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sexta-feira, 25 de julho de 2025

O preço da conciliação

 

Os seis anos de regime lavajatista foram dedicados à inviabilização de futuros projetos de poder da esquerda. Fizeram parte da estratégia o ataque ao legado programático do lulismo e a manutenção da hegemonia dos conspiradores de 2016 e 2018.

O segundo objetivo, incorporado pela astuciosa fobia à polarização, teve maior eficácia. Lula está cercado por inimigos de outrora, tanto nos ministérios que precisou lotear entre golpistas quanto nos parlamentares “aliados” que sabotam seu governo.

Tudo isso administrando os retrocessos irreversíveis do golpe e toureando a indignação resultante. Eis a cláusula diabólica do pacto conciliador: Lula responde por uma ruína cujos autores o parasitam. E só pode amenizá-la sacrificando agendas progressistas.

Esses fatos não o isentam de responsabilidades. Sua teimosa ortodoxia amiúde leva a um conservadorismo arcaico, improdutivo e desmobilizador. A obsessão frenteamplista reduz a esquerda a “centrinho”, assessório da direita, apartado das bases históricas.

Mas é tolice afirmar que Lula poderia ter realizado alguma coisa antagonizando com três quartos do Congresso desde o início da gestão. Ou, pior, que o inevitável desastre dessa loucura fosse positivo, capaz de levantar o povo em defesa dos valores socialistas.

O ônus da pacificação não envolve a tal governabilidade. Envolve a baixa aprovação a Lula, inferior ao que seria razoável esperar de seus índices sócio-econômicos e de seus afagos a setores ideológicos majoritários no país. É essa conta que não fecha.

As pesquisas mostram os eleitores cada vez menos predispostos a valorizar o combate à miséria, a responsabilidade fiscal e o discurso apaziguador de Lula. A oposição cresceu, radicalizando-se, enquanto o governo fazia de tudo para não confrontá-la.

A fatura da conciliação já estava sendo paga muito antes da crise do IOF. A harmonia entre as curvas da rejeição a Lula e as de evangélicos, por exemplo, vem de longe. E espelha o predomínio dos herdeiros midiáticos e institucionais do golpismo lavajatista.

As circunstâncias que impuseram os acordos com o “direitão” fisiológico demandavam também um plano para reduzir seu alcance popular em curto prazo. No mínimo através de contrapontos oficiais aos valores obscurantistas disseminados por esse grupo.

A monologia sectária da extrema-direita, ajudada pela manipulação das redes digitais, abalou os benefícios eleitorais da cautela governista. A ponto de Lula ser demonizado por bandeiras que rejeitava exatamente para não atrair o repúdio dos conservadores.

Não surpreende que, sob ataque tarifário dos EUA, a mídia corporativa esteja clamando pela moderação do governo. Todos ali sabem que a imagem de Lula melhora quando ele assume posturas combativas, desestabilizando as bolhas do extremismo fascista.

Mas a oportunidade embute uma armadilha. Patriotismo sem politização é apenas um elo na corrente reacionária. Cabe aos governistas impedir que o imperativo da prudência diplomática se transforme, de novo, em esteio dos parasitas da democracia.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Lula falou e disse



Lula às vezes comete erros falando de improviso. A maioria deles é irrelevante e serve apenas para o comentarismo de direita marcar posições letradas e “corretas” que aliviem seus hábitos peçonhentos. A repercussão dura pouco e nada produz.

Nos casos incômodos, a forma ruim prejudica um conteúdo louvável. Foi o que ocorreu na recente declaração sobre Gaza. Lula deveria ter sido mais cauteloso para abordar o tema, nas atuais circunstâncias, independentemente de seus bons propósitos.

Mas os rigores sisudos que valem para sua opinião valem para a opinião dos críticos. É fácil refutar enunciados inexistentes. O contrário do que Lula não afirmou pode ser inquestionável e não ter relevância alguma no debate. Sejamos, então, rigorosos.

Lula não citou o Holocausto, menos ainda o associou a Gaza. Não sugeriu que todo judeu é israelense. Não poupou o terrorismo. Não relativizou os campos nazistas de extermínio. Não menosprezou a dor de milhões. Não igualou bombas a câmaras de gás.

O único paralelo feito por Lula envolveu Hitler e Netanyahu. De modo mais literal, os massacres de Gaza e um embreante cronológico indeterminado (“quando Hitler resolveu matar os judeus”), remetendo a decisão necessariamente anterior ao Holocausto.

Do projeto ignominioso de Hitler à sua obra nefasta muita coisa ocorreu. A omissão da comunidade internacional, por exemplo, metida em polêmicas inúteis sobre como qualificar o óbvio. E o cinismo dos apaziguadores que tripudiavam dos “alarmistas”.

Sim, logo adveio o Holocausto. Mas quem recusa reflexões alusivas às suas origens nega-lhe a historicidade que o torna irrefutável e que o legitima como referência para as gerações atuais. Os massacres de todas as épocas têm algo em comum.

Curioso é ver analistas “democratas” reagirem à denúncia misturando o discurso de Netanyahu com relativizações semânticas de seus crimes. Diante de um genocídio bárbaro, apoiado pelos EUA, o problema foi Lula abominá-lo mencionando Hitler.

Em outra lógica tortuosa, a imparcialidade se confunde com equivalência grotesca. Seu raciocínio condena Netanyahu e Lula igualmente, admitindo o morticínio deliberado “mas” rejeitando também as palavras de indignação. É uma escolha muito difícil.

Ainda que o próprio Lula endossasse as leituras adotadas, continuaria sendo ridícula a interpretação automática, negativa, de seu apelo humanitário. A intuição de garimpar vestígios antissemitas em desabafo que pedia solidariedade por civis inocentes.

Tudo que a celeuma produziu foi a consolidação da imagem de Lula como defensor de uma causa justa. No polo oposto, um aliado de Bolsonaro o substitui no papel de "vilão útil" da direita midiática. O tom religioso das análises não deveria causar surpresa.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Neonazistas do bem



A solidariedade incondicional pela Ucrânia faz parte da imagem positiva que os aliados exibem para plateias internas e externas. As aparências são tênues, contudo, e exigem o silenciamento dos debates que possam revelar suas contradições.

O maior desses embaraços vem do neonazismo ucraniano. O esforço para subestimá-lo envolve até acadêmicos e jornalistas respeitáveis, segundo os quais as milícias são poucas e esparsas, parecidas com núcleos “ultraconservadores” de diversos países.

Pois estão mentindo. O documentário “Máscaras da Revolução”, do insuspeito Canal + francês, mostra que o neonazismo da Ucrânia é nazista mesmo e se organiza em vastos contingentes militarizados. Não há fenômeno similar nas potências ocidentais.

Eis a vergonha bloqueada pelo uníssono midiático internacional: os EUA e a Europa repassam fortunas bilionárias e imenso poderio bélico a milhares de neonazistas. Como fizeram com o jihadismo afegão, fomentam a barbárie com a desculpa de combatê-la.

Decisivo na resistência aos invasores, absorvido pelo exército e mais poderoso do que nunca, o neonazismo terá destaque inevitável no futuro governo. Então nascerá outro celeiro fascista na Europa, dando-lhe o pior triunfo geopolítico que ela poderia almejar.

Mas nenhum efeito negativo da insensatez supera os crimes de guerra ucranianos, que desde já exibem as marcas inconfundíveis das quadrilhas nazistas. Massacres e torturas realizados com dinheiro e armamentos fornecidos pelas democracias humanitárias.

A adesão imediata à censura mostra que os custos da parceria miliciana, como o próprio conflito, foram antecipados. Governos e mídia corporativa bloquearam a divulgação desses riscos, garantindo que ninguém ousasse prevenir suas óbvias consequências.

Os novos macartistas alegam refrear apologias aos delitos russos, mas de fato visam blindar a causa ucraniana. O perigo vem da rejeição pública à mera hipótese de fortalecer o nazismo, não importando o número, a origem ou a serventia dos imbecis.

Uma coisa é refutar a narrativa cínica de que os neonazistas justificam a invasão. Algo muito diverso, porém, é tomar o exemplo do imperialismo de Hitler como pretexto para um endosso conveniente à sua ideologia. Esse discurso vai além da estratégia militar.

O problema não envolve a índole de Putin, a judeidade de Zelensky ou a democracia liberal ucraniana. Envolve, sim, o uso desses argumentos banais para desviar o foco da naturalidade com que o Ocidente esnoba os valores civilizatórios que afirma defender.

A normalização da ideia de que há neonazistas inofensivos é sintoma de uma patologia moral. Seu diagnóstico ajuda a iluminar as estruturas subjetivas e institucionais que têm viabilizado o avanço do extremismo, a despeito dos hipócritas apelos contrários.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Polyana investigadora
















Dá para imaginar o escândalo que haveria se o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato fizessem cursos e reuniões na Rússia ou na Venezuela antes de arrasarem a Petrobras. Gigantes petrolíferos ajudando a destruir a concorrência brasileira? Então. Com os EUA é “cooperação internacional”.

Espionagem? Conspiração? Depende da maneira como definimos tais atividades. Ou melhor, do grau de credulidade que abraçamos para embalar nossa ilusão de autonomia e segurança. Quase toda ação escusa tem uma fachada legítima que satisfaz os ingênuos.

Claro, soa insensato embaralhar os verdadeiros deslizes éticos de Moro com suspeitas afins. No imaginário diplomático, ele seria um péssimo candidato à cooptação. Além de excessivamente visado, nutre visão messiânica e idealista do seu papel. E tem motivações ideológicas já alinhadas à agenda estadunidense.

Ao mesmo tempo, é muita ingenuidade ignorar os elos geopolíticos da desmoralização de algumas das maiores empresas do país, com negócios planetários em áreas estratégicas para as potências financeiras. E é simplesmente estúpido achar que desmontes desse tipo são fenômenos gratuitos no inescrupuloso universo do empresariado transnacional.

Podemos até acreditar que a Lava Jato serve “apenas” como instrumento manipulado por interesses poderosos, em troca do seu próprio sucesso no âmbito doméstico. O problema está no pacote de versões oficiais, bem menos convincentes, que dão suporte à hipotética inocência dos nossos berlusconis.

Por exemplo, a tese de que o profissionalismo, a força material e o respaldo midiático do movimento pelo impeachment nasceram de ações espontâneas e desarticuladas, embora seus líderes tenham ligações com obscuras companhias norte-americanas. Também a de que o cargo de ministro das Relações Exteriores de José Serra não tem nada a ver com seu projeto que abre o pré-sal à exploração estrangeira. Ou com os policiais federais que vazaram os sigilos da Lava Jato.

Será que as teorias conspiratórias nascem da quantidade de coincidências estranhas em torno do mesmo fenômeno, ou do desprezo geral por esses sinais? Precisaríamos mesmo de documentos governamentais para saber que os EUA participaram do golpe militar de 1964? Sem o Wikileaks ninguém imaginaria que a Casa Branca espiona mensagens eletrônicas de governos, empresas e cidadãos?

A lista dessas “descobertas” tardias ocuparia compêndios. As nódoas comuns a todos os seus episódios são a covardia da imprensa dita investigativa e o descrédito público dos paranoicos que levantaram as perguntas que ninguém ousava formular.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Rescaldos da tragédia

















Apesar da perplexidade e da desinformação, podemos antever certos desdobramentos narrativos da infâmia parisiense. Mais especificamente, as versões que não merecem o endosso de observadores críticos.

No flanco esquerdista, o desprezo cínico pelas vítimas e os argumentos geopolíticos de justificação da violência. O extremismo islâmico é inaceitável sob todos os aspectos. Não há “choque de cultura”, guerra ideológica ou relativismo pós-modernoso que faça a barbárie parecer aceitável numa circunstância e deplorável em outra.
           
Na vertente direitista, a comoção romântica diante do paraíso civilizatório ameaçado. A situação dos direitos humanos, a realidade social e a competência do Poder Público na França são muito piores do que disseminam a propaganda turística e o provincianismo ignorante. Uma incrível cadeia de abusos e incompetências estatais primeiro gerou e depois agravou o massacre parisiense. Os terroristas eram (são) franceses.

Por fim, no comentarismo falsamente equilibrado, o ranço elitista da indignação seletiva. A diferença das reações geradas pela chacina de “nossos semelhantes” em lugares chiques de Paris e pelo banho de sangue no botequim da periferia paulistana revela um componente ideológico que nada possui de humanista. Alguém que aceita os policiais carniceiros de Geraldo Alckmin não pode exigir punições exemplares para os terroristas muçulmanos.

Como combater a intolerância e a barbárie sem transformá-las em instrumentos desse mesmo combate? Por que os mais avançados sistemas de inteligência do planeta são incapazes de prevenir ações de tamanha envergadura? O que os atentados ensinam sobre o controle de armas, a corrupção de agentes públicos, o tratamento aos imigrantes e as estratégias intervencionistas das potências militares mundiais?

Nenhuma das perguntas tem resposta fácil, e nem deveria ter. Se as enfrentássemos com honestidade e coragem, no entanto, em vez de fazermos especulações rasteiras, as mortes de Paris não seriam totalmente vãs. Enquanto nos iludimos com homenagens, condolências e exibicionismos nacionalistas, alguém está preparando o próximo ataque.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Perderam a noção do ridículo






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A viagem dos senadores demotucanos à Venezuela, com suas patuscadas amadorísticas, incrementa o repertório de vergonhas alheias protagonizadas pela oposição. A comédia ganha um ar melancólico, porém, quando lembramos que ali estavam pessoas que pretendem governar o país.

Nem precisávamos usar a memória. Tudo foi típico de uma encenação para filme televisivo de campanha eleitoral: a fila de parlamentares engravatados, avançando como trupe de banda roqueira, mártires das nobres causas, indignados, convictos, sitiados pelos zumbis carnívoros.

E jornalistas diplomados contribuem para criar o efeito documental da palhaçada. Sem o apoio da mídia corporativa, os heróis pareceriam apenas uns patetas fujões criando factoide com dinheiro público. Pobrezinhos, pegaram congestionamento, foram “hostilizados” e tiveram de voltar correndo!

Gargalhadas à parte, há um sério risco na gradativa naturalização dessas excrescências caricatas. Acostumando-se a tolerar os fanfarrões, o eleitorado adota a imbecilidade que eles promovem. E o ridículo vira modelo de propaganda.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Vendetta


















A imprensa corporativa tenta fazer da extradição de Henrique Pizzolato um aval dos painhos europeus à farsa justiceira de Joaquim Barbosa. É fácil perceber a fragilidade da versão e o nível do jornalismo que a endossa.

A decisão retalia a negativa brasileira em deportar Cesare Battisti. O caso constrangeu o governo italiano, ferido no orgulho nacionalista e na imagem de lisura das suas instituições judiciais. O troco viria na melhor oportunidade, e não é demasiado supor que a captura de Pizzolato rendeu esforços dobrados para servir a esse propósito.

Paradoxalmente, devolver o embaraço ao Planalto exigia certa violação do princípio diplomático da reciprocidade. Tratado lá como Battisti foi aqui, Pizzolato ficaria na Itália. E mancharia ainda mais a sanha condenatória do STF no tal “mensalão” petista, admitindo a dúvida cruel acerca de um julgamento viciado.

O grande estímulo da retaliação é causar desconforto na sociedade brasileira pelo governo Dilma não seguir o exemplo, recusando-se a deportar Battisti. O fato de os italianos atingirem esse objetivo contrariando hábitos e normas das relações internacionais e usando a justificativa de “virar a página” prova a malícia do gesto.

A luta do nosso Ministério Público para servir como instrumento de vingança geopolítica estrangeira é um retrato da esquizofrenia institucional que abala o Judiciário. O aplauso acrítico da mídia sugere até onde isso pode chegar.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Gigantes sanguinários

 

As sanções de EUA e Europa contra a Rússia, anunciadas em pleno massacre de civis palestinos, relevam todo o cinismo da diplomacia ocidental.

Por um lado, servem de manto propagandístico que encobre a nova ofensiva da tática dos fatos consumados que Israel utiliza há décadas para inviabilizar a divisão da Palestina em dois Estados.

Por outro, usam de maneira brutal e oportunista as tragédias ucranianas para desqualificar um movimento separatista que em outros lugares seria visto como legítimo e democrático. E forçam uma radicalização ainda maior do governo Putin.

O Brasil pode até ser o “anão diplomático” mencionado pelo porta-voz israelense, mas seu governo pelo menos não bombardeia escolas e hospitais, e tampouco incentiva a histeria e a violência para ganhar uns trocados eleitoreiros.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tipicamente americanos
















Numa entrevista remota, Caetano Veloso criticou a expressão “estadunidense” como referência ao que é natural dos EUA. Muita gente considera a palavra pedante e até xenófoba. Seria preferível usar “americano”, de uso consagrado e assimilação imediata. Mas o problema ultrapassa o âmbito vocabular.

Nas suas mais antigas aparições, o topônimo América se referia a uma porção territorial do que seria depois o Nordeste brasileiro. O termo foi apropriado pelos articuladores da independência dos EUA, mais de duzentos anos depois, e serviu como base para o imaginário do Destino Manifesto, a missão civilizadora do país no continente. O lema “A América para os americanos”, que fundamentava as pretensões imperialistas da Doutrina Monroe (1823), consagrou a associação com viés inconfundível e duradouro.

Algum paralelo com outras nacionalidades realçaria quão presunçosa e artificial é a apropriação, mas ela não possui equivalentes modernos de uso disseminado – por exemplo, querer que “europeus” signifique especificamente os franceses ou “asiáticos” os chineses. Esses absurdos hipotéticos insinuam o alcance que a maleabilidade terminológica poderia atingir. Se tecnicidade geográfica de tal importância é dispensada como preciosismo desnecessário, não haveria motivo para respeitar a exatidão em qualquer caso.

Aliás, é curioso como os artífices da clareza politicamente correta sabem tolerar as generalizações que lhes convêm. Os chamados “povos nativos”, além deste cuidadoso rótulo genérico, são identificados pelos ramos étnico-lingüísticos que os distinguem do contexto populacional majoritário. Quando se trata de “americanos”, esse purismo desaparece, com um agravante: o direito à auto-designação de um povo anula o mesmo direito de outros povos.

Qual o sentido de negar a quase um bilhão de pessoas, nascidas em mais de 30 países, o direito de se identificar com o continente que habitam? Por que fingir que os EUA não compartilham as formações históricas e culturais de outras nações? Será pela vergonha de possuir as mesmas origens que alguns dos países mais pobres e explorados do planeta? Ou será por vergonha de toda análise geopolítica advinda do conhecimento da História desses povos?

E, principalmente, por que usar uma palavra com tamanha fragilidade semântica, e que serve à ilusão de superioridade e à afirmação de um nacionalismo embevecido por delírios agressivos de hegemonia?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A crise da crise














A eleição de Roberto Azevêdo para comandar a Organização Mundial do Comércio é o maior triunfo internacional do governo Dilma Rousseff e um dos mais importantes da história da diplomacia brasileira. Também possui um valor simbólico relevante, ao derrotar a candidatura apoiada em bloco por EUA e países europeus, e suas iniciativas no sentido de enfraquecer o multilateralismo no comércio mundial.

A imprensa corporativa silencia a respeito de ambos os aspectos. Principalmente porque os apocalípticos analistas econômicos, sempre ávidos em anunciar a catástrofe brasileira iminente (e jamais constrangidos a explicar seus reiterados equívocos nesse aspecto), precisariam admitir os desdobramentos geopolíticos da crise financeira que abala os chamados “desenvolvidos”. Em poucas palavras, o isolamento das potências mais alinhadas ao neoliberalismo predatório que norteia os projetos conservadores locais.

O caráter regional do desastre incomoda o provincianismo colonizado que procura globalizá-lo a todo custo. A bem-sucedida estratégia brasileira de resistência ao colapso, além de não seguir a cartilha especulativa do colunismo econômico, irrita-o ainda mais quando recebe o consagrador reconhecimento de um bloco outrora alinhado aos atuais protagonistas da bancarrota.

É questão de tempo e oportunidade para o fantasma da inflação voltar ao noticiário com ódio renovado.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Chávez renasce















Considerando as bobagens proferidas na imprensa a respeito de assuntos políticos bastante próximos e atuais, é compreensível que a cobertura internacional chegue a níveis fictícios. Mas a demonização de Hugo Chávez ultrapassa critérios básicos de razoabilidade que justifiquem algum esforço argumentativo.

Compartilho e entendo a repulsa por líderes fardados de qualquer inclinação. Mas esse aspecto ocupa lugar muito secundário nas manifestações da direita hidrófoba, cujos argumentos, quando legíveis, poderiam servir para criticar quase todos os governos do planeta. Mesmo a insistente denúncia do suposto caráter autoritário do chavismo é acompanhada por um sabujo silêncio a respeito dos mecanismos institucionais de controle da mídia em vigor nas mais antigas democracias.

As peculiaridades que sempre fizeram de Chávez um espectro assustador para certas elites brasileiras não morreram com o ex-presidente. Na verdade, sua força ganha novos sentidos e maior perenidade a cada rompante ideológico daqueles que tentam distorcê-lo. Uma entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães, um artigo de Pablo Escobar e um depoimento de George Galloway fornecem ótimos contrapontos a essa mistificação.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Uma segunda Guerra Fria?



A diplomacia internacional observa com cautela a mais recente troca de vitupérios entre EUA e Irã. O que diferencia as circunstâncias atuais é o calendário eleitoral estadunidense, que poderia exigir uma demonstração de pulso da administração Barack Obama para neutralizar a eterna propaganda republicana a favor do intervencionismo.

Obama já demonstrou que continua refém de interesses ligados à indústria da guerra, essa macabra fonte de riquezas que abarcam desde a tecnologia extremamente avançada até o escoamento de combustível para imensas regiões populacionais estratégicas. E o lobby israelense, que tem uma força descomunal em Washington, acompanha a gradativa animosidade do gabinete belicista de Benjamin Netanyahu.

Mas por enquanto não parece haver motivos para o catastrofismo de alguns. O discurso agressivo da imprensa dos EUA e de Israel não encontra eco nas pesquisas de opinião realizadas junto aos respectivos eleitorados. O abandono do Iraque pelas forças estadunidenses também serviu para esfriar o ímpeto guerreiro de Netanyahu, que perdeu assim uma importante base para eventuais ataques ou invasões ao Irã. As turbulências na Síria (fadada a um ataque iminente), na Líbia e no Egito e as convulsões latentes em quase todo o mundo árabe levaram as potências européias a uma postura de apreensiva expectativa que está longe da ação militar ostensiva.

Ademais, Obama e seus aliados jamais entrariam numa guerra de resultado incerto contra um inimigo da força humana, material e política do Irã. Eles sabem que China e Rússia fariam oposição ferrenha a agressões contra um território de tamanho valor geopolítico. Uma constelação de republiquetas e tribos militarizadas abriria inúmeros focos de conflitos regionais que se espalhariam além dos limites da África e da Ásia. Na combalida Europa, com seu crescente antiamericanismo e suas largas populações imigrantes, a própria reação popular tomaria rumos imprevisíveis.

Como nos turbulentos anos posteriores à II Guerra Mundial, o cenário remete a um conflito de proporções planetárias que ninguém está preparado para enfrentar. Nem a suposta “ameaça” de um arsenal nuclear iraniano soa grave o suficiente para fazer de Obama, Netanyahu, Nicolas Sarkozy e Vladimir Putin os primeiros genocidas do novo milênio.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os bárbaros chegaram



As imagens do linchamento de Muammar Gaddafi comprovaram o acerto da prudência diplomática brasileira perante a ação da Otan na Líbia. Repetindo o velho roteiro intervencionista, os EUA e as potências européias utilizaram a supremacia bélica para aniquilar um governo outrora aliado e para dominar um país destruído pela guerra civil. Em pleno século vinte e um, sob o silêncio cúmplice da comunidade internacional.

A propaganda legalista de Hillary Clinton não engana ninguém. A única diferença da simples invasão militar, nos moldes iraquianos, é que seus objetivos diretos foram alcançados por intermediários locais. Sem os bombardeios maciços, as doações de armamentos e a infiltração de mercenários estrangeiros, os assim chamados “rebeldes” seriam trucidados pelo exército líbio. É o que ocorre na Síria e no Iêmen, onde Washington permite que os respectivos ditadores usufruam a soberania nacional.

A terceirização da selvageria não torna o Ocidente menos responsável por ela. A execução desumana e extrajudicial de Gaddafi simboliza a degradação moral de seus inimigos, rebaixados ao nível da monstruosidade que dizem combater. É fácil aplaudir sacrifícios públicos de tiranos sanguinários, mas isso não significa vencê-los de fato. Gaddafi junta-se à companhia de Benito Mussolini, Nicolae Ceausescu e outros cadáveres ilustres que simbolizam a permanência da barbárie nas entranhas da rica e desenvolvida civilização moderna.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A última vitória de Bin Laden



Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, algumas análises apontaram que a melhor reação ao terrorismo islâmico era negar sua essência genocida e autoritária, fortalecendo as instituições republicanas e os organismos internacionais, apostando na legalidade e na tolerância. Afirmava-se que a transformação dos EUA e de seus comparsas em regimes conduzidos pelo barbarismo vingativo significaria o verdadeiro triunfo de Osama Bin Laden. Incapaz de vencer as potências militares através da ação direta, ele contaminaria os inimigos com um vírus autodestrutivo que os abalaria não física, mas culturalmente.

As previsões concretizaram-se. As democracias mais desenvolvidas do planeta foram arrastadas para um ciclo vicioso de invasões ilegítimas, guerras sanguinolentas, ocupações irremediáveis, Estados de exceção, violações dos Direitos Humanos, paranóia, mentira. O império viu-se derrotado no front ideológico (a pretensa missão civilizatória) e no da segurança objetiva. Não erradicou a ameaça terrorista nem evitou que milhares de seus jovens fossem mortos ou feridos em combate.

Triste fim para a fantasia do Destino Manifesto que moveu os pioneiros da independência estadunidense. Bin Laden sai de cena (ou sua imagem passa a atender outras conveniências de Washington) deixando um retrato inesquecível da decadência moral dos EUA. E certamente há algo de melancólico na figura de Barack Obama, negro, democrata e Nobel da Paz, chamando tortura e fuzilamento de “justiça”, ordenando um assassinato extrajudicial, violando em segredo a soberania de um país aliado, ocultando provas de uma execução e tentando enganar um planeta incrédulo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Timing



Na pior das hipóteses, o anúncio da morte de Osama Bin Laden é uma farsa equivalente àquelas fotografias de tubulações que os EUA usaram para justificar a invasão do Iraque. Se o anúncio for ao menos verdadeiro, significará que o Pentágono agiu de novo segundo conveniências políticas, aproveitando os primeiros movimentos do calendário eleitoral para “descontinuar” outro de seus antigos colaboradores.

Por que justo agora, quando o Wikileaks expõe o caráter despótico do governo, quando as forças “pacificadoras” da ONU chacinam os familiares de um chefe de Estado e quando o cinturão de ditaduras financiadas pelos EUA para proteger Israel começa a balançar? Porque o momento exige uma escalada paranóica e xenófoba que ajude os EUA e as potências aliadas a recuperarem seu destaque na arena geopolítica.

Depois de todas as dúvidas suscitadas pelo 11 de setembro, os mercenários de Barack Osama, digo, Obama podiam fazer alguma força para deixar suas versões mais plausíveis. Essa história de jogar o presunto do supervilão no oceano e vir com testes de DNA e fotos de um barbudo cheio de furos, convenhamos, soa bem fraquinha.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Mais sangue por petróleo



Basta lembrar o histórico recente de ações e omissões da ONU para desconfiar das análises que defendem os bombardeios à Líbia. As forças de segurança agem, agora como antes, de acordo com os anseios geopolíticos das potências econômicas mundiais. A preocupação humanitária não foi capaz de mobilizá-las contra o genocídio em Ruanda, por exemplo. As dezenas de ditaduras “aliadas” jamais provocaram os valores democráticos da polícia mundial. As populações de países pobres em riquezas minerais continuam abandonadas à própria sorte, não importando a virulência de seus governos.

A abstenção brasileira na sessão que aprovou o ataque foi correta porque demonstrou que nossa diplomacia está ciente dessas contradições, negando-se a endossar discursos hipócritas e uma investida temerária de resultados incertos para o Brasil, para o povo líbio ou mesmo para o avanço dos Direitos Humanos no planeta. Depois das farsas criadas para invadir o Iraque ou o Afeganistão qualquer postura diferente seria submissa ou irresponsável.

Alguém de fato imagina que mísseis lançados a quilômetros de distância sobre áreas urbanas populosas conseguirão poupar inocentes? As conseqüências de uma guerra civil (massacres, destruição, êxodos) justificam a derrubada eventual de tiranos com fortunas protegidas em contas bancárias na Europa? Todos os apoiadores de Gaddafi (nacionalistas, por exemplo) devem ser dizimados? E se as forças rebeldes começarem a torturar e fuzilar idosos, mulheres e crianças? Serão bombardeadas também?

Essas indagações espinhosas surgirão daqui a pouco, assim que as coisas saírem do controle. Os comentaristas alinhados a Washington podem ir preparando algumas respostas para evitar o vexame de outras ocasiões trágicas em que lhes faltaram prudência e verdadeiro espírito solidário.

segunda-feira, 7 de março de 2011

WikiLeaks e os mitos da democracia



Publicado na revista Caros Amigos, em fevereiro de 2011.

A notoriedade conquistada pelo WikiLeaks teve inúmeros efeitos positivos, louvados à exaustão. Também conhecemos os questionamentos de seus adversários, alguns bem espinhosos e insolúveis, como os que debatem a necessidade de proteger dados governamentais estratégicos. Passado o furor das polêmicas iniciais, porém, é necessário apontar alguns equívocos menos evidentes de ambas as facções.

As informações divulgadas trouxeram pouca novidade àquilo que o leitor atento de jornais já sabia há décadas. Mesmo a infame perseguição a Julian Assange é típica do regime político em vigor nos EUA, que sempre combateu antagonistas com os instrumentos usados pelas chamadas ditaduras contra seus dissidentes. Assange, indefeso como qualquer cidadão comum, jamais escaparia das armadilhas jurídicas, econômicas e jornalísticas que esmagam quem ousa confrontar o “sistema”.

Apesar do discurso iconoclasta, ele precisou recorrer à mídia corporativa para legitimar-se e salvar a própria pele. Governos e empresas atingidos superaram o breve embaraço e voltaram às atividades obscuras de praxe. Assange serviu para elevar a audiência e aprimorar a blindagem de seus inimigos, e depois foi descartado. Pagou um preço demasiado apenas para confirmar que não existe liberdade de imprensa ou direito à informação no mundo real do poder, que esses princípios ocos alimentam fantasias convenientes à natureza totalitária da farsa democrática.

A ilusória força mobilizadora da internet ameniza nossa amedrontada submissão às engrenagens que não podemos (e talvez não queiramos) destruir. É enganosamente confortável denunciar injustiças e violências no ambiente inofensivo da virtualidade. O ativismo eletrônico, ainda que necessário, não basta para operar mudanças efetivas no cotidiano das populações. E pode também levar a inúteis sacrifícios pessoais.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Doeu

O governo espanhol acusou o golpe. Em pleno escândalo causado pela deportação da brasileira Denise Severo, o embaixador da Espanha publicou um artigo na Folha de São Paulo e o Globo Repórter fez uma extensa matéria turística sobre o país, com toda a cara do mais puro jabá.

Sinais de que é no bolso que a tal retaliação mais amedronta os xenófobos, racistas e machistas civilizadores europeus. Revidar nas alfândegas é só parte (obrigatória e legítima) do processo. Há outras linguagens internacionais bastante enfáticas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Barajas é aqui



As boas almas se solidarizam com a última vítima da truculência espanhola.

Mas é fácil politizar o sofrimento dos brasileiros no aeroporto de Barajas, jogando a culpa na submissão do Itamaraty. Embora fosse uma atitude correta e urgente do governo brasileiro, a reciprocidade não resolveria o problema. Nossas autoridades jamais teriam coragem de tratar estrangeiros da maneira como somos tratados em seus países, e tampouco espalhariam igual número de violências.

Centenas de brasileiros são maltratadas anualmente por leões-de-chácara espanhóis na Guantánamo dos turistas sul-americanos. A imprensa divulga apenas os casos mais gritantes, e olhe lá. O escandaloso episódio envolvendo Guinga, por exemplo, sumiu da pauta.

Esse silêncio é subvencionado pelas agências de viagens, ricas anunciantes da mídia corporativa, que não querem admitir a seus clientes que eles podem perder as economias e passar humilhações porque um idiota fardado não foi com as suas fuças. Quando a turma começar a desprezar pacotes e ofertas que envolvam empresas aéreas espanholas, uma luzinha amarela acenderá na xenofobia (machista) dos civilizados europeus.

Mas, claro, continua mais cômodo fingir que as vítimas fizeram por merecer ou deram um bruto azar, coitadas. Se os painhos fizeram, é porque precisava, certo? Até que acontece com a gente e ninguém dá mesmo nenhuma bola.