista da mídia. Essa paralisia antecipa, aliás, a vantagem do lulismo em eventual segundo turno (pois as abstenções superariam a transferência de votos da direita).

Mas Lula terá dificuldade para ultrapassar a pequena diferença que deve separá-lo da vitória imediata. Esse objetivo demanda seduzir eleitores já posicionados a favor de Bolsonaro ou de seus dublês nanicos. Não basta melhorar a aprovação do governo.

O desafio exige invadir as bolhas digitais da direita, algo que o TSE e as plataformas não cederiam fácil. A militância pode ajudar, mas um efeito relevante demanda volume, ciência e apoio jurídico. Os adversários fazem muito pior, e com certeza de impunidade.

Lula vem adotando estratégia cautelosa, de “jogar parado”, confiante numa investida certeira às vésperas do primeiro turno e, se necessário, na perspectiva de isolar Flávio no segundo. Postura razoável, pragmática, focada na prioridade máxima da disputa.

Ocorre que o cenário mudou. Ainda que o “mar de lama” da direita midiática e judicial termine prejudicando mais Flávio do que Lula, o acréscimo de três semanas à campanha serviria a uma instabilidade perigosa. O fedor de golpe não pode mais ser ignorado.

Estão ressuscitando os planos de Donald Trump: crise institucional, enfraquecimento do STF e da PF contra ataques internos e externos, factoides brotando das catacumbas lavajatistas. E, de novo, o jornalismo escorpião insuflando a agenda antidemocrática.

Não acho que a campanha de Lula deva gastar toda munição agora, mas há medidas simples que abririam flancos na blindagem bolsonarista. Por exemplo, grudar Flávio e Tarcisio nos escândalos do Master, de maneira a torná-los indissociáveis dessa pauta.

Outro imperativo é tirar os democratas da pregação apocalíptica para convertidos. Há muito pessimismo nos círculos progressistas, indicando que há poucos progressistas fazendo campanha de verdade. Alguém precisa afinar o tom geral dos militantes.

Lula beira 45% dos votos válidos. É o que importa agora. Especulações sobre um hipotético segundo turno servem apenas para consumá-lo. A simples possibilidade da vitória imediata obriga-nos moralmente a lutar por esse objetivo.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Dez anos de agonia



O golpe da Lava Jato ocorreu em duas etapas: o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Ambos os episódios tiveram aparência legalista, mas isso é irrelevante. A ditadura militar também começou com rituais parlamentares e o aval do STF.

Assim como na alegada vacância do cargo de João Goulart, o pretexto para depor Dilma era falso e, portanto, gerou um ato ilegal. A prerrogativa do juízo político não dispensa bases probatórias mínimas, tampouco a isenção e a lisura dos julgadores.

O grotesco festival obscurantista das votações, infestadas de corruptos notórios, ilustra a “legitimidade” do processo. E a canetada de Gilmar Mendes, que impediu Lula de atuar no governo, pautou-se pelos ilícitos de Sérgio Moro, outra figura “legítima” de então.

Na falta de argumentos razoáveis para justificar o impeachment, seus defensores lançam as cínicas desculpas da rejeição popular e do fracasso administrativo. Em suma, culpam a vítima. Ela “mereceu” ser derrubada por uma conspiração de canalhas e traidores.

A mídia empresarial não usaria essas bengalas meritórias contra a péssima e impopular gestão Michel Temer. Decerto porque sua agenda antidemocrática, urdida em acordos obscuros com o “direitão”, incluiu a ruína dos sindicatos e das proteções trabalhistas.

No calor dos acontecimentos, quando era impossível antever seu rumo, o impeachment exibiu preparo, execução e discurso de golpe. Em retrospecto, contudo, parece a etapa inicial, talvez pensada para ser única, de algo que veio a assumir dimensões maiores.

Nada supera o governo ilegítimo de Jair Bolsonaro (pois ilegítima a obstrução do candidato que podia vencê-lo) no currículo do golpismo lavajatista. Mas o impeachment facilitou a tarefa de várias maneiras, no mínimo demonstrando sua viabilidade.

Uma dessas ajudas foi aglutinar os vetores fascistas que já se insinuavam em junho de 2013. A origem do bolsonarismo remete às vaias contra Dilma na abertura da Copa, ao pato amarelo da Fiesp e à iconografia patriótica das manifestações pelo impeachment.

O episódio tornou a governabilidade um trauma incurável do campo progressista. Dilma passou a simbolizar, para alguns, e de maneira redutora, o perigo da firmeza excessiva de princípios. Outros a tomam como evidência dos próprios limites do tal “lulismo”.

Ambas as leituras ignoram a amplitude dos conluios institucionais que engendraram o impeachment. Não há governabilidade que impeça o arbítrio judicial, e este, com o beneplácito do STF e massiva propaganda midiática, aniquila qualquer arranjo político.

Vemos hoje que o ardil maligno espera apenas uma faísca oportuna para ressuscitar. Nesse tênue equilíbrio de forças, as eleições legislativas ganham peso estratégico, até superior à da presidencial. Enfraquecer o “direitão” é imperativo democrático urgente.

A permanência do espírito golpista deve muito à normalização do impeachment e da Lava Jato. Aí se revela a natureza do jornalismo peçonhento, que setores da esquerda insistem em prestigiar. Não tem sido por falta de aviso, desde antes de 2016.

terça-feira, 31 de março de 2026

Indo além do pessimismo com as pesquisas



Percebo duas estratégias interessantes na coordenação da campanha de Lula. De um lado, a “escolha” de Flávio Bolsonaro como adversário. De outro, seu isolamento no quadro ideológico da disputa, antecipando a polarização para o primeiro turno.

A entrada de Fernando Haddad e as articulações de Marina Silva e Simone Tebet no front paulista visam segurar Tarcísio de Freitas na campanha a governador. O grupo que o financia não se arrisca a perder a máquina estadual por uma aventura incerta.

Claro que Lula precisa de parte do grande eleitorado de São Paulo. Mas poderia atingir o objetivo, com resultados até melhores, se ali o PT enfrentasse um nome situacionista fraco. E os atritos do PSD com o PL tendem a dividir a base de Tarcísio no interior.

Só que Lula acerta ao preferir o antagonismo de Flávio Bolsonaro, ruim de sobrenome, palanque e debate, cheio de capivaras sombrias, inexperiente e agressivo. E, talvez pior, ao contrário de Tarcísio, com dificuldade para reunir apoios fora de seu nicho político.

O “teto” inicial de Flávio é o do bolsonarismo fiel, em torno de 35% do eleitorado. Sim, ele deve subir um pouco nas pesquisas, para desespero dos afoitos. Apesar de robusto, porém, esse limite pode manter o bloco oposicionista abaixo da votação de Lula.

As artimanhas metodológicas e o viés especulativo das enquetes dificultam a percepção da chance do presidente vencer no primeiro turno. Pois é notável que, mesmo antes da campanha e em cenários artificiais, a direita mal soma 50% dos votos válidos.

A única serventia dos levantamentos de segundo turno é confirmar a alta na rejeição ao governo, o maior obstáculo para uma vitória imediata de Lula. Sinal da eficácia da comunicação subterrânea da rede bolsonarista, favorecida pelos oligopólios digitais.

Como venho repetindo, esse fator irracional serve para ofuscar méritos administrativos na escolha do voto. É desafio graúdo, mas único e decisivo. Acertando a fórmula para neutralizá-lo, principalmente no Judiciário, a campanha de Lula encerra logo a fatura.

Tendência por tendência, há bons motivos para esperarmos que a já enorme rejeição a Flávio cresça com a propaganda eleitoral. Sem a munição positiva de Lula, falta pouco para Bolsonaro se tornar uma opção matematicamente inviável e desprestigiada.

Nesta altura do campeonato, dizer que o plano dará certo seria tão leviano quanto dizer que vai malograr. O mesmo vale para o lavajatismo da mídia conservadora, que avança na corda bamba e exibe um desespero contrastante com suas análises triunfalistas.

Também vale, diga-se, para o factoide que o bolsonarismo prepara, com os arapongas de Donald Trump, em socorro de Flávio. A vantagem de pautar a agenda eleitoral, que Lula habilmente cultiva, agrega o bônus (e o ônus) de antecipar sustos previsíveis.

A direita insufla receios no campo progressista para inverter a tática de Lula: a crise na campanha federal alivia a pressão sobre Tarcísio. Oxalá os conselheiros do presidente descubram a tempo o que uma dose de audácia conseguiria nas disputas em São Paulo.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

O preço da conciliação

 

Os seis anos de regime lavajatista foram dedicados à inviabilização de futuros projetos de poder da esquerda. Fizeram parte da estratégia o ataque ao legado programático do lulismo e a manutenção da hegemonia dos conspiradores de 2016 e 2018.

O segundo objetivo, incorporado pela astuciosa fobia à polarização, teve maior eficácia. Lula está cercado por inimigos de outrora, tanto nos ministérios que precisou lotear entre golpistas quanto nos parlamentares “aliados” que sabotam seu governo.

Tudo isso administrando os retrocessos irreversíveis do golpe e toureando a indignação resultante. Eis a cláusula diabólica do pacto conciliador: Lula responde por uma ruína cujos autores o parasitam. E só pode amenizá-la sacrificando agendas progressistas.

Esses fatos não o isentam de responsabilidades. Sua teimosa ortodoxia amiúde leva a um conservadorismo arcaico, improdutivo e desmobilizador. A obsessão frenteamplista reduz a esquerda a “centrinho”, assessório da direita, apartado das bases históricas.

Mas é tolice afirmar que Lula poderia ter realizado alguma coisa antagonizando com três quartos do Congresso desde o início da gestão. Ou, pior, que o inevitável desastre dessa loucura fosse positivo, capaz de levantar o povo em defesa dos valores socialistas.

O ônus da pacificação não envolve a tal governabilidade. Envolve a baixa aprovação a Lula, inferior ao que seria razoável esperar de seus índices sócio-econômicos e de seus afagos a setores ideológicos majoritários no país. É essa conta que não fecha.

As pesquisas mostram os eleitores cada vez menos predispostos a valorizar o combate à miséria, a responsabilidade fiscal e o discurso apaziguador de Lula. A oposição cresceu, radicalizando-se, enquanto o governo fazia de tudo para não confrontá-la.

A fatura da conciliação já estava sendo paga muito antes da crise do IOF. A harmonia entre as curvas da rejeição a Lula e as de evangélicos, por exemplo, vem de longe. E espelha o predomínio dos herdeiros midiáticos e institucionais do golpismo lavajatista.

As circunstâncias que impuseram os acordos com o “direitão” fisiológico demandavam também um plano para reduzir seu alcance popular em curto prazo. No mínimo através de contrapontos oficiais aos valores obscurantistas disseminados por esse grupo.

A monologia sectária da extrema-direita, ajudada pela manipulação das redes digitais, abalou os benefícios eleitorais da cautela governista. A ponto de Lula ser demonizado por bandeiras que rejeitava exatamente para não atrair o repúdio dos conservadores.

Não surpreende que, sob ataque tarifário dos EUA, a mídia corporativa esteja clamando pela moderação do governo. Todos ali sabem que a imagem de Lula melhora quando ele assume posturas combativas, desestabilizando as bolhas do extremismo fascista.

Mas a oportunidade embute uma armadilha. Patriotismo sem politização é apenas um elo na corrente reacionária. Cabe aos governistas impedir que o imperativo da prudência diplomática se transforme, de novo, em esteio dos parasitas da democracia.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

O golpe híbrido



A esquerda apega-se a interpretações rudimentares dos planos golpistas que culminaram nos ataques de oito de janeiro de 2023. A extensa bibliografia acadêmica sobre “guerra híbrida” ilustra a complexidade que as análises predominantes deixam de buscar.

Mas não precisamos explorar esse conceito em profundidade. É suficiente deixá-lo como referência para uma abordagem dos fatos que se aproxime do raciocínio estratégico ou, pelo menos, que respeite a sensatez característica da inteligência militar.

Pois duvido que um tenente-coronel deleuziano bem informado tivesse ilusões sobre o futuro do golpe bolsonarista. Não porque o projeto fosse naufragar, pelo contrário. Seu êxito, além de previsível, seria institucionalmente catastrófico para as Forças Armadas.

Quaisquer cenários do novo regime envolviam crises domésticas e externas de efeitos incertos e uma redemocratização com viés punitivo e reformista. O sucesso imediato da sublevação levaria, em curto ou médio prazos, a um revés histórico do campo militar.

A simples realização do processo eleitoral mostra que essa leitura vingou. Se a recusa à ideia de abortá-lo fosse legalista, não estratégica, teria barrado também as sabotagens, os conluios assassinos e a “festa da Selma”, que os arapongas decerto monitoraram.

O desfecho da aventura revelou que lado da cizânia interna tomava as decisões efetivas. Ponto fundamental da questão: a tentativa de golpe nasceu frustrada porque os setores que poderiam viabilizá-lo não o desejavam. E só nasceu porque eles permitiram.

É que o impulso criminoso de Bolsonaro gerava oportunidades irresistíveis. Primeiro, atentados, acampamentos e invasões serviriam como grande exercício de logística, psicologia e mobilização digital. Um verdadeiro banquete para a inteligência militar.

Além disso, havia o potencial destrutivo das manobras finais em Brasília. O peso simbólico do vandalismo, inclusive junto às tropas, era algo que os comandos de ambas as facções nunca desperdiçariam. Especialmente sabendo que ficariam impunes.

Por fim, a desmoralização dos golpistas torna os oficiais “democratas” hegemônicos na cúpula militar e no próprio governo federal. Viram fiadores da estabilidade, controlando as temperaturas internas e protegendo as instituições contra o bolsonarismo raivoso.

Eis a resposta ao enigma dos privilégios concedidos por Lula às Forças Armadas. Nesse ambiente, não vale a pena majorar expectativas com os inquéritos sobre a regência do golpe. Na melhor das hipóteses, eles pouparão o corpo submerso de um vasto iceberg.

A anistia do primeiro escalão militar vem sendo costurada há meses, e é tolice achar que Lula pode ou deseja impedi-la. Mesmo o que hoje parece inevitável depende de certos cálculos: a prisão de Bolsonaro compensaria uma GLO para deter seus mentecaptos?

Típica figura da cartilha “híbrida”, a crença numa vitória que não houve é capitulação inconsciente, passiva, que materializa o triunfo dos adversários sem o desgaste de um confronto aberto. A narrativa do predomínio judicial bloqueia a percepção da derrota.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

A derrota do “centrinho”



A partidarização superficial dos resultados municipais distorce a análise das tendências ideológicas manifestas pelos eleitores. As forças envolvidas sobressaem nos discursos das campanhas, não nos lugares que as legendas ocupam num espectro político ideal.

É impossível dizer que determinado campo ganhou ou perdeu onde não estava de fato concorrendo. Pouco importa a identidade programática original do candidato, se ele a nega ou disfarça para seduzir os imensos contingentes apartidários da sociedade.

Pois quantas candidaturas da órbita petista realmente exibiram opiniões e plataformas de esquerda? O que havia de “centro” nas propostas de PSD, União, PP e MDB? São essas questões que caracterizam, a partir dos resultados, os vieses políticos dos eleitores.

Não é fácil respondê-las sem cairmos nos labirintos de especificidades locais ou no atoleiro conceitual (“defina esquerda”). Mas quem acompanha o noticiário político e observou algumas disputas relevantes consegue ensaiar generalizações razoáveis.

De um lado, notamos uma predominância de posturas típicas de centro nos quadros da esquerda partidária. Sintoma forte, aguçado pelas cautelas usuais de campanha, foi sua posição evasiva e condescendente nos ubíquos debates sobre os tais “costumes”.

Do outro lado, e seguindo as mesmas referências, o uso agressivo dessas pautas mostra como o apelido centrista distorce a verdadeira natureza do “direitão” fisiológico. Só normalizando o fascismo alguém consegue associar esse grupo à ideia de meio-termo.

Em suma, a maioria dos eleitores rejeitou o centro e aderiu a várias modalidades de direita. Salvo raras exceções, sequer teve a alternativa de descartar uma esquerda que se afirmasse como tal. Diante dos novos conciliadores, preferiu antigos radicais.

Talvez a aversão à esquerda antecedesse sua metamorfose centrista. Mas essa mudança também pode ter agravado o prejuízo, o que dá quase na mesma. O fato é que o retoque na imagem dos candidatos foi incapaz de alterar as predisposições antagônicas.

A estratégia de afagar o conservadorismo dominante seria genial se levasse a vitórias dignas do sacrifício. Por respeito a esse espírito pragmático, porém, chegou a hora de abandoná-la. Deu ruim. Teimar no “projeto centrinho” é autossabotagem negacionista.

O fetiche apaziguador minou a competitividade eleitoral da esquerda partidária. Reativa e camaleônica, ela assimilou as idiossincrasias do eleitorado, em vez de se esforçar para mudá-las. Confundiu “diálogo” com a legitimação de discursos que a inviabilizam.

Os “costumes”, por exemplo, fornecem ao bolsonarismo e à direita ortodoxa o mote comum da demonização das simbologias tradicionais de esquerda. Apoiam o imaginário obscurantista e, não por acaso, alimentam a pregação religiosa ultraconservadora.

Esse repertório mostra não apenas que a polarização segue a pleno vapor, mas também que ela se expandiu socialmente. A novidade é que um dos polos deixou de combater o outro. Adivinhe qual dos dois elegeu a maior quantidade de prefeitos no país.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Jornalismo de memes



Publicado no Observatório da Imprensa

Uma série de montagens visuais com o rosto do ministro Fernando Haddad surgiu nas redes bolsonaristas. As peças fazem trocadilhos pejorativos com referências midiáticas, no mesmo acabamento rudimentar que (não) disfarça o profissionalismo da autoria.

São os tais “memes” (iconotextos, na língua semiótica), de existência quase tão antiga quanto a da própria internet. Há milhões dessas figuras em circulação diária, das mais variadas estirpes, envolvendo celebridades, anônimos, bichos, personagens etc.

De repente, simultâneos, Folha, Estadão, Globo e outros veículos informativos trataram de divulgar o material contra Haddad. Algo que ficaria restrito a nichos radicais ganhou a atenção de um público mais amplo, endossada pelo discurso jornalístico.

Em outras palavras, a mídia que se afirma democrática e legalista ajudou a disseminar material enganoso, ofensivo a uma autoridade pública, não muito diferente dos produtos da indústria de crimes cibernéticos do fascismo. Mas qual seria a notícia no episódio?

Os editores têm duas respostas possíveis. De um lado, entenderam que houve um crime. Então precisariam seguir os protocolos éticos da denúncia jornalística: nomear o delito, esclarecer os fatos deturpados, cobrar as autoridades responsáveis. Apurar.

Isso não aconteceu. As difamações receberam tratamento de ironia crítica legítima. Haddad e o governo ocuparam espaços de contraponto, como se tivessem justificativas a dar. Como se os próprios veículos não soubessem discernir as falácias insinuadas.

De outro lado, a notícia poderia ser o alcance das mensagens. Mas a cobertura aumentou essa visibilidade no ato de repercuti-la. Em suma, criou o fenômeno que motivaria o destaque inicial. Potencializou o dano malicioso para explorar seu interesse.

Critério de noticiabilidade, sempre discutível, é terreno propício para o cinismo. Entre os registros literais das bravatas fascistas de Jair Bolsonaro e os artigos que julgam os discursos de Lula, o rigor seletivo das redações exala seus pendores ideológicos.

Tão sisudos para a falta de provas em acusações incômodas, os fiscais da verdade não acham correto problematizar os memes contra Haddad. Agências que denunciam “fake news” da esquerda fazem vistas grossas diante de material similar que a atinge.

Há anos, centenas de imagens ridicularizam Sérgio Moro, a família Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, ministros do STF e Arthur Lira, com popularidade e relevância contextual, mas são ignoradas pela imprensa. A reputação de Haddad não inspira o mesmo cuidado.

O problema já seria grave se ficasse na ingênua adesão ao vale-tudo digital, que certo jornalismo acha eficaz para reverter sua crise de legitimidade. Nivelando-se pela estupidez hegemônica, esse campo vira apenas outra ferramenta propagadora de memes.

Ocorre que a serventia é mais profunda e embaraçosa. O ataque à política econômica de Lula tem viés eleitoral. E o método da campanha, misturando escracho e manipulação, revela um pedigree bastante claro. Só precisamos entender de quem estamos rindo.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

A questão evangélica



“A esquerda precisa dialogar com os evangélicos”. Essa frase, muito repetida, permite várias leituras. No sentido literal, gregário e educativo, é irrefutável. Mas não vai além da constatação meio acaciana de uma necessidade inerente à rotina política.

Em termos pragmáticos, ligados à formulação de agendas comuns, a ideia é eficaz apenas se envolver representantes de igrejas, governos e partidos. Seria impossível chegar a consensos amplos com as numerosas, variadas e dispersas bases de fiéis.

Mas a proposta dialógica leva a raciocínio unilateral: não cobra dos líderes evangélicos que tomem a iniciativa ou se exponham a princípios diferentes dos seus. No fundo, a ideia exige concessões do campo progressista. Que não pode e não deve fazê-las.

Primeiro, porque o resultado seria um programa conservador. Apesar de heterogêneo, o pluriverso evangélico tem viés ideológico predominante, com vastos setores inflexíveis. E o meio-termo entre a esquerda possível e a extrema direita fica longe do centro.

Segundo, porque as cúpulas evangélicas são alinhadas a interesses políticos que se definem pelo antagonismo com o campo progressista. Uma incompatibilidade, quase sempre ostensiva, que serve como ferramenta de persuasão dogmática e partidária.

Lula tentou seduzir os fiéis com discursos conservadores e anuência a certos regressos legislativos. As bancadas radicais, inclusive as religiosas, usaram suas pautas pré-históricas para exorbitar o custo civilizatório da aproximação. Ou seja, para sabotá-la.

Esse desejo de polarização amiúde resulta num confronto aberto com os setores laicos. Então a performance indecorosa serve como atentado simbólico ao imaginário secular e, nos casos mais agressivos, como propaganda insurrecional de bandeiras teocráticas.

Minando a pacificação da sociedade, aliando-se a projetos totalitários de poder e divulgando estereótipos negativos contra valores da cidadania, as lideranças evangélicas criaram um problema institucional. O varejo da militância política não irá solucioná-lo.

Organismos sociais e partidos progressistas têm direito e obrigação ética de constranger o STF a redefinir os limites da atividade político-religiosa. Começando pelos ilícitos mais antigos e salientes, romperiam a blindagem legal e discursiva do abuso dogmático.

Propaganda eleitoral em espaços de culto, proselitismo religioso em repartição pública e candidatura com título clerical são exemplos de violações ao princípio constitucional da laicidade do Estado. Ultrapassam as liberdades de expressão e de exercício da fé.

Só há separação de duas instâncias quando ambas renunciam ao contato. Um Estado que permite influência religiosa em seus procedimentos não é laico. Igrejas que desfrutam de direitos absolutos servem de abrigo para a apologia impune do fascismo.

Nada disso envolve as intenções e os valores das bases evangélicas. O receio de afrontá-las é pueril. Não esqueçamos que a resistência progressista à imposição das pautas de “costumes” foi simultânea à melhora na popularidade do governo federal.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

A falácia da democracia absoluta



Lula afirmou numa entrevista que democracia é “conceito relativo”. Falava da diferença de critérios usados por ele e pela imprensa para qualificar certos países. Os analistas pinçaram a frase do contexto, deram-lhe verniz abstrato e criaram uma falsa polêmica.

O episódio simbolizou a obsessão da mídia conservadora em sagrar-se porta-voz da única ideia correta de democracia, alinhada à pauta geopolítica dos EUA. Sugerindo que o ceticismo da esquerda em relação a esta perspectiva conota índole autoritária.

A robustez democrática que falta aos despotismos deveria ser a mesma que a patrulha enxerga em seus modelos civilizatórios. Afinal, ela defende critérios absolutos. Quando se trata do eixo aliado, porém, a intransigência dá lugar a mitos e contextualizações.

Não havendo autoimagem positiva que supere o rigor teórico, tratam de ligá-la a uma essência inata, imune a juízos. O voto indireto e o bipartidarismo, por exemplo, emanam as boas tradições iluministas, que os verdadeiros democratas “sabem” reconhecer.

O problema seguinte é lidar com as vergonhas das democracias “realmente existentes”. Assim os puristas são obrigados a normalizar o racismo, a censura, a repressão, o abuso judicial e outros vícios generalizados, avessos a princípios democráticos rudimentares.

Todos esses arbítrios servem a projetos de poder. E nenhum deles tem maior respaldo legal ou representativo do que similares de regimes despóticos. Jornalistas presos, livros proibidos e dissidentes silenciados valem o mesmo em qualquer recanto do mundo.

Querem aplicar os valores de forma “objetiva”? Pois descrevam as condenações de Julian Assange e de Lula para diversos cientistas sociais, sem identificar as vítimas nem os algozes, e observem quantos associam os episódios a ditaduras ou a democracias.

Os malandros respondem que depende da maneira como os fatos são expostos. Podemos denunciar as “miudezas administrativas” que tiraram a candidata venezuelana das eleições. E podemos afirmar que Dilma Rousseff caiu por causa de “crimes fiscais”.

É o que fazem os guardiões da doutrina: legitimam os governos Temer e Bolsonaro, mas condenam aparelhamentos institucionais de outro viés ideológico. Negam e aceitam a constitucionalidade vigente de acordo com os golpistas que a manipulam.

Levada a sério, a inflexibilidade conceitual nivelaria os países pelos denominadores abusivos comuns. Não chegamos a tanto porque essa bobagem funciona apenas como instrumento retórico da direita, e jamais para falar de seus próprios exemplos.

terça-feira, 16 de abril de 2024

As ruas perderam a esquerda?




Depois de alguma polêmica, a esquerda abandonou a ideia de realizar manifestações exigindo a prisão de Jair Bolsonaro. Os motivos apontados foram a natureza jurídica da pauta, o risco de violência e a suposta inevitabilidade da condenação.

Só que esses raciocínios jamais impediram qualquer ato público, tampouco o seu êxito. Na verdade, as críticas vinham da correta impressão de que os eventos fracassariam (no jargão digital, “flopariam”), agravando os paralelos inevitáveis com o ato bolsonarista.

A abertura de escopo temático e a descentralização atenuaram o embaraço comparativo, mas não o problema original que o anunciava: a pequena quantidade de participantes. Nenhuma das iniciativas atingiu volume digno do teor das pautas abordadas.

Há algo errado nessa fatura. O número de pessoas que apoiam bandeiras progressistas (inclusive a prisão de Bolsonaro) é suficiente para encher, ao mesmo tempo, avenidas e praças em todos os grandes centros urbanos. Basta calcular pelas pesquisas.

Desse contingente, a fração que comparece a atos públicos é irrisória. E não menos absurda que a inexistência de passeatas contra os ataques golpistas do ano passado. Em que país de tradição participativa o “8 de janeiro” ficaria sem protestos à altura?

Não acho que a esquerda “perdeu as ruas”. O respaldo popular a seu programa é sólido e extenso, até majoritário em alguns tópicos, ainda que partidariamente inconvicto. Só que a adesão às propostas não se materializa no impulso de reivindicá-las.

As explicações costumeiras (julho de 2013, alienação, crise de representatividade) são mais fatalistas do que produtivas. E não é verdade que apenas a direita possui recursos para divulgação, transporte e logística, supondo que façam tanta diferença no caso.

Essas desculpas acomodam partidos e movimentos na fórmula das convocações afoitas, da publicidade restrita, do zelo para apenas marcar posição, respeitando os pruridos de Lula. Como se realmente não pudessem utilizar estratégias mais eficazes.

Ao mesmo tempo, vastas parcelas da população deixam de cultivar o espírito gregário e combativo que ajudaria os democratas a barrar o avanço do obscurantismo. A apatia das ruas exibe o desperdício de um potencial mobilizador imprescindível na atualidade.

domingo, 24 de setembro de 2023

É tarde para reclamar de Zanin



O voto do ministro Cristiano Zanin contrário à descriminalização da posse de maconha exibiu o prejuízo de sua indicação ao STF. Lula errou. Mas parte dessa culpa também precisa ser dividida com a militância progressista, incluindo os críticos da escolha.

A manifestação de Zanin incomodou sobretudo pela baixa qualidade técnica. Repetindo lugares-comuns do arcaísmo proibicionista, ignorou décadas de estudos sobre o tema. Afastou-se das tendências de setores esclarecidos da própria direita.

Não há justificativa legal ou científica em penalizar a “posse para uso” de qualquer substância, principalmente da maconha. A inconstitucionalidade da legislação atual só não é mais evidente do que seus malefícios sociais, educativos e humanitários.

Trata-se de matéria objetiva, abordada em vasto repertório acadêmico. O proibicionismo aciona “costumes” e palpites contra argumentos racionais, estatísticos, verificáveis. Admite o óbvio, por decoro, mas recusa os desdobramentos lógicos de sua admissão.

Essa atitude não é conservadora. É negacionista. Não faz sentido naturalizá-la depois de combatermos suas versões pandêmicas e eleitorais. A questão vai além dos projetos de Lula, dos demais votos de Zanin e até da importância da droga para os debates do país.

Ocorre que, salvo exceções isoladas, o PT esnobou a legalização por muito tempo. Adotou-a, no embalo do STF, para amenizar o constrangimento com Zanin e dividir os louros da provável vitória da tese. O silêncio de Lula a respeito é, digamos, eloquente.

Outros setores progressistas também despertaram atrasados. Alguns dos mais furiosos críticos de Zanin apoiaram Marina Silva quando ela prometeu um absurdo plebiscito sobre a maconha e Ciro Gomes quando ele defendeu a penalização do usuário.

As militâncias de Lula, Marina e Ciro sempre conviveram pacificamente com discursos “cuidadosos” similares ao de Zanin. Os bate-bocas digitais estão cheios de antigos lustradores de idiossincrasias fazendo-se perplexos com as esquisitices alheias.

Mais alinhado a lideranças supostamente modernas do que à maioria do vetusto STF, Zanin personifica uma séria defasagem programática da esquerda institucional. Só que também exibe o fracasso (ou o desinteresse) de suas bases sociais em atualizá-la.

A inevitável judicialização de certos temas não substitui a luta política. Se o governismo participasse do consenso civilizatório do STF, teria uma resposta orgânica e imediata contra os ataques de senadores e prefeitos à descriminalização iniciada no tribunal.

Essas ameaças retrógradas seriam úteis para provocar o esboço de uma agenda mínima comum, representativa e suprapartidária, que definisse o básico do básico da ética progressista. A dificuldade de realizar algo tão simples é motivo de profunda reflexão.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

O golpe da tentativa



As investigações sobre as origens do “8 de janeiro” podem seguir duas linhas. A primeira, mais ortodoxa e confortável, reside em tratá-lo como evento único e irredutível: uma tentativa de golpe. Os indiciados seriam personagens que atuaram com o objetivo claro de interromper o governo Lula. Jair Bolsonaro e seus asseclas diretos protagonizam esse enredo.

A segunda abordagem começaria distinguindo as ilicitudes que geraram o vandalismo. De um lado, a tramoia golpista. De outro, a cumplicidade e a omissão de agentes públicos. Divididas as parcelas individuais de responsabilização, o ônus maior recairia sobre as pessoas que participaram de ambas as etapas, mantendo-as compatíveis com o resultado final da aventura.

Bolsonaro tem o perfil de quem acreditaria na sobrevivência de um governo gerado por uma sublevação militar. Seria fácil iludi-lo com essa bobagem, num teatro clandestino que explorasse as suas vaidades e seus limites cognitivos. Não surpreenderia descobrir que ele tinha de fato a ingênua esperança de que Lula viria a solicitar uma intervenção fardada.

Mas os organizadores dos ataques a Brasília não compartilhavam os planos de Bolsonaro. Sabemos disso porque Lula continuou presidente, algo que jamais ocorreria, naquele cenário, se o projeto golpista recebesse um mínimo de apoio dos comandos militares. E foi decisão tomada com antecedência, para evitar improvisos ou surtos de rebeldia das tropas.

O entorno bolsonarista seria incapaz de orientar evento de tamanha complexidade. Não me refiro apenas à mobilização de milhares de bandoleiros, mas também, principalmente, ao delicado equilíbrio imposto pelo propósito de liberar a destruição sem que ela resultasse numa tragédia ou num sequestro efetivo das instâncias governamentais.

Não culminando em ruptura, sequer efêmera ou iminente, os ataques expuseram a vigência de um controle mais amplo, necessário para antecipar e garantir a facilidade da ocupação e o recuo “pacífico” depois da baderna. Tudo isso envolve altas patentes, pois demanda centralização operacional, superioridade hierárquica e acesso privilegiado a informações.

No entanto, apesar das evidências, cozinha-se uma anistia velada para os mentores da conspiração vitoriosa, aquela que chamamos de “8 de janeiro”. Com endosso da mídia, o desfecho do caso pende para o caminho fácil, de usar bolsonaristas como bodes expiatórios. Surgem até ensaios de glorificação dos militares por terem supostamente abortado o tal golpe.

Não, as Forças Armadas não salvaram a democracia. Na melhor das hipóteses, negaram-se a protegê-la. Na pior delas, atiçaram bandidos para desestabilizar e acuar um governo legítimo. Talvez seja impossível distinguir juridicamente essas atitudes, mas com certeza quem devia obedecer obedeceu e quem podia mandar mandou. Não houve falha ou insubordinação.

A narrativa da “intentona” é uma receita de pizza. Com muita sorte, atinge Bolsonaro e meia dúzia de assistentes, livrando a poderosa estrutura militar que os manipulou. Reduz o “8 de janeiro” a um gigantesco mal-entendido, onde milhares de lunáticos teriam acreditado nas promessas, nos blefes e nas apostas furadas que, para estupefação geral, ninguém fez.

Depois de negarem os golpes que realmente ocorreram, os conciliadores se escandalizam com uma tentativa frustrada. Ela deve ser punida, claro, mas seu modelo obsoleto e inviável de ruptura não explica o sucesso dos ataques em Brasília. Tampouco reflete a verdadeira ameaça fascista que borbulha nos bastidores institucionais. Naturalizá-la é uma forma de capitulação.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Dez anos em junho



Cada pessoa que vivenciou os protestos de junho de 2013 define-os à sua maneira. São milhões de análises baseadas em experiências individuais distintas. Todas válidas como testemunho, mas não necessariamente como juízos históricos sobre o período.

As opiniões mais positivas tendem a vir dos partícipes mais engajados, muito jovens na época, talvez em sua primeira grande aventura politizada. Hoje o saudosismo inevitável modula a autoimagem heroica e pioneira que eles projetam nos eventos.

As lembranças pouco elogiosas vêm da militância antiga, calejada com as expectativas e frustrações de episódios similares, como as Diretas Já. Exageros conspiratórios à parte, os céticos de 2013 gozam a vantagem de não terem anunciado um futuro promissor.

Estive entre os que alertaram desde cedo para a falta de agendas claras em movimentos daquele porte. Víamos na iconoclastia antipolítica difusa um catalisador de anseios que poderiam confluir no repúdio indiscriminado ao sistema democrático. Dito e feito.

É fácil provar que a expansão das passeatas logo exibiu os símbolos e discursos que a direita usaria contra Dilma e a favor de Bolsonaro. Mas fazia parte do jogo. A natureza performativa de “ir à rua” servia justamente para liberar todas as demandas represadas.

Pois também o fascismo nasce do desejo de representatividade, do ódio à classe política e de um impulso gregário emancipador. Esses fatores não igualam nem distinguem os pendores ideológicos dos manifestantes. Na verdade, não explicam muita coisa.

Reconhecendo a complexidade do ânimo insurrecional de 2013, evitamos idealizá-lo. É arriscado celebrar rebeldias espontâneas no âmbito das redes digitais. E a identificação majoritária dos atos como “de esquerda” simplifica os inúmeros contextos envolvidos.

Esses esforços de legitimação, porque a rigor desnecessários, transbordam os paradoxos que tentam ocultar. Se o antipetismo não fosse influente nas reivindicações, ninguém usaria o álibi autonomista para criticar, em retrospecto, a falta de tutela do PT.

É bobagem responsabilizar os protestos pelos golpes seguintes. Ainda que não tenha gerado a cruzada lavajatista, porém, a revolta forneceu-lhe pretextos oportunos, tanto no perigo revolucionário a ser contido quanto na popularidade da bandeira anticorrupção.

Ambas as desculpas, convenhamos, traduziam o imaginário de 2013. Acentuando seu voluntarismo cívico e ampliando o escopo dos inimigos, os fascistas completaram o ciclo vicioso de apropriações: sim, morta a democracia, outro mundo era possível.

Então os rebeldes progressistas de outrora despertaram para o viés nefasto da obsessão moral, do vandalismo, da loucura patriótica. E, no avesso do sonho, correram em busca de seus antigos vilões para ressuscitar aqueles tempos saudosos de normalidade política.

A utopia dos “levantes de junho” envelheceu mal.

terça-feira, 16 de maio de 2023

O ótimo e os inimigos do bom



As dificuldades do PL 2630 nasceram do esforço para agregar um arco excessivo de interesses corporativistas, que teoricamente facilitariam sua aprovação. Abrindo muitas frentes de diálogo, o projeto se afastou do consenso desejado. Terminou incapaz de atender às demandas geradas pela desnecessária complexidade que o sufoca.

Entendo que Orlando Silva tenha seguido o apanágio pragmático “o ótimo é inimigo do bom”. Uma lei permissiva, ou pontualmente vaga, seria melhor do que lei nenhuma. De fato, em especial na urgência deste caso. Mas há um limite a partir do qual a concessão vira derrota e o acordo passa a causar mais estragos do que benefícios.

A imunidade a parlamentares e manifestações supostamente religiosas é desses absurdos que tornam preferível o abandono da proposta. O resultado equivale a permitir discursos golpistas, homofóbicos, racistas e xenófobos, desde que fantasiados de opinativos ou partidários. No cenário ruim atual, pelo menos existe a chance de eventual punição.

Por outro lado, não é razoável criticar a “autorregulamentação compulsória” prevista na lei. Embora imprescindível, um órgão regulador jamais daria conta do varejo das denúncias cotidianas, que a direita calhorda tratará de multiplicar. Só as plataformas têm recursos técnicos e humanos para esse controle. E, a rigor, trata-se de ônus operacional que cabe às empresas, não aos contribuintes. Basta seguirem critérios preestabelecidos.

Insisto nesse aspecto fundamental: as plataformas não podem exercer arbítrio censório. Devem seguir apenas as leis vigentes, liberando o que não for expressamente proibido, adotando compensações proporcionais aos danos, identificando e banindo criminosos. Manifestação pública não obedece a “políticas internas”, e sim à constitucionalidade.

A ociosa referência às fake news atola o debate em definições de “verdade”, “mentira” e “erro”, depois envolve as de “golpe”, “fascismo” e “genocídio”, até que o impasse vire espelho das refregas digitais. Essa plataformização do ambiente legitima interlocutores nefandos, encabeçados pela seleta casta dos evangélicos que leem George Orwell.

A liberdade de expressão funciona para os oportunistas como criptografias e algoritmos para os monopólios digitais. Não por acaso, ambos os grupos apelam à autovitimização e exploram a hipossuficiência técnica dos usuários para convencê-los de que são livres nas redes sociais e, pior, de que têm o “direito” de espalhar falácias e agressões.

Abordando os disparos massivos nos aplicativos de mensagens, o uso de informações pessoais e o enquadramento das redes nos Códigos Penal, Civil e do Consumidor, com normas claras, simples e fiscalizáveis, a proposta já avançaria muito. Exigir que ela remende todos os defeitos da pós-democracia é uma maneira de inviabilizá-la. E não faltam vozes que defendem a regulamentação “ótima” porque adivinham o seu fracasso.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Entre farsas e bocejos



É quase um dever cívico desconfiar de ações da Polícia Federal envolvendo Sérgio Moro. Essa conjugação amiúde gerou arbítrio, desde oportunismo propagandístico até violação de direitos. Lula apenas tornou pública uma suspeita que deveria ocorrer a todos os democratas.

Isso dispensaria maiores conhecimentos sobre o tal inquérito do PCC. Quem não enxerga na biografia de Moro e no histórico da PF motivos suficientes para incredulidade normaliza os delitos da Lava Jato e seu papel na ascensão do fascismo no país.

Manifestar dúvida, ato performativo de linguagem, não descreve acontecimentos do mundo. Isso vale também para convicções. Moro não embasou as suas e jamais houve manchete na Folha de São Paulo afirmando que ele condenou Lula “sem apresentar provas”.

Veículo tendencioso procura só o que quer encontrar. A única referência da mídia para dizer que Lula mentiu foi uma versão antagônica. E, mais importante, uma versão constatativa, que deveria passar por verificação antes de ser tomada como verdadeira. Verossímil não era.

O jornalismo das checagens seletivas alimenta fetiches loucos pela PF. Começou na Lava Jato (claro), atravessou vazamentos clandestinos e desaguou no estranho atentado a Bolsonaro, auge da crença midiática na corporação. Os policiais têm enorme talento persuasivo.

Moro disse que, se lhe acontecer “alguma coisa”, a culpa será de Lula. Ninguém quis saber de provas para uma acusação dessa gravidade Como o noticiário reagiria diante de uma liderança petista que insinuasse que o senador planeja encenar um ataque a si mesmo?

A reaparição da juíza Gabriela Hardt, vitimizando o colega às vésperas do depoimento de Tacla Duran, é a parte exposta de um iceberg narrativo muito mal contado. A histeria em torno da entrevista de Lula visou jogar o bode na sala. Finda a polêmica, mudam de assunto.

Acho apressado ver erro no gesto de Lula. No mínimo ele desequilibrou o viés único da pauta. E não é absurdo supor que o lado negativo da exposição de Moro tenha reduzido a sanha conspiratória do lavajatismo. A repercussão do próximo factoide tornou-se imprevisível.

Não entendo por que Lula deveria “esquecer Moro”, se todos os dias o governo batalha contra os danos que o ex-juiz causou. Ele não merece o conforto do ostracismo. E o presidente pode (e deve) continuar expondo as origens institucionais desse pesadelo que não termina.

Querendo escolher adversários, Lula decerto optaria por um desqualificado irrelevante. Mas o falso protagonismo de Moro no enredo já havia sido imposto pela cobertura noticiosa. Se lhe conferem estatura de mártir justiceiro, ele cabe também no figurino de inimigo da democracia.

O episódio serve para a esquerda ajustar sua bússola crítica à linha que divide a civilidade gregária e a tolerância a golpistas. O fato de os veículos abraçarem Moro com tamanha avidez mostra o nível do oposicionismo republicano que pretendem alavancar. De novo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Uma estratégia para a reta final



Metáfora futebolística, exagerando na prudência: o time de Lula está ganhando o jogo por um a zero, faltando poucos minutos para acabar. Suponhamos, por um arroubo de catastrofismo, que o empate dá o título ao adversário e que o juiz não é confiável.

Se recuar, Lula toma sufoco e pode sofrer um revés fatal. Precisa manter a pressão no campo do bolsonarismo. Pouco importa não fazer gol, desde que impeça ou atrapalhe as jogadas alheias. De preferência mantendo a bola, isto é, a pauta dos debates eleitorais.

Defendendo, obviamente, os bolsonaristas não atacam. O esforço que seria usado com a disseminação de mentiras é canalizado para aliviar o desgaste de Bolsonaro. Afinal, ele não pode desperdiçar um mísero voto.

O lulismo não vencerá se jogar bonito, der “chutão” ou esperar o adversário. Quer dizer, respectivamente, com firulas conceituais nas bolhas progressistas, arroubos públicos desesperados e confiança nas instituições. Esse foi o esquema que perdeu em 2018.

Abafar as investidas do bolsonarismo exige tirá-lo do conforto, recuar seus atacantes. Isso equivale a surpreendê-lo, atuando nos espaços em que ele se julga mais seguro: páginas, grupos e perfis digitais de propaganda fascista e dos aliados de Bolsonaro.

O grau de fidelidade na polarização é quase total, mas ainda existem bolsonaristas inconvictos. Desde que os formadores de opinião se envolvam no esforço de preservá-los, o placar não muda. O tempo passa e Lula continua em vantagem.

Não vale a pena abusar de texto. A agressividade reforça a coesão bolsonarista e jargões democráticos não afetam sua demência. Fotos e vídeos são suficientes, no máximo com um chamado tipo “vejam isso”, “estou preocupada”, “não sei mais o que pensar”, etc.

Os ambientes possuem leques temáticos próprios. Os círculos religiosos são sensíveis a imagens de violência contra católicos, pedofilia, canibalismo. Nos “jornalísticos” cabem desemprego, arrocho, corrupção. Nos partidários, ameaças de golpe e sabotagem.

Também é importante divulgar conteúdo informativo legítimo, sem alterações. Tanto para afastar suspeitas de crime eleitoral quanto para ampliar o estrago e forçar respostas mais elaboradas. E ninguém precisa de “fake news” para desmascarar Bolsonaro.

Se cada militante der algumas dessas estocadas por dia em certos nichos bolsonaristas, as intervenções atingem números capazes de emperrar os avanços digitais de Bolsonaro. O volume importa, pois dá trabalho fiscalizar, bloquear e responder comentários.

Não faz sentido estratégico repetir os discursos propositivos que a campanha oficial de Lula já divulga, com alcance inigualável. A militância possui maneiras mais eficazes de aplicar sua ansiedade pré-eleitoral, sem correr riscos desnecessários.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Vera Magalhães e a lógica do escorpião



Questionada no Twitter a respeito da ausência de Lula no programa Roda Viva (TV Cultura), a âncora Vera Magalhães respondeu, em dois de abril de 2020:

Olha só: ele foi convidado no ano passado, antes da minha gestão. Quis aprovar a bancada. Diante do não, se recolheu. Não vai usar o programa para retomar uma polarização nefasta ao país e que é tudo que o bolsonarismo quer.

Lula não é player da crise de covid-19. É um condenado em prisão domiciliar. Por isso e por ter mais de 60 tem de ficar em isolamento. Emular esse espantalho político é tudo que Bolsonaro quer para cortina de fumaça dos seus erros.

Se afoitos e ingênuos querem ser o sapo da travessia do escorpião, o Roda Viva não será essa jangada. Vamos seguir fazendo jornalismo de serviço e relevância, ouvindo quem tem o que dizer nesse momento grave do país.

Tiremos logo o bode pandêmico da sala. Poucos dos entrevistados pelo Roda Viva naquele ano tinham ligação profissional com áreas relacionadas à Covid. Menos da metade ocupava cargo público de qualquer natureza. A lista incluiu Ciro Gomes, Simone Tebet e João Santana (!), prestando serviço mais ao sonho da “terceira via” eleitoral do que ao contribuinte.

A estreia de Magalhães no programa ocorrera três meses antes das mensagens acima, tendo Sérgio Moro como convidado. Os anfitriões formaram uma bancada amistosa para recebê-lo. Esnobaram Glenn Greenwald, cujas reportagens haviam originado o então recente escândalo da “Vaza Jato”, que já anunciava uma reviravolta no cenário político nacional.

Alguém com a índole autocrática e vaidosa de Moro não participaria do Roda Viva, naquele contexto, sem vetar nomes. A direção jornalística da emissora (já a cargo de Leão Serva) antecipou-se e tornou o veto desnecessário. Livrou de constrangimentos o artífice do golpe judicial que permitira a ascensão do fascismo ao poder. Um ministro do governo Bolsonaro.

O episódio ajuda a entender o viés ideológico dos textos de Magalhães. A falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro e a adjetivação negativa do ex-presidente com base na sentença de Moro fazem parte do discurso típico do lavajatismo. A sugestão de manter o petista fora do jogo político (“isolado”) repete o objetivo confesso do ex-juiz e de seus cúmplices.

Como se não bastasse, Magalhães ironizou a idade de Lula, distorceu sua situação jurídica e usou-a para torná-lo indigno do debate público. Eximiu Bolsonaro de culpa, reduzindo seus crimes a “erros” e naturalizando a ideia de que ele apenas reage ao polo contrário. Em suma, usou a retórica fascista habitual para desqualificar uma liderança do campo democrático.

Dois anos depois, o “espantalho político” de Magalhães é novamente o favorito disparado na corrida sucessória. A “polarização nefasta”, que Lula jamais deixou de encabeçar, sintetiza um anseio majoritário pelo fim da tragédia parida no sucesso midiático da Lava Jato. A vitrine do Roda Viva não se mostrou capaz de alavancar seus “players” de estimação.

Eis que a metáfora com a fábula do sapo e do escorpião ganha aspecto premonitório. No final das contas, os afoitos e ingênuos estrebuchando no rio são Magalhães e Serva, ferroados pelos bichos paridos do arbítrio que ambos legitimaram. Num requinte de humilhação, recebem a (merecida) solidariedade que negaram aos desafetos injustiçados.

Mas a narrativa edificante serve também para os progressistas que se lançam no resgate dos colegas em apuros. Quando o fascismo incendeia a floresta, os anfíbios democratas ajudam os aracnídeos de ideologia peçonhenta a alcançarem a margem segura da civilização. Basta começar o governo Lula e a natureza recolocará esse pacto ilusório nos devidos termos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Os defensores do TSE caíram na armadilha de Bolsonaro



O transporte e o armazenamento da estrutura de votação fornecem brechas oportunas ao impulso golpista. É mais fácil o bolsonarismo sabotar um processo vigiado por militares e policiais federais do que os funcionários civis fiscalizarem tamanho contingente.

Ocorre que TSE não se preparou para um cenário de ameaça efetiva. Esnobando os acadêmicos sérios que apontavam falhas no sistema digital, perdeu a interlocução crítica e qualificada que o forçaria a evoluir. Iludiu-se com os brilhos da unanimidade.

A rejeição do voto impresso deveria incentivar rigores que o substituíssem, mas os avanços foram superficiais. A amostragem de urnas selecionadas para controle, por exemplo, segue critérios estatísticos impróprios e tem escasso valor preventivo.

O fã-clube do TSE nem tomou conhecimento dos riscos. Preferiu repetir que os testes oficiais nunca apontaram problemas e que as fraudes são impossíveis porque ainda não ocorreram. Festejou o apoio dos diplomatas a um método que seus governos repudiam.

A mania de blefar em benefício da urna sinaliza que Jair Bolsonaro pautou esse debate. Ideologizando questões técnicas, conseguiu se livrar do cientificismo que seus inimigos usaram para desmascará-lo no auge da pandemia. Tornou-os negacionistas.

A obsessão com as narrativas de Bolsonaro naturalizou sua mentira central: a ideia de que a integridade do sufrágio depende apenas da “lisura” do TSE. Já que a hipótese de conluio do tribunal com o PT é absurda, a correta apuração dos votos está garantida.

Mas a confiança nas autoridades e os fenômenos materiais têm lógicas probabilísticas muito diversas. Embora o sucesso de um ataque ao sistema eleitoral seja duvidoso, a chance de correção dos seus danos é simplesmente zero. Não, boletins não servem.

Imaginemos que, ao término da votação, os códigos de uma urna revelem um comando capaz de transferir votos de Bolsonaro para Lula. Seria ridículo atribuir a manobra ao PT, mas não haveria meios tecnológicos, legais ou políticos de absolvê-lo.

Assim, os apologistas do TSE podem estar ajudando a produzir o clima da cassação da candidatura petista. Quanto maior a afinidade simbólica da oposição com o tribunal, maior o constrangimento imposto por uma fraude anônima que “ajudasse” Lula.

A esquerda subestima os efeitos de litígios na disputa presidencial. Foram os tribunais que engendraram o golpe fascista, com auxílio dessa mídia que não checa as auditorias que não auditam. No próprio TSE há ministros que seguem aplaudindo Sérgio Moro.

Mas é sobretudo o corporativismo que ameaça os planos progressistas. Nem a imprensa nem as cortes darão a Lula o benefício da dúvida, se para isso tiverem de expor uma vulnerabilidade qualquer do rito eletrônico. Muitas reputações graúdas estão em jogo.

Confundindo propaganda com certeza e republicanismo com autoengano, os democratas ajudam a manter o país vulnerável ao golpe. A transformação do TSE em protagonista da campanha dá a Bolsonaro o único oponente que ele consegue derrotar sem voto.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Vamos falar de golpe?



O campo democrático exibe uma irresponsabilidade chocante apegando-se às frágeis narrativas do TSE sobre a segurança do voto eletrônico. Pessoas que temem um golpe fascista desconsideram os meios potencialmente mais simples de viabilizá-lo.

A miopia tem origem na presunção de que a natureza “científica” da tecnologia eleitoral serve como antídoto para o obscurantismo bolsonarista. Assim, a defesa da candidatura Lula se confunde com a defesa do equipamento que registrará seu êxito inevitável.

É assombroso que ninguém sequer imagine o cenário oposto. E se a apuração der vitória a Bolsonaro, contrariando a liderança de Lula nas pesquisas? A claque do TSE aceitaria boletins de urna como prova? Ou questionaria o método que não cansou de elogiar?

Por outro lado, e se Lula vencer, mas os técnicos descobrirem um comando malicioso supostamente capaz de favorecê-lo? Os votos originais seriam recuperados, para atestar a falta de sentido da manobra? O PT conseguiria evitar a cassação da chapa?

Essas hipóteses valem tanto quanto qualquer especulação conspiratória. E as perguntas que as acompanham não são retóricas. Quem confia nos mecanismos de votação deve respondê-las sem apelar para a fácil recusa de sua verossimilhança.

Mas nem a credulidade absoluta serve como argumento. Os controles do TSE poderiam ser ludibriados mesmo que não tivessem as lacunas graves que têm. A sofisticação do crime digital amiúde supera os melhores sistemas de vigilância do planeta.

Menciono um exemplo já considerado obsoleto: há doze anos, EUA e Israel sabotaram usinas nucleares iranianas, sem recorrer à internet, usando um vírus que apagava seus rastros. E é com o governo israelense que Bolsonaro negocia programas espiões...

A esquerda se protege do fatalismo cultivando uma espécie de paranoia desejosa com o tal motim fascista. Apesar da violência que a define, é a mais reconfortante das ameaças antidemocráticas. Começa na derrota do inimigo e termina com sua desmoralização.

Seria prudente imaginar também as alternativas incômodas. Certos riscos pedem cautela preventiva ainda que tenham mínimas chances estatísticas, ou sequer admitam cálculos de probabilidade. Basta que envolvam danos gravíssimos e irreversíveis.

Uma sabotagem eficaz contra a vulnerável estrutura do TSE consolidaria a reeleição de Bolsonaro. O golpe seria escandaloso, mas não haveria clima político ou bases técnicas para impedi-lo. Afinal, os próprios democratas legitimaram a confiabilidade do sistema.

A fantasia de resistência institucional ao fascismo nutre um vício triunfalista. Enquanto faz apelos pragmáticos e moderados, a oposição subestima os adversários e se acomoda numa passiva utopia tecnológica. Não pode haver definição mais precisa de “salto alto”.