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quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Vera Magalhães e a lógica do escorpião



Questionada no Twitter a respeito da ausência de Lula no programa Roda Viva (TV Cultura), a âncora Vera Magalhães respondeu, em dois de abril de 2020:

Olha só: ele foi convidado no ano passado, antes da minha gestão. Quis aprovar a bancada. Diante do não, se recolheu. Não vai usar o programa para retomar uma polarização nefasta ao país e que é tudo que o bolsonarismo quer.

Lula não é player da crise de covid-19. É um condenado em prisão domiciliar. Por isso e por ter mais de 60 tem de ficar em isolamento. Emular esse espantalho político é tudo que Bolsonaro quer para cortina de fumaça dos seus erros.

Se afoitos e ingênuos querem ser o sapo da travessia do escorpião, o Roda Viva não será essa jangada. Vamos seguir fazendo jornalismo de serviço e relevância, ouvindo quem tem o que dizer nesse momento grave do país.

Tiremos logo o bode pandêmico da sala. Poucos dos entrevistados pelo Roda Viva naquele ano tinham ligação profissional com áreas relacionadas à Covid. Menos da metade ocupava cargo público de qualquer natureza. A lista incluiu Ciro Gomes, Simone Tebet e João Santana (!), prestando serviço mais ao sonho da “terceira via” eleitoral do que ao contribuinte.

A estreia de Magalhães no programa ocorrera três meses antes das mensagens acima, tendo Sérgio Moro como convidado. Os anfitriões formaram uma bancada amistosa para recebê-lo. Esnobaram Glenn Greenwald, cujas reportagens haviam originado o então recente escândalo da “Vaza Jato”, que já anunciava uma reviravolta no cenário político nacional.

Alguém com a índole autocrática e vaidosa de Moro não participaria do Roda Viva, naquele contexto, sem vetar nomes. A direção jornalística da emissora (já a cargo de Leão Serva) antecipou-se e tornou o veto desnecessário. Livrou de constrangimentos o artífice do golpe judicial que permitira a ascensão do fascismo ao poder. Um ministro do governo Bolsonaro.

O episódio ajuda a entender o viés ideológico dos textos de Magalhães. A falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro e a adjetivação negativa do ex-presidente com base na sentença de Moro fazem parte do discurso típico do lavajatismo. A sugestão de manter o petista fora do jogo político (“isolado”) repete o objetivo confesso do ex-juiz e de seus cúmplices.

Como se não bastasse, Magalhães ironizou a idade de Lula, distorceu sua situação jurídica e usou-a para torná-lo indigno do debate público. Eximiu Bolsonaro de culpa, reduzindo seus crimes a “erros” e naturalizando a ideia de que ele apenas reage ao polo contrário. Em suma, usou a retórica fascista habitual para desqualificar uma liderança do campo democrático.

Dois anos depois, o “espantalho político” de Magalhães é novamente o favorito disparado na corrida sucessória. A “polarização nefasta”, que Lula jamais deixou de encabeçar, sintetiza um anseio majoritário pelo fim da tragédia parida no sucesso midiático da Lava Jato. A vitrine do Roda Viva não se mostrou capaz de alavancar seus “players” de estimação.

Eis que a metáfora com a fábula do sapo e do escorpião ganha aspecto premonitório. No final das contas, os afoitos e ingênuos estrebuchando no rio são Magalhães e Serva, ferroados pelos bichos paridos do arbítrio que ambos legitimaram. Num requinte de humilhação, recebem a (merecida) solidariedade que negaram aos desafetos injustiçados.

Mas a narrativa edificante serve também para os progressistas que se lançam no resgate dos colegas em apuros. Quando o fascismo incendeia a floresta, os anfíbios democratas ajudam os aracnídeos de ideologia peçonhenta a alcançarem a margem segura da civilização. Basta começar o governo Lula e a natureza recolocará esse pacto ilusório nos devidos termos.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A imprensa lavajatista condenou o STF



Publicado no Observatório da Imprensa e em A Terra é Redonda

Após a decisão favorável a Lula, houve desgaste inédito no apoio que o STF desfrutava junto aos círculos responsáveis pela popularidade da Lava Jato. O fenômeno pôde ser constatado, através das manifestações de colunistas e fontes especializadas da mídia corporativa, nos espaços regulares dos veículos e nos perfis de redes virtuais.

A grande imprensa apaixonou-se pelo STF no julgamento do chamado “mensalão”, a Ação Penal 470. Joaquim Barbosa, então presidindo a corte, lançou o modelo ético do jornalismo que logo abraçaria a Cruzada Anticorrupção: indignado, messiânico, adepto de um pragmatismo seletivo com virulento pendor punitivista.

Esse perfil disseminou-se na apoteose da Lava Jato, marcando a própria identidade enunciativa de seus apoiadores. O “isentismo”, germe inicial da truculência fascista, espelhava a cobertura noticiosa dos escândalos, em particular sua demonização global da esfera política como disfarce para o óbvio viés partidário dos cruzados.

Desde o impeachment de Dilma Rousseff até a conspiração que impediu Lula de vencer Bolsonaro, o STF serviu de fiador institucional do discurso midiático antipetista. Em troca, perfis laudatórios, entrevistas amenas e comentários elogiosos davam notoriedade positiva aos responsáveis pela normalização dos arbítrios da Lava Jato.

Enquanto os recursos de Lula eram rejeitados, os veículos neutralizaram as denúncias de seus defensores, tratando os absurdos como “polêmicos”, dando falsas equivalências ao delírio e à sensatez. Embora por vezes lamentassem os abusos de Sérgio Moro, nunca reclamaram da continuada omissão do STF a respeito.

Outrora avalistas da criminalização de Lula, os ministros já não servem para atestar sua inocência. Louvados como rígidos e imparciais quando ignoravam os direitos do ex-presidente, viraram tendenciosos ao resgatá-los. Podiam menosprezar o risco Bolsonaro, mas devem ser responsáveis na prevenção de danos à Lava Jato.

Dois vícios assemelham as críticas tardias da imprensa e os ataques fascistas contra o STF. Primeiro, o negacionismo. A claque da Lava Jato segue transferindo a suspeição de Moro para Lula, incriminando-o exatamente com a base probatória anulada. Tenta desqualificar o tribunal fingindo que suas decisões são simples “narrativas” adversárias.

Mais grave é agir como se o julgamento não revelasse algo do processo histórico que vivemos, a começar pelos papéis do próprio STF e da imprensa na origem da tragédia humanitária atual. É agir como se fosse possível apagar as ilegalidades de Moro com sua incompetência. Como se a manobra, ainda que viável, alterasse os fatos.

Em segundo lugar, a mentira. Artigos publicados nos jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, por exemplo, acusaram a ministra Cármen Lúcia de cometer crime de responsabilidade mudando seu voto. A falácia foi desmascarada apenas depois de circular na internet, com aval de notórios profissionais do Direito.

Os novos debates do noticiário jurídico atropelaram a percepção desses episódios, mas não deixaram de revelar a diferença dos tratamentos dados aos ministros com posições antagônicas sobre a Lava Jato. Ademais, nenhum voto alinhado a Bolsonaro provocou tanta agressividade quanto aqueles que restituíram os direitos políticos de Lula.

Talvez fossem arroubos passageiros. Mas soa estranho questionarem a legitimidade do STF para impor freios ao bolsonarismo das cortes inferiores quando ele recebe mandato informal para refrear o próprio Bolsonaro. Pelo menos era esse o hábito na época em que a corte supostamente asseverava a resistência das instituições democráticas no país.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Idealização de Boechat precisa ser questionada



Publicado no Observatório da Imprensa

O volumoso necrológio do jornalista Ricardo Boechat foi digno de sua importância para a história da profissão no país. A trajetória pelos maiores veículos noticiosos e o vasto rol de premiações explicam as homenagens unânimes dos colegas. Verdadeira celebridade, recebeu merecida comoção popular diante da tragédia estúpida que o atingiu.

Mas seria indigno da memória do grande jornalista dedicar-lhe uma condescendência que ele próprio evitava na labuta cotidiana. Boechat decerto adivinhava os efeitos colaterais da postura independente e personalíssima que o definia, e esses desdobramentos fazem parte da complexidade e da riqueza do trabalho que o consagrou. Podemos respeitar o falecido sem transformá-lo num objeto de hagiografia populista.

Não me refiro ao indivíduo, ao pai de família, ao companheiro de tantas pessoas cujo luto exige a mais solene consideração. Trata-se aqui de uma reflexão exclusivamente ética, no sentido clássico da palavra, restrito à figura pública de Boechat e a seu papel nos debates sobre a prática jornalística. Aproveitando o esforço para torná-lo um modelo, uso-o como exemplo da necessária cautela ao abordar personagens de sua envergadura.

Meu primeiro questionamento envolve a tendência de minimizar certas colocações infelizes do jornalista sob as desculpas do humor, do improviso e das (baixas) expectativas do público. Basta lembrar um caso emblemático: a sugestão de que Dilma Rousseff quis visitar Lula na cadeia para um “encontro íntimo”, como se não houvesse outra razão possível, ou, pior, como se a ironia sexista fizesse contraponto razoável ao suposto cinismo do pedido.

O segundo problema, de natureza parecida, é a transformação de comportamentos profissionais reprováveis em deslizes menores de personalidade. Não podemos simplesmente ignorar os indícios de assédio moral no ataque virulento e insultuoso de Boechat a uma colega de trabalho, flagrado pela câmera do estúdio. Ou esse nível de agressão faz parte das normas de conduta da categoria? Seria apenas uma “bronca” na rotina das redações?

A terceira ressalva, de mais amplo escopo, se refere à natureza do jornalismo praticado por Boechat na sua militância apaixonada a favor da operação Lava Jato. Considerá-la um marco revolucionário da história brasileira constitui, evidentemente, prerrogativa básica do opinionismo. Algo bem diverso é privar a audiência de informações cruciais para o entendimento do que estava em jogo no último processo eleitoral.

Boechat participou ativamente na vilanização da classe política e na glamorização do campo judicial que culminaram no avanço reacionário. Contribuiu para a falaciosa assepsia ideológica da agenda punitivista e dos cruzados que a usaram para práticas ilegais. Omitiu ou suavizou as arbitrariedades cometidas contra Lula, ridicularizando seus defensores. Em suma, ajudou a naturalizar o Regime de Exceção que patrocinou a vitória de Jair Bolsonaro.

Sempre houve diversos caminhos possíveis, que não se desviariam necessariamente pelo proselitismo partidário. Enquanto Boechat reivindicava isenção jornalística nos aplausos a meganhas e magistrados nebulosos, eram jornalistas como ele que denunciavam as manobras da Polícia Federal em Curitiba, o papel do Judiciário no golpe, as injustiças contra Lula, os desvios de Sérgio Moro e a atuação política do Ministério Público.

Tudo isso agregando fatos documentados, testemunhos, depoimentos de especialistas, citações jurídicas. Material noticioso, portanto, de relevância inquestionável, que Boechat conhecia e não julgou oportuno explorar. O menosprezo por essas evidências e a adesão à narrativa legalista da excepcionalidade constituem atitudes legítimas, sinceras e coerentes, mas também tecnicamente reprováveis e marcadas por leituras equivocadas de conjuntura.

Esse posicionamento desinformou a audiência porque a induziu a acreditar que os métodos corruptos não desqualificavam os resultados da Lava Jato, que a destruição da candidatura Lula independia do escancarado partidarismo dos condenadores e que a pauta repressiva era preferível à defesa de direitos individuais. Embora repudiasse o fascismo, Boechat reverberou seus discursos e endossou a principal estratégia que levaria à sua vitória.

Apesar da gravidade dos erros, porém, não seria justo ou produtivo fazer do jornalista um bode expiatório do complexo fenômeno eleitoral. Questiono sua idealização póstuma pois a considero parte de esforços para limpar a imagem dos veículos informativos que toleraram ou favoreceram a ascensão fascista. Noutras palavras, um instrumento cínico e oportunista de autoelogio corporativo, tentando edulcorar a vergonha histórica da grande imprensa pela postura irresponsável diante dos escândalos que anunciavam o triunfo do obscurantismo.

Seria interessante usar um pouco do senso crítico e do ceticismo de Boechat contra seus próprios aduladores. Pela proximidade biográfica, iniciaríamos com um balanço do viés tendencioso do grupo Bandeirantes, outrora engajado na propaganda do golpe parlamentar e depois na promoção da candidatura Bolsonaro. Em seguida analisaríamos o padrão ideológico do grotesco noticiário policial, dos rudimentares programas locais de rádio e das demagogias moralistas do comentarismo esportivo.

Mas sabemos que esse debate não prospera: o imaginário messiânico sustenta o espírito cruzado e impede que a aventura punitivista se revele uma simples estratégia de poder. Boechat, que acreditou na fantasia, recebe o prêmio de ser incorporado a ela. E não surpreende que os campos jornalístico e judicial compartilhem agendas e referências éticas, tendo em vista o valor que ambos conferem aos respectivos mitos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A mídia naturalizou o fascismo



Publicado no Observatório da Imprensa

Tudo começou com o estranho ataque a Jair Bolsonaro. Numa rapidez incomum, os veículos de comunicação trataram de acatar não apenas a versão oficial, mas também a dos círculos próximos ao candidato. O ceticismo geral foi aplacado a golpes de moralismo civilizatório. A imagem da vítima dominou os espaços nobres do noticiário por semanas, garantindo exposição segura e positiva durante uma campanha marcada pela ausência do protagonista.

A iconografia construída em torno do acontecimento foi, digamos, singular. Do Cristo barroco nos braços do povo ao herói de guerra sob cuidados extremos, do mártir resistente ao filho pródigo que retorna em triunfo, criou-se um enredo para agasalhar os corações aflitos. Em meio a clichês do sensacionalismo policial, os balbucios perplexos do bravo militar completaram sua figura tolerante e indefesa, mística e abençoada. Às lágrimas.

Mesmo admitindo que as imagens e os depoimentos tinham relevância e que vieram de fontes externas, os veículos eram os únicos responsáveis pela organização das narrativas e por sua visibilidade. Ninguém que trabalha no meio pode alegar ignorância acerca da força simbólica do material divulgado. Não com Bolsonaro, não àquela altura da disputa.

Da mesma forma, os analistas que bradavam “atentado contra a democracia!” sabiam medir o tipo de associação legitimadora envolvida. Especialmente porque se referiam a uma pessoa homofóbica, racista e machista, defensora de assassinos e torturadores. O pacifismo seletivo dos indignados serviu à vitimização de um porta-voz da violência que eles dizem condenar.

Em seguida passaram a tratá-lo com eufemismos bondosos. É apenas um “excêntrico”, de ideias “polêmicas”, representante de certa “direita popular”. Chegamos ao ponto de ver redações patrulharem o vocabulário usado para classificá-lo e analistas desautorizando termos como “fascismo” e “ultradireita”, sob argumentos levianos e falsificadores.

O esforço culminou na postura acrítica, para não dizer cúmplice, diante dos métodos de Bolsonaro e seus acólitos. Os ataques físicos a adversários transformaram-se numa “violência política” de viés impessoal e generalizante. A disseminação unilateral e criminosa de mentiras virou uma difusa “guerra de fake news”, apelido já neutralizador e evasivo. Como se tudo fosse recíproco e espontâneo, com mínimo grau de sistematicidade ou profissionalismo.

A abordagem objetivista que Bolsonaro passou a receber após sua viabilização eleitoral faz parte de uma tentativa de amenizar o papel dos veículos nesse processo. A normalização do candidato gerou o antídoto retórico para normalizar a si mesma: agora que suavizaram o fanatismo, vestem um éthos moderado que não vê fanatismo em lugar algum.

Mas não há imparcialidade na ponderação diante de fascistas. Isso é adesão mal disfarçada. A grande imprensa fomentou por quase duas décadas um partidarismo virulento e irresponsável para chegar a essa temperança relativista diante do que há de mais pernicioso na política nacional. Os editoriais hipócritas de última hora não mudarão nada.

Às vésperas da tragédia, resta o consolo de saber que as posições ficarão delimitadas para juízo histórico. Antes que todos passem para o famigerado coro dos inocentes, cabe denunciar a tolerância da mídia corporativa com o fascismo, questioná-la a respeito, forçar a antecipação vexatória das narrativas arrependidas e desmascarar o álibi do cinismo ideológico.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A fórmula do escândalo



Chegou o momento do inevitável comentário sobre a manipulação financeira do Campeonato Brasileiro de futebol. Parece repetitivo, mas é exatamente a reincidência anual da pândega que enseja a comprovação de sua triste natureza inexorável.

Passemos logo à obviedade tradicional: no sistema de pontos corridos, todos os clubes campeões e (quase) todos os classificados para a Libertadores estiveram entre os que receberam mais verbas das cotas televisivas. Nunca houve exceção. Nunca.

Isso ocorre, não custa repetir, porque a regularidade exigida pelo campeonato depende de investimento. Primeiro para atrair os atletas que se destacaram nos torneios estaduais. Depois, para manter elencos numerosos e qualificados por sete meses de disputa.

Aos clubes menos favorecidos, dilapidados pela farra empresarial, restam os jogadores que não interessaram nem mesmo aos perdulários inchaços da elite. É fácil antever a disparidade técnica resultante, aliás confirmada pelas estatísticas classificatórias.

Isso significa dizer que a Rede Globo e a Confederação Brasileira de Futebol, com seus respectivos parceiros comerciais, influenciam diretamente o resultado da competição. E o fazem através de uma fórmula que, evitando surpresas, garante a eficácia do arranjo.

O uso da popularidade como justificativa é tão viciado quanto o sistema que a produz. Claro que o sucesso desportivo atrai torcedores e anunciantes, alimentando “grandezas” mercantis e gerando mais desigualdade. Não por acaso, a invenção dos pontos corridos alavancou a trágica decadência dos times interioranos.

Se os escândalos da Globo e da CBF atingem a rede midiático-publicitária que financia o futebol brasileiro, o que isto revela sobre o modelo de disputa adotado para seu maior produto? E o que diz a respeito da imprensa que o tolera, especificamente dos colunistas que festejam a “justiça” e a “emoção” do viciado Campeonato Brasileiro?

Eis o elo com os interesses da cartolagem que contamina a crônica esportiva nacional. O hábito de endossar o inaceitável para não ferir diretrizes corporativas ou, pior, para afagar clubismos individuais, ajuda mais na preservação das máfias futebolísticas do que a crítica pseudomoralista no combate à imoralidade.

O que afasta o torcedor crítico dos estádios, e terminará destruindo a ética esportiva no país, é a sensação de que todos os profissionais envolvidos com o futebol têm agendas coincidentes. Mesmo aqueles que se fazem de perplexos diante dos frutos de sua omissão.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A cidadania criminalizada



As figuras antipáticas e impopulares de Anthony Garotinho e Sérgio Cabral embotam os significados de suas prisões. Mas a identidade dos personagens (e até sua inocência) tem pouco a ver com o aspecto mais preocupante dos episódios: o exibicionismo punitivo esvaziado de conteúdos jurídicos ou morais.

A banalização do encarceramento, a humilhação pública dos réus, a pantomima da soldadesca, a verborragia agressiva dos procuradores, eis que o teatro “excepcional” da Lava Jato vai sendo naturalizado, virando uma rotina de atitudes extremas desnecessárias.

Esse costume só existe graças ao limitado leque partidário da operação. Sua isonomia negativa espelha o recorte originalmente desigual, que também explica a tolerância que a operação desfruta na cúpula do Judiciário. Se tratamentos indignos pudessem atingir lideranças do PSDB, o precedente seria cortado na primeira tentativa.

O padrão temerário da Lava Jato evidencia uma peculiar desconfiança nos ritos processuais. As cortes inferiores e as autoridades policiais parecem querer castigar os indiciados antes que se defendam, exorbitando o prejuízo para que ele fique irremediável mesmo no caso de absolvição. Preferem tolher direitos ao risco de impunidade.

Há quem considere tais direitos “privilégios”, alegando que fogem às práticas vigentes. Assim opera o que chamei de “malufismo jurídico” (abusa mas prende), um raciocínio de fachada solidária que parte das violações cotidianas sofridas por negros e pobres para chegar à tolerância com as violações praticadas contra ricos e brancos. Em vez de se rechaçar quaisquer formas de injustiça, defende-se generalizá-la.

A metáfora bélica do “combate” à corrupção explica o tom raivoso dos seus apologistas. Mas não é outro o espírito do crime organizado, nem o da polícia assassina. Em comum, a ideia de que o exercício pleno da cidadania configura um obstáculo, uma veleidade burguesa ou, pior, um subterfúgio de malfeitores.

E a narrativa guerreira é sedutora. A glamourização midiática alimenta a ostentação repressiva gratuita, que alimenta o gozo obsceno com o sofrimento de Garotinho, Cabral e outros réus. O apelo sensacionalista supre a falta de motivos para os requintes autoritários e desmoraliza, ou inibe, eventuais medidas recursivas que venham repará-los.

O comando da Lava Jato sempre buscou exatamente isso: saciar a psicose vingativa do público, instrumentalizando o espetáculo do justiciamento precoce em troca de uma popularidade que imponha as “convicções” dos acusadores. Quando fizerem o mesmo com Lula, por exemplo, todos ficarão satisfeitos e conformados.

Tipicamente fascista, o punitivismo demagógico não é apenas um sintoma da falência dos valores da democracia representativa. É, acima de tudo, elemento agravador do problema. O apoio da sociedade nunca legitimou fenômenos dessa natureza; pelo contrário, abriu caminho para tragédias históricas. Já devíamos ter aprendido a evitá-las.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Balanço do golpe V

 

















O poder da mídia

Os grandes veículos de comunicação participaram de duas maneiras no projeto golpista: dando unidade narrativa à pauta do impeachment e atuando como agentes coercitivos sobre os parlamentares que o materializaram.

A primeira estratégia pode ser resumida na construção de certo catastrofismo antipetista centrado em temas fortes como a corrupção, a crise econômica e o estelionato eleitoral. Em todos os casos, seguiu-se um padrão de conciliar o viés tendencioso do noticiário com o opinionismo ativista, alimentados mutuamente por enunciados comuns.

O moralismo seletivo, o terror econômico e a inédita preocupação com os eleitores criaram uma simbologia meritória para o impeachment. A ideia era amenizar o caráter fisiológico e hipócrita do golpe, dando enredo ao teatro salvacionista dos parlamentares. A falsa base jurídica do processo, com o suposto aval do STF, teve função similar.

A segunda estratégia lidou com a face propagandística do amplo empreendimento público e privado das passeatas pelo impeachment. Ali as corporações midiáticas empenharam todas as suas ferramentas mobilizadoras: divulgação de agendas, pautas temáticas, entrevistas com organizadores, artigos deles próprios, incentivos diversos.

O sucesso do projeto exerceu influência óbvia nos votos pelo impeachment, sob o rótulo enganoso “vontade popular”. Mas a pressão teve também um viés chantagista, pois mostrou o poder destrutivo da mídia contra seus desafetos. Muito do apoio ao golpe no Congresso brotou do receio de uma exposição negativa de quem o rejeitasse.
                                                                                    
A imprensa funcionou como elo interinstitucional para a agenda golpista. Constituiu o mais valioso agente do impeachment fora do Legislativo, permitindo às outras esferas um grau de interferência que elas não poderiam exercer de maneira direta, por limitações técnicas, legais e mesmo éticas.

Não por acaso, o grande beneficiário dessa atuação foi o antipetismo judicial, que assumidamente calca sua estratégia na instrumentalização da mídia. A aliança dos veículos com a Lava Jato conheceu desvios clandestinos, amiúde francamente ilegais (e impunes), que produziram alguns dos momentos decisivos do golpe.

Tal arranjo de interesses aponta para um viés conspiratório que derruba as falsas aparências de “normalidade democrática” do impeachment. O oportunismo fisiológico de senadores e deputados foi o reflexo previsível do conluio imoral que já havia naturalizado o arbítrio junto à opinião pública.


A série “Balanço do golpe”:



  

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O suave passeio de Jonas

 

Jonas Donizette (PSB) reelegeu-se prefeito de Campinas com larga margem. Seu vice é filho de José Roberto Magalhães Teixeira (1937-96), co-fundador do PSDB, que dá nome a anel viário, rodovia, escolas, avenidas e praças na cidade.

Veterano radialista, habilíssimo em comunicação, o prefeito recebe apoio antigo, sistemático e escancarado, creio até ilegal, de toda a imprensa corporativa campineira. Toda. Mídia esportiva, religiosa, informativa, musical, radiofônica, impressa, televisiva.

Apenas esse respaldo justifica a votação de Jonas, depois do escândalo da prisão de um assessor direto, em dezembro passado. Ele foi recolhido a camburão, no paço municipal, por suspeita de pertencer ao PCC. Exatamente, o Primeiro Comando da Capital.

O caso ficou restrito ao noticiário do momento. Ninguém quis averiguar as ligações do sujeito com o crime organizado, a origem da nomeação, seus contatos na Câmara, o que fazia num gabinete vizinho ao do alcaide.

Não é algo isolado. A famosa suspeita de que Jonas tem ligações com grandes interesses imobiliários jamais foi verificada. Sequer depois de loteamentos milionários brotarem na cidade após sua eleição, com auxílio de obras viárias da monarquia Alckmin.

E poderíamos lembrar os descalabros administrativos, especialmente no transporte, os projetos copiados de Fernando Haddad e até o “sem medo de ser feliz” do jingle da reeleição. Jonas não sabe o que é receber tratamento verdadeiramente investigativo, crítico ou mesmo irônico da mídia local. Nem, aliás, do Judiciário.

Campinas tem população equivalente às de Montreal, Barcelona e Munique. É inimaginável um governante dessas metrópoles receber tamanha condescendência dos respectivos veículos de informação. Aqui tampouco, fosse Jonas do PT.

Eis um exemplo para análises sobre a vitória da direita no país e o papel da imprensa na construção do fenômeno. Não se trata de ignorar questões amplas, envolvendo a política nacional, mas de verificar como elas se reproduzem nas especificidades locais.

Inclusive nas pressões profissionais e pessoais que silenciam os indignados.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Anamnese

 

















Edson Fachin, Cármen Lúcia, Luiz Fux, Rosa Weber, Teori Zavascki, Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Celso de Mello, Dias Toffoli.

Rodrigo Janot, Sérgio Moro, Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior, Janaina Paschoal, Claudio Lamachia, Ives Gandra da Silva Martins, Paulo Skaf.

Eduardo Cunha, Michel Temer, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva.

Hélio Schwartsman, Clóvis Rossi, Ruy Castro, Vinicius Torres Freire, Josias de Souza. Carlos Heitor Cony, Valdo Cruz, Ferreira Gullar.

Merval Pereira, Carlos Alberto Sardenberg, Arnaldo Jabor, Míriam Leitão, Ali Kamel.

Augusto Nunes, Ricardo Noblat, Maria Lima, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Guilherme Fiuza.

Dora Kramer, Eliane Cantanhêde, Lauro Jardim, Felipe Moura Brasil, Bolívar Lamounier, Rodrigo Salomon, Zezé de Lima.

Acir Gurgacz, Aloysio Nunes, Alvaro Dias, Ana Amélia, Antonio Anastasia, Antonio Carlos Valadares, Ataídes Oliveira, Aécio Neves, Benedito de Lira, Cidinho Santos, Ciro Nogueira, Cristovam Buarque, Cássio Cunha Lima.

Dalirio Beber, Davi Alcolumbre, Dário Berger, Edison Lobão, Eduardo Amorim, Eduardo Braga, Eduardo Lopes, Eunício Oliveira, Fernando Bezerra Coelho, Fernando Collor, Flexa Ribeiro, Garibaldi Alves Filho, Gladson Cameli.

Hélio José, Ivo Cassol, Jader Barbalho, José Agripino, José Aníbal, José Maranhão, José Medeiros, João Alberto Souza, Lasier Martins, Lúcia Vânia, Magno Malta, Maria do Carmo Alves, Marta Suplicy, Omar Aziz, Paulo Bauer, Pedro Chaves.

Raimundo Lira, Reguffe, Renan Calheiros, Ricardo Ferraço, Roberto Rocha, Romero Jucá, Romário, Ronaldo Caiado, Rose de Freitas, Simone Tebet, Sérgio Petecão, Tasso Jereissati, Telmário Mota, Valdir Raupp, Vicentinho Alves, Waldemir Moka, Wellington Fagundes, Wilder Morais, Zeze Perrella.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Contra a narrativa triunfante do golpe

 

Um evento divulgado em todos os veículos de comunicação, financiado por grandes empresários e favorecido pelas autoridades públicas, precisa reunir quantas pessoas para ser considerado bem-sucedido? Três por cento dos paulistanos é proporção relevante? Um por cento dos cariocas e belo-horizontinos? Fração semelhante do eleitorado nacional?

Cada setor responderá a essas perguntas segundo seus interesses. Mas acho importante contextualizarmos o fenômeno, questionando a imanência positiva e vitoriosa que se tenta construir em torno dele.

Apesar da força de algumas imagens, as manifestações da direita foram até modestas em termos globais. As pretensões grandiosas e o imenso aporte de recursos (talvez inédito em atos públicos no Brasil) deveriam atrair multidões maiores e mais heterogêneas, especialmente nos centros urbanos fora do Sudeste.

Dizer que estes protestos suplantaram os anteriores não explica nada, pois o esforço para insuflá-los foi igualmente redobrado. A coincidência de causa e efeito apenas comprova que o movimento golpista depende de estímulos generosos e que nem eles conseguem romper certas barreiras sociais e regionais.

A narrativa do “sucesso” das manifestações não sobrevive a uma ponderação de custo-benefício. Basta calcular em cotas publicitárias o espaço e o tempo dedicados pela mídia à promoção direta ou indireta das passeatas. E os gastos na infraestrutura utilizada. E o empenho de promotores e juízes para suprir a campanha de conteúdo incitativo. Tudo isso atingiu quais resultados práticos?

Nem o governo cairá tão cedo, nem os corruptos serão condenados, nem a caça a Lula deixará de ser arbitrária e tendenciosa. O máximo que as manifestações conseguiram foi alimentar a sanha fisiológica do PMDB e adiar o pacto pela governabilidade. Ou seria essa a verdadeira intenção dos organizadores?

Claro que não podemos subestimar os novos desfiles do Orgulho Reacionário. Mas eles não representam todas as forças populares mobilizadas e tampouco antecipam o encerramento da disputa em curso. As próximas manifestações da esquerda romperão a narrativa eufórica do golpe e recolocarão as coisas na devida perspectiva.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cidadãos organizados
















A torcida do Corinthians inventou de protestar contra a Federação Paulista de Futebol, a Confederação Brasileira de Futebol, a rede Globo e até a máfia das merendas do governo Geraldo Alckmin. Essas manifestações têm dois aspectos curiosíssimos, que a imprensa corporativa finge não perceber.

O primeiro é a repressão violenta dos cossacos. Quem ordena tais ações policiais? Os árbitros das partidas? Um funcionário da FPF? Alguém da Globo? Essas pessoas têm autoridade sobre as forças de segurança? É atribuição de servidores públicos impedir protestos pacíficos? Entidades privadas podem suspender prerrogativas constitucionais?

A segunda estranheza vem da impertinência política dos torcedores. A lembrança da corrupção tucana em plena massa alvinegra sinaliza para um viés inesperado no descontentamento popular. Mesmo que tudo não passe de resposta a perseguidores de torcidas organizadas (interessante maneira “pejorativa” de qualificá-las) e à chefia da PM brucutu, a simples associação demonstra uma consciência crítica livre dos condicionamentos da mídia. Da própria Globo, aliás.

É fácil apontar a incoerência dos ataques contra as mesmas instituições que financiam e promovem os sucessos do Corinthians. Mas precisamos saudar em seu exemplo a demonstração de que a defesa da cidadania começa no rompimento das inúmeras amarras cotidianas, exatamente as que parecem naturais e inquestionáveis, e que os poderosos preservam com toda a força coercitiva disponível.

Se os torcedores do país percebessem isso, mudariam muito mais do que o futebol brasileiro.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O pão que Jô amassou














A guinada racional de Jô Soares mostra que o apresentador ficou assustado com o nível de imbecilização dos setores sociais que compõem seu público-alvo. Talvez porque se sinta responsável por essa patologia, o humorista quer preservar a própria imagem de vergonhas futuras que a insânia possa lhe causar.

As reações dos imbecis, mesmo que calculadas por Jô, mostram que a mudança veio tarde, como de hábito. Melhor seria ter evitado o problema, incentivando a moderação e o equilíbrio antes que seu programa televisivo se transformasse em palco de exorcismos reacionários. É impossível acreditar que ele não percebia o nível das inclassificáveis comentaristas que alimentavam (e continuam alimentando) a hidrofobia dos insones.

Isso não o faz merecedor de agressões, mas demonstra a irresponsabilidade de se brincar com o espírito fascista. Lamentar o rumo que as coisas tomaram pode ser um gesto digno, mas é também o menos proveitoso para o país.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O seu dinheiro banca a CBF


O sumiço dos patrocinadores da Confederação Brasileira de Futebol, nesses tempos conturbados, traz à tona um antigo debate sobre o financiamento geral da corrupção. Resumindo: o cidadão sustenta a roubalheira mesmo quando ela não usa recursos oriundos de tributos. Tudo é “dinheiro público”.

A CBF e a FIFA enriqueceram graças aos consumidores dos produtos das empresas que sustentam aquelas instituições. Para se ter noção do volume financeiro envolvido, um exemplo nacional incluiria Chevrolet, Englishtown, AmBev, Itaú, Mastercard, Samsung, Gillette, Gol, Michelin, Nike, Sadia, Tênis Pé, Unimed e Vivo.

Adicionando à conta os anunciantes de transmissões televisivas (que bancam a visibilidade mercadológica dos patrocinadores principais), teremos um contingente de financiadores tão respeitável quanto o de contribuintes em dia com o Fisco. E nem começamos a refletir sobre o caráter público das próprias emissoras de rádio e TV.

As naturezas e extensões dos aportes privados e estatais são diversas, talvez incomparáveis, mas umas não agregam necessariamente mais liberdade ou transparência do que as outras. O que as opõe na prática é o grau de engajamento que elas provocam nos cidadãos indignados. Principalmente os sonegadores.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Abu















Lembro do susto com a energia que emanava daquele senhor meio surdo e ranzinza, refestelado numa poltrona enorme. E do vigor de sua conversa, que sorvíamos torcendo para nunca terminar, embora a experiência de confrontá-lo beirasse uma espécie de pânico apaixonado. Sim, tive o privilégio, e preciso agora mencioná-lo para exibir toda gratidão que Antônio Abujamra merece. Depois de Leo Gilson Ribeiro e Sérgio de Souza, Abu junta-se ao rol de espíritos generosos que deram algum sentido à trajetória errática e solitária deste humilde escriba.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Panelinha


















O esforço da imprensa corporativa em construir uma imagem de multiplicidade social para os protestos apenas evidencia como ela é frágil e discutível. Mais importante: mostra que a oposição valoriza esse aspecto a ponto de forjá-lo.

A ênfase justifica-se. O absurdo investimento dos veículos na promoção das passeatas corre o risco de virar propaganda negativa, fortalecendo o arquétipo do endinheirado ressentido, que já participa do repertório político tucano.

A invenção do protesto popular passará por um teste decisivo nos próximos atos. Será interessante acompanhar suas estratégias de cooptação.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A mídia apresenta suas armas

 
Publicado no Brasil 247

Quem acredita que os protestos foram surtos espontâneos de revolta desconhece a árdua rotina das mobilizações populares no país. Se as redes sociais bastassem para sublevar descontentes, as capitais paralisariam todo fim de semana. Reivindicações não faltam. O que falta é o apoio da imprensa corporativa a elas.

Trabalhos acadêmicos futuros mostrarão como o fenômeno de 15 de março de 2015 foi construído pelos grandes veículos. Ao longo das três semanas anteriores, canais de TV, emissoras de rádio, jornais, revistas e portais da internet uniram-se na divulgação do evento, associada a noticiário negativo sobre o governo federal.

Esse fabuloso esforço propagandístico deu visibilidade heroica a grupelhos irrelevantes da direita, que há poucos meses faziam passeatas minguadas e caricatas. Disseminou a imagem republicana dos atos, atraindo os adeptos das modas protestantes de 2013. E naturalizou ideologicamente o antipetismo no repertório moralista da classe média.

Desde a preparação do golpe militar de 1964, a imprensa brasileira não agia de maneira tão uníssona e articulada. Nas TVs e rádios, houve menções contínuas em todos os espaços de programação, incluindo chamadas sensacionalistas para coberturas ao vivo. Até astros e celebridades foram mobilizados. Nos meios impressos, primeiras páginas, colunas e reportagens dedicaram-se diariamente ao tema.

O recado que as empresas de comunicação transmitem ao governo federal é inequívoco: “eis o que podemos fazer contra nossos inimigos”. O gesto adquire oportunismo diante dos debates envolvendo o Marco Regulatório do setor, a reforma política e a taxação de grandes fortunas. E agora ganha ainda mais sentido com a descoberta do envolvimento de chefetes midiáticos na lista de contas no HSBC suíço.

Tendo em vista o porte do empreendimento, mobilizar 1% do eleitorado nacional chega a soar um tanto irrisório. Mesmo entre os 51 milhões de eleitores de Aécio Neves, uma fração mínima saiu às ruas. Claro que, na condição de promotora do espetáculo, a imprensa vai exagerar seus resultados, conferindo grandiosidades inéditas ao feito, sem esmiuçar os outros detalhes que também o tornaram único na história recente.

Mas é a simbologia do episódio que deveria preocupar o governo Dilma Rousseff. Repetindo março de 64 (e a coincidência nas datas não é casual), os agressores querem evitar que o Planalto supere a crise política através de medidas radicais que aglutinem as bases populares. Basta um leve sinal nesse sentido e a mídia joga o “apelo das ruas” sobre o Congresso, na forma do impeachment.

A mensagem é muito clara e preocupante para receber apenas discursos apaziguadores e promessas vazias. A não ser que Dilma tenha desistido de enfrentar seus adversários.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Quem se beneficia com os protestos?

















As manifestações previstas para 15 de março foram promovidas sistematicamente pela grande imprensa. Grupos obscuros da direita antidemocrática receberam dos veículos uma visibilidade que movimentos sociais representativos jamais desfrutaram.

Grandes empresários financiam a propaganda dos atos nas redes sociais e até em panfletagens de rua. Suas corporações estão envolvidas com parlamentares, governantes, instituições bancárias e especuladores financeiros.

O PSDB e agregados mobilizam recursos humanos, técnicos e econômicos na realização dos protestos. A tese golpista do impeachment sempre teve apoio do tucanato, para desestabilizar o país visando benefícios eleitoreiros.

Eis os interesses que patrocinam as manifestações. Elas não são gestos espontâneos da sociedade, mas eventos realizados por entidades poderosas que instrumentalizam o ressentimento antipetista e a desinformação de setores do público.

Se visassem a corrupção, os protestos também exigiriam as renúncias de Geraldo Alckmin e José Serra, por conta das máfias metroviárias paulistas.

Se respondessem à incompetência administrativa, culpariam Alckmin pelos inúmeros problemas de São Paulo e Beto Richa pelo caos no Paraná.

Se defendessem a moralidade, atacariam FHC, que teve a reeleição comprada e nomeou Renan Calheiros ministro da Justiça; Aécio Neves, que construiu um aeroporto nas terras de sua família; e Eduardo Azeredo, envolvido com o mensalão mineiro.

As passeatas organizam-se de maneira nebulosa e reivindicam pautas manipuladas. Os vícios talvez não anulem sua legitimidade, mas revelam a natureza partidária e maliciosa de uma iniciativa que se apresenta como idônea e republicana.

Quem participa desse teatro imaginando promover melhorias para o país é apenas inocente útil a serviço de cínicos.  Incapaz de perder uma eleição com dignidade, a direita brasileira continua precisando de marchas familiares para ganhar relevância.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Os números da crise
















Comentaristas afirmam que o índice de desemprego no Brasil é falso, maquiado pelas autoridades. Outros comparam a inflação daqui e de outros países, para “provar” que a nossa não está baixa.

Os sabujos só usam números oficiais quando corroboram a propaganda apocalíptica da crise. Os que a relativizam são desqualificados como tendenciosos.

Vale citar dados estrangeiros na crítica aos 7% do IPCA. Mas os 6% que põem o desemprego petista entre os mais baixos do mundo não merecem paralelos.

Somando tudo, o que sabemos sobre a crise econômica se resume ao que sabemos sobre a crise de credibilidade da imprensa corporativa.