segunda-feira, 18 de maio de 2009

Exterminadores de times

Publicado na revista Caros Amigos em maio de 2009.

Parte da crônica esportiva decidiu que os campeonatos estaduais de futebol chegaram a um nível irremediável de indigência e previsibilidade, devendo ser extintos e substituídos por disputas mais amplas. Não surpreende que a medida seja defendida majoritariamente pela imprensa das capitais: apenas os clubes poderosos conheceriam benefícios, enquanto os interioranos cairiam no ostracismo das divisões inferiores.
É universalmente sabido que isso levaria, em pouco tempo, à extinção de dezenas de times sem recursos. As cidades menores sofreriam conseqüências negativas para o comércio e o emprego, perdendo ainda mais sua tão menosprezada identidade regional. Ao mesmo tempo, os clubes ricos ganhariam fortunas absorvendo diretamente os talentos originados nos rincões. Para dimensionar os valores envolvidos, basta fazer um levantamento dos jogadores mais badalados do país que foram revelados por times de menor expressão.
Mas apenas o aspecto financeiro não explica o apego à proposta malévola. A indisfarçável decadência técnica do futebol nacional nivelou os times negativamente, ameaçando a primazia dos chamados “grandes”. Se um rebaixamento no campeonato brasileiro soa-lhes constrangedor, semelhante fracasso em nível estadual pareceria desmoralizante, abalando certas ilusões de “grandeza” que a imprensa alimenta para valorizar-se a reboque de seus preferidos.
É essa mitologia da superioridade imanente que disfarça a cadeia de artimanhas viciadas dos gabinetes futebolísticos. O poder dos clubes privilegiados advém de uma popularidade construída com títulos que foram possíveis graças à generosidade dos contratos publicitários e de transmissão televisiva, além dos infames sistemas de repasses desiguais de verbas por parte da CBF. Para completar o cartel, resta apenas eliminar a indesejável concorrência.

4 comentários:

Dárcio Vieira disse...

Eu acho que os Estaduais poderiam ser divisões inferiores do Campeonato Brasileiro. E, além disso, arrumar um modo que as equipes pequenas possam sobreviver sem depender das migalhas dos grandes. Porcamente comparando, a abertura de um Carrefour no bairro não mata o mercadinho da esquina. Mas é algo muito mais cultural: Brasileiro gosta de ganhar. Prefere torcer pro Flamengo que pro Olaria que seria o do bairro, da comunidade. É isso.

Guilherme Scalzilli disse...

Olá Dárcio,
acho que a idéia é válida. Mesmo assim, bastaria um divisão equitativa de verbas entre clubes e divisões para, em médio prazo, esse quadro mudar radicalmente.
Abraço do
Guilherme

amoroso disse...

Concordo plenamente contigo. E nao sei como o Juca Bambi nao censurou o seu comentario, jah enviei varios comentarios com este mesmo teor e este "jornalista" censurou todos.

iendiS disse...

Sinceramente, acho os campeonatos estaduais uma coisa para lá de ultrapassada, absolutamente sem sentido nos dias de hoje. Tenho dúvidas que ajudem tanto assim os clubes pequenos. Penso que no fundo só servem mesmo é para beneficiar a televisão e, em parte, o restante da mídia esportiva (a despeito de haver jornalistas que se posicionem contra os "estaduaizinhos" - isto, é claro, depois que o campeonato acaba!).
Já tive oportunidade de falar sobre isso no meu blog: http://sidnei-quasetudo.blogspot.com/2009/03/estadualzoes-estadualzinhos.html
e também aqui: http://sidnei-quasetudo.blogspot.com/2008/04/campeonatos-estaduais-na-reta-final.html