quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

“O agente secreto”

 

Só na segunda vez descobri a coesão da obra, escondida pelas camadas narrativas e tessituras referenciais. Essa miscelânea de estímulos permite muitas leituras, inclusive aquelas que, apesar de favoráveis, distorcem o filme para encaixá-lo em suas premissas.

O “acerto de contas” com a ditadura, por exemplo, ficou mais nas expectativas da plateia do que no enredo. As oscilações de tom (suspense, drama, farsa) amenizam a denúncia e a análise de maneira que não pode ser tomada como acidental.

O predomínio de civis, num contexto de opressão militar, é significativo. Também o esvaziamento ideológico das vítimas e da própria violência. Opções razoáveis, bem sucedidas, mas avessas a interpretações demasiado militantes do roteiro.

Não que falte Estado à trama, repleta de policiais e outros funcionários públicos. O que está ausente é a condenação explícita da ditadura, ou melhor, a necessidade dramática de identificá-la como origem das ameaças que pairam sobre os personagens.

Se Kleber Mendonça Filho sugere reflexões, seus objetos estão no Brasil atual: as milícias, o bolsonarismo, a amnésia conciliadora, a perda de identidades, a corrupção das elites. A melancolia anticlimática do desfecho traz um diagnóstico incômodo.

Há outra maneira de percebê-lo. A eficaz dicotomia visual entre as épocas acompanha (desnecessárias) quebras de ritmo e de vigor narrativo, reforçando, por contraste, as intensidades do eixo pretérito. Não seria absurdo ver nessas rupturas um viés saudosista.

Mas é notável a costura memorialística do enredo. Quase todas as cenas envolvem lembranças (testemunhos, relatos, pesadelos), tentativas de reconstruí-las (autópsias, pesquisas), objetos e marcas que as substituem (documentos, cicatrizes, restos mortais).

O gato de duas faces, remetendo a Janus, o deus da mudança, simboliza o elo entre a experiência e o devir. Seria necessário encarar o tubarão para superarmos seu fantasma. Desvendar o mistério da perna cabeluda para que ela não virasse um monstro.

Algo dessa metáfora ecoa na reciclagem de convenções do cinema de entretenimento através do imaginário pernambucano. O sucesso internacional do filme reverbera sua (pós) modernidade pitoresca, alinhada a tendências recentes no terror, no suspense etc.

O esquematismo dos vilões atravessa a obra de Mendonça Filho, sempre com ótimos atores e tipos marcantes. É injusto acusá-los de cometer simplificações históricas ou regionais para além das rotinas do tal modelo “crítico” do estereótipo de gênero.

Já os ambíguos protagonistas do diretor costumam resistir à empatia fácil. A força de Wagner Moura dificulta a percepção de que Armando e seu filho não escapam a essa regra. Um pouco de distanciamento faz jus a ambos e à complexidade do filme.

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