domingo, 10 de fevereiro de 2008

"Paris, te amo"

A idéia assusta um pouco: dezoito (inicialmente vinte) cineastas de múltiplas nacionalidades convidados a realizar curtas-metragens românticos ambientados em diferentes bairros (arrondissements) da capital francesa. Esse tipo de compilação é desigual por natureza e a variedade pode cansar. Mas, aqui, o nível das narrativas consegue manter certo equilíbrio e uma surpreendente homogeneidade, graças ao empenho dos convidados e de seus elencos, fartos em estrelas. A produção também ajuda.
Carece de explicações convincentes por que os episódios de Christoffer Boe e Raphaël Nadjari foram cortados na edição final. Destacam-se o curta de Walter Salles e Daniela Thomas, com Catalina Sandino Moreno, o de Gus van Sant, sobre o Marais, com aparição da cantora Marianne Faithfull, o de Joel e Ethan Coen, com Steve Buscemi, filmado na estação Tulleries do metrô e, principalmente, o de Alfonso Cuarón, com Nick Nolte, um plano-sequência em plena rua.
Acima de tudo, trata-se de oportunidade para refletir sobre a utilização do tempo no audiovisual. Numa entrevista do ano passado, discorrendo sobre as diferenças entre as linguagens do cinema e da literatura, fiz questão de salientar o potencial de síntese do primeiro, talvez sem equivalentes em outras artes. A defesa justifica-se porque existe certo preconceito, comum a escritores mas não exclusivo deles, que trata o cinema como manifestação cultural menor.
Com domínio técnico e narrativo e uma boa direção de atores é possível condensar, em segundos de imagem e som, experiências que tomariam páginas inteiras. Um close, um olhar, um acorde, um gesto e um movimento de câmera podem resumir universos ilimitados de sensações – às vezes até sem palavras. É essa especificidade do cinema que, potencializada, alça-o a um patamar elevado e distinto entre as linguagens ditas “superiores”.

5 comentários:

Mariza disse...

Guilherme, eu sou a amiga de Bauru,contato de sua irmã Adriana. Quero dizer que o filme "Paris, te amo" me decepcionou, talvez pq o tenha visto logo após a volta de um sonho: uma semana em Paris, caminhando por praças ruas e bulevares até os pés gritarem de dor. Minha impressão foi q o filme ficou longe da impressão que guadei da cidade-luz.

Guilherme Scalzilli disse...

Olá Mariza, seja bem-vinda. Espero que participe sempre deste espaço. Quanto ao filme, é verdade que os diretores evitaram a glamurização da cidade que ocorre em outras narrativas ambientadas ali. Este é um aspecto "inovador" do projeto, que frustrou muita gente. Concordo que os locais mais conhecidos foram subaproveitados ou simplesmente ignorados (seria incrível se houvesse uma trama nas catacumbas, por exemplo). Mas Paris também são os subúrbios, as oficinas, as escadarias incógnitas. E um ponto positivo das histórias foi privilegiar as tramas, os personagens. De qualquer forma, o que mais me tocou no filme, como escrevi na postagem, foi a reflexão sobre a linguagem.
Um abraço e até a próxima.

Miga disse...

Fala Velho ! Vimos o filme aqui no Cine-Lac, no verão de 2006 e acabei comprando tb a trilha. E é justamente a linguagem e o conceito do projeto que se mostra ja interessante. Compreendo o sentimento de decepção da Mariza pois os filmes são curtos e sempre queremos mais de Paris, porém cada diretor fez sua própria viagem, dentro de sua prórpia linguagem e as vezes bem viajandões mesmo. Assim, foi um prazer atravessar o imaginário desses curiosos cineastas. Acabamos saindo com vontade de fazer o nosso próprio episódio. Grande abraço! Miga

Anônimo disse...

Inicialmente, parabéns pelo blog, velho! Motivado por esse tópico, acabo de assistir ao filme. Fui sem expectativas e acabei gostando bastante. A uma, porque retrata o dia-a-dia parisiense sem apelar para as atrações turísticas da cidade, deixando o foco nos relacionamentos. Só por isso já valeu. A duas, porque me senti atraído a uma nova incursão pela cidade, para melhor senti-la e absorvê-la mais profundamente. Somente ao final do filme é que voltei para ver quem eram os autores de cada curta. Coincidência ou não, meu preferido foi o do Walter Salles. Destaco também os de Alexander Payne, Alfonso Cuaron, Joel e Ethan Coen e também o do Depardieu. Gostei muito do projeto. Queria demais poder assistir um desses passado em Roma... Abração, Cuca.

Guilherme Scalzilli disse...

Saudações, meu caros! Que sejam as primeiras de muitas instigantes participações...
Imaginando episódios em Paris, já citei um nas catacumbas, que seria incrível: pensei imediatamente numa trama de sedução, que termina sem o protagonista saber se foi real, imaginária ou fantasmagórica. Brrr. Beijos em meio às caveiras.
Mas há centenas de histórias possíveis. E toda grande cidade do mundo poderia abrigar um projeto assim. Imagine-se, além de Roma, Praga, Budapeste, Londres, Lisboa, etc, etc...