
Essa fragilidade natural serve de álibi para malvadezas de todo tipo. As agressões dos jogadores canalhas e as pantomimas sofridas dos cínicos bebem na mesma fonte: a certeza de impunidade que desde sempre assombra o ludopédio universal.
O árbitro assistente de vídeo (VAR, no inglês original) materializa uma demanda antiga, facilitada por meios técnicos eficazes e acessíveis. Notadamente os múltiplos flagrantes em câmera lenta e alta definição, que as próprias transmissões oficiais exploram.
Ocorre que o VAR surgiu para impedir a desmoralização do sistema, não para torná-lo mais justo. É uma blindagem pseudocientífica para métodos viciados que a Fifa se recusa a alterar, como a concentração decisória, os critérios mutantes e a seletividade.
O melhor sintoma desse apego à obsolescência é a falta de controle exato do tempo, um dos raros quesitos objetivamente incontroversos do jogo. Não há motivo honesto para o palpite pessoal substituir um cronômetro externo que descontasse as interrupções.
A estúpida regra dos impedimentos milimétricos não surge nesse contexto por acaso. Nega ao espectador o direito de fiscalizar, criando um regime de “verdade” sem lastro indicial com o mundo empírico. A certeza dá lugar à crença num simulacro ruim.
A imagem digital permitiria uma aplicação mais rápida, precisa e verificável da norma anterior de impedimento. A nova regra inutiliza essa possibilidade. Foi só aparecer uma solução para o problema e a Fifa tornou-o desnecessariamente insolúvel. Por quê?
Na Copa do Mundo, os dois lados do VAR decidiram anulações de gols: por exemplo, o do Egito, contra a Argentina, e os de Irã, Colômbia e Croácia. Num caso, vimos a falta. Nos demais, a tradução gráfica do suposto cálculo de um programa de computador.
A anulação de um gol irregular é louvável, mas não redime as classificações da Copa decididas pelo oportunismo suspeito do Big Dribler. A correta expulsão de Fernández na final fez demagogia à custa dos muitos pisões iguais que não levaram cartão amarelo.
Não podemos normalizar essa insegurança regulatória. A face “humana” do esporte inclui, além da falha individual, o senso comum de justiça. Que por sua vez exige credibilidade competitiva, feita de normas racionais e protocolos coerentes e auditáveis.
Associar o atropelo das regras a certo “contínuo poético” da vida carrega um travo amoral. Falta é falta. Se o árbitro permite um gol ilegítimo, alguém precisa desfazer o erro. O prejuízo irreversível ultrapassa a conveniência lúdica dos torcedores.
O VAR é necessário, portanto, mas sob outro paradigma normativo. Sem transparência absoluta e possibilidade de recurso imediato pelos times, vira máquina de falcatrua. E o impedimento “semiautomático” seguirá parecendo roleta viciada de cassino.
Em suma, a Fifa usa o VAR como ferramenta de interferência em resultados de jogos e torneios. Para isso, criou mecanismos de neutralização das propriedades constatativas e isonômicas da tecnologia. Reduziu o futebol a espetáculo sem méritos ou valores éticos.
Mas fica pior. As manipulações assépticas e blasés de uma Copa não chegam perto do que ocorre com times interioranos brasileiros em jogos decisivos contra “favoritos” da mídia e da CBF. A entrada do VAR nesse ambiente soa como trombeta apocalíptica.

















