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sexta-feira, 25 de julho de 2025

O preço da conciliação

 

Os seis anos de regime lavajatista foram dedicados à inviabilização de futuros projetos de poder da esquerda. Fizeram parte da estratégia o ataque ao legado programático do lulismo e a manutenção da hegemonia dos conspiradores de 2016 e 2018.

O segundo objetivo, incorporado pela astuciosa fobia à polarização, teve maior eficácia. Lula está cercado por inimigos de outrora, tanto nos ministérios que precisou lotear entre golpistas quanto nos parlamentares “aliados” que sabotam seu governo.

Tudo isso administrando os retrocessos irreversíveis do golpe e toureando a indignação resultante. Eis a cláusula diabólica do pacto conciliador: Lula responde por uma ruína cujos autores o parasitam. E só pode amenizá-la sacrificando agendas progressistas.

Esses fatos não o isentam de responsabilidades. Sua teimosa ortodoxia amiúde leva a um conservadorismo arcaico, improdutivo e desmobilizador. A obsessão frenteamplista reduz a esquerda a “centrinho”, assessório da direita, apartado das bases históricas.

Mas é tolice afirmar que Lula poderia ter realizado alguma coisa antagonizando com três quartos do Congresso desde o início da gestão. Ou, pior, que o inevitável desastre dessa loucura fosse positivo, capaz de levantar o povo em defesa dos valores socialistas.

O ônus da pacificação não envolve a tal governabilidade. Envolve a baixa aprovação a Lula, inferior ao que seria razoável esperar de seus índices sócio-econômicos e de seus afagos a setores ideológicos majoritários no país. É essa conta que não fecha.

As pesquisas mostram os eleitores cada vez menos predispostos a valorizar o combate à miséria, a responsabilidade fiscal e o discurso apaziguador de Lula. A oposição cresceu, radicalizando-se, enquanto o governo fazia de tudo para não confrontá-la.

A fatura da conciliação já estava sendo paga muito antes da crise do IOF. A harmonia entre as curvas da rejeição a Lula e as de evangélicos, por exemplo, vem de longe. E espelha o predomínio dos herdeiros midiáticos e institucionais do golpismo lavajatista.

As circunstâncias que impuseram os acordos com o “direitão” fisiológico demandavam também um plano para reduzir seu alcance popular em curto prazo. No mínimo através de contrapontos oficiais aos valores obscurantistas disseminados por esse grupo.

A monologia sectária da extrema-direita, ajudada pela manipulação das redes digitais, abalou os benefícios eleitorais da cautela governista. A ponto de Lula ser demonizado por bandeiras que rejeitava exatamente para não atrair o repúdio dos conservadores.

Não surpreende que, sob ataque tarifário dos EUA, a mídia corporativa esteja clamando pela moderação do governo. Todos ali sabem que a imagem de Lula melhora quando ele assume posturas combativas, desestabilizando as bolhas do extremismo fascista.

Mas a oportunidade embute uma armadilha. Patriotismo sem politização é apenas um elo na corrente reacionária. Cabe aos governistas impedir que o imperativo da prudência diplomática se transforme, de novo, em esteio dos parasitas da democracia.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

O golpe híbrido



A esquerda apega-se a interpretações rudimentares dos planos golpistas que culminaram nos ataques de oito de janeiro de 2023. A extensa bibliografia acadêmica sobre “guerra híbrida” ilustra a complexidade que as análises predominantes deixam de buscar.

Mas não precisamos explorar esse conceito em profundidade. É suficiente deixá-lo como referência para uma abordagem dos fatos que se aproxime do raciocínio estratégico ou, pelo menos, que respeite a sensatez característica da inteligência militar.

Pois duvido que um tenente-coronel deleuziano bem informado tivesse ilusões sobre o futuro do golpe bolsonarista. Não porque o projeto fosse naufragar, pelo contrário. Seu êxito, além de previsível, seria institucionalmente catastrófico para as Forças Armadas.

Quaisquer cenários do novo regime envolviam crises domésticas e externas de efeitos incertos e uma redemocratização com viés punitivo e reformista. O sucesso imediato da sublevação levaria, em curto ou médio prazos, a um revés histórico do campo militar.

A simples realização do processo eleitoral mostra que essa leitura vingou. Se a recusa à ideia de abortá-lo fosse legalista, não estratégica, teria barrado também as sabotagens, os conluios assassinos e a “festa da Selma”, que os arapongas decerto monitoraram.

O desfecho da aventura revelou que lado da cizânia interna tomava as decisões efetivas. Ponto fundamental da questão: a tentativa de golpe nasceu frustrada porque os setores que poderiam viabilizá-lo não o desejavam. E só nasceu porque eles permitiram.

É que o impulso criminoso de Bolsonaro gerava oportunidades irresistíveis. Primeiro, atentados, acampamentos e invasões serviriam como grande exercício de logística, psicologia e mobilização digital. Um verdadeiro banquete para a inteligência militar.

Além disso, havia o potencial destrutivo das manobras finais em Brasília. O peso simbólico do vandalismo, inclusive junto às tropas, era algo que os comandos de ambas as facções nunca desperdiçariam. Especialmente sabendo que ficariam impunes.

Por fim, a desmoralização dos golpistas torna os oficiais “democratas” hegemônicos na cúpula militar e no próprio governo federal. Viram fiadores da estabilidade, controlando as temperaturas internas e protegendo as instituições contra o bolsonarismo raivoso.

Eis a resposta ao enigma dos privilégios concedidos por Lula às Forças Armadas. Nesse ambiente, não vale a pena majorar expectativas com os inquéritos sobre a regência do golpe. Na melhor das hipóteses, eles pouparão o corpo submerso de um vasto iceberg.

A anistia do primeiro escalão militar vem sendo costurada há meses, e é tolice achar que Lula pode ou deseja impedi-la. Mesmo o que hoje parece inevitável depende de certos cálculos: a prisão de Bolsonaro compensaria uma GLO para deter seus mentecaptos?

Típica figura da cartilha “híbrida”, a crença numa vitória que não houve é capitulação inconsciente, passiva, que materializa o triunfo dos adversários sem o desgaste de um confronto aberto. A narrativa do predomínio judicial bloqueia a percepção da derrota.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

A falácia da democracia absoluta



Lula afirmou numa entrevista que democracia é “conceito relativo”. Falava da diferença de critérios usados por ele e pela imprensa para qualificar certos países. Os analistas pinçaram a frase do contexto, deram-lhe verniz abstrato e criaram uma falsa polêmica.

O episódio simbolizou a obsessão da mídia conservadora em sagrar-se porta-voz da única ideia correta de democracia, alinhada à pauta geopolítica dos EUA. Sugerindo que o ceticismo da esquerda em relação a esta perspectiva conota índole autoritária.

A robustez democrática que falta aos despotismos deveria ser a mesma que a patrulha enxerga em seus modelos civilizatórios. Afinal, ela defende critérios absolutos. Quando se trata do eixo aliado, porém, a intransigência dá lugar a mitos e contextualizações.

Não havendo autoimagem positiva que supere o rigor teórico, tratam de ligá-la a uma essência inata, imune a juízos. O voto indireto e o bipartidarismo, por exemplo, emanam as boas tradições iluministas, que os verdadeiros democratas “sabem” reconhecer.

O problema seguinte é lidar com as vergonhas das democracias “realmente existentes”. Assim os puristas são obrigados a normalizar o racismo, a censura, a repressão, o abuso judicial e outros vícios generalizados, avessos a princípios democráticos rudimentares.

Todos esses arbítrios servem a projetos de poder. E nenhum deles tem maior respaldo legal ou representativo do que similares de regimes despóticos. Jornalistas presos, livros proibidos e dissidentes silenciados valem o mesmo em qualquer recanto do mundo.

Querem aplicar os valores de forma “objetiva”? Pois descrevam as condenações de Julian Assange e de Lula para diversos cientistas sociais, sem identificar as vítimas nem os algozes, e observem quantos associam os episódios a ditaduras ou a democracias.

Os malandros respondem que depende da maneira como os fatos são expostos. Podemos denunciar as “miudezas administrativas” que tiraram a candidata venezuelana das eleições. E podemos afirmar que Dilma Rousseff caiu por causa de “crimes fiscais”.

É o que fazem os guardiões da doutrina: legitimam os governos Temer e Bolsonaro, mas condenam aparelhamentos institucionais de outro viés ideológico. Negam e aceitam a constitucionalidade vigente de acordo com os golpistas que a manipulam.

Levada a sério, a inflexibilidade conceitual nivelaria os países pelos denominadores abusivos comuns. Não chegamos a tanto porque essa bobagem funciona apenas como instrumento retórico da direita, e jamais para falar de seus próprios exemplos.

sábado, 16 de março de 2024

Rumo a Gilead



Os movimentos contrários à descriminalização da maconha para uso pessoal revelam os tentáculos retrógrados que aos poucos estrangulam o futuro do país. Não se trata, repito, de conservadorismo: é uma ideologia obscurantista sem molduras partidárias ou morais.

Esse espírito anticientífico prolifera no STF, no Congresso e, surpresa nenhuma, no Conselho Nacional de Medicina. Sua marca é a agressividade falaciosa: argumentos pueris, números impossíveis e paralelos ridículos como formas de violência simbólica.

A brutalidade manifesta-se no descaramento da mentira óbvia, que insulta o bom senso e o saber técnico. É um soco de ignorância nos valores civilizatórios, aliado ao desprezo ofensivo pelo interesse público. Funciona como ostentação de soberania retrógrada.

A expressão “pauta de costumes” faz parte do engodo. Iguala conhecimentos empíricos a crenças e valores, pesquisas a superstições. Em vez de comprar essa bobagem, Lula deveria refutá-la com uma campanha educativa nacional, organizada por especialistas.

Entre perplexos e indiferentes, os campos jurídico, jornalístico e acadêmico silenciam. Ninguém ousa romper as bolhas digitais e corporativas para, em nome da constitucionalidade, questionar os chutes absurdos, exigir fontes qualificadas, cobrar o decoro esquecido.

Freios e contrapesos institucionais só vigoram com heterogeneidade ideológica. Não há como deter o obscurantismo depois que ele se torna majoritário tanto no Congresso quanto nos tribunais superiores. Simplesmente porque não sobra a quem recorrer.

O caso da maconha revela como estamos próximos dessa “tempestade perfeita”. Quase metade do STF adotou as fraudes proibicionistas. Mais um ou dois votos endossando a autonomia legislativa e o retrocesso em gestação no Senado torna-se permanente.

Vimos o trailer da distopia nos golpes da Lava Jato, que derrubaram uma presidente legítima e alavancaram um fascista graças à coesão oportuna entre os Poderes. Mas hoje não lidamos com mandatos. O pesadelo que se anuncia terá longuíssima duração.

A cada abuso impune o rolo compressor avança mais. Sua força é a irreversibilidade. Um centímetro de ruína leva décadas para ser corrigido, na otimista hipótese de surgir o necessário ambiente político. E o remendo nunca alivia o estrago consumado.

Ironicamente, a maconha está servindo como “porta de entrada” para a naturalização da barbárie. Sem obstáculos contramajoritários, o misticismo instaura os precedentes que levam à hegemonia das pautas fascistas. Os democratas não perdem por esperar.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

O golpe da tentativa



As investigações sobre as origens do “8 de janeiro” podem seguir duas linhas. A primeira, mais ortodoxa e confortável, reside em tratá-lo como evento único e irredutível: uma tentativa de golpe. Os indiciados seriam personagens que atuaram com o objetivo claro de interromper o governo Lula. Jair Bolsonaro e seus asseclas diretos protagonizam esse enredo.

A segunda abordagem começaria distinguindo as ilicitudes que geraram o vandalismo. De um lado, a tramoia golpista. De outro, a cumplicidade e a omissão de agentes públicos. Divididas as parcelas individuais de responsabilização, o ônus maior recairia sobre as pessoas que participaram de ambas as etapas, mantendo-as compatíveis com o resultado final da aventura.

Bolsonaro tem o perfil de quem acreditaria na sobrevivência de um governo gerado por uma sublevação militar. Seria fácil iludi-lo com essa bobagem, num teatro clandestino que explorasse as suas vaidades e seus limites cognitivos. Não surpreenderia descobrir que ele tinha de fato a ingênua esperança de que Lula viria a solicitar uma intervenção fardada.

Mas os organizadores dos ataques a Brasília não compartilhavam os planos de Bolsonaro. Sabemos disso porque Lula continuou presidente, algo que jamais ocorreria, naquele cenário, se o projeto golpista recebesse um mínimo de apoio dos comandos militares. E foi decisão tomada com antecedência, para evitar improvisos ou surtos de rebeldia das tropas.

O entorno bolsonarista seria incapaz de orientar evento de tamanha complexidade. Não me refiro apenas à mobilização de milhares de bandoleiros, mas também, principalmente, ao delicado equilíbrio imposto pelo propósito de liberar a destruição sem que ela resultasse numa tragédia ou num sequestro efetivo das instâncias governamentais.

Não culminando em ruptura, sequer efêmera ou iminente, os ataques expuseram a vigência de um controle mais amplo, necessário para antecipar e garantir a facilidade da ocupação e o recuo “pacífico” depois da baderna. Tudo isso envolve altas patentes, pois demanda centralização operacional, superioridade hierárquica e acesso privilegiado a informações.

No entanto, apesar das evidências, cozinha-se uma anistia velada para os mentores da conspiração vitoriosa, aquela que chamamos de “8 de janeiro”. Com endosso da mídia, o desfecho do caso pende para o caminho fácil, de usar bolsonaristas como bodes expiatórios. Surgem até ensaios de glorificação dos militares por terem supostamente abortado o tal golpe.

Não, as Forças Armadas não salvaram a democracia. Na melhor das hipóteses, negaram-se a protegê-la. Na pior delas, atiçaram bandidos para desestabilizar e acuar um governo legítimo. Talvez seja impossível distinguir juridicamente essas atitudes, mas com certeza quem devia obedecer obedeceu e quem podia mandar mandou. Não houve falha ou insubordinação.

A narrativa da “intentona” é uma receita de pizza. Com muita sorte, atinge Bolsonaro e meia dúzia de assistentes, livrando a poderosa estrutura militar que os manipulou. Reduz o “8 de janeiro” a um gigantesco mal-entendido, onde milhares de lunáticos teriam acreditado nas promessas, nos blefes e nas apostas furadas que, para estupefação geral, ninguém fez.

Depois de negarem os golpes que realmente ocorreram, os conciliadores se escandalizam com uma tentativa frustrada. Ela deve ser punida, claro, mas seu modelo obsoleto e inviável de ruptura não explica o sucesso dos ataques em Brasília. Tampouco reflete a verdadeira ameaça fascista que borbulha nos bastidores institucionais. Naturalizá-la é uma forma de capitulação.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Dez anos em junho



Cada pessoa que vivenciou os protestos de junho de 2013 define-os à sua maneira. São milhões de análises baseadas em experiências individuais distintas. Todas válidas como testemunho, mas não necessariamente como juízos históricos sobre o período.

As opiniões mais positivas tendem a vir dos partícipes mais engajados, muito jovens na época, talvez em sua primeira grande aventura politizada. Hoje o saudosismo inevitável modula a autoimagem heroica e pioneira que eles projetam nos eventos.

As lembranças pouco elogiosas vêm da militância antiga, calejada com as expectativas e frustrações de episódios similares, como as Diretas Já. Exageros conspiratórios à parte, os céticos de 2013 gozam a vantagem de não terem anunciado um futuro promissor.

Estive entre os que alertaram desde cedo para a falta de agendas claras em movimentos daquele porte. Víamos na iconoclastia antipolítica difusa um catalisador de anseios que poderiam confluir no repúdio indiscriminado ao sistema democrático. Dito e feito.

É fácil provar que a expansão das passeatas logo exibiu os símbolos e discursos que a direita usaria contra Dilma e a favor de Bolsonaro. Mas fazia parte do jogo. A natureza performativa de “ir à rua” servia justamente para liberar todas as demandas represadas.

Pois também o fascismo nasce do desejo de representatividade, do ódio à classe política e de um impulso gregário emancipador. Esses fatores não igualam nem distinguem os pendores ideológicos dos manifestantes. Na verdade, não explicam muita coisa.

Reconhecendo a complexidade do ânimo insurrecional de 2013, evitamos idealizá-lo. É arriscado celebrar rebeldias espontâneas no âmbito das redes digitais. E a identificação majoritária dos atos como “de esquerda” simplifica os inúmeros contextos envolvidos.

Esses esforços de legitimação, porque a rigor desnecessários, transbordam os paradoxos que tentam ocultar. Se o antipetismo não fosse influente nas reivindicações, ninguém usaria o álibi autonomista para criticar, em retrospecto, a falta de tutela do PT.

É bobagem responsabilizar os protestos pelos golpes seguintes. Ainda que não tenha gerado a cruzada lavajatista, porém, a revolta forneceu-lhe pretextos oportunos, tanto no perigo revolucionário a ser contido quanto na popularidade da bandeira anticorrupção.

Ambas as desculpas, convenhamos, traduziam o imaginário de 2013. Acentuando seu voluntarismo cívico e ampliando o escopo dos inimigos, os fascistas completaram o ciclo vicioso de apropriações: sim, morta a democracia, outro mundo era possível.

Então os rebeldes progressistas de outrora despertaram para o viés nefasto da obsessão moral, do vandalismo, da loucura patriótica. E, no avesso do sonho, correram em busca de seus antigos vilões para ressuscitar aqueles tempos saudosos de normalidade política.

A utopia dos “levantes de junho” envelheceu mal.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Falta identificar os conspiradores



Quem acredita que os ataques de oito de janeiro fracassaram precisa recalibrar seu otimismo. Não houve “tentativa” alguma em Brasília. A ideia de que o governo impediu um golpe distorce os acontecimentos para além do que autoriza a prudência estratégica.

Os democratas se acostumaram a interpretar o episódio pelas possibilidades que ele não efetivou. Mas ninguém sabe se os ataques foram planejados para realmente derrubar Lula. Tinham caráter golpista, sem dúvida, mas sua finalidade imediata segue duvidosa.

Os militares não precisariam do vandalismo alheio para assumir o poder. Alegando a mera iminência de distúrbios, com apoio da PM e de uma companhia de soldados, tomariam o Planalto, o Congresso, o STF e o TSE, até que a ruptura ficasse irreversível.

A escolha de um domingo, em pleno recesso parlamentar e judiciário, facilitou o êxito “territorial” dos ataques, mas também anulou o sentido pragmático da bandeira golpista. Uma instituição depredada, sem funcionários, é apenas um amontoado de escombros.

Ao mesmo tempo, as ações das cúpulas militares, das autoridades civis e dos líderes dos baderneiros foram coordenadas. É ingênuo ver nos comandantes uma hesitação perplexa ou resistente a demandas externas. Aquilo não aconteceria sem roteiro preestabelecido.

Só um controle bem feito explica a relativa modéstia dos danos, especialmente aqueles que poderiam atingir os próprios bandidos. Deixada ao sabor do acaso e dos humores, a balbúrdia levaria a explosões e incêndios de grande porte, decerto com vítimas.

Superando a fantasia do levante espontâneo e imprevisto, percebemos que o ataque se define pelo que de fato realizou, não pelo desejo manipulado dos executores. Em outras palavras, que os objetivos da ação transparecem nos seus efeitos palpáveis.

Primeiro: ofuscar a simbologia positiva da posse de Lula. A inevitável cobertura midiática virou uma propaganda fascista de alcance planetário. Algo se quebrou no otimismo democrático do novo governo e até na imagem vitoriosa do presidente.

Segundo: substituir a derrota eleitoral do bolsonarismo por um triunfo performático de sua militância. O codinome “festa” resume o viés exibicionista e intransitivo do evento. A catarse rebelde preveniu o melancólico abandono das vigílias salvacionistas.

Por fim, o “triz” que faltou para o dito golpe dificulta a recomposição da normalidade. Recurso terrorista usual, o perigo iminente gera medo, paranoia e conflito interno. O desfecho ambíguo, fantasiado de retorno à ordem, fez o governo refém de seus algozes.

Em suma, o delírio golpista do suspeito é inversamente proporcional à sua culpa efetiva pelo 8 de janeiro. Num paradoxo cruel, quanto mais os democratas se aproximarem dos verdadeiros mentores do ataque, maior será o êxito do projeto desestabilizador inicial.

A CPMI não alimentará a crise militar, mas pode expor suas dimensões. Resta saber se o governismo tem vontade e força política para admiti-las. Pois, uma vez aberto o baú de assombrações, essa briga exigirá muito mais do que manifestos democráticos.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Entre farsas e bocejos



É quase um dever cívico desconfiar de ações da Polícia Federal envolvendo Sérgio Moro. Essa conjugação amiúde gerou arbítrio, desde oportunismo propagandístico até violação de direitos. Lula apenas tornou pública uma suspeita que deveria ocorrer a todos os democratas.

Isso dispensaria maiores conhecimentos sobre o tal inquérito do PCC. Quem não enxerga na biografia de Moro e no histórico da PF motivos suficientes para incredulidade normaliza os delitos da Lava Jato e seu papel na ascensão do fascismo no país.

Manifestar dúvida, ato performativo de linguagem, não descreve acontecimentos do mundo. Isso vale também para convicções. Moro não embasou as suas e jamais houve manchete na Folha de São Paulo afirmando que ele condenou Lula “sem apresentar provas”.

Veículo tendencioso procura só o que quer encontrar. A única referência da mídia para dizer que Lula mentiu foi uma versão antagônica. E, mais importante, uma versão constatativa, que deveria passar por verificação antes de ser tomada como verdadeira. Verossímil não era.

O jornalismo das checagens seletivas alimenta fetiches loucos pela PF. Começou na Lava Jato (claro), atravessou vazamentos clandestinos e desaguou no estranho atentado a Bolsonaro, auge da crença midiática na corporação. Os policiais têm enorme talento persuasivo.

Moro disse que, se lhe acontecer “alguma coisa”, a culpa será de Lula. Ninguém quis saber de provas para uma acusação dessa gravidade Como o noticiário reagiria diante de uma liderança petista que insinuasse que o senador planeja encenar um ataque a si mesmo?

A reaparição da juíza Gabriela Hardt, vitimizando o colega às vésperas do depoimento de Tacla Duran, é a parte exposta de um iceberg narrativo muito mal contado. A histeria em torno da entrevista de Lula visou jogar o bode na sala. Finda a polêmica, mudam de assunto.

Acho apressado ver erro no gesto de Lula. No mínimo ele desequilibrou o viés único da pauta. E não é absurdo supor que o lado negativo da exposição de Moro tenha reduzido a sanha conspiratória do lavajatismo. A repercussão do próximo factoide tornou-se imprevisível.

Não entendo por que Lula deveria “esquecer Moro”, se todos os dias o governo batalha contra os danos que o ex-juiz causou. Ele não merece o conforto do ostracismo. E o presidente pode (e deve) continuar expondo as origens institucionais desse pesadelo que não termina.

Querendo escolher adversários, Lula decerto optaria por um desqualificado irrelevante. Mas o falso protagonismo de Moro no enredo já havia sido imposto pela cobertura noticiosa. Se lhe conferem estatura de mártir justiceiro, ele cabe também no figurino de inimigo da democracia.

O episódio serve para a esquerda ajustar sua bússola crítica à linha que divide a civilidade gregária e a tolerância a golpistas. O fato de os veículos abraçarem Moro com tamanha avidez mostra o nível do oposicionismo republicano que pretendem alavancar. De novo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Ainda falta o terceiro turno



A campanha bolsonarista foi abertamente criminosa. Perdeu, mas ficou impune. E seguiu naturalizando esse privilégio, nos posteriores deboches à norma constitucional.

Como previsto, a sucessão de golpes que pariu o governo Bolsonaro tornou-o tão ilegítimo que o deslocou para fora do regime da legalidade. Assim termina o mandato.

Talvez (ainda) não haja muito a fazer na seara governamental, pois o Congresso aliou-se ao banditismo. Individualmente, porém, a história é bem outra.

O caminhoneiro que expõe crianças, o policial prevaricador, o líder dos piquetes, o jurista mentiroso, a deputada pistoleira, todos podem e devem ter punição imediata.

Não faltam provas. Não há controvérsias, brechas legais ou direitos a preservar. São criminosos notórios, em atividades documentadas, de ampla repercussão pública.

Assim como os hábitos ilícitos de Bolsonaro, o vandalismo fascista aproveita a cumplicidade e a omissão das cúpulas judiciárias. A anistia é um projeto institucional.

Ou acreditamos realmente que nossos heróis togados não conseguem identificar os organizadores dos ataques? Que não têm prerrogativa para meter nazistas na cadeia?

Um ano atrás alertei que as autoridades atiçavam o golpismo fingindo combatê-lo. Agora fingem surpresa diante dos ataques mais previsíveis do universo.

Não basta liberar estradas, recolher pistolas, abrir sindicâncias, bloquear contas digitais. Não estamos lidando com ameaças ou tentativas, e sim com delitos flagrantes.

Perdoar delinquentes é o exato oposto da pacificação. É um desatino incendiário que alimenta a instabilidade social e convida o golpismo a alargar seus limites.

Enquanto nos contentamos em tirar bodes da sala, os facínoras ganham adeptos e melhoram sua organização. Hoje voltam para casa. Amanhã saem armados. E depois?

Sem uma ação imediata e rigorosa do Judiciário, a posse de Lula ocorrerá no meio de batalhas campais. E ele presidirá um país à beira da guerra civil.

A esquerda otimista ri dos patetas, mas continua com medo de sair à rua usando roupa vermelha. Sonha com a Bolívia de Arce e periga despertar no Chile de Allende.

O que falta é pressão de democratas corajosos. Menos chororô perplexo e mais atitude efetiva. As instituições precisam responder para quem, afinal, estão funcionando.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Vera Magalhães e a lógica do escorpião



Questionada no Twitter a respeito da ausência de Lula no programa Roda Viva (TV Cultura), a âncora Vera Magalhães respondeu, em dois de abril de 2020:

Olha só: ele foi convidado no ano passado, antes da minha gestão. Quis aprovar a bancada. Diante do não, se recolheu. Não vai usar o programa para retomar uma polarização nefasta ao país e que é tudo que o bolsonarismo quer.

Lula não é player da crise de covid-19. É um condenado em prisão domiciliar. Por isso e por ter mais de 60 tem de ficar em isolamento. Emular esse espantalho político é tudo que Bolsonaro quer para cortina de fumaça dos seus erros.

Se afoitos e ingênuos querem ser o sapo da travessia do escorpião, o Roda Viva não será essa jangada. Vamos seguir fazendo jornalismo de serviço e relevância, ouvindo quem tem o que dizer nesse momento grave do país.

Tiremos logo o bode pandêmico da sala. Poucos dos entrevistados pelo Roda Viva naquele ano tinham ligação profissional com áreas relacionadas à Covid. Menos da metade ocupava cargo público de qualquer natureza. A lista incluiu Ciro Gomes, Simone Tebet e João Santana (!), prestando serviço mais ao sonho da “terceira via” eleitoral do que ao contribuinte.

A estreia de Magalhães no programa ocorrera três meses antes das mensagens acima, tendo Sérgio Moro como convidado. Os anfitriões formaram uma bancada amistosa para recebê-lo. Esnobaram Glenn Greenwald, cujas reportagens haviam originado o então recente escândalo da “Vaza Jato”, que já anunciava uma reviravolta no cenário político nacional.

Alguém com a índole autocrática e vaidosa de Moro não participaria do Roda Viva, naquele contexto, sem vetar nomes. A direção jornalística da emissora (já a cargo de Leão Serva) antecipou-se e tornou o veto desnecessário. Livrou de constrangimentos o artífice do golpe judicial que permitira a ascensão do fascismo ao poder. Um ministro do governo Bolsonaro.

O episódio ajuda a entender o viés ideológico dos textos de Magalhães. A falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro e a adjetivação negativa do ex-presidente com base na sentença de Moro fazem parte do discurso típico do lavajatismo. A sugestão de manter o petista fora do jogo político (“isolado”) repete o objetivo confesso do ex-juiz e de seus cúmplices.

Como se não bastasse, Magalhães ironizou a idade de Lula, distorceu sua situação jurídica e usou-a para torná-lo indigno do debate público. Eximiu Bolsonaro de culpa, reduzindo seus crimes a “erros” e naturalizando a ideia de que ele apenas reage ao polo contrário. Em suma, usou a retórica fascista habitual para desqualificar uma liderança do campo democrático.

Dois anos depois, o “espantalho político” de Magalhães é novamente o favorito disparado na corrida sucessória. A “polarização nefasta”, que Lula jamais deixou de encabeçar, sintetiza um anseio majoritário pelo fim da tragédia parida no sucesso midiático da Lava Jato. A vitrine do Roda Viva não se mostrou capaz de alavancar seus “players” de estimação.

Eis que a metáfora com a fábula do sapo e do escorpião ganha aspecto premonitório. No final das contas, os afoitos e ingênuos estrebuchando no rio são Magalhães e Serva, ferroados pelos bichos paridos do arbítrio que ambos legitimaram. Num requinte de humilhação, recebem a (merecida) solidariedade que negaram aos desafetos injustiçados.

Mas a narrativa edificante serve também para os progressistas que se lançam no resgate dos colegas em apuros. Quando o fascismo incendeia a floresta, os anfíbios democratas ajudam os aracnídeos de ideologia peçonhenta a alcançarem a margem segura da civilização. Basta começar o governo Lula e a natureza recolocará esse pacto ilusório nos devidos termos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Os defensores do TSE caíram na armadilha de Bolsonaro



O transporte e o armazenamento da estrutura de votação fornecem brechas oportunas ao impulso golpista. É mais fácil o bolsonarismo sabotar um processo vigiado por militares e policiais federais do que os funcionários civis fiscalizarem tamanho contingente.

Ocorre que TSE não se preparou para um cenário de ameaça efetiva. Esnobando os acadêmicos sérios que apontavam falhas no sistema digital, perdeu a interlocução crítica e qualificada que o forçaria a evoluir. Iludiu-se com os brilhos da unanimidade.

A rejeição do voto impresso deveria incentivar rigores que o substituíssem, mas os avanços foram superficiais. A amostragem de urnas selecionadas para controle, por exemplo, segue critérios estatísticos impróprios e tem escasso valor preventivo.

O fã-clube do TSE nem tomou conhecimento dos riscos. Preferiu repetir que os testes oficiais nunca apontaram problemas e que as fraudes são impossíveis porque ainda não ocorreram. Festejou o apoio dos diplomatas a um método que seus governos repudiam.

A mania de blefar em benefício da urna sinaliza que Jair Bolsonaro pautou esse debate. Ideologizando questões técnicas, conseguiu se livrar do cientificismo que seus inimigos usaram para desmascará-lo no auge da pandemia. Tornou-os negacionistas.

A obsessão com as narrativas de Bolsonaro naturalizou sua mentira central: a ideia de que a integridade do sufrágio depende apenas da “lisura” do TSE. Já que a hipótese de conluio do tribunal com o PT é absurda, a correta apuração dos votos está garantida.

Mas a confiança nas autoridades e os fenômenos materiais têm lógicas probabilísticas muito diversas. Embora o sucesso de um ataque ao sistema eleitoral seja duvidoso, a chance de correção dos seus danos é simplesmente zero. Não, boletins não servem.

Imaginemos que, ao término da votação, os códigos de uma urna revelem um comando capaz de transferir votos de Bolsonaro para Lula. Seria ridículo atribuir a manobra ao PT, mas não haveria meios tecnológicos, legais ou políticos de absolvê-lo.

Assim, os apologistas do TSE podem estar ajudando a produzir o clima da cassação da candidatura petista. Quanto maior a afinidade simbólica da oposição com o tribunal, maior o constrangimento imposto por uma fraude anônima que “ajudasse” Lula.

A esquerda subestima os efeitos de litígios na disputa presidencial. Foram os tribunais que engendraram o golpe fascista, com auxílio dessa mídia que não checa as auditorias que não auditam. No próprio TSE há ministros que seguem aplaudindo Sérgio Moro.

Mas é sobretudo o corporativismo que ameaça os planos progressistas. Nem a imprensa nem as cortes darão a Lula o benefício da dúvida, se para isso tiverem de expor uma vulnerabilidade qualquer do rito eletrônico. Muitas reputações graúdas estão em jogo.

Confundindo propaganda com certeza e republicanismo com autoengano, os democratas ajudam a manter o país vulnerável ao golpe. A transformação do TSE em protagonista da campanha dá a Bolsonaro o único oponente que ele consegue derrotar sem voto.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Vamos falar de golpe?



O campo democrático exibe uma irresponsabilidade chocante apegando-se às frágeis narrativas do TSE sobre a segurança do voto eletrônico. Pessoas que temem um golpe fascista desconsideram os meios potencialmente mais simples de viabilizá-lo.

A miopia tem origem na presunção de que a natureza “científica” da tecnologia eleitoral serve como antídoto para o obscurantismo bolsonarista. Assim, a defesa da candidatura Lula se confunde com a defesa do equipamento que registrará seu êxito inevitável.

É assombroso que ninguém sequer imagine o cenário oposto. E se a apuração der vitória a Bolsonaro, contrariando a liderança de Lula nas pesquisas? A claque do TSE aceitaria boletins de urna como prova? Ou questionaria o método que não cansou de elogiar?

Por outro lado, e se Lula vencer, mas os técnicos descobrirem um comando malicioso supostamente capaz de favorecê-lo? Os votos originais seriam recuperados, para atestar a falta de sentido da manobra? O PT conseguiria evitar a cassação da chapa?

Essas hipóteses valem tanto quanto qualquer especulação conspiratória. E as perguntas que as acompanham não são retóricas. Quem confia nos mecanismos de votação deve respondê-las sem apelar para a fácil recusa de sua verossimilhança.

Mas nem a credulidade absoluta serve como argumento. Os controles do TSE poderiam ser ludibriados mesmo que não tivessem as lacunas graves que têm. A sofisticação do crime digital amiúde supera os melhores sistemas de vigilância do planeta.

Menciono um exemplo já considerado obsoleto: há doze anos, EUA e Israel sabotaram usinas nucleares iranianas, sem recorrer à internet, usando um vírus que apagava seus rastros. E é com o governo israelense que Bolsonaro negocia programas espiões...

A esquerda se protege do fatalismo cultivando uma espécie de paranoia desejosa com o tal motim fascista. Apesar da violência que a define, é a mais reconfortante das ameaças antidemocráticas. Começa na derrota do inimigo e termina com sua desmoralização.

Seria prudente imaginar também as alternativas incômodas. Certos riscos pedem cautela preventiva ainda que tenham mínimas chances estatísticas, ou sequer admitam cálculos de probabilidade. Basta que envolvam danos gravíssimos e irreversíveis.

Uma sabotagem eficaz contra a vulnerável estrutura do TSE consolidaria a reeleição de Bolsonaro. O golpe seria escandaloso, mas não haveria clima político ou bases técnicas para impedi-lo. Afinal, os próprios democratas legitimaram a confiabilidade do sistema.

A fantasia de resistência institucional ao fascismo nutre um vício triunfalista. Enquanto faz apelos pragmáticos e moderados, a oposição subestima os adversários e se acomoda numa passiva utopia tecnológica. Não pode haver definição mais precisa de “salto alto”.

terça-feira, 15 de março de 2022

Falta explicar Alckmin



Quando nasceu a ideia de tornar Geraldo Alckmin vice de Lula, diziam que era uma jogada para tirar o ex-governador da disputa em São Paulo. Parecia engenhoso, mas logo soubemos que, antes do convite, sua candidatura já não tinha espaço no PSDB.

Então surgiu a desculpa de que Alckmin ajudaria Lula a vencer no primeiro turno. Sem respaldo estatístico, o anúncio gerou ceticismo até nos defensores do arranjo. E eles se apressaram a ponderar que não, o ganho não seria propriamente em votos.

O benefício, afirmaram a seguir, residiria na tal governabilidade. De novo, porém, não há evidências de que Alckmin possui prestígio suficiente na classe política para lidar com uma tarefa tão árdua e complexa. Sua antiga base partidária está em frangalhos.

Agora o livram do fardo, talvez para livrá-lo também de críticas individuais. Alckmin doravante significa um grupo, a resistência democrática ao possível golpe bolsonarista. É o clube dos magnânimos fiadores do processo eleitoral e mesmo da posse de Lula.

Enquanto houver prioridades legítimas na agenda petista, Alckmin será seu viabilizador potencial. Não importa como. O hábito de substituir respostas práticas por aforismos (“um passo atrás, dois à frente”) blinda a escolha contra verificações objetivas.

Não há necessidade de inventar correntes progressistas da Opus Dei para Alckmin. Seu nome virou a antítese natural dos riscos que ameaçam a campanha e o futuro governo. Ao questionarem a solução, os céticos são tratados como se duvidassem dos problemas.

A inflação de expectativas em torno de Alckmin produz mensagens temerárias. Quem ousar contrariá-lo ajudará os fascistas. A coerência programática da esquerda impede a “reconstrução do país”. Lula precisa da direita para não merecer um (novo) golpe.

Eis o paradoxo da salvação frenteamplista: a causa nobre demanda sacrifícios do PT, mas não obriga os aliados a abdicarem de exigi-los. O espírito republicano de Lula se manifesta em concessões; o da direita, no soberano aval às concessões alheias.

A falta de reciprocidade arruína o valor pragmático em ter Alckmin como vice. O gesto, unilateral, não recebeu qualquer garantia de contrapartida para além daquelas que tendem a resultar da força política de Lula e de suas alianças partidárias.

Pragmatismo de verdade seria Alckmin concorrer a deputado federal, puxando votos para ampliar as vagas da coligação governista. Depois, ocupar a Presidência da Câmara ou um ministério. Solução mais prudente e eficaz do que torná-lo sucessor de Lula.

Os ganhos certos dessa alternativa superam qualquer prognóstico desejoso inventado para o idílio salvacionista. O cargo de vice reduz o útil apoio de Alckmin a um erro tolo, cujo fracasso é consumado de antemão, pelas vantagens potenciais que desperdiça.

Haveria mais do que símbolos e esperanças a debater, portanto, se a chapa de Lula fosse avaliada segundo uma estratégia técnica e profissional. Na obstrução dessa abordagem percebemos de onde parte o verdadeiro sectarismo que atrapalha a campanha.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Alckmin de vice é autossabotagem



Nem as melhores intenções do mundo justificam a proposta de tornar Geraldo Alckmin candidato a vice na chapa de Lula. O arranjo é duplamente desnecessário. Além de não fortalecer as supostas prioridades da campanha e do país, gera problemas evitáveis que só atrapalham o favoritismo e o eventual governo do petista.

Alckmin desagrega. Desde que foi aventado, seu nome causa discussões entre militantes de esquerda nas redes digitais. Conflitos minoritários, talvez, mas precoces, inflamados e potencialmente corrosivos. Nesse ritmo, em semanas de campanha oficial os debates internos ficariam tomados por agressões, “cancelamentos” e cizânias rancorosas.

Seria difícil abafar a memória de lutas da esquerda contra o tucanato paulista, inclusive pela óbvia conveniência dessa propaganda negativa para os adversários. E não podemos desprezar o estrago eleitoral de uma avalanche de registros sobre escândalos impunes dos governos Alckmin, ataques a professores e estudantes, amizades nefastas, etc.

O esforço dos defensores da ideia para torná-la menos indigesta agrava a discordância. Afinal, se até o rótulo “conservador” parece lisonjeiro em Alckmin, situá-lo no centro político beira mesmo o escárnio. Sua simpatia pela Opus Dei, que abriga também parte do fascismo judicial, denota valores incompatíveis com qualquer agenda progressista.

Nunca haverá plena harmonia ideológica numa coligação, mas além de certo limite a diferença vira mau agouro. Ao contrário de José Alencar, Alckmin nutre ambições presidenciais. Embora isso não o torne conspirador, tampouco o sintoniza com os planos lulistas. Aliado relutante, inamovível, tratado pela mídia como sucessor natural de Lula, o vice representaria uma contínua ameaça de ruptura na cúpula do governo.

Ao mesmo tempo, os benefícios prometidos são duvidosos. As pesquisas apontam que Alckmin levaria ganho minúsculo de votos à chapa, decerto incapaz de compensar a dissidência de esquerda no primeiro turno e irrelevante para a adesão inercial dos oposicionistas no segundo. A expectativa de reforço à governabilidade não considera o ressentimento da antiga base partidária do ex-tucano pela derrota em São Paulo.

É desonesto chamar os críticos a Alckmin de sectários. A rejeição a ele vai muito além de purismos esquerdistas ou de horror a pactos moderados. Trata-se de formular estratégias aglutinadoras que não recorram a pragmatismos capengas, nem desperdicem a enorme vantagem de Lula adotando uma das piores soluções possíveis.

Por que rachar a militância faltando pouquíssimo para o triunfo imediato? O comando da campanha não vê os benefícios que essa perspectiva daria ao futuro governo e às candidaturas da aliança? Que simbologia conciliadora já não foi transmitida pelos amorosos diálogos com Alckmin, com os órfãos da terceira via e até com golpistas?

A obsessão em tratar a disputa eleitoral como sacrifício expiatório sugere que parte do lulismo internalizou a culpa alheia pela tragédia fascista. Vendo na escolha do vice um fardo necessário para “salvar a democracia”, o PT responde por erros que não cometeu em 2018 e assume responsabilidades que não lhe cabem agora. Essa autocrítica solidária desrespeita o próprio espírito do voto popular em Lula. É o famoso medo de ser feliz.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Vai ter golpe?



Há algo estranho na conturbação institucional que aflige o país. Vivemos a ameaça permanente de uma ruptura que nunca se concretiza e que não sabemos definir, para além das bravatas enigmáticas e desconexas de Jair Bolsonaro. Tudo parece à beira do colapso, mas não vislumbramos suas possibilidades, nem ações efetivas para impedi-lo.

Por um lado, o golpe já ocorreu e Bolsonaro é sua consequência. Isso o torna ilegítimo, portanto fora do alcance das normas legais, atropeladas exatamente para que ele chegasse ao poder. O fascista desconhece freios e contrapesos, gostaria de se perpetuar e não tem chance através do voto. Sabe que consegue ao menos bloquear estradas.

Por outro lado, não creio em “golpe dentro do golpe”. Mesmo que fosse unanimidade entre os militares, Bolsonaro não teria recursos humanos ou técnicos para impor um regime despótico de escala nacional. Seu idílio de tomar o poder ocupando tribunais não dura uma semana de insubordinação, baderna e paralisia administrativa. E prisões.

Sim, existe o perigo de policiais, milicianos e outros jagunços cometerem violências em nome de Bolsonaro. Mas esse tipo “comum” de banditismo pode ser evitado e punido a qualquer momento. Bastam esforços preventivos simples dos governos estaduais, para não citar sua costumeira eficácia em reprimir amotinados e manifestantes indesejáveis.

Também é verdade que Bolsonaro goza de conforto jurídico inigualável. O STF sequer determina ao Congresso que analise o impeachment. A autonomia dos Poderes nunca impediu os ministros de vetarem nomeações do Executivo e até de enviarem deputados à cadeia. A balela das prerrogativas aparece para proteger um fascista que as despreza.

Só que o golpe não depende de Bolsonaro permanecer no cargo. Ninguém é obrigado a buscar aval do Congresso para punir delinquentes, inclusive os das Forças Armadas. O bloqueio do impeachment, apesar de nefasto em muitos aspectos, recebe peso absurdo nos debates sobre a ruptura. E serve como desculpa esfarrapada à omissão institucional.

As esferas capazes de conter o golpismo, aliás obrigadas a isso, limitam-se à defesa de suas autoridades formais. Exigem respeito a decisões que não tomam, a comandos que não exercem, a inquéritos que não terminam, a regras que não cumprem. Respondem às crises com paliativos, festejam o recuo alheio e anunciam a próximo susto.

Essas ambiguidades mantêm a ameaça golpista numa temperatura controlada, abaixo da ebulição, porém mais alta do que precisaria ficar. O fantasma da ruptura se normaliza a ponto de esquecermos que as instituições têm meios e motivos para dissipá-lo de vez. A verborragia de Bolsonaro consegue pôr em dúvida a ocorrência da disputa sucessória.

Afastando as plumas cerimoniais, percebemos que a contenção do golpismo depende de alguns dos órfãos da “terceira via”. No STF, entre os defensores da Lava Jato, um ex-ministro do golpista Michel Temer. Nos estados, tucanos e outros círculos aspirantes à Presidência. Na mídia, a tropa da conciliação e das equivalências caluniosas.

Então faz sentido. A paranoia com o golpe iminente serve para atiçar a piromania do bolsonarismo. Em vez de enfrentá-lo, seus contendores o provocam, deixando abertas as vias de um ataque fascista que desestabilize o processo eleitoral. Nada grave. Apenas o tumulto necessário para atropelar a disputa com a pacificação da direita sem voto.

A estratégia do oportunismo incendiário se desnuda em alertas do tipo “não é hora de pensar em eleições”. Devemos esquecer a democracia para salvá-la, despolitizar a luta contra forças antipolíticas, abrir mão do candidato que pode vencer o fascismo no primeiro turno. O próprio Bolsonaro não formularia seus desejos com tamanha clareza.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O impeachment morreu abraçado pela “terceira via”









As pesquisas frustram a esperança de um nome da centro-direita chegar ao segundo turno presidencial tendo Lula e Bolsonaro na disputa. As várias chapas daquele campo dividiriam no máximo 30% dos eleitores. Com os índices atuais, nem a improvável união de seus pré-candidatos passaria à etapa decisiva. Sequer somando os indecisos.

Por definição, para uma via ser “terceira” é preciso haver outras duas. A lógica mostra que a alternativa intermediária só faz sentido numa conjuntura que a esvazia. Não obstante, seus ideólogos criaram uma saída retórica para o impasse. Bastaria excluir Bolsonaro, ocupar o seu flanco na polarização e chamá-lo de “meio-termo”.

Ocorre que o impeachment deixou de fornecer esse atalho fácil. O substituto do fascista pode até imitá-lo, mas nunca herdaria todo o seu eleitorado. Pelo contrário. Amplos setores do bolsonarismo desistiriam de votar, ou anulariam o voto, em gesto de repúdio à política tradicional. Não perdoariam os carrascos do ídolo motoqueiro.

Como as adesões a Lula já beiram a metade dos votos válidos, a diminuição desse total facilitaria o desfecho da campanha no primeiro turno. Cada eleitor de Bolsonaro perdido exigiria que a centro-direita conquistasse um lulista ou alguém predisposto a descartá-la. Parece uma dinâmica insustentável na proporção necessária.

Há também a percepção do impeachment como bandeira da esquerda, imagem facilitada pelos protestos, que resistiram à neutralidade patriótica dos conciliadores. De fato, corretamente ou não, o sucesso da proposta ficou associado a um triunfo simbólico de Lula. Cabe lembrar que ele atrai cerca de dois terços da maioria que rejeita Bolsonaro.

O dilema da centro-direita vai além do retorno do PT ao governo federal. Envolve ainda os candidatos de sua coligação a governos estaduais e cargos legislativos, que seriam beneficiados por uma votação expressiva de Lula ou teriam um presidente eleito como reforço no segundo turno. O conservadorismo receia uma “onda vermelha” nacional.

Nesse panorama, o bloqueio do impeachment serve aos objetivos políticos dos setores capazes de efetivá-lo. Todos, inclusive os poderosos defensores judiciais, midiáticos e financeiros da “terceira via”. Ou acreditamos que os artífices dos golpes recentes não saberiam derrubar alguém como Bolsonaro, em plena catástrofe humanitária?

A praxe fisiológica adapta-se às circunstâncias, raramente as determina. Bolsonaro permanece no cargo não porque cedeu gabinetes, e sim porque as pesquisas o apontam como única barreira contra um tsunami lulista. E será absolvido no plenário, com fanfarra, caso sua fragilidade chegue a ameaçar a ocorrência do segundo turno.

Se o golpismo institucional preserva o fascista, num ambiente de polarização de ambos com o PT, a finalidade é óbvia: Bolsonaro em campanha, inflamando o antipetismo, aglutinando o voto conservador e freando o avanço de Lula. Assim que o genocida cumprir a tarefa, planejam finalmente sacrificá-lo, como fizeram com Eduardo Cunha.

Curiosamente, Bolsonaro dá pistas de preferir uma deposição que o martirize. Força tanto a barra que seus inimigos são obrigados a reagir, mas com uma delicadeza que torna ainda mais absurdo o fim do impeachment. Mesmo incapazes de ressuscitá-lo, as ruas poderão testar os limites do espírito democrático dos órfãos da “terceira via”.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Sufrágil



Desconfio das urnas eletrônicas desde sua adoção no país. Sempre achei temerária a falta de evidências tangíveis da vontade do eleitor. Não parece razoável a ideia de auditar voto sem voto, conferindo números gerados por códigos digitais.

Os defensores do sistema fogem de questões técnicas envolvendo sua segurança. Ora se apegam à relativa simplicidade operacional e à rapidez do método, ora tratam o TSE, a PF e as empresas licitadas como fiadores das próprias competências e idoneidades.

A mentira do endosso internacional ajuda a ocultar os problemas levantados pelos países que testaram e reprovaram a urna eletrônica. Alemanha, Holanda e Irlanda, por exemplo, afirmaram que ela não permite sequer a detecção de eventuais ilícitos.

A mídia ignora os estudos publicados, inclusive de universidades brasileiras. Ninguém dedica ao assunto o rigor científico exigido nos debates sobre a pandemia. O aval de pesquisas acadêmicas revisadas não é importante para definirmos como votamos.

Essa postura, negacionista a seu modo, ressuscita o clima do triunfo da Lava Jato. As instituições funcionam e garantem a urna programada. Os incrédulos são teóricos da conspiração ou, pior, inimigos de um “processo democrático” sólido e transparente.

Antes de abraçarmos uma narrativa oposta aos planos de Jair Bolsonaro, deveríamos ter certeza de conhecê-los. A suposição de que pretende apenas desacreditar os resultados vale tanto quanto as outras imagináveis. É a mais amena delas, na verdade.

Hipoteticamente, as bravatas de Bolsonaro podem estar preparando terreno até para um ataque às urnas. Se não uma fraude que lhe dê a vitória, um defeito qualquer que anule a votação. O álibi no mínimo fortaleceria o presidente em caso de nova disputa.

A pujança democrática do país obriga-me a salientar que se trata de mera especulação. Não temos motivos para imaginar conluios unindo células golpistas da PF e agentes militares de inteligência que trabalham em segredo para o governo. São todos patriotas.

Na minha paranoia, contudo, vivemos sob um regime despótico encarregado de gerir o vulnerável sistema de votação do qual dependemos para superá-lo. Os fascistas desse pesadelo são atualizados e proativos. Têm apoio nas cortes e nas polícias.

É fácil exigir provas de mentiras sabidamente improváveis. Mas o outro gume da faca também corta: o acusador futuro talvez venha a ter razão. E os justos ficarão limitados ao mesmo escrutínio falho e inconclusivo que outrora permitiu calar os mentirosos.

Os democratas caem numa armadilha quando se comprometem com a urna eletrônica. Desqualificam de antemão suas possíveis denúncias contra a tutela bolsonarista do equipamento. Naturalizam a imprevisibilidade e assumem riscos desnecessários.

Urge discutir a tecnologia eleitoral cientificamente, sem republicanismo ingênuo. Se for necessário, reivindicar a impressão do voto. A disputa com Bolsonaro é séria demais para dependermos de amostragens irrisórias e somas redundantes de boletins de urna.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A imprensa lavajatista condenou o STF



Publicado no Observatório da Imprensa e em A Terra é Redonda

Após a decisão favorável a Lula, houve desgaste inédito no apoio que o STF desfrutava junto aos círculos responsáveis pela popularidade da Lava Jato. O fenômeno pôde ser constatado, através das manifestações de colunistas e fontes especializadas da mídia corporativa, nos espaços regulares dos veículos e nos perfis de redes virtuais.

A grande imprensa apaixonou-se pelo STF no julgamento do chamado “mensalão”, a Ação Penal 470. Joaquim Barbosa, então presidindo a corte, lançou o modelo ético do jornalismo que logo abraçaria a Cruzada Anticorrupção: indignado, messiânico, adepto de um pragmatismo seletivo com virulento pendor punitivista.

Esse perfil disseminou-se na apoteose da Lava Jato, marcando a própria identidade enunciativa de seus apoiadores. O “isentismo”, germe inicial da truculência fascista, espelhava a cobertura noticiosa dos escândalos, em particular sua demonização global da esfera política como disfarce para o óbvio viés partidário dos cruzados.

Desde o impeachment de Dilma Rousseff até a conspiração que impediu Lula de vencer Bolsonaro, o STF serviu de fiador institucional do discurso midiático antipetista. Em troca, perfis laudatórios, entrevistas amenas e comentários elogiosos davam notoriedade positiva aos responsáveis pela normalização dos arbítrios da Lava Jato.

Enquanto os recursos de Lula eram rejeitados, os veículos neutralizaram as denúncias de seus defensores, tratando os absurdos como “polêmicos”, dando falsas equivalências ao delírio e à sensatez. Embora por vezes lamentassem os abusos de Sérgio Moro, nunca reclamaram da continuada omissão do STF a respeito.

Outrora avalistas da criminalização de Lula, os ministros já não servem para atestar sua inocência. Louvados como rígidos e imparciais quando ignoravam os direitos do ex-presidente, viraram tendenciosos ao resgatá-los. Podiam menosprezar o risco Bolsonaro, mas devem ser responsáveis na prevenção de danos à Lava Jato.

Dois vícios assemelham as críticas tardias da imprensa e os ataques fascistas contra o STF. Primeiro, o negacionismo. A claque da Lava Jato segue transferindo a suspeição de Moro para Lula, incriminando-o exatamente com a base probatória anulada. Tenta desqualificar o tribunal fingindo que suas decisões são simples “narrativas” adversárias.

Mais grave é agir como se o julgamento não revelasse algo do processo histórico que vivemos, a começar pelos papéis do próprio STF e da imprensa na origem da tragédia humanitária atual. É agir como se fosse possível apagar as ilegalidades de Moro com sua incompetência. Como se a manobra, ainda que viável, alterasse os fatos.

Em segundo lugar, a mentira. Artigos publicados nos jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, por exemplo, acusaram a ministra Cármen Lúcia de cometer crime de responsabilidade mudando seu voto. A falácia foi desmascarada apenas depois de circular na internet, com aval de notórios profissionais do Direito.

Os novos debates do noticiário jurídico atropelaram a percepção desses episódios, mas não deixaram de revelar a diferença dos tratamentos dados aos ministros com posições antagônicas sobre a Lava Jato. Ademais, nenhum voto alinhado a Bolsonaro provocou tanta agressividade quanto aqueles que restituíram os direitos políticos de Lula.

Talvez fossem arroubos passageiros. Mas soa estranho questionarem a legitimidade do STF para impor freios ao bolsonarismo das cortes inferiores quando ele recebe mandato informal para refrear o próprio Bolsonaro. Pelo menos era esse o hábito na época em que a corte supostamente asseverava a resistência das instituições democráticas no país.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Defina impeachment



O governo Bolsonaro sobrevive a tantos escândalos pois lhe falta a legitimidade que o tornaria sujeito a regras. Nasceu e resiste graças aos mesmos vícios institucionais, compartilhando a blindagem daqueles que arquitetaram sua origem fraudulenta.

Cada esforço para normalizar a conspiração Lava Jato normaliza o habitat ilegítimo que protege Bolsonaro. Quando a mídia corporativa e o Judiciário endossam a condenação de Lula, aceitam o abrigo de popularidade que ela supostamente forneceu ao genocida.

A defesa do golpe enfraquece a agenda do impeachment. É o esforço para apagar essa contradição que norteia a fórmula do voluntarismo frenteamplista: esqueçamos nossas diferenças pela boa causa e depois sigamos com os respectivos projetos.

Essa pauta de aliança suprapartidária incondicional se restringe à defesa de si mesma. Não existe um impeachment viável e iminente, prestes a eclodir com a faísca da união oposicionista. Falta muito para a “tempestade perfeita” que derrubaria Bolsonaro.

A denúncia da tragédia humanitária não facilita a deposição. Embora imprescindíveis, medidas emergenciais possuem objetivos que se confundem com a melhora da imagem de Bolsonaro, além de lhe proporcionarem a chance de transferir o ônus da crise.

O abandono das “nossas diferenças” aprisiona a bandeira do impeachment num círculo ocioso de indignações e expectativas frustradas. Preserva o golpe até que a substituição de Bolsonaro, se ocorrer, sirva para eternizar o legado antidemocrático da Lava Jato.

Politiza a pandemia quem aproveita o morticínio para silenciar outros debates relevantes envolvidos na catástrofe bolsonariana. Impeachment não é vacina. Não basta empacotá-lo com discursos benevolentes para que ele se transforme numa solução milagrosa.

Nem o mais solidário desapego muda o fato de a proposta livrar a direita de um estorvo eleitoral, santificando fascistas desmoralizados às vésperas da campanha. E, lamento, é impossível banalizar a chegada de Hamilton Mourão à Presidência.

Não se trata de recusar uma bandeira que, para todos os efeitos, atrairá naturalmente os adversários do energúmeno. Trata-se de não abdicar de princípios por uma aventura que, na melhor das hipóteses, daria um pouco certo e, na pior delas, muito errado.

Sem corrigir os arbítrios da Lava Jato no caminho, a esquerda chegaria a uma versão apocalíptica de 2018. “Seguiria seu projeto” não apenas sob cabresto judicial, milícias armadas e crimes impunes, mas também num governo militar revoltoso e caótico.

Sabendo o que sabemos sobre impeachments, talvez devêssemos pecar pelo excesso de prudência. Incluindo, na lista de reivindicações urgentes, a garantia do básico necessário para que uma vitória progressista em 2022 seja ao menos possível.

Essa postura não é incompatível com a prioridade do afastamento. É incompatível com a tentativa de usá-lo para eternizar o regime que Bolsonaro personifica. Se merecesse todas as concessões exigidas em seu nome, o impeachment já teria ocorrido.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Pandemia negacionista



Negacionismo significa refutar o irrefutável. Não se restringe a violências e desastres naturais, tampouco aos círculos fascistas. Atinge as melhores famílias. E é exatamente a disseminação da patologia, nas mais diversas molduras discursivas, que singulariza a catástrofe brasileira.

Estatísticas, documentos auditados e textos legais provam que a Lava Jato cometeu delitos que elegeram Jair Bolsonaro. Não há margem racional para questionar a suspeição de Sérgio Moro nos processos contra Lula. Pois boa parte dos humanistas que chamam o presidente de genocida vê míseros “deslizes” na conspiração orquestrada por Moro. Aceita suas escusas.

Enquanto investiga a existência de ONGs incendiárias e bois bombeiros, a patrulha da objetividade adota convicções para a culpa de Lula. Os inimigos de “fake news”, implacáveis verificadores de currículos, palpites e estatísticas, jamais checaram a sentença de Moro. Não ousam falar em verdades e mentiras quando elas afetam eleições presidenciais.

Então disseminam-se as narrativas, em polarizações ociosas sobre a obviedade do óbvio. Num flanco, charlatões tornam “controverso” o aquecimento global. Noutro, chamam de “rigorosa” a decisão espúria do TRF-4 e de “positiva” a herança da Lava Jato. Na falsa equivalência entre opiniões sensatas e grotescas, o meio-termo gera um relativismo absoluto de hospício.

A cloroquina dos mitômanos solidários é o estado democrático de Direito. Menosprezando a “gripezinha” ditatorial, afirmam que as instituições resistem, pois são probas e saudáveis. O STF avalizou abusos explícitos que puseram um fascista na Presidência, mas salva o país do ataque imaginário que ele só ameaça. A vacina venenosa vai curar o paciente moribundo.

Os pessimistas da bolha naturalizam o retrocesso, como faz o bolsonarismo com a doença. Lula não passa de uma entre milhares de vítimas habituais do Judiciário. Ninguém está acima (dos abusos) da Lei. Se os direitos morrem diariamente, de causas numerosas e triviais, não há motivo para comoções quando eles sucumbem no privilégio de uma cela confortável e segura.

Indo na mesma linha generalizante, as teorias apocalípticas sobre a barbárie contemporânea diluem os atos de indivíduos notórios numa coletividade zumbi sem rostos nem culpas. Foram as engrenagens ardilosas do inimigo oculto que elegeram Bolsonaro, não simplesmente a armação judicial que desmoralizou, prendeu e censurou seu maior adversário.

Os negacionismos em voga não se espelham nos prejuízos que acarretam, e sim na covardia. Desde cedo esteve claro que a Cruzada Anticorrupção carregava um germe fascista. Moro passou anos sendo tratado como herói. Hoje, diante dos escândalos incontornáveis, seus fãs imitam Bolsonaro diante do morticínio: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”

Esse conformismo retórico é falacioso. Basta aplicar a Moro os mesmos critérios usados nas críticas a bolsonaristas. Enunciar as verdades sobre a prisão de Lula que independem de sua defesa, sem volteios eufemísticos ou elogios compensadores. Ligar os pontos até as eleições e classificar os seus resultados no mais científico rigor possível. Nomear as coisas como são.

Destruições e genocídios pertencem ao mesmo universo factual do golpe que fez o governo Bolsonaro ilegítimo e a Lava Jato um instrumento do avanço fascista. Em todos os casos, omitir a realidade é estratégia neutralizadora, uma performance de cegueira generalizada que normalize moralmente a inação. Nessa harmonia de farisaísmos o país ignora sua tragédia.