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quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

O golpe híbrido



A esquerda apega-se a interpretações rudimentares dos planos golpistas que culminaram nos ataques de oito de janeiro de 2023. A extensa bibliografia acadêmica sobre “guerra híbrida” ilustra a complexidade que as análises predominantes deixam de buscar.

Mas não precisamos explorar esse conceito em profundidade. É suficiente deixá-lo como referência para uma abordagem dos fatos que se aproxime do raciocínio estratégico ou, pelo menos, que respeite a sensatez característica da inteligência militar.

Pois duvido que um tenente-coronel deleuziano bem informado tivesse ilusões sobre o futuro do golpe bolsonarista. Não porque o projeto fosse naufragar, pelo contrário. Seu êxito, além de previsível, seria institucionalmente catastrófico para as Forças Armadas.

Quaisquer cenários do novo regime envolviam crises domésticas e externas de efeitos incertos e uma redemocratização com viés punitivo e reformista. O sucesso imediato da sublevação levaria, em curto ou médio prazos, a um revés histórico do campo militar.

A simples realização do processo eleitoral mostra que essa leitura vingou. Se a recusa à ideia de abortá-lo fosse legalista, não estratégica, teria barrado também as sabotagens, os conluios assassinos e a “festa da Selma”, que os arapongas decerto monitoraram.

O desfecho da aventura revelou que lado da cizânia interna tomava as decisões efetivas. Ponto fundamental da questão: a tentativa de golpe nasceu frustrada porque os setores que poderiam viabilizá-lo não o desejavam. E só nasceu porque eles permitiram.

É que o impulso criminoso de Bolsonaro gerava oportunidades irresistíveis. Primeiro, atentados, acampamentos e invasões serviriam como grande exercício de logística, psicologia e mobilização digital. Um verdadeiro banquete para a inteligência militar.

Além disso, havia o potencial destrutivo das manobras finais em Brasília. O peso simbólico do vandalismo, inclusive junto às tropas, era algo que os comandos de ambas as facções nunca desperdiçariam. Especialmente sabendo que ficariam impunes.

Por fim, a desmoralização dos golpistas torna os oficiais “democratas” hegemônicos na cúpula militar e no próprio governo federal. Viram fiadores da estabilidade, controlando as temperaturas internas e protegendo as instituições contra o bolsonarismo raivoso.

Eis a resposta ao enigma dos privilégios concedidos por Lula às Forças Armadas. Nesse ambiente, não vale a pena majorar expectativas com os inquéritos sobre a regência do golpe. Na melhor das hipóteses, eles pouparão o corpo submerso de um vasto iceberg.

A anistia do primeiro escalão militar vem sendo costurada há meses, e é tolice achar que Lula pode ou deseja impedi-la. Mesmo o que hoje parece inevitável depende de certos cálculos: a prisão de Bolsonaro compensaria uma GLO para deter seus mentecaptos?

Típica figura da cartilha “híbrida”, a crença numa vitória que não houve é capitulação inconsciente, passiva, que materializa o triunfo dos adversários sem o desgaste de um confronto aberto. A narrativa do predomínio judicial bloqueia a percepção da derrota.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Lula falou e disse



Lula às vezes comete erros falando de improviso. A maioria deles é irrelevante e serve apenas para o comentarismo de direita marcar posições letradas e “corretas” que aliviem seus hábitos peçonhentos. A repercussão dura pouco e nada produz.

Nos casos incômodos, a forma ruim prejudica um conteúdo louvável. Foi o que ocorreu na recente declaração sobre Gaza. Lula deveria ter sido mais cauteloso para abordar o tema, nas atuais circunstâncias, independentemente de seus bons propósitos.

Mas os rigores sisudos que valem para sua opinião valem para a opinião dos críticos. É fácil refutar enunciados inexistentes. O contrário do que Lula não afirmou pode ser inquestionável e não ter relevância alguma no debate. Sejamos, então, rigorosos.

Lula não citou o Holocausto, menos ainda o associou a Gaza. Não sugeriu que todo judeu é israelense. Não poupou o terrorismo. Não relativizou os campos nazistas de extermínio. Não menosprezou a dor de milhões. Não igualou bombas a câmaras de gás.

O único paralelo feito por Lula envolveu Hitler e Netanyahu. De modo mais literal, os massacres de Gaza e um embreante cronológico indeterminado (“quando Hitler resolveu matar os judeus”), remetendo a decisão necessariamente anterior ao Holocausto.

Do projeto ignominioso de Hitler à sua obra nefasta muita coisa ocorreu. A omissão da comunidade internacional, por exemplo, metida em polêmicas inúteis sobre como qualificar o óbvio. E o cinismo dos apaziguadores que tripudiavam dos “alarmistas”.

Sim, logo adveio o Holocausto. Mas quem recusa reflexões alusivas às suas origens nega-lhe a historicidade que o torna irrefutável e que o legitima como referência para as gerações atuais. Os massacres de todas as épocas têm algo em comum.

Curioso é ver analistas “democratas” reagirem à denúncia misturando o discurso de Netanyahu com relativizações semânticas de seus crimes. Diante de um genocídio bárbaro, apoiado pelos EUA, o problema foi Lula abominá-lo mencionando Hitler.

Em outra lógica tortuosa, a imparcialidade se confunde com equivalência grotesca. Seu raciocínio condena Netanyahu e Lula igualmente, admitindo o morticínio deliberado “mas” rejeitando também as palavras de indignação. É uma escolha muito difícil.

Ainda que o próprio Lula endossasse as leituras adotadas, continuaria sendo ridícula a interpretação automática, negativa, de seu apelo humanitário. A intuição de garimpar vestígios antissemitas em desabafo que pedia solidariedade por civis inocentes.

Tudo que a celeuma produziu foi a consolidação da imagem de Lula como defensor de uma causa justa. No polo oposto, um aliado de Bolsonaro o substitui no papel de "vilão útil" da direita midiática. O tom religioso das análises não deveria causar surpresa.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Neonazistas do bem



A solidariedade incondicional pela Ucrânia faz parte da imagem positiva que os aliados exibem para plateias internas e externas. As aparências são tênues, contudo, e exigem o silenciamento dos debates que possam revelar suas contradições.

O maior desses embaraços vem do neonazismo ucraniano. O esforço para subestimá-lo envolve até acadêmicos e jornalistas respeitáveis, segundo os quais as milícias são poucas e esparsas, parecidas com núcleos “ultraconservadores” de diversos países.

Pois estão mentindo. O documentário “Máscaras da Revolução”, do insuspeito Canal + francês, mostra que o neonazismo da Ucrânia é nazista mesmo e se organiza em vastos contingentes militarizados. Não há fenômeno similar nas potências ocidentais.

Eis a vergonha bloqueada pelo uníssono midiático internacional: os EUA e a Europa repassam fortunas bilionárias e imenso poderio bélico a milhares de neonazistas. Como fizeram com o jihadismo afegão, fomentam a barbárie com a desculpa de combatê-la.

Decisivo na resistência aos invasores, absorvido pelo exército e mais poderoso do que nunca, o neonazismo terá destaque inevitável no futuro governo. Então nascerá outro celeiro fascista na Europa, dando-lhe o pior triunfo geopolítico que ela poderia almejar.

Mas nenhum efeito negativo da insensatez supera os crimes de guerra ucranianos, que desde já exibem as marcas inconfundíveis das quadrilhas nazistas. Massacres e torturas realizados com dinheiro e armamentos fornecidos pelas democracias humanitárias.

A adesão imediata à censura mostra que os custos da parceria miliciana, como o próprio conflito, foram antecipados. Governos e mídia corporativa bloquearam a divulgação desses riscos, garantindo que ninguém ousasse prevenir suas óbvias consequências.

Os novos macartistas alegam refrear apologias aos delitos russos, mas de fato visam blindar a causa ucraniana. O perigo vem da rejeição pública à mera hipótese de fortalecer o nazismo, não importando o número, a origem ou a serventia dos imbecis.

Uma coisa é refutar a narrativa cínica de que os neonazistas justificam a invasão. Algo muito diverso, porém, é tomar o exemplo do imperialismo de Hitler como pretexto para um endosso conveniente à sua ideologia. Esse discurso vai além da estratégia militar.

O problema não envolve a índole de Putin, a judeidade de Zelensky ou a democracia liberal ucraniana. Envolve, sim, o uso desses argumentos banais para desviar o foco da naturalidade com que o Ocidente esnoba os valores civilizatórios que afirma defender.

A normalização da ideia de que há neonazistas inofensivos é sintoma de uma patologia moral. Seu diagnóstico ajuda a iluminar as estruturas subjetivas e institucionais que têm viabilizado o avanço do extremismo, a despeito dos hipócritas apelos contrários.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Rescaldos da tragédia

















Apesar da perplexidade e da desinformação, podemos antever certos desdobramentos narrativos da infâmia parisiense. Mais especificamente, as versões que não merecem o endosso de observadores críticos.

No flanco esquerdista, o desprezo cínico pelas vítimas e os argumentos geopolíticos de justificação da violência. O extremismo islâmico é inaceitável sob todos os aspectos. Não há “choque de cultura”, guerra ideológica ou relativismo pós-modernoso que faça a barbárie parecer aceitável numa circunstância e deplorável em outra.
           
Na vertente direitista, a comoção romântica diante do paraíso civilizatório ameaçado. A situação dos direitos humanos, a realidade social e a competência do Poder Público na França são muito piores do que disseminam a propaganda turística e o provincianismo ignorante. Uma incrível cadeia de abusos e incompetências estatais primeiro gerou e depois agravou o massacre parisiense. Os terroristas eram (são) franceses.

Por fim, no comentarismo falsamente equilibrado, o ranço elitista da indignação seletiva. A diferença das reações geradas pela chacina de “nossos semelhantes” em lugares chiques de Paris e pelo banho de sangue no botequim da periferia paulistana revela um componente ideológico que nada possui de humanista. Alguém que aceita os policiais carniceiros de Geraldo Alckmin não pode exigir punições exemplares para os terroristas muçulmanos.

Como combater a intolerância e a barbárie sem transformá-las em instrumentos desse mesmo combate? Por que os mais avançados sistemas de inteligência do planeta são incapazes de prevenir ações de tamanha envergadura? O que os atentados ensinam sobre o controle de armas, a corrupção de agentes públicos, o tratamento aos imigrantes e as estratégias intervencionistas das potências militares mundiais?

Nenhuma das perguntas tem resposta fácil, e nem deveria ter. Se as enfrentássemos com honestidade e coragem, no entanto, em vez de fazermos especulações rasteiras, as mortes de Paris não seriam totalmente vãs. Enquanto nos iludimos com homenagens, condolências e exibicionismos nacionalistas, alguém está preparando o próximo ataque.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Impérios
















“É impossível entender a situação no Mali sem examinar o papel da Argélia”, escreve Pepe Escobar em seu artigo no Asia Times. Segundo o correspondente, os serviços de inteligência dos EUA, da Argélia e das potências europeias fomentam de maneira orquestrada o recrudescimento do terrorismo no noroeste da África. E o fazem movidos por interesses complementares.

Provocando a necessidade de uma intervenção armada e usando a tecnologia militar como pagamento pelo apoio de Argel, estadunidenses, franceses e aliados expandem seu controle sobre os recursos energéticos da região, particularmente o petróleo e o gás na fronteira norte do Mali e o urânio do Níger, a leste. Aproveitando as disputas locais que se alimentam do colapso institucional malinês, o governo argelino incorpora a “Guerra ao Terror”, há pelo menos uma década, para expandir e consolidar seus interesses no chamado Magrebe.

Tuaregues, líderes militares e células combatentes reproduzem o papel benéfico da própria Al-Qaeda para a diplomacia expansionista ocidental: ajudam-na a combater inimigos circunstanciais e depois se tornam eles mesmos os inimigos circunstanciais. Completo o ciclo, restam apenas os vitoriosos.

O surto neocolonialista empurra a França para um inexplicável e temerário conflito internacional. Os “analistas” brasileiros não aplaudiriam como reses a iniciativa se os interventores viessem de um país saariano, mesmo que professasse as mesmas intenções civilizatórias.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Síria através do espelho



Por Pepe Escobar, no Asia Times

“O drama atual da Síria está longe da costumeira bobagem ‘mocinhos versus bandidos’ de Hollywood. A suspensão da visita dos observadores da Liga Árabe, o duplo veto da Rússia e da China no Conselho de Segurança da ONU, o aumento da violência, especialmente em Homs e alguns subúrbios de Damasco: tudo confirma os temores generalizados no mundo em desenvolvimento de uma insurreição armada apoiada pelo Ocidente tentando reproduzir o caos na Líbia – um país ‘liberto’, agora dirigido por milícias fortemente armadas. Caso a Síria escorregue para uma guerra civil, desencadeará uma conflagração regional ainda mais horrível.

Eis uma tentativa de enxergar através da névoa.

1. Por que o regime de Bashar Assad não caiu?

Porque a maioria da população síria ainda o apóia (55%, segundo uma sondagem de meados de dezembro financiada pela Fundação Qatar).

Assad pode contar com o exército (não há deserções nas fileiras superiores), a elite empresarial e a classe média nas principais cidades (Damasco e Aleppo), os sunitas seculares e todas as minorias – dos cristãos aos curdos e drusos. Mesmo os sírios favoráveis à mudança de regime recusam as sanções do Ocidente e os bombardeios humanitários no estilo da Organização Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

2. Assad está ‘isolado’?

Por mais que a secretária de Estado Hillary Clinton deseje, e que a Casa Branca sublinhe que ‘Assad deve interromper sua campanha de crimes e matanças contra seu próprio povo’ e ‘se afastar’ – não, ele não está isolado. Os membros da ‘comunidade internacional’ defensores da mudança de regime na Síria são o CCG/OTAN (Conselho de Cooperação do Golfo da OTAN) – ou, para ser realmente específico, Washington, Londres e Paris e os xeiques do Golfo Pérsico (marionetes banhados de óleo, a maioria da Casa de Saud e do Qatar).

A Turquia faz um jogo ambivalente: hospeda o comando e o centro de controle da OTAN na província de Hatay, perto da fronteira síria, e ao mesmo tempo oferece exílio para Assad. Até Israel prefere o perigo que conhece a um imprevisível regime hostil pós-Assad liderado pela Irmandade Muçulmana.

Assad é apoiado pelo Irã, pelo governo de Bagdá (o Iraque recusou-se a aprovar as sanções), pelo Líbano (idem) e acima de tudo pela Rússia (que não quer perder a base naval de Tartus) e por sua parceira comercial, a China. Isto significa que a economia da Síria não será sufocada (aliás, o país está acostumado à vida sob sanções e não tem que se preocupar com dívidas). O grupo dos BRICS é inflexível: a crise síria tem que ser resolvida apenas pelos próprios sírios.

3. Qual é o jogo da oposição?

O Conselho Nacional Sírio (CNS), conduzido do exílio em Paris por Barhoun Galyan, alega representar todas as forças da oposição. Dentro da Síria, sua credibilidade é duvidosa. O CNS é afiliado ao Exército Sírio de Libertação (ESL), composto de sunitas desertores, mas fragmenta-se em gangues armadas, algumas infiltradas por mercenários dos países do Golfo. Mesmo o relatório da Liga Árabe teve que reconhecer que o ESL está matando civis e membros das forças de segurança e bombardeando edifícios, trens e gasodutos.

A oposição armada não tem um comando central; é essencialmente regionalizada, e não possui armas pesadas. A oposição civil é dividida e não tem qualquer programa político, exceto o lema ‘o povo quer a queda do regime’, roubado da Praça Tahrir.

4. Como estão divididos os próprios sírios?

Aqueles que apóiam o regime vêem uma conspiração sionista/americana – com a Turquia e partes da Europa como coadjuvantes – para dividir a Síria. E eles vêem a gangue ‘terrorista’ armada – infiltrada por estrangeiros – como a única responsável pela violência.

Os dissidentes e a oposição civil fragmentada sempre foram pacíficos e desarmados. Então começaram a receber proteção dos desertores militares, que trouxeram suas armas leves consigo. Todos descartam a versão governamental dos eventos, acusando-a de pura propaganda. Para eles, os verdadeiros ‘terroristas armados’ são os sabbiha – bandos assassinos paramilitares pagos pelo governo. Sabbiha (que significa ‘fantasmas’) são essencialmente descritos como alauítas, cristãos e drusos, adultos mas também adolescentes, óculos escuros esportivos, tênis brancos e braçadeiras coloridas, armados com facas e paus, e usando nomes falsos entre eles; os líderes são tipos musculosos dirigindo Mercedes pretos.

Mesmo os movimentos de massa estão em conflito. Os protestos (‘muzaharat’) foram confrontados pelo regime com procissões (‘masirat’). Não está claro se as pessoas que se juntaram a eles eram funcionários públicos constrangidos a isso ou se foram movidas por uma decisão espontânea. A mídia estatal síria mostra os manifestantes como agentes provocadores ou mercenários, e prontamente descarta a insatisfação daqueles que vivem sob um Estado policial sem liberdade política.

Um fator extra de divisão é que o número de mais de 5.000 pessoas mortas (até agora) calculado pela ONU não distingue as vítimas oposicionistas e as favoráveis ao regime, e simplesmente ignora os mais de 2.000 soldados mortos do exército sírio (seus funerais aparecem na TV estatal praticamente todos os dias).

5. O que os cristãos pensam sobre tudo isso?

O Ocidente cristão – que adorava fazer compras baratas no mercado (‘souq’) de Damasco – deveria prestar atenção à forma como os cristãos sírios vêem os protestos. Eles temem que os sunitas no poder reprimam as minorias (não apenas os próprios cristãos, mas também os drusos e os alauítas). Eles vêem, na maioria sunita, fanáticos islâmicos ‘ignorantes’ e ‘atrasados’, sem a menor idéia sobre democracia, sobre direitos humanos ou sobre um caminho lento e negociado para a democracia.

Este grupo analfabeto, segundo eles, vive na periferia, não tem nenhum respeito pela (ou entendimento da) vida na cidade grande, apóia a violência causada por gangues armadas e busca um Estado islâmico (a propósito, é essencialmente o que a Casa de Saud quer para a Síria). Os sunitas seculares, por sua vez, criticam os cristãos, ressaltando que a maioria dos sunitas é formada por empresários, investidores e liberais – e certamente não querem um Estado islâmico. Deve ser enfatizado que a oposição é ‘trans-confessional’ – ou seja, inclui cristãos e até mesmo alauítas.

6. Qual é a estratégia ocidental?

Borzou Daragahi, do Financial Times, acaba de confirmar que as milícias em Misrata (Líbia), anunciaram as mortes de três mercenários líbios. Estes quadros do Conselho Nacional de Transição desembarcaram na Síria – juntamente com armas roubadas de armazéns de Khadafi – num avião de carga da OTAN.

Há meses, como a página do Asia Times informou, forças especiais francesas e britânicas treinam combatentes em Iskenderun, no sul da Turquia. A CIA colabora com inteligência e comunicações.

O ESL utiliza a ultraporosa fronteira sírio-turca à vontade. A Turquia construiu vários campos de refugiados, e Ancara hospeda os líderes tanto do CNS quanto do ESL. Há também o front jordaniano – a conexão com a cidade de Daraa, majoritariamente islâmica e retrógrada. Mas a fronteira sírio-jordaniana está infestada de minas e fortemente patrulhada; isso implica um desvio de 200 quilômetros de extensão no meio do deserto.

Acima de tudo, os soldados do ESL vão e voltam livremente do Líbano. A rota de contrabando privilegiado parte do norte do vale do Bekaa, no Líbano, rumo aos redutos da oposição, Homs e Hama, cidades de maioria sunita. Há outra rota a partir do vale do Bekaa em direção ao sul, para os subúrbios de Damasco (o que explica como ambos os redutos são abastecidos). Mas a coisa toda é muito perigosa, porque o Hezbollah, aliado sírio, é muito forte no vale do Bekaa.

7. Quem está ganhando?

Assad prometeu, mais uma vez, nesta terça-feira, ao ministro russo Sergei Lavrov, que haverá uma nova constituição e eleições nacionais no próximo verão. Sincera ou não, é uma tentativa de reforma.

No entanto, os habituais ‘funcionários anônimos do governo’ americano já vazaram para a CNN que a Casa Branca pediu ao Pentágono cenários simulados para uma intervenção militar direta dos EUA em favor dos rebeldes. Portanto, uma intervenção da OTAN atravessando a ONU permanece como sólida possibilidade; uma operação clandestina que se possa jogar na conta do regime Assad seria um perfeito casus belli.

8. E a conexão Síria-Irã?

A Síria é crucial para a esfera de influência do Irã no sudoeste da Ásia – o flanco oriental da nação árabe. Rússia e China querem manter o status quo, porque ele implica um balanço de forças regionais que reduz a hegemonia americana. Para a China, o fornecimento ininterrupto de petróleo e gás iraniano é uma questão extrema de segurança nacional. Ademais, se os EUA estiverem de mãos atadas no Oriente Médio, a tão propalada intervenção da administração Obama e do Pentágono na Ásia, especialmente no Mar da China Meridional, levará muito mais tempo para ocorrer.

O núcleo das elites de Washington vê a mudança de regime na Síria como uma maneira crucial de ferir o Irã. Portanto isso vai muito além da Síria. Trata-se de quebrar o regime iraniano (que não é uma satrapia ocidental), garantir os fluxos de energia do Oriente Médio para o Ocidente, manter o aperto sobre o CCG e sobre a intersecção entre os mundos árabe e persa e preservar o petrodólar. O jogo Síria-Irã é uma batalha titânica do CCG para expulsar Rússia e China do Oriente Médio. Sob os gritos e golpes dos chacais e das hienas de guerra, a Doutrina de Dominação de Espectro Total (‘Full Spectrum Dominance’) do Pentágono está mais viva do que nunca.”

No texto original, em inglês, o título é "Syria through a glass, darkly", que remete à frase bíblica (1 Coríntios 13:12) "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face".

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os bárbaros chegaram



As imagens do linchamento de Muammar Gaddafi comprovaram o acerto da prudência diplomática brasileira perante a ação da Otan na Líbia. Repetindo o velho roteiro intervencionista, os EUA e as potências européias utilizaram a supremacia bélica para aniquilar um governo outrora aliado e para dominar um país destruído pela guerra civil. Em pleno século vinte e um, sob o silêncio cúmplice da comunidade internacional.

A propaganda legalista de Hillary Clinton não engana ninguém. A única diferença da simples invasão militar, nos moldes iraquianos, é que seus objetivos diretos foram alcançados por intermediários locais. Sem os bombardeios maciços, as doações de armamentos e a infiltração de mercenários estrangeiros, os assim chamados “rebeldes” seriam trucidados pelo exército líbio. É o que ocorre na Síria e no Iêmen, onde Washington permite que os respectivos ditadores usufruam a soberania nacional.

A terceirização da selvageria não torna o Ocidente menos responsável por ela. A execução desumana e extrajudicial de Gaddafi simboliza a degradação moral de seus inimigos, rebaixados ao nível da monstruosidade que dizem combater. É fácil aplaudir sacrifícios públicos de tiranos sanguinários, mas isso não significa vencê-los de fato. Gaddafi junta-se à companhia de Benito Mussolini, Nicolae Ceausescu e outros cadáveres ilustres que simbolizam a permanência da barbárie nas entranhas da rica e desenvolvida civilização moderna.