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sábado, 16 de março de 2024

Rumo a Gilead



Os movimentos contrários à descriminalização da maconha para uso pessoal revelam os tentáculos retrógrados que aos poucos estrangulam o futuro do país. Não se trata, repito, de conservadorismo: é uma ideologia obscurantista sem molduras partidárias ou morais.

Esse espírito anticientífico prolifera no STF, no Congresso e, surpresa nenhuma, no Conselho Nacional de Medicina. Sua marca é a agressividade falaciosa: argumentos pueris, números impossíveis e paralelos ridículos como formas de violência simbólica.

A brutalidade manifesta-se no descaramento da mentira óbvia, que insulta o bom senso e o saber técnico. É um soco de ignorância nos valores civilizatórios, aliado ao desprezo ofensivo pelo interesse público. Funciona como ostentação de soberania retrógrada.

A expressão “pauta de costumes” faz parte do engodo. Iguala conhecimentos empíricos a crenças e valores, pesquisas a superstições. Em vez de comprar essa bobagem, Lula deveria refutá-la com uma campanha educativa nacional, organizada por especialistas.

Entre perplexos e indiferentes, os campos jurídico, jornalístico e acadêmico silenciam. Ninguém ousa romper as bolhas digitais e corporativas para, em nome da constitucionalidade, questionar os chutes absurdos, exigir fontes qualificadas, cobrar o decoro esquecido.

Freios e contrapesos institucionais só vigoram com heterogeneidade ideológica. Não há como deter o obscurantismo depois que ele se torna majoritário tanto no Congresso quanto nos tribunais superiores. Simplesmente porque não sobra a quem recorrer.

O caso da maconha revela como estamos próximos dessa “tempestade perfeita”. Quase metade do STF adotou as fraudes proibicionistas. Mais um ou dois votos endossando a autonomia legislativa e o retrocesso em gestação no Senado torna-se permanente.

Vimos o trailer da distopia nos golpes da Lava Jato, que derrubaram uma presidente legítima e alavancaram um fascista graças à coesão oportuna entre os Poderes. Mas hoje não lidamos com mandatos. O pesadelo que se anuncia terá longuíssima duração.

A cada abuso impune o rolo compressor avança mais. Sua força é a irreversibilidade. Um centímetro de ruína leva décadas para ser corrigido, na otimista hipótese de surgir o necessário ambiente político. E o remendo nunca alivia o estrago consumado.

Ironicamente, a maconha está servindo como “porta de entrada” para a naturalização da barbárie. Sem obstáculos contramajoritários, o misticismo instaura os precedentes que levam à hegemonia das pautas fascistas. Os democratas não perdem por esperar.

domingo, 24 de setembro de 2023

É tarde para reclamar de Zanin



O voto do ministro Cristiano Zanin contrário à descriminalização da posse de maconha exibiu o prejuízo de sua indicação ao STF. Lula errou. Mas parte dessa culpa também precisa ser dividida com a militância progressista, incluindo os críticos da escolha.

A manifestação de Zanin incomodou sobretudo pela baixa qualidade técnica. Repetindo lugares-comuns do arcaísmo proibicionista, ignorou décadas de estudos sobre o tema. Afastou-se das tendências de setores esclarecidos da própria direita.

Não há justificativa legal ou científica em penalizar a “posse para uso” de qualquer substância, principalmente da maconha. A inconstitucionalidade da legislação atual só não é mais evidente do que seus malefícios sociais, educativos e humanitários.

Trata-se de matéria objetiva, abordada em vasto repertório acadêmico. O proibicionismo aciona “costumes” e palpites contra argumentos racionais, estatísticos, verificáveis. Admite o óbvio, por decoro, mas recusa os desdobramentos lógicos de sua admissão.

Essa atitude não é conservadora. É negacionista. Não faz sentido naturalizá-la depois de combatermos suas versões pandêmicas e eleitorais. A questão vai além dos projetos de Lula, dos demais votos de Zanin e até da importância da droga para os debates do país.

Ocorre que, salvo exceções isoladas, o PT esnobou a legalização por muito tempo. Adotou-a, no embalo do STF, para amenizar o constrangimento com Zanin e dividir os louros da provável vitória da tese. O silêncio de Lula a respeito é, digamos, eloquente.

Outros setores progressistas também despertaram atrasados. Alguns dos mais furiosos críticos de Zanin apoiaram Marina Silva quando ela prometeu um absurdo plebiscito sobre a maconha e Ciro Gomes quando ele defendeu a penalização do usuário.

As militâncias de Lula, Marina e Ciro sempre conviveram pacificamente com discursos “cuidadosos” similares ao de Zanin. Os bate-bocas digitais estão cheios de antigos lustradores de idiossincrasias fazendo-se perplexos com as esquisitices alheias.

Mais alinhado a lideranças supostamente modernas do que à maioria do vetusto STF, Zanin personifica uma séria defasagem programática da esquerda institucional. Só que também exibe o fracasso (ou o desinteresse) de suas bases sociais em atualizá-la.

A inevitável judicialização de certos temas não substitui a luta política. Se o governismo participasse do consenso civilizatório do STF, teria uma resposta orgânica e imediata contra os ataques de senadores e prefeitos à descriminalização iniciada no tribunal.

Essas ameaças retrógradas seriam úteis para provocar o esboço de uma agenda mínima comum, representativa e suprapartidária, que definisse o básico do básico da ética progressista. A dificuldade de realizar algo tão simples é motivo de profunda reflexão.

terça-feira, 16 de maio de 2023

O ótimo e os inimigos do bom



As dificuldades do PL 2630 nasceram do esforço para agregar um arco excessivo de interesses corporativistas, que teoricamente facilitariam sua aprovação. Abrindo muitas frentes de diálogo, o projeto se afastou do consenso desejado. Terminou incapaz de atender às demandas geradas pela desnecessária complexidade que o sufoca.

Entendo que Orlando Silva tenha seguido o apanágio pragmático “o ótimo é inimigo do bom”. Uma lei permissiva, ou pontualmente vaga, seria melhor do que lei nenhuma. De fato, em especial na urgência deste caso. Mas há um limite a partir do qual a concessão vira derrota e o acordo passa a causar mais estragos do que benefícios.

A imunidade a parlamentares e manifestações supostamente religiosas é desses absurdos que tornam preferível o abandono da proposta. O resultado equivale a permitir discursos golpistas, homofóbicos, racistas e xenófobos, desde que fantasiados de opinativos ou partidários. No cenário ruim atual, pelo menos existe a chance de eventual punição.

Por outro lado, não é razoável criticar a “autorregulamentação compulsória” prevista na lei. Embora imprescindível, um órgão regulador jamais daria conta do varejo das denúncias cotidianas, que a direita calhorda tratará de multiplicar. Só as plataformas têm recursos técnicos e humanos para esse controle. E, a rigor, trata-se de ônus operacional que cabe às empresas, não aos contribuintes. Basta seguirem critérios preestabelecidos.

Insisto nesse aspecto fundamental: as plataformas não podem exercer arbítrio censório. Devem seguir apenas as leis vigentes, liberando o que não for expressamente proibido, adotando compensações proporcionais aos danos, identificando e banindo criminosos. Manifestação pública não obedece a “políticas internas”, e sim à constitucionalidade.

A ociosa referência às fake news atola o debate em definições de “verdade”, “mentira” e “erro”, depois envolve as de “golpe”, “fascismo” e “genocídio”, até que o impasse vire espelho das refregas digitais. Essa plataformização do ambiente legitima interlocutores nefandos, encabeçados pela seleta casta dos evangélicos que leem George Orwell.

A liberdade de expressão funciona para os oportunistas como criptografias e algoritmos para os monopólios digitais. Não por acaso, ambos os grupos apelam à autovitimização e exploram a hipossuficiência técnica dos usuários para convencê-los de que são livres nas redes sociais e, pior, de que têm o “direito” de espalhar falácias e agressões.

Abordando os disparos massivos nos aplicativos de mensagens, o uso de informações pessoais e o enquadramento das redes nos Códigos Penal, Civil e do Consumidor, com normas claras, simples e fiscalizáveis, a proposta já avançaria muito. Exigir que ela remende todos os defeitos da pós-democracia é uma maneira de inviabilizá-la. E não faltam vozes que defendem a regulamentação “ótima” porque adivinham o seu fracasso.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Sufrágil



Desconfio das urnas eletrônicas desde sua adoção no país. Sempre achei temerária a falta de evidências tangíveis da vontade do eleitor. Não parece razoável a ideia de auditar voto sem voto, conferindo números gerados por códigos digitais.

Os defensores do sistema fogem de questões técnicas envolvendo sua segurança. Ora se apegam à relativa simplicidade operacional e à rapidez do método, ora tratam o TSE, a PF e as empresas licitadas como fiadores das próprias competências e idoneidades.

A mentira do endosso internacional ajuda a ocultar os problemas levantados pelos países que testaram e reprovaram a urna eletrônica. Alemanha, Holanda e Irlanda, por exemplo, afirmaram que ela não permite sequer a detecção de eventuais ilícitos.

A mídia ignora os estudos publicados, inclusive de universidades brasileiras. Ninguém dedica ao assunto o rigor científico exigido nos debates sobre a pandemia. O aval de pesquisas acadêmicas revisadas não é importante para definirmos como votamos.

Essa postura, negacionista a seu modo, ressuscita o clima do triunfo da Lava Jato. As instituições funcionam e garantem a urna programada. Os incrédulos são teóricos da conspiração ou, pior, inimigos de um “processo democrático” sólido e transparente.

Antes de abraçarmos uma narrativa oposta aos planos de Jair Bolsonaro, deveríamos ter certeza de conhecê-los. A suposição de que pretende apenas desacreditar os resultados vale tanto quanto as outras imagináveis. É a mais amena delas, na verdade.

Hipoteticamente, as bravatas de Bolsonaro podem estar preparando terreno até para um ataque às urnas. Se não uma fraude que lhe dê a vitória, um defeito qualquer que anule a votação. O álibi no mínimo fortaleceria o presidente em caso de nova disputa.

A pujança democrática do país obriga-me a salientar que se trata de mera especulação. Não temos motivos para imaginar conluios unindo células golpistas da PF e agentes militares de inteligência que trabalham em segredo para o governo. São todos patriotas.

Na minha paranoia, contudo, vivemos sob um regime despótico encarregado de gerir o vulnerável sistema de votação do qual dependemos para superá-lo. Os fascistas desse pesadelo são atualizados e proativos. Têm apoio nas cortes e nas polícias.

É fácil exigir provas de mentiras sabidamente improváveis. Mas o outro gume da faca também corta: o acusador futuro talvez venha a ter razão. E os justos ficarão limitados ao mesmo escrutínio falho e inconclusivo que outrora permitiu calar os mentirosos.

Os democratas caem numa armadilha quando se comprometem com a urna eletrônica. Desqualificam de antemão suas possíveis denúncias contra a tutela bolsonarista do equipamento. Naturalizam a imprevisibilidade e assumem riscos desnecessários.

Urge discutir a tecnologia eleitoral cientificamente, sem republicanismo ingênuo. Se for necessário, reivindicar a impressão do voto. A disputa com Bolsonaro é séria demais para dependermos de amostragens irrisórias e somas redundantes de boletins de urna.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Margem de manipulação
















A CPI das Pesquisas Eleitorais tem jeito de tapete levantado para esconder o tema definitivamente. A gritaria dos institutos, ecoada nos veículos que os apoiam, pauta os debates eventuais, desviando o foco dos verdadeiros problemas da questão.

O apelo do “direito à informação” é diversionismo esperto. Tratar pesquisas como “informação” relevante pressupõe uma exatidão que nem mesmo seus maiores defensores apregoam. E informações podem ser checadas, ao contrário de vereditos parciais sobre a vontade dos cento e tantos milhões de eleitores.

Se fosse possível afirmar “Fulano sobe e empata com Cicrano”, todos os levantamentos deveriam gerar dados parecidos. A admissão de que a menor diferença metodológica pode refletir nos índices já retira o caráter “factual” da estatística.

Por isso o questionamento às pesquisas não envolve a sua distância dos resultados das votações. Apenas os institutos fazem essa associação, fingindo-se de tolos. O problema dos levantamentos é a discrepância eventual que apresentam entre si: aqueles números inexplicáveis que distorcem o cenário geral e viram factoides propagandísticos.

A CPI ganharia utilidade pública entrevistando matemáticos independentes, reconhecidos no meio acadêmico, visando sistematizar regras para a realização e a apresentação das pesquisas. Em duas ou três sessões o TSE perderia o pretexto da incompetência para omitir-se diante da manipulação dos institutos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Dois sobre cientistas

 




















Ambos narrativamente convencionais, baseados em notoriedades da ciência moderna e episódios históricos. Também compartilham os protagonistas difíceis e geniais, o tratamento melodramático, umas licenças factuais incômodas.

Filmes demasiado semelhantes, em suma. A coincidência mais lamentável entre eles, contudo, é a solene indiferença pelos aspectos científicos. O público sabe algo das respectivas biografias, mas ignora as inovações técnicas que as tornaram especiais.






















Dito isto, são passatempos agradáveis e bem realizados. Os trabalhos de Benedict Cumberbatch e Eddie Redmayne estão acima de qualquer padrão hollywoodiano, especialmente o último, que enfrenta um imenso esforço físico sem perder as sutilezas emocionais da interpretação.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

"Interestelar"






















Homenagem de Christopher Nolan ao "2001" de Stanley Kubrick (1969). Tem as mesmas pretensões metafísicas e, curiosamente, uma linha narrativa parecida. Há algo também do “Solaris” de Andrei Tarkovsky (1972).

O esplendor visual suplanta as complexidades científicas da trama e seus escorregões melodramáticos. As bases teóricas são difíceis demais para o espectador leigo, que aproveitará melhor a experiência se voltar ao filme depois de buscar umas noções rudimentares sobre os “buracos de minhoca” e afins.

Além dos efeitos, os aspectos mais positivos são a direção de atores (particularmente Matthew McConaughey, lamento admitir) e a fotografia, a cargo desse virtuose genial que é Hoyte Van Hoytema (de “Ela” e “O espião que sabia demais”).

Nolan é ótimo inventor de universos. Sabe mexer com os recursos digitais como poucos, criando ambientes muito próprios e sólidos. Aqui, retornando ao tempo, o tema central de sua obra, enfrenta o paradoxo já proposto em “A Origem”: a representação daquilo que é, quase por natureza, irrepresentável.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Saúde!






















Você conhece os riscos embutidos nos produtos e equipamentos que usa diariamente? Sabe, por exemplo, se as frutas e os legumes que mastiga em nome de uma vida saudável possuem taxas seguras daquelas químicas violentas que fritam ratos em laboratórios? Já pesquisou os nomes complicados que aparecem nas “bulas” de pueris bolachas, sorvetes e margarinas? Acredita nos corretores de imóveis construídos debaixo de antenas e torres de transmissão elétrica? Está ciente dos perigos do excesso de atividade física? Tem certeza de que os celulares não podem mesmo causar tumores?

O fato é que não fazemos a menor idéia. Se governos, pesquisadores, imprensa, médicos e magistrados estão sujeitos às pressões de indústrias bilionárias e inescrupulosas, como acreditar em qualquer recomendação oficial que eles produzam? Talvez até já existam evidências técnicas de que substâncias ou objetos triviais causarão imensas mortandades em algumas décadas, e nós simplesmente não fomos informados. Afinal, a divindade imponderável da genética explicará tudo que fuja ao determinismo científico (embora não sirva para impedir a guerra ao tabagismo, por exemplo).

A sociedade repressiva que cultua as aparências e a ilusão da longevidade não consegue impedir que suas crianças se envenenem numa cantina de escola. Mesmo depois de um século de proibicionismo e demonização dos chamados “comportamentos de risco”, o planeta conhece explosões inéditas de cânceres e cardiopatias, muito mais abrangentes que o consumo de quaisquer drogas conhecidas. Ao mesmo tempo, os planos de saúde, os hospitais privados e os laboratórios lucram como nunca.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Animais














A questão do testes em laboratório com seres vivos é espinhosa. Alguns procedimentos parecem mesmo cruéis e desnecessários. Mas não podemos esquecer que se trata de um debate científico, e que os dilemas éticos estão sempre a um passo do fanatismo.

O simples fato de a discussão envolver líderes religiosos, artistas, celebridades e deputados que fazem campanha eleitoral recorrendo aos “pobres animaizinhos” já demonstra que existe muita neblina esotérica nesse ambiente. A ignorância é uma benção, dizem, mas também pode ser uma opção pragmática: ficaríamos chocados com os métodos produtivos de uma boa maioria dos insumos de uso cotidiano. Mas jamais deixaríamos de medicar nossos filhos, por mais sofrimento que a fabricação do remédio tenha causado a uns bichos anônimos.

Existe um freqüente lapso entre a propaganda civilizada pelo tratamento “humano” a certos mamíferos e o desrespeito irracional contra bípedes implumes e falantes, com polegares opositores e todas as características antropoformes que a lei diz merecerem no mínimo a mesma solidariedade. Os amantes de beagles demonstrariam a solidez de sua causa se também vestissem máscaras para arrombar um desses campos de concentração que seus tributos sustentam em qualquer cidade do país.

sábado, 29 de setembro de 2012

“The trouble with experts”



“O problema dos especialistas”, ou algo assim. Dirigido por Josh Freed para o canal CBC, do Canadá.

Vinho, artes, finanças, nutrição e saúde, o curso para candidatos a especialista da mídia, o incrível consultor prisional para condenados por fraudes, etc. Informações úteis para esta época de julgamentos, eleições e crises diversas.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Um tremendo matagal


Membros ilustres da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento divulgaram uma carta defendendo o uso medicinal da maconha e seu cultivo no ambiente doméstico, já permitido em países como Argentina, Espanha, Holanda e Portugal. Na carta, criticam a imbecilidade da legislação repressiva, citando o caso do músico Pedro Caetano, que havia sido preso por plantar cannabis em casa.

A repercussão do caso já levou à soltura de Pedro, que se livrou da acusação de tráfico. A imprensa conservadora tenta criar uma falsa polêmica no meio, mas consegue apenas mobilizar outros cientistas que apóiam a causa. Também força a barra para associar a descriminalização a outros temas espinhosos (aborto, por exemplo), como se fossem a mesma coisa. Não são. A legalização da maconha é o trivial rasteiro da civilidade, um degrauzinho tosco na evolução inevitável da espécie.

Curioso pensar que isso tudo acontece enquanto a Justiça proíbe os cidadãos de manifestar-se livremente sobre o tema. Medo de quê, será?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Há culpados pela tragédia no Butantan


Mesmo que os funcionários desafiem o medo de represálias por parte da truculência do governo do Estado, a mídia serrista boicotará qualquer denúncia que o responsabilize pelo incêndio que destruiu parte do Butantan. Mas alguém precisa dizer que esse absurdo de conseqüências incalculáveis teria sido evitado se a administração tucana concedesse mínimos recursos para equipamentos de segurança na instituição.

Não faltou hegemonia eleitoral para essas medidas preventivas. E não faltaram recursos. O que faltou mesmo foi vontade política, competência administrativa, preocupação com um patrimônio científico de porte mundial, construído por alguns abnegados, que em algumas horas desapareceu para sempre.

É o mesmo descaso que proporcionou as destruições das enchentes no interior. E novamente a imprensa mergulha em sua criminosa quietude eleitoreira.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Maconha é remédio


Esqueça o oportunismo canabista de FHC. Há décadas a proibição da maconha virou excrescência obsoleta em quase todo o mundo civilizado. E, tecnicamente, ela foi abolida em São Paulo.

De todas as muitas imbecilidades cometidas pela política repressiva, certamente a mais estapafúrdia é vetar o uso medicinal do mato proibido. A revista Pesquisa, da Fapesp, traz uma ótima entrevista com o médico Elisaldo Carlini, que analisa a questão.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Eixo do Mal redivivo

É patético esse esforço da imprensa conservadora para vilanizar a Coréia do Norte. Inventar “inimigos do mundo civilizado” pode combinar com o oportunismo iletrado da política diuturna, mas não condiz com jornalismo respeitável.
O desenvolvimento de tecnologia nuclear tem sido simplificado a um nível de indigência mental que só compete com as baboseiras histéricas da Guerra Fria. A insistência em qualificações datadas como “ditadura comunista” para classificar o regime norte-coreano (ninguém diz “ditadura capitalista”, certo?) evidencia o logro.
A questão primordial em jogo: impedir que países não-alinhados a Washington tenham acesso a fontes alternativas de energia. A mobilização uníssona das potências econômicas visa preservar a dependência de combustíveis fósseis (e de toda a tecnologia adjacente), cuja enorme importância geopolítica dispensa comentários.
Guerras não têm nada a ver com isso, embora os mísseis de Kim Jong-il estejam muito distantes de qualquer outra meta que não uma simples afirmação de poderio militar para seu estúpido regime em frangalhos. A fabricação de armas atômicas não é sequer um objetivo proveitoso em si, quiçá uma ameaça considerável em eventuais conflitos bélicos, já improváveis no domínio regional chinês.
E por que um arsenal do tipo estaria mais seguro sob imbecis como George W. Bush (ou seus semelhantes indianos, paquistaneses, russos) do que em mãos iranianas ou chinesas? Querer que estes países abram seus laboratórios e usinas ao escrutínio vampiresco de “autoridades” estrangeiras apenas revela, na melhor das hipóteses, a xenofobia e o racismo que alimentam a ilusão da superioridade ocidental. Na pior delas (e mais realista), demonstra que esse pacifismo tem utilidade puramente propagandística, sem qualquer pretensão prática.
Se quisesse mesmo contribuir para o tal desarmamento, o governo estadunidense reconheceria que protagonizou o único ataque nuclear da História, assassinando desnecessariamente centenas de milhares de civis japoneses na II Guerra. E tomaria a iniciativa de destruir um arsenal inútil sob todos os pontos de vista.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Drogas medicinais

A postagem anterior tem muitos desdobramentos possíveis, não apenas restritos às propriedades do LSD. Um exemplo da vastidão potencial anulada pela estúpida legislação repressiva aparece no uso do Santo Daime (o famoso ayahuasca) em tratamentos de depresssão. A USP de Ribeirão Preto está avançando nessas pesquisas. Em outra oportunidade, já apontei os verdadeiros beneficiados pelo proibicionismo que importamos dos EUA.

sábado, 31 de maio de 2008

A evolução é inevitável

A Lei nº. 11105/2005, que permite a pesquisa com células-tronco, é restritiva e atrasada em relação às similares vigentes em outros países. Ela representa um gesto acanhado do Congresso Nacional, cujo notório conservadorismo foi vencido a custo por lobbies mais ou menos confessáveis.
Tribunais não legislam. O STF só encenou sua pantomima porque foi consultado para determinar a constitucionalidade da lei. As intermináveis ponderações normativas e os atrasos regimentais deram aspecto revolucionário a uma decisão que, em tese, já havia sido escrutinada por esferas competentes do Legislativo. Esse espetáculo um tanto soberbo do Tribunal reitera seu apego pelo vício “legislatório”, que contamina certos debates de vasto apelo midiático. Numa situação de completo desapego ideológico e ausência de vaidades, o julgamento seria rápido, desinteressante e previsível.
As pressões do fundamentalismo cristão revelam quão distantes as instituições religiosas encontram-se da realidade histórica, e o grau de malefício coletivo que estão dispostas a provocar para impor seus dogmas. O apoio recebido por elas de setores importantes da sociedade, inclusive magistrados e congressistas, demonstra uma preocupante força mobilizadora do espírito retrógrado.
A manipulação de embriões permanece uma abstração científica, ainda subjetiva e de resultados incertos. Há outros temas fundamentais e urgentes escondidos sob a polêmica. O mais imediato é a criminalização do aborto, baseada na tese de que a concepção origina um ser humano completo, independentemente do estágio celular. No campo simbólico desenvolve-se um conflito entre fé e ciência para determinar que esfera deve prevalecer em decisões envolvendo o corpo e a saúde, a intimidade e o livre-arbítrio – e que atingem, no limite, sexo, drogas, casamento, homossexualidade e outros tabus.
Em nível macro-histórico, as pressões do atraso são desimportantes, porque fadadas ao limbo. As liberdades individuais e o progresso científico estão no cerne da tumultuosa e dramática evolução humana. Eventuais ondas retroativas sempre originam, inevitavelmente, avanços ainda maiores. A luta possível (e necessária) é para viabilizá-los enquanto parecem utópicos.
A dificuldade de superar certos paradigmas ultrapassados talvez ilumine um novo caminho para a militância político-partidária, calcada em programas ainda menosprezados pelas cartilhas ortodoxas. As esquerdas tradicionais têm muito a aprender em tais circunstâncias.