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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Quem são esses culpados?



A tragédia de Brumadinho vem provocando ataques raivosos contra um inimigo de muitos nomes: “o Brasil”, “este país”, “aqui”, “nós” (os “brasileiros”), etc. Trata-se de vício antigo e complexo, mas que, no triste episódio da mineradora, soa particularmente inaceitável.

Primeiro porque, a rigor, o raciocínio é falso. Mais da metade das ações da Vale pertence a investidores estrangeiros, com importante participação da multinacional japonesa Mitsui & Co. Foi uma consultora alemã, a TÜV Süd, que certificou a segurança da barragem rompida. As atividades da mineradora são financiadas por governos de todo o planeta.

A deturpação sugere exclusividades falaciosas. Uma das donas da Samarco, responsável pelo desastre de Mariana, é a anglo-australiana BHP Billiton. Em 2016, a Arcelor Mittal, de Luxemburgo, foi multada por emissões de poluentes em Vitória. A norueguesa Hydro Alunorte sofreu denúncia na ONU pela poluição dos rios e igarapés de Barcarena (PA). Brasileiros não participaram dos vazamentos de combustível da Exxon, em 1989, e da British Petroleum, em 2010, nem dos rompimentos de barragens da italiana Prealpi Mineraria, em 1985, e da sul-coreana SK Engineering & Construction, ano passado.

A mesma falácia deturpa a origem da “nossa” corrupção. A Alstom, cuja diretoria subornou membros do governo tucano de São Paulo, é francesa. Os desvios do cartel chegam a 300 milhões de reais, fora superfaturamentos. São estrangeiros os laboratórios farmacêuticos cujas patentes causam prejuízos de 100 milhões de dólares por ano ao sistema público de Saúde.

Poderíamos alongar a lista com evidências do poder persuasivo de corporações internacionais sobre autoridades brasileiras nas áreas do entretenimento, da telefonia, da TV a cabo, dos eletrônicos, etc. Quase todos os lobbies envolvem atividades ilegais ou eticamente discutíveis, muitas delas proibidas nos países em que essas companhias mantêm seus escritórios centrais.

As fortunas destinadas a corromper brasileiros precisam sair de caixas controlados pelos altos círculos administrativos das multinacionais. Também as práticas temerárias e negligentes das filiais, quando incluem grandes riscos, dependem da conivência ou ao menos da omissão de suas diretorias estrangeiras, além das prestadoras de serviços de consultoria e certificações.

Por fim, cabe realçar a incoerência esperta da mania generalizante. Quem dissemina culpas por Brumadinho não ousa disseminar também o fascismo que elegeu Bolsonaro. As pechas de patriota e ufanista, que servem para desqualificar os críticos da simplificação tola do desastre, alimentam o orgulho dos simplificadores no front ideológico. Crimes de estatais são do governo, mas os da iniciativa privada caem na conta do “povo”.

O maior efeito negativo da autodepreciação coletiva reside em contribuir para a impunidade dos responsáveis diretos e indiretos pela tragédia: funcionários e executivos, deputados estaduais e federais, membros de órgãos fiscalizadores, magistrados de vários níveis. Todos têm nomes e sobrenomes, obrigações funcionais, atitudes registradas em atas e memorandos.

O desabamento foi causado por essas pessoas, não por entidades difusas como “a Vale”, “a Natureza”, “o Brasil”, “o capitalismo”. Se procuram uma especificidade brasileira, os analistas podem começar em seu próprio receio de contrariar poderosos de qualquer procedência. Nada mais tipicamente verde-amarelo do que pulverizar indignações para que elas não atrapalhem os negócios da “gente de bem”.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

“Mad Max: Estrada da Fúria”






















Road movie singular (sem estradas), que se desenvolve ao longo de uma única perseguição. A crítica exagera suas qualidades, de maneira um tanto suspeita. Mas George Miller é craque no gênero e atualiza sua saga distópica usando referências ecológicas com um divertido toque fetichista.

O grande interesse da obra reside no primor técnico, especialmente a direção de arte, com aquelas parafernálias ao mesmo tempo futuristas e obsoletas que fazem a graça de algumas produções similares. Também a incrível edição, de imagens e sonora, que dificilmente não monopolizará os prêmios da área.

Outro destaque é a fotografia do consagrado John Seale, toda em digital e, dizem, recorrendo pouco a efeitos computadorizados. Suas oscilações de paleta cromática, entre dominâncias quentes e frias, imprimem dinâmica própria a um enredo que podia resultar visualmente monótono.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hipocrisia ambiental






















O imbróglio jurídico em torno da distribuição de sacolas plásticas no comércio levanta uma dúvida simples: a única alternativa “ecologicamente correta” implica o prejuízo do consumidor? Tão preocupados com o meio-ambiente, por que os supermercados não fornecem sacolas reutilizáveis, inclusive adaptadas para o transporte do lixo?

É típico do autoritarismo cientificista transformar o assunto num problema educativo, como se houvesse apenas uma versão correta do que é “melhor para a sociedade”. O cidadão que enxerga nisso tudo uma tremenda hipocrisia de vendedores gananciosos encarna o herege ignorante do culto racional à deusa Ciência.

Claro, culpar o contribuinte pelo desastre planetário é mais fácil do que enfrentar os verdadeiros dilemas da questão. A consciência ecológica parece muito bacana até mexer com os lucros do empresariado.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A culpa de São Pedro


















A imprensa paulista comemora a promessa de que não haverá racionamento de água até a eleição. Assim o governador Geraldo Alckmin escaparia de uma constrangedora repetição do apagão produzido pela genial governança do colega FHC.

O “secão” tucano é fruto de má gestão na Sabesp, gigantesco feudo de apaniguados políticos da direita local, máquina de fazer dinheiro que possui todas as condições técnicas e financeiras de minimizar os efeitos da escassez de água nos reservatórios. Isso fica óbvio sempre que um especialista minimamente idôneo se manifesta sobre a falta de políticas preventivas da empresa. Até o Ministério Público Estadual apontou erros na concessionária (e olha que para o MPE contrariar o governo é sinal de muita coisa errada).

Claro que a mídia corporativa faz de tudo para qualificar o problema como pura falta de chuva. Exatamente o oposto dos factóides alarmistas que inventa quando raios ou ventos (ou sabe-se lá que fatores menos publicáveis) interrompem a transmissão de energia a cargo do governo federal.

Mas nada disso chega a surpreender. A máfia do metrô é um problema de corrupção restrito a funcionários das empresas do cartel. A explosão da violência e os disparates policiais são causados pelo Ministério da Justiça. O sucateamento da educação estadual e a decadência da USP nasceram com o Enem. O colapso dos postos de saúde veio do programa Mais Médicos. Os pedágios são exorbitantes porque usamos carros demais.

Alckmin é um péssimo administrador por causa da umidade relativa do ar.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Animais














A questão do testes em laboratório com seres vivos é espinhosa. Alguns procedimentos parecem mesmo cruéis e desnecessários. Mas não podemos esquecer que se trata de um debate científico, e que os dilemas éticos estão sempre a um passo do fanatismo.

O simples fato de a discussão envolver líderes religiosos, artistas, celebridades e deputados que fazem campanha eleitoral recorrendo aos “pobres animaizinhos” já demonstra que existe muita neblina esotérica nesse ambiente. A ignorância é uma benção, dizem, mas também pode ser uma opção pragmática: ficaríamos chocados com os métodos produtivos de uma boa maioria dos insumos de uso cotidiano. Mas jamais deixaríamos de medicar nossos filhos, por mais sofrimento que a fabricação do remédio tenha causado a uns bichos anônimos.

Existe um freqüente lapso entre a propaganda civilizada pelo tratamento “humano” a certos mamíferos e o desrespeito irracional contra bípedes implumes e falantes, com polegares opositores e todas as características antropoformes que a lei diz merecerem no mínimo a mesma solidariedade. Os amantes de beagles demonstrariam a solidez de sua causa se também vestissem máscaras para arrombar um desses campos de concentração que seus tributos sustentam em qualquer cidade do país.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Descartáveis



















Admito estar surpreso com a derrota parcial dos supermercados na luta para embolsar o dinheiro gasto em sacolas plásticas. Acreditava mais na força do lobby do que na boa vontade e na sensatez do Judiciário. Venceu a razão, pois, ainda que momentaneamente.

Repito: ninguém ali está preocupado com a natureza. Quanto mais se afligem, deixando cair a máscara da civilidade, os arrogantes usurpadores mais expõem a face oportunista e rapinadora desse ambientalismo de araque. Daqui a pouco abrirão o jogo e passarão a falar apenas de dinheiro: demissões, corte de investimentos, aumento dos preços. Resta saber se as autoridades e os consumidores cairão no logro.

Por enquanto, na dúvida, mantenho as provisões em dia.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

“Xingu”



Heróica realização de Cao Hamburguer e Fernando Meirelles. Não soa frio, didático ou mesmo grandiloqüente como alguns julgaram. Bem ao contrário. O academicismo narrativo tem lá sua coerência e deve muito ao estilo do diretor, além da natural precaução em não correr riscos sob situações adversas. O elenco impecável (especialmente João Miguel) é digno da grandeza histórica dos protagonistas.

O conjunto carrega um primor plástico levemente excessivo, distanciando-se do visual sujo, contrastado e fremente das loucuras amazônicas de Werner Herzog, referência que poderia ser mais valorizada. Mesmo esse naturalismo cheio de controles, porém, deixa transparecer as dificuldades físicas da filmagem, como se pusesse em destaque o esforço técnico necessário para domá-las. O ótimo blog da produção ilustra um pouco da árdua empreitada.

É desses projetos que encantam a cinefilia aventureira e comprovam a viabilidade cinematográfica de temas nacionais. Para alguém, como eu, que sempre sonhou em filmar a trajetória dos irmãos Villas-Bôas e de outros tantos personagens históricos do país, equivale a um sopro de esperança.

Quanto ao debate sobre desenvolvimento e preservação, muito oportuno e atual, resta a incômoda sensação de que ele permanece no mesmo estágio de 50 anos atrás.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

No lombo



Amanhã os paulistanos entrarão na maravilhosa era da tunga ambientalista. Milhões de consumidores surpresos serão obrigados a pagar R$ 0,20 para acondicionar cada conjunto de três ou quatro volumes, se não quiserem expô-los à chuva ou carregá-los em caixas infectas. A genial armadilha de lucratividade imediata renderá fortunas aos supermercados nos primeiros meses, e aos fabricantes de sacos de lixo para todo o sempre.

Àqueles que tiveram a sensatez de provisionar estoques de embalagem, fica um aviso de futurólogo: muitos estabelecimentos mobilizarão suas guardas privadas para reprimir ou dificultar a entrada de sacolas plásticas, sob alegação de combater furtos e a propaganda dos concorrentes. Estejam preparados também para a oportuna escassez de caixas e mesmo de opções recicláveis mais baratas.

Mas não acreditem no aparente bom-senso dos acomodados. O sonho dos mercenários é convencermo-nos de que não vale a pena brigar “por tão pouco”.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Provisão



Você acredita que o dano ambiental das sacolas plásticas foi exagerado para vetar sua distribuição gratuita e assim aumentar as vendas desses insumos? Economiza água, eletricidade e combustível, separa o lixo criteriosamente, escolhe produtos orgânicos, resiste ao consumismo desenfreado e afinal gostaria que seus esforços cotidianos pela preservação dos recursos naturais fossem devidamente reconhecidos? Cansou de ser lesado/a por superstições ecológicas que servem apenas para inocentar os verdadeiros poluidores e enriquecer os oportunistas que bancam lobbies nos parlamentos?

Então, meu caro consumidor, minha querida cidadã, se os legisladores ainda não obrigaram a venda de embalagens plásticas onde você mora, trate de provisioná-las antes que seja tarde. Em São Paulo, por exemplo, o arbítrio começa a valer em janeiro.

Mande às favas a consciência pesada: os políticos não estão de fato preocupados com o planeta – se estivessem, obrigariam a distribuição gratuita das ótimas sacolas retornáveis ou de embalagens reforçadas de papel, tratariam de investir na separação e na reciclagem do lixo e, principalmente, fechariam as indústrias que despejam toneladas de espuma fétida nos rios de todas as metrópoles. Não, políticos e supermercadistas só querem o suado larjã do contribuinte. E as pequenas contravenções que alimentarão seu estoque (se é que de fato podem ser consideradas irregulares) ajudarão a salvar o planeta como você tanto fez até agora e continuará fazendo.

Transforme a visita aos supermercados, quitandas e empórios numa batalha pela própria integridade pessoal. Preocupe-se apenas em ludibriar os vigilantes do estabelecimento. Para o lixo doméstico, prefira aqueles sacos transparentes destinados a frutas e legumes: possuem diversos tamanhos, adequados à lixeira de casa, e são mais fáceis de furtar. Pegue quantos puder, enchendo os bolsos, espalhando volumes. Um limão, um saco. Uma pêra, outro saco. Arranca, arranca, arranca, guarda tudo, arranca outro e só então mete nele uma batata. Nos caixas, insira cada pequeno objeto em sacolas separadas. Quando ninguém estiver olhando, surrupie um chumaço e enfie junto às compras.

Depois cuide do tesouro, sabendo que cedo ou tarde ele será item de contrabandista. Esteja atento a novas oportunidades. “Quer uma sacolinha?” Sim, sempre. Várias. Mesmo que pequeníssimas, pois haverá lixinhos no carro, no escritório, para o Lulu incontinente. E, bolas, todos precisamos carregar coisas em suportes com alças.

Talvez seja um paliativo para gastos inevitáveis, mas não deixa de representar alguma economia (cada saquinho pode custar R$ 0,50 no varejo), especialmente para quem possui famílias numerosas. E sempre restará o alento de contrariar, mesmo que por poucos meses, esses energúmenos que se apropriam das boas causas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pelo dia mundial sem demagogias inúteis



Fico imaginando o que faz alguém levar a sério essas datas que propõem abrir mão de hábitos cotidianos. “Dia sem carro”, “dia sem fumo”, “dia sem palavrão”. Dizem que as campanhas servem para conscientizar o povo. Mas do quê? Da absurda insuficiência dos transportes públicos? Das ciclovias inexistentes? Do ar putrefeito que dissemina enfisemas?

Insinuar que os proprietários de veículos sacrifiquem suas torturantes rotinas para alimentar uma fantasia urbanístico-ambiental só não é mais acintoso que o desrespeito a milhões de trabalhadores que diariamente andam como beduínos ou esperam quatro horas por ônibus lotados. Como se esta fosse uma opção moderna, antenada, cosmopolita. Aliás, como se fosse uma opção.

Se ficassem restritas a debates, autoridades sorrindo amarelo no metrô apinhado e legendas insignificantes nos calendários dos almanaques, as “comemorações” passariam incólumes e todos poderiam seguir suas vidas. Mas a prefeitura causa transtorno e confusão ainda maiores que os já vivenciados pelos motoristas, submetendo-os a uns cones mal-ajambrados e umas idéias de gincana infantil.

E a metrópole caótica responde da única maneira possível: tocando o horror.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Transitus interruptus



Publicado no jornal Correio Popular


Honrado senhor presidente da Emdec (*): parafraseando Rubem Braga, quem vos escreve é um desses desagradáveis sujeitos chamados “motoristas”. E, como tal, venho humildemente solicitar que o senhor determine a revisão do controle de tráfego na cidade, antes que ele caia no anedotário popular.

Basta um pouco de espírito investigativo para perceber que há algo muito errado com o modelo vigente. Operando sob programações equivocadas, os semáforos são mal coordenados entre si e com as velocidades máximas das vias. Cruzar os bairros movimentados virou um suplício de paralisia inútil diante de faróis intermináveis. A chamada “onda verde” sumiu das avenidas. No lugar de uma sucessão de cruzamentos livres que privilegie o tráfego em determinado ritmo, encontramos diversos pontos do percurso obstruídos. Quando a velocidade é contida pelos radares, os carros andam por uma ou duas quadras, param, esperam e novamente percorrem uma fração do caminho.

Guiar em Campinas é uma sucessão de expectativas frustradas, um “transitus interruptus” que agrava os congestionamentos, exige muito mais combustível e outros insumos veiculares (graças ao uso continuado da primeira e da segunda marchas), aumenta poluições diversas e eleva o risco de acidentes. Sim, é mais perigoso, pois os motoristas afoitos e indisciplinados que correm acima do permitido ou aceleram em sinais amarelos realmente conseguem apanhar os cruzamentos seguintes abertos.

O fenômeno pode ser proposital ou involuntário. Na primeira hipótese, um contribuinte dado a lucubrações conspiratórias poderia desconfiar do arranjo. Quanto lucram os distribuidores e postos de combustíveis com os arranques da gigantesca frota que circula em Campinas? E se um paranóico demonstrar que essas empresas realizaram doações milionárias para certas campanhas eleitorais? Não seria desconfortável?

Imaginemos, ao contrário dos maldosos, que inexiste método na bagunça. Que, apesar de toda a tecnologia desenvolvida para o setor, a Municipalidade ainda opera segundo os humores do acaso, num padrão maluco de casualidades. Sendo assim, não adianta comemorar os espasmos de fluidez do sistema, pois um desarranjo aleatório dos semáforos tende estatisticamente a gerar combinações positivas efêmeras. Estamos, portanto, fadados a uma loteria cotidiana, a um caos que acarreta prejuízos a parcelas imensas da população e dividendos generosos para um grupo seleto de felizardos.

Claro, podemos brincar de conjecturas. Não sabemos como poderia ser se assim não fosse, portanto é fácil afirmar que o modelo existente foi engendrado para evitar coisa pior. E tudo sempre pode ficar pior. O problema é que está errado, senhor presidente, e ninguém parece disposto a admiti-lo.

(*) Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas, responsável pela administração do trânsito da cidade

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um saco



Os fabricantes de sacos plásticos adoraram a idéia de proibir sua distribuição nos supermercados. O cliente que antes reutilizava as embalagens para transportar lixo e guardar coisas meladas agora terá de comprar quilos dos conhecidos “sanitos”. E estes produtos, que já são caríssimos, terão preço cada vez maior, por causa do aumento da demanda.

Como sempre, em nome de um difuso “interesse público”, inventa-se uma regra de eficácia duvidosa, jogando toda a conta para o contribuinte. Em vez de prever a distribuição gratuita de sacolas ecológicas, a lei obriga o infeliz a pagar absurdos se não quiser ter um pouco mais de trabalho para continuar fazendo o que sempre fez.

É por essas e muitas outras que a plataforma ambiental contribui para agravar os problemas que pensa (ou diz que pensa) combater.

sábado, 5 de março de 2011

“Comprar, descartar, comprar”



Sabe aquela impressora que deixa de funcionar de uma hora para outra? E aquele tocador de mp3 que vai falhando até morrer com o mesmo tempo de uso do anterior? E a lâmpada que simplesmente queima ao ligarmos? O nome disso é “obsolescência programada”.

Este belo documentário espanhol analisa o fenômeno das coisas fabricadas para durar um tempo determinado. Assisti no Diário Gauche e fiquei fascinado pelo assunto. É uma boa reflexão para o carnaval.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pena



As chuvas de pássaros mortos que ocorreram nos EUA e na Suécia fornecem vastos materiais para as imaginações cinematográficas. Certamente há espertalhões que já registraram a idéia para um enredo de filme ou até mesmo de seriado hollywoodiano.

Só poderiam fazer a gentileza de manter M. Night Shyamalan fora do projeto. Se deixarem, ele pega.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A soberania das Malvinas



Publicado na revista Caros Amigos, em novembro de 2010.

Continua o imbróglio em torno das ilhas Malvinas, que os colonizadores britânicos chamam Falklands. A imprensa internacional, especialmente a brasileira, esforça-se para abafar as implicações econômicas e ambientais do impasse, tratando-o como teimosia nacionalista, subproduto da ditadura, excentricidade da família Kirchner. Enquanto isso, transnacionais como a Repsol-YPF e a British Petroleum (a mesma que causou a tragédia no Golfo do México) unem esforços para controlar a exploração de petróleo em águas argentinas.

O argumento de que a minúscula população do arquipélago prefere viver sob jugo europeu vale quanto a platéia estiver disposta a pagar. É fácil adaptar noções de soberania às conveniências dos envolvidos. Toda reivindicação autonomista carrega prerrogativas transcendentes, do Tibete à Caxemira, do Tamil Eelam ao Curdistão. Até a Scalzillândia ganha ares sacros e humanitários, dependendo da boa-vontade do orador.

Mas, curiosamente, esse apelo não serve para pressionar potências econômicas a ceder seus territórios. Respeito à democracia é bom só nos olhos dos outros. Plebiscitos no Havaí ou no Alasca jamais seriam suficientes para corroborar a emancipação desses territórios. A Bélgica ignora os apelos internos para cindir o país nos limites da Valônia e de Flandres. A própria Inglaterra não esteve preocupada com a escolha dos norte-irlandeses, quando espalhava suas barbaridades pela colônia. Rússia e Espanha são poderosos inimigos da independência de Kosovo, aquela depois de causar um pequeno holocausto na separatista Tchetchênia e a segunda preocupada em conter a incômoda rebeldia basca.

Nem sempre (raramente?) o critério histórico é compatível com o das aspirações populares. Dilemas dessa natureza só se resolvem diplomaticamente, contemplando todos os antagonistas, sob aval e vigilância da ONU.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Belo Monte


A sociedade brasileira precisa aproveitar o imbróglio envolvendo a usina de Belo Monte para discutir um projeto de desenvolvimento que atenda às necessidades do país.

É bastante razoável questionar a intermediação do movimento ambientalista nesse debate. O PV, quando não trabalha para a campanha presidencial de Marina Silva, opera em sintonia com a oposição conservadora que tenta eleger José Serra. Há ONGs estrangeiras ou financiadas por capital estrangeiro que utilizam comunidades indígenas como massa de manobra de interesses obscuros.

Quem controla essas organizações? Por que jamais se mobilizaram com tanto afinco para impedir os danos ambientais causados pelo Rodoanel em São Paulo? Como pretendem suprir as demandas energéticas de um território continental? Com moinhos de vento? Usinas nucleares? Onde? No mar?

Enquanto não tiverem respostas convincentes para tais perguntas, a obstrução de projetos que atendem ao interesse público será apenas antidemocrática. Belo Monte, em si, pouco importa. É apenas outro plano infra-estrutural do governo Lula que a imprensa politizada ajuda a desmoralizar. Em escopo mais amplo, reflete uma estratégia dissimulada para manter a população dessa grande reserva natural atolada em carências medievais e refém de oportunistas.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Lições da tragédia


Politização e sensacionalismo contaminaram as análises sobre os desastres provocados pelas chuvas no Sudeste.

Caso São Paulo não fosse governado por José Serra, haveria um escândalo perante o despreparo material da Defesa Civil e dos Corpos de Bombeiros no atendimento imediato às vítimas. Não se trata de incompetência das corporações, mas de negligência administrativa: as cidades ribeirinhas do Estado estavam e continuam entregues às próprias sortes. Também seria a última vez que esses governantes descarados escapariam de fornecer satisfações sobre as fortunas incalculáveis empenhadas nas obras das marginais paulistanas.

As autoridades fluminenses são historicamente omissas na questão das moradias irregulares. Elas preferem assistir ao martírio dos desvalidos a agir com o rigor da legalidade, politicamente desgastante. É óbvio que as famílias alojadas em situação periclitante precisam ser removidas. Como sugerir pretexto “social” para manter seres humanos pendurados em precipícios, à mercê de temporais?

A sociedade precisa reagir à hipocrisia surpresa dos governantes. Ninguém esperava que aqueles casebres de papelão, montados nas enlameadas encostas de morros íngremes, fossem obedecer à lei rudimentar da gravidade? O que as oligarquias conservadoras que dominam São Paulo há quase três décadas fizeram para prevenir o alagamento das ruas da capital, salvo reclamar da atmosfera?

Não se iludam: no ano que vem, as chuvas voltarão. E as verdadeiras responsabilidades passarão incólumes, novamente, até nova mortandade.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A tragédia chique


Está em curso uma operação midiática para elevar o Brasil à primeira divisão das grandes catástrofes naturais. O fim do mundo chegou a nosso privilegiado território.

Quando a imprensa conservadora precisa menosprezar as pretensões internacionais do país, finge que as periferias abandonadas são exclusivas do nosso subdesenvolvimento congênito. Afinal, é ruim passear na avenida Champs-Elysèes imaginando que a alguns quilômetros dali os pobres tombam carros e incendeiam lojas. Agora que as enchentes literalmente chegaram ao bumbum do governador José Serra, o noticiário se esgoela para mostrar que até no mundo civilizado, oras bóias, esses percalços acontecem.

Mas a mentira possui uma face hilariante. A necessidade de propagar os efeitos das nevascas já comprovou que o chamado “apagão aéreo” é contratempo de abrangência planetária, comum nos países desenvolvidos, e não uma característica da petelândia, como queria a indignada mídia paulista. Outro problema é recorrer a exemplos de um século atrás para provar que, afinal, não estamos tão atrasados assim...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Réquiem para Copenhague


Publicado no Amálgama, em 15 de dezembro.

Terão esses jovens privilegiados uma vaga idéia de quão genérica, imponderável e distante é a plataforma pela qual se mobilizam ferozmente? Saberão que fazem parte de uma encenação cujos antagonistas, estranhamente complementares, servem apenas para conferir estatuto oficioso aos tradicionais documentos inofensivos, com os mesmos compromissos vagos?

Não se trata de menosprezar um problema escancaradamente grave e ameaçador. Mas a intransigência unidimensional do discurso ambientalista, que vê interesses corporativos em qualquer questionamento, provoca uma reação contrária de ceticismo. Parece fácil demais assimilar esse fatalismo apocalíptico de causas difusas e responsabilidades generalizadas, tão adequado a tempos conservadores e cínicos. A era da ditadura da longevidade encontrou sua pregação messiânica de apelo coletivo.

Mesmo leigos, percebemos que há muitas lacunas técnicas nas previsões do aquecimento global. Os enormes custos sociais e econômicos envolvidos na sua prevenção (e não apenas para os países emergentes) são sistematicamente desprezados. Ninguém tampouco menciona o poderosíssimo lobby ávido pelos dividendos resultantes do mercado de carbono e de novas fontes energéticas. Ou Al Gore trabalha de graça?

A abrangência planetária do problema dissimula sua responsabilidade localizada em alguns poucos países industrializados, que dão bananas para o que pode acontecer a uma ilha no Pacífico. Acontece que são também as maiores potências geopolíticas deste mundinho doente, e é preciso um fabuloso otimismo para acreditar que, podendo sanar tantos absurdos cotidianos perpetrados contra a Humanidade, elas escolham justamente uma causa remota e onerosa para inaugurar sua solidariedade.

Talvez o cidadão de classe média sinta conforto espiritual em tomar banhos curtos, separar lixo nos recipientes do condomínio ou o que mais acredite (às vezes ilusoriamente) servir para amenizar danos ambientais. Mas os esforços de uma vida inteira são ridiculamente inúteis comparados com o malefício causado em algumas horas por aquela fábrica poluidora que ignoramos no caminho de casa.

É preciso estabelecer de uma vez por todas que as soluções relevantes passam exclusivamente por ações governamentais, ou seja, dependem de legitimidade popular. Isso significa, em contexto democrático, respaldo eleitoral. Já que não convém manchar o salvacionismo climático de veleidades autoritárias, seria interessante verificar se as pessoas realmente concordam em sacrificar prioridades urgentes em benefício de um futuro já bastante incerto, com ou sem calotas polares.