
Na ressaca da vitória de Jair Bolsonaro, usaram muito a figura da “sua tia” para simbolizar pessoas razoáveis no trato cotidiano que manifestavam ideias espúrias nas redes digitais. Era uma metonímia do bolsonarismo leigo e despolitizado que merecia a compreensão democrata.
O viés machista do termo agregava um componente de suposta fragilidade. As “tias” do país teriam sido vítimas de uma corja maldosa que explorou sua hipossuficiência intelectual. A escalada do fascismo representaria um equívoco pueril de cidadãos desiludidos.
O álibi da ignorância sempre foi ruim. Não ameniza nada, jurídica ou moralmente, pois não serve a diagnósticos fáceis. Para todos os efeitos, não define a “tia”, cujo estereótipo já subentende uma personagem com mais discernimento do que às vezes parece cultivar.
Como sempre, a metáfora revela menos sobre indivíduos reais do que sobre a tarefa discursiva que desempenha. Se a função da “tia” era suavizar a autoimagem das classes média e alta que apoiaram o genocida, podemos supor que ela de alguma forma as representa.
Ora, membros desses grupos têm certa escolaridade, acesso à cultura, conhecimentos gerais. Em privado, manifestam um conservadorismo legível, racionalizado, que sugere influência de fontes noticiosas. Até seu ódio à política sinaliza predisposição a separar verdades e mentiras.
É implausível que a “tia” acreditasse na “mamadeira de piroca”, por exemplo, quando ajudava a divulgá-la. Achou engraçado, merecido, oportuno, mas decerto sabia que se tratava de uma falsidade. No mínimo julgou que o teor factual da denúncia era irrelevante.
Embora testemunhos e pesquisas apontem muitos eleitores que dizem ter confiado nas besteiras digitais, da “tia” não caberia esperar outra resposta. Desmascarado o logro, soa-lhe menos embaraçoso assumir uma ingenuidade do que uma hipocrisia ou mesmo um delito.
Ainda há quem veja as “tias” de outrora no ataque de oito de janeiro de 2023. Mas poucas foram a Brasília. A maioria tem ojeriza a marmita, excursão, torcida organizada. Não que elas discordassem dos vândalos. Apenas evitaram o ridículo de também simular insanidade.
Só que ficaram conectadas com o movimento, abastecendo-o de combustível golpista. A rigor, cometendo incitação a crime. Fingindo que acreditavam que fingir acreditar é atitude militante como qualquer outra. Que exerciam sua liberdade de expressão.
O cinismo pós-mentiroso que uniu a Lava Jato a seus cúmplices qualificados embalou o desagravo à “tia”. Os panos que lustraram a perseguição a Lula e a agenda bolsonarista procuram reduzir o fascismo brasileiro a uma loucura fugaz, genericamente inimputável.
Naturalizar o uso premeditado e sistemático da falácia é o desvio moral que singulariza o fascismo das classes privilegiadas. O sintoma se espalha das “tias” que estimulam os imbecis aos analistas midiáticos que as tratam com parcimônia e aos magistrados que as absolvem.
Quem não sabe definir fascismo nem é consciente de praticá-lo ou disseminá-lo está sujeito à penalização dos crimes conexos, que dispensa motivos programáticos. A ideologia fascista, por sua vez, dissemina-se a partir dos círculos que não podem alegar quaisquer atenuantes.
O viés machista do termo agregava um componente de suposta fragilidade. As “tias” do país teriam sido vítimas de uma corja maldosa que explorou sua hipossuficiência intelectual. A escalada do fascismo representaria um equívoco pueril de cidadãos desiludidos.
O álibi da ignorância sempre foi ruim. Não ameniza nada, jurídica ou moralmente, pois não serve a diagnósticos fáceis. Para todos os efeitos, não define a “tia”, cujo estereótipo já subentende uma personagem com mais discernimento do que às vezes parece cultivar.
Como sempre, a metáfora revela menos sobre indivíduos reais do que sobre a tarefa discursiva que desempenha. Se a função da “tia” era suavizar a autoimagem das classes média e alta que apoiaram o genocida, podemos supor que ela de alguma forma as representa.
Ora, membros desses grupos têm certa escolaridade, acesso à cultura, conhecimentos gerais. Em privado, manifestam um conservadorismo legível, racionalizado, que sugere influência de fontes noticiosas. Até seu ódio à política sinaliza predisposição a separar verdades e mentiras.
É implausível que a “tia” acreditasse na “mamadeira de piroca”, por exemplo, quando ajudava a divulgá-la. Achou engraçado, merecido, oportuno, mas decerto sabia que se tratava de uma falsidade. No mínimo julgou que o teor factual da denúncia era irrelevante.
Embora testemunhos e pesquisas apontem muitos eleitores que dizem ter confiado nas besteiras digitais, da “tia” não caberia esperar outra resposta. Desmascarado o logro, soa-lhe menos embaraçoso assumir uma ingenuidade do que uma hipocrisia ou mesmo um delito.
Ainda há quem veja as “tias” de outrora no ataque de oito de janeiro de 2023. Mas poucas foram a Brasília. A maioria tem ojeriza a marmita, excursão, torcida organizada. Não que elas discordassem dos vândalos. Apenas evitaram o ridículo de também simular insanidade.
Só que ficaram conectadas com o movimento, abastecendo-o de combustível golpista. A rigor, cometendo incitação a crime. Fingindo que acreditavam que fingir acreditar é atitude militante como qualquer outra. Que exerciam sua liberdade de expressão.
O cinismo pós-mentiroso que uniu a Lava Jato a seus cúmplices qualificados embalou o desagravo à “tia”. Os panos que lustraram a perseguição a Lula e a agenda bolsonarista procuram reduzir o fascismo brasileiro a uma loucura fugaz, genericamente inimputável.
Naturalizar o uso premeditado e sistemático da falácia é o desvio moral que singulariza o fascismo das classes privilegiadas. O sintoma se espalha das “tias” que estimulam os imbecis aos analistas midiáticos que as tratam com parcimônia e aos magistrados que as absolvem.
Quem não sabe definir fascismo nem é consciente de praticá-lo ou disseminá-lo está sujeito à penalização dos crimes conexos, que dispensa motivos programáticos. A ideologia fascista, por sua vez, dissemina-se a partir dos círculos que não podem alegar quaisquer atenuantes.
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