segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A realidade olímpica

Publicado no Amálgama.

Os debates sobre a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016 começaram empobrecidos por radicalismos apaixonados. Entre a cegueira patriótica e o rancor político-partidário, há pouco espaço ao meio-termo responsável. Infelizmente, a maioria dos analistas critica a própria candidatura brasileira com distorções que nada acrescentam à complexa preparação da efeméride.
Podemos dividir as objeções equivocadas em três enunciados simplificadores, que assumem formatos variáveis segundo as circunstâncias, inclusive nas discussões sobre a próxima Copa do Mundo: a) os brasileiros são indignos do privilégio; b) o país não está preparado para tanto; c) possuímos outras prioridades ou urgências.
A primeira falácia reflete um complexo de inferioridade típico do imaginário colonizado. Bastaria relembrar seus muitos desdobramentos culturais, sociais e até geopolíticos para rejeitá-lo como estupidez provinciana. Preconceito semelhante permeia a ideologia do neo-udenismo grosseiro e elitista que transformou parte da imprensa corporativa em panfleto eleitoral.
A seguir temos uma espécie de amplificação desse princípio. Agora é a nação que, refletindo seus habitantes, possui inaptidão congênita para as delícias do chamado “primeiro mundo”. Corrupção, incompetência e dificuldades estruturais ameaçam qualquer evento internacional, mas os nossos obstáculos nasceram intransponíveis. Enquanto uns alegam que faltam benfeitorias, outros apontam que as existentes estão fadadas a superfaturamento e abandono. Acomodamo-nos ao subdesenvolvimento lucrativo e previsível, enquanto seus porta-vozes se locupletam.
O terceiro preceito utiliza retórica bem-intencionada, mas ignora os ganhos potenciais para a saúde, a educação e a cidadania proporcionados pelo esporte. Mesmo que discutamos investimento público (o privado virá apenas por causa dos Jogos), como distinguir os gastos obrigatórios dos supérfluos? Alguém pode propor a suspensão dos campeonatos de futebol para bancar a alfabetização, ou que hospitais sejam construídos com as fortunas “torradas” em exposições e festivais de cinema, teatro e dança. E, afinal, para quê realizar eleições tão onerosas se há tantas carências? Fechemos logo o Congresso para salvar nossos velhinhos...
Mas tais deturpações são irrelevantes agora. Encaremos as contingências do fato consumado, compreendendo que o enorme triunfo político do presidente Lula não será ofuscado por eventuais impropriedades cometidas em administrações futuras. O ônus de qualquer fracasso incidirá coletivamente, acima de limitações partidárias. É demasiado tarde para mesquinharias políticas.
Acima de tudo, evitemos os perigos da condescendência. Para empreendimento dessa importância é fundamental promover um amplo choque de civilidade, a começar pelo cidadão comum. Por exemplo, os imbecis que vaiaram Lula na abertura do Pan-americano (e depois cinicamente comemoraram sua vitória olímpica) retornarão às arquibancadas. E os motoristas cariocas precisam entender que europeus acreditam em faixas de pedestres. Porém, enquanto os governantes se contentarem com favelas muradas, ônibus disfarçados de “metrô de superfície”, lagoas e praias infectas e banditismo policial, o padrão de qualidade continuará baseado no improviso, no paliativo, na malandragem “ishpérrta”.
A eleição pelo Comitê Olímpico representou uma derrota das superstições que sempre refrearam a audácia e o espírito empreendedor fundamentais para qualquer projeto nacional digno. Resta impedir que aqueles vaticínios trágicos se realizem.

3 comentários:

Leonardo Moniz disse...

Caro Guilherme, acompanho quando posso o seu blog e estudo jornalismo.
Acredito que suas críticas estão sempre pautadas pelo equilíbrio e pela organização dos fatos.
Contudo, vejo que um dos detalhes pouco observados por este texto remete à política esportiva brasileira, que deve ser refletida com rigor.
Atento para o simples fato de que o Brasil não possui nenhuma política continuada e de formação em relação a nenhum esporte. Tirando quatro ou cinco modalidades esportivas, o país não representa nada no cenário olímpico mundial. E quando se fala em possibilidades de corrupção, não se está criando algo sem fundamentos: o risco que se teme deriva da experiência recente com os Jogos Panamericanos de 2007, no mesmo Rio de Janeiro, aquele que estourou em 17 vezes o valor do orçamento inicial.
Gostaria de saber sua reflexão sobre isso.

Um abraço e parabéns pelo blog.
Leonardo Moniz

Guilherme Scalzilli disse...

Leonardo, seja bem-vindo. Não vejo conexão necessária entre o rendimento esportivo e a capacidade de organizar um evento. Fosse assim, Olimpíadas e Copas só poderiam ocorrer em meia dúzia de países, sempre nos mesmos. Mas vc tem razão: seria importante um investimento de longo prazo na educação esportiva de base - e os Jogos são ótima oportunidade para isso. Quanto à corrupção, ela sempre ocorreu e ocorre em todas as sedes. Soa estranho deixar de realizar os empreendimentos por medo de que eles sejam corrompidos. O que falta é fiscalização, profissionalismo, punição.
Abraços do
Guilherme

Ana clara disse...

Guilherme acompanho mt o seu blog e ele é ótimo,suas críticas são sempre mt bem equilibradas e sempre verdadeiras!!!!

Parabéns pelo seu blog!!!

Bjãããão

Anna Clara