
No primeiro turno das eleições de 2022, os institutos de pesquisa levaram um tombo dos números apurados. Pela explicação mais amena, as últimas enquetes da campanha teriam sido realizadas antes de uma convergência abrupta e unilateral de votos para a extrema-direita, principalmente nas disputas ao Senado e à Presidência.
Esse fenômeno eleitoral retornou no primeiro turno de 2026, embora mais ou menos sugerido pelas pesquisas. E o problema sobrevive: o que justificaria a passagem massiva de eleitores, às vésperas do pleito, para o mesmo lado ideológico das disputas?
Quatro anos depois, as desculpas de antanho caducaram. O tal “voto envergonhado”, se outrora existiu, acontece também nos tóxicos ambientes bolsonaristas atuais. As abstenções imensas (20%) causam algum prejuízo às campanhas de esquerda (pequeno, segundo consta), mas não o avanço numérico bruto de seus adversários.
Enquanto normalizavam a surpresa desagradável, os democratas se apegaram a essas platitudes técnicas, meros eufemismos para “não sabemos o que ocorre com dezenas de milhões de eleitores nas últimas 48 horas de campanha”. Mas sempre soubemos.
Basta observar um shopping lotado, veículos de transporte coletivo, uma sala de espera, um intervalo de aula e até os corredores de uma seção eleitoral. Aquelas pessoas esfregando os dedos em telas de celular exibem a resposta óbvia e ululante do enigma.
Agora, tardiamente, o país descobre que a disseminação quase total do acesso a redes digitais levou a capacidade manipuladora da direita a estratosferas inéditas. Foi um erro pueril, de Lula inclusive, achar que o voto ficaria imune ao controle de oligopólios tecnológicos, aliados de Donald Trump, sobre as comunicações de todos os eleitores.
Eis aí a Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp) protagonizando um escândalo histórico de manipulação eleitoral, verdadeiro destruidor de paradigmas, e o TSE ameaçando fulminar o Exército do Lula exatamente naquelas 48 horas fatídicas. Tá bão procêis?
Como sempre, o fascismo jogará as forças disponíveis na batalha do fim de semana eleitoral. O heroico levante da militância lulista, nas redes e nas ruas, enfrentará o teste mais duro. O primeiro realmente aberto, com o inimigo antecipando seus movimentos.
Não sei se as táticas adotadas pela esquerda até aqui darão conta, sozinhas, da sabotagem das redes. Algo pode ter mudado no desenho “normal” de seus dispositivos, que o lulismo dominou nos avanços iniciais, e que, por isso, deixou de servir aos donos.
Será necessário burlar a inteligência artificial das plataformas, que seleciona e bloqueia o material “engajado” pela esquerda. E, mais importante, sair da bolha de redundâncias triunfalistas, saturando os rizomas que de fato chegam aos eleitores indecisos.
De qualquer maneira, o extremismo perdeu a vantagem do susto.
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