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quinta-feira, 25 de julho de 2024

Jornalismo de memes



Publicado no Observatório da Imprensa

Uma série de montagens visuais com o rosto do ministro Fernando Haddad surgiu nas redes bolsonaristas. As peças fazem trocadilhos pejorativos com referências midiáticas, no mesmo acabamento rudimentar que (não) disfarça o profissionalismo da autoria.

São os tais “memes” (iconotextos, na língua semiótica), de existência quase tão antiga quanto a da própria internet. Há milhões dessas figuras em circulação diária, das mais variadas estirpes, envolvendo celebridades, anônimos, bichos, personagens etc.

De repente, simultâneos, Folha, Estadão, Globo e outros veículos informativos trataram de divulgar o material contra Haddad. Algo que ficaria restrito a nichos radicais ganhou a atenção de um público mais amplo, endossada pelo discurso jornalístico.

Em outras palavras, a mídia que se afirma democrática e legalista ajudou a disseminar material enganoso, ofensivo a uma autoridade pública, não muito diferente dos produtos da indústria de crimes cibernéticos do fascismo. Mas qual seria a notícia no episódio?

Os editores têm duas respostas possíveis. De um lado, entenderam que houve um crime. Então precisariam seguir os protocolos éticos da denúncia jornalística: nomear o delito, esclarecer os fatos deturpados, cobrar as autoridades responsáveis. Apurar.

Isso não aconteceu. As difamações receberam tratamento de ironia crítica legítima. Haddad e o governo ocuparam espaços de contraponto, como se tivessem justificativas a dar. Como se os próprios veículos não soubessem discernir as falácias insinuadas.

De outro lado, a notícia poderia ser o alcance das mensagens. Mas a cobertura aumentou essa visibilidade no ato de repercuti-la. Em suma, criou o fenômeno que motivaria o destaque inicial. Potencializou o dano malicioso para explorar seu interesse.

Critério de noticiabilidade, sempre discutível, é terreno propício para o cinismo. Entre os registros literais das bravatas fascistas de Jair Bolsonaro e os artigos que julgam os discursos de Lula, o rigor seletivo das redações exala seus pendores ideológicos.

Tão sisudos para a falta de provas em acusações incômodas, os fiscais da verdade não acham correto problematizar os memes contra Haddad. Agências que denunciam “fake news” da esquerda fazem vistas grossas diante de material similar que a atinge.

Há anos, centenas de imagens ridicularizam Sérgio Moro, a família Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, ministros do STF e Arthur Lira, com popularidade e relevância contextual, mas são ignoradas pela imprensa. A reputação de Haddad não inspira o mesmo cuidado.

O problema já seria grave se ficasse na ingênua adesão ao vale-tudo digital, que certo jornalismo acha eficaz para reverter sua crise de legitimidade. Nivelando-se pela estupidez hegemônica, esse campo vira apenas outra ferramenta propagadora de memes.

Ocorre que a serventia é mais profunda e embaraçosa. O ataque à política econômica de Lula tem viés eleitoral. E o método da campanha, misturando escracho e manipulação, revela um pedigree bastante claro. Só precisamos entender de quem estamos rindo.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Conspiração



É inútil esperar grandes revelações sobre o episódio que vitimou Teori Zavascki. Jamais saberemos toda a verdade, seja pelas dificuldades técnicas e materiais de qualquer apuração do tipo, seja porque a improvável descoberta de indícios criminosos dificilmente chegaria aos seus eventuais autores, menos ainda aos mandantes.

Resta-nos uma espécie de disputa narrativa em torno da própria incerteza com a qual teremos de conviver. Mesmo sem esperança de sanar as suspeitas plausíveis, sugiro que as protejamos dos rótulos paranoides que elas recebem de crédulos e cínicos. Duvidar é sempre o caminho menos alienante.

Isso tem relevância porque envolve a simbologia da morte de Zavascki, esfera em que a manipulação age com mais desenvoltura. Há algo estranhamente passivo no conformismo fatalista alimentado às custas da tragédia. Parece que todos se preparam para um futuro inexorável de horrores trazidos pela ira divina. Sem resistência.

Por que não ocorre o contrário? O uso das notórias posições de Zavascki para pressionar o substituto a respeitá-las em seus votos? Para que os ministros do STF reconheçam e preservem esse legado? O esclarecimento da opinião pública acerca dos caminhos que os processos sob análise do falecido tomariam sem a tragédia?

Não precisamos buscar estratégias conspiratórias nas causas da queda do avião. Suas consequências são graves o bastante. A simples possibilidade delas terem nascido de uma sabotagem deveria servir para interditar os desdobramentos óbvios pretendidos pelos hipotéticos assassinos. Mas sussurramos “que peninha” e seguimos adiante.

Curioso esse comportamento surgir nos supostos defensores da Lava Jato. E justo naqueles mais céticos e avessos à tese do atentado hollywoodiano. Mas eles têm razão. O que importa é o desfecho ser convincente.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Dezessete (preguiça, desalento, vontades)



Antes que eu pudesse esboçar perspectivas, os primeiros fatos do ano vieram inviabilizá-las. Mesmo os desdobramentos das grandes emoções de 2016 já não parecem suficientes para anteciparmos as turbulências inevitáveis de 2018. Reféns da imprevisibilidade, atropelados por sobressaltos, flertamos com a desesperança.

Esse ambiente de susto e incerteza me apanha reflexivo, cheio de urgências, mudanças, riscos. Certa sensação de esgotamento dos modelos expressivos que vinha utilizando, mas também desejo de ampliar horizontes, buscar vias novas.

Um desamparo preguiçoso diante da selva de textões que saturam as redes digitais, alimentando miríades de bolhas discursivas indiferentes à controvérsia e ao debate. Uma desconfiança do intercâmbio algorítmico e da obsolescência que ele pretende impor a espaços digressivos fora dos seus cubículos de vidro.

Cansaço de novidades que reciclam velharias. De intelectual cínico. De esquerda que defende índio mas apoia meganhas e excelências. Da burrice orgulhosa de si mesma e da raiva que a incentiva. Do provincianismo barulhento, feio, doméstico. De velharias que inspiram falsas novidades.

O desejo de resgatar o viés subjetivo da página pessoal, ou melhor, de preservá-lo da traiçoeira sedução da ágora feicibuquiana. Um apego extemporâneo à ideia de autoria, como antídoto contra a suruba diletante virtual. Talvez apenas a impressão de que algo relevante se perde quando levo as coisas a sério demais.

A certeza do recomeço. Do passo seguinte que cada passo engendra. Essa ideia permanecerá latente: a necessidade da mudança. Ou seria a dura constatação de sua inevitabilidade?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Recesso














Uma seleção de textos publicados aqui em 2015.

Faltou combinar com os eleitores”, sobre a disputa presidencial.

Não em nome do Charlie Hebdo”, sobre o atentado.

A arbitragem é o retrato do nosso futebol”, sobre a safadeza do apito.

A mídia apresenta suas armas”, sobre as manifestações de direita.

A farsa completa dez anos”, sobre o julgamento do “mensalão”.

Cotas em preto e branco”, sobre a inclusão racial.

As ruas sepultaram o golpe”, sobre as manifestações de esquerda.

Mentiras proibicionistas”, sobre a liberação da maconha.

Lama a jato”, sobre a presença do PSDB nas investigações.

Cota de tela urgentemente”, sobre a exibição de filmes brasileiros.


Por que só agora a Lava Jato chegou a Cunha?”, sobre o cerco ao chantagista.

Os Pilatos da esquerda brasileira”, sobre a reação ao golpe de certos setores.

Não parece golpe, mas é”, sobre o impeachment, claro.

A estranha reação do STF”, sobre a prisão de Delcídio.

A pauta do golpe”, sobre o alongamento da crise.

O quinhão do Timão”, sobre o título do Brasileiro.

O direito de querer”, sobre o Direito de Resposta.

A quem serve o Judiciário brasileiro?”, sobre o combate à corrupção no Brasil.

Prisão sugere elo entre PSB e crime organizado”, sobre um episódio campineiro.

O falso exemplo de Azeredo”, sobre a ilusão de equidade da Justiça.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Voltando


















Aos poucos retomo as atividades neste humilde espaço. Não queria começar o ano falando em tragédia, então me permiti um preâmbulo despretensioso. E é uma chance de usar a fotografia do Hunter S. Thompson, que aparece mocinho na postagem anterior.

O volume de compromissos reduzirá o dos textos blogueiros e deixará as colaborações com outros veículos mais esparsas. Espero, no entanto, manter alguma regularidade nas publicações todas.

Pretendo fazer algumas atualizações na página, assim que a agenda permitir. Na primeira oportunidade retomarei os temas do cotidiano atribulado.

Conto com a participação dos heroicos seguidores e com sua ajuda para divulgar o conteúdo que julgarem relevante.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Recesso















Uma seleção de textos publicados por aqui em 2014.
                              
Funk Segregassaum, sobre os rolezinhos

"Ela", filme de Spike Jonze

O baile dos mascarados, sobre o black bloc

O papel das policias nos protestos de rua.


"A caça", filme de Thomas Vinterberg


"O lobo atrás da porta", filme de Fernando Coimbra

Manipulação impune, sobre as mentiras contra a Copa

O exemplo alemão, exagerado pelo 7 a 1

"Balada de um homem comum", filme dos irmãos Coen

A ilegalidade conveniente das taxas para compra pela internet

O voto da Sabesp nas eleições presidenciais

"O homem mais procurado", filme de Anton Corbijn 

Direitos em marcha-ré no trânsito campineiro

A conveniência da palavra democracia no discurso dos derrotados

A PF na ribalta com a Operação Lava Jato

A memória da justiça faltou à Comissão da Verdade

O que Francis diria sobre os escândalos da Petrobrás

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Você sabe com quem está falando?















Num exemplo mundial de presteza judiciária, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro já referendou a condenação da fiscal que negara a divindade do juiz infrator. Pois, como sabemos, lembrar a humanidade do magistrado causa-lhe sérios danos morais.

O Brasil é o paraíso da carteirada. O império do bacharel que exige ser chamado de “dotô”, do “adevogado” petulante que fura a fila porque se acha “otoridade”. Só ele pode estacionar em local proibido, guiar bêbado, elidir seus tributos malandramente. E cana pros petistas imundos.

Nada no caso deveria causar surpresa, muito menos a proteção corporativista da egrégia corte. Esses personagens asquerosos são produtos da mesma cultura cartorária que sustenta a OAB e os conselhos profissionais de toda estirpe. Os abusos de Joaquim Barbosa não foram tolerados à toa.

Se o juiz tem esse comportamento social, fico imaginando as centenas de decisões que tomou, envolvendo os destinos dos pobres mortais sem carteirinhas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Os brioches de Dilma
















É fácil imaginar a indignação desses jornalistas-de-crachá (“você sabe com quem está falando?”) que foram ludibriados pela escala portuguesa da presidenta e ficaram que nem cachorro bobo, procurando a bola que ninguém lhes jogou. Paparazzi de luxo, talvez ainda mais cínicos do que os originais, foram impedidos de fabricar suas croniquetas sobre o jantar da mandatária e saíram esbravejando direitos fofoqueiros.

Ao contrário de outros detalhes convenientemente resguardados nos armários pessoais, os hábitos gastronômicos de Dilma, desde que pagos com seu salário, são irrelevantes. Ela não se elegeu prometendo comer rapadura e farinha. A simplicidade que se associa ao santo papa e a alguns governantes franciscanos possui muito de uma propaganda romântica que dissemina ignorância acerca do mundo real do poder e incentiva a visão provinciana de que um líder popular deve chupar ossos de galinha frita.

A turma da fofoca esbraveja porque sabe, por profissão, o apelo que a vida privada tem sobre o imaginário do público. Bem trabalhados, o refinamento e o conforto de Dilma colam rótulos antipáticos adequados à sua imagem, assim como os churrascos e a pinguinha de Lula pareciam melhor atingi-lo.

O mesmo apelo deveria recair sobre as jujubas do casal FHC e os passeios de Joaquim Barbosa nas luxuosas galerias parisienses. Mas, claro, sempre que aparece uma dessas os paladinos da privacidade correm para descortinar intimidades mais relevantes.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

No semáforo















Rapaz careca, de olhos congestionados, vestindo andrajos, passeia de mão estendida por entre os carros. Ante a recusa do motorista, com um ar de ironia, rebate:

– Ô, patrão, colabora. Eu podia estar protestando!

sábado, 29 de setembro de 2012

“The trouble with experts”



“O problema dos especialistas”, ou algo assim. Dirigido por Josh Freed para o canal CBC, do Canadá.

Vinho, artes, finanças, nutrição e saúde, o curso para candidatos a especialista da mídia, o incrível consultor prisional para condenados por fraudes, etc. Informações úteis para esta época de julgamentos, eleições e crises diversas.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fahrenheit 2012












Consulta médica rotineira. Sobre as cadeiras do salão, exemplares de Veja fornecem a única distração possível aos entediados pacientes. Fico imaginando quantas pessoas desinformadas encontram naquelas porcarias a única fonte de informação textual de seus atarefados cotidianos. Que noções constroem da política nacional, da religião, dos valores básicos de cidadania, do próprio país.

Numa reação aflita e impensada, forjando três ou quatro pulos mal dissimulados, vou trocando de assento e furtando, um a um, os volumes da excrescência. Meto-os na pasta de couro, olhando ao redor, fingindo espantar piolhos. Meio hipnotizados pela própria inação, os presentes parecem esquecer a falta de alternativa e simplesmente divagam. Aliviado, completo a rapa do local. Chegando em casa, segurando-as pela ponta dos dedos enojados, mandarei ao lixo aquelas imundices.

Incorporo a decisão de cumprir essa missão brancaleônica onde for possível. Alguém precisa fazer alguma coisa a respeito. Salas de espera, desagradáveis por natureza, podem e devem oferecer passatempo mais salubre que o subjornalismo demencial de Veja. Ou será que é a onipresença da revista que faz as salas de espera tão ruins?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

“Autocontrole”
















Antonio Prata

“Faz mais ou menos um mês, ouvi uma mulher dizer que nunca iria a uma nutricionista gorda. Semanas depois, um amigo demonstrou preocupação ao descobrir que seu psicanalista fumava. Segundo eles, ao que parece, não pode cuidar da dieta ou da ansiedade alheia quem não controla os próprios impulsos.

Ah, que época bunda-mole a nossa! Elegemos como principal virtude justo a mais medíocre: o autocontrole. Foi-se o tempo em que o herói era aquele capaz de romper as amarras sociais, morais, históricas. De enfrentar o mundo em nome de um ideal ou de dar um piparote nas sentinelas do superego em busca de seu eu profundo.

O Super-Homem atual é o que, avaro com os prazeres, melhor consegue inserir-se nos escaninhos disponíveis do mundo. É um profissional bem-sucedido e com barriga de tanquinho. Seus feitos não serão medidos pelas marcas deixadas na história, mas pelo extrato da conta bancária e pela taxa de colesterol.

Não falo de fora. Sou filho da época, também tento enquadrar-me neste anódino "zeitgeist", de sonhos tão mirrados como as cinturas de nossas divas: sou funcionário esforçado, corro na esteira, acredito nos poderes milagrosos da quinua. Quando ponho a cabeça no travesseiro, contudo, envergonho-me e lamento a grandeza perdida.

Outrora buscávamos a nascente do Nilo, a verdade última das coisas, nos metíamos no mato sem cachorro, em mares nunca dantes navegados, nos entregávamos a amores e substâncias proibidas atrás de paraísos naturais ou artificiais. Agora, aqui estamos nós, usando 30 séculos de conhecimento acumulado para vender mais pasta de dentes, mais jornais, empenhados em descobrir como fazer dez arruelas ao custo de nove e receber uma promoção; aqui estamos nós, reinando sobre a natureza, mas comendo barrinhas de cereais.

Onde foi que nós erramos? Em que beco escuro do século 20 um Mefisto chinfrim sussurrou em nossos ouvidos que alcançaríamos a vida eterna caso abríssemos mão de nossos corações em nome do "sistema cardiovascular"? Que bizarra inversão foi essa que nos fez acreditar que a função das comidas é facilitar o trabalho do sistema digestivo, e não que a função do sistema digestivo é lidar com nossas comidas? Desculpem por ser chulo, caro leitor, mas eis a ambição de nossa triste humanidade: fazer um cocô durinho.

Veja, acho bom que haja campanhas contra o cigarro. Que o exercício físico venha se tornando um hábito mais e mais comum. A vida é curta e preciosa demais para que a atravessemos com pigarro e sem fôlego. Mas é curta e preciosa demais também para ser gasta nesta liberdade (auto) vigiada, em que o prazer e a poesia são drenados a cada dia pelos ralos da eficiência.

Não creio em nada para além do último suspiro, mas ficção por ficção, sou mais Dionísio, São Francisco e Ogum do que esse culto desvairado pela bicicleta ergométrica, o Excel e a fenilalanina.

Bichos burros! Indo do berço ao túmulo agarrados às certezas mais tacanhas e permitindo-nos o mínimo de prazer, o grande legado de nossa época será belíssimos, saudabilíssimos cadáveres -injustiça, aliás, com as minhocas, que não estão preocupadas com o colesterol nem com suas anelídeas silhuetas.”

Folha de São Paulo, quarta-feira, 20 de junho de 2012

sábado, 17 de março de 2012

Neil Gaiman, Adam Savage e Gollum



No famoso programa Wit, da rádio pública de Minnesota (EUA). Neil Gaiman é escritor e quadrinista consagrado ("Sandman"). Adam Savage (o Gollum) co-apresenta o programa MythBusters.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Projeto Juízo Final e os “eventos profundos”: JFK, Watergate, Irã-Contras e 11 de Setembro



“Gostaria de discutir quatro eventos importantes e ainda pouco compreendidos: o assassinato de John F. Kennedy, o Watergate, o Irangate e o 11 de Setembro. Vou analisar esses ‘eventos profundos’ como parte de um processo político ainda mais profundo que os une, um processo que ajudou a construir um poder repressivo nos Estados Unidos, em detrimento da democracia.

Nos últimos anos, tenho abordado uma força maligna por trás desses eventos - uma força que, por falta de termo melhor, tenho desajeitadamente chamado de ‘Estado profundo’, operando dentro e fora da máquina estatal. Agora, pela primeira vez, quero identificar parte dessa força maligna, uma parte que tem operado há pelo menos cinco décadas à margem da máquina estatal. Essa parte da força maligna tem um nome que não foi inventado por mim: Projeto Juízo Final, nome dado pelo Pentágono ao plano de emergência para ‘assegurar o funcionamento da Casa Branca e do Pentágono durante e depois de uma guerra nuclear ou outra grande crise.’

O objetivo deste trabalho é simples, mas importante: demonstrar que o Projeto Juízo Final da década de 1980, e o plano de emergência prévio que levou a ele, desempenharam papel fundamental nos ‘eventos profundos’ que vou analisar. (...)

Tentarei mostrar que nesse aspecto o 11 de Setembro foi apenas o ápice de uma seqüência de ‘eventos profundos’ que remetem ao assassinato de Kennedy, senão a antes, e que a marca do Projeto Juízo Final pode ser detectada por trás de todos eles.

Mais especificamente, o que tentarei demonstrar sobre esses ‘eventos profundos’ é que:

1) o comportamento inadequado da CIA e de agência similares contribuiu tanto para o assassinato de Kennedy quanto para o 11 de Setembro;

2) dentre as conseqüências de cada ‘evento profundo’ inclui-se um aumento do poder repressivo das mesmas agências, às custas da Democracia;

3) há sintomáticas coincidências entre os personagens que perpetraram cada um desses ‘eventos profundos’;

4) observa-se em cada evento a presença de elementos do tráfico internacional de drogas;

5) nos bastidores de cada evento (e tendo um papel cada vez mais importante) aparece o Projeto Juízo Final – ou a estrutura alternativa do plano de emergência, com suas próprias redes de comunicação, operando uma rede obscura no exterior dos canais governamentais regulares.”

O autor desse artigo, o canadense Peter Dale Scott, é ex-diplomata e professor de inglês na Universidade da Califórnia (Berkeley). Tem diversos livros sobre política interna estadunidense.

Tomei a liberdade de colocar “eventos profundos” entre aspas porque se trata de um conceito do autor (“deep events”), que o define assim: “eventos obscuros ou mal apresentados pela grande mídia, cujas origens são misteriosas mas freqüentemente conectadas aos serviços de inteligência, atribuídas a forasteiros marginais mas ligadas a forças poderosas e secretas que possuem o intento de alterar o curso da História”. De minha parte, transcreveria a expressão como “eventos obscuros”, mas mantive a tradução literal.

A página da Rede Voltaire disponibiliza duas versões do texto:
uma em inglês e outra em francês.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Brasil Brau 2011



Um parque de diversões para o amante da cerveja. São dezenas de produtores brasileiros, dos menos conhecidos aos já consagrados no circuito alternativo, oferecendo e comentando suas criações. Há tanta oferta que fica difícil conciliar a degustação com a outra parte do evento, ocupada por expositores de equipamentos e insumos destinados a todos os processos da fabricação cervejeira.

A fauna, interessantíssima, reúne as grandes celebridades do ramo, entre consultores, jornalistas, fabricantes e agregados, de copos em riste, berrando no idioma dos bebedores exigentes, gargalhando feito crianças na Disneylândia. Festa para os sentidos, aula de produção, grande oportunidade de fazer amigos e ficar vermelho sem ressaca.

Segundo o regulamento da feira, sua gratuidade é restrita aos profissionais da área (fui como avaliador do Brejas), mas esse controle não é absoluto. Uma idéia para futuras edições seria equacionar melhor o grande afluxo de curiosos com o restrito espaço de convívio e fluxo. E também seria humano permitir uma lanchonete onde os guerreiros possam forrar as entranhas.

Pena que dura pouco, e demora a se repetir. Hoje é o último dia. Mais informações podem ser acompanhadas na página oficial do evento ou através do blog do Brejas.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Rito



A cobertura do casamento da duquesa de Cambridge fornece uma saborosa demonstração do provincianismo e do espírito colonizado da imprensa brasileira. É curioso notar como falta aos comentaristas (e ao público abismado) qualquer noção de ironia diante daquele espetáculo brega e ultrapassado, daquela gente desengonçada vestindo luvas do rato Mickey e chapéus ridículos, daqueles servidores trajados feito soldados do século 18, daquele escandaloso desperdício de recursos. Todos se curvaram com o respeito e a reverência de súditos fiéis.

As imagens do casamento dividem espaço com as fotos do caixão do papa João Paulo II, retirado da tumba para ser beatificado. A mesma pompa ritualística, a mesma circunstância, a mesma nostalgia dos tempos da guilhotina. Faz todo sentido.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Fumaça

A imprensa corporativa tem aceitado com estranha facilidade as vagas explicações para o incêndio na Cidade do Samba. Um acidente dessas proporções merecia no mínimo uma exibição múltipla de cabeças cortadas na prefeitura, nas empresas prestadoras de serviços e na própria Liesa. Mas o máximo a que se chega é tomar medidas que prejudicam ainda mais os sambistas e os espectadores.

Será que as autoridades e a mídia carioca divulgariam qualquer indício de que o incêndio foi uma sabotagem do tal “crime organizado”, por exemplo? Ou prefeririam se conformar com seus trágicos destinos? Na falta de respostas satisfatórias, somos tentados a imaginar todo tipo de absurdo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Peneira



Se uma empresa quiser participar do pregão eletrônico número 39/2010, em edital realizado pela Secretaria da Fazenda do Governo do Estado de São Paulo, deverá possuir uma pilha de documentos. Entre as exigências comuns a processos licitatórios de todas as áreas, destaca-se uma excentricidade:

“1.4.1. Atestado(s) em nome da licitante, de bom desempenho anterior em contrato(s) da mesma natureza e porte, fornecido(s) por pessoa(s) jurídica(s) de direito público ou privado, contendo, necessariamente, a especificação do tipo de serviço realizado, com indicações das quantidades fornecidas e do prazo de execução, que correspondam as seguintes parcelas:

a) Teleatendimento eletrônico (Unidade de Resposta Audível – URA);
b) Teleatendimento humano;
c) Atendimento humano via correio eletrônico (e-mails);
d) Utilização de recursos CTI (Sistema Integrado de Telefonia e Computação);
e) Gravação Digital de Tela e Voz dos atendimentos;

1.4.1.1. O(s) atestado(s) deverá(ão) comprovar também a prestação dos serviços nas quantidades mínimas de atendimento apresentadas abaixo:

a) Teleatendimento eletrônico: 61.000 atendimentos/mês via URA;
b) Teleatendimento humano : 30.500 atendimentos/mês;
c) Atendimento humano via correio eletrônico (e-mails): 4.500 e-mails/mês.

1.4.2. Declaração de que o licitante possui condições de disponibilizar software de ‘Front End’ – programa de interface com os operadores, para utilização de todos os operadores de primeiro e segundo níveis de atendimento, bem como para a São Paulo Previdência. O software deverá ser ou ter sido desenvolvido em arquitetura ‘web’, prevendo notificação automática das áreas responsáveis pelo tratamento e acompanhamento das demandas, e interface ‘web’, em idioma português, para o cliente acompanhar os indicadores de níveis de serviço de forma ‘on-line’.”

Fico imaginando o que aconteceria se de fato aparecesse uma empresa com todos esses documentos.