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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Charlie merece a nossa incredulidade

















A denúncia de que o governo dos EUA mentiu sobre o assassinato de Osama Bin Laden comprovou a necessidade de mantermos cuidado especial com informações veiculadas em certos contextos dramáticos. Sob a comoção provocada por ataques terroristas, essa cautela pode fornecer o único antídoto contra radicalismos e xenofobias de toda espécie.

Um caso que ainda me parece desconfortável, no seu triste aniversário, é o do tenebroso atentado contra o Charlie Hebdo.

As imagens do ataque imediatamente chamaram a atenção para a eficácia dos matadores. Preparo, armamentos e estratégia lembraram mercenários muito bem treinados. Os melhores serviços secretos do mundo não fariam diferente.

Ao mesmo tempo, quase não houve semelhanças com outras ações motivadas por fanatismo religioso. O anonimato e a fuga destoavam da própria idéia de sacrifício ligada ao fenômeno. O silêncio inicial dos grupos terroristas foi outra raridade.

Como sói acontecer nesses casos, as versões oficiais não ajudaram. A identidade que o pistoleiro teria deixado no carro, os fuzilamentos de suspeitos e a confissão a um canal televisivo soaram convenientes demais para certos interesses poderosos.

Sob uma análise verdadeiramente crítica, não permanece nebulosa apenas a organização do crime. Tudo que temos de fato são pessoas mascaradas, a gravação de uma voz, as costumeiras biografias de imigrantes sofridos.
           
Somos obrigados a aceitar as evidências, fortes e coerentes demais para duvidarmos delas. Mas também precisamos lembrar que, numa das muitas hipóteses possíveis, se os jovens mortos tivessem sido forçados a assumir a autoria dos crimes, a narrativa disponível seria exatamente a mesma.

Manter algum ceticismo diante do episódio talvez não leve a descobertas inovadoras, mas pelo menos preserva algo do espírito iconoclasta do próprio Charlie Hebdo. Pois, se algo unia seus colaboradores chacinados, era a inabalável desconfiança perante discursos autorizados de qualquer natureza.

O problema é perceber que as teorias conspiratórias amenizam quase nada as assustadoras explicações das autoridades.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Não em nome do Charlie Hebdo














Na disputa shakespeariana sobre ser ou não ser Charlie, a tragédia em Paris serviu como reforço argumentativo para versões curiosas da liberdade de expressão, convenientes a cada grupo ou setor produtivo. Depois de tudo que se escreveu, resta a sensação de que esse conceito ficou ainda mais fragilizado e inatingível.

Sempre haverá espaço para discutir se o conteúdo veiculado pela publicação francesa abarca preconceitos religiosos. Mas nenhum cartunista do mundo tem obrigação de agradar sensibilidades. A manifestação criativa, principalmente nos campos da ficção, do opinionismo e do humor, não pertence à esfera polêmica. É soberana, imprescindível para a própria existência de um debate acerca dos seus produtos.

A idéia de que os cartunistas se excediam, além de admitir um inaceitável subtexto punitivo, implica o falacioso pressuposto de que eles estariam sujeitos a certas barreiras de ordem moral. Esse equívoco ajuda a contrabandear temas alheios à questão das liberdades individuais, submetendo-a ao mesmo relativismo autoritário que embasa, por exemplo, o cerceamento do dissenso político.

O uso impositivo da correção ideológica gera vias disfarçadas de arbítrio. Apesar dos jargões igualitários, as patrulhas do bom gosto, da decência e do “respeito” exercem uma forma de censura equivalente a qualquer outra. Deixam de valorizar as diferenças no momento em que estas se tornam incômodas: a democracia é positiva, desde que suas consequências não me desagradem.

Mas a responsabilização dos assassinados pelo menos ajuda a marcar posições claras. Muito pior é a apropriação oportunista e cínica do mote libertário. Alguns dos maiores inimigos da liberdade de expressão, especialmente governos e corporações midiáticas, usam o massacre para dissimular suas práticas coercitivas nas disputas que travam ao redor do tema.

Entre os aliados póstumos das vítimas há pessoas que defenderam a prisão do humorista francês Dieudonné. O veto a biografias não autorizadas. Os processos contra blogueiros que ridicularizaram o chefete da Rede Globo. A perseguição a quem ousa satirizar a sacrossanta Folha de São Paulo. A campanha contra o marco regulatório das telecomunicações. A difamação impune de adversários eleitorais.

O extremismo islâmico serve como antípoda legitimador dos interesses conservadores, tão hábeis em repetir discursos democráticos quanto em sufocá-los. Isso explica a rápida apropriação simbólica do massacre pelo mote institucional da “liberdade de imprensa”. O sentido prático dessa liberdade fica para os tribunais determinarem.

Charlie Hebdo virou ao mesmo tempo bode expiatório e mártir de uma cultura intolerante e repressiva que no fundo execra tudo que os cartunistas representam.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

No semáforo















Rapaz careca, de olhos congestionados, vestindo andrajos, passeia de mão estendida por entre os carros. Ante a recusa do motorista, com um ar de ironia, rebate:

– Ô, patrão, colabora. Eu podia estar protestando!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

“Ted”



















Comédia apelativa dirigida por Seth MacFarlaine, criador do hilariante seriado de animação “Uma família da pesada”. Ele próprio dubla tanto o urso do filme quanto alguns personagens do desenho, o que faz com que o bicho soe às vezes feito Peter Griffin e o cachorro Brian. Mila Kunis, aliás, costuma emprestar sua voz à garota Meg.

Não chega aos níveis mordazes da série, embora mantenha o humor “politicamente incorreto” (desconfio desse rótulo para o caso), cheio de alusões cinematográficas e musicais aos anos 80 e 90. Há uma originalidade inegável nesse misto de auto-ironia e cinismo, de fábula edificante e bestialidade, de subcultura nerd e crítica corrosiva ao moralismo hegemônico da sociedade norte-americana.

Como acontece no desenho, apesar do recurso ao grotesco, as pessoas da geração do diretor terão mais facilidade para entender as referências. Infelizmente, usa pouco os impagáveis flashbacks que se tornaram sua marca registrada, mas certas aparições de celebridades são quase inacreditáveis.

Tem lá sua graça, muito por conta da fofura e da simpatia do ursinho maconheiro. Mas imaginar Protógenes Queiroz assistindo ao filme com o filho de onze anos deixa tudo verdadeiramente impagável.

sábado, 21 de abril de 2012

sábado, 17 de março de 2012

Neil Gaiman, Adam Savage e Gollum



No famoso programa Wit, da rádio pública de Minnesota (EUA). Neil Gaiman é escritor e quadrinista consagrado ("Sandman"). Adam Savage (o Gollum) co-apresenta o programa MythBusters.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Trato

São raras as homenagens ao grande Reynaldo Jardim que citam sua passagem pela revista Bundas. É um desrespeito à memória do poeta e uma demonstração de ignorância, pois a Bundas foi um marco do humor impresso nacional.

O pior de tudo é imaginar que a omissão tenha origem num pudor jeca, amedrontado com a perigosa sonoridade do título da revista. O mesmo tipo de medinho que levou um funcionário a vetar a publicação daquele texto meu sobre a GVT na página do Ministério da Cultura. Disse ele: “O MinC não publica comentários que possuam expressões de baixo calão.” A expressão a que ele se referia é “cocô”.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"Do que a gente tava falando mesmo?"

Comprar uma agenda. A lampadazinha da geladeira. Um isqueiro. Sarar. Pagar todas as malditas contas. Organizar os pensamentos. Recomeçar, recomeçar a começar, recomeçar a recomeçar. Pensar melhor essa história de blog, de literatura, de cinema, de saudade e esperança. Entender um pouco disso tudo. E esquecer em seguida.

Por enquanto, ouvir esta divertida entrevista do Angeli.

sábado, 18 de dezembro de 2010