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quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

O golpe híbrido



A esquerda apega-se a interpretações rudimentares dos planos golpistas que culminaram nos ataques de oito de janeiro de 2023. A extensa bibliografia acadêmica sobre “guerra híbrida” ilustra a complexidade que as análises predominantes deixam de buscar.

Mas não precisamos explorar esse conceito em profundidade. É suficiente deixá-lo como referência para uma abordagem dos fatos que se aproxime do raciocínio estratégico ou, pelo menos, que respeite a sensatez característica da inteligência militar.

Pois duvido que um tenente-coronel deleuziano bem informado tivesse ilusões sobre o futuro do golpe bolsonarista. Não porque o projeto fosse naufragar, pelo contrário. Seu êxito, além de previsível, seria institucionalmente catastrófico para as Forças Armadas.

Quaisquer cenários do novo regime envolviam crises domésticas e externas de efeitos incertos e uma redemocratização com viés punitivo e reformista. O sucesso imediato da sublevação levaria, em curto ou médio prazos, a um revés histórico do campo militar.

A simples realização do processo eleitoral mostra que essa leitura vingou. Se a recusa à ideia de abortá-lo fosse legalista, não estratégica, teria barrado também as sabotagens, os conluios assassinos e a “festa da Selma”, que os arapongas decerto monitoraram.

O desfecho da aventura revelou que lado da cizânia interna tomava as decisões efetivas. Ponto fundamental da questão: a tentativa de golpe nasceu frustrada porque os setores que poderiam viabilizá-lo não o desejavam. E só nasceu porque eles permitiram.

É que o impulso criminoso de Bolsonaro gerava oportunidades irresistíveis. Primeiro, atentados, acampamentos e invasões serviriam como grande exercício de logística, psicologia e mobilização digital. Um verdadeiro banquete para a inteligência militar.

Além disso, havia o potencial destrutivo das manobras finais em Brasília. O peso simbólico do vandalismo, inclusive junto às tropas, era algo que os comandos de ambas as facções nunca desperdiçariam. Especialmente sabendo que ficariam impunes.

Por fim, a desmoralização dos golpistas torna os oficiais “democratas” hegemônicos na cúpula militar e no próprio governo federal. Viram fiadores da estabilidade, controlando as temperaturas internas e protegendo as instituições contra o bolsonarismo raivoso.

Eis a resposta ao enigma dos privilégios concedidos por Lula às Forças Armadas. Nesse ambiente, não vale a pena majorar expectativas com os inquéritos sobre a regência do golpe. Na melhor das hipóteses, eles pouparão o corpo submerso de um vasto iceberg.

A anistia do primeiro escalão militar vem sendo costurada há meses, e é tolice achar que Lula pode ou deseja impedi-la. Mesmo o que hoje parece inevitável depende de certos cálculos: a prisão de Bolsonaro compensaria uma GLO para deter seus mentecaptos?

Típica figura da cartilha “híbrida”, a crença numa vitória que não houve é capitulação inconsciente, passiva, que materializa o triunfo dos adversários sem o desgaste de um confronto aberto. A narrativa do predomínio judicial bloqueia a percepção da derrota.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

O golpe da tentativa



As investigações sobre as origens do “8 de janeiro” podem seguir duas linhas. A primeira, mais ortodoxa e confortável, reside em tratá-lo como evento único e irredutível: uma tentativa de golpe. Os indiciados seriam personagens que atuaram com o objetivo claro de interromper o governo Lula. Jair Bolsonaro e seus asseclas diretos protagonizam esse enredo.

A segunda abordagem começaria distinguindo as ilicitudes que geraram o vandalismo. De um lado, a tramoia golpista. De outro, a cumplicidade e a omissão de agentes públicos. Divididas as parcelas individuais de responsabilização, o ônus maior recairia sobre as pessoas que participaram de ambas as etapas, mantendo-as compatíveis com o resultado final da aventura.

Bolsonaro tem o perfil de quem acreditaria na sobrevivência de um governo gerado por uma sublevação militar. Seria fácil iludi-lo com essa bobagem, num teatro clandestino que explorasse as suas vaidades e seus limites cognitivos. Não surpreenderia descobrir que ele tinha de fato a ingênua esperança de que Lula viria a solicitar uma intervenção fardada.

Mas os organizadores dos ataques a Brasília não compartilhavam os planos de Bolsonaro. Sabemos disso porque Lula continuou presidente, algo que jamais ocorreria, naquele cenário, se o projeto golpista recebesse um mínimo de apoio dos comandos militares. E foi decisão tomada com antecedência, para evitar improvisos ou surtos de rebeldia das tropas.

O entorno bolsonarista seria incapaz de orientar evento de tamanha complexidade. Não me refiro apenas à mobilização de milhares de bandoleiros, mas também, principalmente, ao delicado equilíbrio imposto pelo propósito de liberar a destruição sem que ela resultasse numa tragédia ou num sequestro efetivo das instâncias governamentais.

Não culminando em ruptura, sequer efêmera ou iminente, os ataques expuseram a vigência de um controle mais amplo, necessário para antecipar e garantir a facilidade da ocupação e o recuo “pacífico” depois da baderna. Tudo isso envolve altas patentes, pois demanda centralização operacional, superioridade hierárquica e acesso privilegiado a informações.

No entanto, apesar das evidências, cozinha-se uma anistia velada para os mentores da conspiração vitoriosa, aquela que chamamos de “8 de janeiro”. Com endosso da mídia, o desfecho do caso pende para o caminho fácil, de usar bolsonaristas como bodes expiatórios. Surgem até ensaios de glorificação dos militares por terem supostamente abortado o tal golpe.

Não, as Forças Armadas não salvaram a democracia. Na melhor das hipóteses, negaram-se a protegê-la. Na pior delas, atiçaram bandidos para desestabilizar e acuar um governo legítimo. Talvez seja impossível distinguir juridicamente essas atitudes, mas com certeza quem devia obedecer obedeceu e quem podia mandar mandou. Não houve falha ou insubordinação.

A narrativa da “intentona” é uma receita de pizza. Com muita sorte, atinge Bolsonaro e meia dúzia de assistentes, livrando a poderosa estrutura militar que os manipulou. Reduz o “8 de janeiro” a um gigantesco mal-entendido, onde milhares de lunáticos teriam acreditado nas promessas, nos blefes e nas apostas furadas que, para estupefação geral, ninguém fez.

Depois de negarem os golpes que realmente ocorreram, os conciliadores se escandalizam com uma tentativa frustrada. Ela deve ser punida, claro, mas seu modelo obsoleto e inviável de ruptura não explica o sucesso dos ataques em Brasília. Tampouco reflete a verdadeira ameaça fascista que borbulha nos bastidores institucionais. Naturalizá-la é uma forma de capitulação.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Falta identificar os conspiradores



Quem acredita que os ataques de oito de janeiro fracassaram precisa recalibrar seu otimismo. Não houve “tentativa” alguma em Brasília. A ideia de que o governo impediu um golpe distorce os acontecimentos para além do que autoriza a prudência estratégica.

Os democratas se acostumaram a interpretar o episódio pelas possibilidades que ele não efetivou. Mas ninguém sabe se os ataques foram planejados para realmente derrubar Lula. Tinham caráter golpista, sem dúvida, mas sua finalidade imediata segue duvidosa.

Os militares não precisariam do vandalismo alheio para assumir o poder. Alegando a mera iminência de distúrbios, com apoio da PM e de uma companhia de soldados, tomariam o Planalto, o Congresso, o STF e o TSE, até que a ruptura ficasse irreversível.

A escolha de um domingo, em pleno recesso parlamentar e judiciário, facilitou o êxito “territorial” dos ataques, mas também anulou o sentido pragmático da bandeira golpista. Uma instituição depredada, sem funcionários, é apenas um amontoado de escombros.

Ao mesmo tempo, as ações das cúpulas militares, das autoridades civis e dos líderes dos baderneiros foram coordenadas. É ingênuo ver nos comandantes uma hesitação perplexa ou resistente a demandas externas. Aquilo não aconteceria sem roteiro preestabelecido.

Só um controle bem feito explica a relativa modéstia dos danos, especialmente aqueles que poderiam atingir os próprios bandidos. Deixada ao sabor do acaso e dos humores, a balbúrdia levaria a explosões e incêndios de grande porte, decerto com vítimas.

Superando a fantasia do levante espontâneo e imprevisto, percebemos que o ataque se define pelo que de fato realizou, não pelo desejo manipulado dos executores. Em outras palavras, que os objetivos da ação transparecem nos seus efeitos palpáveis.

Primeiro: ofuscar a simbologia positiva da posse de Lula. A inevitável cobertura midiática virou uma propaganda fascista de alcance planetário. Algo se quebrou no otimismo democrático do novo governo e até na imagem vitoriosa do presidente.

Segundo: substituir a derrota eleitoral do bolsonarismo por um triunfo performático de sua militância. O codinome “festa” resume o viés exibicionista e intransitivo do evento. A catarse rebelde preveniu o melancólico abandono das vigílias salvacionistas.

Por fim, o “triz” que faltou para o dito golpe dificulta a recomposição da normalidade. Recurso terrorista usual, o perigo iminente gera medo, paranoia e conflito interno. O desfecho ambíguo, fantasiado de retorno à ordem, fez o governo refém de seus algozes.

Em suma, o delírio golpista do suspeito é inversamente proporcional à sua culpa efetiva pelo 8 de janeiro. Num paradoxo cruel, quanto mais os democratas se aproximarem dos verdadeiros mentores do ataque, maior será o êxito do projeto desestabilizador inicial.

A CPMI não alimentará a crise militar, mas pode expor suas dimensões. Resta saber se o governismo tem vontade e força política para admiti-las. Pois, uma vez aberto o baú de assombrações, essa briga exigirá muito mais do que manifestos democráticos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Os defensores do TSE caíram na armadilha de Bolsonaro



O transporte e o armazenamento da estrutura de votação fornecem brechas oportunas ao impulso golpista. É mais fácil o bolsonarismo sabotar um processo vigiado por militares e policiais federais do que os funcionários civis fiscalizarem tamanho contingente.

Ocorre que TSE não se preparou para um cenário de ameaça efetiva. Esnobando os acadêmicos sérios que apontavam falhas no sistema digital, perdeu a interlocução crítica e qualificada que o forçaria a evoluir. Iludiu-se com os brilhos da unanimidade.

A rejeição do voto impresso deveria incentivar rigores que o substituíssem, mas os avanços foram superficiais. A amostragem de urnas selecionadas para controle, por exemplo, segue critérios estatísticos impróprios e tem escasso valor preventivo.

O fã-clube do TSE nem tomou conhecimento dos riscos. Preferiu repetir que os testes oficiais nunca apontaram problemas e que as fraudes são impossíveis porque ainda não ocorreram. Festejou o apoio dos diplomatas a um método que seus governos repudiam.

A mania de blefar em benefício da urna sinaliza que Jair Bolsonaro pautou esse debate. Ideologizando questões técnicas, conseguiu se livrar do cientificismo que seus inimigos usaram para desmascará-lo no auge da pandemia. Tornou-os negacionistas.

A obsessão com as narrativas de Bolsonaro naturalizou sua mentira central: a ideia de que a integridade do sufrágio depende apenas da “lisura” do TSE. Já que a hipótese de conluio do tribunal com o PT é absurda, a correta apuração dos votos está garantida.

Mas a confiança nas autoridades e os fenômenos materiais têm lógicas probabilísticas muito diversas. Embora o sucesso de um ataque ao sistema eleitoral seja duvidoso, a chance de correção dos seus danos é simplesmente zero. Não, boletins não servem.

Imaginemos que, ao término da votação, os códigos de uma urna revelem um comando capaz de transferir votos de Bolsonaro para Lula. Seria ridículo atribuir a manobra ao PT, mas não haveria meios tecnológicos, legais ou políticos de absolvê-lo.

Assim, os apologistas do TSE podem estar ajudando a produzir o clima da cassação da candidatura petista. Quanto maior a afinidade simbólica da oposição com o tribunal, maior o constrangimento imposto por uma fraude anônima que “ajudasse” Lula.

A esquerda subestima os efeitos de litígios na disputa presidencial. Foram os tribunais que engendraram o golpe fascista, com auxílio dessa mídia que não checa as auditorias que não auditam. No próprio TSE há ministros que seguem aplaudindo Sérgio Moro.

Mas é sobretudo o corporativismo que ameaça os planos progressistas. Nem a imprensa nem as cortes darão a Lula o benefício da dúvida, se para isso tiverem de expor uma vulnerabilidade qualquer do rito eletrônico. Muitas reputações graúdas estão em jogo.

Confundindo propaganda com certeza e republicanismo com autoengano, os democratas ajudam a manter o país vulnerável ao golpe. A transformação do TSE em protagonista da campanha dá a Bolsonaro o único oponente que ele consegue derrotar sem voto.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Vamos falar de golpe?



O campo democrático exibe uma irresponsabilidade chocante apegando-se às frágeis narrativas do TSE sobre a segurança do voto eletrônico. Pessoas que temem um golpe fascista desconsideram os meios potencialmente mais simples de viabilizá-lo.

A miopia tem origem na presunção de que a natureza “científica” da tecnologia eleitoral serve como antídoto para o obscurantismo bolsonarista. Assim, a defesa da candidatura Lula se confunde com a defesa do equipamento que registrará seu êxito inevitável.

É assombroso que ninguém sequer imagine o cenário oposto. E se a apuração der vitória a Bolsonaro, contrariando a liderança de Lula nas pesquisas? A claque do TSE aceitaria boletins de urna como prova? Ou questionaria o método que não cansou de elogiar?

Por outro lado, e se Lula vencer, mas os técnicos descobrirem um comando malicioso supostamente capaz de favorecê-lo? Os votos originais seriam recuperados, para atestar a falta de sentido da manobra? O PT conseguiria evitar a cassação da chapa?

Essas hipóteses valem tanto quanto qualquer especulação conspiratória. E as perguntas que as acompanham não são retóricas. Quem confia nos mecanismos de votação deve respondê-las sem apelar para a fácil recusa de sua verossimilhança.

Mas nem a credulidade absoluta serve como argumento. Os controles do TSE poderiam ser ludibriados mesmo que não tivessem as lacunas graves que têm. A sofisticação do crime digital amiúde supera os melhores sistemas de vigilância do planeta.

Menciono um exemplo já considerado obsoleto: há doze anos, EUA e Israel sabotaram usinas nucleares iranianas, sem recorrer à internet, usando um vírus que apagava seus rastros. E é com o governo israelense que Bolsonaro negocia programas espiões...

A esquerda se protege do fatalismo cultivando uma espécie de paranoia desejosa com o tal motim fascista. Apesar da violência que a define, é a mais reconfortante das ameaças antidemocráticas. Começa na derrota do inimigo e termina com sua desmoralização.

Seria prudente imaginar também as alternativas incômodas. Certos riscos pedem cautela preventiva ainda que tenham mínimas chances estatísticas, ou sequer admitam cálculos de probabilidade. Basta que envolvam danos gravíssimos e irreversíveis.

Uma sabotagem eficaz contra a vulnerável estrutura do TSE consolidaria a reeleição de Bolsonaro. O golpe seria escandaloso, mas não haveria clima político ou bases técnicas para impedi-lo. Afinal, os próprios democratas legitimaram a confiabilidade do sistema.

A fantasia de resistência institucional ao fascismo nutre um vício triunfalista. Enquanto faz apelos pragmáticos e moderados, a oposição subestima os adversários e se acomoda numa passiva utopia tecnológica. Não pode haver definição mais precisa de “salto alto”.

quarta-feira, 21 de março de 2018

A mensagem da tragédia



Há algo incômodo na linha comumente adotada para explicar os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Podemos resumir essa versão hegemônica na ideia de que tudo se restringiu a interromper a combativa militância da vereadora.

O ponto fraco da hipótese é a incapacidade de conciliar dois fatos inegáveis. Por um lado, o profissionalismo da execução, típico de quem não comete arroubos impensados. Por outro, o péssimo oportunismo do ataque, realizado em plena intervenção militar, de uma forma ostentatória e francamente provocativa.

Quisesse “apenas” eliminar uma inimiga política, a estratégia usada soaria temerária. As ligações com os possíveis mandantes são óbvias demais. E o fortalecimento das causas defendidas pela vítima trará visibilidade indesejável para os negócios que ela denunciava.

Seria possível forjar um latrocínio, um tiroteio fortuito ou até um acidente, para atingir a mesma finalidade. O disfarce, ainda que inverossímil, suscitaria uma ponta de dúvida que as autoridades, sob pressão, não hesitariam em aproveitar.

Transparente na sua veemência ignóbil, o crime não permite devaneios narrativos nem teatros da polícia com os suspeitos de praxe. E a própria eficácia do ataque esvazia os elos causais que as investigações poderiam fornecer.

O viés performático da ação deve ser tratado como um objetivo em si. Esse “recado” admite muitas interpretações, mas de modo algum possui natureza colateral, tampouco de publicidade involuntária de alguém que se prefere anônimo.

Em outras palavras, o assassinato foi cometido visando abalar a sociedade. Chamando as atenções para seu significado, os autores miraram alvos amplos e difusos, que extrapolam não apenas o domínio pragmático de preservar atividades ilícitas, mas também o exemplo pedagógico voltado a eventuais adversários.

A compreensão da tragédia precisa começar nos interesses favorecidos pelos efeitos que ela conscientemente produziu: a dúvida, o medo, o sensacionalismo emotivo da cobertura midiática. Mas também a radicalização do espírito punitivista e o fortalecimento dos discursos de ódio que o legitimam.

Não esqueçamos que se trata do fuzilamento de uma liderança que criticava a intervenção militar imposta por um governo golpista desmoralizado. Às vésperas da campanha presidencial, quando a plataforma policialesca da direita se encaminha para o fracasso vexatório. Com a candidatura mais popular impedida por arbítrios judiciais.

Nenhuma explicação simplista resolve todas essas coincidências.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Polyana investigadora
















Dá para imaginar o escândalo que haveria se o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato fizessem cursos e reuniões na Rússia ou na Venezuela antes de arrasarem a Petrobras. Gigantes petrolíferos ajudando a destruir a concorrência brasileira? Então. Com os EUA é “cooperação internacional”.

Espionagem? Conspiração? Depende da maneira como definimos tais atividades. Ou melhor, do grau de credulidade que abraçamos para embalar nossa ilusão de autonomia e segurança. Quase toda ação escusa tem uma fachada legítima que satisfaz os ingênuos.

Claro, soa insensato embaralhar os verdadeiros deslizes éticos de Moro com suspeitas afins. No imaginário diplomático, ele seria um péssimo candidato à cooptação. Além de excessivamente visado, nutre visão messiânica e idealista do seu papel. E tem motivações ideológicas já alinhadas à agenda estadunidense.

Ao mesmo tempo, é muita ingenuidade ignorar os elos geopolíticos da desmoralização de algumas das maiores empresas do país, com negócios planetários em áreas estratégicas para as potências financeiras. E é simplesmente estúpido achar que desmontes desse tipo são fenômenos gratuitos no inescrupuloso universo do empresariado transnacional.

Podemos até acreditar que a Lava Jato serve “apenas” como instrumento manipulado por interesses poderosos, em troca do seu próprio sucesso no âmbito doméstico. O problema está no pacote de versões oficiais, bem menos convincentes, que dão suporte à hipotética inocência dos nossos berlusconis.

Por exemplo, a tese de que o profissionalismo, a força material e o respaldo midiático do movimento pelo impeachment nasceram de ações espontâneas e desarticuladas, embora seus líderes tenham ligações com obscuras companhias norte-americanas. Também a de que o cargo de ministro das Relações Exteriores de José Serra não tem nada a ver com seu projeto que abre o pré-sal à exploração estrangeira. Ou com os policiais federais que vazaram os sigilos da Lava Jato.

Será que as teorias conspiratórias nascem da quantidade de coincidências estranhas em torno do mesmo fenômeno, ou do desprezo geral por esses sinais? Precisaríamos mesmo de documentos governamentais para saber que os EUA participaram do golpe militar de 1964? Sem o Wikileaks ninguém imaginaria que a Casa Branca espiona mensagens eletrônicas de governos, empresas e cidadãos?

A lista dessas “descobertas” tardias ocuparia compêndios. As nódoas comuns a todos os seus episódios são a covardia da imprensa dita investigativa e o descrédito público dos paranoicos que levantaram as perguntas que ninguém ousava formular.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Culpando a vítima











O repertório machista que atravessa algumas agendas políticas ajuda a fortalecê-las transferindo as fórmulas do preconceito para esferas de análise onde a questão de gênero parece irrelevante. Isso ocorre com Dilma Rousseff (além do desrespeito aberto que ela sempre sofreu) nos debates sobre o impeachment.

Uma das mais graves e disseminadas falácias sobre o estupro reside na presunção de “merecimento” da vítima, que teria favorecido ou provocado a agressão. O ataque perde então a essência bárbara e passa ser compreensível, mero desdobramento de atitudes que a mulher poderia evitar se quisesse.

Argumento similar ressurge em certas manifestações de apoio à deposição de Dilma. Para digerir a escandalosa ilegalidade do processo e a imoralidade dos seus líderes, os defensores do arbítrio precisam jogá-las na conta da própria mandatária. Apesar de tudo, ela “mereceu” o ataque dos parlamentares ignaros.

Assim, os supostos defeitos pessoais de Dilma (arrogância, incompetência, falsidade) amenizam a ofensa jurídica do impeachment. A violação constitucional deixa de ser um golpe inescrupuloso, transformando-se em mera consequência, algo normal no sistema de relações do mundo político. A culpa é da vítima, que provocou sua tragédia.

Tais reflexões jamais esgotariam um tema sério e complexo como o da agressão sexual. A intenção aqui se resume a mostrar que o hábito de responsabilização da vítima extrapola a tolerância perante o estupro, servindo de instrumento para legitimar violências de outra ordem, certamente menos lesivas, mas nem por isso aceitáveis.

O fato de essa transposição soar natural e inofensiva para muitas pessoas solidárias com as mulheres que sofrem agressões físicas não deixa de simbolizar uma derrota no combate à impunidade dos agressores.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A PF descontrolada














É tipicamente autoritária a campanha para que a Polícia Federal preserve “autonomia” com a mudança no Ministério da Justiça. Seus apologistas querem que ela continue funcionando segundo as próprias regras, indiferente às demandas da sociedade e às determinações legais.

Ora, o mínimo que se pode exigir da PF é respeito pela hierarquia funcional que a Constituição determina, além de lisura e transparência no exercício de suas atribuições. E já faz algum tempo que a sociedade brasileira não recebe esse mínimo. Desde o início da Lava Jato.

Parte da corporação virou uma espécie de poder paralelo, a serviço de conspiradores e sabe-se lá de que outros interesses. A própria resposta dos policiais às censuras do ministro Eugênio Aragão possui um tom de ameaça que em qualquer democracia do planeta já teria levado a demissões sumárias.

Aragão tem o desafio de lidar administrativamente com um problema que os malfeitores transformaram em político para garantir sua impunidade. Mas o freio momentâneo colocado pelo STF às sandices de Sérgio Moro abriu uma chance para que o ministro siga o mesmo caminho quanto à PF.

Ele pode exigir pelo menos quatro medidas imediatas dos comandados:

1. Esclarecimentos sobre os grampos nos telefonemas entre Dilma Rousseff e Lula;

2. Identificação e punição dos responsáveis pelos vazamentos de informações sigilosas dos inquéritos da Lava Jato;

3. Identificação e punição dos responsáveis pelas escutas clandestinas instaladas nas celas curitibanas da Lava Jato;

4. Punição de agentes e delegados que publicam manifestações político-partidárias nas redes sociais da internet.

Essas providências seguem estritamente as normas jurídicas e estatutárias. E são mesmo obrigatórias, perante a gravidade das suspeitas envolvendo a PF. O fato de parecerem radicais apenas ilustra o nível de permissividade que beneficiou a corporação até agora.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Reflexões inconvenientes sobre o MPL


















Publicado no Brasil 247

Por mais que simpatizemos com a ideia do transporte público gratuito e universal, é difícil imaginá-la em vigor na dura realidade administrativa do país. A falta de respostas aos problemas orçamentários e jurídicos da medida agrega à principal reivindicação do Movimento Passe Livre um incômodo aspecto de esoterismo coletivista.

A citação de exemplos isolados onde vigora a gratuidade soa inconvincente para referendá-la nos contextos caóticos das metrópoles brasileiras. Não é só uma questão de escala, mas também de prioridade. Fala-se na revisão das dívidas municipais, mas seria quase desonesto exigir que a solução (de resto improvável) deixasse de atender a demandas mais graves e urgentes da sociedade, como saúde, educação e segurança.

Mesmo a questão do transporte vai muito além das tarifas. O colapso da mobilidade nasce de imensos problemas de planejamento, gestão e infra-estrutura que extrapolam o âmbito municipal. Nenhum urbanista defende a gratuidade das passagens como estratégia suficiente para solucioná-los. Poucos, aliás, julgam-na viável em si.

A carência de propostas unificadas e coerentes para o setor reflete a extensão do dilema, e também sinaliza o divórcio entre as lucubrações militantes e a realidade gerencial da esfera pública. O melhor sintoma desse deslocamento é a limitação do MPL a pautas oportunistas e localizadas, que tangenciam as verdadeiras questões práticas da área.

Talvez cansados de transtornar suas cidades para exigir o inexeqüível, os ativistas passaram a lutar “apenas” contra o aumento das tarifas. Embora seu nome carregue uma reivindicação clara, o movimento prefere aceitar a inevitabilidade da cobrança, como se a ruína do sistema fosse uma simples questão de valor unitário dos bilhetes. A anulação do reajuste faria alguma diferença na qualidade dos serviços prestados?

Em suma, falta plataforma ao MPL, um rol de melhorias com base jurídica, técnica e contábil que amenizem as agruras dos habitantes do mundo real. Empurrar a lacuna para o Poder Público é uma forma ingênua e inconsequente de atuação política. Vulgariza as muitas insatisfações populares sob um rótulo protestante generalista que se satisfaz em causar danos esporádicos à coletividade.

Isso explica o gradativo isolamento do MPL, abandonado pelas facções políticas e midiáticas que outrora o paparicavam. Sequer a inaceitável brutalidade policial, que ajudou a preencher o vazio reivindicatório dos protestos em 2013, consegue aglutinar mais adeptos à causa sem pauta.

Não há coincidência no fato de os black blocs ressurgirem ali, depois de uma elucidativa ausência nas mobilizações populares recentes. O radicalismo dos mascarados ocupa a lacuna programática do MPL, canalizando o descontentamento da juventude para um teatro de confrontação que só interessa aos poderes estabelecidos.

É um lamentável desperdício de energia transformadora, mas não deixa de ter certa função pedagógica.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Prisão sugere elo entre PSB e crime organizado

O prefeito e o suspeito confraternizam
















Uma ação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) aprisionou dez pessoas suspeitas de pertencerem ao PCC (Primeiro Comando da Capital) no interior de São Paulo. A lista inclui um assessor do prefeito de Campinas, Jonas Dozinette (PSB), que governa em coligação com o PSDB.

O título acima, propositalmente bombástico, sugere como a mídia tucana interpretaria o episódio se envolvesse uma gestão petista. Ironias à parte, contudo, o exagero é apenas aparente. Afinal, o assessor preso, filiado ao PSB, ocupava um cargo de confiança no gabinete do alcaide. E pode representar a influência da notória rede criminosa na cúpula administrativa de uma das maiores cidades do país.

Quem indicou o cidadão para um posto de tamanha importância? Como ele chegou ao PSB? Que ligações possui com os vereadores da base governista? Quais atividades exerceu na campanha de Jonas e, depois, na sua gestão municipal? É verdade que fazia lobby para o nebuloso setor do transporte alternativo?
           
Essas questões seriam prontamente averiguadas pela imprensa corporativa se ela tivesse mínima lisura jornalística. Haveria um escândalo nacional, equivalente à gravidade do caso. E os guardiões da moralidade vomitariam desabafos indignados sobre o nível de corrupção a que chegaram os aliados de Geraldo Alckmin.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Rescaldos da tragédia

















Apesar da perplexidade e da desinformação, podemos antever certos desdobramentos narrativos da infâmia parisiense. Mais especificamente, as versões que não merecem o endosso de observadores críticos.

No flanco esquerdista, o desprezo cínico pelas vítimas e os argumentos geopolíticos de justificação da violência. O extremismo islâmico é inaceitável sob todos os aspectos. Não há “choque de cultura”, guerra ideológica ou relativismo pós-modernoso que faça a barbárie parecer aceitável numa circunstância e deplorável em outra.
           
Na vertente direitista, a comoção romântica diante do paraíso civilizatório ameaçado. A situação dos direitos humanos, a realidade social e a competência do Poder Público na França são muito piores do que disseminam a propaganda turística e o provincianismo ignorante. Uma incrível cadeia de abusos e incompetências estatais primeiro gerou e depois agravou o massacre parisiense. Os terroristas eram (são) franceses.

Por fim, no comentarismo falsamente equilibrado, o ranço elitista da indignação seletiva. A diferença das reações geradas pela chacina de “nossos semelhantes” em lugares chiques de Paris e pelo banho de sangue no botequim da periferia paulistana revela um componente ideológico que nada possui de humanista. Alguém que aceita os policiais carniceiros de Geraldo Alckmin não pode exigir punições exemplares para os terroristas muçulmanos.

Como combater a intolerância e a barbárie sem transformá-las em instrumentos desse mesmo combate? Por que os mais avançados sistemas de inteligência do planeta são incapazes de prevenir ações de tamanha envergadura? O que os atentados ensinam sobre o controle de armas, a corrupção de agentes públicos, o tratamento aos imigrantes e as estratégias intervencionistas das potências militares mundiais?

Nenhuma das perguntas tem resposta fácil, e nem deveria ter. Se as enfrentássemos com honestidade e coragem, no entanto, em vez de fazermos especulações rasteiras, as mortes de Paris não seriam totalmente vãs. Enquanto nos iludimos com homenagens, condolências e exibicionismos nacionalistas, alguém está preparando o próximo ataque.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A reação necessária














Os processos de Guido Mantega contra o imbecil que o insultou e de Lula contra a revista Veja indicam uma reviravolta no comportamento dos petistas. Antes tarde do que nunca, mas todos precisam ser cobrados pelo silêncio anterior.

Os governos federais do PT foram marcados por uma exasperante pusilanimidade perante os abusos dos adversários, em especial a mídia corporativa. É razoável afirmar que essa tolerância incentivou a escalada selvagem da direita, ao menos quanto à presunção de impunidade.

Não alimento ilusões no equilíbrio do Judiciário, especialmente nas instâncias superiores, túmulos inevitáveis de qualquer ação contra mentirosos e agressores oposicionistas. Mas, se o pedido reparatório tem pouca serventia pragmática, sua função pedagógica é inegável.

Tivessem agido nos primeiros ataques maliciosos, os petistas conteriam a naturalização da hidrofobia reacionária. Talvez hoje contassem com uma ou duas vitórias simbólicas que evitassem os crimes eleitorais de Veja e os vazamentos seletivos da Lava Jato.

Há uma grande confusão entre passividade e o tal “espírito republicano” defendido por alguns petistas. Republicanismo é exigir proteção legal contra a calúnia, a difamação, a injúria, a agressão. É cobrar das instituições um comportamento digno de suas prerrogativas no estado de Direito.
                                   
Mas não devemos reduzir todas as agressões da direita a uma simples culminância da inação das vítimas. O atentado ao Instituto Lula, por exemplo: na conjuntura atual, ele pode ter sido motivado exatamente pelo início de reação petista, que inclui as ações judiciais, o apoio dos governadores a Dilma, as manifestações antigolpe, etc.

A violência também é uma resposta desesperada à recuperação da dignidade do campo governista. Isso torna evidente que os tempos de masoquismo cívico do PT ficaram num passado irrecuperável. A não ser, claro, que a barbárie prevaleça.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Porrada a jato

















A truculência policial virou sinônimo do modo tucano de governar. E há método nesse autoritarismo. Em vez de atuarem no arrefecimento dos ânimos, Geraldo Alckmin e Beto Richa incentivam a radicalização dos movimentos para reprimi-los com mais força, acuando os adversários políticos.

Mas é importante lembrar que esses arbítrios possuem respaldo institucional. Mesmo agindo sob a tolerância criminosa dos respectivos comandos civis, as tropas fardadas podem sempre argumentar que seguiam ordens judiciais. Foi assim na tragédia do Pinheirinho, em São José dos Campos. Foi assim na Assembléia Legislativa do Paraná.

A barbárie dos cossacos paranaenses nasceu na autorização de um juiz ou de uma juíza que pôde escolher entre o suplício de contribuintes e a integridade moral dos nobres deputados. A pessoa encarregada de zelar pela cidadania preferiu sufocá-la através da violência desmedida, abusiva, inconstitucional.

A mídia esconde o nome do magistrado, tirando o caráter individual e subjetivo da liminar assassina. A omissão também preserva o Judiciário paranaense do vexame causado pela vergonha repressiva. Afinal, o sacrossanto Sérgio Moro trabalha ali bem perto e pode ficar injuriado.

Não há qualquer coincidência no fato do espetáculo grotesco de Curitiba ter sido autorizado pelo mesmo órgão que promove a desfaçatez da operação Lava Jato. Eis o preço que pagamos pela glamorização acrítica da Justiça.

Os defensores dos direitos humanos devem cobrar a punição de governantes que toleram a fúria sanguinolenta da soldadesca. Mas é imprescindível fazer o mesmo com os funcionários que despertam o monstro em primeiro lugar.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O caráter de Aécio Neves

 

















Em 2009, Juca Kfouri afirmou que o então governador Aécio Neves teria agredido uma mulher no Rio de Janeiro. O jornal Hora do Povo repercutiu o caso em primeira página. A coluna de Joyce Pascowitch relatou o episódio, ocultando seus protagonistas.

Todos foram desmentidos, mas não houve recuos, tampouco investigações profundas. E Aécio reagiu de maneira um tanto acanhada, para alguém que processa jornalistas e blogueiros por divergências bem menos contundentes e objetivas.

Ele foi acusado de dar um tapa no rosto da sua acompanhante, numa festa de luxo, na presença de vários convidados, e ficou satisfeito com uma declaração à imprensa?

Qualquer inocente na mesma situação processaria os mentirosos. Com a influência e os recursos que tem, Aécio ganharia fácil uma ação judicial contra ilações desse teor. E reverteria o constrangimento posando de vítima indignada.
           
Sempre tive receio de abordar a vida íntima dos políticos. Os boatos sobre as supostas dependências químicas de Aécio, apesar da verossimilhança dos flagrantes, me parecem meio levianos. Estão muito próximos das apelações reducionistas que a própria direita usa para conquistar adeptos no farisaísmo generalizado.

Por outro lado, há certas prerrogativas da privacidade que deixam de valer para pessoas que escolheram a vida pública. Não acho que Aécio fugir do bafômetro seja irrelevante. Dirigir sob efeito de álcool ou com a carteira de habilitação vencida é atitude inaceitável para um senador.

Semelhante barreira moral deveria prevalecer contra sujeitos descontrolados e covardes que estapeiam mulheres. Por que não acontece? A sociedade brasileira é tão machista e permissiva que toleraria esse tipo de conduta num pretendente ao maior cargo executivo do país? O antipetismo suplanta qualquer limite civilizado?

Não se trata de simples questão doutrinária. Enquanto a corrupção domina os debates eleitorais, soa incoerente fazer vistas grossas para os repertórios de valores dos candidatos. Se o caráter de um indivíduo não tem importância, jamais deveríamos nos revoltar com as suas atitudes. Agressão física, diga-se de passagem, é crime.

Recusar essa discussão como “jogo sujo” ou “baixaria”soa desonesto e irresponsável. O problema da violência contra a mulher é grave demais para receber meras insinuações anedóticas ou para sucumbir à verborragia programática. O tema exige esclarecimento incontroverso, pouco importando o status e o poder dos envolvidos.

Diante do partidarismo da mídia, porém, resta-nos votar imaginando que os defeitos de Aécio não atingem esse nível. Pois a chance de termos um agressor de mulheres como presidente da República é tão revoltante que chegamos a torcer para que tudo não passe de uma fofoca irresponsável. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A vanguarda do atraso






















As preferências do eleitorado paulista desmoronam a ilusão civilizatória e modernosa do estado mais rico do país. As prováveis vitórias de Geraldo Alckmin (governador) e José Serra (senador) atestam uma cegueira política e uma ruína de valores incompatíveis com o orgulhoso imaginário local.

Apenas o antipetismo exaustivamente fabricado pela mídia é incapaz de explicar esse fenômeno. Alckmin enfrenta o manhoso peemedebista Paulo Skaf como adversário direto, e o concorrente de Serra, Eduardo Suplicy, tem uma trajetória muito própria, às vezes contrária aos interesses do PT.

O que mais chama a atenção, contudo, é a fragilidade potencial dos tucanos.

Alckmin submergiu num lamaçal de escândalos de corrupção, promessas malbaratadas e colapsos estruturais. Sua incompetência administrativa resultou na maior crise da história das universidades estaduais e na brutalidade da Polícia Militar, chegando ao cúmulo de causar um racionamento de água.

Serra, o mártir da bolinha de papel, figura antipática e autoritária, acumula participações em tenebrosos enredos da crônica política nacional. O suposto envolvimento na máfia das Sanguessugas e as gravíssimas denúncias do livro “A Privataria Tucana” já bastariam para alimentar uma avassaladora rejeição ao candidato.

A eleição de ambos representaria uma vergonha histórica para o povo de São Paulo.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O que acontece em São Paulo?


















Nunca o desgoverno demotucano paulista foi tão escancarado.

O colapso da segurança envolve índices calamitosos de criminalidade, corrupção policial, violações sistemáticas de direitos humanos.

O escândalo do metrô abarca os quase vinte anos de administração do PSDB, envolve políticos notórios e mancha a reputação de líderes históricos do partido. Possui ligações até mesmo com o egrégio Tribunal de Contas, sugerindo elos tenebrosos no Judiciário, que vive atrapalhando a administração petista da capital.

Por falar em metrô, além da malha insuficiente, o sistema ferroviário é marcado pela saturação e por descalabros técnicos que geram um cenário permanente de caos no setor.

A ameaça do racionamento de água (que ocorre secretamente em várias regiões) escancara a falta de planejamento da Sabesp e o privilégio dado a interesses financeiros, em detrimento da utilidade pública.

Os pedágios no Estado, os mais caros do país, há tempos ultrapassaram os limites do aceitável. São, inclusive, objeto de uma CPI na Assembléia Legislativa.

As universidades estaduais chafurdam numa crise interminável, que inclui o congelamento de salários, a falência e o sucateamento de instalações. Um passeio pelo sistema educacional básico revela a incompetência (para não dizer a irresponsabilidade) dos administradores.

Tudo isso em meio a uma onda de protestos que tomou vulto justamente quando o governador Geraldo Alckmin permitiu que seus cossacos atacassem os manifestantes. Tudo isso, repito, em meio a uma onda de protestos que têm (ou deveriam ter) como alvo o governo estadual e suas políticas fracassadas.

E, no entanto, contrariando qualquer lógica razoável, Alckmin parece fadado a reeleger-se no primeiro turno, sem obstáculos.

É bem verdade que as circunstâncias desautorizam conclusões precipitadas. Apenas 10% dos eleitores declaram voto espontâneo no governador, metade do registrado há um ano. A omissão da pesquisa acerca do grau de conhecimento dos candidatos (devemos ler o Datafolha nas suas lacunas espertas) sugere que Alexandre Padilha é desconhecido por uma parcela ampla demais do eleitorado, enquanto a notoriedade de Alckmin e Paulo Skaf impede comparações diretas.

Seja como for, há algo de incompreensível no cenário político paulista.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sujeira

 














Alguma coisa parecia meio estranha na tal operação Lava Jato da Polícia Federal. Primeiro a suposta participação de um ex-delegado, atualmente deputado oposicionista, no vazamento de informações à imprensa. Depois a completa omissão do noticiário a respeito dos convênios assinados pela gestão José Serra, no ministério da Saúde, com o mal afamado laboratório Labogen, que teria centralizado as transações ilegais.

Eis que agora apareceu o rabicho político-partidário das investigações. Bem na semana em que a propaganda do PT vai ao ar, criticando o desgoverno tucano de São Paulo, surge um elo “comprometedor” do escândalo com Alexandre Padilha, o pré-candidato petista no estado. Pura coincidência, evidentemente. Afinal, é a primeira vez que o nome de Serra aparece relacionado a uma investigação da PF que atinge seus adversários em pleno ano eleitoral...

Alguém poderia até gastar neurônios debatendo a relevância da refutada indicação do tal assessor para um cargo no laboratório, sabendo o que sabemos dos bastidores da administração pública brasileira. Mas já pouco importa o grau verdadeiramente jornalístico do factóide. Estão todos em campanha: para preservar o PSDB no Palácio dos Bandeirantes vale qualquer apelação. Não há debate possível nesse festival de hipocrisias.

Os articuladores da candidatura de Padilha podem comemorar a transformação da insignificância em mote propagandístico. É, no mínimo, um sinal de que suas pretensões incomodam a direita midiática a ponto de obrigá-la a chafurdar no ridículo.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O papel das polícias

















Publicado no Amálgama

A imprensa mitifica os grupos black bloc, endossando a sua ilusão tática, reverberando o espetáculo do vandalismo como atitude política e dando-lhe um tratamento ambíguo que visa instigar o recrudescimento das manifestações. Mas as polícias também desempenham curioso papel nesse processo.

O que salta aos olhos nas suas intervenções é que seguem um padrão equivocado, ora pelo ataque desnecessário e provocativo, ora pela tática infeliz, que permite a disseminação do vandalismo e o agravamento das lesões físicas de ambos os lados. O planejamento, a inteligência e as abordagens são tão ruins e previsíveis que chegam a parecer propositais.

Não se trata de apoiar, desejar ou propagandear a ação repressiva dos cossacos. Menos ainda de subestimar os efeitos nefastos que ela costuma produzir. Questiono justamente o contrário, isto é, a real incapacidade dos comandos policiais para coibir a violência e a destruição sem causar ainda mais violência e destruição.

Aplicar nos protestos os meios tradicionais de combate à criminalidade soa triplamente equivocado: é medida flagrantemente abusiva, que atinge resultados pífios nos supostos objetivos da ação policial e que, por isso, desgasta a imagem das corporações, que deviam estar ansiosas para amenizar o descontentamento geral com o notório colapso da segurança pública. Mas a opção fica inaceitável, principalmente, porque sabemos que as autoridades conhecem métodos para minimizar os danos de atos organizados abertamente nas redes sociais, ou para isolar e conter uma pequena multidão nas ruas de qualquer cidade.

Um paralelo razoável, embora indigesto para os manifestantes, aproxima-os das torcidas nos jogos de futebol. O fato das polícias eventualmente aplicarem sistemas eficazes e pacíficos na organização de certas partidas de risco prova que os inúmeros episódios negativos originam-se da inépcia das corporações. Ora, se os comandos aplicam as medidas preventivas necessárias quando há vontade política para tanto, são responsáveis pelas conseqüências de ignorá-las depois.

Insisto que a intenção aqui não é fazer a apologia da opressão fardada, nem insinuar que os black blocs a merecem. Podemos discutir longamente a necessidade, a viabilidade e mesmo a legitimidade da contenção física dos mascarados. Mas esse debate não impede a suspeita de que inexiste um verdadeiro esforço das autoridades para minimizar os efeitos negativos do confronto com as facções mais radicalizadas dos protestos.

Não basta apenas condenar o bombardeio aleatório, a pancadaria desenfreada e as prisões arbitrárias, ou suas versões “inovadoras” recentes. É preciso questionar se os responsáveis civis e militares pelas corporações acreditam mesmo nos benefícios das estratégias que adotam. Por que continuam tratando os manifestantes da única maneira que os fortalece e estimula? Como esperam manter a ordem e a legalidade violando direitos constitucionais, atacando jornalistas, alimentando a histeria geral?

Até uma hipotética ausência de policiais nos protestos talvez levasse a resultados mais promissores. O ânimo depredador tenderia a arrefecer diante da sua própria vaziez objetiva. Sem o antagonista simbólico a nutrir as fantasias heroicas da juventude, o ímpeto revolucionário dos mascarados definharia cedo ou tarde. Eis o oposto exato daquilo que a PM vem conseguindo.

Não há qualquer coincidência no agravamento das tensões ideológicas, em contexto pré-eleitoral, com participação ativa de governantes-candidatos. O próprio silêncio da grande mídia diante do fenômeno é bastante sintomático do uso conveniente das atribulações. Pior para o contribuinte, usuário dos serviços públicos, que serve de pretexto para esse infame círculo vicioso.